Quatro livros de quatro autores do Fronteiras do Pensamento 2021

Quatro livros de quatro autores do Fronteiras do Pensamento 2021

O Conto da Aia
Margaret Atwood
Rocco
368 páginas

Se O Conto da Aia (1985) já era o livro mais famoso e vendido da canadense Margaret Atwood, a premiada série que tem por base o livro — The Handmaid`s Tale, atualmente na quarta temporada — alçou-o ainda mais. Para completar, a autora lançou em 2019 sua continuação, chamada Os Testamentos. O livro é um clássico moderno e tornou-se referência para quem escreve sobre políticas destinadas a mulheres. Trata-se de uma distopia ferozmente política e sombria, que não pode ser considerada uma ficção científica, pois não é propriamente futurista. A obra explora os temas da subjugação das mulheres e os vários meios pelos quais elas perdem a independência. O Conto da Aia conta a história de Offred e de seu papel como serva. As servas são forçadas a fornecer filhos para as mulheres inférteis de status social mais elevado, as esposas dos Comandantes. A ideia é a de que sejam invisíveis, tornando-se apenas a soma de suas partes biológicas. Desta forma, o corpo de Offred se torna uma causa de desconforto para ela. É um romance cada vez mais importante nos dias atuais, onde mulheres de várias partes do mundo ainda vivem uma realidade ditada pelo determinismo biológico e pela misoginia.

Elisabeth Moss, da série de TV, e Margaret Atwood

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Sapiens – Uma Breve História da Humanidade
Yuval Noah Harari
Cia. das Letras
472 páginas

Harari não para. Aos 45 anos, já é autor de livros fundamentais que certamente você conhece: Sapiens, Homo Deus, 21 Lições para o Século 21, Notas sobre a pandemia… Seu livro mais importante é Sapiens, cuja edição espanhola recebeu um belo e esclarecedor título: De animais a deuses. O livro é dividido em 4 partes. A primeira fala do surgimento na Terra do gênero Homo e de sua evolução até o triunfo do Homo Sapiens sobre as demais espécies. A segunda trata da revolução neolítica, aqui denominada “revolução agrícola”, ou seja, aquele momento que transformou a sociedade de caçadores-coletores nômades em uma de agricultores e pastores, há cerca de 10.000 anos. A terceira já nos remete à modernidade, ao período da primeira globalização e ao surgimento dos grandes impérios mundiais, como o romano e o britânico. Impérios que se baseiam na ambição de tomar, evangelizar ou “civilizar” outros povos. A última seção é dedicada à “revolução científica”, a todas as descobertas dos últimos 500 anos no campo da ciência. Aqui, ele trata dos grandes avanços tecnológicos, desde os gerados pela revolução industrial até os mais recentes na engenharia genética, como a recriação de um cérebro humano dentro de um computador.

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Drogas para Adultos
Carl Hart
Zahar
408 páginas

Neste livro, o professor de psicologia e psiquiatria da Universidade de Columbia argumenta que o uso de drogas deve ser uma questão de escolha pessoal – e que, na maioria dos casos, a escolha pessoal pode levar a resultados positivos. Suas posições podem parecer radicais para alguns, mas também fazem muito sentido – e são apoiadas por ampla pesquisa. Um dos principais motivos pelos quais as drogas têm uma imagem pública tão negativa seria o racismo. Hart observa que, após a Guerra Civil, alguns trabalhadores chineses que trabalhavam na construção de ferrovias chinesas fumavam ópio e estabeleceram “pontos de ópio” para fazê-lo. Com o tempo, mais e mais americanos brancos visitaram estes pontos. Isso, por sua vez, levou a um medo social mais amplo e preconceituoso entre os brancos e até hoje há a ligação, nos EUA, entre drogas e raça. Depois, os negros acabaram ligados à cocaína. Drogas para Adultos defende que as pessoas têm o direito de usar drogas, se assim o desejarem. Na opinião de Hart, seria melhor que elas fossem legais, com testes de pureza e apoio social para aqueles que delas precisam. O que temos agora, em vez disso, é o encarceramento racista em massa e a vergonha social. O livro é uma aula de liberdade pessoal sem estigma social.

