O Monólogo Amoroso (I)

Que importância tem isso? Tuas palavras servem a tua realidade; as minhas, à minha. Se trocarmos as palavras, elas passam a não valer nada.

INGMAR BERGMAN – Sonata de Outono

Ela se virou com dificuldade para o lado e, com o gravador sobre o travesseiro, ligou-o e começou a falar.

Minha querida filha. Ontem fiquei surpresa com nossa conversa. Não esperava tuas expressões desencantadas e as comparações que fizeste entre a minha vida e a tua. Disseste que minha existência era a comprovação de que todo amor e intimidade transformava-se inexoravelmente em indiferença ou ódio. Não concordo. Não é minha experiência geral e, se é a tua, só posso lamentar. Como penso que não sobreviverei à doença, quero deixar aqui um registro sobre fatos de nossas vidas que talvez ignores. Prometo gravar meus monólogos nos intervalos entre minhas crises de dor. Não suportas minhas lamúrias de doente e, além disto, há outro motivo para pensar que estas gravações sejam ideais para mim: sabes que tenho dificuldades em discussões e discursos; me emociono facilmente e, se antigamente os bons argumentos acabavam me chegando tarde, comumente quando já em retirada, na situação atual talvez eles nunca aparecessem. Não tenho pressa, alguém diria que tenho todo o tempo do mundo; espero tê-lo ao menos para organizar meus pensamentos. Não tenho expectativas de que aquilo que vou contar agora tenha grande repercussão em ti, mas gostaria que soubesses. Minha história começa lá por 1963, durante minha adolescência.

Li num livro qualquer uma frase em que o autor dizia que não tivera adolescência, que passara da infância diretamente para a inexperiência adulta. Parece ter sido o meu caso. Apaixonei-me por Ricardo quando tinha 15 anos. Ignoro o que ele, um estudante universitário nove anos mais velho, teria visto numa tapada como eu. Está bem, diziam que eu era bonita, mas era só. Em nosso mundo da Avenida João Pessoa, ele era o vizinho desconhecido, o que entrava e saía de seu apartamento de solteiro pouco menos que cumprimentando os outros moradores. Eu o via raras vezes, apesar de passar horas conversando com os amigos, sentada na escadaria de entrada do edifício ao lado, onde morava. Ele não tinha nada de especial; entre nós, seu apelido era o “cara dos discos”, pois quase sempre carregava alguns deles, junto com uns cadernos não muito grossos, que depois soube serem partituras, e uma caixa de violino. Um dia, eu estava comprando sorvete no bar perto de casa quando ele entrou e puxou conversa. Não acreditei que qualquer tipo de amizade pudesse prosperar entre eu e um homem adulto e, toda sorridente, caminhei com ele até seu edifício, pensando no que os outros diriam daqueles cem metros de conversa. Mas ninguém vira o que para mim fora uma lisonja e fui obrigada a anunciar deselegantemente a epopéia a minhas amigas: eu falara com o “cara dos discos”, ele se chamava Ricardo e era músico, violinista. Houve algumas referências sobre sua profissão e sobre como os discos que ele levava seriam ruins. Sentindo que nosso encontro não aumentaria nem prejudicaria minha reputação, acrescentei, também sem sucesso, que ele era fazia um mestrado na Universidade.

Como por mágica, passei a vê-lo quase todos os dias. E sempre conversávamos. Às vezes, conjeturava se era a minha vaidade o que fazia alongar excessivamente nossos diálogos ou se era Ricardo quem desejava minha companhia. Eu não tinha objetivos. Ele estava muito distante de meu ideal de adolescente e me parecia algo entre o não desejado e o inatingível. Um dia, mostrou-me alguns discos de que não lembro e estendeu-me um de Sonatas para Viola da Gamba e Cravo, de Bach. Deu-me vontade de não aceitar o disco, pois viera acompanhado da frase “Este eu não ouço tanto”, o que denunciava sua opinião sobre minha importância. Porém, minha enorme timidez impediu-me qualquer negativa. Assim, com toda a dedicação, ouvi pela primeira vez aquele emaranhado de notas, sem saber nada sobre as leis que regiam o que me parecia um novelo inextricável e menos ainda o motivo pelo qual uma música tinha várias partes, umas rápidas e outras lentas, que eram mais chatas que as primeiras. Porém, uma hora depois, já tinha pesquisado e entendido que aquilo que chamava de partes eram movimentos e que uma música, ou obra, era formada por vários movimentos, sendo que os rápidos eram “Allegros” ou “Vivaces” e os lentos “Adágios”. Com toda esta bagagem cultural e tendo descoberto que Bach nascera em 1685, ouvi com mais simpatia o disco emprestado.

Dois dias depois, Ricardo surpreendeu-me ao perguntar direta e seriamente o que eu achara do disco. Disse que tinha gostado e ele me prometeu outros. Estávamos ficando amigos. Ele perguntava e parecia interessar-se por meus assuntos de estudante secundarista e eu lhe retribuía ouvindo seus discos e comentando-os a meu modo. Depois de tantos encontros, eu já o achava legal, às vezes bonito e era natural que eu o visse como uma possibilidade de namorado. Meus amigos nos viam e também conversavam com ele, principalmente as amigas, mas eu escondia o fato de acompanhá-lo diariamente até o Instituto de Música da Universidade – uma longa caminhada – e que ele perguntara sobre os horários de saída de colégio, pergunta que fingi não ouvir.

OK, aproximei-me por vaidade, esta transformou-se lentamente em atração física, misturada à intuição de que havia naquele rapaz com a barba por fazer a possibilidade de ser salva de uma vida familiar e futuro vulgares. O rosto de Ricardo carregava em si objetivos, concentração e interesses em coisas que não diziam respeito a meu cotidiano: ele ensinava-me sobre música, cinema e leituras, trazia um outra esfera para mim. Contava-me também sobre sua angústia: a Sonata Nº 2 para violino solo de Bach. Quando chegou seu violino novo – que depois mostrou-se quase igual àquele que seu pai lhe dera -, permaneceu semanas ensaiando-a em casa, afastado de todos. Sim, de todos, porém eu era recebida. Minhas visitas não eram de forma alguma assexuadas, mas não havia contato físico. Minha primeira cerveja e copo de vinho foram tomados em seu apartamento. Ríamos muito, eu tinha evidente admiração por ele e tal sentimento apenas aumentou quando soube afinal o motivo de tanto esforço: ele estava preparando-se para uma audição em Roma que poderia dar-lhe uma bolsa de estudos. Uma semana antes da viagem, ele me beijou apaixonadamente. Na hora, a novidade deu-me vontade de rir, como se estivesse participando de uma coisa para a qual estivesse despreparada, mas por nada desistiria, ainda mais tendo à frente uma longa separação. Foram dias em que fiquei mais em sua casa do que na de meus pais. Deixei de ir às aulas no turno da tarde para ficar abraçada a ele sob as cobertas. Meus amigos logo desconfiaram do cara dos discos. Naquela altura, creio que nos amávamos muito.

Ela desliga o gravador e fecha os olhos para dormir.

8 comments / Add your comment below

  1. Ai! Tem que esperar até sexta feira? Quero tudo! Não posso com homeopatia!
    Que bonito, Milton! Que linda a tua porção mulher!
    bjs, Bom fim de semana!
    Flávia

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