Estou achando muito engraçada essa treta por causa de Wonderwall ter sido adotada pela torcida inglesa. O Oasis tem origem operária e toda a estética da banda — principalmente as roupas, mas também a postura — grita o fato. Ademais, os caras são fanáticos pelo Manchester City, vivem mesmo o futebol e os pubs. Agem como hooligans. Musicalmente, podem ser uma tentativa de cópia dos Beatles, mas o Oasis tem várias boas e grudentas melodias. E daí vem um dos nossos e ofende Liam que, fiel ao estilo torcedor, parte pra briga nas redes. É cultural os ingleses cantarem seus artistas populares em estádios. Há um lindo vídeo dos anos 60 com um estádio cantando She loves you. São afinadíssimos, vou te contar.
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Enquanto isso, na Europa (e no mundo inteiro).
Nelsons na 5ª de Mahler
A versão de Andris Nelsons que inaugura seu ciclo das gravações das Sinfonias de Mahler com a Filarmônica de Viena é muito digna de nota. É uma abordagem recomendada para ouvintes que valorizam interpretações ousadas, intelectualmente elaboradas e tecnicamente impecáveis — mesmo que isso venha às custas de um certo calor visceral. Não é recomendada para puristas que desejam uma Quinta Sinfonia tradicional, com um Adagietto romântico e uma narrativa dramática mais linear. Mahler linear? Ficaram loucos? A Quinta Sinfonia de Mahler é uma das obras mais monumentais e difíceis do repertório sinfônico — uma jornada de quase 80 minutos que parte da escuridão de uma marcha fúnebre e avança, através de tormentas e danças, rumo a um finale radiante. O problema é que Mahler não facilita: cada intérprete precisa decidir como contar essa história.
A sinfonia abre com a famosa fanfarra do trompete solo — um chamado que anuncia a Trauermarsch (marcha fúnebre). Nelsons conduz este movimento insistindo na solenidade do ritual fúnebre, sem pressa. O segundo movimento é uma explosão de fúria que contrasta com a marcha inicial. Aqui, Nelsons demonstra domínio da orquestração mahleriana — os metais soam poderosos e o diálogo entre seções é cuidadosamente esculpido. Uma joia. O terceiro movimento, um Scherzo vienense gigantesco para orquestra (com destaque para as trompas), é frequentemente um ponto polêmico. Mahler exige uma Viena dançante e vertiginosa — mas também um senso de estrutura para sustentar mais de quinze minutos de música. Nelsons inicia com leveza e alegria de viver, mas acho que essa energia se dissipa ao longo do movimento. Ou não? O famoso Adagietto para cordas e harpa é, para muitos, a alma da sinfonia — uma declaração de amor a Alma Mahler. Nelsons, porém, recusa uma leitura romântica. Ele o apresenta não como uma canção de amor, porém mais como uma tranquila meditação. Seu tempo é lento (cerca de dez minutos) e o tom é profundo e comovente, realçando a fragilidade e a introspecção. O Rondo-Finale é uma explosão de energia, com citações de temas anteriores que precisam soar como uma espécie de vitória. Nelsons conduz este movimento com “alegria e vivacidade”, e os últimos acordes são retumbantes.
Como considero Mahler um romântico tardio, herdeiro da tradição germânica, expressão extrema e obsessão pelos temas da morte e da transcendência, talvez Nelsons seja meio traidor, mas acho que não muito. Está tudo lá, só que sem derramamentos desnecessários.
P.S. — Para mim, esta sinfonia está muito associada ao covid. Em fevereiro de 2020, em nossa última viagem internacional, eu e Elena estávamos em Roma e vimos o último concerto na Academia Nacional de Santa Cecília antes de fechar em razão da pandemia. O grande Daniele Gatti foi o regente (regeu de cor). As primeiras máscaras já apareciam. Quando chegamos em Porto Alegre, ninguém usava ainda.

Angine De Poitrine: A Arte Perdida de Permanecer Excêntrico
Por Hernán Carrasco
Quando o mundo descobriu o Angine de Poitrine, a dupla canadense já vinha aprimorando seu talento há anos. Oficialmente, a banda começou em 2019, mas vale ressaltar que Khn (guitarra/baixo) e Klek (bateria) se conhecem desde os treze anos e tocam juntos há mais de vinte . Portanto, a sincronia e a cumplicidade que os tornaram famosos em seus shows e raras aparições são algo que vem sendo construído há décadas.
Foi no dia 5 de fevereiro deste ano que nós, meros mortais, tivemos o privilégio de assistir a uma apresentação ao vivo de Angine de Poitrine na rádio americana KEXP.
Minha primeira impressão daquela imagem foi: “Que diabos é isso?” Os figurinos, as bolinhas nas roupas, o contraste entre o preto e o branco, o baixo e aqueles narizes gigantes — tudo parecia um sonho que se tem depois de ser anestesiado. Depois de analisar a imagem por completo, fiquei com mais perguntas do que respostas.
Aqueles de nós que clicaram no vídeo por curiosidade se depararam com uma performance inicialmente difícil de compreender. Visualmente, músicos com fantasias ou máscaras não são novidade: Slipknot, The Residents, Daft Punk e Gwar são apenas alguns dos artistas que já esconderam seus rostos do público.
Musicalmente, o que a dupla apresentou foi algo verdadeiramente raro. As notas que emanavam da guitarra/baixo modificado de Khn não soavam “normais”, e a precisão rítmica da bateria de Klek, na caixa e nos pratos, também fazia você questionar a fórmula de compasso em que a música foi escrita. Era hipnótico, diferente de tudo que se ouve normalmente: música microtonal. É isso que Angine de Poitrine faz.
O QUE É MÚSICA MICROTONAL?
A música ocidental padrão geralmente usa 12 notas, e o menor intervalo entre duas notas adjacentes é chamado de semitom . Um microtom é qualquer intervalo menor que um semitom, sendo o exemplo mais comum o quarto de tom, que é metade de um semitom.
As escalas microtonais não são incomuns em si mesmas, já que grande parte da música oriental utiliza microtons naturalmente, como é o caso da música árabe, turca, indiana e persa. Tampouco são algo inédito no Ocidente, pois artistas como Frank Zappa e bandas como King Gizzard & the Lizard Wizard ou Primus já experimentaram com esse tipo de escala microtonal.