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O Novo Iluminismo
Steven Pinker
Cia. das Letras
664 páginas

O Novo Iluminismo é, sobretudo, um livro importante nestes tempos de trevas. É também um livro muito bem escrito, farto em informações, e praticamente impecável em sua coerência. Pinker faz um chamado para a valorização do conhecimento científico como premissa e paradigma a fim de alcançarmos a superação das mazelas e sofrimentos da humanidade em todos os níveis, para a evolução da nossa espécie em direção a uma nova era de prosperidade, paz e solidariedade. Um otimista? Certamente, mas nada ingênuo, pois reconhece as implicações, as barreiras e toda a amplitude político-ideológica que tem de ser superadas. O Novo Iluminismo mapeia as melhorias acontecidas ao longo do último meio século em áreas como o racismo, sexismo, homofobia e bullying, até acidentes de carro, derramamento de óleo, pobreza, lazer, empoderamento feminino e assim por diante. Seus gráficos sugerem que o ateísmo está aumentando e a religiosidade diminuindo nos Estados Unidos. Seus estudos, se forem lidos com atenção, são convincentes, pintando um retrato implacável e insistente de melhoras baseadas no conhecimento. Esta noção faz muita falta em tempos de terraplanismo e de combate às universidades e ao conhecimento.

Bamboletras recomenda dois livros fundamentais e uma novidade

Bamboletras recomenda dois livros fundamentais e uma novidade

A newsletter de amanhã da Bamboletras.

Olá!

Nossas sugestões para esta semana gelada são quentes. Ah… Duvida? Pensa que é só uma má frase de efeito? Pois então veja só.

Sugerimos a bela edição de todos os contos de Cortázar e um clássico da literatura brasileira, a obra-prima Crônica da Casa Assassinada. De quebra, uma surpresa: o livro Camaradas, de Jodi Dean. Quem o leu voltou elogiando muito.

Abaixo, mais detalhes.

E cuide-se com o frio. Além dos cuidados com a Covid, agasalhe-se. E, se puder, doe aquele capotão velho e fora de uso porque as ruas estão cheias de sem-teto.

Boa semana com boas leituras!

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Todos os Contos, de Julio Cortázar (Cia. das Letras, 1144 páginas, de R$ 269,90)

Precisamos mesmo descrever este tesouro? Pela primeira vez no Brasil, são publicados todos os contos de Cortázar, reunidos em dois volumes de capa dura, numa caixa com projeto gráfico especial. A verdadeira revolução de Cortázar, sabemos, está nos seus contos e histórias curtas. Mas não se trata de uma reedição de todos os livros de contos do escritor, mas de novas traduções feitas por Heloisa Jahn e Josely Vianna Baptista. (Cá pra nós, aqueles velhos livros da Civilização Brasileira às vezes tinham traduções de cortar os pulsos, né?). Então gente, Bestiário, Todos os fogos o fogo, As armas secretas, Octaedro, Fim do jogo, Histórias de cronópios e de famas, todos os livros fundamentais de Cortázar estão aqui e mais. A edição conta ainda com os dois célebres ensaios do autor argentino sobre a escrita de contos, Alguns aspectos do conto, de 1963, e Do conto breve e seus arredores, de 1969, além de um estudo do crítico argentino Jaime Alazraki sobre o Cortázar contista.

Crônica da Casa Assassinada, de Lúcio Cardoso (Cia. das Letras, 560 páginas, R$ 84,90)

Este livro é um clássico absoluto da literatura brasileira. Publicado pela primeira vez em 1959, Crônica da casa assassinada conta a história da decadência de uma família tradicional mineira: cada geração se vê mais pobre que a anterior, dilapidando o patrimônio para sobreviver. Os Meneses, porém, continuam sendo respeitados na pequena comunidade onde vivem. A Chácara, a grande casa que gera orgulho mas que também aprisiona, é vista com reverência e desconfiança por todos que conhecem o clã. A história dos Meneses é contada através de diferentes narradores, que se enfrentam e se contradizem, mas que constroem com maestria um retrato profundo da vida familiar. A chegada de Nina — jovem carioca que se muda após se casar com Valdo, um dos irmãos — vai abalar a relação difícil entre eles. É uma história densa, não linear, cheia de ciúmes, rancores e perversões. Como dissemos, é narrado por várias vozes, incluindo membros da família Meneses e habitantes de Vila Velha, cidade onde vivem. Não devemos acreditar em tudo o que lemos ali. Fantasmagórico e envolvente, Crônica da casa assassinada surpreendeu em 1959, por trazer temas pouco comuns à época, como a homossexualidade e as relações incestuosas.

