Quem precisa de um estado totalitário quando pessoas zelosas garantem que livros com ‘opiniões inválidas’ nunca sejam publicados?

Quem precisa de um estado totalitário quando pessoas zelosas garantem que livros com ‘opiniões inválidas’ nunca sejam publicados?

Eu não concordo 100% com o autor, mas muitas vezes me deparei com casos semelhantes na Livraria Bamboletras, da qual sou proprietário. Discordando do texto abaixo, nego-me a vender Olavo de Carvalho e outros fascistas em minha livraria. Também não venderia autores de textos transfóbicos. Mas tenho este problema quando o cliente quer literatura de baixa qualidade. Alguns de nossos funcionários dizem: “Mas isso não é livro para nós vendermos!”. E, bem, é verdade que temos um acervo muito bem cuidado de bons autores que é nossa mais cultivada qualidade — a dedicada curadoria –, mas não podemos nos dar ao luxo de rejeitar vender best-sellers que não agridam nossos valores éticos, mesmo sendo ruins… 

De Frank Furedi (*)

A indústria editorial está encorajando a censura popular e cada vez mais cedendo aos funcionários que exigem que certas opiniões nunca devam ser expressas — especialmente aquelas que envolvem questões trans.

Parece que a área editorial está rapidamente se tornando uma escolha de carreira para ambiciosos aspirantes a censores. A ala mais ambiciosa e agressiva do movimento de censura de base são as publicações de policiamento de lobby que tratam de questões relacionadas a trans. Recentemente, um grupo de indivíduos de toda a indústria editorial associada a este lobby escreveu uma carta ao The Bookseller exigindo a censura de livros que considere desfavoráveis ​​à sua causa.

O ponto principal da carta é afirmar que a trans cultura não pode ser um assunto de debate e que os editores devem evitar que opiniões contrárias a ela sejam publicadas. Afirma:

A transfobia ainda é perfeitamente aceitável na indústria de livros britânica. Nossa indústria desculpa, diz que ver os indivíduos trans como tendo menos do que direitos humanos plenos está OK e uma opinião tão válida quanto as outras. Nossa indústria ainda está muito confortável em dar a essa forma de preconceito uma plataforma poderosa. Precisamos nos afastar do paradigma de que todas as opiniões são igualmente válidas.

A exigência de rejeitar o paradigma de que todas as opiniões são válidas é uma forma indireta de dizer que as opiniões “inválidas” podem ser legitimamente censuradas e os autores que defendem tais opiniões devem ser cancelados e silenciados.

Pedidos de censura por inquisidores autônomos que trabalham no setor editorial também têm estado sido uma tônica nos EUA. Os funcionários da Simon & Schuster recentemente entraram com uma petição insistindo que a editora cortasse seus laços com escritores associados à administração Trump. A petição, assinada por 216 funcionários, ganhou o apoio de mais de 3.500 apoiadores externos, incluindo renomados escritores negros, como Jesmyn Ward, duas vezes vencedor do National Book Award for Fiction.

Quando escritores famosos se juntam à fila de censores entusiastas, torna-se evidente que a cultura literária americana está em apuros.

Um dos alvos dos inquisidores Simon & Schuster é um acordo de dois livros que a empresa assinou com o ex-vice-presidente Mike Pence. Por acreditarem que as opiniões de Pence não são tão válidas quanto as deles, fechar uma das principais vozes do Partido Republicano é um serviço público à sociedade.

Uma das características mais perturbadoras do movimento inquisitorial na indústria editorial é a maneira casual com que procura corromper os ideais de tolerância e liberdade de expressão.

É importante notar que a carta enviada é intitulada ‘O Paradoxo da Tolerância’. Uma vez que rejeita a tolerância por pontos de vista com os quais discorda — afirma, “claramente não é apropriado dizer simplesmente ‘todos têm direito à sua opinião’” – deveria ser intitulado ‘Pela intolerância’!

A hipocrisia dos defensores da censura na publicação foi destacada em junho de 2020, por um grupo denominado Pride in Publishing. Eles escreveram uma circular, ‘Vamos esclarecer o que a liberdade de expressão é e o que não é’. O objetivo desta carta era apoiar os funcionários da Hachette Children’s Books que se opuseram a trabalhar no último livro de JK Rowling. Rowling — a autora da série Harry Potter — havia cometido, na opinião desses funcionários, o pecado imperdoável de se recusar a aceitar a definição de sexo e gênero promovida por ativistas trans.

A carta dizia: “Vamos esclarecer o que é e o que não é liberdade de expressão. A liberdade de expressão não dá ao autor o direito a um contrato de publicação. Mas protege o direito de um trabalhador de soar o alarme quando é convidado a participar de algo que pode causar dano ou trauma a ele ou a outra pessoa. Os autores transfóbicos não são um grupo protegido. Pessoas trans e não binárias são. ”

Na lei britânica, quem usa palavras que expressam hostilidade para com os chamados grupos protegidos com características protegidas — como raça, religião, orientação sexual, status de transgênero e deficiência — pode ser acusado de crime de ódio . A implicação da declaração da Pride in Publishing é que o direito de exercer a liberdade de expressão é qualificado em circunstâncias quando é dirigido a um grupo protegido. Esta carta também destaca o que se tornou uma das características mais distintivas do policiamento linguístico do século 21 — a doença da liberdade de expressão.

Na verdade, a implicação da declaração Orgulho na Publicação é que o livro de Rowling representa uma ameaça à segurança e à saúde mental das pessoas trans e não binárias que trabalham na Hachette. Afirma que “os funcionários nunca devem ter que trabalhar em conteúdo que seja prejudicial à sua saúde mental ou que lhes cause turbulência desnecessária”. Esse sentimento ecoa a visão amplamente aceita que insiste que as comunicações verbais e publicadas são um perigo potencial para o bem-estar das pessoas e, portanto, precisam ser regulamentadas para proteger certos grupos de ofensas, traumas psicológicos e problemas de saúde mental.

Esta medicalização da liberdade de expressão, levando à sua doença, tornou-se um dos argumentos mais eficazes usados ​​para minar a liberdade de expressão.

Os ativistas têm, com efeito, reforçado seu apelo à censura, alegando que a publicação de opiniões equivocadas de parte de autores os ofendem e causa-lhes sofrimento psicológico e trauma.

A indústria editorial reconheceu que sua nova geração de funcionários não espera trabalhar com material que os perturbe. David Shelley, o CEO da Hachette, e Clare Alexander, uma agente literária, disseram recentemente ao Lords Committee que os novos empregados da indústria editorial devem ser avisados ​​de que podem ter que trabalhar em livros de pessoas com as quais não concordam!

O fato de as editoras precisarem alertar os funcionários de que talvez tenham de trabalhar com autores cujas opiniões não gostam destaca a posição precária de liberdade de expressão e tolerância nesse setor.

Era uma vez, os editores estavam preocupados com a ameaça representada pela censura do Estado e temiam provocar a ira de censores autoritários de cima. Hoje, a indústria editorial tornou-se cúmplice em consentir em cancelar a cultura e a pressão para policiar o que o público consegue ler vem de baixo, de uma nova geração de funcionários intolerantes.

Quem precisa de um estado totalitário quando trabalhadores zelosos e frágeis estão determinados a garantir que as ‘opiniões inválidas’ nunca sejam divulgadas?

.oOo.

(*) Professor emérito de sociologia na Universidade de Kent em Canterbury.

Quais são os livros mais discutidos na Internet?

Quais são os livros mais discutidos na Internet?

Por Emily Temple, na Literary Hub
Mais ou menos traduzido por este blogueiro...

Como uma pessoa que discute livros na internet para ganhar a vida, às vezes tenho pensamentos estranhos e aleatórios, como “quais são os livros mais discutidos na internet?” Ou então, “como posso descobrir quais livros são mais discutidos na Internet?” Bem, “por que não procuro no Google?” Depois disso, paro de pensar e começo a pesquisar no Google. No final, na tentativa de responder à minha pergunta, pesquisei 275 livros diferentes para comparar o número total de resultados, de acordo com a ferramenta.

Esse número, a propósito, é uma estimativa — um webmaster do Google o descreveu como “um valor aproximado”, mas pode ser ainda menos preciso do que isso. Até mesmo a estimativa pode variar muito, com base em uma série de fatores diferentes, como onde você está e o que mais você pesquisou (em toda a sua vida). Mas mesmo que os próprios números sejam aproximados, eles ainda podem ter significado relativo, especialmente quando acessados ​​do mesmo computador, usando o mesmo navegador, no mesmo dia: no mínimo, eles devem ser capazes de nos dizer, de uma forma geral forma, quais livros foram referenciados mais ou menos do que outros online.

É importante lembrar que isso não é exatamente o mesmo que a popularidade verdadeira — muitos best-sellers, especialmente os mais antigos, publicados quando a internet não era uma força motriz no marketing de livros, tinham uma classificação relativamente baixa aqui. As recentes adaptações de grande orçamento obviamente ajudam. O mesmo acontece com o drama. Assim como estar maduro para a investigação acadêmica. O fato de o livro de Rupi Kaur estar apenas no meio dessa lista me prova que o Google não faz um bom trabalho de busca no Instagram. Ainda assim, admito que fiquei surpresa com alguns deles – particularmente com a classificação relativamente baixa de alguns dos livros que para mim, no meu canto da internet, parecem ser discutidos até a morte.

Uma nota sobre estratégias de pesquisa: minha técnica básica era pesquisar o nome do autor e o título do livro juntos, ambos entre aspas. Ajustei um pouco se o título ou nome fosse muito comum; quando relevante, muitas vezes omitia o artigo em um título para acomodar referências casuais (muitas vezes eu tentei isso, não importava, mas às vezes sim). Dito isso, quem sabe o que pode estar escondido nesses milhões de resultados? Outra razão para pensar nesses números apenas em termos aproximados.

Uma nota sobre os livros: a única maneira de abordar isso era procurando livros que achei serem de alto nível, um por um. Isso significa que se eu não pensei no livro, ele não entrou na lista. Provavelmente esqueci uma série de best-sellers populares publicados nos últimos cem anos ou mais. Mas olha, eu tinha que parar em algum lugar. Ao contrário do Google, o tempo é finito.

Portanto, seja o que for que valha (ou não), aqui está o que os senhores da máquina me retornaram:

(Títulos em inglês)

