O Monólogo Amoroso (V)

O psiquiatra abre a porta e cumprimenta Raul. Ele entra, senta e continua o discurso da semana anterior.

É… acho que estava naquela época do nascimento da Ana, né? Hum… acho que estava. Vou seguir daqui, pode ser…? Bom, foi uma época de grandes mudanças. Eu estava terminando o segundo grau, isso que chamam hoje de ensino médio, e meu pai me aconselhou a ir trabalhar com ele para assim manter a família que teria. Eu adorei aqueles primeiros dias na loja. Meu pai tinha uma loja de venda de carros usados. Me deu dois. O lucro da venda deles ficaria para mim, que deveria reinvestir o valor de cada um e, com o tempo, comprar outros. Ficava lá todas as tardes e os sábados. A Nina brincava a respeito dizendo “Carros usados. Bons carros usados. Automóveis usados, quase novos. Transporte barato. Ford 1927, em perfeito estado. Carros garantidos, carros reformados. Rádios de graça. Auto com cem litros de gasolina, a gasolina grátis. Carros usados”. Sempre ria recitando aquela besteira tirada de um livro, As Vinhas da Ira, parece. Eu também ria.

Comecei a juntar dinheiro. A loja era bem localizada e isto é fundamental para um negócio desses. Quando os clientes entravam na loja, a gente, nós, os donos, ficávamos lá dentro, paradinhos. Meu pai pensava mais ou menos assim: o cliente tem que se emocionar com o carro e o interesse começa com o encontro. Era um momento em que o cara tinha que ficar só. Agora, se ele tentasse abrir o carro ou se começasse a dar voltas num deles, um de nós, normalmente o dono daquele carro – pois a única coisa que nos diferenciava de meu pai era que a loja era dele –, vinha lentamente lá de dentro, com aquela má vontade de quem vai desfazer-se por preço baixo do melhor carro da loja, que tinha sido descoberto pelo brilhante cliente. Neste momento, cabia a nós intervir. Havia muita sacanagem, porque às vezes o dono não estava e a gente tinha que vender o carro de outro. Recebíamos uma comissão, claro, mas não era o mesmo valor recebido por quem, afinal, era o proprietário. O pior era quando o cara entrava seduzido por um carro nosso e depois mudava de idéia. Porra, a gente tenta manter o cara fixado no nosso, sem permitir uma escapada. É complicado. Tem que ter uma habilidade que custa a aprender. Eu estava feliz aprendendo e ganhando uma graninha. E devo ter aprendido. Ainda hoje… Pago essas sessões com a loja, né?

A Nina ficava chocando em casa, recitando o “Carros usados. Bons carros usados. Automóveis usados, quase novos. Transporte barato…”, etc. quando me via. Ela parecia uma inconseqüente. Nossos pais nos pediram para casar a fim de proteger a ela e à criança, mas ela ficou puta com aquilo. Reclamava e ameaçava sumir, mas não fez nada.

Meu pai falava muito comigo, me aconselhava a aproveitar o que a situação tinha de boa. Se eu me tornaria um chefe de família, que fosse de uma forma digna, ganhando meu próprio salário e ficando logo independente. Não via e nem vejo problema naquilo. Então, eu finalizava meus estudos no colégio pela manhã, trabalhava à tarde com carros e tratava de agüentar as brincadeiras ou o mau humor da Nina à noite. Mesmo suas brincadeiras eram “mau humor”, pois sempre visavam ridicularizar algum de nós. Eu era o maior alvo, minha mãe vinha logo depois, mas eu tentava não brigar com ela, porque ela estava grávida e poderia prejudicar a criança ou fazê-la voltar àqueles pensamentos de aborto. Olha, eu não tenho nada contra o aborto, mas nunca admitiria que um filho meu fosse vítima. É uma questão de princípios: acho que se deve ter a possibilidade de fazer isso em casos justificados, só que a Ana teria uma casa, alimentação, meios, pais, presentes, tudo. Então para que tirar?

A Nina me acusava de traição. Dizia que eu tinha falado, combinado tudo e agido com meus pais sem que ela soubesse. Na verdade eu falei com meu pai, ele avisou minha mãe e ela foi atrás dos pais da Nina. Não queria dizer a ela que não me arrependia, que achava legal ter uma filha ou um filho com ela, que gostava dela e que aquilo era também uma prova de amor, mas ela estava irônica e intratável. Nina era uma mulher linda. Bem como eu gosto. Era pequena, 1,60 m, cabelos castanhos e olhos azuis, um rosto muito bonito. Ela era “admirada” por todo mundo no colégio, apesar de não fazer o gênero gostosa. Claro que sempre foi debochada e tinha aquele temperamento artístico, meio desligado do mundo, além de ser mulher, né? Então, era então bastante imprevisível e sinceramente penso que podia rir, chorar ou irritar-se ouvindo exatamente as mesmas palavras. Parece que tudo dependia da circunstância e só ela sabia qual era.

