Adrem Atup e os fins da razão

Adrem Atup nasceu na Finlândia em 1958. Seu pai, Neila Atup, era um simpático hippie, um andarilho que se apaixonou pela paisagem de Parati do final dos anos 60 e lá decidiu permanecer. Sua mãe? Neila dizia que era uma holandesa, de nome Stella, que desaparecera. Em seus documentos só havia o nome do pai. Adrem aprendeu no Brasil o quarto idioma de sua vida nômade e então começou finalmente sua formação regular. Nunca antes tinha frequentado salas de aulas e, apesar de interessar-se muito mais pela educação cabal que recebia de seu pai e amigos, foi excelente aluno.

Nem ele nem papai Neila tinham vivências anteriores sob ditaduras militares, mas, mesmo naquela época, não era muito difícil viver para os obscuros pintores, artesãos, bichos-grilos e assemelhados da cidade histórica. A dupla finlandesa logo confirmou a suspeita de que todas as pessoas decentes eram contra aquilo. Conviviam com artistas de esquerda e comunistas que combatiam os militares discutindo política enquanto fumavam maconha, bebiam as maravilhosas cachaças da cidade e pintavam quadros rústicos. Estaria enganado quem imaginasse um bloco monolítico de oposição aos militares, pois eles dividiam-se em infinitesimais tendências, todas com princípios muito claros e impermeáveis a quaisquer influências que as pudessem macular. A inteligência de Adrem, tal como a de seu pai, nunca serviu para o entendimento da política; eram antes dois sonhadores que passavam o tempo conversando e repetindo quadros para os rarefeitos turistas que vinham à cidade naqueles anos. Um dia, Neila comprou a preço de banana uma casa caindo aos pedaços no atual Centro Histórico de Parati; ali, vendiam sua produção e a de outros artistas e artesãos, principalmente aquarelas representando a antiga igreja da cidade vista do litoral e pequenos quadros, cartões e broches revolucionários que ostentavam, o mais das vezes, a figura de Che Guevara.

Quando terminou o secundário num colégio público de Parati, Adrem prestou vestibular e passou facilmente em Artes Plásticas na USP. Lá, entranhou-se-lhe ainda mais a certeza de que todas as pessoas confiáveis eram de esquerda e, mais, atéias. Atéias como Sílvia, uma colega de seios fartos, pela qual se apaixonara enquanto a ouvia falar das milhares de reticências coloridas contidas em cada tela de Seurat e que o aconselhara a largar o mundo de mão, pois a apreensão possível a eles era a ontológica, não a sociológica. Adrem riu como se tivesse ouvido uma piada. Não sabia o que era ontológico, mas imaginava alguma relação com o câncer. Seguia observando vagamente a cena militar e política, o que lhe parecia ser a mesma coisa. Via os eventos e ações governamentais e registrava a presença, lado a lado, de autoridades militares e religiosas dando seu apoio ao governo. Sabia, pois, que aquelas instituições estavam juntas e continuava a ver o mundo como você lê estas palavras, da esquerda para a direita. Aliás, quem não era de esquerda tornava-se instantaneamente deplorável. O mundo, então, era de fácil interpretação, tão fácil quanto desenhar os seios arredondados de Sílvia e alguns faroestes: the good and the evil, os bons e os maus, os cronópios e os famas, os legais e os caretas, os da esquerda e os da direita, os intelectuais e os militares, a cultura e a religião, a luz e as trevas.

Então, nos anos 80, o mundo tornou-se mais complexo para o quase-apolítico Adrem. Foi uma enorme euforia e os dois grupos da época de ditadura espraiaram-se num complicado “espectro político”. A esquerda foi invadida pelos cristãos, alguns intelectuais foram para a direita e o mundo começou a dividir-se, segundo Adrem interpretou, em reformistas e continuístas. Tentou analisar o mundo da direita para a esquerda e via algo muito parecido. Apesar disso, permaneceu entrincheirado na sua vaga esquerda artística, humanista e solidária. A nova mania de ver o mundo sob outra ordem, deixou-o viciado em palíndromos, tendo composto alguns muito interessantes, tais como “Ame o Poema”, “Ata-nos, sonata” e “Metáfora, farofa tem”.

Como sói acontecer, o mundo seguiu dando seus giros e Adrem fez-se um respeitado artista gráfico trabalhando em uma agência de publicidade paulista. Casou-se com uma ex-militante comunista, dona de um sobrenome cheio de flores. Tiveram dois filhos. Então, um cristão, amigo seu, tomou a si a missão de convertê-lo. Como consequência, ocorreu algo muito natural: mesmo sendo Adrem um ocupado e bem pago artista gráfico, mesmo e apesar disso, ele passou a reservar parte de seu tempo para trabalhar voluntariamente junto a uma associação de caridade que, como sói acontecer, repito, era ligada a uma instituição religiosa. Dava aulas de matemática para alunos de cursos profissionalizantes. Aquela atividade sem objetivos de lucro tornou-se uma necessidade para ele. Tinha, deste modo, contatos semanais com pessoas que achavam incompreensível que alguém tão ético, humano e solidário não fosse cristão, e que falavam a palavra “ateu” como se pronunciassem uma palavra feia, daquelas que as crianças evitam usar perto dos pais. Ele achava engraçado e não pensava muito no assunto. Um dia, bebendo com o amigo crente após as aulas, este brincou que lhe pediria uma oração no próximo almoço com os padres da escola. Adrem imediatamente ergueu-se e disse:

— Ó Pai, que estás nos céus, colocado lá pela fraqueza, medo, culpa e imaginação de alguns, feito à nossa imagem e portador de nossos defeitos, olha por nós, pobres pecadores, que não usamos teu nome para nada e que vivemos pelo mundo como cães sem dono. Permite que os cães com dono não nos mordam – aqui olhou para o amigo — e que as boas intenções e desespero enviados diariamente por eles a ti, retornem na forma de grandes chuvas de bênçãos e não como tens feito ultimamente. Que a beleza da tua figura, formada em cada poro e célula por nosso afeto a nós mesmos e nosso horror ao vazio, possa espalhar-se pelo mundo e transformar-se em vales de onde jorrarão o leite e o mel necessários a nutrir teu povo…

Ele seguiu dando aulas e ouvindo Chico Buarque; o amigo desistiu da conversão. Comentou sobre isso com sua mulher que, sendo uma intelectual muito culta politicamente, citou-lhe um monte de autores, com a finalidade de explicar-lhe o que estava acontecendo com o mundo — coisas que ouvia desatento.

Numa bela manhã de novembro, ela pediu a separação. Deprimido, Adrem despojou-se de todo seu pequeno patrimônio. Surpreendeu-se com a voracidade que a ex-comunista revelou ao procurar assenhorar-se de tudo o que fosse possível, no que ele cedeu. Com a mesma sem-cerimônia com que aplicava botox, ela procurava cristalizar para si tudo o que pudesse passar perto de ter algum valor monetário. Em contrapartida, o desinteresse de Adrem sobre seu futuro era completo. Após a separação, ela passou a provocar contatos mais longos somente se quisesse examinar mais de perto a possibilidade de ele pagar um pouco mais para ela e os filhos.

O amigo cristão procurava não intervir, apenas contava-lhe histórias sobre São Francisco de Assis… Sem dúvida, o mundo ficara ainda mais complexo. Havia cristãos amigos procurando salvar-lhe a alma, falando-lhe em conversão e emocionando-o com histórias de despojamento e perdão de São Francisco de Assis – mesmo que Adrem dissesse que não havia perdão nenhum envolvido em sua separação; havia ex-comunistas que podiam ministrar cursos de como ser pragmático, focado e açambarcante num cesto de ofídios; havia um governo de esquerda em quase tudo semelhante ao anterior e havia alguém que girava a uma velocidade inferior à do mundo e que permanecia quieto, observando tudo passivamente, não aderindo a nada e com um pouco de medo.

Nessa época, Adrem voltou a Parati para ver Neila. Passaria o fim de semana com o pai. O sotaque e a cara de estrangeiro ficavam bem a um dono de pousada; o inadequado era o empréstimo que seu pai tirara para tornar seu antigo casarão suficientemente confortável aos turistas. Afinal, nem todo mundo odeia TV, nem todo mundo gosta de austeridade e sujeira, muito menos o banco, que prefere ver seus clientes devolverem seus empréstimos de forma copiosa a cada mês. Adrem apenas conseguiu retornar a São Paulo na quarta-feira. Conversou com o banco, refinanciou os débitos, pagou alguma coisa. Um mês depois, voltou para conferir se tudo estava direito; estava; mais duas semanas e ele regressou interferindo na forma de atendimento da pousada, na organização de tudo, o diabo; cada vez vinha mais frequentemente a Parati. O pai concordava com tudo, era como se estivesse passando toda a responsabilidade ao filho, desde a compra das coisas para o café da manhã dos hóspedes até as questões financeiras.

E estava. Um dia, Adrem veio de mudança. Pai e filho seguiram como sempre conversando muito, agora fazendo planos de abrir um alambique. O nome da cachaça deveria derivar do nome do filho, imagina se não.

Obs. 1: Este é um conto antigo e algo raivoso que fora publicado no blog anterior.
Obs. 2: Os palíndromos são de autoria de César Miranda.
Obs. 3: Vi que tem muitos comentários e que já tinha sido publicado no OPS. Por que então estava como “Pending Review”? Sei lá.

Tô nervoso, porra

Vocês sabem como é, né? Não, vocês não sabem. O fato é que eu estou aqui aguardando a audiência e deveria estar na concentração para o jogo contra o Corinthians. O professor Tite me olhou no olho e me liberou meio que no bom coração. Mas me mandou voltar logo. Já está na hora, passou das 14h e o juiz não chamou. Tudo por causa daquele maldito processo de reconhecimento de paternidade que o gordo ali quis fazer quando todos sabem que a Nanda é minha filha.

Indagorinha mesmo, um débil mental me reconheceu e veio falar comigo. Queria saber se eu ia jogar, o que estava fazendo no Fórum, etc. Me deu vontade de responder que tinha vindo comprar pão. As pessoas acham que mandam na vida da gente. Todos acham isso. Ele me disse que era advogado, sócio do Inter, e, depois de me perguntar e reperguntar se eu estava bem para o jogo, me contou que o nome Corinthians veio da tradução inglesa do título de uma das epístolas (ou algo parecido) do apóstolo Paulo, que assim chamava os habitantes da cidade de Corinto, na Grécia, onde joga o Rivaldo. Ele terminou falando que Corinthians era como Maicosuel ou Uélinton — essa parte eu não entendi. Eu — bah! — estava interessadíssimo, só pensando se o Ronaldinho sabia que o nome de seu time era meio grego e ridículo… Com a graça de Deus o advogado chato sumiu e pude observar meus adversários.

Caralho, por que a Lúcia era tão puta? O primeiro que apareceu depois de mim era um magrão que eu não conhecia. Tinha cara de bom moço endinheirado. Vinha do shopping saber se tinha uma filha ou não. Calça de brim novíssima, tênis de atleta olímpico de alto rendimento, um blusão branco com o nome da loja estampado enorme e uns óculos caros e ridículos. Não era muito másculo, mas impressionava pelo investimento no visual, muito parecido com o da maioria dos jogadores. Acho que só pegaria a Lúcia se a bolinha viesse picando. Ah, Lúcia, meu amor, tão vadia. Abri o processo para descobrir o nome da figura: Juliano Martins. Esse não queria a Nanda, dizia desde o começo que teve “sexo casual” com minha mulher. Ela confirmou, mas fiquei na dúvida quando uma mulher mais velha, certamente sua mãe, chegou ao lado dele olhou para todos os lados e falou meio alto:

– Ué, a Lúcia não veio?

Melhor deixar para lá. O problema é o gordo, chamado Luís Fernando Antunes. Ele diz que a Nandinha é a cara dele e quer a guarda compartilhada. Na boa, é um cara muito mal-humorado e está puto com a situação. Na ação, disse que pagou a prótese de silicone da Lúcia, uma lipoescultura e alguns acertos no nariz que me fazem pensar em acertar o dele. Parece que tem testemunhas. Eu queria era levantar o beiço dele e bater só na gengiva. Ele é tão parecido com a Nanda quanto o Michael Jackson de qualquer fase. Se financiou as loucuras de Lúcia, se a deixou mais tesuda ainda, que fique sabendo que quem come a mulher e cria a filha sou eu. Nosso advogado me explicou a coisa assim: o gordinho seria uma espécie de “corno duplo”. É um fodido mesmo.