George Orwell, Nineteen Eighty-Four – 12,997,000*
J.R.R. Tolkien, The Lord of the Rings – 8,630,000**
William Shakespeare, Hamlet – 8,240,000
Harper Lee, To Kill a Mockingbird – 5,600,000
William Shakespeare, Macbeth -5,540,000
Jane Austen, Pride and Prejudice – 5,530,000
J.R.R. Tolkien, The Hobbit – 4,690,000
William Shakespeare, Romeo and Juliet – 4,680,000
Laura Ingalls Wilder, Little House in the Big Woods – 4,440,000
Michelle Obama, Becoming – 4,410,000
J.K. Rowling, Harry Potter and the Sorcerer’s Stone – 4,310,000***
Herman Melville, Moby-Dick – 4,260,000
Henry David Thoreau, Walden – 4,180,000
E.L. James, Fifty Shades of Grey – 4,130,000
Karl Marx and Friedrich Engels, The Communist Manifesto – 3,800,000
Plato, The Republic – 3,690,000
Charlotte Brontë, Jane Eyre – 3,450,000
Alan Moore, Watchmen – 3,400,000
F. Scott Fitzgerald, The Great Gatsby – 3,300,000
Homer, The Odyssey – 3,050,000
Homer, The Iliad – 2,920,000
Frank Herbert, Dune – 2,670,000
Diana Gabaldon, Outlander – 2,660,000
Stephenie Meyer, Twilight – 2,620,000
Stephen King, The Shining – 2,540,000
Gustave Flaubert, Madame Bovary – 2,490,000
George Orwell, Animal Farm – 2,460,000
Adam Smith, The Wealth of Nations – 2,300,000
Frances Hodgson Burnett, The Secret Garden – 2,280,000
Louisa May Alcott, Little Women – 2,260,000
Suzanne Collins, The Hunger Games – 2,080,000
James Joyce, Ulysses – 1,850,000
Margaret Atwood, The Handmaid’s Tale – 1,800,000
Charles Dickens, David Copperfield – 1,780,000
Lewis Carroll, Alice’s Adventures in Wonderland – 1,630,000
Barack Obama, A Promised Land – 1,610,000
Ray Bradbury, Fahrenheit 451 – 1,600,000
Roald Dahl, Matilda – 1,560,000
John Green, The Fault in Our Stars – 1,480,000
Geoffrey Chaucer, The Canterbury Tales – 1,460,000
Vladimir Nabokov, Lolita – 1,430,000
Veronica Roth, Divergent – 1,410,000
Miguel de Cervantes, Don Quixote – 1,380,000
William Shakespeare, A Midsummer Night’s Dream – 1,340,000
Joseph Heller, Catch-22 – 1,320,000
Jack Kerouac, On the Road – 1,320,000
Neil Gaiman, American Gods – 1,300,000
Delia Owens, Where the Crawdads Sing – 1,290,000
Charles Dickens, Great Expectations – 1,270,000
Niccolo Machiavelli, The Prince – 1,270,000
J.D. Salinger, The Catcher in the Rye – 1,260,000
Aldous Huxley, Brave New World – 1,240,000
Michelle Alexander, The New Jim Crow – 1,230,000
Leo Tolstoy, Anna Karenina – 1,100,000
Toni Morrison, Beloved – 1,090,000
Leo Tolstoy, War and Peace – 1,060,000
Joseph Conrad, Heart of Darkness – 1,040,000
Dan Brown, The Da Vinci Code – 998,000
Sylvia Plath, The Bell Jar – 986,000
Mark Twain, The Adventures of Huckleberry Finn – 984,000
Daphne du Maurier, Rebecca – 984,000
Dante Alighieri, The Divine Comedy – 979,000
Roald Dahl, Charlie and the Chocolate Factory – 972,000
Neil Gaiman, Good Omens – 905,000
John Steinbeck, Of Mice and Men – 888,000
C.S. Lewis, The Lion, the Witch and the Wardrobe – 791,000
Anne Frank, The Diary of a Young Girl – 791,000
Albert Camus, The Stranger – 790,000
Arthur Miller, The Crucible – 790,000
Ernest Hemingway, The Old Man and the Sea – 782,000
Margaret Mitchell, Gone with the Wind – 782,000
Gillian Flynn, Gone Girl – 776,000
Chinua Achebe, Things Fall Apart – 771,000
Virgil, The Aeneid – 760,000
Emily Brontë, Wuthering Heights – 756,000
Upton Sinclair, The Jungle – 753,000
Richard Adams, Watership Down – 753,000
Douglas Adams, The Hitchhiker’s Guide to the Galaxy – 735,000
Ta-Nehisi Coates, Between the World and Me – 725,000
Cormac McCarthy, The Road – 719,000
Frederick Douglass, Narrative of the Life of Frederick Douglass – 713,000
Agatha Christie, Murder on the Orient Express – 713,000
George Eliot, Middlemarch – 703,000
Sylvia Plath, Ariel – 695,000
Jonathan Swift, Gulliver’s Travels – 690,000
Franz Kafka, The Metamorphosis – 682,000
Ayn Rand, Atlas Shrugged – 681,000
Virginia Woolf, Mrs. Dalloway – 660,000
Edward Said, Orientalism – 650,000
Walt Whitman, Leaves of Grass – 649,000
Stephen Hawking, A Brief History of Time – 640,000
Art Spiegelman, Maus – 638,000
John Steinbeck, The Grapes of Wrath – 637,000
Rupi Kaur, Milk and Honey – 633,000
Harriet Beecher Stowe, Uncle Tom’s Cabin – 633,000
Khaled Hosseini, The Kite Runner – 611,000
Alexandre Dumas, The Count of Monte Cristo – 607,000
John Grisham, A Time to Kill – 603,000
Virginia Woolf, To the Lighthouse – 592,000
Lucy Maud Montgomery, Anne of Green Gables – 585,000
Jorge Luis Borges, Ficciones – 584,000
John Green, Looking for Alaska – 583,000
Haruki Murakami, Norwegian Wood – 580,000
Stephen Hawking, A Brief History of Time – 579,000
Markus Zusak, The Book Thief – 573,000
Edith Wharton, The Age of Innocence – 551,000
Hilary Mantel, Wolf Hall – 541,000
Angie Thomas, The Hate U Give – 541,000
Chuck Palahniuk, Fight Club – 539,000
Malcolm Gladwell, Blink – 538,000
Truman Capote, In Cold Blood – 521,000
Stieg Larsson, The Girl With the Dragon Tattoo – 516,000
Maya Angelou, I Know Why the Caged Bird Sings – 515,000
Alice Walker, The Color Purple – 513,000
Paula Hawkins, The Girl on The Train – 509,000
Kurt Vonnegut, Slaughterhouse-Five – 506,000
Agatha Christie, And Then There Were None – 505,000
Sigmund Freud, The Interpretation of Dreams – 500,000
Marjane Satrapi, Persepolis – 495,000
P. L. Travers, Mary Poppins – 469,000
Helen Fielding, Bridget Jones’ Diary – 468,000
Trevor Noah, Born a Crime – 449,000
Donna Tartt, The Secret History – 445,000
Ralph Ellison, Invisible Man – 439,000
John Williams, Stoner – 435,000
Yann Martel, Life of Pi – 420,000
Ernest Hemingway, The Sun Also Rises – 411,000
Kazuo Ishiguro, Never Let Me Go – 409,000
Antoine de Saint-Exupéry, The Little Prince – 397,000
William Gibson, Neuromancer – 397,000
Mark Haddon, The Curious Incident of the Dog in the Night-Time – 394,000
Bryan Stevenson, Just Mercy – 389,000
Franz Kafka, The Trial – 387,000
Zora Neale Hurston, Their Eyes Were Watching God – 381,000
James Joyce, A Portrait of the Artist as a Young Man – 375,000
Kathryn Stockett, The Help – 372,000
Hunter S. Thompson, Fear and Loathing in Las Vegas – 368,000
Fyodor Dostoevsky, Crime and Punishment – 361,000
Elena Ferrante, The Neapolitan Novels – 356,000
Umberto Eco, The Name of the Rose – 353,000
Alex Haley, Roots – 352,000
Chimamanda Ngozi Adichie, Americanah – 350,000
Jonathan Franzen, Freedom – 344,000
Toni Morrison, The Bluest Eye – 341,000
W.E.B. Du Bois, The Souls of Black Folk – 323,000
Ian McEwan, Atonement – 319,000
Toni Morrison, Song of Solomon – 317,000
Rabindranath Tagore, The Home and the World – 315,000
Marcel Proust, In Search of Lost Time – 305,000
Colson Whitehead, The Underground Railroad – 302,000
Tim O’Brien, The Things They Carried – 300,000
David Foster Wallace, Infinite Jest – 293,000
Larry McMurtry, Lonesome Dove – 291,000
Philip K. Dick, Do Androids Dream of Electric Sheep? – 284,000
Shirley Jackson, The Haunting of Hill House – 282,000
Richard Wright, Native Son – 280,000
Harriet Jacobs, Incidents in the Life of a Slave Girl – 280,000
David Mitchell, Cloud Atlas – 279,000
Solomon Northup, Twelve Years a Slave – 273,000
André Aciman, Call Me By Your Name – 272,000
Don DeLillo, Underworld – 263,000
D.H. Lawrence, Lady Chatterley’s Lover – 258,000
Lorraine Hansberry, A Raisin in the Sun – 246,000
Haruki Murakami, Kafka on the Shore – 243,000
William Faulkner, The Sound and the Fury – 242,000
Amy Tan, The Joy Luck Club – 241,000
Toni Morrison, Sula – 239,000
Edith Wharton, The House of Mirth – 239,000
Arundhati Roy, The God of Small Things – 239,000
Gabriel García Márquez, One Hundred Years of Solitude – 238,000
Betty Friedan, The Feminine Mystique – 235,000
Cormac McCarthy, Blood Meridian – 234,000
Erich Maria Remarque, All Quiet on the Western Front – 232,000
J. M. Coetzee, Disgrace – 230,000
Fyodor Dostoevsky, The Brothers Karamazov – 226,000
Milan Kundera, The Unbearable Lightness of Being – 226,000
Salman Rushdie, Midnight’s Children – 224,000
Amor Towles, A Gentleman in Moscow – 223,000
James Baldwin, The Fire Next Time – 219,000
Banana Yoshimoto, Kitchen – 218,000
Raymond Chandler, The Big Sleep – 217,000
Djuna Barnes, Nightwood – 215,000
Frank McCourt, Angela’s Ashes – 211,000
Alice Sebold, The Lovely Bones – 208,000
Jeffrey Eugenides, Middlesex – 203,000
Mitch Albom, The Five People You Meet in Heaven – 199,000
Kazuo Ishiguro, The Remains of the Day – 198,000
Booker T. Washington, Up From Slavery – 197,000
Yaa Gyasi, Homegoing – 197,000
Erik Larson, The Devil in the White City – 191,000
Betty Smith, A Tree Grows in Brooklyn – 191,000
William Faulkner, As I Lay Dying – 187,000
Roberto Bolaño, 2666 – 187,000
Roxane Gay, Hunger – 187,000
Evelyn Waugh, Brideshead Revisited – 186,000
Ursula K. Le Guin, The Left Hand of Darkness – 186,000
Zadie Smith, White Teeth – 181,000
Sandra Cisneros, The House on Mango Street – 177,000
Robert A. Heinlein, Stranger in a Strange Land – 175,000
Jean Rhys, Wide Sargasso Sea – 173,000
Dashiell Hammett, The Maltese Falcon – 171,000
Audrey Niffenegger, The Time Traveler’s Wife – 170,000
E.M. Forster, Howards End – 170,000
Audre Lorde, Sister Outsider – 168,000
Nella Larsen, Passing – 168,000
Stendhal, The Red and the Black – 165,000
Marilynne Robinson, Gilead – 165,000
Alex Haley and Malcolm X, The Autobiography of Malcolm X – 164,000
James Baldwin, Notes of a Native Son – 163,000
J.M. Barrie, Peter and Wendy – 162,000
Michael Ondaatje, The English Patient – 160,000
John Kennedy Toole, A Confederacy of Dunces – 160,000
Willa Cather, My Ántonia – 158,000
Italo Calvino, Invisible Cities – 157,000
Thomas Pynchon, Gravity’s Rainbow – 156,000
Iris Murdoch, The Sea, The Sea – 154,000
Patricia Highsmith, The Talented Mr. Ripley – 150,000
Isabel Allende, The House of the Spirits – 148,000
James Baldwin, Giovanni’s Room – 147,000
Terry McMillan, How Stella Got Her Groove Back – 143,000
Haruki Murakami, Kafka on the Shore – 139,000
Angela Carter, The Bloody Chamber – 139,000
Don DeLillo, White Noise – 139,000
A.S. Byatt, Possession – 139,000
Philip Roth, American Pastoral – 138,000
Mark Z. Danielewski, House of Leaves – 137,000
Pearl S. Buck, The Good Earth – 136,000
William Faulkner, Absalom, Absalom! – 136,000
Sherwood Anderson, Winesburg, Ohio – 133,000
Jhumpa Lahiri, The Interpreter of Maladies – 133,000
Flannery O’Connor, A Good Man is Hard to Find – 132,000
Marilynne Robinson, Housekeeping – 129,000
Octavia Butler, Kindred – 128,000
Willa Cather, O Pioneers! – 127,000
Sojourner Truth, The Narrative of Sojourner Truth – 127,000
Vladimir Nabokov, Pale Fire – 126,000
Shirley Jackson, We Have Always Lived in the Castle – 126,000
Vikram Seth, A Suitable Boy – 125,000
Jonathan Safran Foer, Everything is Illuminated – 125,000
Tom Wolfe, The Bonfire of the Vanities – 122,000
Jean Toomer, Cane – 118,000
Carlos Ruiz Zafón, The Shadow of the Wind – 118,000
Jonathan Franzen, The Corrections – 115,000
Susanna Clarke, Jonathan Strange & Mr. Norrell – 115,000
James Baldwin, Go Tell It On the Mountain – 115,000
Jennifer Egan, A Visit From the Goon Squad – 113,000
Philip Roth, The Plot Against America – 112,000
John le Carré, Tinker Tailor Soldier Spy – 109,000
Sarah Waters, Fingersmith – 109,000
Curtis Sittenfeld, Prep – 108,000
Philip Roth, Portnoy’s Complaint – 104,000
Leslie Marmon Silko, Ceremony – 102,000
Richard Yates, Revolutionary Road – 101,000
José Saramago, Blindness – 101,000
Marguerite Duras, The Lover – 96,300
Carson McCullers, The Heart is a Lonely Hunter – 95,700
Maxine Hong Kingston, The Woman Warrior – 87,100
Joan Didion, Slouching Towards Bethlehem – 86,600
Dave Eggers, A Heartbreaking Work of Staggering Genius – 84,700
Raymond Carver, What We Talk About When We Talk About Love – 83,400
Jacqueline Susann, Valley of the Dolls – 80,200
Robert Pirsig, Zen and the Art of Motorcycle Maintenance – 76,600
Junot Díaz, The Brief Wondrous Life of Oscar Wao – 69,400
Annie Dillard, Pilgrim at Tinker Creek – 67,300
Louise Erdrich, Love Medicine – 66,300
Jeffrey Eugenides, The Virgin Suicides – 66,200
Rudolfo Anaya, Bless Me, Ultima – 60,700
Maggie Nelson, Bluets – 57,300
Michael Chabon, The Amazing Adventures of Kavalier & Clay – 56,000
Denis Johnson, Jesus’ Son – 53,700
Jamaica Kincaid, A Small Place – 51,300
Edwidge Danticat, Breath, Eyes, Memory – 51,000
Samuel R. Delany, Dhalgren – 42,900
Edward P. Jones, The Known World – 40,100

* Como o título é regularmente escrito de duas maneiras diferentes, esse número foi alcançado pela combinação de 11.800.000 instâncias de “ 1984 ” e 997.000 de “ Mil novencentos e oitenta e quatro ”

** Sei que são tecnicamente três livros (embora ele sempre quisesse que fossem publicados como um); para o bem ou para o mal, pensei que faria mais sentido funcional ir com o título da trilogia neste caso.

*** Este número foi alcançado combinando os resultados para os títulos dos EUA e do Reino Unido para este livro: Harry Potter e a Pedra Filosofal (Reino Unido) teve 2.720.000 menções e Harry Potter e a Pedra Filosofal (EUA) teve 1.590.000.

.oOo.

Emily Temple é editora-chefe da Lit Hub. Seu primeiro romance, The Lightness , foi publicado por William Morrow / HarperCollins em junho de 2020.

Os livros mais vendidos de abril na Bamboletras

Os livros mais vendidos de abril na Bamboletras

Aqui está a lista dos mais vendidos de abril aqui na Bamboletras!