Não podemos afirmar que Angine de Poitrine foram pioneiros na música microtonal, mas certamente contribuíram para esclarecer esse tipo de composição musical.
A sessão que eles fizeram para a KEXP no primeiro mês de funcionamento acumulou 4,5 milhões de visualizações no YouTube. Agora, quase quatro meses depois, já está com 15,5 milhões de visualizações.
Sem dúvida, há um fator de novidade na encenação e na música da dupla, mas algo “novo” por si só não é suficiente para acumular quinze milhões de visualizações em tão pouco tempo . Esses números são até melhores do que os de algumas estrelas pop que apareceram no Tiny Desk da NPR.
Só para dar um exemplo: o último vídeo da Dua Lipa no Tiny Desk teve 17 milhões de visualizações em um ano, enquanto o da Angine de Poitrine quase alcançou esse número com oito meses a mais de visualizações. O vídeo do Foo Fighters no Tiny Desk teve 2,9 milhões de visualizações em quase três semanas. A menos que algo extraordinário aconteça, provavelmente não alcançará o número de visualizações do primeiro mês dos canadenses.
Nada mal para um tipo de música que, em teoria, “não deveria funcionar”, muito menos em um nível popular ou viral, especialmente se houver três linhas microtonais tocando simultaneamente, mas é aí que reside o gênio dos canadenses, que, ao comporem essas músicas, o fizeram de uma forma que a música possui esse fator hipnótico que impede você de escapar.
DE QUEBEC PARA TODA A GALÁXIA
Khn e Klek eram músicos no circuito local de Saguenay, Quebec, e em uma das casas de shows da região, surgiu a oportunidade de tocar duas vezes na mesma semana. No entanto, como já haviam se apresentado com sua banda principal, não puderam tocar novamente no mesmo local. A solução? Aparecer fantasiados. E foi assim que nasceram os dois personagens de bolinhas pretas e brancas, obcecados por triângulos, agora conhecidos mundialmente como Angine de Poitrine. Por que triângulos? “É a melhor forma. Nós amamos triângulos. Eles são lindos e é a forma mais poderosa”, declarou Khn em entrevista ao veículo de mídia canadense Cult MTL.
Quando a mesma publicação perguntou por que eles formaram a banda, a resposta foi bem peculiar. “A ideia por trás da banda era adotar uma abordagem um tanto satírica ao rock em geral. Queríamos exagerar, então a guitarra/baixo de dois braços foi a escolha perfeita para tirar sarro dos guitarristas icônicos”, explicou Khn, acrescentando: “Às vezes, nas músicas, temos trechos que são pura piada; podemos simplesmente gritar ‘Salve Santana! ’. Obviamente, adoramos Santana. É uma declaração de amor, mas também uma caricatura, porque você precisa ser capaz de rir de si mesmo e dizer: ‘O que fazemos é ridículo’”.
Em entrevista ao The Guardian, Klek afirmou que o álbum “Flying Microtonal Banana” do King Gizzard & the Lizard Wizard foi, sem dúvida, uma inspiração para eles, e acredita que o apelo dos microtons reside no fato de “soarem como algo novo para as pessoas”, embora não possa afirmar se os ouvintes os consideram um contraponto reconfortante à cultura gerada por inteligência artificial, já que não passam muito tempo online.
Em relação ao processo de composição, ambos os membros afirmaram na mesma entrevista que suas músicas surgem de improvisações e que os loops são fundamentais para a estrutura de suas composições. “Há uma sensação de ansiedade ou algo assim que vem com a repetição, a fricção com os microtons. Estamos sempre brincando com essa sensação, com a tensão e a resolução”, explicou Klek.
No mês passado, a banda Angine de Poitrine embarcou em sua primeira turnê internacional de verdade, com shows esgotados no Reino Unido e em diversos países europeus . Eles têm apresentações em festivais e outros locais agendados para os próximos meses do verão do Hemisfério Norte. “Não posso dizer que estamos encarando isso de forma leviana ou apenas por diversão, porque quando você sente esse tipo de expectativa , as pessoas criam expectativas e você precisa dar o seu melhor. Não posso dizer que meus pensamentos estiveram livres de dúvidas sobre: o que posso fazer para ser um músico melhor? Mas o que sempre me vem à mente é que as pessoas se apaixonaram pela autenticidade e simplicidade da banda”, disse Khn ao The Guardian.
Com dois álbuns lançados, o mais recente em abril deste ano sob o nome de “Vol. II”, os canadenses continuam a conquistar o mundo e reafirmam aquele mantra que os gênios sempre repetem: mantenham-se estranhos, mantenham-se únicos.
ANGINE DE POITRINE AO VIVO: MESTRES DE SUA ARTE
O desejo dos fãs de ver Angine de Poitrine ao vivo fez com que todos os shows anunciados para este ano esgotassem em questão de horas. Uma das paradas da atual turnê europeia da banda canadense foi na Bélgica, mais especificamente em Bruxelas, para se apresentar no festival “Les Nuits Botanique 2026”.
Num palco ao ar livre, diante de uma plateia estimada em 2.000 pessoas, a dupla apresentou seu terceiro e último show na Bélgica. A expectativa era palpável; pessoas de todas as idades vestiam roupas pretas e brancas de bolinhas, jovens em trajes Khn e Klek, e outros exibiam triângulos em suas roupas.
Às 9 horas em ponto, e diante de uma ovação estrondosa dos presentes, digna de alguém que se sagrou campeão de algum torneio, Khn e Klek apareceram no palco com seus trajes característicos e a saudação protocolar de seu planeta de origem: suas mãos formando um triângulo.
A dupla precisou apenas de uma configuração de palco simples para deslumbrar todos que compareceram ao Jardim Botânico de Bruxelas: a bateria, o enorme pedal de efeitos do Khn e a já clássica cortina de bolinhas pretas e brancas que todos viram na sessão da KEXP.
O que se seguiu foi um show de rock completo, um espetáculo em todos os sentidos da palavra: visual, musical e espiritual — não no sentido religioso, mas no sentido de como a arte pode nutrir o espírito e nos lembrar por que estamos vivos.