E eu estou aqui, nervoso. Amo a Nanda tanto quanto a Lu, vocês não imaginam. Tudo o que eu faço é para elas. Quando vim para o Inter, só pensava no carro absurdo que ia comprar. A primeira coisa que me preocupou no clube foi aquela lombada que tinha lá na Av. Beira-Rio. Como é que eu ia sair de lá na minha nave a toda a velocidade com aquela porra logo ali na saída? Desisti do carro esporte e comprei uma caminhonete que nem a do Guiñazu e mandei um troco para a família. Não sabia ainda o que me rondava.

Vi a Lúcia numa praça de alimentação. Ela estava com uma amiga. Estava linda num vestido rosa decotado. Achei que tinha direito àquilo. A sacana me sorriu de longe e eu, olha, eu nem sorri, acho que gargalhei, tal era o monumento que me dava bola. Para chegar foi fácil, a amiga dela sumiu e ela ficou me esperando. Enrolei uns dois minutos e levantei. Ela logo foi me dando lugar. A primeira coisa que me deixou maluco era que a beldade loira sabia tudo de futebol e era colorada. Tudo a ver comigo. É simplesmente inacreditável que ela tenha dado trela praquele gordo. O magrão, tudo bem, anda na moda, é bonitinho, coisa e tal, mas aquele balofo não tem nada a ver. Deixa eu ver aqui no processo: É “empresário”, o magrão é “estudante”. Vão se foder!

Aí começaram as viagens e eu acho que virei titular só pensando no que estaria fazendo a Lúcia. Nunca paro de ter ciúmes dela. Depois que a conheci, passei a treinar como o Guiña, só de ódio, pensando no que a Lu não aprontaria enquanto eu estivesse quarando na concentração. Ela gosta muito da coisa; se um dia ela enfiasse a língua numa tomada lá de casa, estouraria a rede elétrica do condomínio inteiro; se põe os olhos em alguém, é pau duro na hora. Tem que ter preparo para ela. E me aparece aquela figura roliça para me encher o saco… Como é que ela não desmontou ele? Pois montar é com ela mesmo, e aí a gente fica olhando aquela coisa perfeita em cima da gente e é uma desgraça. E, nos outros momentos, tem a Nanda, a minha queridinha. Ela é quem faz questão de ir aos jogos me ver. Ela é que se apavora quando eu caio. Ela foi a homenageada quando fiz meu primeiro gol depois de mais de trinta partidas como titular. Minha função não é a de fazer gols, mas me pifaram, fiz um e apontei para ela nas cadeiras. Sei onde elas sentam.

Até o mês passado, tudo era maravilhoso. Ganhávamos de todo mundo, aí o professor inventou de “poupar” jogadores. Eu não quero nem saber, gosto e preciso de dinheiro e por mim jogava todas. Mas o negócio de treinar mais e jogar menos acabou desentrosando o time, que hoje perde para todo mundo. Ganhamos domingo, mas eu não estava jogando. Olha, nem sei se a Lu e a Nanda devem ir amanhã. O jogo tem tudo para ser arrastado, com os corintianos fazendo o tempo passar e com a merda do Ronaldinho só esperando uma chance. Tô nervoso com o jogo, claro, e tô nervoso com o processo. Aliás, já pensou se amanhã a Nanda fosse ao jogo com o roliço? Ah, eu dava um soco naquele Elias. E se o cara for gremista e ficasse se empanturrando com ela na frente da TV, dando risada da nossa cara? E a Nanda? Não vai ser ouvida só porque tem 3 anos, caralho? Ela me adora e eu adoro ela!

Putz, eu tenho que voltar para a concentração. O professor vai me matar. Ainda bem que ele viu que isso é importante e sabe como eu sou com a Nandinha. O que a Lu viu naquele saco de gordura? A conta bancária? E a Nanda, o que acharia dele? Criança é volúvel e ela é filha da Lúcia, que parece gostar de todo mundo. Naquele dia do shopping, ela deixou o carro dela no estacionamento e fomos na minha caminhonete para o motel. Ela é louca mesmo. Vi que tinha ficado impressionada com minha BMW preta. Foi uma tarde e tanto. Vi estrelas naquela cama e mais ainda na banheira de hidromassagem. Numa hora, Lúcia ficou em pé para sair e vi seu corpo perfeito e molhado, com todas as curvas aumentadas e refletidas pela luz do quarto. Uma corpo daqueles escraviza o homem. Será que não vão considerar que amo a Nanda e sou tão ciumento dela quanto da mãe? Daria tudo para que ela fosse filha do magrão babaca, o filhinho da mamãe.

Era o destino, já no primeiro dia enquanto a via sair da banheira de hidromassagem, notei uma pequena barriguinha. A Nandinha já estava ali, com os choros e risadas que conheci depois. Conheci as duas juntas no mesmo dia, entende? Ela simplesmente não tem nada a ver com aquele babaca gordo tipo Ronaldinho.

Mas estão nos chamando para dar o resultado do exame.

Visitantes

Sou um detetive particular brasileiro. Aqui, nosso trabalho não é aquele de ficar sentado numa saleta enfumaçada, interrogando elegantemente uma bela mulher sob luz amarelada, adornada por um lento ventilador de teto. Aqui, acostumamo-nos a apenas ouvir ligações dos outros. Só saio de casa para projetar e instalar grampos e olhe lá. No Brasil, nosso trabalho foi rebaixado ao de ouvinte. Trabalhamos para políticos, empresas, esposas e maridos. Violência, na minha vida, é apenas a moral. Colocamos os fones de ouvidos e ouvimos o que nos contam os arquivos sonoros. É chato, mas pagam razoavelmente. Eu sempre trabalho meio bêbado, com um copo de Bailey`s a meu lado. Eu não o tomo como licor, mas à irlandesa: com gelo e em boa quantidade. É o correto. Apesar de gelado, lembra o líquido do seio materno. Aquece.

Quando comecei, há décadas, mantinha uma pequena nota numas páginas amarelas aí — Décio Marques, investigador particular e um número de telefone. Hoje, sou conhecido, não preciso mais de propaganda, tenho muito trabalho. Gravo 30 ou 40 horas por dia de besteiras. É claro que não ouço a metade. Em 15 segundos, decido se a conversa interessa ou não e, se achar que é abobrinha, pulo para a próxima. Mesmo assim, os resultados são bons, os clientes gostam de meu trabalho e de minha discrição.

A maioria daqueles que me descobrem são maridos e esposas. Num final de tarde, recebi uma ligação curiosa. A moça estava muito agitada.

— Acabo de voltar de uma viagem e tem gente aqui em casa.
— Sim. E quem são?
— Eu não vi, mas está tudo bagunçado. Minha casa foi deixada limpa, com tudo em seu lugar.
— De onde a Sra. fala?
— Daqui do apartamento.
— A senhora deveria retirar-se imediatamente e ligar para a Brigada Militar, telefone 190.

Nada de interessante. Depois de uma hora, nova ligação. Era ela.

— Olha, vieram uns PM`s aqui e disseram que o apartamento está vazio, mas quero descobrir quem pode ter invadido.

Tanta foi a insistência que fui. O apartamento era de alta classe média. Muito bonito. Olhei rapidamente para a moça. Tinha marido? Não. Como não ia ficar olhando os móveis, as pinturas, o tamanho da sala, limitei-me a dizer que o prédio me parecia seguro. Ela negou veementemente. Olhei-a nos olhos fazendo questão de demonstrar não estar impressionado com o apartamento que era também organizadíssimo.

Então ela me mostrou a cozinha. A pia parecia uma instalação da Bienal: uma montanha de panelas, copos, pratos e talheres. Tudo sujíssimo e bem recente. Molho de tomate à beça. Nenhuma podridão. Comecei a fazer-lhe perguntas sobre quem tinha suas chaves, mas, por deformação profissional, já planejava silenciosamente alguns grampos. Em meio à conversa, comecei inadvertidamente a lavar a louça. Estava acostumado, não gostava de acumular na pia coisas que se tornavam malcheirosas ao amanhecer. Ela não reclamou nem fez menção de me impedir.

No outro dia, nova ligação. No seguinte, também. E sempre a montanha na pia. Aquilo parecia A Montanha Mágica: enorme, de abordagem cuidadosa e todo dia eu parecia voltar ao mesmo ponto. Tornou-se um hábito tão arraigado que eu já nem esperava ser chamado. Ia direto.

Hoje, ouço lá meus arquivos de áudio. Além dos políticos de sempre, suas amigas (e amigos) são meus clientes. Todos sabem de minha profissão, mas nem sonham que já investiguei alguns deles. Houve um marido que me pagou para acompanhar a esposa; dez dias depois ela me pediu o mesmo em relação ao marido. Que remédio, fiz os dois trabalhos. Perguntei à Daniela o que deveria revelar e se ela achava adequado mantê-los juntos. Acabei produzindo uma peça de ficção cor-de-rosa e mantive o casal junto. Pus algum contorno erótico na mulher, mas garanti-o como coisa irrealizada; no outro relatório, escrevi que o homem era adito de uma secretária no passado, porém ele nunca quisera abandonar a esposa e a família.

A aventura com a “secretina” — como a mulher referia-se à vagabunda –, era o motivo do desinteresse do marido por minha contratante. Por outro lado, ela se contentava, como a Madonna. Meus emolumentos vieram acompanhados de suspiros de alívio, ambos crédulos de suas respectivas espertezas.

Temos 3 filhos: Sarah, Iaron e o Junior. Nunca comprei um lava-louças automático. A pia ainda é minha. Levo uma vida sossegada de reprodutor extinto. Estou enfadado do trabalho, durmo muito ouvindo as gravações de políticos. Um paga, o outro recebe, tudo sempre igual. Meu Bailey´s fica aguado, o que é detestável.

Atravessando a rua

Algunas claves del futuro no están en el presente ni en el pasado. Están, extrañamente, en el futuro.
MARIO BENEDETTI

Busco minha filha no colégio. Ela está do outro lado da rua, esperando-me no portão. Ela me vê e sorri. Não atravesso, apenas sigo por minha calçada enquanto ela caminha pela sua, acompanhando-me. Caminhamos paralelamente e evito voltar o rosto para Luísa. Vejo-a apenas perifericamente. Sei que ela me observa e que gosta da brincadeira; aliás, costuma gostar dos jogos que improvisamos. Vamos subindo a rua quando ela grita:

— Pai, vem cá!

Começo a atravessar a rua, porém, ao chegar na metade do percurso, volto para meu lado. Ela ri muito e me chama novamente. Então, atravesso para lhe dar um abraço de urso e uns beijos de esquimó. Ela me pergunta:

— Por que tu não atravessou quando eu te chamei?

— Filhinha, não era o momento.

Ela aceita minhas fundadas razões e diz que, se eu tivesse atravessado antes, poderia ter falado com sua professora.

— Sobre o quê?

— É que hoje todo mundo fez um trabalho em dupla e eu fiquei sozinha. Me deu vontade de chorar e no fim fiz tudo errado.

— Quando vocês se juntam em duplas, fica sempre um colega sozinho?

— Fica. Sempre sobra um.

— Então é porque o número de alunos é ímpar. Por que não há um grupo de três? Tu não poderias te juntar a um grupo já formado?

— Não sei — respondeu com cara de quem podia explodir em lágrimas.

