O Monólogo Amoroso (X)

“…a supressão de certos acordes ´esperados´ funciona como elemento de surpresa”.

J. JOTA DE MORAES, sobre Leos Janácek

Nina segue seu discurso.

Cheguei ligeiramente atrasada ao Alaska. Ao atravessar a Osvaldo Aranha, vi Ricardo sentado numa das pequenas mesas do lado esquerdo; entrei, cumprimentei o Isake e recebi um longo abraço – complementado por sorriso e dois beijinhos protocolares — de um Ricardo muito mais magro e cabeludo. Sentamos e logo disse que tinha trazido um mimo para ele. Dei-lhe o romance Crônica da casa assassinada e recebi um pesado disco com as Variações Goldberg executadas por Glenn Gould, além de um livro com a tradução portuguesa do Doutor Fausto de Thomas Mann, que ainda não existia no Brasil. Era o céu depois de três anos.

Inicialmente, não houve silêncios em nossa conversa. Foi uma densa e atrapalhada atualização de tudo. Eu previa que teríamos dificuldades para conversar, mas errei. Ele foi gentil passando ao largo de tudo o que poderia me constranger, porém perguntou bastante a teu respeito, quis saber sobre minha situação em casa, faculdade, horários e planos. Raul voltava a inexistir. Teu nascimento ocorrera por geração espontânea, obviamente. Se o teatro era aquele, eu tratava de cumprir meu papel não perguntando sobre as italianas. Se aquilo tornava nosso encontro assexuado, ao menos… Mas foi mesmo assexuado? OK, só falamos sobre coisas objetivas, porém havia um tão grande interesse e simpatia mútua, havia tanta vontade de intimidade que lembro de nossos sorrisos, das paredes sujas e das mesas escuras do Alaska daquela noite como algo intensamente sexual. Lá pelas tantas, abri o livro de Mann pela segunda vez e descobri que antes a primeira página grudara da capa, não me permitindo ler a dedicatória, que era mais ou menos assim:

“O compositor tcheco Leos Janácek, aos 73 anos, dedicou seu segundo Quarteto de Cordas para uma mulher. Ele escreveu:

— Aqui, pude encontrar lugar para colocar minhas mais belas melodias. Exprimirão o medo que sinto de você.”

Fiquei comovida com a beleza das palavras mesmo sem entender seu significado e, quando ergui a cabeça para dizer isso a Ricardo, ouvi sua voz:

— O medo que sinto de ti.

Não entendi absolutamente nada. Medo? O que ele queria repentinamente dizer? Fui paralisada por aquela frase solta cujo significado acho que não desejava saber. Houve enfim algum silêncio e sem jeito perguntei quem era a mulher que recebera a dedicatória. Ele suspirou longamente como se tivesse sido interrompido, mas não resistiu a sua inclinação pedagógica:

— Foi escrito para Kamila Stösslová, pela qual ele se apaixonou aos 62 anos. Ela tinha 26, ambos eram casados, ele dedicou muitas obras a ela. Foi um amor platônico que durou até a morte de Janácek. Trocaram mais de 700 cartas.

Novo silêncio. Eu voltei a pensar na dedicatória. Ricardo fez uma piada misteriosa: explicou que Janácek costumava suprimir alguns acordes esperados pelo ouvinte, deixando-o em suspenso, mais ou menos como nós naquele momento.

