E se o famigerado sétimo episódio de Star Wars fosse dirigido por Michael Haneke?

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Reza de Ano Novo

Reza de Ano Novo

Que 2016 seja muito melhor que 2015 e muito pior que 2017.

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Atenção bebuns, quem diz não sou eu, mas Shakespeare em Macbeth:

Atenção bebuns, quem diz não sou eu, mas Shakespeare em Macbeth:

MACDUFF: E que três coisas a bebida provoca?

PORTEIRO: Ora, senhor, nariz vermelho, sono e muita urina. A luxúria, senhor, é também por ela provocada e invalidada: provoca o desejo, mas rouba-lhe a potência. Portanto, bebida demais, senhor, pode-se dizer que é enganadora com a luxúria: faz o homem e o aniquila, deixa o homem pronto e impede-o de comparecer, ela o persuade e desencoraja-o, deixa-o teso e faz ele broxar. Em suma, engana-o até a sonolência, coloca-o para dormir e deixa-o sozinho.

Trad. Beatriz Viégas-Faria — Ed. L&PM

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“DRINK, SIR, IS A GREAT PROVOKER OF THREE THINGS… NOSE PAINTING, SLEEP AND URINE. LECHERY, SIR, IT PROVOKES AND, UNPROVOKES; IT PROVOKES THE DESIRE BUT TAKES AWAY THE PERFORMANCE.”

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O novo Macbeth é uma completa idiotice

O novo Macbeth é uma completa idiotice
Cotillard, muito melhor fora do filme
Cotillard, muito melhor fora do filme

Marion Cotillard disse que sua Lady Macbeth não é a personagem manipuladora frequentemente retratada. E é verdade. É que sua personagem simplesmente NÃO É Lady Macbeth. Aliás, este Macbeth — Ambição e Guerra não é o Macbeth de Shakespeare, só tem som, fúria e é contado por um idiota.

Por que alguns diretores de cinema pensam que são mais espertos do que Shakespeare? Por exemplo, Shakespeare tinha três bruxas — mas no filme de Kurzel temos 3,5. Shakespeare escreveu um discurso brilhante e seminal para elas… Que foi eliminado. A complexa psicologia entre os Macbeths e o declínio mental de cada um deles também foi limado.

O australiano Justin Kurzel orgulha-se de que seu Macbeth seja parecido com Game of Thrones, mas, sabem?… Bem, vamos tentar abordar a lambança por partes.

Lambança 1: Kurzel usa o texto original de Shakespeare, mas de forma muito incompleta. Até o ousado Romeu + Julieta — um bom filme — teve o bom senso de não retirar da adaptação a força dos diálogos. Ora, o autor é Shakespeare. Quem é Kurzel?

Lambança 2: Os castelos e a Escócia ficaram com um visual de videogame perverso. Tudo é escuro. Há cenas em câmera lenta, outras saturadas de filtros de cor e de intervenções digitais. Mas tudo sempre escuro. As palavras de Shakespeare são usadas apenas para ligar uma cena de visual injustificado à seguinte. Para deixar uma história terrível, não é necessário pintar tudo em tons de cinza e vermelho sangue, ainda mais com Shake à mão.

Lambança 3: A terrível lentidão do filme. Ora, Shakespeare requer ação. Harold Bloom disse que Shakespeare acelera muito e é verdade. O próprio teatro elisabetano era assim. As histórias eram longas e com constantes alterações para pegar um público de atenção fugidia que via as peças em pé. Há que ter ritmo. Em Shakespeare, especialmente, a ação é rápida, de profundidade filosófica e — milagre que só o bardo de Stratford-upon-Avov conseguia — com personagens complexos e bem caracterizados. Nada disso permaneceu neste filme.

Lambança 4: Há duas previsões feitas pelas bruxas em seu segundo encontro com Macbeth. São fundamentais na história. Elas dizem: Macbeth jamais será vencido, a menos que o Bosque de Birnam marche contra ele. E também dizem que ninguém nascido de mulher poderá fazer-lhe mal. A segunda predição está no filme e é demonstrada a Macbeth por Macduff, mas a primeira some. Onde está a ordem de Malcolm: “Que cada soldado derrube um galho e carregue-o à sua frente. Desse modo, estaremos camuflando o número exato de nosso contingente”. E o mensageiro não diz a Macbeth que o bosque está caminhando.

Lambança 5: O ambiente “escocês”. A maioria do elenco fala com um sotaque escocês horroroso, agravado por uma trilha sonora difusa e pelo incessante zumbido de fundo. Há, é claro, gaitas de foles. As batalhas do filme são travadas em meio à constante fumaça. A Escócia de Kurzel está eternamente em chamas.

Lambança 6: Os próprios apoiadores de Macbeth, ao final da história, voltam-se contra ele. Isto não fica claro no filme.