Paro de falar. Luísa é tímida. Uma bela, loira e tímida amante dos animais; dos cavalos, sobretudo. Ponho a mão em seu ombro e ela vai se acalmando. Caminha apoiada em mim. Penso em como seria minha conversa com a professora, se mudaria alguma coisa. Penso em como nossas atitudes alteram os fatos futuros. Se atravessasse logo a rua, a conversa com a professora teria deixado Luísa mais feliz na escola? Ou a lembrança de mais uma brincadeira comigo a deixará mais contente? Penso em minha vida — recém-separado, uma filha — e em como ela poderia ser se… Se não tivesse me formado em informática? Se tivesse seguido jornalismo? E se tivesse aceitado aquela vantajosa proposta de emprego em São Paulo? E se tivesse preferido morar com Simone a ficar com Adriana, mãe de Luísa? Não. Sou obrigado a eliminar todos os “ses” que me impeçam de ter a filha que tenho, pois minhas fantasias não têm forças para progredir sem ela. Escolho então a mãe dela, novamente. Ponho tantas limitações nos meus “ses” que acabo por desistir e volto a estar onde estou: aqui, caminhando com minha filha. Mesmo achando que perdi infinitas possibilidades, mesmo pensando que haveria alternativas melhores, reconcilio-me provisoriamente com meu passado.

-=-=-=-=-=-

Paulo era um homem modesto, culto e pacífico. Raramente alterava o tom de voz cortês e ligeiramente irônico. Mesmo nas circunstâncias mais difíceis, mantinha uma postura elegante. Sua gentileza era de tal ordem, que ele parecia não se importar em atrair desgraças e culpas para sua pessoa. Nesse sentido, aquela era uma época especial. Sua esposa Adriana havia-lhe anunciado há uma semana a intenção de separar-se. O anúncio fora muito delicado, com perguntas sobre se ele não achava que a relação estava desgastada, se ele não desejava ter uma relação “autêntica” com outra mulher, se eles realmente pretendiam seguir naquele marasmo; também ouvira um pequeno discurso sobre a importância de que os três ficassem bem, sobre o carinho que sentia por ele, etc. Mesmo no âmbito familiar, sua extrema gentileza impedia-o de qualquer reação.

Não poderia dizer que fora surpreendido por aquele momento que, para ele, tivera o significado de uma simples ordem de despejo. Sentira imenso ódio, mas qualquer presença – mesmo a de Adriana – servia para brunir seu verniz externo. Atrapalhadas, sua lhaneza e franqueza faziam-no oscilar entre o não querer magoar e o não distorcer. Tão imperiosas e conflitantes eram tais necessidades que, muitas vezes, hesitava e deixava frases pela metade. Enquanto ouvira sua esposa argumentar sobre a separação, interrompera-a várias vezes, mas as frases que gerava acabavam, o mais das vezes, em reticências.

Agora, solitário, deitado de bruços em sua cama, queria arrancar os próprios cabelos, ainda mais quando pensava em sua filha Luísa. Queria parar de pensar na separação e estendeu o corpo para pegar a biografia do pianista Glenn Gould que estava sobre o criado-mudo. Abriu o livro na página 105 e leu. Desde o início de sua carreira de concertos, Gould falava bastante em abandoná-la. Fechou o livro e virou-se, deitado agora de costas, olhando o teto.

-=-=-=-=-=-

Durante o tempo em que vivi com Adriana, sempre a senti superior a mim em todos os sentidos. Tão superior, que qualquer sugestão dela era sempre acatada. Não era uma mulher bonita, longe disso, mas ligar minha vida a alguém com tanto brilho e méritos pessoais, aliados a um poder econômico tão avassalador, foi, no mínimo, imodesto de minha parte. Sou de todo diminuto. Quando a conheci, ela desejava um filho imediatamente, dizia que estava na idade de tê-lo. Tivemos Luísa.

Penso em como ela reclamava de mim durante nossa vida em comum, em como falava sobre meu irrisório salário – minha pensãozinha, dizia -, e em como criticava minha incapacidade para ganhar dinheiro. Também gostava de me ridicularizar criando um estranho sucedâneo de análise psicológica. Sendo médica e conhecendo o jargão, divertia-se colocando cada item no escaninho mais adequado. Se eu fazia isto, ia para a classificação “passivo-agressivo”; se aquilo, caía nas “reparações maníacas”; se aqueloutro, ia direto para os “sinais inequívocos de depressão”; etc.

Talvez a inabilidade para resolver meus problemas financeiros tenha-me levado a um desinteresse gradual por minhas atividades profissionais e, conseqüentemente, por sugestão de Adriana, passei a freqüentar uma psiquiatra que era paga por ela para exercer sua profissão comigo, tal como uma prostituta. Queriam melhorar minha auto-estima, mas eu pensava ser inútil discutir assuntos econômicos em minha terapia e varria-os para baixo do tapete sob a classificação de “sem importância”.

Abandonei tudo isso e hoje passo muito tempo na cama. Penso, penso e sofro, sempre ouvindo música. Admiro os casais que se separam por um tempo e depois voltam a seus casamentos em outros termos. É uma atitude de fé no outro e tal remodelação deveria ser ecológica para nossa condição. E minha única fé, a mesma que não consigo manter agora, sempre foi no outro.

-=-=-=-=-=-

Paulo viu sua ex-mulher atravessando uma rua pouco movimentada e acelerou o carro em sua direção. Foi um ato impensado, automático e louco. Estava cego de ódio e, naqueles segundos, enquanto sentia seu pé pressionando o fundo do acelerador, imaginava-se vazio de emoções e já planejava confusamente a fuga quando ouviu alguém gritar. Desviou subitamente e fugiu com grande dificuldade, quase batendo em outros veículos estacionados. Adriana reconheceu o carro. Ele nunca se julgara passível de cometer um ato desse gênero. Assustado e suando muito, desligou o celular e não encontrou lugar melhor para ir do que a um cinema. Passou duas horas detestando-se no escuro, presumindo os pensamentos que sua filha teria sobre o assunto, as conseqüências que aquilo teria para a guarda da criança, a opinião dos amigos, e em como dormiria a partir dali. Saindo da sala, comeu um sanduíche e dirigiu-se ao carro.

-=-=-=-=-=-

Tudo foi muito rápido. Entrei no carro e notei que tinha companhia. Não fiquei muito nervoso, o que de pior poderia acontecer? Eram três rapazes armados. Deviam estar drogados, pois gritavam todos ao mesmo tempo e me batiam desorganizadamente. Um deles disse que eu deixara o carro aberto e que, sendo assim, estava pedindo para ser roubado. Iria visitar alguns caixas automáticos com eles. Sempre sob ameaças de morte, com as quais não estava absolutamente preocupado, fui do banco da frente para o banco de trás do carro. Fizemos algumas retiradas e, como a renda obtida ficara abaixo da previsão dos seqüestradores – sempre eu e minhas dificuldades financeiras! -, acabei no porta-malas com a seguinte sentença: ou me “apagariam” num descampado ou pediriam resgate. Achei graça naquilo.

-=-=-=-=-=-

Enquanto isso, a mãe de Paulo recebia vários telefonemas histéricos de sua ex-nora procurando pelo assassino.

— Ele não está em casa, Adriana.

— Aquele puto tentou me matar!

— Tu deves estar falando metaforicamente…

— Metaforicamente uma merda! Ele tentou me atropelar! Aquele ressentido do seu filho está doido!

Dona Elisabeth telefonou para Paulo e surpreendentemente foi atendida por um cidadão aos berros, dizendo que o dono do celular estava sendo seqüestrado, que seria pedido resgate e que ela aguardasse ordens a qualquer momento. Sua rotina de aposentada dificilmente incluía conversas como aquela e ela, nervosíssima, ligou para a polícia.

Do outro lado, um policial tentava entender o caso. Havia dois chamados envolvendo a mesma pessoa. Numa versão, Paulo Alves era um ex-marido que cometeria um crime passional, noutra era uma pobre vítima de seqüestro; era algoz na primeira ocorrência, vítima na segunda. Melhor esperar.

-=-=-=-=-=-

— Como vai, mal?

— Sim, muito mal. Quem és tu?

— Nós somos o mesmo Paulo, a mesma pessoa. Vim do futuro – estou alguns anos a tua frente – para te visitar e auxiliar. Sei que sofres muito. É muito natural que tenhamos grande apreço um pelo outro. (Sorriso simpático) Tua vida vai mudar completamente nos próximos meses e eu voltei no tempo para te dizer que sobreviveste.

— Não basta eu estar desesperado e ainda me vem um louco…

— Não somos loucos.

— Como tu poderias me provar que és… eu?

— Vou te provar quem sou. Ouve com atenção: nossa primeira relação sexual foi com uma colega de aula chamada Maria Cristina, que morava na Rua Santana e, depois de termos beijado apaixonada e insistentemente a moça – que era esplêndida! – na porta de sua casa, colocamos o dedo indicador em seu peito e a empurramos delicadamente para dentro. Entramos juntos, é claro. O ato foi consumado na sala, atrás do sofá, enquanto os familiares dela dormiam com os anjinhos. Tu nunca contaste isso para ninguém.

— E tu, contaste?

— Contei para ti agora, mas antes já tinha contado para a Nina.

— Que Nina?

— Uma pessoa que vamos conhecer no próximo dia 3 de abril, através de um site.

— Eu vou conhecer uma pessoa através de um site? Que baixaria!

— É surpreendente que digas isso. Principalmente se considerarmos a absoluta convicção com que fizeste… a baixaria.

— Tu estás mais gordo e grisalho.

— É o tempo. Porém, quanto ao peso, discordo. Aumentamos pouca coisa, só três quilos. Tenho 73 Kg, tu tens 70 Kg. Para nosso 1,71m está bom.

— Minha vida vai melhorar?

— Hoje não sofremos tanto.

— Vou me separar mesmo?

— Já estás separado, lembras?

— Vamos por partes. Como será?

— A grande cena já ocorreu. Não descobrirás nada que não saibas hoje. Apenas será dado silenciosamente um ponto final a esta relação indigente. Será o caso clássico, vais pensar seriamente em suicídio e, também de forma clássica, não darás nenhum passo nessa direção. Terás vontade de chorar em frente aos outros ou dentro dos cinemas, farás enormes esforços para te conter; porém, sozinho, não derramarás nenhuma lágrima. Será desespero seco.

— E Luísa?

— Será tua melhor lembrança do período. Ela te dará apoio e será indulgente com tua “nova pobreza”.

— Mais pobreza?

— É claro, mesmo que ganhasses o suficiente, os ganhos do casal não duplicam com a separação e vocês têm de manter duas casas. É uma questão de matemática simples.

— Acho que não quero continuar conversando…

— A curiosidade pode matar…

— A mágoa mata mais.

— É verdade e é um livro do Saul Bellow. (risadas de ambos)

— Queria saber uma coisa.

— Estou aqui para isso.

— Hoje tenho a perspectiva que conheces, quero saber quais as perspectivas que terei na tua época. Serão outras? E quem é essa Nina? Eu já casei de novo? Onde vou morar?

— Calma, estás muito ansioso e tuas perguntas são muito amplas.

— E… neste ínterim… vou comer muitas mulheres?

— Te responderei primeiro à última pergunta: só umas três. Depois, a Nina vai te açambarcar.

— Voltemos à pobreza.

— Escolheremos nossa filha na separação. Sairemos despojados do casamento. Deixaremos tudo para trás. A intenção será a da busca da tranqüilidade mediante uma tremenda auto-agressão, uma coisa inofensiva a qualquer um que não sejamos nós mesmos e que visará demonstrar uma certa nobreza de caráter, uma elegância ao estilo do século XIX… Será uma tentativa de recomeço aos 40 anos. Logo depois, teremos a certeza de ter cometido um erro. Nossos amigos não entenderão, acharão injusto e até seremos instigados por eles a fazer uma revisão das coisas. Porém, não faremos nada. Talvez o reconhecimento deles baste para nos deixar tranqüilos.

— Acho que prefiro assim mesmo. Mas pelo menos vou ficar com os meus livros e CDs, não?

— Claro que vais. Vais te livrar das posses, não de ti mesmo. (risadas)

— Até porque é meio complicado conseguir uma coisa dessas… Vai ficar alguma coisa minha lá?

— Nossa filha. Não, esquece essa observação. Não, não vai ficar muita coisa, não será necessária uma troca de prisioneiros em grande escala, até porque vais deixar quase tudo. Além disso, mesmo hoje, quer dizer, na época em que vives, as coisas já estão separadas, prontas para a cisão.

— Eu quero que tu respondas às perguntas que fiz antes. Quero saber de tuas perspectivas, sobre minha situação com essa Nina, onde vamos morar, etc.?