1. Torto Arado, de Itamar Vieira Junior (Todavia)
2. O Avesso da Pele, de Jeferson Tenório (Companhia das Letras)
3. Os Supridores, de José Falero (Todavia)
4. Vista Chinesa, de Tatiana Salem Levy (Todavia)
5. O Oráculo da Noite, de Sidarta Ribeiro (Companhia das Letras)
6. Marrom e Amarelo, de Paulo Scott (Alfaguara)
7. A estrangeira, de Claudia Durastanti (Todavia)
8. Talvez você deva conversar com alguém, de Lori Gottlieb (Vestígio)
9. O som do rugido da onça, de Micheliny Verunschk (Companhia das Letras)
10. A vida não é útil, de Ailton Krenak (Companhia das Letras)

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A Autobiografia, de Woody Allen

A Autobiografia, de Woody Allen

Charles Dickens difamou sua esposa porque desejava se separar. J. D. Salinger era esquisito com as meninas adolescentes… George Orwell denunciou stalinistas para o serviço secreto inglês — alguns denunciados eram “amigos” seus e dizem que foi pago por isso. (Não sou stalinista, OK?). Gertrude Stein parecia admirar fascistas. Ernest Hemingway foi espião da KGB. Jack London era racista. Monteiro Lobato também. Roald Dahl era antissemita e todo mundo lê seus livros e vê A Fantástica Fábrica de Chocolates. William Golding tentou estuprar uma garota de 15 anos. Norman Mailer quase assassinou sua esposa — apunhalou-a no estômago e nas costas. Céline era um fascista de 4 costados. Muita gente lê estes autores e, olha, Woody Allen me parece ser bem mais tranquilo, além de ter sido profundamente investigado e inocentado. É estranha a perseguição que ainda sofre.

OK, não é muito normal casar-se com a filha da namorada — ela era filha adotiva de Mia Farrow e André Previn –, admito. Mas não vou me preocupar com isso.

Antes de escrever algo sobre o livro, digo que o editor brasileiro foi desrespeitoso para com seu título original, coisa que não aconteceu em Portugal, como vemos ao lado. O nome do livro em inglês é Apropos of Nothing. Este é o primeiro problema, o segundo é a tradução, que apenas eventualmente traz integralmente a voz e o estilo de Allen e usa certas gírias que ou são antiquadas ou muito Região Sudeste, não sei bem. Conheço mais 3 pessoas de Porto Alegre que leram o livro e todas reclamaram do trabalho do tradutor.

Apesar de tudo isso, curti o livro. A cada página há piadas hilariantes e boas histórias sobre conhecidas personalidades do cinema. Meu interesse só caiu quando a autobiografia foi interrompida pelo Caso Mia. É claro que o caso é incontornável — afinal, o fato interrompeu a vida profissional do cineasta, mas eu já conhecia bem a história e o texto não acrescentou muita coisa ao que eu já sabia, só preencheu algumas lacunas. Porém, fica claro que o livro só existe porque ele queria deixar clara sua visão.

Antes, ele descreve sua infância e nos leva pelo caminho através do qual se estabeleceu como um dos grandes cineastas americanos da década de 70 em diante. É um deleite ler sobre as décadas de 70 e 80, onde produziu filmes inesquecíveis como Annie Hall, Manhattan, Hanna e suas irmãs e outros. Os filmes mais recentes, mesmo os excelentes Match Point e Meia-Noite em Paris, recebem menor destaque. O texto de Allen é muitíssimo engraçado e ele releva-se modesto, sempre falando na sorte que teve. Seu único motivo de orgulho parece ser o fato de ter nascido cômico e de ter uma incrível capacidade de trabalho. Imaginem que ele assinou mais de 50 filmes, atuando em muitos deles. Filho de um livreiro e descendente de judeus de origem alemã, Woody Allen frequentou a Universidade de Nova Iorque, mas não completou os estudos. Muito jovem, começou a vender textos de humor para comediantes. Os primeiros filmes que o tornaram famoso foram as comédias leves, como Bananas (1971), Tudo o que você sempre quis saber sobre sexo mas tinha medo de perguntar (1972) e O Dorminhoco  (1973). Só depois vieram seus clássicos, que permitiram a Allen explorar alguns dos seus temas preferidos: a cidade de Nova Iorque, a religião judaica, a psicanálise e a burguesia intelectual norte-americana. Ele também analisa sua tendência e admiração pelos filmes sérios, mas que se sai melhor provocando risadas, para o que sua figura ainda contribui.

Fica óbvio que, como cineasta, a imagem que Allen tem de si é bastante diferente daquela que percebemos como cinéfilos. E é interessante entender isso.

Penso que o livro seja altamente recomendável para fãs do cineasta. Para os demais, vale a leitura para conhecer de perto este episódio inacreditável criado pela “moral” estadunidense. Tudo faz crer que o cancelamento de Woody seja apenas um protesto contra a sua relação com Soon-Yi, que a maioria da sociedade americana, em sua hipocrisia religiosa, considera um “pecado” mais que um fato pouco comum. Sim, é um fato pouco comum e nada muito além disto. Certas coisas, definitivamente, só acontecem nos Estados Unidos. Seus filmes continuam sendo vistos na Europa e em muitos outros países, mas não nos EUA. Curioso.

Woody Allen, o cineasta interrompido | Foto: Divulgação

Presidente de Portugal defende leitura como impulso à economia: ‘É aposta no desenvolvimento a longo prazo’

Em entrevista exclusiva, Marcelo Rebelo de Souza relata suas doações de mais de 200 mil livros e títulos e comenta a polêmica sobre tributação no Brasil

De O Globo.

PORTO, Portugal — Presidente dos Afetos, como é carinhosamente conhecido em Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa defende com ternura a educação e a leitura como principal caminho para o desenvolvimento econômico de longo prazo.

Em entrevista à coluna Portugal Giro, ele conta como suas doações de livros ajudaram a tornar Celorico de Basto, terra de sua avó e então município mais pobre de Portugal, em um celeiro de cultura.

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— Havia de encontrar onde apostar no desenvolvimento. E eu entendi que era a longo prazo, na cultura e na educação.

A cidade ganhou notoriedade e melhorou a infraestrutura. Depois da biblioteca, Marcelo apadrinhou uma feira do livro, que atraiu ao longo dos anos políticos, escritores, jornalistas, turistas e potenciais investidores.

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O presidente português comentou ainda a recente polêmica sobre o acesso a livros no Brasil, após estudo da Receita Federal defender a tributação no setor sob o argumento de que os pobres leem menos do que os ricos:

— É evidente que há uma clivagem econômica e social muito acentuada. Quem lê mais, escreve mais e melhor. Marca o começo da vida. As escolas públicas e particulares têm o dever de corrigir essa desigualdade — afirma Marcelo, que já fez mais de 200 mil doações.

O bolsonarismo e a taxação dos livros: hipocrisia, mentira e anti-intelectualismo

O bolsonarismo e a taxação dos livros: hipocrisia, mentira e anti-intelectualismo

Do Esquerda Online.

A isenção tributária sobre os livros é uma garantia constitucional, consagrada no artigo 150, daquela que ficou conhecida como a Constituição Cidadã. De certo modo foi um gesto de um Brasil que, recém-saído de 21 anos de Ditadura, buscou valorizar o papel da educação e da cultura – e dos livros como um de seus instrumentos – para construção de uma sociedade democrática.

Não nos deveria causar espanto um governo odioso como o de Bolsonaro voltar suas armas também contra essa garantia constitucional. Afinal, cultura e educação, já sabemos bem, são um dos principais alvos do bolsonarismo. Nesse caso específico, o argumento utilizado pelo Ministro Paulo Guedes, segundo o qual a leitura de livros seria um hábito de luxo, apenas para ricos, e que a sua taxação seria uma espécie de justiça social ao poder com isso destinar mais recursos aos pobres – ao bolsa família por exemplo – é também típico da hipocrisia e superficialidade do desgoverno federal.

Basta uma rápida ida ao texto da Constituição e veremos, por exemplo, que no mesmo artigo 150, que veda à União, Estados e Municípios a instituição de imposto sobre os livros; também há, algumas alíneas acima, a mesma garantia em relação aos templos religiosos de qualquer culto. Se você que lê essas linhas mora no Brasil, deve ter conhecimento dos verdadeiros impérios construídos com base na exploração econômica da fé.

É de conhecimento público a intensa e diversa atividade econômica que ultrapassa as paredes dos templos. E por óbvio, também sabemos que esses impérios há muito criaram raízes na política institucional brasileira, vide a própria bancada da bíblia no congresso federal com sua Frente Parlamentar Evangélica (FPE) composta de 182 parlamentares. Ao que parece, os únicos que não sabem disso são Paulo Guedes e sua equipe econômica, que ao se debruçar sobre o mesmo artigo da Constituição preferiram centrar fogo nos livros. Sabemos bem o porquê, não é mesmo?

E tem mais, quando alega que os recursos da taxação dos livros poderão ser utilizados para distribuição de renda, Guedes mente desavergonhadamente sobre a natureza da reforma tributária que está sendo planejada. No Brasil, toda a carga tributária está sustentada em cima do consumo, e não da renda ou patrimônio. Isso faz com que, ao contrário do que se pensa, sejam os mais pobres que pagam proporcionalmente mais impostos. É o que se chama de carga tributária regressiva. É justamente esse mecanismo perverso e, considerando as profundas desigualdades sociais e raciais brasileiras, racista, que o governo federal não tem a menor intenção de alterar. Nesse sentido, o discurso de Guedes não passa de um engodo.

Autoritarismo e anti-intelectualismo

Esse episódio da taxação dos livros deve ainda nos fazer pensar sobre outra lição que a História há muito nos ensinou. O Anti-intelectualismo é marcadamente um dos traços dos governos de viés autoritário. Os fascistas, particularmente, abominam a ciência com o mesmo fervor que cultuam os mitos. Num recente e necessário livro publicado em 2018, sob o título “Como funciona o fascismo”, o filosofo estadunidense Jason Stanley sustenta que:

“A política fascista procura minar o discurso púbico atacando e desvalorizando a educação, a especialização e a linguagem. É impossível haver um debate inteligente sem uma educação que dê acesso a diferentes perspectivas, sem respeito pela especialização quando se esgota o próprio conhecimento e sem uma linguagem rica o suficiente para descrever com precisão a realidade.”

Stanley ainda argumenta que, para os fascistas, o debate público deve ser ocupado não com a ciência, ou com formulações balizadas por pesquisas, pluralidade de perspectivas, experimentação e formulação de hipóteses; mas sim pela propaganda doutrinária. E para isso, recorre a ninguém menos que o próprio Adolf Hitler, que escreveu na sua biografia Mein Kampf que:

“A capacidade receptiva das massas é muito limitada, e sua compreensão é pequena; por outro lado, elas têm um grande poder de esquecer. Sendo assim, toda propaganda eficaz deve limitar-se a pouquíssimos pontos que devem ser destacados na forma de slogans.”

Num país que desgraçadamente tornou-se o epicentro mundial da pandemia, estamos experimentando da pior maneira possível a consequência do Anti-intelectualismo, da vulgarização da importância da leitura e negação da ciência. Esse governo genocida negou a gravidade da Covid-19, a apelidou de gripezinha, sabotou as medidas sanitárias e implementou uma verdadeira política anti-vacina. O preço de tudo isso está sendo cobrada em vidas e, com os sucessivos reveses do plano de vacinação que aponta para uma indefinida escassez de vacinas, ainda estamos longe de saber qual será a extensão dessa fatura sinistra.

Estudiosos italianos descobriram a verdadeira identidade de Elena Ferrante?

Estudiosos italianos descobriram a verdadeira identidade de Elena Ferrante?

Elisa Sotgiu faz uma leitura de gênero e classe sobre um dos grandes mistérios literários de nosso tempo.

Traduzido por Milton Ribeiro. Daqui, ó

Quando Claudio Gatti publicou uma investigação sobre a identidade de Elena Ferrante, há alguns anos, ele levantou protestos na Itália e no exterior. Ele havia invadido a privacidade da autora e violado seu direito de permanecer anônima. Era injusto, era irrelevante, não queríamos saber.

Verdade? Sim e não. Havia uma conclusão importante no artigo de Gatti: quem escrevia os romances de Ferrante era a tradutora Anita Raja, uma mulher.

Isso foi um alívio. Se você não sabe como os acadêmicos e jornalistas italianos podem ser sexistas, fica difícil imaginar a importância do gênero de Ferrante para todos nós que estudamos seu trabalho ao longo dos anos. Antes mesmo de Minha Amiga Genial ser publicado, correram rumores de que a obra de Ferrante tinha sido de autoria de um homem, e eles se intensificaram após o sucesso dos romances napolitanos nos Estados Unidos. Lembro de meu orientador me contando sobre essas especulações quando comecei a trabalhar com Ferrante em 2015; nós dois zombamos da misoginia que esse tipo de fofoca implicava, sentindo-nos como se estivéssemos nas trincheiras de uma mini guerra cultural.

Portanto, quando me deparei com uma série de artigos acadêmicos que, por meio de uma análise estilométrica, identificaram Elena Ferrante como o romancista italiano Domenico Starnone (marido de Anita Raja), não estava pronta para depor minhas armas. Naquela época, eu não tinha lido nenhum dos romances de Starnone. Eu sabia que ele era um autor prolífico, que havia escrito bastante sobre o ensino médio e que seu longo romance semiautobiográfico sobre sua juventude em Nápoles, Via Gemito, ganhara o prestigioso Prêmio Strega. Mas eu realmente não me importava com ele. Quando confrontado com a ideia de que ele poderia ser o autor de meus amados romances napolitanos, meu primeiro impulso foi deixar essa informação de lado, não falar sobre ela, e nem pensar muito a respeito.

Eu não estava sozinha. Embora o primeiro desses artigos estilometricos, de Arjuna Tuzzi e Michele A Cortelazzo, tenha saído em 2018 — exatamente no momento em que as publicações internacionais sobre Ferrante se multiplicavam exponencialmente –, quase nunca era citado fora do campo das humanidades digitais. Nas raras ocasiões em que foi mencionado, foi rapidamente descartado: abordar o problema da identidade de Ferrante, ao que parece, seria bastante prejudicial para qualquer análise séria de seus escritos, na opinião de alguns estudiosos.