Camarada — Um Ensaio sobre Pertencimento Político, de Jodi Dean (Boitempo, 208 páginas, R$ 55,00)

No século XX, milhões de pessoas se dirigiram umas às outras como “camarada”. Hoje, em círculos de esquerda é mais comum ouvir falar em “aliados”. Neste livro, Jodi Dean insiste no fato de que essa mudança exemplifica o problema fundamental da esquerda contemporânea: a sobreposição da identidade política a uma relação de pertencimento político que precisa ser construída, sustentada e defendida. Neste ensaio com recortes e análises bastante originais, Dean nos oferece uma teoria da camaradagem. Camaradas são pessoas que se encontram de um mesmo lado de uma luta política. Unindo-se voluntariamente por justiça, sua relação é caracterizada por disciplina, coragem e entusiasmo. Analisando o igualitarismo da figura do camarada à luz das diferenças de raça e gênero, Dean recorre a um leque de exemplos históricos e literários. Eis um livro curto que articula história, psicanálise e filosofia num texto prazeroso de ler como ensaio de interesse geral.

Todo o Salinger com desconto na Bamboletras e mais Mariana Enriquez e Sapatas

Todo o Salinger com desconto na Bamboletras e mais Mariana Enriquez e Sapatas

A newsletter de amanhã da Bamboletras.

Olá!

Nesta semana temos 3 sugestões matadoras, por assim dizer — pois matador é o nosso presidente, né? Imaginem: toda obra de Salinger com desconto, um romance premiado da fantástica (em todos os sentidos) Mariana Enriquez e mais o essencial de Alison Bechdel. Sim, exageramos, mas este é nosso papel. Fazer o quê?

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O Apanhador no Campo de Centeio, de J. D. Salinger (Todavia, 255 páginas, de R$ 59,90 por R$ 50,90)

Neste mês, este clássico do século XX completou 70 anos. E, bem, a Bamboletras está dando 15% de desconto em toda a obra de Salinger. O recluso autor escreveu apenas 4 pequenos livros, mas que livros! São eles O Apanhador, Nove Histórias (maravilhoso), Franny e Zooey e Erguei bem alto a viga, carpinteiros & Seymour — Uma introdução (igualmente imperdível!). Sobre O Apanhador: é Natal e Holden Caulfield conseguiu ser expulso de mais uma escola. Com uns trocados e seu indefectível boné vermelho de caçador, o jovem traça um plano incerto: vagar três dias por Nova York, adiando a volta à casa dos pais. Seus dias e noites serão marcados por encontros confusos, e ocasionalmente comoventes, brigas e dúvidas que irão consumi-lo. Acima de tudo, paira a inimitável voz de Holden, o adolescente raivoso e idealista que quer desbancar o mundo dos “fajutos”, num turbilhão de ressentimentos, humor, frases lapidares, insegurança, bravatas e rebelião juvenil. Esta edição brasileira tem tradução de Caetano W. Galindo e, pela primeira vez, traz a capa original de seu lançamento.

Nossa Parte de Noite, de Mariana Enriquez (Intrínseca, 544 páginas, R$ 79,90)

Quem leu o esplêndido As coisas que perdemos no fogo sabe da alta qualidade da prosa da argentina Mariana Enriquez. Nossa parte de noite ganhou na Espanha o Premio Herralde de Novela e o Premio de la Crítica 2019. Um pai e um filho cruzam a Argentina de carro, de Buenos Aires até as Cataratas do Iguaçu, na fronteira com o Brasil. São os anos da ditadura militar argentina, soldados armados estão no controle e o ambiente é de tensão. A mãe do garoto Gaspar morreu em circunstâncias obscuras, em um suposto acidente. O terror sobrenatural se mistura com terrores bem reais neste romance deslumbrante — em casas cujos interiores sofrem mutações, passagens que escondem monstros inimagináveis, rituais com sacrifícios humanos que envolvem êxtase e dor, andanças na Londres psicodélica dos anos 1960, fetiche por pálpebras humanas, liturgias sexuais enigmáticas e a repressão da ditadura, os desaparecidos, a chegada incerta da democracia e os primeiros casos de aids em Buenos Aires. Um romance que amedronta e envolve na mesma medida. Mariana Enriquez nasceu em 1973 em Buenos Aires. É jornalista, subeditora do jornal Página/12 e professora.