Logo de início, com “Angor” e seu pulso hipnótico, e sem qualquer refrão, o Angine de Poitrine tinha o público na palma da mão. Apesar do que se possa pensar sobre rock matemático ou microtonal, na segunda música já era possível ver pessoas fazendo crowdsurfing; uma delas devia ter entre 50 e 60 anos.
Um dos comentários no vídeo viral deles na KEXP dizia: “É incrível como eles soam exatamente como se parecem”, e quando você tem a oportunidade de vê-los, essa afirmação faz todo o sentido. A música deles é tão extravagante quanto os figurinos, mas essas canções têm uma qualidade hipnótica. Além dos loops e escalas microtonais, essas composições têm alma; têm aquela faísca que só os seres humanos são capazes de ter.
É uma música inteligente, mas também tem uma pegada funky e dançante, e é realmente eletrizante. No meio do show, quando os primeiros acordes da gloriosa “Mata Zyklek” soaram, a maioria dos jovens estava fazendo crowdsurfing nas primeiras filas. A habilidade de Khn no contrabaixo/guitarra é verdadeiramente de outro mundo; ele é um cirurgião das cordas, tudo isso usando uma roupa que quase lhe esconde a visão. Ele cria loops com as diferentes partes de guitarra, toca o baixo, deixa o loop rodar e então se lança em riffs improvisados que eletrizam cada pessoa na plateia.
O que dizer sobre o virtuosismo de Klek na bateria? Um cronômetro suíço empalidece em comparação com sua performance e o groove contagiante que ele imprime em suas viradas. Que horas ele está tocando? Melhor nem perguntar. Klek é a força motriz por trás do Angine de Poitrine, e ele faz sua presença ser sentida com seu magnetismo no palco, sua cabeça enorme, seu nariz caricato e olhos que brilham intensamente quando ele está realmente arrasando.
Perto do fim do show, chega a hora de “Fabienk”, outra de suas ótimas canções, e quando você começa a ouvir a plateia cantando a melodia da guitarra como se estivesse assistindo ao The White Stripes tocar “Seven Nation Army”, você percebe que está presenciando algo especial. Uma ovação estrondosa irrompe mais uma vez para a banda de Quebec quando a música termina.
A música de encerramento, “Sherpa”, pilar do álbum de estreia da dupla, é mais um daqueles momentos que ficam para sempre gravados na memória de quem assiste a um show deles. Aquela mistura caótica de guitarras, baixo e uma seção rítmica galopante que culmina no clímax da canção é a melhor representação de que o rock ainda está vivo e forte. Uma longa ovação mais uma vez acolhe os canadenses quando eles se despedem.
Em meio aos riffs de guitarra e linhas de baixo pesados e engenhosos de Khn, e à precisão impecável de Klek na bateria, percebe-se que o fio condutor do show sempre foi a essência artística de ambos, o compromisso em fazer do rock algo agradável para todos, independentemente da escala tonal ou microtonal em que se encontre.
A essência humana de um show de rock jamais poderá ser substituída por inteligência artificial, e nestes tempos sombrios em que vivemos, essa é a melhor consolação possível.

Lavando louça
Acabo de ver/ouvir em bom áudio o show do Angine de Poitrine no Electric Ballroom de Camden Town (Londres). Fiquei rebolando na cozinha enquanto fazia mais um de meus geniais guacamoles. Depois fui ler as avaliações da dupla nos jornais — lá ainda há crítica musical — e todos foram muito elogiosos aos falsamente caóticos rapazes dos loops microtonais de guitarra-baixo e da seguríssima bateria. O Guardian disse algo bem próximo do que penso: dentro do deprimente cenário da música atual, esses canadenses anônimos são um sopro de inteligência e criatividade.
Talvez por ter ouvido muito rock progressivo na adolescência — há 50 anos, portanto — e os eruditos minimalistas do final do século XX, adaptei-me imediatamente ao grupo de Khn e Klek. A música do Angine de Poitrine me atrai e agrada de uma forma muito peculiar. É muito alegre. Não me surpreende o avassalador sucesso do grupo entre o público alternativo.
Esses caras devem ter por volta de 30 anos e não podem ter surgido do nada. Mas ninguém está interessado em saber quem são. E eu muito menos. Só quero ouvi-los.

Grounds de Croft e Purcell
Nesta época de Banco Master e tariflávios, do Senado inimigo do povo agindo na calada da noite (que absurdo!), das guerras que não acabam e da 5 x 2 que não sai nunca, é importante esclarececer a diferença entre ground e passacaglia.
Ground (ou ground bass) e passacaglia são parentes muito próximos, a ponto de muitos musicólogos discutirem onde termina um e começa o outro. Ambos se baseiam numa ideia simples: uma linha de baixo ou uma progressão harmônica que se repete continuamente, enquanto as vozes superiores variam. São, portanto, um tipo de variações sobre um ostinato.
Também é importante lembrar que a famosa Ground em dó menor (c minor) foi escrita por WILLIAM CROFT e não por Henry Purcell. Purcell escreveu a ainda mais famosa New Ground em mi menor (e minor). Certo?
Vocês podem ouvir estas maravilhas facilmente em vídeos.
Bach, 341 anos
Meu pai ouvia muita música em casa e, no final dos anos 60, quando eu tinha uns 12 anos, iniciou-se uma luta: eu queria ouvir Beatles, Rolling Stones, Led Zeppelin, The Who e Mutantes e ele seus sambas e compositores eruditos românticos. Tínhamos poucos pontos de concordância: Chico Buarque, Paulinho da Viola e a bossa nova em geral. Até hoje tenho dificuldades em ouvir Chopin, Rachmaninov, Schumann, Berlioz e outros. Não consigo realmente entender os românticos, à exceção de Brahms e dos tardios.