Lambança 7: Outra cena final que é fundamental é aquela em que Macduff aparece com a cabeça de Macbeth. Cadê?

Lambança 8: Em Macbeth, Shakespeare trata da ambição, da maldade, das grandes intenções e da pequenez do homem. Mas Kurzel disse que vê a história como um faroeste. Nunca vi nenhum xerife em Shakespeare. Vejo é que a grandiosidade de um texto que fala também sobre o poder e as formas de governar, foi substituída por imagens rebuscadas de vazia grandiloquência. E, se a vida é uma história “contada por um idiota cheia de som e fúria, que não significa nada”, Kurzel fez o papel de idiota.

Michael Fassbender sorrindo no escuro. Logo a seguir, um efeito especial acabará com este sorriso | Divulgação
Michael Fassbender sorrindo no escuro. Logo logo um efeito especial acabará com este sorrisinho | Divulgação

Dica quente: veja o Macbeth de Kurosawa, Trono manchado de sangue, e o de Polanski. Esses sim!

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A Dançarina de Izu, de Yasunari Kawabata

A Dançarina de Izu, de Yasunari Kawabata

dancarina-de-izuA Dançarina de Izu (1926) é uma novela autobiográfica de Yasunari Kawabata (1899-1972), Nobel de 1968. O tema é simples, simplíssimo. Um estudante de 19 anos, de férias, faz uma viagem a pé à península de Izu, a oeste de Tóquio. Hospeda-se em alguns albergues familiares e, de aldeia em aldeia, conhece uma trupe de artistas saltimbancos. Um dos membros desta trupe é uma menina chamada Kaoru, de treze anos, uma dançarina. Ele fica deslumbrado por ela e faz amizade com o grupo, viajando com eles. Quando as férias acabam, ele volta para sua cidade. Nada acontece de carnal, pouco é dito, não há nenhum avanço, apenas o encanto de um amor impossível.

Novela de apenas 60 páginas de grande arte, poema de dolorida singeleza, A Dançarina de Izu faz da solidão e da sexualidade velada preciosa matéria-prima. Um belo livro onde vai surgindo algo que seria vulgar chamar de paixão ou mesmo de amor. Talvez a melhor palavra seja desejo de aproximação ou admiração. Na década de 1920, livre do mau gosto e das maldições do moralismo politicamente correto, Kawabata demonstra que o pudor pode ser um sentimento superior. O estudante desconhece a consequência do que sente pela menina e nem tenta cristalizar ou declarar algo, preferindo a fugacidade. É bonito, sensível, bonito e bonito.

Kawabata quando jovem
Kawabata quando jovem

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Feliz Natal

Feliz Natal

Eu sou do serviço social de jovens e quero ver o berçário.

charge alemã

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Em 2016, Sartori quer ainda ‘menas’ cultura

Em 2016, Sartori quer ainda ‘menas’ cultura
Esperamos que o servidor faça o mesmo com o Papai Noel Sartori
Esperamos que o servidor faça o mesmo após examinar os presentes do Papai Noel Sartori

Neste final de ano, Sartori voltou a utilizar a habitual estratégia do político fraco e pusilânime. Em pleno período de festas, entre dois feriadões de quatro dias cada, o polenta faz um pedido de convocação extraordinária para que a Assembleia Legislativa aprecie ainda nesse ano um novo pacote de ajuste fiscal encaminhado pelo Executivo. A data foi escolhida a dedo para fazer passar, sem grandes protestos, projetos de desmonte do estado, de massacre dos servidores públicos e de descaso com a população. É um Pacotão de Natal, um Pacotão de Maldades.

Estado do servidor após a leitura do pacote
Estado do servidor após a leitura do pacote

Ontem a repórter Jaqueline Silveira, do Sul21, apontou uma série de pequenas alterações, daquelas ao estilo das letras pequenas que não lemos nos contratos e que são, na verdade, o cerne do monstro, as coisas que mudam tudo e que os deputados certamente não terão tempo para ler neste período de viagens e festas.

Bem, já que até já fui processado por uma Secretária de Cultura — não deveria fazer um crowdfunding para rever a grana que perdi? — fui direto à parte do artigo que diz respeito à Cultura. Vejamos:

(E olha que o foco do Sartorão de Natal nem é a Cultura, mas o fim da licença-prêmio e as limitações nos reajustes salariais, ou seja, a destruição de conquistas de décadas).

Limite de recursos para o Programa de Incentivo, Programa de Apoio à Inclusão e Promoção Social e Sistema Estadual de Apoio Unificado e Fomento às Atividades Culturais – (…) Em relação às atividades culturais, investimento não pode ser superior a 0,5% do ICMS da receita líquida. Pela lei anterior, o parâmetro também era 0,5% do ICMS da receita líquida, porém estabelecia que não poderia ser inferior ao limite do ano anterior. (Ou seja, como a arrecadação diminuiu, teremos ainda menos dinheiro para a Cultura)

Ou seja, são três palavrinhas que diminuem o que já é miserável.