— Calma. Falaste na mesma frase sobre “minha situação”, “tuas perspectivas” e “onde vamos morar”…

— É que nunca estive numa situação como esta, conversando com um duplo futuro.

— Me encare como um gêmeo um pouco mais grisalho. Vamos às perguntas: sairás da tua casa para morar com a mãe. Terás muita vergonha disso.

— Como é que é? (Engolindo em seco) Eu vou voltar para a casa da mamãe? Vou dormir no quarto de onde saí para morar sozinho?

— Sim. E, apesar da vergonha que terás de teu domicílio e de tua depressão inicial, viverás muito bem lá. Nossa querida Elisabeth não será invasiva, nem desagradável. Te dará a mais consoladora das hotelarias e a maior liberdade.

— Bela peça de propaganda imobiliária…

— Não sejas injusto. Acabarás enchendo de música e de roupas para lavar e passar a vida de duas velhinhas. Luísa adorará a casa enorme cheia de quinquilharias e o serviço cinco estrelas que terá. A empregada vai tomar como lei cada pedido dela. Dará tudo certo.

— E essa Nina?

— Não vou te tirar a surpresa descrevendo-a. Posso te dizer que ficaremos longo tempo entre duas casas. Dormiremos fora cinco dias da semana e, nos outros dois, ficaremos com Luísa na casa da avó. Será uma fase muito cigana e feliz. Muitas vezes vamos errar as roupas. Levaremos roupas leves e o dia amanhecerá frio. Então, ficaremos tiritando sob roupas leves e amarrotadas.

— Como vou conhecê-la?

— Tu vais ficar muito tempo em casa e te dedicarás muito à música, à leitura e à Internet. A Nina virá através da rede e será a mais bem-vinda das surpresas. Redescobrirás quão grudento podes ser quando apaixonado. Ficarás todo o tempo possível junto dela. Ela está muito presente no capítulo perspectivas.

— E a Luísa gostará dela?

— Quando souber de Nina, Luísa ouvirá tudo com aparente frieza, mas, depois de uma semana, perguntará: “Vou ter duas mães?”. Responderás a ela que a Nina será mais uma amiga que ela terá. Serão amicíssimas.

— E as perspectivas? Quais serão meus desejos, planos, possibilidades?

Paulo acorda.

-=-=-=-=-=-

Desconhecidos estavam mexendo no carro. Suas vozes e sotaques não pareciam ser os dos seqüestradores. Paulo começou a gritar e a esmurrar a tampa do porta-malas. Rapidamente o compartimento foi aberto e ele viu-se cercado por pessoas que pareciam agricultores numa estrada de terra.

— Onde estou?

— Não sabe onde está? Parece que o moço veio de longe –- riram. — Ora, aqui é município de Bom Princípio, na serra. Atravesse a estrada e vamos tomar um café. Depois a gente avisa a polícia. Que cara horrível, hein? Porta-malas pequeno…

Desanuviado, tranqüilo mesmo, Paulo pensou que o seqüestro podia tornar-se útil. Mesmo que Adriana dissesse que ele estava sozinho no carro, convenceria a todos de que já estava acompanhado de seus seqüestradores no momento do incidente. Iria acusar seu nervosismo e aquele bando de malucos por terem-no feito dirigir daquela forma desatinada, quase a atropelando. Muita coincidência ela estar justo naquele momento passando por ali. Estava sob forte tensão. Não queria matar ninguém, não tinha visto nada direito. Era alguém muito tranqüilo e… bem, se o investigador for homem, certamente será compreensivo. Se for separado, melhor ainda.

Meu último aborto

Ela dirigiu-se a minha mesa e disse:

— Depois preciso falar com o Sr. em particular.

Era uma de nossas estagiárias, a que fazia um misto entre auxiliar de escritório, substituta da secretária e telemarketing. Só os três estagiários me tratavam como “senhor”. Nossa empresa era pequena – quatorze pessoas – e ela, com 16 anos, era de longe a mais jovem. Todos nós trabalhávamos muito e acumulávamos funções muitas vezes díspares. Sendo um dos sócios, além de alguns trabalhos técnicos, responsabilizava-me pela parte financeira e de pessoal.

— É assunto urgente?

— Sim.

Ao final da tarde, enquanto os outros funcionários iam embora, fechei-me com ela na sala de reuniões.

— Olha, seu Flávio, preciso de um adiantamento.

Era só o que faltava, a estagiária de 16 anos e que mora com os pais pedindo adiantamento. Só lhe daria se fosse para algo relacionado com seus estudos. Comecei a pensar na desculpa. Porém, na realidade, sempre deixava algum valor reservado para esses pedidos. Os solteiros raramente solicitavam adiantamentos, os casados sem filhos também não, só os que tinham filhos ou estavam a ponto de tê-los é que vinham pedir-me valores para serem descontados no dia do pagamento dos salários. Éramos uns duros, mas estávamos crescendo. Quando ouvira a reclamação de que não tinham dinheiro para almoçar, fizemos vales-refeição para todos. Quando financiara o parto da mulher de um funcionário, colocamos todos em planos de saúde. Quando houve problemas com os altos preços dos remédios, fizemos cartões de farmácia cujos valores eram descontados ao final do mês. Mesmo assim, e apesar de que, considerando o mercado, pagávamos bons salários e raramente perdíamos funcionários, havia sempre os apertos de última hora. Era difícil evitar dar algum adiantamento, pois éramos todos muito próximos e eu tenho o coração mole, costumo assumir o problema dos outros, apesar das reclamações de meu sócio.

— De quanto tu precisa? — perguntei; afinal, ela ganhava apenas R$ 450,00 e talvez pudesse pagar do meu bolso.

— Preciso de R$ 2.000,00.

Tomei um susto e quase ri de sua pretensão.

— Mas, Mariana, tu recebe R$ 450,00 mais transporte e refeições…

— É, só que eu preciso mesmo! Tenho um grande problema.

Que saco, ela quer que eu pergunte qual é.

— Mariana, eu não posso adiantar um valor que é quatro vezes o teu salário. Além do mais, tu não tens vínculo empregatício e como é que vais passar os próximos meses sem receber?

— É que eu preciso fazer um aborto e o cara que faz isto direito, numa clínica, com higiene, cobra isso.

É, ela desejava realmente dizer qual era seu problema. E que problema. Nada mais típico; um caso de gravidez na adolescência. Sentindo-me cada vez mais desconfortável e sabendo que não deveria me envolver, fiz o contrário:

— E o pai?

— O pai? Bom, seu Flávio, não tenho bem certeza, mas acho que é o Chico.

— Chico? Ai, meu Deus, o nosso melhor analista estava comendo a menina. Ao menos era solteiro.

— Ele sabe?

— Sim, mas o Chico quer ter o filho. Eu não quero. Imagine, não tem nada a ver, eu com uma criança na casa dos meus pais em Guaíba. Meu pai me mata. E não vou ficar cuidando de filho nessa idade. A barriga é minha. E eu, casada? Brincadeira, né?

Dizia para mim mesmo: não te envolvas, mas… Acabei falando uma besteira.

— Mas o Chico tem um apartamento.

— É um cu – respondeu, fazendo um círculo com o polegar e o indicador — e eu já disse que não quero ser mãe agora! – Só não fala com ele, ele vai vir com o papo de que é filho dele, que é contra o aborto, vai falar em religião, etc.

— Vou ver o que dá para fazer; não posso te dar um adiantamento desses sem falar com o Leonardo.

No outro dia, não falei com Leonardo, meu sócio; porém Chico sentou-se a minha frente.

— A Mariana veio te encher o saco?

— Não entendi.

— A Mariana não te pediu dinheiro?

— Pediu.

— Quanto?

— R$ 2.000,00.

— Pois é, cara, e eu nem sei se o filho é meu. Essa guria trepa com meio mundo, cheira e fuma de tudo, deu para um colombiano que vende artesanato na Praça da Alfândega e o filho é meu?

— Chico, eu não tenho nada a ver com essas histórias, mas também não quero que a empresa vire uma novela mexicana, nem colombiana.

— Sou contra o aborto. Não vou à igreja, mas sou católico. E é um crime. As clínicas são clandestinas. E se ela morre?

Fiquei em silêncio.

— Eu propus assumir a criança, mas ela está louca. Chegou a levar cocaína lá para casa, só para mostrar como era irresponsável. Brigamos e ela foi para Guaíba de madrugada.

— Ela é drogadita mesmo?

— Claro — disse ele, num simulacro de riso. -– Mora na periferia, é difícil ser diferente.

Fiquei em silêncio, pensando idiotamente em qual seria a frequência dos ônibus para Guaíba de madrugada.

— Ela passa muitas noites lá em casa. Sai com as amigas e depois vai para lá. Bate no porteiro à uma, duas da madrugada. Às vezes só deita e dorme.

— Chico, e se ela persistir com a intenção de tirar a criança? Eu não vou emprestar essa grana para ela. Tenho que ser um pouquinho profissional.

Chico era muito importante em nosso trabalho. Sempre ficava com a parte mais difícil dos projetos. Tinha formação sólida e era competente, interessado.

— Chico, olha aqui. Fala com ela. Vocês têm que resolver. Não querem que eu decida, né?

— Tá bom, mas tu farias um aborto?

— Sei lá. Não sou eu quem deve resolver.

— Tá, mas eu quero ouvir a tua opinião — insistiu Chico.

— Já sou responsável por muita coisa. Pára com isso.

— Mas uma namorada tua fez aborto há duzentos anos atrás, tu falaste nisso uma vez.

— Sim, mas nada a ver com vocês, cara, resolve – disse-lhe.

Passaram-se duas semanas, Mariana faltou ao trabalho e Chico veio conversar:

— Fizemos a porra –, disse ele. — Ela vai ficar hoje em casa.

— Tu foste com ela?

— Não, só paguei. Ela foi com a irmã.

Meu papel parecia ser o de ficar quieto. No dia seguinte, Mariana estava toda feliz e dava saltinhos de felicidade pelas salas. Logo depois, sumiu por uma semana sem dar explicações. Retornou dizendo que estivera em Santa Catarina, numa praia. Achei a coisa verdadeiramente engraçada e tivemos uma longa e divertida conversa ao final da qual lhe disse que tinha que suspender seu estágio. Ela riu, deu-me dois beijos e despediu-se de todos.

Hoje, nove anos depois, Chico é casado e sua mulher está grávida do primeiro filho, que será, segundo ele, um menino torcedor do Internacional. Há dois anos, vi Mariana na rua quando ia almoçar. Estava magérrima, estranha. Fingiu que não tinha me visto, mas, por puro acaso, reencontrei-a uma hora depois no elevador. Nossos olhares se cruzaram rapidamente e não a cumprimentei, pois não sabia se ela queria ser reconhecida, mas notei um sorriso nascente e fiz-lhe um sinal com a cabeça. Ela perguntou se o escritório tinha se mudado para aquele edifício. Respondi que sim. Saímos juntos do elevador no meu andar e conversamos. Ela estava agitada, contou-me que coisas “muito loucas” tinham acontecido, que passara três anos na Suíça, que fazera faxinas e participara de colheitas, que sabia como viver lá com pouco dinheiro, quase sem pagar comida nem locomoção e que queria voltar logo, nem sabia por que estava aqui. Como se ainda trabalhasse conosco, pediu-me uma grana, qualquer coisa. Dei-lhe R$ 50,00. Eu queria me livrar dela. Aquele encontro estragou meu dia.

Contei o encontro ao Chico, que ainda trabalha conosco. Muito emocionado, disse-me que Mariana tivera aquela criança e que ela estava abandonada na casa de sua mãe. Ele soubera por uma amiga comum e procurou Mariana; só depois de muito esforço conseguiu um contato telefônico. Ele queria fazer um exame de paternidade. Ela o mandou se foder, mas Chico foi a Guaíba e encontrou a menina em situação miserável. A avó deu graças a Deus achando que finalmente ia livrar-se daquele peso que sua filha tinha-lhe deixado. Foi fácil convencer a velha a fazer o teste, só que o resultado apontou para outro pai. Mesmo assim, Chico insistiu com sua mulher para adotar a criança ou para dar mensalmente algum dinheiro à família, porém isso quase custou-lhe o casamento. Então voltou a Guaíba, deu um monte de roupas e presentes para a criança e ouviu a mãe de Mariana dizer que ele era um desgraçado de um pau no cu.

