O Monólogo Amoroso (XII)

Quando cheguei em casa aquela noite, contemplava o abismo entre minhas fantasias e a realidade. Voltara a indignação adolescente com o fato de não ser “livre”, de ter sido forçada a ter uma filha e até me culpava por meu corpo não ser mais o de antes. As fantasias tinham sempre como fundo uma vida com um músico – adivinha quem? –, aqui ou no exterior. E, sim, elas incluíam invariavelmente nós três! Só que Ricardo me dissera ao vivo e por carta que esperava trabalhar como músico de orquestra e, veja só, apenas agora eu pensava que havia somente uma em Porto Alegre, talvez com todas as vagas de violinistas ocupadas. Ou seja, ele iria para qualquer lugar onde pudesse trabalhar. E eu? Para começar, eu era duas, eu e tu, e ainda estudava. Uma estudante universitária com uma filha e sem sustento próprio iria se desvencilhar de uma situação dúbia com seu “marido” para ir à Itália em busca seu amor, um músico, acabando todos nós três juntos aqui ou noutra cidade? Oh… convenhamos! Estava era criando péssima ficção. Procurava me acalmar refletindo que nada tinha mudado, que estava na mesma situação de antes e que poderia resolver as coisas calmamente depois, com tempo, uma a uma, porém a sensação de incapacidade, de fracasso e incompetência me invadira. Esta versão realista de Nina resolveu primeiramente que eu me separaria formalmente de Raul de modo a deixar clara a situação. Seria o que era: uma mãe solteira, ou quase, pois seria desquitada. Já seria um bom começo. Quanto a Ricardo, talvez melhor fosse deixar acontecer com naturalidade; era uma situação sem futuro, mas que não causava danos. Talvez devesse pensar nele como o paliativo para uma situação de estresse.

Na manhã seguinte, com tudo organizado em casa, fui visitar Ricardo procurando me sentir menos mãe e mais sexy. Mesmo assim, avançava a passo prussiano em direção a seu edifício. Subi os degraus as escadas de dois em dois, como se estivesse muito atrasada.

— Estava te esperando – disse ele.

Respondi com um tom de raiva inesperado para mim mesma, como se não estivesse com a menor vontade de romantismos:

— Surpreendente.

— Por que surpreendente?

— Ora, porque me comportei como uma idiota ontem.

Em contradição com a chegada, a voz saiu-me emocionada e ele virou a cabeça para o lado numa atitude de quem admite o que escuta, mas que o assunto é desagradável. Enquanto ele se dirigia ao sofá, eu não sabia se seguia comentando a noite anterior – o que diria a ele? – ou se agradecia aliviada por ele desejar mudar de assunto; sei que ele chegou ao sofá absolutamente sujo da sala, fechou um livro – antes devia estar ali deitado, lendo – e sentou-se. Disse-lhe rindo que aquele sofá era uma completa vergonha e ainda decidia o que ia dizer quando vi que ele me examinava de cima a baixo, ignorando minhas palavras. Olhou para minhas pernas em saia de verão, subiu vagarosamente o olhar passando por minha cintura, mais interessadamente por meus seios, chegando minuciosamente a meu rosto. Fiquei em silêncio. Adorei aquilo. Se sua presença física mostrara-me a realidade de meus planos destrambelhados que homem nenhum poderia resolver, se o Natal deixara nua uma situação que achava pobre e triste, aquele olhar meticuloso e deleitado pintava meu rosto de outro vermelho que não o da raiva ou vergonha. Gostei de ser admirada, do calor no meu rosto, da obviedade de intenções daquele exame; não sabia se alguém já me observara assim antes, se o fizera, certamente eu desviara os olhos. O inesperado daquela abordagem franca… Aproximei-me. Pus a mão em seus cabelos e ele segurou meus joelhos e coxas por trás. Pensei que tínhamos, desde o dia anterior, um tratamento de namorados saudosos um do outro, mas na verdade éramos desocupados afetivos que deviam tornar-se amantes durante as férias. Melhor me adequar. Sua mão começou a subir devagar. Entendi porque ele tinha chegado alguns dias antes do Natal, entendi porque ele lia sobre um sofá imundo quando podia fazer o mesmo num parque sem sentir tanto calor, compreendi que eu devia ter esperado por aquilo não com a finalidade de livrar-me de minha vida, mas para ser empurrada alguns centímetros acima do muro onde estava encalacrada e pudesse ver algo fora do universo de minha casa. Ou não percebi nada daquilo e apenas continuava a passar meus dedos entre seus cabelos enquanto fechava os olhos prestando atenção numa mão que, depois de passear por minhas coxas, recebia o auxílio de outra para puxar minha calcinha. Disse-lhe:

— Nem Paul Newman, nem mesmo Gary Cooper ou Mastroianni me convenceriam a deitar neste sofá.

Ele riu e respondeu que eu não vira nada, ainda havia louça para eu lavar na cozinha. Mandei-o tomar no cu e ele respondeu que não era ele quem estava perto disso. Repliquei que tal opção era tão inviável quanto o sofá e fomos para o quarto abraçados, rindo.

Nada me fará esquecer aquelas semanas cujas manhãs passei naquele apartamento cada vez menos imundo mas sempre quente, no qual eu me sentia… – não sei dizer como me sentia, apenas acho que estava finalmente convivendo e amando como deveria ser sempre possível. Ou não. Ainda hoje, quando fecho os olhos, posso sentir o cheiro e a pele de Ricardo e penso em como foi perfeita aquela rotina matinal de cama, conversa, geladeira e chuveiro. Only romance, como dizíamos. Era impossível sair de casa, pois estávamos perto de onde eu morava e seria um erro expor-me. Consegui, afinal, passar calmamente aqueles dias, não perguntei a Ricardo sobre nosso futuro – que futuro? – e, no final de nossa temporada, Raul descobriu como eram minhas manhãs e com quem. Fiquei triste por ele e preocupada com as fofocas, mas estava certa ao pensar que Raul não queria escândalos que o deixassem na situação ridícula de “marido traído” e decidi que podia deixar a questão de Raul e de minha sogra para quando Ricardo fosse embora. Nem contei para ele. Sim, minha filha, depravei-me com convicção…

Em seu último dia, fomos ao cinema ver Acossado numa sessão da tarde, no cinema Marabá. Caminhamos separados na rua, lado a lado, com um ar divertido; quando chegamos na bilheteria, simulamos surpresa com a presença um do outro.

— Quando chegaste? – falei em altos brados e nos abraçamos e beijamos longamente na rua.
Lá dentro os abraços seguiram e, como sempre fazia, tratei logo de nos imaginar na pele de Jean Seberg e Belmondo.

No outro dia, Ricardo foi embora.

Nina aperta a tecla STOP.

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