O Monólogo Amoroso (II)

Ela pressiona a tecla REC.

Fiquei muito mal nos primeiros dias. Em sua primeira carta da Itália, Ricardo escreveu sobre nós. Lembro que tentou descrever os papéis que tínhamos um em relação ao outro. Dizia que eu lhe proporcionava um fluxo de carinho tão constante que acabava fazendo-o recuar a uma posição de mero recebedor de amor. Muitas vezes ele tomava iniciativas espasmódicas, mas estas eram infinitamente inferiores – em número e em intensidade – a minha constante secreção de confortos. Assim, eu o deixaria numa falsa posição egoísta. Porém, quando algo fazia com que eu diminuísse “minha enorme capacidade de doar amor”, ele se voltava imediatamente para mim. Nestes casos, sempre constatava que algo tinha acontecido e tinha de ser resolvido, normalmente uma desatenção maior da parte dele. Escreveu que aquele era nosso equilíbrio. Ele, o artista recebedor de atenções; eu, sua dedicada amante. Não sei se isso exprimia nossa realidade. De minha parte, meu lado amante negava tanto o amado, que me via muitas vezes tomada por um grande cansaço e uma sensação de falta incurável, a que não saberia dar nome. E, em sua ausência, havia uma falta efetivamente incurável e que me deixava repleta de tristeza.

Nunca soube muito sobre seus estudos romanos e venezianos, soube foi de shows em bares em que se executavam músicas de Astor Piazzolla, então uma novidade quase indecorosa, arranjadas para violino, violoncelo e piano. Ficava lindo, mas não é este meu assunto.

Nesta idade, vai-se muito a festas e meus colegas, sabendo-me sozinha, partiram a abordagens às quais não teriam coragem se eu estivesse com ele. Minha reação? Ora, eu tinha 16 anos… Estava cheia de saudades, mas era difícil ficar solitária. Nas aulas, rejeitava a abordagem dos amigos, mas nas festas, dançando, aceitava ser minuciosamente amassada durante as músicas lentas. Os garotos sentiam-se à vontade comigo, pois imaginavam estar em contato físico com alguém com alguma experiência sexual – afinal, eu parecia namorar um homem! – e que, por conseguinte, cederia com maior facilidade. Talvez tivessem razão. Naquela época era assim mesmo. Havia as iniciadas e as inexpugnáveis. Eu pertencia ao primeiro grupo. Um dos que mais me abraçava, me apertando a ponto de me machucar, tirando-me do chão em certos momentos – e não se engane, não era por eu estar na nuvens -; um que tinha um ar meio desesperado de desejo e que todos temiam por ser grandalhão, bem, Ana, este era teu pai.

Se os amassos nas festas eram o apogeu daqueles dias, sua antítese estava na vida familiar e na falta que sentia de Ricardo. Sofria, mas também pensava que o amor por ele era algo inserido nas coisas não permitidas a alguém da minha idade e, então, à minha saudade misturava-se certo alívio. O restante que Ricardo levara consigo, toda minha vida cultural, era em parte recuperada através da leitura e da Rádio da Universidade, além dos concertos gratuitos de domingo de manhã. Trocávamos cartas, porém a demora do correio e uma inexplicável preguiça faziam com que as notícias e os afagos por escrito também ficassem pouco a pouco à deriva. Logo cansei daquele namoro epistolar, com suas belas promessas e juras de amor, acrescentadas de um descumprimento de parte a parte, pensava. Apesar disto, sentia falta de Ricardo. Ele me perguntava o que estava acontecendo e eu lhe respondia que tudo estava igual, que o aguardava. Só que ambos sabíamos que não era verdade, havia uma indireção em minha forma de agir que abria espaço para o rompimento.