A Intimação

O Oficial de Justiça toca a campainha e aguarda. A porta da casa é aberta:

— Bom dia.
— Bom dia.
— Eu procuro pela senhora Alexandra Heilborn Silva.
— Sou eu mesma.
— Sou o Oficial de Justiça Luiz Cohen e trago uma intimação para a senhora. Trata-se de uma ação impetrada por Olavo Carvalho Silva.
— Meu marido!
— Seu marido?
— Sim. Ele está no trabalho. Deve haver algum engano.
— Deixa eu verificar… Exatamente, Olavo Carvalho Silva contra Alexandra Heilborn Silva.
— Estou pasma. Cada uma…
— É isto mesmo. Olavo Carvalho Silva processa Alexandra Heilborn Silva por danos morais.
— Danos morais? Que loucura! Que danos?
— Ele lhe acusa de ter fingido orgasmos por mais de 30 anos…
— …
— … e que ficou com graves problemas psicológicos ao descobrir. Ele teme que sejam irreversíveis.
— Mas ele dormiu comigo hoje!
— Bem, diz aqui que sofreu tal decepção, frustração e choque que não consegue mais.

Alexandra começa a chorar. O Oficial de Justiça olha para os lados. Ela o convida para entrar. Sentam-se na sala e ela continua:

— Danos morais? Por que não pediu separação?
— …
— Bom, é que não fazemos há algum tempo. Mas eu não sabia de maiores problemas.
— Ele pede uma indenização para se recuperar e recomeçar nova vida.
— Recomeçar? Ele é um velho! Tem 62 anos e quatro filhos!
— Eu mesmo tenho 59, mas não vem ao caso… Desculpe.
— … eu é quem devo pedir desculpas. Bem, mas somos uma família católica e não haverá separação.
— Isto é com vocês.
— O que o Sr. acharia se recebesse uma intimação dessas?
— Eu não receberia, minha senhora.
— Ah, é? Você tem uma varinha de condão que faz as fêmeas urrarem de prazer?
— Não, minha senhora. Sou normal… Minha esposa também. Quer dizer, nos entendemos.
— Você consegue segurar?
— Quase sempre.
— Quanto tempo?
— Nunca cronometrei, minha senhora, mas minha esposa é rápida.
— Rápida? E eu devo ser lenta, não?
— Eu não disse isto, Dona Alexandra, repito, eu não disse isto. E mais: eu nem deveria estar tendo esta conversa com a senhora. Eu só entrego papéis e colho assinaturas.
— Mas agora eeeeeu quero conversar e não assino este papel sem que o senhor me diga.
— Diga o quê?
— Olhe, eu sou católica desde pequena, tinha vergonha até de olhar para minhas partes íntimas. No banho, só lavava. Não aprendi a me conhecer. Aquilo era para meu futuro marido. Nunca me masturbei.
— Bem…
— Quando casei, foi uma decepção. Ele vinha e me comia, só. Depois, comecei a fingir orgasmos e ele ficava satisfeito, todo pimpão. Comecei a fingir sempre; para apressar, entende? Tivemos quatro filhos.
— Neste caso…
— Aí, algumas semanas atrás, quando minha filha mais velha começou a transar com o namorado e anunciou a todos, falei num jantar que não via graça naquilo, que era um sacrifício.
— Sim.
— Então, naquela noite, o Olavo resolveu me comer e perguntou se eu não estava achando bom. O Olavo movimentava os quadris e perguntava “Você não gosta, Alejandrita? Vai dizer agora que é um sacrifício, sua putinha?”
— E aí?
— Disse-lhe que não gostava daquilo. Que tinha fingido sempre. E que sempre dera graças a Deus quando chegava no quarto e ouvia seu ronco. Ele broxou.
— Aí está o motivo da frustração, da mágoa e da depressão de seu hom… de seu marido, minha cara senhora.
— Depressão? Quem falou em depressão? Você é Oficial de Justiça ou psiquiatra?
— Oficial de Justiça.
— …
— …
— E então? Não gostaria de tentar?
— Tentar?
— Sei lá, tentar comigo. Talvez minhas dificuldades estejam ligadas a esta coisa de pele, de cheiro. As revistas falam nisso. Sou de origem alemã, o Olavo veio de Portugal, você tem carinha de judeu. Alemães e judeus sempre deram certo. Esse seu nariz… Tão bicudinho!
— Minha cara senhora, eu só vim aqui colher sua assinatura.
— Pois, meu prezado senhor, vou lhe dizer uma coisa: olhe, sinceramente, eu acho um absurdo alguém trazer à baila um problema e nem tentar resolvê–lo…
— Certamente, não é problema meu.
— Você entra em minha casa,…
— A senhora…
— …senta no meu sofá…
— …é uma histérica!
— …e nem quer conversar. Venho de uma família de posses, temos um tabelionato, posso colocá–lo lá. Você gosta do serviço burocrático, gosta de carimbos, não? Não quer ir lá brincar com eles? Ou aqui em casa? Não quer carimbar minha petite fleur? Sei várias línguas, sou culta, bien sûr!
— Eu preciso apenas de sua assinatura.
— Os burocratas não têm fetiche por carimbos? Você não quer me carimbar? Chega do Olavo, ele é insatisfatório, entende?
— Senhora! A senhora perdeu o controle!
— É exatamente o que preciso. Perder o controle… Me abandonar…

Alexandra olha para o vazio e diz:

— Está na hora de me separar mesmo. Os filhos estão grandes, ao menos serei autêntica!
— Assine aqui, por favor, e eu vou embora.
— Depois.
— A senhora não pode negar-se. Posso pedir à polícia para levá-la à força ao tribunal.

Ela olha ironicamente para o Oficial e pergunta:

— Quantos virão aqui? Os policiais são jovens? Se forem, quero muito ser levada.
— Assine logo, por favor!
— Está bem.
— Aqui.
— A tinta me excita.

Ela assina, torna-se imediatamente séria e aponta a porta ao Oficial.

— Tenha um bom dia, Dona Alexandra.
— Arrã, terei. Vá, vá!

Porto do Desespero – Mais Vôos – Cap. XVIII

Publicado em 30 de junho de 2006

Obs.: Aqui, damos continuidade à novela coletiva Porto do Desespero. O segmento anterior está aqui e dizem que todos os outros capítulos estão aqui, na coluna da esquerda. Mas tem que dar uma procurada dentro de cada blog que você entrar, viu?

Os décimos de segundo que o corpo de Daniel levou para cair da janela até o chão foram longuíssimos. Todos os principais fatos de sua vida foram-lhe apresentados como num filme para que pudesse, quem sabe, arrepender-se. Como fundo, a voz de Cid Moreira, recitando em tom fúnebre:

Se eu pudesse viver novamente a minha vida,
na próxima trataria de cometer mais erros.
Não tentaria ser tão perfeito, relaxaria mais.

Enquanto via o chão branco com 50 centímetros de neve aproximar-se rapidamente, continuava a ouvir:

Eu era um desses que nunca ia a parte alguma sem um termômetro,
sem uma bolsa d’água quente, um guarda-chuva e um pára-quedas;
se voltasse a viver, viajaria mais leve.

Daniel, cada vez mais preocupado com a batida contra o solo, especulava: quem me dera ter um pára-quedas ou ser mais leve! Será que o autor deste ícone da auto-ajuda achava que o cego Borges andava para lá e para cá com um pára-quedas sob a axila?

Porém, quando Cid chegou na sílaba tônica de “leve”, Daniel chegou ao chão. O fato de haver ouvido claramente a segunda sílaba era no mínimo alvissareiro. Visto da janela de onde saíra há poucos segundos, o recorte de seu corpo enterrado na neve faria a alegria de qualquer cineasta. Os poucos transeuntes que viram a cena – todos velhinhos canadenses que costumavam passear quando a temperatura chegava aos vinte graus negativos – exclamavam-se, mas uma velha senhora gritava desesperadamente. Mesmo com o nariz enterrado na neve, Daniel notou que caíra sobre algo peludo e gostoso de abraçar, ao mesmo tempo que escutava destacar-se a voz da velha:

– Ele levou um tiro e caiu sobre o cão de minha sobrinha-neta Anne-Lucie! Eu ouvi o tiro. Que horror!

Sob um ohhhhh dos circunstantes, Daniel ergueu-se lentamente e, com uma furtiva lágrima caindo-lhe do olho esquerdo, disse à velha senhora:

– Diga a Ana Lúcia que seu cão não morreu em vão. E… Gostaria de lhe dizer que… Sei lá, sabe? É que se eu pudesse voltar a viver, começaria a andar descalço no começo da primavera e continuaria assim até o fim do outono.

Os velhinhos olharam apalermados uns para os outros quando um casal saiu correndo do Hotel Quebec pedindo para que Daniel os acompanhasse. Mariana chorava e Roberto a puxava pelo braço. Roberto disse a Daniel:

– Vamos resolver esta merda com um moderador. Queremos que o Idelber Avelar resolva quem de nós, a partir de agora, comerá Mariana.

– Mas ele nem tem um blog! – reclamou Mariana.
– Já tem de novo!

Olhou para Daniel novamente.

– Essa vaca queria que o Smart Shade of Blue fosse nosso moderador, disse que todos o odiavam. Claro que, em sendo assim, deve ser um justo. Mas prefiro ir a New Orleans, muito mais perto.

Entraram os três no Karmann Ghia de Roberto. Como isto é uma Pulp Fiction, havia espaço de sobra.

– Você está bem, Daniel? – perguntara docemente Mariana, enquanto o via abrir o zíper das calças.
– Preciso de maior leveza, gente. Vou me masturbar.
– Ninguém vai sujar de porra a porra do meu carro – trovejou Roberto.

(Porém, meus sete leitores devem estar se perguntando sobre o tiro ouvido no quarto durante a longa queda de Daniel. Simples, no momento em que Mariana e Roberto lutavam, um homem de fenótipo neo-nazista – musculoso, skinhead, de botas pretas e piedosos cilícios nos pulsos – derrubara a porta com um pontapé e perguntara:

– Há alguém aqui que não aprecia os Wunderblogs?

Mariana percebeu a gritaria lá fora e concluiu que Daniel, aquele boca aberta, teria caído e morrido na queda. Também viu uma tatuajem no pulço do homem, logo abaixo dos torturantes silícios vindos diretamente da Califórnia.

Era o rosto de Alexandre Soares Silva!

Naquele momento, sentiu que crescera como ser humano. Entendeu que tinha que ser autêntica na presença do corpo morto de um dos homens com os quais praticara intercurso e declarou, veemente:

– Eu não gosto!

E Roberto interveio:

– Ele perguntou o quê? Se a gente não gosta do blog do Wunder Wildner? Eu adoro o Wunder. Ele tem blog?

Em resposta, a cara do articulado skinhead torceu-se em indescritível mágoa. Ele puxou um trabuco e fez mira em Mariana. Antes de atirar, gritou dramaticamente “Morraaaaaaa!”, porém Roberto, ex-goleiro do ASA de Arapiraca, saltou sobre seu braço, desviando o tiro. Quando preparava-se para encher o cara de porradas, Roberto sentiu que o skinhead desistira do combate por decisão deste escriba. Saiu furibundo dizendo que

– porra, o Flavio Prada me deixa apanhar de uma mulher no capítulo anterior, e neste não me deixam bater no Wunderbar, que merda.

Após rápida deliberação, fugiram do hotel. Nas escadas, Mariana explicava-lhe que o cantor era Wander – e não Wunder – Wildner. Fim da história do tiro.)