É uma boa prática entre os estudiosos de Ferrante declarar que, seja qual for o seu gênero, o que conta é que ela escolheu adotar a persona de uma mulher. Mas permanece o fato de que os críticos frequentemente (embora com reprovação) citam Gatti quando querem discutir as ideias de Anita Raja sobre tradução em relação a Ferrante, enquanto ignoram cuidadosamente Tuzzi, Cortellazzo, Jacques Savoy e os outros nove estudiosos que confirmaram que os estilos de Ferrante e Starnone costumam ser indistinguíveis. Rachel Donadio foi a única que tentou (com sucesso) comparar os romances de Ferrante e Starnone, mas o fez nas páginas do The Atlantic e do The New York Times, pois a comparação é um tabu na academia.

Comecemos do início, então, e vejamos que quadro de Ferrante esses artigos nos permitem traçar. Em primeiro lugar, é útil saber que Tuzzi e Cortellazzo montaram um grande corpus para suas análises: 150 romances de 40 romancistas italianos contemporâneos, equilibrados por gênero e origem regional. Este corpo de textos foi então usado por um grupo de especialistas internacionais que participaram de um workshop de verão na Universidade de Padova em 2017. Eles trabalharam de forma independente e com abordagens metodológicas diferentes, mas chegaram a conclusões semelhantes (os anais do workshop foram publicados pela editora da Universidade de Padova). Georgios Mikros, da Universidade de Atenas, por exemplo, usou o corpus textual para treinar um algoritmo (aplicativo) de aprendizado de computador para criar perfis de autores (ou seja, identificar seu sexo, idade e procedência) com um alto grau de precisão. Este algoritmo concluiu que a pessoa por trás de Elena Ferrante era um homem com mais de 60 anos da região da Campânia, onde fica Nápoles).

E aquele velho napolitano se parece suspeitosamente com Domenico Starnone: na representação visual do corpus de Maciej Eder e Jan Rybicki, os romances de Ferrante e Starnone ocupam o mesmo lugar marginal, distante da maioria dos outros textos e conectados a eles apenas pelos três primeiros romances de Starnone, que foram escritos entre 1987 e 1991. Em outras palavras, Starnone e Ferrante são autores altamente originais, diferentes de todos os outros escritores italianos, mas muito próximos um do outro.

No estudo de Margherita Lalli, Francesca Tria e Vittorio Loreto (Universidade La Sapienza de Roma), um algoritmo de compressão de dados atribui erroneamente Um Amor Incômodo, de Ferrante, a Starnone, e Excesso de Zelo, Via Gemito e A Primeira Execução, de Starnone, a Ferrante. Em sua introdução ao volume, Tuzzi e Cortellazzo também fornecem uma lista muito longa de termos e expressões que podem ser encontrados apenas (e frequentemente) nos escritos de Starnone e Ferrante, mas em nenhum trabalho de outro escritor.

Em seu último estudo, Tuzzi e Cortellazzo também nos permitem delinear uma evolução paralela no tempo: depois de seus primeiros romances relativamente convencionais, Starnone desenvolve um estilo muito reconhecível no início dos anos 1990. Entre 1992 e o início dos anos 2000, diferentes romances são publicados com os nomes de Ferrante e Starnone, mas todos parecem pertencer à mesma família: o romance de Ferrante de 1992 (Um Amor Incômodo) é semelhante aos romances de Starnone de 1993 e 1994 (Excesso de Zelo e Dentes), a Ferrante de 2002 e 2006 (Dias de Abandono e A Filha Perdida) são mais semelhantes ao Starnone de 2005 (Responsabilidade). Então, por volta da década de 2010, vemos um desenvolvimento estilístico: tanto Ferrante quanto Starnone adquirem um certo distanciamento de seus eus mais velhos. Os romances napolitanos são mais semelhantes entre si — compreensivelmente, já que são um longo romance dividido em quatro volumes — e com o romance de Ferrante de 2019, A vida mentirosa dos adultos. Além disso, os romances mais recentes de Starnone podem ser agrupados, pois suas características são mais marcadamente únicas.

Esses dados podem ser interpretados de diferentes maneiras. No início, parece claro que Starnone está usando o nome de Ferrante quando quer adotar uma narradora feminina em primeira pessoa, sem se preocupar em mudar sua voz característica. Mais tarde, ele pode ter trabalhado para uma diferenciação mais acentuada dos dois estilos — ou outra coisa pode ter acontecido. Talvez uma colaboração com Raja. Um autor, Rybicki, que teve experiência anterior em analisar os esforços de escrita de um casal, não exclui essa possibilidade. Tuzzi e Cortellazzo também mostram que os escritos de não ficção de Ferrante — aqueles reunidos no volume Frantumaglia –– não são tão estilisticamente coerentes quanto sua ficção. Seu algoritmo atribui os diferentes ensaios, cartas e entrevistas a três autores diferentes: Starnone, Raja e um autor coletivo que representa os proprietários e materiais de publicidade da editora E/O (a editora de Ferrante desde o início). Em todo caso, parece quase fora de dúvida que Starnone, sozinho ou em dupla com sua esposa sentou-se e datilografou os romances que foram publicados sob o nome de Elena Ferrante.

Mas esta é uma história que vai além de Starnone. Para quem se interessa, como eu, pela história cultural do nosso presente, a criação de Elena Ferrante é um caso notável.

No início da década de 1990, Domenico Starnone tinha contrato com uma das principais editoras italianas, a Feltrinelli, para a qual havia publicado três romances entre 1989 e 1991. Nesse ponto, começou a colaborar com a jovem e pouco conhecida editora a casa Edizioni E/O, onde sua esposa Anita Raja trabalhou como tradutora freelancer de alemão durante os anos 1980. No catálogo da E/O, o nome de Starnone aparece apenas entre 1991 e 1992. Ele escreveu um posfácio para uma coleção de contos de Mark Twain, um ensaio em um volume sobre literatura infanto juvenil, e Sottobanco, uma adaptação teatral de seu primeiro livro, o único que Feltrinelli não publicou. 1992 foi também o ano em que O Amor Incômodo, o primeiro dos romances de Ferrante, saiu pela E/O.

Sandro Ferri e Sandra Ozzola, os fundadores da editora, devem ter feito questão de manter Starnone entre seus autores, mas Starnone — talvez por causa de obrigações contratuais, talvez por escolha — decidiu continuar a publicar em seu nome real para a Feltrinelli e sob o pseudônimo de Ferrante para a E/O. Afinal, uma escritora estava mais de acordo com o projeto editorial de Ferri e Ozzola, e a escolha de Starnone de escrever como homem para uma editora de prestígio e como mulher para uma editora marginal era consistente com a estrutura do espaço literário italiano dominado por homens.

O segundo capítulo dessa história começa em 2005, quando Ferri e Ozzola fundaram a Europa Editions em Londres e Nova York. Sua missão — de publicar autores periféricos e servir como ponte entre diferentes nações e culturas — não encontrou muita ressonância na Itália, mas estava perfeitamente alinhada com o novo entusiasmo pela “literatura mundial” que estudiosos, críticos culturais e editores independentes compartilhavam no mundo anglófono. Para conquistar seu nicho neste mundo, Ferri e Ozzola decidiram apostar em Elena Ferrante: Dias de Abandono foi um dos dois livros que a Europa Editions publicou em seu primeiro ano, e todos os seus outros romances foram traduzidos para o inglês imediatamente depois que eles saíram em italiano.

Foi uma aposta vencedora, mas eles não tiveram apenas sorte. Se ser uma autora era uma desvantagem na Itália, era muito menos nos Estados Unidos. Na década de 2010 a 2019, as mulheres constituíram 60% dos autores selecionados e 60% dos vencedores do National Book Award for Fiction, 52% dos indicados e 60% dos vencedores do Prêmio PEN / Faulkner e 80% dos vencedores do National Book Critics Circle Award, só para citar alguns dos reconhecimentos mais importantes. Enquanto Ferrante levou seus leitores globais a uma “febre”, Domenico Starnone recebeu atenção da crítica nos Estados Unidos apenas com seu romance de 2014, Laços, que pode ser lido como uma sequência de Dias de Abandono, de Ferrante.

Não estou sugerindo que a invenção de Elena Ferrante foi apenas um empreendimento editorial astuto. Um pseudônimo feminino pode ter sido uma forma de evitar críticas: se você pesquisar no Google “escritores masculinos que escrevem personagens femininos”, os primeiros resultados (com títulos como “30 vezes que autores masculinos mostraram que mal sabem alguma coisa sobre mulheres” e “escritores masculinos não têm nenhuma ideia de como escrever sobre personagens femininos”) deixam claro que essa prática sofre de enorme má reputação. Escrever sobre gênero da perspectiva de uma mulher também poderia ter sido uma forma de chamar a atenção para a questão da dinâmica de classe e mobilidade social que muitas vezes esteve no centro da escrita de Starnone. Perto do final do Quarteto Napolitano, a protagonista Elena Greco diz que sem sua brilhante amiga Lila, toda a sua vida “seria reduzida apenas a uma batalha mesquinha para mudar de classe social”.

Poderia ser útil, então, redirecionar nossa atenção do assunto de gênero para o de classe. O último romance de Ferrante, A Vida Mentirosa dos Adultos, tem pouco a acrescentar sobre a questão da identidade das mulheres. Especialmente no início, a história parece se repetir com pequenas variações a todos os tropos de Ferrante: a ideia de não ser nada além de “um nó emaranhado”, o apagamento de mulheres em fotos e na carne, a ideia de mães espiando através de suas filhas, a amizade feminina baseada na emulação e desejo de fusão, o ciúme e possessividade em relação à mãe, a sexualidade dos filhos. Frases de livros anteriores, e especialmente do Quarteto Napolitano, são repetidas quase inalteradas. A única diferença é que desta vez o ponto de vista parece ser o de uma reencarnação mais jovem de Lila em vez de outra Elena.

A principal novidade da história, ao contrário, é o que ela diz sobre classe social. Os romances napolitanos foram construídos na contraposição dos bairros proletários e subproletários de Nápoles ao centro da cidade burguesa. Uma ética de responsabilidade e realização educacional e um grande investimento em status eram as pedras angulares das crenças de Elena Greco. Em A Vida Mentirosa, porém, a protagonista Giovanna e seus amigos abraçam valores pós-materialistas e se atualizam: eles podem viajar livremente e ainda reconhecer a importância das periferias mais pobres de Nápoles, eles não se preocupam com boas notas, mas estão interessados ​​em ler e escrever como um meio de cultivar seu eu autêntico. Eles são a nova classe média cosmopolita e rejeitam as dicotomias de classe da geração mais velha.

Estudar os romances de Ferrante junto com os de Starnone pode nos tornar melhores leitores de ambos e abrir novos caminhos para os estudiosos. Mas reconhecer que Elena Ferrante é provavelmente um homem também pode mudar as coisas para pior. Ela nos serviu bem: as acadêmicas que se dedicam a estudos italianos de repente tiveram um ingresso confiável em conferências internacionais, revistas online, edições especiais, em editoras. Essas vantagens podem chegar ao fim. Mas isso não é motivo para ficar triste; Elena Ferrante ainda é um prazer de ler. E ela também é o maior mistério literário de nosso tempo.

.oOo.

Elisa Sotgiu é candidata ao doutorado em Literatura Comparada em Harvard. Ela estudou na Scuola Normale Superiore em Pisa e publicou sobre Edoardo Sanguineti, Henry James e Elena Ferrante.

Anita Starnone e Domenico Ferrante? Ou Elena Raja?

Ivana Jinkings, editora da Boitempo, sobre o tal tradutor de Marx:

Ivana Jinkings, editora da Boitempo, sobre o tal tradutor de Marx:

Caros, eu já expliquei algumas vezes o “Caso Rubens Enderle”, mas vamos lá uma vez mais. Rubens chegou à Boitempo há cerca de vinte anos, recomendado por uma professora marxista, de nossa inteira confiança. Ele era à época um jovem estudioso de Marx, com amplo conhecimento da língua alemã. traduziu boa parte da obra marxiana e também a de alguns marxistas, todos de forma competente e séria. Foi sempre elogiado pelos especialistas que melhor conhecem os dois idiomas. Ganhou o Prêmio Jabuti de melhor tradução com O Capital, livro I (prêmio raramente dado a livros de não-ficção) e diversas outras menções honrosas. Em determinado momento, creio que quando traduzia o livro II, passamos a ter noticias de manifestações dele nas redes sociais em favor de Olavo de Carvalho e outras causas indefensáveis. Num primeiro momento, não demos atenção a elas, afinal importava que ele era um bom tradutor. Mas a coisa cresceu, se agravou (tenho apenas noticias, nunca vi nenhuma de suas postagens, nem pretendo) a ponto de decidirmos não mais contratá-lo para novas traduções, por suas posições ferirem nossa linha e posicionamentos públicos. Isso, entretanto, não significa que qualquer de seus trabalhos devam ser colocados em dúvida. O que ele traduziu foi bem feito e seguirá em nosso catálogo. Agradeço se puderem transmitir esta explicação quando e se esse assunto voltar à baila. Obrigada e abraços.

A editora Ivana Jinkings

Lista dos livros mais vendidos na Livraria Bamboletras em janeiro de 2021

Lista dos livros mais vendidos na Livraria Bamboletras em janeiro de 2021

1. Os Supridores, de José Falero.
2. Torto Arado, de Itamar Vieira Junior.
3. E fomos ser gauche na vida, de Lelei Teixeira.
4. O Avesso da Pele, de Jeferson Tenório.
5. Máscaras da Tricolina — sim, máscaras para a pandemia.
6. Mulheres de Minha Alma, de Isabel Allende.
7. A Vida Mentirosa dos Adultos, de Elena Ferrante.
8. Contra mim, de Valter Hugo Mãe.
9. Porto Alegre, Cidade Baixa: um bairro que contém seu passado, de Renato Menegotto.
10. República das Milícias, de Bruno Paes Manso.
11. Marrom e Amarelo, de Paulo Scott.