A gente transou poucas vezes durante a gravidez, mas não pense que ela reclamava de dores ou mal estar, dizia só “não quero”. Nossas discussões noturnas eram uma tortura. A única coisa que eu queria era que ela parasse de falar e de me perguntar coisas. Eu ficava paralisado, olhando para o teto, com a cabeça funcionando a mil. Era um menino e tentava adivinhar qual seria a resposta correta para as perguntas. Em vez de dizer sinceramente o que pensava sobre nossa situação, procurava aquilo que seria a fala mais correta, menos agressiva, a que apaziguasse. Era muito difícil porque ela tinha outra lógica. Muitas vezes eu ficava em silêncio, sem saber o que dizer. Ela então se virava para mim e perguntava se eu não pensava nada, se o que eu tinha para dizer era nada, se era este o tipo de resposta e atenção e consideração que o seu marido tinha para lhe dar. Uma merda. Tinha um cartaz de um filme no quarto dela, que naquela época era o nosso, e eu ficava olhando para ele apavorado, lendo e relendo o nome dos atores, do filme, produtores, essas coisas. A melhor parte do dia eram os “Carros usados. Bons carros usados. Automóveis usados, quase novos”… Lembro que um dia ela, sempre boa com as palavras, falou que mesmo sua alegria era feroz. Alegria feroz. E a barriga crescia. Eu pensava que a coisa ia melhorar com o nascimento da Ana. Doce ilusão. Parecia que o ressentimento dela crescia mais do que o nenê. O estranho é que eu ficava com ela no intervalo do colégio, ia para casa com ela e me apaixonava cada vez mais. Fora de casa ela aceitava meus beijos e carinhos, mas em casa era mais difícil. À noite, era raro ela sair daquele “não quero”. Eu ficava puto, porque o médico tinha dito que podíamos manter relações e ela nem se preocupava em dizer que estava enjoada ou com dor de cabeça. Aquilo era para me agredir, claro. A Nina não era nada frígida. Não era uma alfafa com palmito. Existem mulheres que são simplesmente assexuadas, frígidas, zumbis… Aí não há muito o que se fazer… a não ser tocar a bronha, digo, a vida… Mas ela não. O que me indignava era a forma franca que ela escolhia para me rejeitar, aquele “não quero, não quero”.

Quando a Ana nasceu, tivemos alguns bons momentos. O trabalho era tanto que não havia tempo para discutir a relação à noite. Muitas vezes acabávamos agarrados sobre os lençóis e, mesmo cansada, ela cedia. Tinha esperança de que ela fosse pouco a pouco me detestando menos. Também íamos a algumas festas juntos, mas na maioria eu ia sozinho. Ela me mandava ir e me divertir. Dizia para eu ir encontrar os amigos e não encher o saco em casa. Eu ia, mas só ficava feliz quando ela estava junto. Se ia desacompanhado, nem bebia para estar pronto se precisasse ajudá-la em qualquer eventualidade com o bebê e para não feder à bebida na cama. Eu ajudava à noite. Fazia a Ana dormir. Devo ser muito masoquista, porque, nas festas, ficava quieto no meu canto quando não estava com ela e aparecia para sorrir e conversar quando ela vinha junto. Eu sentia que tinha que protegê-la. Ela era uma mãe ao lado de jovens solteiros e eu sabia que devia demonstrar como estávamos bem. As outras gurias eram solteiras, descompromissadas, free as birds… e sempre poderia haver alguma indireta, sabe-se lá.

Bom, mas o que posso te dizer é que viver pisando em ovos é uma bosta e eu era infeliz. Mesmo quando a camaradagem, o carinho ou o sexo preponderavam eu tinha a impressão de que havia apenas ganhado uns pontinhos num campeonato onde ia de mal a pior. Houve um dia – a Ana já estava maiorzinha — que discutimos forte. O assunto era…

Raul interrompe seu discurso a um sinal do psiquiatra. Hoje terminou.

6 comments / Add your comment below

  1. Caro Milton,

    Juro que não estou lendo “O Monólogo Amoroso”. Vou esperar receber por e-mail para comparar com a versão anterior. Ou você pode trazer-me pessoalmente quando vier com o Cláudio e os licores (e uma cuia e bomba de chimarrão, por favor).

    😀

  2. milton, totalmente off topic, mas não poderia deixar de lhe dizer.. eduardo galeano ontem totalmente sensacional na leitura de passagens de seu novo livro, q desde já te recomendo, Espejos

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