Há uma história atribuída a Winston Churchill que o governo do nosso estado certamente desconhece. Ela é muito conhecida. Durante a II Guerra Mundial, os esforços britânicos para resistir aos ataques nazis obrigaram Winston Churchill a fazer cortes duros nas despesas das pastas que não tinham relação com a defesa do país. Durante esse processo, alguém sugeriu que fossem feitas reduções significativas no orçamento da Cultura. Churchill recusou terminantemente. Seu argumento foi arrasador: “Respondam-me, por favor: por que é que estamos lutando?”.

Esta devia ser a pergunta que todos os que defendem contas públicas saudáveis deviam também fazer a si mesmos. Hoje, quem vai à Inglaterra sabe o resultado de atitudes como essa. O resultado está não apenas na produção cultural, mas disseminada por um dos povos mais educados do planeta. Dito isso, vamos a uma dica literária:

Victor Hugo

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Vermelho-goiaba, de Alexandra Lopes da Cunha

Vermelho-goiaba Alexandra Lopes da CunhaNo evento da foto abaixo, estivemos eu, a autora de Vermelho-goiaba Alexandra Lopes da Silva e mais Camila von Holdefer e Laila Ribeiro. O tema da discussão era a crítica literária (in)existente hoje. E tanto a Camila como a Laila disseram que era complicado escrever sobre autores locais porque eles reagiam às vezes agressivamente, perdia-se amigos, tinha-se que andar com cuidado pelas ruas, etc. Isto é mais ou menos verdade, garanto-lhes, mas não creio que a gentil Alexandra vá tentar furar meus olhos com uma caneta Bic na rua. Até porque gostei de seu pequeno livro de contos (86 páginas), lido ontem durante os intervalos do dia e já ostentando algumas páginas sujas de café.

Já que é quase feriadão, vamos a uma gonzo-resenha. A primeira qualidade da coletânea é a variação de narradores e estilos, dando-nos a impressão de uma escritora desalojada do próprio umbigo, qualidade rara entre jovens escritores. No início da leitura, a constante referência a animais de estimação e a outros bichos me incomodou um pouco. Amo os cães e estava achando que as histórias com cachorros fossem um golpe baixo. Porém, a música caótica dos excelentes contos Almôndegas e Instantâneos acabou por assentar o estilo de Alexandra na minha cabeça. Celebração me pareceu desnecessário — quase uma introdução de um romance talvez inexistente–, mas a sequência formada por Águas Brancas, A panelinha de alumínio e A natureza invade sua casa me deixaram muito feliz.

São 3 contos muito bem realizados e, para mim, evocativos. (Avisei que hoje acordei informal e gonzo?). Águas lembrou minha mãe e sua dificuldade em nomear as coisas ao final de sua vida. Pedi muito que ela me contasse fatos de nossa pequena família, mas a mera tentativa de organizar seus pensamentos a fazia parar. Ocorre o mesmo com a personagem de Alexandra, o que me deixou muito pensativo. Foi neste momento que derramei café no livro. A panelinha de alumínio é cheio de reviravoltas e surpresas muito bem realizadas. O inesperado machismo do descolado personagem principal — que perturba-se com a evolução profissional da mulher — é abordado com saboroso humor por Alexandra. Grande final. 

Também excelente é A natureza invade sua casa, onde uma contra-traição é montada a partir de uma suposta descoberta e de fatos corriqueiros. Dei risada pensado que quem faz a dedetização em minha casa é um velhinho de uns 70 anos que vem sempre com sua mulher. Disse que fiquei feliz e é verdade. Acabei o dia cantarolando Deixa a Menina, do ontem atacado Chico Buarque. Ou tire ela da cabeça / Ou mereça a moça que você tem.

Recomendo a leitura.

A autora e um débil mental na Palavraria | Foto: Alexandre Alaniz
A autora e um débil mental na Palavraria | Foto: Alexandre Alaniz

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Latuff e o ataque dos beócios a Chico Buarque

Latuff e o ataque dos beócios a Chico Buarque

Imagem gentilmente cedida por Carlos Latuff.

Chico Buarque Latuff

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Frases da Elena

A Elena é a maior autora de frases que eu conheci, ao menos ao vivo. E elas saem naturalmente, sem maiores provocações. Uma das de hoje foi quando ela, com um paradoxal ar sonhador, começou a falar mais ou menos assim: “Em 2013, nós tínhamos um olhar sofrido, profundo e éramos magros. Hoje, somos gordos e superficiais.”