Era a ocasião perfeita para qualquer um de nós tomar alguma iniciativa. Porém, era uma oportunidade dele, apenas dele. O Alaska era um lugar cheio de homens e, em 1966, uma moça não tomava posturas sedutoras em público; era adequado fazer um ar de sonsa. Demorou, mas ainda bem que ele fez. Havia uma mesa entre nós e Ricardo castamente pegou minha mão e acariciou-a. Aquilo teve o efeito de me desmilingüir imediatamente. Sim, Ana, talvez tu estejas rindo, mas foi muito emocionante. Ele pegou minha mão — aquilo na frente de outros e naquele ambiente era puro hardcore! Ficamos assim até ele dizer meu nome, de forma quase inaudível. No momento em que uma onda me invadia, a verdade mais inadequada me veio à cabeça provocando uma ressaca que revelava letras enormes, escritas infantilmente na areia: “Voltarás para casa”. Em minha completa estupidez, não preparara nenhuma desculpa para ficar na rua até tarde. Sentia-me comovida, feliz, excitada e em apuros… Como uma idiota, não tinha planejado uma noite fora, mas agora a desejava. Saímos do bar e fomos até seu apartamento. Lá, nada havia mudado, só que o cheiro de pó e tempo ainda sobrepujava o de limpeza. Ali estava nosso lugar, ali estava Ricardo e eu pensava numa forma de deixar para depois. A estranha era eu, que agora era casada, mãe, tinha horários a cumprir e até um marido de mentira. Não era mais a Nina incandescente e feliz com o sentimento de estar enganando papai e mamãe. Como fazer para trazer de volta a Nina jovem, insurgente e discretamente depravada? Olhei o relógio. Não queria dizer que era obrigada a voltar cedo para a casa. Tratei de atropelá-lo. Puxei-o para o quarto. Ricardo pediu licença para ir antes ao banheiro e consultei o novamente o relógio. Concedi mais uns quinze minutos para mim. Simplesmente, estava temerosa de ser descoberta, tinha pressa de voltar para casa e invocava os céus para que sustentassem em mim a vontade apossar-me de Ricardo. O medo era meu.

Tomada do desejo de, ao mesmo tempo, precipitar os fatos e agradá-lo, atirei-me sobre ele em seu retorno. Minha confusão era tanta que logo tratei de modular um orgasmo em decibéis. Ao reduzir os gemidos, fingi breve epilepsia e passei a esperar o sinal de finalização de Ricardo. Um fiasco.

Perguntei a ele quando poderíamos nos encontrar novamente, e ele foi pela primeira vez irônico. Falou que eu parecia mais ocupada do que ele e que eu deveria marcar. Senti vontade de chorar. Ele era o de antes; eu não. Eu sabia que ia soar como uma esposa explicando seus problemas ao marido ou pedindo para que ele pusesse o lixo lá fora porque o cheiro estava insuportável, mas fui em frente. Respondi que era melhor de manhã, quando tu tinhas a Márcia para te cuidar.

— OK — ouvi em resposta –, amanhã então?

Eu me sentia tão decepcionante que o olhei procurando descobrir se ele viera da Itália só por umas trepadas. Voltei para casa a pé, irritada com o mundo. No meio do caminho, ouvi uma voz me chamar. Era Ricardo, que vinha com os presentes que eu esquecera no seu apartamento. Mais uma mancada. Porém, se eu voltaria amanhã de manhã, para que me trazer? Sei lá. Recebi, pedi desculpas e, mesmo estando em plena rua, dei-lhe um rápido beijo na boca.

Apressei o passo. Afinal, se é aceitável a fatalidade de ter um ataque cardíaco na rua, chorar pelas calçadas é uma coisa patética.

3 comments / Add your comment below

  1. Puxa, Milton, adorei tudo de novo! Adoro como descreves os ambientes, internos e externos. Os detalhes, como os dos presentes, os detalhes de Janácek e como o Ricardo pensa com eles.
    E ainda umas palavrinhas deliciosas a desmilingüir ou incandescer o texto.
    mais uma sexta, mais um deleite!
    Agora temos que agüentar as mulhé pelada de amanhã!
    bj, f

  2. Flávia, custei a concordar comigo mesmo sobre aquele “incandescente”. O Monólogo é algo de foco meio microscópico, não? Acho que tem de ser. Fico AUTÊNTICA E IMENSAMENTE feliz que o aches um deleite. Tenho o próximo capítulo — a continuação deste — pronto, assim como mais seis. Mas penso se não seria bom interromper e criar um extra, fazendo uma visita ao analista de Raul…

    Gilberto, na verdade esta é uma quase-citação de Stendhal, autor que Nina conhece muito bem…

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