O Monólogo Amoroso (VI)

Ela acorda, pega o gravador de cima do criado-mudo, pressiona a tecla REC e recomeça seu monólogo para a filha.

Logo depois que nasceste, procurei estabelecer uma rotina. Sabes que tenho certa tendência a adequar-me a procedimentos que acabam por tornar-se verdadeiros algozes… Tu fazias com que eu me acordasse cedo e cedo te trocava e levava para fazer passeios no carrinho; ficavas felícissima observando a rua e as pessoas. Meu ganho secundário, pensava, era o de conviver menos tempo em família. Teu pai entrou no curso de Administração e estudava no turno da manhã; à tarde ia para aquele simulacro de trabalho na loja do teu avô paterno. Raul parecia cada vez mais perdido numa casa que não era a dele; estava constrangido, perdera a naturalidade. Muito lentamente e em razão da disponibilidade dela, passei a dividir-te com minha mãe. Na época, considerava-a como alguém a ser combatida ou ao menos não imitada, mas acabamos companheiras no trabalho maternal. Precoce e involuntariamente, comecei a retribuir-lhe um fluxo de amor que preferia antes desconhecer. Teus dias, a partir de então, eram passados entre nós. Raul não apenas parecia ser um estorvo como passara a encarar-se como tal. Sempre tivéramos grandes diferenças de caráter, de postura e de predileções. Se acrescentar a isto a maturidade forçada e o ceticismo que adquiri durante a derrota para as famílias, via que me afastara mais e mais dele.

Foi durante um daqueles passeios que conheci Márcia. Ela tinha dois filhos pré-adolescentes que levava todas as manhãs à escola e, nos dias bonitos, costumávamos conversar na praça em frente ao Colégio Júlio de Castilhos. Era uma pessoa simples e simpática; seu marido era balconista de uma loja de ferragens e quando eu disse a ela que desejava voltar a estudar, Márcia propôs-se a cuidar de ti pela manhã por uns trocados. Era afetiva e gostava de crianças. Minha mãe apoiou a idéia – já tinhas quase um ano – e Márcia passou a freqüentar nossa casa para adaptar-se a ti e tu a ela. Só que esqueci de informar teu pai e minha sogra de minhas decisões. Esqueci também de estudar. Ficava em casa com Márcia ou, no máximo, saía para passear.

Quem soube primeiro foi tua avó paterna, que ficou escandalizada por não ter sido avisada. A conversa que teve com seu filho determinou-lhe que as coisas estavam viradas de cabeça para baixo na casa onde morava sua neta e ela, sim , ela, ameaçou-me com a separação. O inacreditável é que Raul parecia achar naturais aquelas interferências da mamma. Eu estava num período melhor, as coisas estavam voltando à normalidade e eu queria voltar um dia a estudar. Resolvi agir diplomaticamente sobre aquela interferência, pois seria improdutivo entrar em discussão. Procurava agir com inteligência desta vez. Pedi-lhe desculpas sob o pretexto de que tudo acontecera muito rápido, expliquei-lhe que um novo ano letivo estava começando, que gostaria de aproveitar Márcia, em quem confiava, e que tudo isto fora uma sorte. Falei também que tuas repetidas otites eram menos freqüentes, etc. Ela foi embora mais calma, porém, internamente, com a certeza de que estavam fazendo de seu filho um estúpido.

Não precisei estudar muito para entrar no curso de Letras. Havia poucos candidatos. Foi uma tentativa realizada com o menor estudo e a maior ansiedade. Falo sério, não sabia nada para passar. As odiadas provas de Matemática. Física e Química foram um festival de chutes, mas como só os piores alunos ou os absolutamente apaixonados por literatura tentam Letras, acabei conseguindo. Os que gostam de escrever e são um pouco mais espertos fazem jornalismo. Até hoje é assim, só que agora existe a alternativa da publicidade. Acabei classificada entre os últimos… Grande coisa!