O Essencial de Perigosas Sapatas, de Alison Bechdel (Todavia, 395 páginas, R$ 109,90)

Ao longo de mais de duas décadas, Alison Bechdel, autora da premiada graphic novel Fun Home, levou a vida de Mo, Lois, Ginger, Sparrow e de suas amigas a dezenas de jornais. Narrada como uma novela ilustrada, a história se passa em tempo real: as personagens se conhecem, se apaixonam, atam e desatam relacionamentos, trocam de empregos, envelhecem, e suas vidas ao longo de vinte anos refletem as mudanças sociais, culturais e políticas contemporâneas. Selecionadas pela autora, as tiras de O Essencial de Perigosas Sapatas dão a medida do impressionante escopo do trabalho de Bechdel.

Bamboletras ensina a como remover um presidente e recomenda Tokarczuk e Schroeder

Bamboletras ensina a como remover um presidente e recomenda Tokarczuk e Schroeder

A newsletter de amanhã da Bamboletras.

Olá!

Escrever este “Olá” é sempre um desafio. Como encontrar pontos em comum entre os livros sugeridos? Bem, desta vez a gente não conseguiu, mas leia as sinopses abaixo porque não há nada que não seja excelente em nossas sugestões!

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Como remover um presidente, de Rafael Mafei (Cia. das Letras, 450 páginas, R$ 64,90)

Este é um completo e aprofundado estudo das dimensões políticas e jurídicas do impeachment e sua aplicação na lei brasileira. Desde os anos 1990, raramente a América Latina viveu um ano sem um impeachment consumado, ou ao menos sem a ameaça de um. Só no Brasil, houve mais de 250 denúncias de crimes de responsabilidade e o afastamento de dois presidentes. Em Como remover um presidente , o jurista Rafael Mafei reconstitui o desenvolvimento histórico do impeachment — seu surgimento na Inglaterra, sua importância para a Constituição americana e utilização no Brasil —, para então examinar a fundo não apenas os casos de Collor e Dilma, que marcaram o país após a redemocratização, mas também as tentativas contra Vargas, FHC, Lula e Bolsonaro. Um assunto muito atual e que retorna a cada governo, infelizmente.

Correntes, de Olga Tokarczuk (Todavia, 400 páginas, R$ 74,90)

Quem leu Sobre os ossos dos mortos sabe da alta qualidade da ganhadora do Prêmio Nobel de 2018 Olga Tokarczuk. Em Correntes, ela mescla vida pessoal com ficção num livro cheio de surpresas, que inclui relatos vários, comentários e contos que formam um movimentado diário de viagem. Olga é uma das escritoras que melhor explora a autoficção, em que vivências pessoais e ficções se fundem. O livro é composto de 116 pequenos capítulos. O roteiro passa por diferentes museus de anatomia da Europa e nos Estados Unidos. A narrativa é intercalada de observações sobre o ato de viajar, pessoas que a autora encontra no caminho, perrengues, pequenas histórias e imprevistos. Quando ela enviou os originais para seu editor, o caráter fragmentário da narrativa suscitou dúvidas e ele pensou que se tratava de um rascunho vitimado por confusões de “Ctrl C” e “Ctrl V”. A leitura atenta, porém, revela a óbvia concatenação entre os textos. Este é um dos méritos de Tokarczuk: conseguir misturar temas aparentemente isolados (como filosofia, higiene pessoal e Borges, por exemplo) de uma maneira inventiva, inteligente e cativante. E ela recebeu o Nobel, né?

As partes nuas, de Claudia Schroeder (Francisco Alves, 128 páginas, R$ 35,00)

Claudia Schroeder reúne poemas produzidos ao longo dos últimos quatro anos no livro As partes nuas, lançado pela Francisco Alves. Para montar o conjunto, a poetisa contou com a curadoria do poeta Pedro Gonzaga. Dividida em sete partes, a obra traz uma voz que se expressa sem medo, entre a ironia e a ternura, em versos que exploram as facetas de ser mãe, mulher e ser humano — com todos seus sentimentos e pulsões. De acordo com o português José Luís Peixoto, trata-se de um “livro-corpo”. Publicitária há 28 anos, Claudia Schroeder estreou na poesia com Leia-me toda (2010), faz parte da coletânea portuguesa A poesia é para comer (2011) e publicou o infantil A menina que descobriu o sol (2018).