Agora, eles rumavam para New Orleans, milhares de quilômetros ao sul de Quebec, a fim de que Idelber resolvesse a pendenga sobre quem continuaria comendo quem. Não conseguiam descobrir a pronúncia correta do nome do moderador. Roberto garantia: era Ídelber; Daniel sustentava ser Idélber e Mariana queria um Idle Bear. Enquanto dirigia, Roberto via como Daniel se recuperara da queda. Com a ponta dos dedos da mão esquerda, ele segurava um dos mamilos de Mariana, enquanto que, com a mão direita, se masturbava. Só que, sentado no meio do espaçoso banco de trás, era obrigado a cruzar os braços, pois não conseguia masturbar-se com a mão esquerda. Com isto seu braço esquerdo atravessava o carro em direção ao seio de Mariana, enquanto que, com a mão direita, tentava manter um certo ritmo. Não era confortável. Mariana tirava o máximo prazer possível da situação com suas duas mãos dentro da calcinha. Chegou tão rapidamente a seu objetivo que Roberto refletia sobre quão rodada seria aquela gata.

Foi uma viagem altamente confusa, psicologicamente tensa e cheia de momentos bergmanianos – pois os rapazes não sabiam mesmo quem comeria quem e apenas Mariana tinha alguma idéia do que fazer. Roberto insistia em cheirar a cada parada, além de polvilhar com a droga tudo o que comia. Finalmente, chegaram a New Orleans. Estava tudo diferente. A cidade parecia um lago. Viram um cãozinho chamado Oliver vibrando com a oportunidade de ganhar um novo dono, um blogueiro desesperado por ver submersos os pés das mulheres, os professores de Tulane boiando nas águas aproveitando o sol e pássaros voando sem ter onde pousar.

Foi quando o Karmann-Ghia (um anfíbio?) começou a ser acompanhado por uma enorme sombra. Aquilo assustou-os. Era estranho: sol por toda a paisagem e uma sombra acompanhando-os! Depois desta situação hitchcoquiana, notaram que as pessoas olhavam admiradas para algo que estava sobre o carro. Foi uma circunstância fortemente shyamalaniana. Enquanto resolviam – sem decidirem-se a nada – quem sairia para examinar o que havia no teto, viram enormes garras envolver o carro como se este fosse uma lata de sardinha. Perceberam que eram erguidos ao mesmo tempo que enormes asas assomavam às janelas. Começaram a gritar desesperamente, mas só obtiveram como resposta um

– Graaaaak!

Creio que todos vocês sabem de quem será o próximo segmento da sensacional, aleatória e aleotária novela feminista “Porto do Desespero”. Sim, ele mesmo, El Rey, terá que se ver novamente com o pássaro que acaba de matar num post.

Anos de Formação de um Sequestrador

Publicado em 28 de outubro de 2004

Alexandre envolvia-se com drogas desde os tempos do segundo grau. Quando tinha 16 anos, levava uma vida tranqüila com seus pais. Não precisava trabalhar nem estudar muito e usava seu tempo livre no cinema e com os amigos. Dinheiro não era uma grande preocupação até que começou a experimentar drogas. Estas eram fáceis de conseguir e acessíveis, mas trouxeram outros amigos, festas, bebida e ele precisou de meios para financiar o novo estilo de vida. Para não levantar suspeitas, decidiu não pedir dinheiro à mãe.

Lia era uma respeitável e emotiva senhora de 75 anos e há 16 vivia com Belle, uma cachorrinha da raça cocker. Lia tivera cinco filhos que a visitavam raramente, enquanto Belle nunca tivera uma ninhada, pois sempre vivera no pequeno apartamento com sua dona. Quem as conhecia, sabia que se amavam. Belle seguia Lia onde quer que fosse, enroscava-se em suas pernas, pedia colo e, devido à pouca mobilidade de sua dona, engordava. Comiam da mesma comida, deitavam-se no mesmo sofá e na mesma cama; enfim, faziam companhia constante uma à outra. Lia conversava com Belle, reclamava das dores da idade, da ausência dos filhos, das fofocas dos vizinhos, dos preços da farmácia e do supermercado. Belle, com o olhar triste e sonolento dos de sua raça, acompanhava tudo compreensiva e passivamente.

Alexandre passou a dedicar-se a pequenos roubos num ambiente que conhecia bem: o do ônibus. Ali, nos horários de maior movimento, explorava as bolsas das mulheres. Poucas vezes foi flagrado em ação e, quando acontecia, reagia dizendo que a bolsa estava aberta, que a mulher era louca, etc. Roubava normalmente os trocados da passagem.

Numa madrugada gelada, Lia foi ao banheiro (ia muitas vezes durante a noite) e verificou não ter sido acompanhada por Belle. Ao voltar, foi olhar sua cachorra ao lado da cama. Belle estava tranqüila, de olhos abertos e morta.

Nos últimos dias, Alexandre passou a achar que seus ganhos nos ônibus eram insuficientes se comparados com os riscos envolvidos. Sonhava com um lance maior, mas como conseguir isto dentro de um local freqüentado somente por pés-rapados como ele?

A perda fez Lia sofrer como nunca. Não sofrera tanto nem quando seu marido falecera após longa doença. Dependia daquele amor, como Belle dependia dela para comer e permanecer limpa, sem pulgas e perfumada. Porém, Lia não desejava ser ridicularizada por amar tanto a um cão. Prezava a discrição. Assim, passou dois dias fechada em casa choramingando e se perguntando sobre o que seria de sua vida sem sua querida. Quando um de seus filhos lhe telefonou, procurou esconder o luto que lhe embargava a voz. O filho nada notou; ademais, não queria saber de nenhum problema que o fizesse perder tempo. Tudo o que queria era que sua mãe estivesse bem de saúde e longe.

Alexandre resolveu tentar a sorte num bairro longínquo. Escolheu Petrópolis, um local cheio de velhinhas de bom poder aquisitivo.

No terceiro dia, Lia concluiu que teria de fazer alguma coisa com o corpo de sua companheira. Fez-lhe um lindo pacote e finalmente saiu de casa com Belle. Era difícil carregá-la, a cachorra era pesada e ela precisava pegar um ônibus para ir ao hospital veterinário. Com esforço e dignidade, chegou à parada. Mesmo sob a baixa temperatura, suava. Vestia casacão, blusão de lã, camisa de algodão grosso e camiseta. Subiu equilibrando-se no coletivo e conseguiu um lugar para sentar-se e descansar um pouco.

Alexandre encontrou sua vítima numa senhora que parecia carregar um tesouro consigo. O que haveria ali dentro? Era uma caixa retangular, parecia um pequeno baú e estava enrolado em belo pano bordado. Pensou em alguma peça antiga, bastante valiosa e fácil de vender; ou talvez num aparelho eletrônico que ela estivesse levando para uma amiga ou neto.

O ônibus foi ficando cheio e Lia levantou-se a fim de chegar perto da saída. Na porta, havia um jovem bem apessoado que lhe inspirou imediata simpatia; ele se oferecera para segurar o fardo. Lia aceitou. Com o olhar úmido, confidenciou-lhe que naquele volume havia algo de muito importante, tudo o que lhe restava neste mundo. O olhar risonho do menino pareceu-lhe consolador e Lia sentiu-se invadida por doce ternura. Então a porta abriu-se e Alexandre saiu correndo, carregando as melhores lembranças de Lia.

Ela foi até o fim da linha e voltou para casa no mesmo ônibus. No caminho, pensava no menino, no roubo e na surpresa que ele teria ao abrir o embrulho. Quando lembrava, não conseguia evitar um sorriso. Enquanto isto, Alexandre, no banheiro do colégio, deparava-se com Belle. Após o horror inicial, deixara o cão ali mesmo e concluíra:

– Não adianta! Acho que o negócio é seqüestrar alguém.

Breve Relato da Aniquilação

Tudo é movimento irregular e contínuo, sem direção e sem meta.

MONTAIGNE

Por trás de suas fantasias ou de seus atos mais simples, durante o período em que estava desperto, havia sempre presente um pensamento suicida. Acordava-se e a primeira coisa que desejava e imaginava era um tiro a atravessar-lhe o cérebro de baixo para cima. Ansiava possuir uma arma para que pudesse pôr fim àquela vida repugnante que levava ao lado da mulher que não mais amava e cuja existência o humilhava, mostrando repetidamente a cada contato que todos os seus sonhos estavam destruídos de forma irremediável. Ontem mesmo, foram ao cinema. Assistiram a um filme chamado Carrington e, durante o silencioso jantar a dois que se seguiu, ela o comparou a Lytton Strachey, o gay intelectual e imprestável para qualquer coisa de ordem prática do filme. Aquilo não fora uma surpresa, nem algo esporádico; ela considerava seu marido um incapaz e sabia que, apesar de ele não ser gay, entenderia a extensão maldosa da observação. Se ele reagisse, esta extensão seria ironicamente negada. Dialogavam através de pequenas farpas educadas e bem direcionadas, que não eram retiradas antes de apodrecer a carne em torno, nunca. Depois deste jantar, voltaram para casa de carro e ele trocou a companhia da mulher pela da babá, a qual tinha de ser levada para casa. Demorou a retornar, preferiu dar voltas sozinho pela cidade esperando que a mulher dormisse. Depois, enquanto estacionava o carro na garagem do edifício, sentiu o retorno mais forte de sua habitual companhia: a enorme vontade de morrer. Pensou no belo nome da Cantata de Bach Christ lag in Todesbanden, Cristo esteve em ânsias de morte, jogou o corpo para trás no carro e disse em voz baixa e com ódio por que não morro?, por que o ser humano não consegue fazer seu coração parar através de uma ordem peremptória do cérebro? Por que sou este animal impotente e inútil?

Entrou em casa e ouviu o ressonar alto de sua mulher. Anotou este som em sua mente para utilizar nalgum momento adequado, bem no meio de uma discussão, como uma livre-associação que lhe tivesse subitamente ocorrido. Não estava com sono e, com a finalidade de não ouvir o odioso ronco da mulher, pegou o CD de A Criação, de Haydn. Ouviu o estrondo inicial e começou a pensar sobre como fugir.

Procurou na memória alguém que o amasse e chegou, após longos minutos, a uma colega de sua turma de ensino médio. Anne havia tentado de tudo para que eles se tornassem namorados, mas ele a evitara repetidamente. Não era uma mulher desagradável ou feia – muito pelo contrário -, mas ele, sem maiores razões, não quis. Foi ao catálogo telefônico e procurou seu nome. Não encontrou nenhuma Anne Mansur. Depois, lembrou que a grafia do nome de Anne era com dois esses. Ficou feliz ao ver a curta lista dos Manssur do guia, mas não havia nenhuma Anne dentre eles. Porém, havia alguém com o nome de Santa. Recordou-se de Anne, há quase vinte anos, ter feito piadas sobre sua mãe ser uma santa e concluiu que aquele era o número que poderia levar-lhe de volta ao passado.

Desligou o aparelho de som, chegando próximo ao barulho da cama. As fanfarras estavam mais altas ainda. Cuidando para não acordar a mulher, deitou-se e dormiu.

No dia seguinte, passou o dia preparando mentalmente o que iria dizer em seu telefonema para Santa. Telefonou ao final da tarde como um ex-colega de trabalho de Anne. Simpático, arrancou com certa facilidade o número do telefone do trabalho da ex-colega.

Nunca fez a ligação.

-=-=-=-=-=-

Uma terça-feira à noite, meses depois, avistou Anne no supermercado. Ela era mais alta e mais bonita do que ele imaginava. Vê-la assim de surpresa, provocou-lhe uma dor quase física. Todas as vantagens – beleza, elegância, calma – pareciam estar com aquela semi-desconhecida e a inevitável comparação com sua mulher era exageradamente favorável àquela que escolhia frutas e verduras para presumíveis filhos e marido. Entre as gôndolas, observou-a de longe. De calças jeans, casaco preto e camiseta branca, ela parecia muito à vontade e sem pressa, como se tivesse vindo de casa, após o jantar, a fim de comprar o que faltava e que, ali chegando, perdera-se em devaneios. Seus cabelos estavam displicentemente presos; sim, ela saíra de casa, não viera do trabalho. Pode ser até que estivessem sujos, e o contraste com o bonito rosto sugeriu-lhe que estava espreitando um momento muito íntimo e reservado dela. Viu-a olhar detalhadamente os preços de cada produto, pouca coisa ia para seu carrinho. Parecia ser daquelas pessoas que se divertiam no supermercado, escolhendo suas compras, lendo e conhecendo cada produto. Fútil? Talvez, mas transpirava uma calma extrema, transpirava tudo o que ele necessitava.