Tu deves estar te perguntando se os causadores desta postura não seriam os meninos das festas – especialmente aquele que veio a ser teu pai. Mas, olha, aquelas noites, para mim, tinham maior importância pelo assunto que geravam no âmbito do colégio e dos amigos, do que qualquer outra coisa. Um dia, de forma totalmente egoísta, pensei que convidar teu pai para ir ao cinema poderia representar uma evolução em minha vida. Ricardo, na Itália, sempre me escrevia indicando filmes com seus diretores e títulos traduzidos em várias línguas a fim de que eu os localizasse na libérrima tradução brasileira, mas o cinema – principalmente as sessões noturnas – era algo inatingível para uma adolescente com pouco dinheiro e liberdade. Porém, com Raul a meu lado, obtinha automaticamente dois privilégios: a permissão para sair à noite – meus pais tinham mais confiança e simpatia por ele do que no distante, adulto e perigoso Ricardo – e o ingresso pago. Raul usava a sala escura exclusivamente como mais uma oportunidade de beijos, abraços e bolinações. É claro que eu adorava aquilo; quase sempre ignorávamos inteiramente o que se passava na tela e lembro de não ter visto vários filmes absolutamente atenta a seus lábios e mãos. Raras vezes dividia-o com filme. Então, ocorreu uma noite muito especial. Fomos ao cinema e, no dia seguinte, supliquei-lhe para ver o filme novamente. Raul equivocou-se ao pensar que meu pedido tinha a finalidade de obter a repetição da intimidade acrobática das salas escuras.

O motivo era Jeanne Moreau e François Truffaut. Enquanto caminhávamos, disse-lhe:

— Raul, este filme é muito bom e desta vez eu quero assistir de verdade, tá?

A onda de decepção que tomou conta dele foi respondida por uma enorme onda de ternura. Abracei-o e repentinamente perguntei se ele não queria ir a meu quarto na próxima noite, após o filme. Afinal, meus pais e irmãos dormiam cedo e, com sorte… Quem sabe? Seria nossa primeira experiência não improvisada, as outras tinham sido em festas, portões de edifícios, cinemas e em outras circunstâncias difíceis.

Fico pensando se o que sentia por ele era amor. É certo que não podia causar-lhe nenhuma mágoa sem senti-la retornar com toda força a meu peito. Naquela noite, pude ver o filme inteiro. Fantasiava ser Catherine, Ricardo era Jules e Raul era Jim. Saí da sessão eufórica, feliz e decidida a cumprir minha promessa. A mesma voz que narrava em off o filme de Truffaut (a voz do próprio Truffaut?), dizia-me em português: “Agora, Catherine decidira ir a seu quarto com ele, custasse o que custasse. Seria a melhor reparação que poderia oferecer a Jim.”

Estava nas nuvens. Se não tínhamos as bicicletas de Catherine, Jules e Jim, fomos correndo a minha casa. Ele me puxava pelo braço, eu quase caía nas calçadas irregulares, mas, ao chegarmos ao edifício onde morava e com receio de acordar meus pais, substituímos a pressa pela cautela. Ficamos na porta do edifício e tentei conversar sobre o filme, mas logo vi que era complicado conversar com Raul sobre sua leve e ousada indecência. Além disto, ele estava muito inquieto e utilizara expressões como putaria e outras, as quais serviram para que eu descesse alguns andares de minhas nuvens. Mudei de assunto.

Sem parar de conversar e fingindo ignorar o imenso ganho secundário programado para aquela noite, fomos nos aproximando da porta. Enquanto acontecia, baixávamos progressivamente a voz. Não nos tocávamos. Quando deixei a porta do apartamento entreaberta, sussurrávamos. Voltada para fora, apoiei meu ombro no marco de porta e dava respostas rarefeitas a ele. Sabíamos que outro discurso escondia-se sob as banalidades que pronunciávamos e este dizia algo como “Há alguém ainda acordado?” ou “Quando poderemos finalmente entrar?”, etc. Depois de um tempo infinito, ele colocou delicadamente o dedo indicador em meu peito empurrando-me para dentro do apartamento. Calados, chegamos a meu quarto.

Virou rotina. Em muitos dias, amanhecia com olheiras por dormir muito tarde; tinha aula pela manhã. Raul saía no meio da noite e eu tinha certeza que meus pais suspeitavam mas que não tentariam comprovar nada e nem fariam perguntas.

Ela desliga o gravador.

11 comments / Add your comment below

  1. Ricardo, fiquei muito feliz com teu comentário. Só não precisa invejar…

    Acho que o único bem cultural comum que temos é o cinema e a música popular, porém, como esta é habitualmente ruim… O cinema é um ponto importantíssimo de referências contemporâneas, não?

    Grande abraço.

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