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O Vaticano vai santificar um chacal, a Madre Teresa de Calcutá

O Vaticano vai santificar um chacal, a Madre Teresa de Calcutá
Madre Teresa: mais para monstro do que para santa
Madre Teresa: mais para monstro do que para santa

O vídeo abaixo é de um programa do jornalista e escritor Christopher Hitchens (1949-2011), um dos primeiros a denunciarem a perversidade da Madre. O que ela diz sobre contraceptivos, por exemplo, é mais do que medieval. E os tratamentos que seus doentes não recebiam? Porém, o mundo parace ignorar as agulhas não esterilizadas e não encaminhamento de doentes para hospitais. Prefere achar que ela era boazinha, apesar de suas amizades com Baby Doc e outros líderes sanguinários. Na verdade, era uma arrecadadora. Quem lhe doasse algo, estaria contribuindo para a obra de Deus…

Hitchens afirma sem ser contestado com fatos em todos estes anos: “Madre Teresa não era um amiga dos pobres. Ela era uma amiga da pobreza. Ela disse que o sofrimento era um presente de Deus. Ela passou a vida opondo-se a única cura conhecida para a pobreza, que é o empoderamento e a capacitação das mulheres, livrando-as de uma versão de gado de reprodução obrigatória. Ela era uma fanática, uma fundamentalista e uma fraude. Ela representa uma igreja que protege oficialmente quem viola os inocentes e nos mostra claramente onde esta realmente se encontra em questões morais e éticas”.

Madre Teresa de Calcutá é uma mulher ainda hoje admirada por muitos, inclusive ateus. Porém, era uma mestre na arte da autopromoção. Seu objetivo era obter uma rápida canonização, coisa que deverá obter agora com o Papa Francisco I. Ela recebeu milhões de dólares sem jamais tê-los aplicado em favor dos mais pobres. Ao invés disto, usou o dinheiro apenas para criar mais e mais conventos por todo o mundo.

O chamado “Lar dos Moribundos”, que ela criou na Índia, servia apenas como depósito de seres humanos, os quais não recebiam qualquer cuidado ou medicamentos. Além disto, devido às péssimas condições de higiene do local, muitos que entravam ali com doenças de simples tratamento acabavam saindo mortos.

Bem que ela poderia ter providenciado milagres para salvar alguns dos milhares de doentes que estiveram sob seus cuidados.

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Dançar tango em Porto Alegre, de Sergio Faraco

Dançar tango em Porto Alegre, de Sergio Faraco

dancar-tango-em-porto-alegre_sergio-faracoEu estava relendo Dançar tango em Porto Alegre quando cruzei com Sergio Faraco numa livraria. Não sou exatamente um amigo seu, mas, certa vez, participamos de um jantar e nos colocaram juntos. Ele me reconheceu e pareceu que recomeçamos a conversa do ponto onde a tínhamos parado há dez anos. Eu disse logo que estava lendo novamente o Dançar tango e voltei a elogiar uma das obras-primas do pequeno volume de dezoito contos: Guapear com frangos. Disse a ele que era o maior conto já escrito por um escritor gaúcho. Estava sendo sincero. Ele me agradeceu e respondeu: “Sabe que eu gosto mais do conto seguinte, O Voo da Garça-Pequena?”. Na verdade, os dois são perfeitos e muito diferentes.

Faraco me disse que se esforça muito e que, quando publica, publica o melhor que pode. “deve dar para melhorar, mas além daquilo eu não consigo”. Depois, enveredamos por outras conversas mais seculares e ele arriscou até umas frases em russo para a Elena.

Em Guapear, alguns homens, gente das fazendas próximas à fronteira com a Argentina, procuram o corpo de um companheiro que se aventurou  a uma travessia do Rio Ibicuí e morreu afogado. Depois de dois dias de busca, ele é encontrado. Os homens decidem se o enterram ali mesmo ou se o carregam até a cidade para uma cerimônia formal. Decidem que têm a “obrigação de não deixarem corpo do amigo sem velório”. Cabe a López levar o corpo já em decomposição. O conto é a luta para carregar o corpo. Contra a intenção de López vai toda a natureza. O corpo fede e é continuamente atacado por animais.

O Voo é delicadamente feminista. Maria Rita largou o marido que lhe batia para prostituir-se. Mas não é uma qualquer, tem ideias e encomenda um rádio a um contrabandista. Ele se sente atraído por aquela mulherinha minga, delgada, figurinha que a natureza regateara em tamanho mas caprichara no desenho. Ela lhe conta que há mulheres doutoras trabalhando em hospitais e até dando discursos. Quer o rádio para ouvir as notícias do mundo. E o homem vai mudando lentamente seu interesse do sexo para a pessoa dela. É uma história realmente belíssima e uma grande realização de Faraco — canção e cantor no mais alto nível.