Não falou com ela; também não ligou para aquele número guardado em sua agenda. A única coisa que fez foi voltar ao supermercado quase todas as noites.

Alfredo fala, Laura responde, Marcelo e Joana telefonam

Alfredo, 26 anos, 1,90m, 112 Kg, era um gordo em permanente expansão apaixonado por Laura, 24 anos, 1,60m, 48 Kg. Costumava trazer-lhe mimos; coisas como chocolatinhos, bebidinhas e, agora, na época mais fria do ano, chegou ao ponto de levar quentão para sua pretendida. Quentão é uma bebida que mistura vinho, cachaça, canela, açúcar e cravo, às vezes noz moscada e casca de laranja ou limão, e é irresistível no inverno. Laura sabia que a garrafa térmica de Alfredo tinha a intenção de aquecer-lhe o coração em sua adiposa direção, mas tal consolo só fazia com que ela pensasse com maior ternura em Marcelo, 23 anos, 1,72m, 70 Kg, um jovem meio sem graça que não lhe trazia mimo algum e que costumava aconselhar Alfredo a considerar o efeito benéfico que um regime traria a sua rotunda pessoa. Ocorre é que Marcelo só tinha olhos para a loira Joana, 20 anos, 1,68m, 57 Kg, que era ainda mais sem graça do que ele e dava a impressão de que o clímax de sua vida era quando ia à academia malhar seu corpo que, diga-se de passagem, era belíssimo, fazendo com que muitos homens tentassem buscar (ou não) sua alma escondida sob tantos alongamentos, pesos levantados, abomináveis abdominais e seios sublimes, aumentados e empinados pelo silicone.

Alfredo acostumou Laura a seus mimos gastronômicos e telefonemas. Os contatos pelo telefone eram tão freqüentes e longos que a moça não tinha tempo de falar com outro. Ela revirava os olhos cada vez que o telefone tocava, mas atendia e – notável! – gostava. Não adianta, certas mulheres gostam mesmo de rir e Alfredo era engraçado, soltava de improviso boas piadas e Laura ria e ria do outro lado da linha. Era bom aquilo. Sabemos que os diretores de cinema gordos amam os complexos movimentos de câmara porque caminham pouco e ficam vendo o mundo de cima da grua. Alfredo também não queria deslocar-se muito, cansava facilmente, preferindo “namorar” pelo telefone. A voz de Laura e principalmente sua risada eram importantes para ele, que se achava inadequado e feio para a perfeição que via na lauríssima criatura. Apostava em seu espírito, mas, toda vez que tornava-se íntimo e confidente, Laura vinha com o papo sobre Marcelo, aquele antípoda seu: chato, burro e louco por outra.

Muitas vezes os quatro saíam juntos. Iam a festas e tinham a singularidade de parecerem um quarteto assexuado, pois nada era manifesto. As intenções só emergiam em telefonemas e em rápidos encontros pessoais provocados pelas raras idas de Alfredo ao local onde Laura estagiava, por Laura correndo atrás de Marcelo na faculdade, por Marcelo indo à academia em muitos finais de manhã procurar Joana, que – surpresa! – deixava-se dar alguns amassos e algo mais quando a endorfina estava alta e misturada com o suor, mas nunca à noite, quando permanecia em silêncio, ouvindo os amigos, feliz com sua bela aparência e tranqüila com a mente mansa dos animaizinhos mais simples. Porém, ela sofria, assim como Marcelo. Joana queria um homem alto, grande e sarado para si; fingia seus orgasmos para aquele esquelético Marcelo e chegava a achar Alfredo mais interessante, apesar deste quase ignorar sua existência silenciosa, incapaz de externar uma opinião sobre aquele Blow-up a que ele submeteu o grupo em sua casa na semana anterior, fazendo ao final os brilhantes e cômicos comentários que encantaram à Laura que, por sinal, andava engordando sem se dar conta. Joana ficou de olho: ao final do filme, sem parar de falar – exclusivamente à Laura, e em voz altíssima -, ele foi à cozinha e trouxe a mais bela torta de requeijão com goiabada que vira até hoje. Era puro amor transformado em doce para Laura. A goiabada escolhera aquele momento para descer pela base de requeijão, como dedos que buscam prazer sobre a pele. Ao ver aquilo, Laura voltou seu olhar encantado de Alfredo para o magrinho Marcelo que, constrangidamente, dirigiu seu olhar à Joana, que observou como Alfredo era triste com toda aquela comilança e devoção à Laura.

Naquela noite, ao chegar em casa, Marcelo telefonou para Laura e disse que ela e Joana estavam fascinadas pelo gordo, mas ficou literal e longamente boquiaberto ao ouvir uma Laura meio bêbada pelos eflúvios de Alfredo rebater que iria visitá-lo naquele minuto a fim de mostrar sua “fascinação”. “E ponha uma música adequada!”, ordenou.

Neste ínterim, enquanto voltava para casa no banco de trás de um táxi, uma Joana sem endorfina permitia-se algumas lágrimas que desciam em direção ao sublime colo de silicone. Ela pegou o celular e ligou para Alfredo, que não atendeu. Ligou novamente e ouviu um alô assustado. “Oi, joaninha do meu jardim, aqui fala teu pulgão. Aconteceu alguma coisa de grave?”. “Não, nada de grave, é só que eu não queria ficar sozinha esta noite”.

E, com efeito, nada de grave ocorreu, apenas o grupo dos quatro tornou-se publicamente sexuado. Alfredo e Marcelo não tornaram-se grandes amigos mas Laura e Joana, sim. Trocavam confidências: Joana não gostava de ser chamada de “minha loirinha limitada” e sentia-se insegura, Laura andava sempre brigando com Marcelo, principalmente após saber de suas idas matinais à academia.

Não foram felizes por muito tempo porque, como vocês sabem, é sempre assim. Mas Laura e Joana ainda são amigas.

Enquanto os psicanalistas se divertem

Marcos era um analista de sistemas que se interessava por arte. Gostava de ouvir música até tarde da noite e a solidão destes momentos levava-o a produzir pequenos textos que não mostrava a ninguém. Na verdade, eles se constituíam de anotações que muitas vezes acabavam em meio a uma frase ou ficavam só no título. Fazia com maior empenho listas de filmes ou músicas e lia, lia muito. Era um apaixonado que ia pouco a pouco sendo reconhecido pelos amigos como um catálogo ambulante. Parecia feliz. Sua mulher era uma advogada que repassara seus clientes para tornar-se exclusivamente professora universitária. Ela estudava muito e, contrariamente ao marido, produzia bastante na área do Direito de Família, área na qual era respeitada, apesar da juventude. Os dois tinham interesses em comum, iam a muitos concertos, filmes e freqüentemente liam os mesmo livros.

Após o jantar, Marcos estava lavando os pratos para a pia — sempre gostara de lavar a louça — quando o telefone tocou. Pensou que sua mulher o atenderia e continuou cuidando dos restos do jantar. Ouviu-a atender e logo foi chamado:

— Telefone para você!

Roberson queria falar com ele. Achou estranho, pois o conhecia somente dos aniversários e festas que a família de Álvaro, um amigo comum, promovia. Roberson era um psicanalista de quem todos pareciam gostar.

— Marcos, acabo de falar com o Álvaro e ele me indicou teu nome para uma atividade que nossa Associação fará daqui a três semanas.
— Associação? — perguntou Marcos.
— Sim, a APRJ, Associação Psicanalítica do Rio de Janeiro.
— Hum, e do que se trata?

Roberson explicou-lhe ser responsável por um dos cursos da associação e que estava preparando uma aula especial de fim de semestre. A aula agregaria literatura, cinema e música. “As coisas, enfim, de que gostamos”, disse, rindo. Partiria do romance Noturno Indiano de Antonio Tabucchi, que estava sendo lido pelos alunos, passaria pelo filme homônimo de Alain Corneau e acabaria na análise da música do filme, principalmente na que o diretor utilizara na cena do hospital. Veio imediatamente à mente de Marcos uma cena dilacerante, inflamada e direcionada por Schubert. O psicanalista desejava um apoio externo, sobretudo para a parte musical. Acrescentou que o evento todo era algo a ser encarado como diversão.

— O Quinteto de Schubert… — externou vagamente Marcos.
— Exatamente. Vejo que você conhece o filme. O Álvaro me falou que você era o cara.

Era uma pessoa delicada e gentil; o que Roberson não sabia é que, apesar de Marcos nunca ter lido o livro de Tabucchi, este filme fora-lhe muito marcante, com suas cenas lentas mostrando o desolação do português Xavier a vagar sem destino pela Índia.

— Não sei…
— É sim. É bom que você leia o livro, mas sua maior participação, acho, será na parte musical. O filme nem precisa rever, nós vamos passar.

Enquanto lembrava-se com saudades das cenas finais passadas em Goa e sem necessitar de maior avaliação, aceitou e agradeceu o convite. Feliz, comentou o assunto com Lúcia, que não entendeu nada.

— Mas por que você? Não há músicos que possam comentar? — perguntou ela com voz um tom acima do habitual.
— Não sei, só sei que foi um músico, o Álvaro, quem me indicou.
— Estranho.
— Talvez eles pensem que eu possa contribuir com a história do Quinteto. E vou falar pouco; afinal, a aula é do Roberson — completou Marcos, conjeturando sobre os motivos que tornaram Lúcia agressiva.

Encontrar o livro de Tabucchi foi fácil. Lê-lo foi ótimo, rever o filme foi novamente emocionante e estudar sobre as circunstâncias da composição de Schubert ensinou-o sobre fatos que desconhecia. A presença do Quinteto no filme não era casual. Reviu diversas vezes a cena do hospital e foi aos poucos compreendendo as intenções de Corneau, construídas sobre a base de Tabucchi e catalisadas por uma das músicas mais tristes jamais compostas: o adágio do Quinteto de Cordas D. 956. Ou seja, dentro do espírito anunciado por Roberson, Marcos estava divertindo-se e a oposição de sua mulher — que o via para lá e para cá com o livro e o VHS do filme — não o preocupava.

Poucos dias antes da aula, Lúcia entregou-lhe um pequeno gravador e um livro de Adorno sobre música. Queria que ele gravasse a palestra que daria, pois “precisava ouvir”; desejava também que ele lesse algo decente sobre música. Marcos riu.

— Adorno fala sobre o Quinteto? — perguntou.
— Acho que não, mas é importante você ler isto. – Marcos viu que várias páginas estavam marcadas com pedaços coloridos de papel, cada um simbolizando um tópico.
— Lúcia, é uma coisa informal. Nem merece o nome de palestra, vamos só conversar. E estas coisas coloridas não dizem muito a um daltônico; por exemplo, qual é a diferença entre este e este papel? Estas cores representam alguma notação?

Em resposta, ela abriu o livro e começou a ler em voz alta um dos trechos indicados. Marcos reconheceu “Bach defendido contra seus admiradores”, um texto que nunca lera mas do qual já tinha ouvido falar. Era brilhante, porém inútil para o que ele faria. Enquanto ela seguia, ele estendeu o braço para o teclado do computador, entrou no Google e fez a consulta “Adorno jazz Casagrande”. Chegou ao blog de Tiago Casagrande e leu em voz alta, interrompendo-a: O objeto do jazz é a produção mecânica de um momento regressivo, um simbolismo da castração. O sujeito que se expressa (pelo jazz), expressa precisamente isto: não sou nada, sou sujo, e mereço qualquer coisa que façam comigo. Potencialmente este sujeito já se tornou um daqueles russos acusados de um crime e que, embora inocente, desde o inicio colabora com seu perseguidor e é incapaz de encontrar um castigo severo o bastante.

— Eu estou lendo algo que acho importante para você e você me vem com esta merda?
— Escrita por Theodor Adorno.

Ela ficou desconcertada.

— Bom, eu queria te ajudar e detestaria que você, como marido de uma pessoa pública, me envergonhasse.
— Pessoa pública?
— Sim, sou conhecida e não quero uma palhaçada.

No dia seguinte, ela apenas pediu para que ele gravasse a palestra.

