O Monólogo Amoroso (IV)

Ela senta na cadeira do quarto do hospital, põe o gravador sobre o colo, liga-o e fala.

As visitas de Raul a meu quarto tornaram-se uma rotina nada insatisfatória. Passávamos muito tempo fechados ali. Porém, eu era desonesta. Mesmo em sua companhia, pensava em Ricardo ou num próximo namorado – lindo, inteligente, ideal, que me fizesse companhia em tudo. Era uma adolescente orgulhosa sei lá do que e desprezava Raul, considerando-o provisório, apesar de não tomar nenhuma atitude para afastá-lo. Acho que não suportaria ficar só. Estávamos sempre juntos e nos tocávamos muito, éramos reconhecidamente um casal. Minhas exigências adolescentes desejavam o grande amor com alguém admirável que reconhecesse a divina pérola que eu efetivamente era… Divagava muito, abraçava-o com o pensamento longe, planejando coisas, muitas vezes não prestando atenção ao que ele dizia. Minha vida era muito outra no âmbito mental… Não obstante, era carinhosa e tratava-o bem. Ele pensava que eu era assim, meio distraída. Minha sensação era a de que estava apenas cedendo a seus desejos sem envolver-me muito. Imaginava que estava passando por um período temporário e que logo viria – ou voltaria – algo maior e açambarcador.

As cartas para Ricardo eram poucas mas apaixonadas. Tinha criado uma ética peculiar: eu não mentia, apenas ocultava fatos. O curioso de organizar as memórias dessa maneira é que minha imagem muito piora frente a que tinha antes: naquela época, achava justo o que fazia. Ora, se perdera temporariamente quem eu queria, substituíra-o por outro, aguardando pelo retorno da situação inicial. Não contava a Ricardo sobre meu caso com um colega de turma. Seria humilhante e certamente o mesmo que romper com ele. Pensava que se ele descobrisse algo poderia resolver o problema negando peremptoriamente o fato. Ou talvez ele nem fosse se importar, sei lá. Céus, como era confusa! Só que Raul, o presente possível, acabou se tornando, digamos…, constitutivo de minha vida.

Sabes o que houve. Durante as férias, antes de nosso último ano de colégio, a menstruação não veio. Eu sempre tentava impedir os dias férteis, fazendo a contagem dos dias na agenda. Entre nós, havia a figura da “tabelinha”, a qual poderia desviar qualquer entusiasmo para outra solução. Tive certeza da gravidez. Não queria contar nada a Raul, pretendendo realizar o aborto proibido sem discutir com ninguém; porém, deu tudo errado. Fui a um médico que, como era de conhecimento corrente, cometia em seu consultório os tais “crimes”. Entrei lá nervosa, saí apavorada. Fazer um aborto bem feito em uma clínica limpa e com segurança era caríssimo, impraticável, considerando o dinheiro que tinha guardado e o que recebia semanalmente em casa. Ingenuamente, pensava que estaria pagando apenas o médico, não seus riscos. Então, alterei a primeira parte do plano e propus a Raul que dividíssemos o valor. Foi a sua vez de não me ouvir. Ignorou meus argumentos, ouviu somente que eu estava gerando um filho seu e, mesmo atemorizado e não sendo nada religioso, foi acometido de uma crise que foi, afinal, a segunda e decisiva causa de estares ouvindo esta gravação. Hoje não me arrependo, ganhei muito com teu nascimento, mas voltemos a Raul: disse-me que aquilo não era direito, que a alma da criança ficaria eternamente por aí e outras bobagens que nem lembro mais. Acabou contando o acontecimento a seus pais, que ficaram abismados e comunicaram os meus, que ficaram boquiabertos.

O resultado foi uma ação moral entre as famílias com o objetivo de fazer-me ver que não tinha direito nenhum. Era uma irresponsável. Meus sentimentos, opiniões, súplicas e revolta foram ignorados. Queriam silêncio sobre o assunto. Sabiam que eu não teria coragem de me submeter a uma aborteira qualquer e que, a cada dia, meus argumentos ficariam mais fracos à medida que “aprendesse a amar” o(a) inquilino(a) de meu corpo. Dissesse o que dissesse, a criança deveria nascer. Minha vida, planos – que planos? –, minha educação e carreira – que carreira, minha filha? – que se danassem. Em troca de apoio financeiro, ainda fomos forçados a uma discreta cerimônia civil num cartório. Tenho fotografias. Toda a ironia que utilizei durante aquele dia está… está onde? Vejo-me metida num vestido que adorava, vejo meu sorriso protocolar e só identifico algum desagrado no par de sapatos feios e gastos que escolhi, para horror de minha mãe. Do meu lado direito, vinte centímetros acima de meu sorriso de poucos dentes, está Raul. Parece feliz.

