O “Capitão do Mato” Vinícius de Moraes

Eu ia colocar o nome de Monteiro Lobato no título desta pequena crônica, mas achei que não valia a pena. Afinal de contas, ele é um caso especial: não há dúvida sobre o racismo de nosso mais famoso autor infanto-juvenil. Como exemplos maiores, temos o final de Urupês, onde a miscigenação é condenada na apresentação do polêmico personagem Jeca Tatu — que depois tornou-se o pobre esquecido por um governo omisso — mas que antes fora apenas um caboclo inferior e inapto. Para o autor, o caboclo era um “funesto parasita da terra”, “seminômade, inadaptável à civilização”. Tá bom.

Se isso já era público, em 2011 foi divulgada uma carta do escritor enviada a Arthur Neiva em 10 de abril de 1928, e publicada na revista Bravo! em maio de 2011. Ali temos Lobato defender a Ku Klux Klan e seus ideais.

“País de mestiços, onde branco não tem força para organizar uma Ku-Klux-Klan, é país perdido para altos destinos […] Um dia se fará justiça a Ku-Klux-Klan; tivéssemos aí uma defesa desta ordem, que mantém o negro em seu lugar, e estaríamos hoje livres da peste da imprensa carioca — mulatinho fazendo jogo do galego, e sempre demolidor porque a mestiçagem do negro destrói a capacidade construtiva”.

Mas hoje estava pensando no branco mais negro do Brasil, aquele que paradoxalmente se auto-denominava “Capitão do Mato Vinicius de Moraes”. Durante o império, ou melhor, durante a época da escravatura, o capitão do mato era um empregado público, uma espécie de policial encarregado de reprimir os pequenos delitos ocorridos no campo. Na sociedade escravocrata brasileira, sua principal tarefa era a de capturar os escravos fugidos.

Capitão do mato, quadro de Rugendas, 1823
Capitão do mato, quadro de Rugendas, 1823

Normalmente eles eram escravos libertos, o que fazia com que fossem superiores tanto aos escravos e como aos pobres livres, porém ainda assim ficavam na última categoria como empregado público. Por serem em maioria de origem escrava, eram odiados pelos cativos, já que um dia os capitães tinham pertencido a mesma posição social que eles.

Geralmente formavam grupos que variavam de acordo com a quantidade de escravos fugitivos, trabalhando em conjunto com as forças militares da colônia. A função deles era impedir a fuga de escravos e capturar os que conseguissem fugir, então tinha dupla função: a de amedrontar e de reprimir. Não, não tinham a menor nobreza.

Com o tempo, a expressão capitão do mato passou a incluir aquelas pessoas que não eram funcionárias públicas, mas que, para ganhar uma grana, passaram a procurar fugitivos para depois entregá-los aos seus donos mediante prêmio.

O capitão do mato gozava de nenhum prestígio social, seja entre os negros que tinham neles os seus inimigos naturais, seja na sociedade escravocrata, que suspeitava que eles sequestravam escravos apanhados ao acaso, esperando vê-los declarados em fuga para depois devolvê-los contra recompensa.

Agora, que brincadeira foi essa de Vinícius — que cantava sambas, fazia a apologia do negro e ainda seguia religião africana — ter apelidado a si mesmo de capitão do mato?

Olhem só este trecho do Samba da Bênção:

Eu, por exemplo, o capitão do mato
Vinicius de Moraes
Poeta e diplomata
O branco mais preto do Brasil
Na linha direta de Xangô, saravá!
A bênção, Senhora
A maior ialorixá da Bahia
Terra de Caymmi e João Gilberto
A bênção, Pixinguinha
Tu que choraste na flauta
Todas as minhas mágoas de amor
A bênção, Sinhô, a benção, Cartola
A bênção, Ismael Silva
Sua bênção, Heitor dos Prazeres
A bênção, Nelson Cavaquinho
A bênção, Geraldo Pereira
A bênção, meu bom Cyro Monteiro
Você, sobrinho de Nonô
A bênção, Noel, sua bênção, Ary
A bênção, todos os grandes
Sambistas do Brasil
Branco, preto, mulato
Lindo como a pele macia de Oxum
A bênção, maestro Antonio Carlos Jobim
Parceiro e amigo querido
Que já viajaste tantas canções comigo
E ainda há tantas por viajar
A bênção, Carlinhos Lyra
Parceiro cem por cento
Você que une a ação ao sentimento
E ao pensamento
A bênção, a bênção, Baden Powell
Amigo novo, parceiro novo
Que fizeste este samba comigo
A bênção, amigo
A bênção, maestro Moacir Santos
Não és um só, és tantos como
O meu Brasil de todos os santos
Inclusive meu São Sebastião
Saravá! A bênção, que eu vou partir
Eu vou ter que dizer adeus

Se alguém souber me explicar, por favor.