Naquela época, num fim de tarde que jamais esqueci, eu estava dentro do banheiro, me secando após um banho, quando fui obrigado a sair correndo para a sala, pois estava ouvindo algo absolutamente espetacular, lindo, inteligente, de força rítmica e pensamentos musicais profundos, algo nunca ouvido. Perguntei a meu pai o que era aquilo e ele me disse que era o Concerto Nº 3 de Brandenburgo, da autoria de um sujeito que se localizava como o campeão na mitologia dos compositores e que eu nunca tinha ouvido: Johann Sebastian Bach, o aniversariante de hoje.

Desde aquele dia, Bach se transformou numa espécie de companheiro de vida. Nunca me foi hostil, sempre me trouxe alegria e beleza. Celebrar seu aniversário de 341 anos é, de certo modo, celebrar nossa amizade — um pobre diabo apaixonado por um monumento — e a própria ideia de ordem no mundo — uma ordem que não exclui a emoção, mas a organiza, a eleva e a torna compreensível. Ninguém conseguiu unir com tamanha perfeição o rigor da arquitetura e a liberdade da expressão. Nele, tudo tem sentido, cada linha carrega uma intenção, e no entrelaçamento das diversas vozes surge algo que ultrapassa o humano — não por negar a experiência humana e suas grandezas e fraquezas, mas por levá-la ao seu grau mais alto de transparência e beleza.
Há em Bach uma espécie de confiança radical na inteligência e na lógica. Obras como o Cravo Bem Temperado, a Missa em Si Menor ou a Paixão Segundo Mateus (retirem o “São”, Bach não pôs “Sankt” no título) não são apenas composições: são sistemas vivos, universos autônomos onde emoção, fé e razão existem sem conflito. Seus contrapontos não são exercícios intelectuais estéreis, masturbatórios, mas uma forma de dar voz à complexidade do mundo — como se múltiplas verdades pudessem soar ao mesmo tempo, sem se anularem.
Porém, é claro que o que mais me impressiona é a humanidade dessa grandeza. Bach jamais escreveu para a posteridade, mas para circunstâncias concretas — igrejas, cortes, alunos, ocasiões específicas. Ainda assim, dessa prática cotidiana nasceu uma música transcende qualquer ocasião e que nos fala de perto ainda hoje. Ouvi-lo é perceber que o tempo não diminui certas obras — ao contrário, torna-as mais necessárias. Porque em Bach encontramos uma forma de equilíbrio — uma promessa de que, mesmo no caos, a harmonia é possível.
Bach não precisa de defesa (quem precisa é o Inter) — ele se impõe por si mesmo. Mas hoje é o dia de você ouvir uma de suas Paixões, um de seus prelúdios, uma de suas fugas ou beber uma cerveja — como as que ele produzia. Que a música de Bach continue a nos ensinar que o rigor pode ser apaixonado, que a fé pode ser artesanal (e pessoal, por favor), que o tempo — esse mesmo tempo que hoje nos faz lembrar de sua data de nascimento — pode ser, por alguns instantes, suspenso. Bach foi um presente que recebemos. O mais duradouro, o mais profundo, o mais sublime dos presentes.
Para surpresa geral, o Conselho de Curadores da Orquestra Sinfônica de Boston…
Para surpresa geral, o Conselho de Curadores da Orquestra Sinfônica de Boston subitamente demitiu Andris Nelsons. Disseram que seu contrato, que termina em 2027, não será renovado. É um fato incompreensível, dado o excelente trabalho de Nelsons como chefe da BSO. Vide suas gravações para a DG.
Hoje, ao chegar para trabalhar, Nelsons foi recebido na porta do teatro pelos músicos da orquestra. Lágrimas e lamentos foram derramados de ambos os lados.
Não há sinal do presidente da BSO, Chad Smith, nem da presidente do Conselho, Barbara Hostetter. Aqui de longe, posso imaginar o motivo. O tal Conselho de Curadores deve ser um bando de velhinhos endinheirados que querem um repertório mais conservador. Foi assim que tiraram Bernstein de NY décadas atrás. Tipo “só quero ouvir as mesmas coisas, não me venham com novidades”.
Partindo de Wim Wenders e indo para a política na música
A pergunta que o repórter fez para Wim Wenders (sobre Gaza) foi muito lógica e pertinente. A política já estava pipocando na entrevista. Mesmo assim, Wenders ficou atônito e comeu mosca. Sinceramente, acho que ele quis proteger os organizadores — que são políticos, obviamente — e tratou de subir no muro. Foi, como se dizia no Julinho, uma “burrada” dele.
A arte sempre foi política e quero falar naquela que é considerada a mais neutra das artes: a música erudita. Dou risada quando dizem que ela é neutra. Até hoje, os nomes das salas de concerto mudam e o repertório obedece a quem tem dinheiro. Mesmo os mecenas têm seus lados. Até bem pouco tempo, a música erudita era controlada pela igreja, servida a reis e até hoje pode ser banida por ditadores.
Vamos lá: durante séculos, os compositores dependiam de nobres, reis e igreja para sobreviverem. A música encomendada servia para legitimar o poder: coroações, casamentos reais, celebrações de vitórias militares, etc. Mas então você diz que Mozart era apolítico. Ora, ele compôs “A Flauta Mágica” com simbolismo maçônico (sociedade secreta perseguida na época). O tranquilo Haydn passou 30 anos como “servo musical” da família Esterházy, só compondo by demand. Há os hinos nacionais (muitos de origem erudita), aberturas e sinfonias para celebrações cívicas. Beethoven inicialmente dedicou sua 3ª Sinfonia (“Eroica”) a Napoleão, mas rasgou a dedicatória quando Napoleão se autoproclamou imperador…
Mais: Beethoven escreveu sua ópera “Fidelio” sobre liberdade e resistência à tirania. As óperas de Verdi se tornaram hinos do movimento de unificação italiano. Shostakovich literalmente viveu sob Stalin. Suas sinfonias são cheias de críticas codificadas ao regime soviético. Antes de Stálin, “O Casamento”, de Stravinsky, foi censurada na Rússia czarista. Luigi Nono compôs obras explicitamente políticas, como “Il Canto Sospeso” (sobre vítimas do fascismo). John Cage usou o acaso como crítica ao controle e autoritarismo.
Ainda mais: “As Bodas de Fígaro” (Mozart) critica a aristocracia: um criado que enfrenta seu senhor feudal, “Wozzeck” (Berg) denuncia a exploração dos pobres e a desumanização militar, “Porgy and Bess” (Gershwin) trata dos negros e da pobreza nos EUA.
