Vicentina

Fazia tempo que eu não passava entre as grades. Nem tinha certeza de que passaria, pois estou mais gorda depois desses anos todos, mas tentei e quando vi estava na rua. Logo parti em busca da Juno ou daquelas pessoas de cheiro bom que nos deixaram. Comecei a caminhar em busca de algum deles, tudo porque não suportava mais ficar em casa com pessoas que não gostavam de mim.

Caminhei por uns 3 dias, senti frio, não achava a Juno para podermos deitar juntas, descansei onde podia, bebi água de poças, sofri muito com a chuva — odeio chuva — e nada. Minha cabeça ficava cada vez mais confusa com a fome. Eu pensava que encontraria logo a Juno ou aquelas pessoas que me afagavam, mas não encontrava ninguém e já nem sabia mais para onde estava indo. Só sabia que não queria voltar para casa, não queria ver aquela mulher que dizia sempre “Sai, Vicentina” ou pra aquela que me sorria e depois sumia. Não, eu tinha que achar a Juno.

Então, entrei num lugar cheio de carros e pessoas que caminhavam muito de um lado para outro. Falavam sozinhas com umas coisas de plástico no ouvido. Depois saíam. Antes de recomeçar minha busca, decidi ficar um tempo por ali porque tinha cheiro de carne. Às vezes, eles saiam rapidamente de carro, quase correndo, sempre em grupos, era estranho. Uma hora, uma moça saiu com um cigarro na mão e eu achei que podia me aproximar. Ela me fez carinho e eu fiquei feliz. Ela viu que gostei.

Mas devia ser meio burra porque disse “Vem cá, Pretinha” sem usar meu verdadeiro nome. Lá não estava a Juno, mas tinha comida. A moça fez um tom de voz feliz quando me viu comer com vontade. Lá tinha carne com cheiro de fumaça. Degustando aquilo, lembrei do dia em que levaram a Juno. Ela ficou deitada parada no chão do pátio com o mesmo cheiro daquele pássaro que caçamos. Era um cheiro estranho, sem fumaça, mas não era ruim. Aí, as pessoas que eu não quero mais ver pegaram ela no chão e a levaram. Ela nunca mais voltou e eu fiquei lá num canto, quieta, triste, com saudade e louca para procurá-la. E saí.

Agora, tanta gente passava a mão em mim, eram tantas as pessoas diferentes que gostavam de mim que eu sentia um quebranto de ir ficando por lá em vez de procurar a Juno ou as pessoas de cheiro bom. Lá tinha um inebriante cheiro de fumaça misturada com carne e eles também usavam umas coisas de ferro na cintura que também tinha cheiro de fumaça. E entravam e saíam. Também tinha gente que chegava lá com as mãos amarradas. Eles guardavam aquelas pessoas como a gente ruim que ficou na minha casa fazia comigo. Então, nem tudo era novidade.

De noite, sempre tinha alguém que botava fogo num buraco da parede e eu ganhava mais carne enfumaçada. Como ir embora? De vez em quando, me atiravam carne antes de acender o fogo e eu lembrava de novo da Juno e de que tinha que procurá-la. Mas confesso que estava gostando daquela nova rotina de agrados e carne. Tentava me comportar bem para que eles fizessem aquele tom de voz feliz.

Só que um dia, de surpresa, chegou uma das pessoas ruins da minha casa e todos eles fizeram juntos tons de carinho pra mim. Eu não queria ir embora, mas me levaram de volta. Claro que eu pensei que a Juno estava em casa me esperando e fiquei até feliz quando vi que estavam me levando pra casa. Fiquei animada. Eu e ela íamos poder latir de novo para as pessoas que passavam na rua. Saí do carro em casa, procurei por ela, mas ela não estava lá.

Agora, quero ir embora de novo. Quero a Juno ou a gente que me dava carne ou aqueles de cheiro bom que até meio que esqueci. Lembro só que, quando eles foram embora, a gente ruim gritava com eles com o mesmo tom de quando eu fazia cocô na garagem porque não gosto de fazer cocô na chuva, só faço lá fora quando está seco. Quero ir embora. Só isso. Não quero mais comer, só quero ir embora.

Deixe uma resposta