16 comments / Add your comment below

    1. Talvez neste verso o Poetinha tenha se colocado humildemente como um pária entre os negros, como um capitão do mato, já que era um poeta erudito e um diplomata, pertencente ao mundo dos brancos. Na canção, ele fez questão de dizer que era negro demais no coração, como que querendo redimir-se pela vida de branco que levou.
      Apesar do anseio por comunicação, por comunhão, será sempre insondável alma do poeta…

  1. Prezado Milton,
    Interessante você ter levantado essa questão. Há 40 anos ela me encafifa. Nunca consegui entender a fala do Vinícius. E agora vejo que gente mais inteligente que eu também não tem a resposta e está, até hoje, encafifado com isso.
    Abraços.

  2. Milton,
    Creio que o poeta metafóricamente referiu-se a ser um “caçador de negros fugitivos” no sentido de ser um descobridor dos talentos da raça. Veja que depois ele nomeia todos os negros que admira e redescobre para o Brasil “dos brancos”.

    1. Também tinha/tenho esse questionamento. Afora poder se referir a “leituras” de si, confidenciadas a ele por representantes das religiões de matriz africana, considero que essa acepção metafórica seja a que mais se aproxima do sentido.

  3. Caro Milton,
    Analisando-se a relação as religiões afro-brasileiras e os ambientes florestais, que vêem nesses um espaço do sagrado, poderíamos pensar que ele está se referindo à ave Lipaugus vociferans, o capitão-do-mato das florestas Atlântica e Amazônica, cujo canto é um dos mais fortes que se pode ouvir na mata e que anuncia a entrada de animais (ou de pessoas) em seus territórios. O nome da ave também se deve aos famigerados caçadores de escravos fugidos.
    Quem sabe Vinícius cantava às divindades da música brasileira antes de partir, anunciando a presença de algo estranho nesse território mítico.
    Esse verso, a exemplo de ti e do José Raimundo, sempre me intrigou…
    Abraço!

  4. Vacilo mesmo. Por mais q queira encontrar uma justificativa , não será encontrada.. Sempre questionei este verso, desde a época do vinil. Nunca tive a coragem de questionar diante do grande respeito e sucesso sobre os jovens daquela época. Fora isto, o Samba da Bênção é uma aula história do samba.. Nos dias atuais tem uma canção de Cazuza que fala de ‘ segredo de liquidificador’. Quem entendeu , me ajude, por favor.

  5. Deixei uma humilde opinião abaixo. Achava-me incompetente na época p censurar o poetinha. Hoje vejo q muita gente também não engoliu esta estória de ser orgulhosamente o Capitão do Mato. Contínuo ouvindo Samba da Bênção.

    1. Lorival,
      Segredos de liquidificador são aqueles que a amada conta no pé do ouvido que fica triturando nossa imaginação.
      Abraço!
      Claudio Luiz Veloso Azevedo
      Rio de Janeiro

  6. Penso que ele fala de sua condição de brasileiro, mestiço, como eram os Capitães do Mato, simples assim.
    Nosso Poeta sempre foi muito carinhoso com seu povo, amava as coisas do Brasil, principalmente sua gente, seus amores, suas praias, sua vida.

  7. Certamente, Vinicius leu Nietzsche e Leu a origem da tragédia, pois era também um filósofo e, isto é notório em diversas de suas composições, pela profundidade e consistência em seus versos que revelam um profundo saber.
    Exemplo:
    Depois da chegada vem sempre a partida
    (Angustia- Sartreana)
    Porque não há nada sem separação…
    (isto é um conceito quântico)

    De nada adianta ficar-se de fora
    (não há como sair e pedir um tempo)
    A hora do sim é o descuido do não…
    (Vc sempre fará escolha, até quando estiver distraído – Sarte)

    Bom, então concordando em ser Vinicius, mais que um grande poeta, um profundo conhecedor da metafísica das punções (primeiramente, em Nietzsche e, posteriormente, adaptadas, por Freud….) O fato é que, estas punções, de alguma forma, embalam o desenvolvimento e aprimoramento da alma, enquanto agregada a um corpo. Sendo o corpo o palco e, ao mesmo tempo, espectador, observando a si mesmo e transmutando, de alguma forma, segundo Nietzsche, as contradições dionisíaca e apolíneas. Contradição, estas, que acaba por produzir arte, como registro da metamorfose humana.
    Com base nesta pequena introdução propositiva, dá para chamar ao contexto, a frase:
    “Eu, por exemplo, o capitão do mato
    Vinícius De Moraes
    Poeta e diplomata
    O branco mais preto do Brasil
    Na linha direta de Xangô, saravá!