OK, Milton, mas o que me dizes da música instrumental, muito mais presente em nossas salas de concerto? Pois eu respondo que, quando a palavra é censurada, a música instrumental pode comunicar-se politicamente.
Primeiro, há os nacionalistas. Chopin: Mazurcas e polonaises (Polônia sob domínio russo). Smetana e Dvořák: os tchecos durante o império Austro-Húngaro. Grieg: Noruega invadida pela Suécia. Sibelius: Finlândia invadida pelos Rússia Imperial. (A famosa “Finlândia” foi escrita para a “Festa da Imprensa” de 1899, uma manifestação disfarçada para apoiar a imprensa finlandesa contra a censura russa).
Mas há os discordantes: Prokofiev e Shostakovich tiveram obras banidas na URSS por “formalismo” (música “difícil demais para o povo”). Messiaen compôs “Quarteto para o Fim dos Tempos” num campo de prisioneiros nazista (para compor, deram-lhe um espaço no banheiro).
Contemporaneamente, há muitas questões políticas. As orquestras, antes privilégio masculino, estão lotadas de mulheres e agora elas invadiram a regência. E por que o cânone tem tão poucas mulheres e pessoas não-brancas? Quem frequenta concertos? Quem pode estudar música erudita? O financiamento público da música é sempre uma decisão política. Iniciativas maravilhosas como El Sistema (Venezuela) usam orquestras para inclusão social.
Um dos maiores compositores atuais, o estadunidense John Adams (Composer) cria obras sobre natureza e crise climática, além de ter escrito a ópera “Nixon in China”, muito ouvida por meu filho…
A música erudita não é apenas “arte pela arte” — nela, esteve sempre misturado o poder, a resistência, a identidade e a transformação social. Cada nota carrega história, e cada execução é um ato político. E, para finalizar este texto desorganizado, digo-lhes que se ouve CLARAMENTE quando os músicos são incultos e ignoram o significado daquilo que tocam.
A música não existe sem sua circunstância histórica. Toda obra musical nasce de um contexto. O que acontecia no mundo quando aquilo foi composto? Para quem o compositor escrevia? Quem ouvia? O que o compositor vivia em sua época?
Leonard Bernstein e outros grandes músicos sempre disseram (aspas de LB): “Para comunicar, o músico precisa ter algo a dizer. E esse algo vem de dentro, de suas experiências, cultura, leituras, amores, dores.” Por exemplo, o intérprete A sabe tocar todas as notas perfeitamente, mas não dá a menor importância a quem compôs, nem quando, nem por quê. Ele vai tocar no máximo corretamente. Já o intérprete B leu cartas do compositor, estudou a época, conhece a forma, entende as referências e o contexto. Será AUDÍVEL que ele tocará com camadas de significado. Para quem têm vivência, é muito óbvio o grau de cultura de quem toca.
Bem, este foi meu destampatório de segunda de Carnaval. Nada contra o Carnaval.
Herbert Blomstedt, de 98 anos, retorna à sua primeira orquestra
Herbert Blomstedt retornará em março à Orquestra Sinfônica de Norrköping (Suécia), onde foi maestro principal de 1954 a 1962.
A orquestra publicou esta nota:
É com imensa satisfação que anunciamos o retorno do lendário maestro Herbert Blomstedt à Orquestra Sinfônica de Norrköping em março de 2026, mais de 70 anos após sua estreia como maestro titular. Em dois concertos, nos dias 25 e 26 de março de 2026, ele regerá a orquestra nas Sinfonias nº 3 e nº 4 de Brahms. Blomstedt, agora com 98 anos e um dos maestros mais importantes do mundo, possui uma relação única e duradoura com a orquestra onde sua carreira internacional teve início.
Quando iniciou sua carreira como maestro principal da Orquestra Sinfônica de Norrköping em 1954, aos 27 anos, ele lançou as bases para uma reputação internacional que mais tarde o levou a orquestras de destaque em Dresden, Leipzig, Nova York e muitas outras.
“Estamos muito felizes em receber de volta o maestro Blomstedt em Norrköping, onde tudo começou”, diz Sofia Winiarski, diretora artística.

Música e literatura
Relendo uma longa entrevista de László Krasznahorkai que até traduzi com a ajuda do Google (não sou tradutor, nem venham), notei não apenas a forte presença da música em sua vida — foi pianista de jazz, cantor de rock e é hoje um devoto do barroco, além de inimigo do romantismo –, como a influência da mesma em sua escrita.
Ele diz que escreve mentalmente muitas páginas até passá-las para o computador. Mas são muitas páginas mesmo, umas 30. Quando elas formam uma espécie de música, ele resolve se valem a pena. OK, é o jeito dele. A estrutura de Sátántangó é semelhante à do Cânon Caranguejo utilizado por Bach na Oferenda Musical. Isso sou eu quem está dizendo, não Lázsló.
Thomas Mann era um sujeito que poderia ter sido músico. Conhecia teoria musical como poucos e seus livros são como obras de Brahms ou Franck. Me parabenizei quando soube da admiração de Mann por ambos. Quem leu A Montanha Mágica deve lembrar de que alguém no sanatório chama a música de “politicamente suspeita”. Deve ter sido Settembrini, claro. O método de escrita de Mann era o de uma ou duas páginas por dia que eram relidas no dia seguinte antes de chegarem as uma ou duas do novo dia, jamais três.
Escrevo isso para expor minha total admiração pelos escritores-músicos. Dificilmente deixo de gostar de alguém que ama a música. Ian McEwan é membro importante deste time. Ele sempre fala naquele que considero o melhor lugar do mundo, o Wigmore Hall. No site do Wigmore há um poema de McEwan falando da sala.
(Certa vez, eu estava na fila de entrada do Wigmore, quando as pessoas começaram a olhar discretamente para mim. Depois de passar a mão no rosto, tratei de revisar minha roupa para ver se não havia algo de muito errado nela. Durante a revisão, me virei pra trás e vi que McEwan estava bem atrás de mim. Eu disse apenas “Sorry”, a palavra que os ingleses mais falam).