Que orgulho! Só tem livro bom aí!

Deixem eu me gabar…

Deixem eu me gabar…

O Jonas Fernando Pohlmann é um querido cliente da Bamboletras que mora em Moçambique.

Quando vem ao Brasil, além de visitar nossa livraria, traz pra gente uma lembrancinha. Bem, até hoje só trouxe lembrançonas!

No ano passado, ele nos presenteou com Balada de Amor ao Vento, ótimo livro de Paulina Chiziane ainda não lançado no Brasil.

E ontem ele nos trouxe O Mapeador de Ausências, de Mia Couto, ainda não publicado entre nós.

Com um detalhe, o livro veio autografado por Mia.

100 Livros Essenciais da Literatura Mundial

100 Livros Essenciais da Literatura Mundial

Há algumas semanas, li a lista da extinta revista Bravo sobre os 100 livros essenciais da literatura mundial. A edição vendeu muito, disse o dono da banca de revistas meu vizinho. No final da revista, há uma página de Referências Bibliográficas de razoável tamanho, mas o editor esclarece que a maior influência veio dos trabalhos de Harold Bloom.

Vamos à lista? Depois farei alguns comentários a ela.

A lista é a seguinte (talvez haja erros de digitação, talvez não):

1. Ilíada, Homero
2. Odisseia, Homero
3. Hamlet, William Shakespeare
4. Dom Quixote, Miguel de Cervantes
5. A Divina Comédia, Dante Alighieri
6. Em Busca do Tempo Perdido, Marcel Proust
7. Ulysses, James Joyce
8. Guerra e Paz, Leon Tolstói
9. Crime e Castigo, Dostoiévski
10. Ensaios, Michel de Montaigne
11. Édipo Rei, Sófocles
12. Otelo, William Shakespeare
13. Madame Bovary, Gustave Flaubert
14. Fausto, Goethe
15. O Processo, Franz Kafka
16. Doutor Fausto, Thomas Mann
17. As Flores do Mal, Charles Baldelaire
18. Som e a Fúria, William Faulkner
19. A Terra Desolada, T.S. Eliot
20. Teogonia, Hesíodo
21. As Metamorfoses, Ovídio
22. O Vermelho e o Negro, Stendhal
23. O Grande Gatsby, F. Scott Fitzgerald
24. Uma Estação No Inferno,Arthur Rimbaud
25. Os Miseráveis, Victor Hugo
26. O Estrangeiro, Albert Camus
27. Medéia, Eurípedes
28. A Eneida, Virgilio
29. Noite de Reis, William Shakespeare
30. Adeus às Armas, Ernest Hemingway
31. Coração das Trevas, Joseph Conrad
32. Admirável Mundo Novo, Aldous Huxley
33. Mrs. Dalloway, Virgínia Woolf
34. Moby Dick, Herman Melville
35. Histórias Extraordinárias, Edgar Allan Poe
36. A Comédia Humana, Balzac
37. Grandes Esperanças, Charles Dickens
38. O Homem sem Qualidades, Robert Musil
39. As Viagens de Gulliver, Jonathan Swift
40. Finnegans Wake, James Joyce
41. Os Lusíadas, Luís de Camões
42. Os Três Mosqueteiros, Alexandre Dumas
43. Retrato de uma Senhora, Henry James
44. Decameron, Boccaccio
45. Esperando Godot, Samuel Beckett
46. 1984, George Orwell
47. Galileu Galilei, Bertold Brecht
48. Os Cantos de Maldoror, Lautréamont
49. A Tarde de um Fauno, Mallarmé
50. Lolita, Vladimir Nabokov
51. Tartufo, Molière
52. As Três Irmãs, Anton Tchekov
53. O Livro das Mil e uma Noites
54. Don Juan, Tirso de Molina
55. Mensagem, Fernando Pessoa
56. Paraíso Perdido, John Milton
57. Robinson Crusoé, Daniel Defoe
58. Os Moedeiros Falsos, André Gide
59. Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis
60. Retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde
61. Seis Personagens em Busca de um Autor, Luigi Pirandello
62. Alice no País das Maravilhas, Lewis Caroll
63. A Náusea, Jean-Paul Sartre
64. A Consciência de Zeno, Italo Svevo
65. A Longa Jornada Adentro, Eugene O’Neill
66. A Condição Humana, André Malraux
67. Os Cantos, Ezra Pound
68. Canções da Inocência/ Canções do Exílio, William Blake
69. Um Bonde Chamado Desejo, Teneessee Williams
70. Ficções, Jorge Luis Borges
71. O Rinoceronte, Eugène Ionesco
72. A Morte de Virgilio, Herman Broch
73. As Folhas da Relva, Walt Whitman
74. Deserto dos Tártaros, Dino Buzzati
75. Cem Anos de Solidão, Gabriel García Márquez
76. Viagem ao Fim da Noite, Louis-Ferdinand Céline
77. A Ilustre Casa de Ramires, Eça de Queirós
78. Jogo da Amarelinha, Julio Cortazar
79. As Vinhas da Ira, John Steinbeck
80. Memórias de Adriano, Marguerite Yourcenar
81. O Apanhador no Campo de Centeio, J.D. Salinger
82. Huckleberry Finn, Mark Twain
83. Contos de Hans Christian Andersen
84. O Leopardo, Tomaso di Lampedusa
85. Vida e Opiniões do Cavaleiro Tristram Shandy, Laurence Sterne
86. Passagem para a Índia, E.M. Forster
87. Orgulho e Preconceito, Jane Austen
88. Trópico de Câncer, Henry Miller
89. Pais e Filhos, Ivan Turgueniev
90. O Náufrago, Thomas Bernhard
91. A Epopéia de Gilgamesh
92. O Mahabharata
93. As Cidades Invisíveis, Italo Calvino
94. On the Road, Jack Kerouac
95. O Lobo da Estepe, Hermann Hesse
96. Complexo de Portnoy, Philip Roth
97. Reparação, Ian McEwan
98. Desonra, J.M. Coetzee
99. As Irmãs Makioka, Junichiro Tanizaki
100 Pedro Páramo, Juan Rulfo

A lista é ótima, mas há critérios bastante estranhos.

Se não me engano, só três semideuses têm mais de um livro na lista: Homero, Shakespeare e Joyce. OK, está justo.

No restante, é uma lista mais de autores do que de livros e muitas vezes são escolhidos os livros mais famosos do autor e dane-se a qualidade da obra. Se a revista faz um gol ao escolher Doutor Fausto como o melhor Thomas Mann, erra ao escolher Crime e Castigo dentro da obra de Dostoiévski – Os Irmãos Karamázovi e O Idiota são melhores; ao escolher Guerra e Paz de Tolstói – por que não Ana Karênina? -; na escolha de O Complexo de Portnoy, de Philip Roth; que tem cinco romances muito superiores, iniciando por O Avesso da Vida (Counterlife) e ainda ao eleger Retrato de Uma Senhora na obra luminosa de Henry James. Li por aí reclamações análogas sobre as escolhas de Brás Cubas e não de Dom Casmurro, de Cem Anos de Solidão ao invés de O Amor nos Tempos do Cólera e de As Cidades Invisíveis de Calvino, mas acho que é uma questão de gosto pessoal e não de mérito. Ah, e é absurda a presença do bom O Náufrago e não dos imensos e perfeitos Extinção, Árvores Abatidas e O Sobrinho de Wittgenstein na obra de Thomas Bernhard.

Saúdo a presença de grandes livros pouco citados como Tristram Shandy, obra-prima de Sterne muito querida deste que vos escreve, de Viagem ao Fim da Noite, de Céline, de A Consciência de Zeno, genial livro de Ítalo Svevo, de O Deserto dos Tártaros (Buzzati) e do incompreendido e brilhante Grandes Esperanças, de Charles Dickens, de longe seu melhor romance.

Porém é estranha a escolha de A Comédia Humana, de Balzac. Ora, a Comédia são 88 romances! Não vale! Estranho ainda mais a presença de autores menores como Kerouac e Malraux, além do romance que não é romance — ou do romance que só é romance em 100 de suas 1200 páginas: O Homem sem Qualidades, de Robert Musil.

Também acho que presença de McEwan e de Coetzee prescindem do julgamento do tempo, o que não é o caso de alguns ausentes, como Lazarillo de Tormes, de Chamisso com seu Peter Schlemihl, de George Eliot com Middlemarch, de Homo Faber de Max Frisch e de O Anão, de Pär Lagerkvist, só para citar os primeiros que me vêm à mente. E, se McEwan e Coetzee esttão presentes, por que não Roberto Bolaño?

E Oblómov??? Não poderia ficar de fora!

(O Bender escreve um comentário reclamando a ausência de Grande Sertão, Veredas, de Guimarães Rosa. É claro que ele tem razão! Esqueci. Coisas da idade.)

Com satisfação pessoal, digo que este não-especialista não leu apenas Os Miseráveis, o livro de Blake e os de Lautréamond, Mallarmé, Ovídio e Hesíodo. Isto é, seis dos cem. Tá bom.

P.S.- Milton mentiroso! Não li Finnegans também!

Este post foi publicado em 13 de dezembro de 2007, mas quase nada mudou.

Feira do Livro sem praça: na pandemia, livreiros e editoras se preparam para edição online

Feira do Livro sem praça: na pandemia, livreiros e editoras se preparam para edição online

Por Bruna Paulin e Gustavo Foster, no Noite dos Museus

Mais do que os grandes lançamentos do ano ou os atrativos descontos oferecidos, o grande barato da Feira do Livro de Porto Alegre é a aglomeração na Praça da Alfândega, coração da cidade. O passeio no entorno das bancas, os bate-papos sem pressa entre livreiros e visitantes, a vida que toma conta de um espaço muitas vezes pouco frequentado pela população no resto do ano.

A Feira do Livro, tão tradicional no calendário cultural gaúcho, é espaço de formação de público – e sem dúvida grande parte de seu sucesso vem das trocas presenciais. Em 2020, devido à pandemia, a principal feira literária do Estado não poderá ser realizada fisicamente – como tantas outras em cidades espalhadas pelo Brasil. Por conta da impossibilidade de ocorrer em seu formato tradicional, os organizadores levaram-na para o mundo virtual, onde pretendem emular tudo aquilo que a feira tem de melhor, além de servir de inspiração para outros eventos do tipo. Não somente seu produto final, o livro, estará à venda pelos sites dos associados, mas também toda a programação da Feira, incluindo a transmissão ao vivo das atividades oferecidas.

Sob o slogan “Janelas abertas para a Praça”, o evento terá sua programação, totalmente gratuita, veiculada pelo portal www.feiradolivro-poa.com.br entre os dias 30 de outubro e 15 de novembro. Em 29 de setembro, a Câmara Rio-Grandense do Livro (CRL) divulgará os lançamentos, os autores participantes e o patrono desta edição, além de promover mais três eventos de aquecimento, nos dias 13, 20 e 27 de outubro. A escritora chileno-norte-americana Isabel Allende é a autora convidada e participará da abertura.

“Na nossa 66ª edição, estamos focando na qualidade dos eventos e no potencial que eles têm de debater, a partir do universo do livro, temas atuais relevantes. A programação geral terá quase 40 atividades, envolvendo cem convidados. Um universo que espelha também a nossa ideia de valorizar o que é diverso, de temas a perfis dos escritores”, explica Lu Thomé, uma das curadoras da feira.

“O ‘Janelas abertas para a Praça’ une estas duas coisas: a nossa comunicação atual por ‘janelas’ e telas de celulares, notebooks e computadores durante o período de isolamento social. Telas que, com a participação dos leitores na nossa programação, estarão voltadas para a Praça, que é o símbolo da Feira. A Praça estará na casa de todas as pessoas que desejarem. Nesse sentido, a programação precisa ser mais abrangente possível. Então, seguimos algumas linhas temáticas centrais: cultura (com valorização da cultura e liberdade de expressão), diversidade (com inclusão, feminismo, antirracismo e tolerância), ciência (pandemia, saúde) e sustentabilidade (relação com o mundo e o meio ambiente, economia verde)”, detalha Lu.

O momento atípico gerou inseguranças e apresenta desafios, mas a CRL garante que fez de tudo para preparar público e livreiros para as novidades.

“Em um evento tão tradicional como a Feira do Livro de Porto Alegre, é natural que exista alguma resistência à mudança por parte dos livreiros. Muitos deles participam há décadas da feira, que, diga-se, manteve um formato muito semelhante desde as primeiras edições. Ao mesmo tempo, percebo que há uma parcela cada vez maior de livreiros, distribuidores e editores em busca de informação sobre como vender pela internet”, avalia Tito Montenegro, editor da Arquipélago Editorial e diretor da CRL.

Livreiros receberam consultoria, sites novos e ajuda em transações para entrar no mundo novo

Para os associados que ainda não tinham comércio eletrônico, por exemplo, a entidade firmou parceria com uma empresa que desenvolve lojas virtuais, a GetCommerce, para que os expositores possam criar seus comércios eletrônicos em condições especiais. Firmou-se também um convênio com o Sebrae-RS, proporcionando uma consultoria para os livreiros qualificarem seus negócios para enfrentar os novos tempos, com ênfase na recuperação pós-pandemia e na crescente digitalização da divulgação e da venda de livros.

Para a tradicional livraria porto-alegrense Bamboletras, as inovações já começaram a surtir efeito. Se antes da pandemia o empreendimento se caracterizava como uma “livraria de balcão”, a quarentena forçou o proprietário Milton Ribeiro a criar um site da empresa. Se as vendas no início da pandemia caíram a 20%, Ribeiro espera que a feira ajude na retomada do crescimento, algo que já vem acontecendo nos últimos meses.