    Nestes versos, Vinicius muda, ligeiramente, o paradigma nietzschiano, da verdade revelada no calor das contradições dionisíacas versus apolíneas, que protagonizariam o surgimento da arte, ou da tragédia, antes de Sócrates, para o paradigma Viniciano, onde a transformação ou mesmo a transmutação, como diriam, ainda, os alquimistas, do chumbo em ouro. Segundo Vinicius, a tal sublimação reveladora da verdade, viria por outro via, a via do amor. Então, Vinícius, poeta do amor e das paixões, propõe um novo elemento, diferentemente, de Sócrates que introduziu o conhecimento, como produtor da verdade.
    Pois bem, Vinicius reconhece que há uma metafísica antagônica e que há uma verdade. Mas, considera, aí, uma não polaridade e, sim, algo linear ao afirmar: “… na linha direta de Xangô” pois, quando comparamos às mitologias da cultura ioruba com a Grega, encontramos (“coincidentemente”) como entidades correspondentes, Xangô e Zeus. Lembrando, que Dionísio era filho de Zeus. Então, isto, nos diz, que, de fato, as mitologias ou metafísicas, se dialogam, daí a pertinência em correlacionar o poema de Vinicius com a tragédia grega pré socrática.
    Então, voltando a linearidade, Vinícius sugere que o amor é o elemento revelador e, este, vai gradativamente sublimando a dor e o sofrimento que vão gradativamente se transformando, pela presença do amor, em beleza. Esta linearidade, quebra a ideia de opostos, o que é uma estrondosa mudança de paradigma, considerando que muitos de nós vemos o universo como um mundo dual.
    Então, Vinícius segue dizendo:

    Ponha um pouco de amor numa cadência
    E vai ver que ninguém no mundo vence
    A beleza que tem um samba, não
    Porque o samba nasceu lá na Bahia
    E se hoje ele é branco na poesia
    Se hoje ele é branco na poesia
    Ele é negro demais no coração.

    Ou seja, tudo é, em verdade, uma coisa só. Apenas se aprimora, por conta da sublimação. Como um cão raivoso, que com o passar do tempo e pelo exercício do amor introduzido por um dono amoroso, o cão se torna dócil e amável. Isto parece tornar verdadeiro o pensamento Viniciano. Observando que o cão é o mesmo.

    Então, agora sim, o capitão do mato se revela como sendo o que há de pior em nós e, aos poucos e, amorosamente, vamos sublimando, sublimando , sublimando, até chegarmos ao homem “poeta e diplomata” (belo exemplo)….Ou seja, antítese similar a eu dizer: “Eu, um verme rastejante cheguei a poeta e diplomata” e o amor foi responsável por isto. Como foi também com Charles Bukowski, que teve, literalmente, sua vida alinhada ao conceito da sublimação gradativa, por meio do amor sincero ao ofício de escrever…
    Então,
    Eu, por exemplo, o capitão do mato Vinícius De Moraes
    Poeta e diplomata
    O branco mais preto do Brasil
    Estas antíteses utilizadas, são de uma genialidade incomensurável.
    Por isto Vinícius dedicou grande parte desta composição, reverenciando amorosamente, amigos que trilharam este caminho, o da sublimação total. O impressionante é que tudo isto corrobora com Nietzsche que afirmou que o caminho é pela arte e Vínícius se refere a artistas….

    Por fim,
    Ao citar “capitão do mato”, significa dizer que um ser humano pode ir de um reles capitão do mato, em sua origem nas raízes egoicas, a poeta e diplomata, após as sublimações produzidas pelo amor. No caso, ele, humildemente, cita a si mesmo.
    E, ainda, ir do branco ao mais preto do Brasil, significa ir do mundo das punções e sonhos como é o branco, a soma de todas as cores, inclusive, as opostas, até o mais preto do Brasil, o mais puro vazio, de pura paz pura presença do amor. Ou seja, podemos transmutar nossas punçoes com o amor, a medida que seguimos nosso caminho sublimando aquilo que pesa, aquilo que ilude, aquilo que pesa, aquilo que turva e tudo mais que é desamor…
    Mas, tudo isto só é valido para quem já compreende, de fato, que é melhor ser alegre que ser triste ou que pra fazer um samba com beleza, é preciso um bocado de tristeza, senão não se faz um samba não….

  8. Uma interpretação é que a música popular deu continuidade à escravidão, agora das mentes, não apenas dos negros, que compunham a maior parcela de pobres, mas boa parte da população em outras classes. Todavia, não acredito que a intenção do poeta fosse essa, mas sim impropriamente utilizar a expressão de modo afetuoso, quando não havia vigilância da linguagem politicamente correta. Eis meu complemento aos demais comentários, muito interessantes.

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