Exemplares autografados pela autora.

“Escreva como se estivesse morrendo”: leia alguns conselhos de escrita de Annie Dillard

“Escreva como se estivesse morrendo”: leia alguns conselhos de escrita de Annie Dillard

Do Lit Hub
Mal traduzido por mim

Annie Dillard, uma das melhores escritoras estadunidenses, é também uma de suas melhores professoras. Em How to Write An Autobiographical Novel, de Alexander Chee, Dillard aparece como uma professora generosa e estimulante que incentiva seus alunos a visualizarem seus livros nas prateleiras das livrarias. Maggie Nelson, questionada no The Rumpus, quais conselhos de redação ela dá a seus alunos com mais frequência. Kevin Barry, quando questionado sobre o melhor conselho de redação que já recebeu: “Annie Dillard disse uma vez que o único conselho de que qualquer escritor precisa é manter suas despesas gerais baixas”. Em comemoração ao seu 76º aniversário, aqui está uma coleção incompleta — mas ainda assim abrangente — de alguns dos melhores conselhos de escrita de Annie Dillard.

Escreva de acordo com seus próprios interesses idiossincráticos:

Por que você nunca encontra nada escrito sobre aquele seu pensamento idiossincrático, sobre seu fascínio por algo que ninguém mais entende? Porque depende de você. Há algo que você acha interessante, por um motivo difícil de explicar? É difícil de explicar porque você nunca leu em nenhuma página. Então aí é que você começa. Você foi feito para dar voz a isso, a seu próprio espanto.

Escreva como se estivesse morrendo. Ao mesmo tempo, suponha que você escreva para um público que consiste apenas em pacientes terminais. O que você começaria a escrever se soubesse que morreria em breve? O que você poderia dizer a um paciente moribundo que não o enfureceria com sua trivialidade?

–De “Write Till You Drop”, The New York Times , 1989

Você é o único de você… Sua perspectiva é única, neste momento. Não se preocupe em ser original… Sim, tudo foi escrito, mas também, o que você quer escrever, antes de escrever, era impossível de escrever. Caso contrário, já existiria. Você torna isso possível. Escrevendo.

–De ” Annie Dillard and the Writing Life “, conforme recontado por Alexander Chee

Encontre inspiração lendo outras pessoas:

Leia por prazer. Se você gosta de Tolstói, leia Tolstói; se você gosta de Dostoiévski, leia Dostoiévski. Force um pouco, mas não leia algo totalmente estranho à sua natureza e depois diga: “Nunca serei capaz de escrever assim”. Claro que você não vai. Leia livros que você gostaria de escrever. Se você quiser escrever literatura, leia literatura. Escreva livros que você gostaria de ler. Siga sua própria estranheza…

Quanto mais você lê, mais você escreve. Quanto melhor o material que você ler, melhor o material que você escreverá. Você pode desenvolver o gosto pela boa literatura gradualmente. Mantenha uma lista dos livros que deseja ler. Você logo aprenderá que “clássicos” são livros infinitamente interessantes. Quase todos eles. Você pode continuar a relê-los por toda a sua vida a cada dez anos, e vários outros aparecerão para você em diferentes estágios de sua vida.

–Do conselho enviado aos alunos da University of North Carolina em Chapel Hill, republicado no Image Journal

Hemingway estudou, como modelos, os romances de Knut Hamsun e Ivan Turguenev. Isaac Bashevis Singer, por acaso, também escolheu Hamsun e Turguenev como modelos. Ralph Ellison estudou Hemingway e Gertrude Stein. Thoreau amava Homer; Eudora Welty amava Tchekhov. Faulkner descreveu sua dívida para com Sherwood Anderson e Joyce; EM Forster, sua dívida para com Jane Austen e Proust. Por outro lado, se você perguntar a um poeta de 21 anos de que poesia ele gosta, ele dirá, sem corar: “Ninguém”. Ele ainda não compreendeu que os poetas gostam de poesia e os romancistas gostam de romances; ele mesmo gosta apenas do papel, de pensar em si mesmo.