Foi uma gravidez tranqüila. Contudo, as mudanças que me aguardavam e aquele casamento forçado me deixavam muito assustada. Como seria o futuro entre o amor e a dedicação que demandarias de mim e o ódio que sentia daqueles familiares de atitudes repugnantes? Procurava preservar Raul de meu sarcasmo, mas era muito difícil. Falava mal de todos, achava que minha vida e sanidade mental estavam sendo minuciosamente destruídas aos 17 anos e tinha especial argúcia para criar objeções a minha sogra. Talvez esta fosse a forma que escolhi para atingir seu filho, que parecia perdido em meio a tantas pessoas cheias de opiniões. Ou talvez ele apenas estivesse como eu: acessório e paralisado.

Outro fato perturbador eram os outros. Meu papel mudara: de bela e cobiçada adolescente passei a “jovem gestante de mau passo”; deixara de ser a alegre e simpática Nina para tornar-me uma espécie de mulher fácil que errara lastimavelmente, adquirindo como punição uma gravidez que parecia ser uma doença transmissível que deixava consternadas as amigas, afastados os amigos e que me tornava inimiga de todos os pais. Era o exemplo a não ser seguido. Não tinha energia para responder àquele ambiente e procurava não chamar ainda mais atenção.

Nasceste pouco depois do final das aulas e, de acordo com o que ficara tratado entre os quatro avós, tu, eu e Raul ficaríamos algum tempo morando na casa de meus pais. Lá, várias mães — as duas avós, as parentes, as vizinhas e quem mais aparecesse — te disputavam e, quando notavam alguma hesitação em mim, logo procuravam “vender” suas bem sucedidas experiências à inexperiente que quase sempre as rejeitava. Detestava aquilo. Porém pouco a pouco fui adquirindo respeitabilidade. Resolvi abandonar temporariamente os estudos para dedicar-me exclusivamente a ti, deixaria a universidade para depois. Fui boa mãe, sabes. Acho que ficava abraçada a ti muito mais tempo do que aconselharia o bom senso e impedia outros de te trocar e alimentar. Observava e descrevia, naquele caderno que conheces, teu desenvolvimento e as novidades diárias. Penso que a Grande Revolução foi decidida lentamente naquele período. Prometia a mim mesma não esquecer o que passara durante a gravidez: o casamento às pressas a que fora sujeitada, a má cara de uns, a passividade de Raul, o tratamento que recebera como futura mãe adolescente, as pequenas agressões dos pais de Raul, a falta de apoio dos meus… – sem dúvida, aquilo tudo era um sólido curso para formação de ressentidos. A mãe de Raul, tua avó, lutava para interpor-se entre nós com a finalidade de ensinar-me sobre como sua neta deveria ser educada. Isto tudo me ofendia, e eu cobrava de Raul algum tipo de postura. Inútil, pois ele apenas circulava idiotamente pela casa sem achar o que fazer, assentindo a tudo. Fui uma boa mãe, certamente melhor que tua avó paterna foi. Permaneci meses em casa, só saindo para visitar pediatras e passear contigo.

Uma enfermeira entra para tirar-lhe a pressão e ela desliga o gravador.

6 comments / Add your comment below

  1. Colocar-se no lugar do outro é tarefa que parece simples, mas não é. A credibilidade do seu texto comprova que você consegue (como demonstrara em outros textos). Vamos ver o que vem quando a enfermeira se for…

  2. Uau, muito bom, Milton!
    Sim, acho que a tua porção mulher é feminista.
    beijo, parabéns, lindo capítulo. Se é mais longo que os outros não se nota, porque envolvente demais!
    flavia

  3. Pô, Milton, e eu, justamente o que me encanta, é que não tem nada de mim. Então o que eu gosto é que não me traz “um universo feminino”, mas exatamente a grafia de um feminino particularizado, que me fala de alteridade, e por isso me parece autêntico, genuíno. Tempo esgotado bj, f

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