“A Feira do Livro vai ser uma continuidade dessa evolução. Nem tanto balcão, mais atendimento remoto. A Bamboletras se caracteriza por ter pessoas que conhecem livros e fazem uma curadoria. De certa forma, esse atendimento remoto vai continuar. A Câmara do Livro nos disponibilizou a possibilidade de ter um site – éramos tão de balcão que não tínhamos um. Teremos também a comunicação por redes sociais. Vai ser uma estreia, um mundo novo”, comemora o livreiro, antes de ponderar: – Minha perspectiva é otimista, porque vai ter muita divulgação, porém eu não sei muito bem qual vai ser a repercussão, porque é inédito.

Novos públicos e oportunidades infinitas

Se, por um lado, a impossibilidade de reunir pessoas é uma barreira, por outro, pode ser uma oportunidade para mudar. Gustavo Guertler, CEO da Editora Belas-Letras, conta que a empresa decidiu oficializar o home office, vai entregar a sala em que funciona sua sede em Caxias do Sul até dezembro e migrará o estoque para Osasco, em São Paulo. A partir dessa novidade, a editora pretende continuar inovando no ambiente digital – com a contribuição da Feira do Livro.

“Vamos tentar criar uma experiência mais próxima do que acontecia na feira física, no que se refere a curadoria e relacionamento com as pessoas, dentro do que é possível. Por outro lado, também tentamos criar ações que só o ambiente digital permite, então pensamos nisso como uma oportunidade. Há uma infinidade de ações que podemos fazer online, como garantir uma experiência da Feira para pessoas que não são da cidade”, acredita Guertler.

Lu Thomé concorda e vai além: para ela, as novidades devem se tornar padrão a partir de agora.

“Pela primeira vez, estaremos transmitindo para o Brasil e o mundo. É um ganho gigante. É provável que o formato online não seja mais abandonado, e as edições futuras passem a ser idealizadas num modelo híbrido de digital e presencial. Tudo ainda precisa ser confirmado e também precisaremos saber sobre os protocolos sanitários dos próximos anos. Todo o investimento e estrutura digital é um legado que fica para as próximas edições.”

Os hábitos de leitura também mudaram na pandemia?

Se tudo está mudando por conta da pandemia, as leituras de quem está em quarentena também ganharam outro perfil. Pelo menos é o que estimam Guertler e Ribeiro. O CEO da Belas-Letras diz que percebeu “uma pequena mudança nos títulos”:

“Por um lado, houve uma queda leve em títulos mais relacionados a negócios, empreendedorismo, mas houve também um aumento nas vendas de títulos que envolvem memória afetiva, entretenimento, autoconhecimento. As pessoas estão buscando olhar um pouco mais para dentro de si.”

Segundo ele, a editora teve crescimento de 16% nas vendas no primeiro semestre. Já Ribeiro afirma que “mudou muito a temática das vendas”:

“Em primeiro lugar, as pessoas começaram a atacar aqueles calhamaços, como Grande Sertão: Veredas, livros grandes de Tolstói, Dostoiévski, aqueles tijolos. Estão saindo todos. Nunca teve tanta procura. Leituras atrasadas, acho. Outra coisa, algo mais cômico, mas muita gente está procurando por gastronomia. Os livros da Rita Lobo, livros de receita, isso está saindo muito. As pessoas dizem ‘não aguento mais a comida da minha mãe, não aguento mais o que eu faço em casa’, e tentam mudar”, se diverte.

A Feira da gurizada para além de Porto Alegre

Nestes últimos 66 anos, é possível afirmar que grande parte da população infantojuvenil de Porto Alegre visitou pelo menos uma vez na vida a Praça da Alfândega com sua escola. O dedicado trabalho de formação de público desenvolvido pela organização da Feira tem como figura-chave Sônia Zanchetta, envolvida com a programação dos eventos infantis e juvenis desde 1998. Em 2020, os desafios deixam de ser os mesmos de 22 anos de experiência:

“É um desafio e tanto produzir as programações da Área Infantil e Juvenil em formato online. Mas estamos contentes porque, apesar de todas as dificuldades enfrentadas, a Feira do Livro está confirmada. Confiamos em que os professores, bibliotecários e outros mediadores da leitura que costumam nos visitar com alunos atuem com o mesmo entusiasmo de sempre, promovendo a leitura prévia de obras dos autores, para que os encontros digitais, que permitirão a interação entre o público e os convidados, sejam prazerosos e produtivos”, afirma Sônia.

As escolas e professores que estão conseguindo manter atividades com seus alunos já podem entrar em contato para saber mais detalhes sobre o funcionamento e as opções para direcionarem suas turmas em atividades online. Não é necessário agendamento prévio neste ano, pois não há limite físico para a participação simultânea de mais de uma turma. A equipe da programação infantil e juvenil e do ciclo A Hora do Educador atende pelo e-mail leitura@camaradolivro.com.br e sugere as atividades para a participação dos estudantes, de acordo com a idade e o ano escolar.

Serão 20 autores que promoverão 20 encontros, além de 20 contações de histórias, realizadas por Bárbara Catarina e Carmen Lima. Sônia destaca que o formato digital da Feira possibilitará a interação de mais estudantes, muitos deles que não conseguiam participar presencialmente:

“Muitas crianças e jovens de municípios que não eram atendidos pelo transporte escolar do evento terão a oportunidade de fazer parte da Feira em 2020.”

A Feira virtual também auxiliou a trazer nomes que a curadoria desejava há alguns anos, como Kiusam de Oliveira Eliane Potiguara. Da literatura indígena, além de Potiguara, Yaguaré Yamã integra a lista de autores participantes. Para se ter uma ideia da amplitude desse universo de alunos, só no Rio Grande do Sul existem 90 escolas indígenas.

Entre os escritores de literatura infantil afro-brasileira, além de Kiusam de Oliveira, está Rogério Andrade Barbosa, provavelmente o autor com mais livros publicados na área. O evento também contará com Otávio Júnior, conhecido por abrir a primeira biblioteca nas favelas do Complexo do Alemão e no Complexo da Penha, no Rio de Janeiro.

Para acompanhar as novidades e a programação completa da 66ª Feira do Livro, visite o site www.feiradolivro-poa.com.br.

Perigo de extinção: livreiros em pé de guerra

Perigo de extinção: livreiros em pé de guerra

Um relatório divulgado há alguns dias pela Câmara Argentina do Livro (CAL) traz números alarmantes: nos últimos cinco anos, as quedas acumuladas na produção da indústria editorial são imensas. Para as livrarias, a pandemia foi um fenômeno devastador: hoje elas vendem entre 20 e 25% do que faturavam antes. Dado esse panorama, as livrarias de Buenos Aires podem desaparecer? Os envolvidos respondem.

De Natalia Viñes
Publicado originalmente em Perfil.com
Tradução apressada de Milton Ribeiro

As livrarias estão passando pela maior crise de sua história. É difícil calcular seu futuro quando o presente se afunda em uma distopia impossível de se imaginar há três meses. A realidade que os afeta desde o confinamento muda abruptamente a cada semana, e eles vêm enfrentando um profundo problema durante os primeiros meses do governo do Cambiemos.

As livrarias continuarão a existir após o crescimento das vendas de livros na Internet durante o isolamento? O que acontecerá em Buenos Aires, a capital mundial das livrarias, quando a pandemia acabar? Alguns dias atrás, especialistas do setor previram um possível fechamento maciço de livrarias. Consultados por este jornal, os livreiros contam sobre sua situação atual, seu estado de alerta e incerteza e as possíveis consequências.

A Argentina é o país com o maior hábito de leitura da região e Buenos Aires é a cidade com o maior número de bibliotecas por habitante no mundo: 8 mil habitantes para cada uma. Há um total de 350 livrarias que representam 63% das livrarias de todo o país, de acordo com o último relatório estatístico (2018) da Câmara de Publicações da Argentina (CAP). No mesmo relatório, observou-se que o setor editorial mantinha uma estrutura tradicional que ainda tinha um longo caminho a percorrer em direção a novas tecnologias.

Essa situação está sendo refletida durante a pandemia, com diferentes consequências nas vendas das livrarias. Algumas já incorporaram sistemas de vendas on-line que funcionavam bem desde antes do isolamento. A situação atual acelerou processos que, em muitos casos, nem foram planejados. A maioria das livrarias se interessou pelas vendas on-line pela primeira vez, com resultados ainda bastante ruins; os editores adicionaram urgentemente carrinhos de compras em suas páginas da web; e sites de vendas de livros virtuais, como o Mercado Libre ou o Busca Libre, aumentaram exponencialmente suas vendas, enquanto novas plataformas semelhantes apareceram da noite para o dia, como as Sakura Libros, Colorín Colorado e Mandolina Libros, entre muitos outros.

O fim das livrarias de Buenos Aires?

No início do isolamento, as livrarias foram fechadas por um mês, com uma perda de ganhos de 100%. Em seguida, a venda por entrega foi autorizada e, a partir de 12 de maio, o governo de Buenos Aires autorizou a reabertura. Mesmo assim, as livrarias que não estavam preparadas para venda on-line calculam suas perdas entre 60 e 80% em suas vendas e concordam que precisam de ajuda especial para o setor.

Pablo Braun, proprietário da livraria Eterna Cadencia e de uma cadeia de quatro bibliotecas da Station Book, que fica nos shoppings, diz: “Por um lado, estávamos muito bem preparados na Eterna com vendas on-line e que quase supriam o que estava sendo vendido antes. Mas, por outro lado, há quatro shopping centers fechados. Há quase quarenta pessoas trabalhando. Felizmente, existe o auxílio estatal para salários, que funciona para nós, mas não sei quantos meses mais eles podem fazê-lo. Essa é uma catástrofe total e absoluta, vendendo cinco livros por dia”. No mesmo sentido, Sandro Barrella, da Librería Norte, percebe que, quando as vendas on-line começaram, eles conseguiram faturar entre 40 e 50% do que estavam vendendo normalmente. Com a abertura da livraria física, eles começaram a vender 40% a mais do que vendiam apenas on-line. “A livraria tinha uma estrutura em torno do site que estava em funcionamento há muitos anos e que permitiu nos instalássemos rapidamente. Então é uma corrida do dia a dia, porque o livro vem de uma crise de quatro anos muito difícil.”

Por outro lado, José Rosa, da Librería de las Luces e delegado da Câmara de Livreiros, até agora registra uma queda de 80% nas vendas. “As pessoas não vêm ao centro se não houver movimento normal. Se a quarentena continuar, terei que pensar no fechamento”, diz o proprietário da livraria histórica fundada em 1965.” Só agora estamos começando a vender on-line. Mas isso representa dez por cento. É como abrir um novo negócio, que é suicídio hoje em dia. Precisamos de ajuda especial para o setor, porque as livrarias são um negócio com rentabilidade muito baixa”.

Gabriel Waldhuter, da Livraria Waldhuter, diz que “as vendas por entrega representam 15% da venda total de uma livraria; muitos deles, principalmente os pequenos, não possuem site e recorrem ao Mercado Libre, que, entre impostos, comissões e custos de envio, representa um desconto de 20%. Uma pequena livraria obtém 35 a 40% de desconto na editora.

Portanto, nessa pequena venda que fazemos, a lucratividade é nula. Com a reabertura da livraria, se antes cerca de cem pessoas entravam, agora entram dez. A venda de abril de 2020, em comparação a abril de 2019, foi 80% menor. Imagino que a perda anual será de 60 a 70%, dependendo, é claro, de como evoluirá a pandemia. As despesas fixas são mantidas e a receita não para de cair. Tudo sugere que as livrarias serão fechadas. A preocupação é muito grande. A cadeia de pagamentos está completamente quebrada. O setor de publicação e livreiro está sangrando.”

Enrique Avogadro: “Devemos defender livrarias independentes”

Ecequiel Leder Kremer, diretor da Librería Hernández e colaborador e participante da Câmara de Bibliotecas da Fundação el Libro e da Câmara Argentina del Libro (CAL), afirma que “as perdas são importantes. No momento, estamos tendo uma queda de 60%. Embora os 40% que recebemos sejam essenciais porque nos permitem cumprir nossas obrigações, pagar salários com a ajuda do ATP (Programa de Assistência a Trabalho e Produção) e pagar a nossos fornecedores, isso apresenta um cenário que não é bom. Os auxílios estatais são muito importantes e o comportamento das pessoas está definindo o que a situação lhes permite fazer do ponto de vista econômico e de saúde.

Adicionado a esse panorama, há 15 dias uma notícia explodiu como uma bomba: a Editorial Planeta abriu sua própria loja on-line no Mercado Libre. Por meio das redes e sob a hashtag LasLibreríasImportan, um grande grupo de livrarias emitiu uma declaração expressando seu profundo desconforto. A partir desse momento, livreiros, escritores e leitores se juntam à hashtag todos os dias para expressar seu apoio às livrarias.

A Editorial Planeta respondeu há alguns dias , através de Santiago Satz, gerente de imprensa da empresa: “Isso não implica que mais livrarias não sejam mais pontos de venda, elas são nossa prioridade”. No entanto, isso não acalmou os livreiros que, como resultado, estão se reunindo para ver como podem se organizar contra o que consideram uma ameaça.