–De “Write Till You Drop”, The New York Times , 1989

Na escrita, a ação é tudo:

Não use construções verbais passivas. Você pode reescrever qualquer frase.

–Do Image Journal

Como obtemos uma escrita vívida? Verbos, primeiro. Verbos precisos. Toda a ação na página, tudo o que acontece, acontece nos verbos. A voz passiva precisa de gerúndios para fazer qualquer coisa acontecer. Mas muitos gerúndios juntos na página contribuem para o zumbido. Não faça isso. Os verbos dizem ao leitor se algo aconteceu uma vez ou continuamente, o que está em movimento, o que está em repouso. Os gerúndios são preguiçosos, não tem que tomar uma decisão e logo, tudo está acontecendo ao mesmo tempo, desordem, caos. Não faça isso. Além disso, más escolhas de verbos significam advérbios. Na maioria das vezes, você não precisa deles. Ele correu rápido ou correu? Ele caminhou devagar ou ele vagueou? . . .

Os advérbios são um sinal de que você usou o verbo errado. Verbos controlam quando algo está acontecendo na mente do leitor.

–De ” Annie Dillard and the Writing Life “, conforme recontado por Alexander Chee

Em caso de dúvida, volte ao específico e concreto:

Sempre localize o leitor no tempo e no espaço repetidas vezes. Escritores iniciantes correm para os sentimentos, para as vidas interiores. Em vez disso, mantenha as aparências superficiais; acertar os cinco sentidos; dar a história da pessoa e do lugar, e a aparência da pessoa e do lugar. Use nomes e sobrenomes. Ao escrever, coloque tudo em um lugar e um tempo.

Não descreva sentimentos.

O caminho para as emoções do leitor é, estranhamente, através dos sentidos.

–Do Image Journal

Se sua escrita o confunde, investigue a parte confusa:

Examine todas as coisas intensa e implacavelmente. Sondar e pesquisar cada objeto em uma obra de arte; não o abandone, não o percorra, como se fosse compreendido, mas siga-o até que o veja no mistério de sua própria especificidade e força. Os desenhos e pinturas de Giacometti mostram sua perplexidade e persistência. Se ele não tivesse reconhecido sua perplexidade, não teria persistido.

–De “Write Till You Drop”, The New York Times , 1989

Gaste tudo agora. Não guarde suas melhores ideias para depois:

Gaste tudo, atire, jogue, perca tudo, imediatamente, sempre. Não acumule o que parece bom para um lugar posterior no livro, ou para outro livro; dê, dê tudo, dê agora. O impulso de guardar algo bom para um lugar melhor mais tarde é o sinal para gastá-lo agora. Algo mais surgirá para depois, algo melhor. Essas coisas se enchem por trás, por baixo, como água de poço. Da mesma forma, o impulso de guardar para si mesmo o que aprendeu não é apenas vergonhoso, é destrutivo. Tudo o que você não dá livre e abundantemente se perde para você.

–De “Write Till You Drop”, The New York Times , 1989

É o começo de uma obra que o escritor joga fora.

Uma pintura cobre seus rastros. Os pintores trabalham do zero. A versão mais recente de uma pintura sobrepõe as versões anteriores. Os escritores, por outro lado, trabalham da esquerda para a direita. Os capítulos descartáveis ​​estão à esquerda. A última versão de uma obra literária começa em algum lugar no meio da obra e melhora no final. A versão mais antiga permanece fragmentada à esquerda.

Às vezes, o escritor deixa seus primeiros capítulos no lugar por gratidão; ele não pode contemplá-los ou lê-los sem sentir novamente o bendito alívio que o exaltou quando as palavras apareceram pela primeira vez — alívio por ele estar escrevendo alguma coisa. Afinal, aquele começo serviu para levá-lo aonde estava indo; certamente o leitor não precisa disso como base.

–De The Writing Life

… e, em geral, corte cruelmente:

Não use palavras extras. Uma frase é uma máquina; tem um trabalho a fazer. Uma palavra extra em uma frase é como uma peça estranha à máquina…

A unidade da obra é mais importante do que qualquer outra coisa. Essas digressões que eram tão divertidas de escrever devem desaparecer.