Os contos estão divididos em três partes. A primeira é a das histórias que acontecem na paisagem rural fronteiriça do Rio Grande do Sul. Creio que tais histórias estejam localizadas temporalmente na primeira metade do século XX, quando a modernização começa invadir os hábitos da região. A segunda fala do final da infância, colocando o foco nas experiências emocionais da adolescência e da iniciação sexual. Por último, há os contos sobre o indivíduo que, melancólico, pobre e solitário, não se adapta ao espaço urbano.

Penso que os clássicos estejam na primeira e terceira partes. Além dos contos citados — ambos da primeira parte –, temos A Dama do Bar Nevada e Aceno na Garoa, histórias de bondade mal compreendida, e Dançar tango em Porto Alegre. Mas nenhum dos outros contos são esquecíveis.

É brasileiro? Então tem que ler. Faraco foi tocado por Erico e Cyro, mas recebeu uma curiosa pitada de Rosa. Em resumo, resulta que Faraco é Faraco mesmo.

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Agora é oficial, o WhatsApp caiu

Agora é oficial, o WhatsApp caiu

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Apenas dois parágrafos sobre os 40 anos do primeiro título brasileiro do Inter (com os melhores lances da decisão)

Apenas dois parágrafos sobre os 40 anos do primeiro título brasileiro do Inter (com os melhores lances da decisão)
O chamado gol iluminado de Figueroa. Iluminado e decisivo
O chamado gol iluminado de Figueroa. Iluminado e decisivo

Meu pai me fez colorado, mas logo eu passei a amar o futebol muito mais do que ele. E nós, eu e o Sylvio, marido de minha irmã — fizemos com que ele voltasse aos estádios de forma tão cabal que ele assistiu à final do Brasileiro de 1975 e eu não, pois estava estudando para o vestibular. Acho que eu não precisava me punir daquela forma — passei fácil no exame, glória juvenil —, mas ele me contou que, quando Figueroa fez o gol que nos deu o título, ele se sentou com as mãos na cabeça na arquibancada do Beira-Rio, enquanto todos comemoravam. Naquele momento, ele me culpava por tê-lo tornado aquele fanático que quase morreria com cada chute de Nelinho — e defesa de Manga — nos minutos seguintes. Foi o que ele me disse quando voltou para casa.

Faz tempo, né? Mesmo antes de 1975, o Inter tinha um time muito bom. Elias Figueroa e Paulo César Carpegiani já estavam aqui desde 1971 e o time foi pouco a pouco recebendo reforços, mas foi a chegada de Lula em 74 que mudou tudo. Ele foi o cara que dizia a todos — interna e externamente — que tínhamos um tremendo time e que podíamos ser campeões brasileiros. Naquela época, éramos uns provincianos. Achávamos impossível vencer as equipes de Rio e São Paulo. Uma vez ouvi Lula afirmar: “Eu falava que seríamos campeões e o pessoal ria”. Outro grande campeão foi o técnico Rubens Minelli. Ele foi o cara viu a Holanda de 1974 e tropicalizou um pouco daquela “loucura”. Fez do jeito que dava. Nosso time corria como nenhum outro e até os atacantes marcavam! Havia outros craques, claro, como esquecer de Falcão? Mas Lula e Minelli foram os dois pioneiros.

Abaixo, os melhores lances daquele jogo sofridíssimo:

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Bom dia, é a Polícia Federal

Bom dia, é a Polícia Federal

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Um mistério

Um mistério

Sempre que passamos por esta propaganda que está num enorme outdoor na Padre Chagas, eu e Elena olhamos um para o outro e comentamos:

— Que cara de burro! Por que colocaram justo um modelo com cara de idiota? Quem vai querer entrar nesta loja?

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A Pequena Missa Solene numa bela noite na Santa Teresinha

A Pequena Missa Solene numa bela noite na Santa Teresinha

No calor de ontem em Porto Alegre, decidimos enfrentar a Igreja Santa Teresinha. O concerto estava marcado para às 20h30, mas o alta temperatura do dia permanecia nos prédios e em nossos corpos. Tudo ficou justificado logo no começo do concerto, durante os primeiros e perfeitos acordes de Rossini. O programa continha apenas uma obra, a Pequena Missa Solene de Rossini (1792-1868). Há anos adoro esta obra. Escrita para um agrupamento inacreditavelmente pequeno de coro, solistas, piano e harmônio, a Missa parece destinada ao riso. Mas isto só até a música começar. A abertura, utilizada com notável sensibilidade por Pedro Almodóvar em seu filme A Má Educação (cena das crianças fazendo ginástica na escola, lembram?), é linda e tem a propriedade de instalar-se em nossa cabeça de uma forma difícil de controlar… É um dos pecados da velhice de Rossini. Explico.