A Planeta pode legalmente abrir um canal direto com o Mercado Libre (e também não é a única editora que vende diretamente por essa plataforma), mas por ser um colosso, graças ao seu poder econômico, pode se posicionar para obter visibilidade muitas vezes maior que a o das livrarias que vendem e sobrevivem nesse canal no momento. Por sua vez, a lógica do Mercado Libre direciona, através de seus algoritmos, as buscas pelos produtos com maior rentabilidade. Essa confluência de forças é o que as livrarias apontam como um possível efeito devastador em suas instalações. “

A Biblioteca do Norte está em total desacordo com o que Planeta está fazendo. A ideia é manter uma postura crítica, ver quais ações podem ser tomadas em um coletivo de livrarias e também junto às editoras para ver qual proteção pode ser dada ao setor “”, afirma Sandro Barrella.

Parece para Pablo Braun que “isso pode mudar as regras do jogo e, se isso acontecer, a reconversão pode ser mais profunda. Se o Mercado Libre alterar as regras e decidir, por exemplo, vender diretamente através de editoras e não através de livrarias, como a Amazon faz nos Estados Unidos, esse canal pode ser perigoso. E para uma grande editora também. Se o Mercado Libre disser: ‘Se você não me fizer 60%, não comprarei você’. Parece-me que o melhor, apesar de muito difícil, é estar atento ao que o Mercado Libre faz ”, conclui.

A situação não é estranha aos especialistas da área. Alejandro Dujovne, pesquisador e especialista na indústria do livro, diz que “a Planeta (com essa decisão) quebra um certo pacto implícito existente” e que é essencial que haja mesas para conversas e espaços para o diálogo. “O problema é ter um setor fragmentado e uma crise que não contribui para fortalecer esses espaços de conversação. Penso que, se deixar o mercado com suas próprias regras, iremos para uma situação de maior vulnerabilidade das livrarias “.

Brincando de esconde-esconde com o leitor argentino

Por seu lado, Natalia Calcagno, socióloga especializada em economia cultural, acredita que “a prática da Planeta é prejudicial às livrarias em um momento de emergência e seria necessário reagir, nesse sentido, para protegê-las”. Mas ele diz que lhe parece que não é possível que os editores ponham em risco o canal da livraria: um intermediário não pode existir sem eles. Calcagno considera que é necessário solicitar regulamentos ao Estado e que “existem muitas leis culturais de emergência em outros países, como Alemanha, Espanha, Canadá ou França.

Propostas

Consultado dias atrás, Enrique Avogadro, Ministro da Cultura de Buenos Aires, comentou sua disposição de prestar atenção à questão: “Devemos defender livrarias independentes”. Ele mencionou que o governo de Buenos Aires permitiu a reabertura das livrarias e que estão sendo feitos progressos em reuniões com o setor para analisar quais medidas paliativas podem ser tomadas. “Estamos incentivando as livrarias a se estruturarem como associação ou grupo, pelo menos para trabalharem juntas”, afirmou.

Por seu turno, a Câmara Argentina do Livro (CAL) divulgou na terça-feira 9 um documento que relata o estado do setor da indústria do livro e propõe propostas para aplicar na pandemia e mesmo depois dela. Entre as medidas que envolvem diretamente as livrarias, eles propõem um trabalho conjunto com o Correo Argentino para reduzir os custos logísticos das vendas on-line. A ideia seria considerar uma taxa especial para livros e frete grátis em alguns casos. No momento, esses custos favorecem a concentração das cadeias de livrarias e plataformas de vendas e reduzem o percentual de faturamento das livrarias para menos de dez por cento.

O Centro Regional de Promoção de Livros da América Latina e do Caribe (Cerlalc-Unesco) publicou em maio deste ano um documento urgente para entender a situação do setor editorial ibero-americano. Ele afirma que “analistas como Bernat Ruiz, Manuel Gil ou Guillermo Schavelzon concordam que a principal medida do governo para a recuperação do setor não apenas passa pela compra de livros, mas que deve ser dada prioridade às livrarias, pois é o elo mais fraco do mercado. As livrarias precisarão de uma injeção rápida de liquidez que lhes permita evitar o fechamento, diminuir os retornos e continuar fazendo pedidos”, diz Ruiz.

Sobre o futuro das livrarias. Quando a pandemia termina, os livreiros acreditam que muitas livrarias podem fechar. Dizem que não é fácil saber como as coisas vão acontecer, mas não vêem que a livraria, a figura do livreiro e a tradição cultural que temos aqui, terminem. No entanto, eles não podem arriscar uma visão clara do que o futuro lhes reserva após essa transformação que estão começando a conhecer agora.

Pablo Braun diz que “há uma mudança no paradigma do consumo das pessoas. Parece-me que há as telentregas vieram para ficar. Este é um golpe muito forte e todos nós vamos ter que mudar. Não consigo imaginar um futuro sem livrarias. Haverá menos, haverá menos pessoas trabalharão, é muito difícil. Coisas assim podem começar com os editores que vendem direto. Há algo que não tem nada a ver com o mundo do livro, tem a ver com o fato de que todo mundo quer matar o intermediário. E isso teria consequências muito sérias, porque, se não houver intermediários, o que eles acabarão comprando?

Gabriel Waldhuter acredita que “isso está apenas começando, tenho imagens de 2001, acho que essa crise de saúde será pior. Agora, se a vacina muito desejada aparecer, voltaremos a visitar livrarias, para continuar as que possuíamos.

As livrarias não vão desaparecer

Para Ecequiel Leder Kremer, “Provavelmente existe uma prática residual de fazer compras através dos canais digitais, mas parece-me que, como muitos estão esperando para voltar ao cinema, muitos leitores estão esperando para retornar às livrarias com tudo o que isso implica: o relacionamento com a livraria, a possibilidade de percorrer a livraria, percorrer os setores temáticos, identificar editoriais. Isso não substitui a tela do computador.”

Sandro Barrella: “Não tenho escolha a não ser ser otimista, porque é isso que me permite a possibilidade de trabalhar. Então, se tudo desmorona, desmorona. Parece-me que existe um espaço além da mística para pequenas livrarias. Se não houver mais condições uniformes para competir, será muito complicado.”

O que desaparece se as bibliotecas desaparecerem?

Natalia Calcagno: “Quando você entra em uma livraria para conversar, olhar, um mundo de diversidade se abre por recomendação do livreiro. O tema da exposição é essencial para conhecer. Caso contrário, você está limitando a venda. Temos dezenas de milhares de títulos por ano produzidos na Argentina. Além disso, há o que é produzido em outros países. E também a livraria é a possibilidade de a pequena editora se aproximar do leitor ”

Alejandro Dujovne: “Há várias perguntas a serem pensadas, uma delas é qual é o valor social e qual é o valor cultural que uma livraria tem. É uma discussão que a sociedade e a política precisam adotar para ver o que fazer com isso. As livrarias são mais do que apenas um canal de marketing. Embora sua dimensão mercantil ou comercial não deva ser negligenciada, porque muitas pessoas vivem disso. Ao mesmo tempo, são, do nível de produção de valor do livro, um lugar muito importante, porque têm a ver com a experiência da leitura, com a maneira como a literatura e o livro se relacionam com a sociedade como um todo. e como os livros circulam. As livrarias agregam valor e dão visibilidade.”

O escritor Jorge Carrión, que acaba de publicar na Argentina Contra a Amazon, diz que “prevaleceu a lógica que Jeff Bezos (fundador e CEO da Amazon) inventada há mais de vinte anos: o que importa é rapidez e, portanto, é necessário eliminar os números dos intermediários (como o editor, com a editoração eletrônica, ou o livreiro, com a compra na web). Mas essa lógica, se você pensar sobre isso, é bastante absurda. Elimine a caminhada, o desejo, a história que o une com a aquisição e leitura de um livro, a descoberta, a possibilidade de um encontro ou um café. Assim como Buenos Aires protegeu seus cafés notáveis, agora deve proteger suas livrarias. Mas acima de tudo, os leitores devem fazê-lo.”

A Bamboletras numa tarde de domingo de 2019 | Foto: Milton Ribeiro

Lendo Judas, de Amós Oz

Lendo Judas, de Amós Oz

Estou num relacionamento sério com o livro Judas, de Amós Oz. Livraço. Leio Oz apenas pela segunda vez e repetidas vezes parece que estou numa atmosfera Charles Dickens. Esse cara deve amar Dickens, essa frase poderia ser de Dickens. Mas o tema do livro nada tem a ver. Oz não é sentimental. Judas não é nada semelhante a qualquer livro de Dickens. Oz conjetura, Dickens conta. Estou doido.

Resolvo guglar “Dickens Amós Oz” e descubro um monte de referências de Oz ao inglês. Um monte, principalmente a um dos livros que mais amo, Grandes Esperanças, e ao Um Conto de Duas Cidades. E alguma coisa acontece no meu coração que só quando cruzam e dialogam dois queridos gênios numa esquina qualquer.

Amós Oz em Nova York em 2016

Ann Patchett sobre a administração de uma livraria em quarentena: ‘Somos parte da nossa comunidade como nunca antes’

Ann Patchett sobre a administração de uma livraria em quarentena: ‘Somos parte da nossa comunidade como nunca antes’

A romancista revela como a loja de que ela é proprietária em Nashville está fazendo e refazendo planos para levar livros aos leitores que os querem mais do que nunca

Por Ann Patchett, no The Guardian (traduzido livremente por mim)

‘Nós fazemos nossos planos. Mudamos nossos planos. Esta é a nova ordem mundial ‘… Ann Patchett, da Parnassus Books. Foto: Heidi Ross / The Guardian

Nós fechamos a Parnassus Books, a livraria de que eu sou sócia em Nashville, no mesmo dia em que todas as lojas em torno de nós fecharam. Não sei dizer quando foi porque não tenho mais um relacionamento com minha agenda.

Todos os dias agora são oficialmente os mesmos, iguais. No dia do fechamento, eu e minha parceira de negócios, Karen, conversamos com a equipe e dissemos que, se não se sentissem confortáveis ​​em entrar, tudo bem. Continuaríamos a pagá-los pelo tempo que pudéssemos. Mas se eles se sentissem bem em trabalhar em uma livraria vazia, tentaríamos continuar enviando livros para os clientes.

Na primeira semana, realizamos entregas, o que significava que um cliente poderia ligar para a loja e nos dizer o que queria. Pegávamos as informações e depois corríamos com os livros para o estacionamento e os jogávamos na janela aberta do carro. A entrega parecia uma boa ideia, mas o problema era que havia tantas pessoas ligando que a equipe acabou se agrupando em torno das caixas registradoras, organizando os pedidos e tratando de despachá-los o mais rápido possível. Uma correria. Nós reavaliamos e decidimos que todos os livros teriam que ser enviados pelo correio, mesmo para os clientes que moravam descendo a rua.

Nós fazemos nossos planos. Mudamos nossos planos. Esta é a nova ordem mundial.

Nossa livraria é espaçosa e arrumada, com escadas para alcançar as prateleiras mais altas, um grande sofá de couro e uma alegre seção infantil com um mural colorido com um sapo contando uma história para um grupo extasiado de animais variados. A sala dos fundos é o exato oposto, é um tumulto cheio de mesas, pilhas de caixas vazias ou cheias de livros que chegaram ou a serem devolvidos, etc. Há decorações de Natal, displays giratórios abandonados. Ficamos lá juntos, forçados a ouvir as conversas telefônicas um do outro e a cheirar o perfume um do outro.

Não é o cenário do distanciamento social.

Então, na ausência dos clientes, o pessoal dos bastidores mudou-se para a ampla frente da loja, com mesas ​​distantes umas das outras a fim de criar nossos espaços privados. Nós aumentamos o volume do som nas caixas. O chão é um mar de caixas de papelão — pedidos concluídos, pedidos ainda aguardando mais um livro. Não fazemos nenhuma tentativa de arrumar nada antes de sair à noite. Não temos nem o ímpeto, nem a energia. Existem peixes maiores para fritar: os pedidos de clientes e para os fornecedores ativos.

Penso em como eu costumava falar no mundo pré-pandemia, defendendo a importância de ler e de fazer compras localmente, de apoiar as boas livrarias independentes. Hoje em dia, percebo até que ponto isso é verdade — agora entendo que somos parte de nossa comunidade como nunca antes e que nossa comunidade é o mundo. Quando um amigo meu, preso em seu minúsculo apartamento em Nova York, me disse que sonhava em poder ler o novo livro de Louise Erdrich, eu realizei o sonho dele. Não consigo resolver nada, não posso salvar ninguém, mas caramba, posso enviar para Patrick uma cópia de The Night Watchman.

Pelo menos por enquanto. Fazemos parte de uma cadeia produtiva que conta com editores para publicar os livros, distribuidores para enviá-los e as bikes e o serviço postal para pegar os pacotes e levá-los aos clientes. Até agora, esse frágil ecossistema está se mantendo, embora eu entenda que basta o tempo entre eu escrever este texto e você lê-lo para ele desmoronar. Mas, nesta época em que finalmente há tempo para ler novamente, é o que temos. Portanto, ligue para a livraria local e verifique se os livros podem ser enviados. Acontece que a comunidade de leitores e livros é a comunidade que precisávamos antes, e é a comunidade que precisamos em tempos difíceis, e é a comunidade com quem queremos estar quando tudo isso acabar.

‘As livrarias servem de oxigênio social e intelectual para o confinamento’

‘As livrarias servem de oxigênio social e intelectual para o confinamento’

Livreiro de Madrid, um dos epicentros da pandemia de covid-19 na Europa, fala como tem lidado com a crise

Retirado da PublishNews

Jesús Trueba, da La Buena Vida, livraria de Madrid | Divulgação

A livraria La Buena Vida, de Madri, foi reconhecida como livraria cultural em 2018. Por conta da crise do coronavírus, está com as suas portas fechadas, mas não deixou de atender seus clientes. Jesús Trueba, proprietário e livreiro da La Buena Vida, falou com o PublishNews em Espanhol para contar como está a sua rotina de trabalho nesse período de isolamento social. A conversa com Jesús dá início à série Papo do Confinamento, que vai traduzir entrevistas publicadas pelo nosso colega Lorenzo Herrero, editor do PublishNews em Espanhol.