–Do Image Journal

Uma tarde, sob sua orientação, trouxemos nossas páginas escritas, mais tesouras e fita adesiva. Agora cortem apenas as melhores frases, [Dillard] disse. E cole-os em uma página em branco. E então, quando você tiver isso, escreva em torno deles, disse ela. Preencha o que está faltando e faça com que alcance o melhor do que você escreveu até agora.

Eu assisti enquanto as frases que não importavam sumiam.

–De ” Annie Dillard and the Writing Life “, conforme recontado por Alexander Chee

Aponte o leitor para o que é importante:

Se algo em sua narrativa ou poema for importante, dê um espaço proporcional. Quer dizer, centímetros reais. O leitor precisa gastar tempo com um assunto para se preocupar com ele. Não se intimide com suas grandes cenas; estique-as.

–Do Image Journal

Avaliar seu trabalho enquanto você escreve é ​​inútil:

Não há uma relação proporcional, nem inversa, entre a estimativa de um escritor de uma obra em andamento e sua qualidade real. A sensação de que o trabalho é magnífico e a sensação de que é abominável são ambos mosquitos a serem repelidos, ignorados ou mortos, mas não tolerados.

–De The Writing Life

Não se compare ao seu amigo mais produtivo:

Faulkner escreveu As I Lay Dying em seis semanas… Algumas pessoas participam de corridas de trenós puxados por cães que duram uma semana, passam pelas Cataratas do Niágara em barris, pilotam aviões pelo Arco do Triunfo. Algumas pessoas não sentem dor no parto. Não há necessidade de considerar os extremos humanos como normas.

–De The Writing Life

Lembre-se de que a publicação é subjetiva:

A publicação não é um indicador de excelência. Isso é o mais difícil de aprender. Quando uma revista rejeita sua história ou poema, não significa que não foi “bom” o suficiente. Isso significa que a revista pensava que seus leitores em particular não precisavam daquela história ou poema. Os editores pensam nos leitores: o que isso traz para o leitor? Também existe um culto à celebridade neste país, e muitas revistas publicam apenas pessoas famosas e rejeitam trabalhos melhores de pessoas desconhecidas.

Você precisa saber essas coisas em algum lugar no fundo da sua mente e precisa esquecê-las e escrever tudo o que for escrever.

–Do Image Journal

Acima de tudo, continue trabalhando:

O talento não é suficiente… Escrever é trabalho. Qualquer um pode fazer isso, qualquer um pode aprender a fazer isso. Não é ciência de foguetes, são hábitos mentais e hábitos de trabalho. Comecei com pessoas muito mais talentosas do que eu, e elas estão mortas ou na prisão ou não estão escrevendo. A diferença entre eu e eles é que estou escrevendo.

–De ” Annie Dillard and the Writing Life “, conforme recontado por Alexander Chee

Bamboletras recomenda o último Bernardo Carvalho e duas boas biografias

Bamboletras recomenda o último Bernardo Carvalho e duas boas biografias

A newsletter de amanhã da Bamboletras.

Olá!

Duas biografias de grandes intelectuais — Hannah Arendt e Euclides da Cunha — e mais o último romance de Bernardo Carvalho — O último gozo do mundo — fazem a alegria desta semana tiritante.

Mais detalhes abaixo. Boa semana com boas leituras!

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O último gozo do mundo, de Bernardo Carvalho (Cia. das Letras, 144 páginas, R$ 49,90)

A história de uma professora de sociologia que vê seu casamento desmoronar pouco antes do início de uma pandemia global. “O último gozo do mundo” é o décimo terceiro livro de Bernardo Carvalho. Presa de um tempo em que “a leitura do mundo tornou-se descontínua e episódica”, a protagonista desta novela parte, com o filho pequeno, numa jornada para um retiro no interior do Brasil. Lá, mora um homem que prevê o futuro depois de ter sobrevivido ao vírus ameaçador. Um rastro de perplexidade e de perguntas sem respostas vai sendo deixado para trás, numa narrativa enigmática, eletrizante e que se torna mais e mais perturbadora. Podemos distinguir as causas dos efeitos? Como damos sentido a uma narrativa? O que restou de humanidade num Brasil dominado pela morte?