Rossini começou a escrever música muito jovem. Era prolífico e compunha, em média, duas óperas por ano. Escreveu 40 delas entre 1810 e 1829. Então, aos 37 anos — enfadado do frequente contato com cantores temperamentais e diretores de teatro ainda piores –, parou de trabalhar seriamente com música, tornando-a um divertimento pessoal. Riquíssimo e célebre, dedicou-se ao lazer e a um irônico e gentil convívio com todos, itens nos quais era mestre. Costumava promover grandes festas em sua casa. Ali, bebia-se champanhe, vinho, comia-se esplendidamente e ouvia-se música. Às vezes, Rossini apresentava ao piano peças de certo compositor anônimo. O compositor ressurgiu surpreendentemente aos setenta e poucos anos publicando duas extraordinárias peças sacras — o Stabat Mater e a Petite Messe Solennelle (Pequena Missa Solene) –, além de peças para piano. Tais obras foram agrupadas sob o título genérico de Péchés de vieillesse. O pecado apresentado ontem foi escrito em 1863 especialmente para a consagração da capela privada da condessa Louise Pillet-Will.

O time todo esteve impecável sob a regência de João Paulo Sefrin. Os solistas foram Rosemari Oliveira (soprano), Angela Diel (mezzo-soprano), Maicon Cassânego (tenor) e Daniel Germano (baixo), com Cristina Caparelli (piano) e Alexandre Frietzen (harmônio). O coral era o Madrigal Presto.  Ou seja, dificilmente daria errado.

Olha, foi muito bonito, muito prazeroso, raramente sinto tal prazer estético. Os bancos duros da igreja, o calor, o som dos ventiladores, nada atrapalhou. Vou bastante a concertos e creio ter sido este um dos dois melhores deste segundo semestre em Porto Alegre.

O grupo da Pequena Missa Solene
O grupo da Pequena Missa Solene

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Anotações sobre Beethoven (Final)

Anotações sobre Beethoven (Final)

BeethovenOs anos finais de Beethoven foram dedicados quase exclusivamente à composição de Quartetos de Cordas. Foi nesse meio que ele produziu algumas de suas mais profundas e visionárias obras: os Op. 127, 130, 131, 132, 135 e a Grande Fuga, Op.133, todos encomendados pelo príncipe Galitzin, que pagou 50 ducados por cada um. Pagou mesmo? Beethoven recebeu o pagamento pelo primeiro quarteto. Embora o príncipe russo jamais tivesse negado sua dívida, os quartetos restantes só foram pagos aos herdeiros de Beethoven em 1852, 25 anos após a morte do compositor.

Leia mais:
Anotações sobre Beethoven (Parte I)
Anotações sobre Beethoven (Parte II)
Anotações sobre Beethoven (Parte III)
Anotações sobre Beethoven (Parte IV)

Na opinião de Beethoven, o quarteto — que fora inventado por Haydn — era a manifestação mais alta da arte musical. E o compositor utilizou-o como veículo de expressão de todo um projeto de renovação de sua música. As seis últimas obras para quartetos de cordas são o cume da transformação de Beethoven como criador.

Sua obra sinfônica é bem mais acessível ao público, mais do que a pianística e muito mais do que os quartetos. Pode-se dizer que os quartetos de Beethoven da primeira e segunda fase fossem sinfonias reduzidas para poucos instrumentos, mas, ouvindo os da última fase, a ideia de orquestração não passa pela nossa cabeça. Aqui, ele se desliga estilisticamente da sinfonia, dando lugar a um intimismo raramente alcançado e apenas possível camaristicamente.

O Quarteto Op. 132 é absolutamente íntimo, como pode ser demonstrado pela partitura. Beethoven passara um inverno sem complicações, mas a primavera trouxera moléstias pulmonares — cuspia sangue –, digestivas e intestinais que o debilitaram muito, ao ponto de deixá-lo por vários dias de cama. Durante este episódio, Beethoven trabalhava no Op. 132 e sua situação foi revelada musicalmente. Na partitura, há anotações como “ação de graças de um convalescente”, “sentindo novas forças” e “Tu me devolveste a vontade de viver”. Trata-se de um caso único na história da música, penso, pois nunca vi um compositor expor problemas tão terrenos em sua música. Quando se fala na dor que uma música representa, em geral nos referimos a dores da alma, dificilmente a sofrimentos corporais.

Dores e recuperação: de 21`30 até 24`30
E finaliza com uma valsa fantástica, de pura alegria: 39`01

Leia mais:
Anotações sobre Beethoven (Parte I)
Anotações sobre Beethoven (Parte II)
Anotações sobre Beethoven (Parte III)
Anotações sobre Beethoven (Parte IV)

Essa é a natureza do conflito captado pelo Op. 132, uma tentativa de transformar as dores físicas em sons.

O Op. 130 foi o último a ser escrito e também tem história curiosa. Como ele encerrava a encomenda feita pelo príncipe Galitzin, Beethoven finalizou-o com uma Grande Fuga. Depois, ele aceitou a sugestão de seu editor de separar a Grande Fuga do Quarteto Op. 130. Os motivos teriam sido comerciais, lucrariam mais dividindo o quarteto em dois.