PublishNews – Como você acha que o mercado do livro será afetado pela crise provocada pela pandemia de covid-19? Quais as áreas ou companhias que sofrerão mais?

Jesús Trueba – Como em qualquer setor, as consequências desta crise são totalmente imprevisíveis, porque não há precedentes. O que posso te assegurar é que o tecido das livrarias independentes tem um grau de exposição ao risco muito alto. Por um lado, estamos muito atomizadas e passamos por baixo do radar de muitas políticas públicas. Por outro, todos os grandes problemas econômicos nos afetam: a gentrificação e o boom imobiliário; a crise do comércio de vizinhança e do varejo tradicional; a escassa margem de lucro e o baixo poder de negociação.

PN – Como livreiro, acredita que a sua livraria poderá minimizar essas perdas?

JT – Nós nos consideramos um serviço público e nos posicionamos como um comércio de bairro, que assegura uma forma de vida e a interação social em nossas comunidades. Seus problemas são nossos problemas. Temos potencializado nossa competitividade no mercado eletrônico, oferecendo serviços e atividades. Mas nada pode ser feito contra a competição desigual com multinacionais que pagam nem um terço dos impostos que nós pagamos. E pagamos com prazer porque entendemos que colaboramos com os nossos serviços sociais públicos.

PN – Como você acredita que a crise afetará o mercado de livros digitais? Acha que pode criar um desequilíbrio com o livro físico?

JT- O livro digital segue sem decolar. É ainda uma expectativa. Em mercados mais maduros, inclusive, até diminuiu. Não quero falar do livro digital. É como se me pedisse para falar de cinema. O livro em papel subvenciona boa parte dos conteúdos digitais, cujas receitas dificilmente poderiam custear as traduções e os adiantamentos. Essa sim é uma realidade.

PN – Como o vírus afetou a sua vida profissional?

JT – Mesmo com as portas fechadas, estamos trabalhando de segunda a sexta, das 11h às 13h para dar conta de pedidos, fazer a manutenção, cuidar da parte administrativa e para nos sentir úteis. Caso contrário…

PN – O que recomendaria às pessoas que estão confinadas em casa?

JT – Há muito mais não leitores do que leitores. Esta crise é uma oportunidade para que pessoas que nunca pegam um livro nas mãos descubram o poder curador de se concentrar mentalmente em uma história que não é a sua própria e, mesmo assim, se envolver com ela. É aprender e adquirir empatia. Começar com sessões de leitura de dez minutos, várias vezes ao dia. Essa é a minha recomendação.

PN – A La Buena Vida segue atendendo sua cliente pela internet. Por que tomou essa decisão?

JT – Seguimos porque, entre outras coisas, o próprio Estado tem ajudado, há alguns anos, o setor comercial como um todo a se digitalizar e nós nos aproveitamos essa oportunidade. Creio que fazer o uso dessas ferramentas agora é a única coisa que podemos fazer para ajudar-nos e fazer que as instituições vejam que as ajudas têm efeitos benéficos em todo o tecido empresarial.

No nosso caso, chegamos a um acordo com alguns dos nossos fornecedores habituais que realizam a operação de pedidos dentro das suas próprias instalações, eliminando etapas e intervenções de pessoas, assim como otimizando os recursos disponíveis, que são escassos.

Não seria justo deixar que só os grandes conglomerados, que não pagam impostos equivalentes em nosso país, pudessem operar. Se, por razões sanitárias, se decretasse que estes serviços não poderiam ser oferecidos, não teríamos nenhum problema em respeitar, porém, daí, ninguém poderia oferecê-los de igual modo.

PN – Como tem gerenciado todo o processo, respeitando os protocolos sanitários?

JT – Não existe nenhum processo além daqueles realizados por um supermercado no fornecimento de alimentos, por exemplo. Além disso, nosso produto não é perecível. Existem serviços mínimos e não há contato com o público. Em Bruxelas, as livrarias ficaram de fora do fechamento do comércio. Eles entendem que as livrarias não são lugares de aglomeração de pessoas e que, ao contrário, servem de oxigênio social e intelectual para o confinamento.

PN – Há algo que queira acrescentar?

JT – Me parece surpreendente que, em uma situação como a atual, sociedades de grande tradição democrática como as europeias possam confinar seus cidadãos em casa mediante um decreto e que, no entanto, não consigam decretar medidas igualmente excepcionais para impor a grandes empresas de tecnologia a retenção de impostos na fonte. É realmente triste e significativo.

O Clube Pickwick, de Dickens, hoje está em Brasília

O Clube Pickwick, de Dickens, hoje está em Brasília

Uma das maiores tragédias da minha vida é já ter lido os Pickwick Papers — não posso voltar atrás e ler pela primeira vez.

Fernando Pessoa

Dickens é uma das felicidades da vida, uma das razões para se ter medo da morte.

Charlles Campos

Dias atrás, após mais uma leitura de notícias absurdas de Brasília, com participação especial atuação de ministros como Ernesto Araújo, Abraham Weintraub, Damares Alves, presidente e filhos, etc., lembrei de um livro cômico muito fora de moda que li na juventude, As Aventuras do Sr. Pickwick, de Charles Dickens (1812-1870).

The Posthumous Papers of the Pickwick Club (mais conhecido em países de língua inglesa como The Pickwick Papers) foi escrito por Dickens entre 1836 e 1837. Na verdade, foi publicado em 20 partes mensais entre abril de 1836 a novembro de 1837, sob o pseudônimo de Boz. Ele apresenta nomes diversos tanto no Brasil quanto em Portugal, com variações como As Aventuras do Sr. Pickwick, Os Cadernos de Pickwick, Documentos de Pickwick, Os Papéis de Pickwick e Documentos do Clube Pickwick.

O romance narra as aventuras de um grupo de estudos científicos, o Clube Pickwick, composto pelo líder Mr. Pickwick (uma espécie de Quixote) e seus três pupilos: Mr. Tupman (o celibatário sempre apaixonado), Mr. Snodgrass (o poeta) e Mr. Winkle (o esportista). Financiados pelo clube, eles viajam pela Inglaterra — com particular ênfase no interior do país — fazendo descobertas e observando o desenvolvimento da ciência, assim como analisam as diversas variações no comportamento humano.

Mas todos são muito burros e suas conclusões são inacreditavelmente cômicas. Eu morria de rir lendo o livro. Não posso dizer que faça o mesmo lendo o que dizem Ernesto Araújo e Weintraub, mas a idiotia está tão presente que, se morasse longe do Brasil, riria deles.

O livro foi fundamental na carreira de Dickens. Ele obteve enorme êxito literário e reconhecimento popular durante a publicação do livro. Há um personagem sensacional, o criado do Sr. Pickwick, Samuel Weller. Sua entrada no romance teve efeito devastador, foi um êxito instantâneo. Sua inserção no quinto capítulo da narrativa fez com que as vendas mensais explodissem. Imaginem que foram vendidos 400 do número 4 e, após o surgimento de Weller, as vendas cresceram de tal modo que chegaram a ser impressos 400.000 exemplares dos últimos números.

Thomas Carlyle, numa carta ao primeiro biógrafo de Dickens, conta o desconsolo de certo padre que, depois de prestar conforto espiritual a um enfermo, suspirou: “Bom, o que interessa é que daqui a dez dias sai mais um número dos Pickwick Papers, graças a Deus.”

Outro dos personagens do livro, o gordo Joe, foi utilizado posteriormente para caracterizar uma patologia alcunhada como síndrome de Pickwick (ou A Síndrome da Hipoventilação Alveolar da Obesidade), posto que Joe descreve fielmente um quadro da doença: obesidade e sonolência excessiva, acompanhadas de demais sintomas.

O livro tem muita crítica social. Quem está lá? Notem o que há em comum com o Brasil de hoje:

— A religião e os falsos pregadores, ou pregadores corrompidos.

— Os advogados e o atravancamento na execução da justiça, a distorção de leis e possíveis processos de corrupção.

— A magistratura corrente à época, que concede poder a cidadãos apenas voltados aos próprios interesses da classe.

— Os políticos e sua conduta desonesta, bem como o eleitorado irresponsável.

— O jornalismo sem compromisso com a verdade, o respeito e a imparcialidade.

— A sociedade burguesa, com sua hipocrisia e conduta interesseira.

— A corrupção do sistema carcerário de devedores e a falta de assistência ao cidadão mantido em regime fechado (muitos presos pobres morriam de fome e frio nas prisões, enquanto sistema jurídico permitia brechas que auxiliavam apenas os devedores ricos).

— O sistema de justiça, que desfavorecia o devedor trabalhador.

— O novo estado das relações entre patrão x empregado, motivado pelo advento da burguesia e da revolução industrial.

A tudo isso junta-se um turbilhão de boas piadas, ridicularizando a sociedade e entendendo como “naturais” as diferenças sociais. Weller (ou Veller) é inteligentíssimo — tem soluções fáceis para quase tudo — e portanto sabe da burrice do Clube Pickwick, mas como é o criado… Além disso, há uma pesada crítica ao espírito cientificista da época. Os personagens principais, embora abertos aos procedimentos racionais da ciência, demonstravam grande inabilidade para situações que exigiam praticidade e que protagonizam a maior parte dos episódios cômicos do livro.

Ainda me lembro da surpresa de que Dickens poderia me fazer rir alto, e foi isso que me fez amá-lo.

Pickwick é desigual e heterogêneo, mas genial. Como diz Chesterton, “Em Pickwick, Dickens não escreveu exatamente literatura, escreveu mitologia”.

Texto parcialmente copiado (adaptado) de fontes diversas.

Mariana Enríquez: “Eu daria o Prêmio Nobel a Stephen King”

Mariana Enríquez: “Eu daria o Prêmio Nobel a Stephen King”

A autora de As coisas que perdemos no fogo e Este es el mar e participará do Segundo Encontro de Literatura Fantástica, em Santiago e Punta Arenas.

Por Javier GarcíaNo Culto — Suplemento Cultural do jornal La Tercera (Santiago, Chile)

Foto: Divulgação

Em meados de maio, Mariana Enríquez (46) viajou para um festival de escritores em Praga, República Tcheca. A autora argentina aproveitou para frequentar os lugares onde predominam cruzes e flores. “Fui ao antigo cemitério judeu e ao novo cemitério judeu onde fica Kafka”, conta ao telefone de Buenos Aires.

Renomada romancista, elogiado especialmente por suas histórias de horror, entre suas últimas publicações está Alguien camina sobre tu tumba, publicado pelo selo Montacerdos no Chile, em 2018. O volume é um conjunto de crônicas de cemitérios, localizados na Argentina, Peru, Cuba, França, Itália e Estados Unidos.

No final do volume há um epílogo que nomeia os cemitérios “que eu quero ver antes de morrer”. Um deles é chamado Kutná Hora. “É muito interessante, é cerca de 30 quilômetros de Praga, onde o Ossuário de Sedlec é, é uma igreja onde toda a sua decoração é feita de ossos. Mas desta vez eu não pude ir por tempo. Haverá uma nova oportunidade”, diz Enríquez, que está visitando o Chile esta semana.

Autora de títulos como As coisas que perdemos no fogo (2016) participará do II Encontro de Literatura Fantástica. Organizado pela Faculdade de Letras da Universidade Católica, terá palestras e leituras entre amanhã e sábado 8 de junho, em Santiago e Punta Arenas.

Como surgiu o interesse pelos cemitérios?

Eu sempre gostei deles. Em geral, tenho uma tendência estética para coisas um pouco macabras, literatura e filmes de terror. Mas decidi escrever com meus diários e dados sobre cemitérios, acho que tem a ver com a história de um amigo. Sua mãe estava desaparecida pela ditadura argentina e ele recuperou seus ossos e foi capaz de enterrar sua mãe. Então comecei a perceber que o meu fascínio por tumbas e cemitérios tem muito a ver com a minha história e a história da Argentina.

Você participou do livro de ensaios The King, bienvebido al universo de Stephen King (2019) …

O editor me perguntou. King é um autor extremamente popular e ainda não tem o reconhecimento literário que deveria ter. Ele é um dos melhores escritores no momento. Eu escolhi escrever sobre mulheres no trabalho de King. Nesse sentido, ele é muito corajoso, quebra essa regra desajeitada que um homem não pode escrever sobre as mulheres. E ele faz isso muito bem, como Annie Wilkies, a protagonista de Misery.

Para a academia, ele não é um autor altamente valorizado…

Eu acho que nunca receberia o Prêmio Nobel, mas é injusto. Eu daria o Prêmio Nobel a Stephen King. A qualidade literária é algo difícil de determinar. King escreve em vários gêneros, terror, polícia, fantasia… No twitter, ele está sempre recomendando livros. Ele é um homem que vive da literatura e que ensinou a ler uma geração. Lembro-me de quando a garota lia suas epígrafes, onde nomeava outros escritores. Eu construí um guia de leitura a partir dele.

Parece uma bagunça, mas é um tesouro

Parece uma bagunça, mas é um tesouro

Olhando parece uma bagunça, mas a área infantil da Bamboletras é um tesouro.

Claro que é legal dar chocolates na Páscoa, mas nós, da Bamboletras, que também amamos chocolates — podem nos presentear, tá?, estamos aqui das 10 às 22h –, sabemos que o valor afetivo, a durabilidade e a lembrança de um bom livro infantil são para sempre.

E nossos infantis foram reforçados para esta Páscoa.

Na sexta-feira e no domingo, estaremos abertos das 15 às 22h. No sábado, horário normal.

É só chegar.

P.S. — Caso alguém queira nos deixar bem felizes, nossas preferências giram entre o Kit-Kat, o velho e bom Refeição, o Milka, Prestígio, Ouro Branco e livros, muitos livros!