O Monólogo Amoroso (VII)

Ela, bem humorada, liga o gravador e prossegue seu monólogo para a filha.

Obviamente minha resposta não fora planejada mas teve um inesperado efeito de cisão: meus pais me apoiaram. Aquilo comprovaria que, para eles, eu era imatura para ter uma vida em comum com meu marido? Que eles me queriam próxima por acharem que eu seria nova demais para um afastamento da família? Teus avós nos amariam a ponto de verem minha resistência como um argumento para seguirem vivendo com sua filha e neta? Ou será que suas exigências morais já tinham sido satisfeitas pela recusa ao aborto e posterior casamento e julgavam que unir um casal sem futuro seria uma demasia? Na época, eu não pensava nas motivações deles, estava encantada demais por finalmente ter obtido apoio. Minha mãe defendeu que eu iria morar com Raul quando e se desejasse e a sogra ficou de tal maneira atônita com a súbita deserção que começou a discursar que eu era pessoa difícil, suscetível a crises passageiras e com a qual havia que se ter paciência. Seria uma questão de tempo, ela tinha certeza de que eu acabaria me mudando contigo para o apartamento a ser alugado. Tudo bem.

Algo havia se movimentado em minha circunstância e eu não tinha notado. Era casada, mas estava mãe solteira com a concordância de meus pais. E os amigos? Alguns me olhavam ainda como se minha existência fosse moralmente reprovável; na faculdade, outros ficavam desconcertados quando eu dizia que era uma mulher casada com filhos… Preocupava-me neuroticamente em obter a aceitação do mundo e agora recebia de graça a aceitação em casa. Bom, devia ser assim mesmo. É claro que viver com Raul significava uma situação de casamento real e, teoricamente, a aceitação de todos ficaria mais simples, principalmente em relação a nós duas. Sim, do ponto de vista social, as coisas seriam mais fáceis se vivesse com Raul; só que viver com ele era tudo o que eu não desejava e meus pais deviam ter entendido aquilo. Talvez eu tivesse feito um acordo tácito com eles, sei lá. Deves estar te perguntando porque eu não rompia logo com ele. Não sei te responder, não sei o motivo de minha opção por aquela resistência silenciosa. Medo? Timidez? Vês?, não sabia nada. Teu pai, agora ofendido, dormia mais vezes na casa de sua mãe do que conosco e passara a me cobrar abertamente que eu decidisse logo residir com ele, num apartamento que seria alugado perto dali, que seu pai seria o fiador, etc. Eu lhe respondia que não queria, mas não dizia o motivo. A insistência foi tanta que um dia ele conseguiu que eu chegasse ao paroxismo de afirmar que o via como um amigo com o qual tivera, casualmente, uma filha. OK, não foi um grande paroxismo, mas foi o que consegui ter.

Sou lenta e difícil. Sabes o quanto demoro para escolher um sapato, imagine então para tomar decisões importantes que magoem pessoas. Ele perguntou se aquilo equivalia ao rompimento e eu respondi que não, claro que não, que ele devia deixar era a vida seguir. Convivia contigo, com minha mãe, com Márcia, e estudava. Foi neste período que notei o quanto podia ser atraente para determinado gênero de homens. Uma mãe “meio solteira” e jovem era alguém que tinha um bom potencial sexual. Houve um que, subitamente, na praça, com outras mães por perto e enquanto brincavas na caixa de areia, pegou minha mão perguntando se não me sentia solitária. Não era necessário muito respeito por mim. Às vezes, ao fazer compras no supermercado, era subitamente abordada. Do nada, perguntavam se eu já tinha utilizado tal produto ou se já comera tal guloseima; daí, elogiavam meus olhos ou falavam que não tinham notado antes que dirigiam a palavra a uma beldade. E iam adiante. O que me fazia rir lá fora era motivo para lágrimas em meu travesseiro.

Enquanto isso, estranhava o silêncio de Ricardo àquelas cartas em que despejava toda minha biografia recente. Escrevi-lhe novamente, agora sobre os últimos acontecimentos e um pouco sobre a faculdade. Tempos depois, recebi uma imensa carta que continha muitas histórias suas. Porém era uma carta impessoal, ignorando o que lhe havia contado; falava apenas e exclusivamente de si. Uma reportagem irritante. Li de novo. Não narrava apenas as histórias em que brilhava, contava também seus fracassos em Veneza. Dizia que, quando voltasse ao Brasil, tinha boas chances de obter colocação no naipe de violinos de alguma sinfônica, mas que seu nível era insuficiente para permanecer na Europa. Li de novo. Ficava desconcertada pelo fato de haver recebido folhas e folhas de informações sobre acontecimentos pessoais ou musicais e nenhuma linha acerca de “meus assuntos”. Porém, se ficava triste por isto, sabia que ele tinha sentado e trabalhado horas redigindo aquela longa carta só para mim e que isto tinha de ser considerado. Mais uma vez. Tantas folhas serviam para que ele sufocasse os acontecimentos que eu lhe contara e sentia-me deprimida; concluía que ele ficara com pena de mim e sentia-me mal novamente; ou imaginava seus cuidados para não mandar uma palavra de carinho a alguém que inevitavelmente ficaria apaixonada e planejava um suicídio; raras vezes, entretanto, achava que estava recebendo atenção. Atenção sem nenhuma qualidade, mas ainda assim atenção. Em quaisquer dos casos, o resultado eram mais lágrimas noturnas.