Um adjetivo acaba associado à Große Fuge Op. 133 (1826): “assustadora”. Uma fuga já é uma forma musical que exige grande conhecimento técnico de composição. Então imagine quando ela é escrita de maneira inesperadamente violenta e dissonante como nessa fuga – provavelmente a obra mais moderna de Beethoven. Depois junte o hermetismo desta uma forma complexa a temas dissonantes e ao ímpeto de Beethoven. Sua estrutura geral parece condensar, além da forma de uma fuga a quatro vozes, a estrutura de uma sinfonia em quatro movimentos – pois há quatro episódios: os internos lembram um andamento lento e um scherzo, os externos são introdução e finale.

Abaixo, gostaria que o leitor separasse o começo da Grande Fuga, quando, após a introdução, vem o susto da exposição, com notas caindo pra todos os lados, os instrumentos entrando um por um onde parece não haver espaço para mais nada e um tema totalmente anguloso e dissonante.

0`45 em diante (por uns 3 minutos)

Então, a última fase de Beethoven foi finalizada por um gênero de música que nunca fora ouvida antes. A partir dele, a música nunca mais foi a mesma. As composições desta fase foram criadas sem a preocupação em respeitar as regras que, até então, eram seguidas.

O último movimento do Quarteto Op. 135 demonstra claramente que ele estava quebrando regras. O nome que o movimento recebe mais parece uma brincadeira: “A difícil decisão: Deve ser assim? Deve ser assim!”.

Considerado um poeta-músico, ele foi o primeiro romântico apaixonado pelo lirismo dramático e pela liberdade de expressão. Se foi condicionado por algo, foi pelo equilíbrio, pelo amor à natureza e pelos grandes ideais humanitários. Inaugurou a tradição do compositor livre, que escreve música para si, nem sempre vinculada a um mecenas. Hoje em dia, muitos críticos o consideram como o maior compositor do século XIX, a quem se deve a inauguração do período Romântico, enquanto que outros o distinguem como um dos poucos homens que merecem a adjetivação de “gênio”.

E agora digam que ele não escrevia para o futuro.

Beethoven morreu em 1827 de motivos ainda controversos. Uns falam em cirrose, porém, modernamente, análises de seus cabelos têm levado a conclusões de que Beethoven foi acidentalmente levado à morte por envenenamento devido a doses excessivas de chumbo, a base dos tratamentos administrados por seu médico.

Fontes:
— História da Música Ocidental, de Jean e Brigitte Massin.
— O blog Euterpe, texto de Leonardo T. Oliveira
Beethoven e o Sentido da Transformação, de José Viegas Muniz Neto
Beethoven, de Barry Cooper
— Biografia de Beethoven

file de namorado a milton ribeiro

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11 de dezembro

11 de dezembro

O 11 de dezembro de 1993 é para eu lamentar. Era um sábado. O sábado em que meu pai morreu inesperadamente. No dia anterior, eu tinha me encontrado casualmente com ele num supermercado e tínhamos conversado animadamente sobre a música de Schubert. Jamais imaginaria que aquela fosse nossa despedida. Na manhã seguinte, minha mãe telefonou e encontrei-o deitado no chão do banheiro, cercado por ela, minha irmã e equipe médica.

A saudade é imensa e isso não é somente uma frase chavão. Comecei a senti-la quando vi que seu corpo estava frio e que todas as memórias que ele guardava de mim tinham se dissipado naquele ataque cardíaco. Eu tinha 36 anos e senti uma solidão de um gênero desconhecido, sem saída. É claro que esta sensação quase não existe 22 anos depois. Mas ela fica me ameaçando a cada 11 de dezembro.

A única foto que tenho dele aqui no trabalho é esta aí, com o neto Bernardo. Infelizmente, ele não conheceu a Bárbara.

Meu filho Bernardo, eu e meu pai em 1993.
Meu filho Bernardo, eu e meu pai em 1993.

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Anotações sobre Beethoven (Parte IV)

Anotações sobre Beethoven (Parte IV)

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As sonatas seguintes, Op. 109, 110 e 111, eram inacreditáveis e incompreensíveis para a época em que foram compostas. Porém, ouvindo-as hoje, são apenas belíssimas, assim como as Variações sobre um tema de Diabelli, onde uma valsa muito simples é desenvolvida e transformada até atingir alturas prodigiosas. A Sonata Op. 111 gerou um dos mais belos momentos da literatura de todos os tempos: a aula do Prof. Kretzschmar em Doutor Fausto, de Thomas Mann. E, até a morte de Beethoven, haveria mais, haveria as obras para as quais os melômanos reviram os olhos incansavelmente ao falarem delas — os últimos quartetos. Em meio à doenças e reclamações contra Rossini e à italianização do mundo, tais obras vieram uma a uma à tona e serviram de como pedra fundamental para boa parte da música do futuro. Quando soube que tinham sido pessimamente acolhidos, repetiu, mais uma vez com razão: “Não é para vós, mas para as gerações futuras”.