Não esqueçam que Mário de Andrade era musicólogo, que Machado sempre falava em música e a família Verissimo pai, filho e neto eram/são tarados por música. Enfim, são muitos os exemplos que me ocorrem. Por que larguei de ler Boris Vian?
Claro que na minha posição de livreiro só falo mal de escritores bem mortos, dos vivos só falo bem ou me calo. A suscetibilidade da raça é algo tão veemente que me dá medo. Mas sabem, em quase todo escritor que gosto acabo descobrindo música. Isso se dá quando Gustavo Melo Czekster escreve um romance sobre a du Pré, quando vejo o José Falero com um cavaquinho, quando descubro que Thomas Bernhard poderia ter sido um grande cantor lírico mas que uma doença o impediu, etc.
Sabem o que me fez pensar em todas essas coisas acima, antes mesmo de revisar a entrevista do László? O livro “A música na obra de Erico Verissimo — polifonia, crítica social e humanismo”, de Gérson Werlang, que, dizem, receberá uma espécie de relançamento aqui na Livraria Bamboletras, no dia 17 de dezembro, dia dos 120 anos de nascimento do Erico.

Bruckner & The White Stripes
Bruckner é o novo Mahler. Têm saído ciclos e mais ciclos de suas sinfonias, o que é merecido. É um enorme compositor.
Contudo, a audição da 5ª Sinfonia ficou para sempre meio estranha para todos os que têm a música erudita em comum com o futebol. Acontece que os roqueiros do White Stripes roubaram um riff de Bruckner e o colocaram na canção Seven Nation Army — que parece ser a principal canção da dupla. Roubar temas parece ser da natureza do rock, só que aquele riff bem simples para os padrões brucknerianos tornou-se muito popular, onipresente nos estádios de futebol europeus, incluindo a Copa do Mundo da Rússia em 2018.
Acabo de ouvir a Quinta Sinfonia e é impossível não sorrir naquele trecho do primeiro movimento pensando na Champions.

Stravinsky & Vivaldi
Stravinsky não deixa de ter razão ao dizer que Vivaldi escreveu 507 vezes o mesmo concerto. A estrutura é repetitiva, muitos concertos seguem o molde do ritornello, onde um tema principal retorna periodicamente, intercalado por passagens virtuosísticas do solista. As harmonias são sempre familiares. Mas o Diabo está nos detalhes, né?, a genialidade de Vivaldi não está em reinventar-se a cada concerto, mas na criação melódica inesgotável e na capacidade de sempre criar coisas diferentes dentro de um mesmo formato.
Eu estou ouvindo todos os meus CDs. Espero viver para ouvi-los novamente a todos. São uns 4000. Pego-os fora de ordem, mas quer a sorte que eu tenha pegado muitos Vivaldi ultimamente. E ele tem crescido muito no meu conceito — o que vale só para mim, claro.
O homem Vivaldi sempre teve minha simpatia. Dizia sofrer terrivelmente de asma. Há controvérsias. Alguns inimigos o acusavam de fingir ser doente para não perder tempo preparando e conduzindo missas e dedicar-se apenas à música. Vivaldi afirmava que muitas vezes tinha que se retirar também de concertos em razão das frequentes crises. Mas, como poucos viam tais fatos acontecerem, ele acabou sendo denunciado pelo compositor Benedetto Marcello, seu inimigo, que chegou ao ponto de escrever um panfleto contra Vivaldi, alegando ser ele um fingido que não apenas não era doente como tinha amantes — o que realmente era um fato público. Toda Veneza sabia que ele não era nada adepto do voto de castidade. Novamente, em 1737, um sacerdote atacou-o pelo fato de não oficiar missas e por seu, digamos, estilo de vida.
Sim, ele tinha saúde suficiente para vários casos amorosos, um dos quais com uma de suas alunas mais famosas, o contralto Anna Giraud (ou Anna Girò). O caso era escandaloso e público. Anna foi a inspiradora de muitas de suas óperas e, dizem alguns biógrafos, motivo de grandes tormentos. Sabia-se que Vivaldi fazia tudo o que ela pedia, chegando a adaptar várias árias de óperas, escolhidas por ela, para sua voz. Ele também viajava com ela em turnês. Um querido!
Bruckner 7
Ainda reverbera o tremendo Concerto da Ospa da última sexta-feira. A grega Zoe Zeniodi, regente titular da Orquestra Filarmônica de Buenos Aires (Teatro Colón), e diretora artística do El Sistema da Grécia comandou uma linda apresentação da Sinfonia Nº 7 de Anton Bruckner.
Esta Sinfonia foi a obra que fez com que Bruckner alcançasse o reconhecimento. Sua combinação única de majestade e intimidade emocional é difícil de ser descrita. A lenta construção dos dois primeiros movimentos é algo está sendo executado continuamente no meu cérebro deste sexta à noite.
Bruckner 7
O livro de Lauro Machado Coelho, “O Menestrel de Deus”, sobre Anton Bruckner, é uma revelação espantosa. Considerado um quase deficiente mental em sua época, a gente ouve sua música e pensa que simplesmente não é possível. O cara era um gênio!
Na verdade — e o livro de Lauro deixa tudo claro –, Bruckner era um neurótico manso com baixíssima autoestima. A insegurança que tinha tornava sua vida um inferno. Para piorar, era um catolicão organista de igreja.
Mas tivemos sorte. Em seu isolamento de celibatário (óbvio que as mulheres também eram um problema para Anton), em sua introspecção, ele conseguiu criar uma obra espetacular. Aliás, um jovem judeu, muito sofisticado intelectualmente, costumava visitá-lo para conversar sobre música. Sim, Gustav Mahler sabia que Bruckner era o cara. Além disso, o velho não era antissemita.
E talvez a maior obra de Bruckner seja a Sinfonia N° 7, que a Ospa tocará sábado. Foi seu primeiro e único triunfo em vida, apesar do receio das críticas. Que também vieram, claro.
É muito bom ouvir a Elena ensaiando esta música extraordinária no mesmo quarto onde estou lendo.