Escrevi-lhe de volta. Deu-me o maior trabalho. Se não superava a dele em tamanho, minha alentada réplica procurava intencionalmente misturar tudo. Sua música, minha falta de música; a vida em Veneza, minhas leituras; seu retorno, minha situação; suas piadas de músico, minhas mancadas de jovem mãe; seu doutorado, minha faculdade, etc. Talvez tenha sido o texto que mais me esforcei por escrever em toda minha vida: havia objetividade, brincadeiras, vida pessoal; mas principalmente minha aspiração de que ele percebesse o quanto tinha de saudade e um pedido de socorro. Acho que quem lesse aquela coisa intricada e bem-humorada, dificilmente concluiria que, ao fim e ao cabo, tratava-se simplesmente de uma tentativa de sedução.

Naquela época, as cartas do exterior levavam semanas para chegar e a resposta demorou mais de um mês. E chegou na forma de outro catatau. Desta vez, ele não recuava, acabando por considerar “meus assuntos”. Mas era muito superficial, bem como eu não desejava. Sua abordagem era de modo a não me ofender e seu evidente desconhecimento sobre a vida e os esforços despendidos por uma mãe mostravam quão longe de sua perspectiva estava a convivência com uma criança pequena. Aquilo deixou-me deprimida e meu travesseiro voltou a ficar úmido. Só que, inesperadamente, três dias depois, chegou outra. Esta dizia que, no período de Natal e ano novo, viria para Porto Alegre. Passaria um mês na cidade antes de voltar para seu último ano de curso em Veneza. Estávamos na primavera.

Para meus padrões habitualmente contidos, fiquei em estado de total alegria. Sorria eufórica para o mundo. Mas também pensava, tensa, em como seria nosso encontro.

Ruborizada, como se estivesse revivendo aqueles momentos, vira-se com dificuldade na cama e desliga o gravador.

9 comments / Add your comment below

  1. Cada vez gosto mais dela! (um pouco de narcisismo?)
    Que idade ela tem? Nao tenho tempo de ver se tem referências histósricas nos anteriores. Estranhei um pouco “do nada”. bj, f

  2. Caro Milton,

    O seu blog é fantástico. Cheguei aqui pelo blog do meu ex-professor Maurício Santoro (todos os fogos os fogos).

    Adorei a idéia de escrever os nomes dos livros em um caderno(bem neurótica, “Alta fidelidade” e obsessiva, W. Allen) mas acho que vou encarar o desafio e te copiar.

    Tempos atrás, na febre de “não esquecer” o que li (ou pelo menos a sensação causada por cada livro), comecei a fazer pequenas notas que acabavam parecendo com ‘auto-dedicatórias’.

    Bem, eu mesmo comecei a achar aquilo pretencioso demais, até que um dia uma das minhas irmãs leu uma e me perguntou: “que porra é essa??”. Parei com aquilo.

    Mais uma vez, parabéns. Também tenho um blog, também sobre cinema, música popular, livros que li e eventualmente mulheres gostosas. Ninguém é de ferro. Quando puder passa por lá.

    um abraço

  3. Eu passei muitos anos da minha vida calada e contida, o que era um grande sofrimento. Sou muito passional, então ter que engolir certas coisas me prejudicou muito, mas isso mudou com a minha não planeja gravidez. Fiquei grávida aos 20 anos e hoje tenho 39 anos e quando olho para trás me pergunto como aguentei tanta coisa? Mário Quintana tem um poema que diz assim:

    ‘Que esta minha paz e este meu amado silêncio
    Não iludam a ninguém
    Não é a paz de uma cidade bombardeada e deserta
    Nem tampouco a paz compulsória dos cemitérios
    Acho-me relativamente feliz
    Porque nada de exterior me acontece…
    Mas,
    Em mim, na minha alma,
    Pressinto que vou ter um terremoto!’

    … deu para entender?;-)
    Forte abraço, Milton.

Deixe uma resposta