Na aula, cerca de vinte pessoas viram Roberson apresentá-lo antes de falar sobre o livro de Tabucchi e anunciar o filme que veriam. Depois do filme, Roberson fez um curto discurso sobre o que fora visto e abriu espaço para Marcos explicar a música de Schubert, esclarecer as circunstâncias de sua composição, fazer analogias entre as três obras e entrar, com todos, num debate gentil, bem humorado e interessado, em que surgiam observações inteligentes, principalmente a respeito do livro. Em meio às argumentações, inteiramente à vontade, Marcos pensou: “Isto aqui é puro fun. É ótimo”.

Ao final, provocou protestos por não poder jantar com a turma em função de um compromisso. Era mentira e ele ignorava o motivo da recusa. Despediram-se. Já em casa, entregou o gravador para Lúcia e foi comer alguma coisa. Ainda estava na cozinha quando ela saiu do quarto reclamando que não conseguia entender nada do que fora dito por ele ou por ninguém. Ele abriu os braços, pondo a culpa no aparelho. Parabenizava-se por tê-lo enrolado cuidadosamente num lenço, deixando-o no bolso de trás das calças jeans.

Da Pretensão Humana

É sempre da mais falsa das suposições que ficamos mais orgulhosos.
SAUL BELLOW

Alexandre chegou apressadamente a seu consultório antes do horário habitual. Sentou-se na confortável cadeira em que ouvia seus pacientes e pegou o telefone. Aguardando que sua respiração se apaziguasse, revisava mentalmente tudo o que desejava dizer a ela – àquela bela mulher que conhecera através de amigos na noite anterior. Limpou a garganta e discou. Tinha planejado uma postura que poderia ser assim descrita: seria gentil, agradável, carinhoso, inteligente, divertido, interessado e, dependendo do andamento da conversa, também picante. Era cedo, ela devia ainda estar em casa. Porém, a voz que tanto ansiava reencontrar chegou-lhe burocrática, pedindo-lhe para deixar um recado logo após o sinal. Tomado de agitação, procurou em seus pensamentos algo espirituoso. Depois de alguma confusão, finalizou a mensagem:

– Dora, se queres me conhecer melhor, ouve o segundo movimento da Sétima Sinfonia de Beethoven. Sou eu, Alexandre. Um beijo.

Desligou o telefone sentindo-se um idiota. Permaneceu primeiramente avaliando aquele “Sou eu, Alexandre”. Dora pensaria que sua intenção seria a de dizer que o segundo movimento da Sétima descrevia a pérola de homem que ele era ou concluiria tratar-se apenas da assinatura final do recado? Ou, de forma mais benigna, será que Dora presumiria que o intento de Alexandre seria o de proporcionar-lhe uma lembrança agradável ou de fazer uma piada? Mas antes, ele dissera “…se queres me conhecer melhor, ouve…”. Como assim? Poderia alguém ser descrito por uma seqüência de notas musicais? E Beethoven retrataria alguém como Alexandre logo por aquelas notas? O que Dora pensaria? Tinham conversado bastante na noite anterior a respeito do concerto a que assistiam com amigos comuns. No intervalo, ela disse ser uma ouvinte contumaz de Beethoven, também declarou que, em sua opinião, faltava aos barrocos do concerto daquela noite o drama e as afirmativas curtas e repetidas de seu compositor predileto.

– Vim a este concerto por insistência da Carla e do João. Há meses fico em casa com meu filho. Sou uma descasada recente.

Alexandre ficara instantaneamente apaixonado, transtornado mesmo. Desejava aquela mulher linda e inteligente, queria ser admirado por ela, mas, sentado em sua sala, começava a desesperar-se com a evidente bobagem da mensagem que gravara. O que significava aquilo de comparar-se ao compositor que ela amava? Ontem, para agradar a Dora, ele tinha derramado todo o conhecimento musical que lembrava sobre o compositor alemão. Ao final do intervalo, trocaram seus telefones a pedido dele. Agora, ainda sentado, pôs a cabeça entre os joelhos e disse em voz baixa que até a megalomania tinha que ter seus pudores.

E Dora? Acreditaria que toda a perfeição daquele segundo movimento pudesse ser uma representação de Alexandre? Iria recusá-lo por pretensioso? Ficaria constrangida e oprimida? Fugiria por não ser-lhe digna? Faria piadas com os amigos? Ou será que pensaria que ele, romanticamente, ambicionava ombrear-se aos semideuses para ser-lhe digno?

– Burro, burro, burro – pensou Alexandre, caminhando pela sala.

Dora ligou dali a três dias. Alexandre procurou marcar um jantar, porém foram-lhe impostas tantas restrições de horário, fosse para um jantar, fosse para um almoço ou café… Enfim, ela parecia ter tantos compromissos – principalmente para cuidar de seu filho -, que ele entendeu tratar-se de uma negativa e despediram-se sem marcar um reencontro específico.

-=-=-=-=-

Dali a dias, durante a festa do Dia dos Pais, Alexandre, um pouco alcoolizado, perguntou a seu pai:

– Pai, se tu quisesses conquistar uma mulher e tivesses a idéia de sugerir uma música para ela ouvir, que música poderia te representar?
– Ora, meu filho, sugeriria que minha futura amada ouvisse uma música que a Maria Bethânia canta.
– Que música?
– Gostoso demais.

Sem dúvida, há megalomanias e megalomanias.

(Ou seria melhor chamá-lo “Da Humana Pretensão”?)

Um Carnaval

Todos, ou quase todos, foram para o litoral a fim de desfrutarem seus carnavais, mas ele ficara em Porto Alegre. Nesses dias, a cidade quente pode ser atravessada em poucos minutos de carro, pois fica esvaída de sua população. Ele sentou-se na cama, pensando nos filhos pequenos que estavam na praia com sua ex-mulher e nos jornais do dia seguinte com a tradicional foto da avenida vazia, o título “Cidade Deserta” e a seguinte legenda: “Foto da Av. Ipiranga às 16h de ontem, sábado de Carnaval”.

Pegou o telefone celular e revisou a agenda de contatos. O calor de 33 graus e a umidade alta eram desanimadores. Escolheu o número de uma colega de sua ex-esposa. Para sua surpresa, Maria respondeu:

— Alô?

Ele desligou o telefone, assustado com o fato de ter obtido contato tão rapidamente. Mas, logo, envergonhado, refez a ligação.

— Alô – repetiu Maria.
— Alô, gostaria de falar com a Maria.
— Sim, é ela.
— Aqui é o Artur, não sei se tu lembras de mim.
— Lembro, claro. Tudo bem?
— Tudo bem. Estava ligando para todos os números da agenda do celular atrás de alguém que tivesse ficado em Porto Alegre. Depois de muitas tentativas, cheguei a ti.
— Puxa! Ligaste para todos os números até o “M” e até agora sou a única sobrevivente do holocausto?
— Sim, a cidade foi abandonada.
— Bom, eu fiquei. Tenho alguns plantões a cumprir no hospital; por isso, não pude viajar.
— Estava querendo conversar.
— Bem, é o que estamos fazendo.

Essa última frase não era muito promissora, mas ele seguiu falando que nós, os últimos representantes da civilização porto-alegrense, não somos proibidos de nos encontrar para tentar matar este calor com uma cerveja.

Ela o surpreendeu fazendo um convite para que ele a visitasse:

— Não tenho nada de importante para fazer até o plantão de amanhã, ia ficar em casa vendo os desfiles na TV mesmo.

Ele registrou novamente a frase nada prometedora e perguntou:

— Marcamos para que horas?
— Pode ser agora.

Melhorou, pensou ele. Hesitou entre tomar ou não um banho. Tomou e saiu.

Sentados no sofá, travavam uma conversa assexuada. Ele tinha ficado um pouco decepcionado com o envelhecimento e aparente cansaço da amiga e pensava que ela havia notado seu desgosto. Porém, inesperadamente, Maria fixou seu olhar no amigo, enquanto ele tergiversava sobre a música de Bach e alguns de seus simbolismos matemáticos. Ele notou a mudança de postura e concluiu que ela não responderia a mais nenhuma afirmativa e que agora teria um longo solo pela frente. Enquanto lhe explicava que a arte da composição de Bach era tão perfeita que o alemão, por puro prazer de fazer bem feito, procurava sempre desafios adicionais para ser por eles testado, percebia a beleza dos braços de Maria, mormente durante o movimento que acabou por deixar seu cotovelo direito pousado no espaldar do sofá e que levou sua mão desde o colo até o queixo, a fim de apoiar aquele rosto que o observava fixamente, em silêncio. Vendo Maria tirar lentamente suas sandálias, ainda sem tirar os olhos dele, citou várias obras onde as notas B-A-C-H – como inequívoca assinatura – apareciam em seqüência e contou-lhe das referências escondidas a vários “fatos” bíblicos, como o dos trinta dinheiros. Durante a argumentação seguinte, que o levou à constatação de que os Concertos de Brandenburgo eram o grupo de concertos mais distintos em instrumentação e estilo da história da música, Maria – sempre com o mesmo olhar – ajeitou seu vestido e pôs o pé esquerdo sobre o sofá, deixando à mostra o pico lustroso do joelho. Então, finalmente, ele se deu por vencido. Estendeu o braço e segurou a mão esquerda de Maria. Ela arqueou uma das sobrancelhas, retirou a outra mão de sob o queixo e sorriu levemente.

— Se não pegasse a tua mão, tu não pararias de me olhar… – disse ele.
— Foi por isso que a pegaste? Para que eu parasse de te olhar?

Apesar do tom carinhoso, não era uma pergunta muito auspiciosa e ele preferiu deixar seu olhar vagar pela sala, sempre com a mão esquerda de Maria em sua mão direita. Resolveu que, inequivocamente, seria o momento de lhe dar um beijo, não poderia deixar passar aquele momento.

Quando se aproximou de sua boca, Maria ergueu-se subitamente, puxando-o para o alto, junto a ela. Abraçados, beijaram-se longamente.

No quarto, ele passeava seus dedos lentamente sobre os seios e o ventre de Maria, notando inúmeras pequenas marcas, talvez criadas pelo excesso de sol numa pele tão branca. Ela estava falante e contava sobre sua viagem ao Egito, enquanto ele conjeturava sobre a idade de Maria, analisando seus seios bem mais jovens que o rosto. Depois de reclamar dos preços egípcios, ela lhe disse que não tinha cerveja em casa e que seria necessário saírem a fim de cumprirem a pauta.

Ela tomou um banho rápido e foram para a rua procurar os bares habituais. Estavam todos fechados. Finalmente, entraram num bar de bêbados, de propriedade de um amigo dele, um uruguaio. O bar estava cheio e cheirava mal. Eles beberam a cerveja da pauta e dirigiram-se a um cinema. O ar condicionado do cinema quase vazio congelava-os enquanto o personagem principal matava sua bela amante grávida, à queima-roupa, na porta do apartamento dela, com uma espingarda. Assistiram ao final do filme abraçados – um aquecendo ao outro. Durante a apresentação dos créditos, faziam comentários jocosos sobre a temperatura dos cinemas de Porto Alegre e que como eventualmente podia ser contornada.

No retorno ao apartamento de Maria, ele fez o carro ziguezaguear no meio da Av. Ipiranga vazia. Estava feliz. Ela lhe preparou uma massa, feita rápida e eficientemente. Só então ele lembrou o fato de que ela conhecia sua ex-mulher, pois, inexplicavelmente, ao ir cozinha fazer o café, Maria referiu-se a ela, gritando de lá qualquer coisa desabonadora sobre A Sorbonne do Bonfim, seus artigos e congressos.

Ele riu do pequeno discurso, pensando que estava ligado a uma pessoa que odiava, estigmatizado como “ex-marido”. Sentindo o humor esvair-se, decidiu que precisava conhecer outras pessoas. Ela serviu os cafés e anunciou que iria ao toalete. Durante sua ausência, ele ergueu-se e foi embora lentamente, sem tomar a bebida.

Com o celular desligado, dirigiu até o Morro de Santa Teresa para refletir e ver a lua espelhada no Guaíba. Ficou dentro do carro, despreocupado com os ladrões. Afinal, eles deviam estar também fazendo seu carnaval. Suado e em dúvida, acordou sozinho no mirante, com o sol batendo no carro fechado.