Farrenc & Zoe
Penso que o destaque do próximo Concerto da Ospa — nesta sexta, 18, às 20h — seja a Sinfonia Nº 2 de Louise Farrenc (1804-1875).
As poucas mulheres compositoras estão reaparecendo e isto é muito bom, além de reparador e artisticamente enriquecedor. Durante muito tempo, a história da música erudita foi escrita como se tivesse sido feita apenas por homens. Mas isso não reflete a verdade: mulheres compunham, regiam, ensinavam e inovavam — embora com frequência fossem subestimadas ou reduzidas ao papel de exceção.
Com 15 anos, Farrenc passou a se interessar pela composição e entrou para o Conservatório de Paris. Como mulheres não podiam frequentar aulas na instituição, recebia orientações de forma privada. Logo, tornou-se concertista de renome. A fama lhe rendeu um convite para dar aulas no Conservatório onde estudara, tornando-se, assim, a única mulher, no século XIX, a ocupar de modo efetivo uma posição permanente na instituição, na qual trabalharia por mais de três décadas – recebendo um salário menor do que o pago aos professores homens, claro…
Berlioz escreveu que ela era “capaz de criar orquestrações com um talento incomum entre as mulheres”. Mais reticências… Não conheço suas obras, mas sei que ela faz uma música de inspiração nada francesa, reverenciando Beethoven, Mozart e Mendelssohn.
A regência será da grega Zoe Zeniodi (foto), de quem a Elena fala muito bem. “Gesto claríssimo e preciso”, disse ela hoje pela manhã, enquanto eu a acompanhava até a sede da Ospa.
Estava batendo um papo com o ChatGPT e o DeepSeek…
Estava batendo um papo com o ChatGPT e o DeepSeek, em duas janelas diferentes, claro. Prefiro o DeepSeek, mas hoje o ChatGPT me surpreendeu. Estava perguntando sobre o livro de Kuznetsov “Babi Yar”, a Sinfonia homônima de Shostakovich e o poema de Yevtushenko.
Papo vem, papo vai, fui cercando os caras. Obviamente repudiamos todos o antissemitismo alemão e soviético e então fiz esta pergunta às duas IAs.
“Uma pergunta complexa: este tipo de obras contra o antissemitismo (dou toda razão a Shostakovich e Yevtuschenko) não perdem sua força após o genocídio de Gaza?”
A resposta do DeepSeek foi esta:
“Sorry, that’s beyond my current scope. Let’s talk about something else.”
Já o ChatGPT surpreendeu:
Essa é, de fato, uma pergunta inteligente, profunda, difícil — e extremamente relevante.
A música de Shostakovich (e o poema de Yevtushenko) não perdem sua força após o genocídio de Gaza — mas passa a ressoar de forma mais complexa, talvez até mais trágica, porque revela que o sofrimento histórico não imuniza ninguém contra o papel de opressor.
Por que ela não perde a força?
Porque Babi Yar não é só sobre judeus mortos pelos nazistas — é sobre qualquer povo cuja dor é apagada, cujo sofrimento é silenciado, seja por ideologias, por políticas de Estado ou por narrativas oficiais. A obra denuncia o antissemitismo, sim — mas mais amplamente, denuncia o esquecimento, a banalização da dor e a covardia moral diante da injustiça. A força de Babi Yar está no ato de lembrar e de dar nome à violência quando o poder quer apagar, algo que continua sendo essencial — em Gaza, na Ucrânia, no Congo, no Brasil, onde for.
Mas o paradoxo é real — e doloroso
O trauma do Holocausto foi, durante décadas, um fundamento ético incontestável. Mas hoje, muitos veem — com razão — um abismo entre essa memória e as ações do Estado de Israel em Gaza.
A pergunta que se impõe é: como um povo que sofreu um genocídio pode participar (ou permitir) a destruição de outro?
Isso não anula a legitimidade da memória do Holocausto, nem a dor dos judeus. Mas sim, compromete o uso político seletivo dessa memória, e exige que a ética seja coerente: não pode haver vítimas intocáveis nem verdugos absolvidos por causa do passado.
E a arte de Shostakovich?
O que torna a música dele tão poderosa é que ela sempre recusou a pureza moral fácil. Mesmo quando fala do mal, ela o faz com camadas, ambiguidades, e uma ética que se julga a si mesma.
Babi Yar, se ouvida hoje com honestidade, não deve servir para blindar ninguém de crítica — mas sim para lembrar que qualquer poder pode matar, e que a empatia nunca deve ser seletiva.
Em resumo:
Não, a música não perde força. Ganha novas camadas. Shostakovich e Yevtushenko não são monumentos congelados no tempo. São vozes vivas. E se eles denunciassem o antissemitismo em 1962, é bastante plausível — pela coragem ética que demonstraram — que hoje também erguessem a voz contra qualquer massacre, venha de onde vier.

O Concerto da Bach Society Brasil do próximo dia 8 de julho de 2025
Na próxima terça-feira, às 20h, o ENSEMBLE BACH BRASIL sob a direção de Fernando Cordella, apresenta um excelente programa que passa pela música vocal de Bach e Handel, mas que começa por uma peça instrumental.
PROGRAMA
Johann Sebastian Bach (1685 – 1750)
– Sinfonia da Cantata BWV 156 “Ich steh mit einem Fuss im Grabe”
– Christe Eleison, da Missa em Si menor BWV 232
Cantata BWV 82 “Ich habe genug”
– Ária: “Ich habe genug”
– Recitativo: “Ich habe genug”
– Ária: “Schlummert ein, ihr matten Augen”
– Recitativo: “Mein Gott! Wenn kömmt das Schöne: Nun!”