E voltei a estudar. Foram meus primeiros passos fora do âmbito da maternidade naqueles meses todos. Era uma estranha na faculdade; raramente era vista fora das aulas. Apesar de assídua e dedicada, não freqüentava o bar e conversava pouco com os colegas; chegava pontualmente e saía rapidamente para casa. Por isso, meu apelido era “Turista”. Não ficava muito tempo longe de ti. Ademais, meu contexto era outro, minha mente estava longe dos assuntos do interesse dos outros estudantes: eu só sabia falar das próprias aulas, dos professores e da música erudita que tocava na Rádio da Universidade – herança de Ricardo que abrangia grande parte de meu tempo em casa. Preferia tua companhia e era feliz com minha agenda de aulas, passeios – agora vespertinos -, estudos, babá, mãe, pediatra, música, almoço, janta, etc., cada vez mais ignorando Raul.

Ele não queria me irritar ou não sabia se impor. Raramente me convidava para ir a cinemas ou festas. Normalmente deixava-o ir sozinho, mas quando íamos, ele voltava a ficar orgulhoso de minha presença – gostava de apresentar sua “bela mulher” – e tratava de omitir a existência de uma filha aos amigos, porque desejava mostrar-se jovem e sem compromissos. Aquilo fez crescer meu desprezo por ele e, longe de querer iniciar uma conversa sobre fraldas com as namoradas de seus amigos, observava tudo com alguma ironia e cada vez menos ressentimento, pois apenas via futilidade naquele grupo. Eu era uma mãe, ele ainda era um filho. Quando desejei o aborto, ele sofrera a súbita crise mística que uniu nossas famílias para manter a criança e a moral; agora, com a criança no mundo, ele procurava desconhecê-la para viver de acordo com sua idade… Sempre passivo e vago, ele não forçava atritos comigo; por isto surpreendi-me um dia ao ouvir dele a reclamação de que eu me comportava de forma superior com seus amigos. Nunca fui capaz de grandes explosões e, na verdade, sabia o que ele estava pedindo: Raul não estava referindo-se nenhum gênero de arrogância que eu tivesse manifestado, mas sim à dificuldade que eu tinha de acompanhar as conversas que considerava fora de qualquer contexto que vivenciava e que me faziam divagar longe dali. Até me esforçava, mas meu pensamento perdia-se e muitas vezes devolvia apenas as réplicas mínimas da civilidade. Porém, quase tive uma convulsão de ódio quando ele completou dizendo que eu estava me vestindo como uma mulher mais velha. Respirei fundo com o coração acelerado e apenas respondi-lhe que não era verdade. E não era.

E Ricardo enfim escreveu sobre a gravidez. Ele sabia. Disse que um amigo seu, morador da Azenha, a rua paralela à João Pessoa onde morávamos, um tal de Zeca, avisara-lhe sobre a barriga e o bebê. Perguntava-me como aquilo tinha acontecido e quem era o pai. Nenhuma reclamação, nada, nem sombra do namorado, era uma carta de amigo, simples e interessada. Ele sempre soubera. Li tudo aquilo coberta de vergonha. Porra, ele sabia e certamente considerava minhas espaçadas cartas mero exercício de… de que mesmo? Procurei reparar o erro despejando toda a história em longas e detalhadíssimas cartas. Uma bosta.

Foi naquela época, durante um jantar familiar em nossa casa, que meus sogros noticiaram que Raul agora tinha condições financeiras para alugar um apartamento para nós três. Seu trabalho na loja do pai dera-lhe condições financeiras. Para mim, não foi surpresa o fato de Raul não ter sido o portador da nova. Olhei para ele e vi sua cabeça baixa, com um meio sorriso nos lábios, talvez de orgulho. Sorrindo também, ergui a cabeça, antegozando o efeito da frase:

– Eu gostaria de dizer a vocês que não pretendo morar com Raul. Vou ficar aqui.

Minha afirmativa apagou-lhe o sorrisinho; fez-lhe levantar a cabeça e abrir a boca.

Cansada, desliga o gravador.

11 comments / Add your comment below

  1. Milton esse capítulo está maravilhoso. Estupendo! (nunca usei essa palavra, mas acho que é isso). É impressionante como tu consegues dar em poucos parágrafos as nuances contraditórias, sutis dos personagens, fugindo aos maniqueísmos previsíveis. Essa mulher tem uma acidez meio milton ribeiro. E esse cara… uma docilidade MR…
    beijo, Flávia

  2. Milton, comecei a ler sua história de trás pra frente e gostei muito. Acabei lendo todos os capítulos anteriores e aguardo os próximos. Gosto disso, de pessoas que escrevem diretamente para contar histórias, não simplesmente exercitar estilo.

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