O Monólogo Amoroso (III)

Ricardo pegou um caderno espiral, escreveu lentamente “Cartas a Alguém” na capa, olhou sua letra irregular e pareceu-lhe ter escrito “Cartas à Algema”. Abriu-o.

Há quatro anos, vim à Itália em viagem de passeio com meus pais. A finalidade da excursão era mais sentimental que turística; eles queriam conhecer a pequena cidade de Oppeano, de onde seus pais, meus avós, vieram para o Brasil. Procurariam seus parentes. Seria, pois, uma viagem entediante pela Itália de tantas possibilidades. Para mim, a simples idéia das lágrimas, dos encontros a princípio incompreensíveis daqueles vênetos separados desde o Pré-Antigo de seus familiares de outro continente, era suficiente para causar náuseas. Armei-me de estoicismo para encarar o infortúnio, mas, antes de chegar à Oppeano, consegui, não sem segundas intenções, ingressos para um concerto em Verona – o que me obrigaria a ficar mais tempo na cidade – e lá, já em plena rebeldia, comprei uma e somente uma passagem para Veneza. Fingi uma segurança que ainda não tinha, aos 21 anos, para aproveitar a meu modo a viagem proporcionada pelos pais. Ora, eu queria conhecer o que pudesse da Itália, não de meus parentes. Fiquei surpreso ao ver que minha insubmissão fora recebida com condescendência; foi débil a tentativa de meu pai de me colocar em culpa para com “nosso passado comum” e para com o fato de eles não poderem apresentar seu único filho…

Fui direto de Verona a Veneza e, a médio prazo, acabei deixando orgulhosos meus pais: apaixonei-me tanto pelo país, adaptei-me com tanta facilidade, que meti em minha cabeça que, um dia, viria morar nesta região, nem que fosse por poucos anos. A profissão de músico não deixa ninguém rico, porém as chances de viagens para mestrados, doutorados ou simples formação são grandes. Já a aventura de meus pais foi mal sucedida, os tais parentes foram evasivos e até antipáticos para com aqueles descendentes de imigrantes subitamente materializados. Foi complicado converter sua viagem de sentimental em turística. Passaram quase todo o tempo da viagem no Vêneto, certamente decepcionados com o final melancólico da empreitada.

Estudei muito para voltar à Itália. Meu objetivo era, na realidade, ser aceito no Conservatório de Veneza, mas dizia a todos que estava indo para Roma, pois tinha consciência das dificuldades de um violinista do meu nível em Veneza. Mas fui lá, com meus parcos oito anos de instrumento, fazer minha tentativa. Cheguei de trem a Veneza, vindo novamente de Verona. Mesmo chegando na cidade pela segunda vez e no mesmo local, tomei o mesmo choque. A saída da estação de trens dá-nos uma visão extraordinária e inesquecível. Há a calçada por onde caminhamos, uma calçada normal, há edifícios normais do outro lado da rua, só que no meio há água salgada e barcos, ou seja, é mar. E há os gritos de vendedores querendo que se entre neste ou naquele barco. Mas é difícil decidir qualquer coisa, pois o estrangeiro fica ali, embasbacado. Parece uma perturbadora montagem de cinema, um efeito especial em que os carros e o pavimento são substituídos por barcos e água, algo que poderia ser uma piada ou um belo quadro surrealista, não fosse verdadeiro. Peguei o barco para a Piazza da Catedral de San Marco lembrando A Morte em Veneza, de Thomas Mann, e o escritor Gustav Aschenbach – transformado, anos depois, em compositor no filme de Visconti. Abobalhado, fiquei imaginando qual seria o tom exato do cabelo do Padre Rosso Vivaldi e nos rostos das meninas do Conservatório do Ospedale della Pietà. As lembranças literárias e o Estro armonico que começava a ser executado em minha cabeça, misturado com o barulho do motor do barco que nos levava, era o contexto dentro do qual chegava à cidade, confiante num futuro brilhante. Antes que Algema pergunte, já vou respondendo que não!, não procurei adolescentes bonitinhos pela cidade…

Desci em San Marco e iniciei uma caminhada pela cidade que deveria começar pela pensão em que me hospedaria e que terminaria pela visita ao local de minha audição. Dois dias depois, fosse pela beleza da cidade, que favorece naturalmente às artes – acredito nisso! -, fosse por uma esquizofrenia recém adquirida, fui perfeitamente calmo para a audição, com a certeza de que seria rechaçado pela banca. Despreocupadamente, imaginei que estava em meu quarto com Nina, tocando a Sonata Nº 2 para violino solo de Bach para seus olhos azuis. Sabia que minha “interpretação” era ridícula, mas que, bem concentrado, poderia colocar todas as notas em seus lugares, nada além disto. Foi o que fiz. Porém, talvez por pena, talvez por meu sobrenome vêneto, meu ingresso acabou sendo confirmado ali mesmo.

Na comemoração, bebi minha primeira garrafa de vinho a preço veneziano e, entusiasmado e até acreditando num futuro em alguma orquestra da cidade, escrevi para Nina e para os amigos, contando sobre a atmosfera da cidade e minha vitória. Logo, travei amizade com uma dupla de argentinos que engordavam suas bolsas apresentando em bares um novo compositor hermano: Astor Piazzolla. Ele não me empolgava muito, mas os venezianos ficavam fascinados pelo novo tango, que apresentávamos em versões para violino, violoncelo e piano. Aquele simulacro portenho em Veneza logo se tornou absolutamente necessário a meu orçamento. O italiano que falava ainda era péssimo e a convivência com aqueles argentinos que só falavam espanhol entre si e comigo me atrapalhava mais. Tornamo-nos grandes amigos. Estes “concertos” de fim de semana não perturbavam meu desempenho no Conservatório, que era, como sempre, mediano.

Fecha o caderno.

5 comments / Add your comment below

  1. Ah, passei o dia ocupada sem tempo para parar e ler-te, mas lembrando disso aqui. Antes tarde do que nunca, ou que amanhã – pq amanhã já é sábado e o assunto já é outro né?

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