– Ária: “Ich freue mich auf meinen Tod”
Georg Friedrich Händel (1685 – 1759)
– Sinfonia da ópera “Rinaldo”, HWV 7
– Dopo notte, atra e funesta, da ópera “Ariodante” HWV 33
– Piangerò la sorte mia, da ópera “Giulio Cesare” HWV 17
– Ombra mai fu, da ópera “Serse”HWV 40
– Furie terribile, da ópera “Rinaldo” HWV 7
MÚSICOS
Fernando Cordella, cravo e direção
Marília Vargas (Brasil/Suíça), soprano
Diana Danieli (Brasil/EUA), mezzo-soprano
Michele Favaro (Itália), traverso e oboé barroco
ENSEMBLE BACH BRASIL (com instrumentos de época)
Fernando Cordella, cravo e direção
Violino I
Giovani dos Santos, spalla
Leonardo Bock
Vinícius Nogueira (Brasil/Alemanha)
Violino II
Marcio Ceconello
Renata Bernardino
Viola
João Senna
Violoncelo
Marlise Goidanich (Brasil/Italia)
Violone
Alexandre Ritter
A primeira peça do Concerto é a Sinfonia da Cantata BWV 156 de Bach. Talvez devamos explicar que o termo Sinfonia, na época, era uma peça instrumental breve que introduzia principalmente óperas, oratórios e cantatas. Esta Sinfonia é um dos casos mais interessantes de reutilização musical por Bach. Ela aparece um pouco alterada no Concerto para Cravo BWV 1056 — provavelmente composto antes da cantata. Bach frequentemente reaproveitava temas seus em novos contextos. Era um costume da época.
O Christe eleison da Missa em Si menor BWV 232, de Bach, é um dos momentos mais sublimes e intricados da obra. Ele é o segundo movimento na Missa após o Kyrie eleison I e antes do Kyrie eleison II. É um dueto para soprano e alto, com acompanhamento de violino solo e baixo contínuo. A Missa é uma das obras mais importantes de Bach.
Podemos dizer que Bach conviveu muito com a morte. Ela foi sua companheira constante. Seus pais faleceram quando ele era menino. Sua primeira esposa morreu jovem. Ele sofreu a morte de seis de seus 20 filhos, incluindo a de um filho de seis meses antes de escrever a Cantata BVW 82.
Ich habe genug, Cantata BWV 82 de Bach, é comumente traduzida como “Estou contente” ou, mais literalmente, como “Já tive o suficiente”. No centro da cantata, há uma canção de ninar de doçura consoladora e benção, cuja melodia é incomparável. Na verdade, a Cantata 82 fornece um “manual” de como morrer tranquilamente, mapeando o caminho para o paraíso.
Em seu brilhante estudo de Bach, Música no Castelo do Céu, John Eliot Gardiner diz que a teologia da época encarava o mundo como “um hospício povoado por almas doentes cujos pecados apodrecem como furúnculos supurantes e excrementos amarelos”. Mas, no BWV 82, Bach radicalmente nos permite aspirar a sermos anjos. A morte não é transformação ou punição, é missão cumprida, é uma boa noite de sono e uma alegre viagem para casa.
O formato da cantata é simples: um cantor — Bach criou versões para soprano, mezzo-soprano e baixo-barítono — e três árias conectadas por dois recitativos curtos. Um pequeno conjunto de cordas o acompanha. Um oboé solo (ou flauta na versão soprano) gira melodias acrobáticas fazendo um sofisticado contraponto à linha vocal. Sobre as cordas suaves, a ária de abertura começa com o oboé ou flauta, introduzindo a frase melódica de cinco notas que carregará as palavras “Ich habe genug”.
E ele, Bach, passa a nos levar pela mão a algum lugar.
A ária de canção de ninar Schlummert ein, ihr matten Augen parece representar a morte como sono. Porém, aqui Bach produz um milagre musical. O sono torna-se não a morte, mas um sonho, uma visão fugaz da morte, da qual acordamos revigorados. É por isso que a ária final curta e alegre pode ser escandalosamente viva, paradoxalmente alegre.
Se as árias de Bach são verdadeiras meditações integradas a uma narrativa litúrgica, as de Handel são teatrais, servindo muito bem aos dramas que representavam. São um mundo à parte na música barroca, combinando belas melodias, expressividade dramática, virtuosismo vocal e profundidade emocional.
Este comentarista tem especial predileção pela ária Ombra mai fu, presente neste recital. É uma belíssima melodia na qual o protagonista canta dirigindo-se a um plátano (sombra amada), num momento de lirismo surreal e quase cômico. A ironia é a de um poderoso rei declarando amor a uma árvore. A música, porém, é tão sublime que transcende o contexto. A melodia parece flutuar, como se Handel tivesse capturado o próprio conceito de paz.
Ombra mai fù
di vegetabile,
cara ed amabile,
soave più.
(“Nunca houve sombra / de árvore, / tão querida e amável, / mais suave.”)
16 Quartetos de Cordas sem os quais seria ainda mais difícil viver
Haydn: Quarteto de Cordas, Op. 54 Nº 2
Mozart: Quarteto K. 465 (das Dissonâncias)
Beethoven: Quarteto de Cordas, Op. 59, Nº 3 (um dos Razumovsky)
Beethoven: Quarteto de Cordas, Op. 132 (o campeão)
Schubert: Quarteto de Cordas Nº 12, D. 703, “Quartettsatz“
Schubert: Quarteto de Cordas Nº 13 “Rosamunde” (o terceiro)
Schubert: Quarteto de Cordas Nº 15 in G major, D. 887
Borodin: Quarteto de Cordas Nº 2
Janáček: Quarteto de Cordas Nº 2 “Cartas Íntimas”
Ravel: Quarteto de Cordas
Bartók: Quarteto de Cordas Nº 4 (o segundo colocado)
Bartók: Quarteto de Cordas Nº 5
Shostakovich: Quarteto de Cordas Nº 3
Shostakovich: Quarteto de Cordas Nº 8
Ligeti: Quarteto de Cordas Nº 2
Crumb: Black Angels
16 Concertos para Violino sem os quais seria ainda mais difícil viver
Bach: BWV 1042
Bach: BWV 1043 para 2 violinos
Vivaldi: As 4 Estações
Mozart: Concerto N° 3
Beethoven: o único (completando o pódio)
Brahms: idem
Tchaikovsky: idem
Mendelssohn: Op. 64
Saint-Saëns: Concerto N° 3
Sibelius: o único
Prokofiev: Concerto N° 2
Shostakovich: Concerto No. 1 (o campeão)
Berg: À memória de um anjo
Bartók: Concerto N° 2
Britten: o único (o vice)
Stravinsky: idem