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Pois o futuro lhe abriria as portas como fez para poucos. No início do século XX, Romain Rolland acreditava ser o último beethoveniano. Não poderia estar mais errado. Bartók, Xenakis, Varèse, Shostakovich e Schnittke foram decisivamente influenciados. Além disso, tornou-se o mais popular dos compositores eruditos, o elo perfeito para aqueles que raramente ouvem a música erudita adentrarem num novo mundo. Ludwig van tinha a admiração, por exemplo, de Alex DeLarge, personagem de A Laranja Mecânica; é utilizado por alunos de piano nas facilidades do primeiro movimento da Sonata ao Luar; também tem a admiração das pessoas que invadem praças para ouvir o final da Nona Sinfonia. E conta com o assombro dos entendidos.

Como dissemos, no famoso capítulo VIII do Doutor Fausto, de Thomas Mann, o imaginário professor Kretzschmar dá uma aula sobre o tema “Porque Beethoven não escreveu o terceiro movimento da Sonata Op. 111”. A ideia da aula descrita por Mann nasceu quando um descuidado pianista contemporâneo de Beethoven perguntou sobre o motivo da inexistência do terceiro movimento. A resposta do compositor foi típica: “Não tive tempo de escrever um!”. Mann explorou habilmente a história e só quem leu seu Fausto sabe da profunda impressão que a aula de Kretzschmar causou a Adrian Leverkühn, o personagem principal do livro fáustico.

Pois o incrível — Mann aparentemente não sabia disso — é que os musicólogos descobriram que havia um terceiro movimento para esta sonata. Beethoven parece ter desistido dele. Em alguns manuscritos originais, há anotações: segundo movimento – Arietta; terceiro movimento – Presto. O Kretzschmar de Mann diz que a Arietta (o segundo movimento) seria um adeus. Trata-se de um tema com variações que dá ao ouvinte uma sensação muito íntima. Nas três primeiras variações, o tema – que segundo Kretzschmar seria um dim-da-da que poderia ser balbuciado por uma criança — vai sendo cada vez mais movimentado: as notas vão se multiplicando (é muito curioso observar na partitura os compassos se dividindo cada vez em mais notas), e o ritmo começa a ser quebrado e animado até culminar na famosa terceira variação, muito comparada a um boogie-woogie, 100 anos antes disso existir.

No vídeo acima, o dim-da-da — ou a Arietta — começa aos 8`30, o boogie-woogie vem após os 13`20. Ouçam até os 16`20.

Claro que a invenção dessa despedida foi uma das muitas liberdades poéticas tomadas pelo entusiasmado professor de Mann. Está bem, foi a última sonata para piano de Beethoven, porém após o Op. 111 ainda vieram outras obras importantes para piano, como as Variações Diabelli (Op.120) e as Bagatelas (Op. 126), além de todos os últimos quartetos, mais a Op. 123), etc. Ou seja, quando Beethoven escreveu o Op. 111, ele era um compositor em plena atividade e com vários projetos diferentes a desenvolver.

De 1816 até 1827, ano da sua morte, ainda conseguiu compor cerca de 44 obras musicais. Ao morrer, a 26 de Março de 1827, estava a trabalhar numa nova sinfonia, assim como projetava escrever um Réquiem. Ao contrário de Mozart, que foi enterrado anonimamente em uma vala comum, 20.000 cidadãos vienenses — Viena tinha 300.000 habitantes — foram ao funeral de Beethoven, em 29 de março de 1827. Franz Schubert, que morreu no ano seguinte e foi enterrado ao lado de Beethoven, foi um dos portadores da tocha.

O interesse pela obra da primeira e segunda fase de Beethoven mudou Viena. O historiador Paul Johnson diz que “Existia uma nova fé e Beethoven era o seu profeta. Não foi por acidente que, aproximadamente na mesma época, as novas casas de espetáculo recebiam fachadas parecidas com as dos templos, exaltando o status moral e cultural da sinfonia e da música de câmara.”

Em 1824, surge Sinfonia nº 9, Op.125, para muitos a sua obra-prima. Pela primeira vez na história da música é inserida a voz humana num movimento de uma sinfonia. Os solistas e o coral exaltam de forma dionisíaca a fraternidade universal, começando pela aliança entre duas artes irmãs: a poesia e a música. O texto é uma adaptação do poema de Friedrich Schiller, “Ode à Alegria”, feita pelo próprio Ludwig van Beethoven. Em 1824, surge a Sinfonia nº 9 em Ré Menor. E, bem todos conhecem esta grande música que precede os quartetos finais.

(continua)

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