Arendt, entre o amor e o mal: uma biografia, de Ann Heberlein (Cia. das Letras, 256 páginas, R$ 64,90)

Este perfil biográfico entrelaça a vida e a obra de Hannah Arendt, autora de obras fundamentais como Origens do totalitarismo e Eichmann em Jerusalém. Inclui posfácio de Heloisa Starling. A vida de Hannah Arendt se estende por um período imprescindível na história do mundo ocidental, que abrange não apenas a ascensão do regime nazista e as crises da Guerra Fria, mas a formulação de reflexões fundamentais sobre o valor e a culpa da humanidade diante desses episódios. Nesse sentido, suas contribuições intelectuais estão diretamente relacionadas à sua vida, marcada por experiências terríveis, mas também por amor, exílio e saudade.

Euclides da Cunha, uma biografia, de Luís Cláudio Villafañe G. Santos (Todavia, 432 páginas, R$ 89,90)

Euclides da Cunha viveu apenas 43 anos e foi militar, engenheiro, jornalista, cientista, literato e cartógrafo. A despeito da abundância de fontes, alguns episódios de sua vida continuam pouco conhecidos, como a expedição à Amazônia e a passagem pelo Itamaraty. Esta biografia traz ainda novas interpretações para eventos conhecidos, sublinhando contradições entre o discurso e os fatos, o que realça sua profunda humanidade.

Os livros mais vendidos em junho na Bamboletras

Os livros mais vendidos em junho na Bamboletras

E vamos aos mais vendidos de junho! Itamar Vieira Júnior, que já ocupava o topo de nossa lista há um bom tempo, agora ocupa a primeira e a segunda colocações. E, como de costume, só temos ótimos livros em nossa lista! Os leitores da Bambô só levam coisa boa. Apareça, aqui há qualidade e curadoria!

1. Torto Arado, de Itamar Vieira Junior (Todavia)
2. Doramar ou a Odisseia: Histórias, de Itamar Vieira Júnior (Todavia)
3. Os Supridores, de José Falero (Todavia)
4. Notas sobre o Luto, de Chimamanda Ngozi Adichie (Companhia das Letras)
5. Pequena Coreografia do Adeus, de Aline Bei (Companhia das Letras)
6. E se as cidades fossem pensadas por mulheres, de Laura Sito e Mariana Félix (Zouk)
7. João aos pedaços, de Flávio Ilha (Diadorim)
8. Porto Alegre, Cidade Baixa: Um bairro que contém seu passado, de Renato Menegotto (Marcavisual)
9. O Avesso da Pele, de Jeferson Tenório (Companhia das Letras)
10. Diários: 1909-1923, de Franz Kafka (Todavia)

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Bamboletras recomenda o novo livro de Daniel Galera e mais

Bamboletras recomenda o novo livro de Daniel Galera e mais

A newsletter de amanhã da Bamboletras.

Olá!

Pois é. Recebemos o novo livro de Daniel Galera, O deus das avencas. Ele é composto de três novelas e quem já leu voltou falando muito bem dele. Não muito longe, mas com um viés mais realista, recomendamos Uma vontade inadiável de acabar com este mundo, coletânea de dez narrativas de outro Daniel, o Ricci Araújo. Para finalizar, Afropessimismo, um esplêndido estudo sobre o circuito permanente de escravidão que insiste em definir a experiência da negritude.

Mais detalhes abaixo. Boa semana com boas leituras!

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O Deus das Avencas, de Daniel Galera (Cia. das Letras, 248 páginas, R$ 54, 90) 

O deus das avencas traz três novelas reunidas neste livro. Na primeira novela, a que dá título ao livro, um casal se fecha em casa à espera do nascimento do primeiro filho, e mergulha numa incerteza crescente, tanto pelo destino deles quanto pelos rumos do país. Em Tóquio, Galera abandona a narrativa mais realista ao retratar a vida de um homem solitário, obrigado a enfrentar o passado em um mundo que atravessou um desastre ambiental e tecnológico. E, por fim, em Bugônia, ele dá um passo além ao recriar a história de uma comunidade pós-apocalíptica em simbiose com a natureza, que, pressionada pelas ameaças externas de um planeta devastado, precisa se transformar de forma radical. O deus das avencas é um livro especulativo e por vezes sombrio, mas extremamente humano.

Uma vontade inadiável de acabar com este mundo, de Daniel Ricci Araújo (Quatorze Vinte Um, 172 páginas, R$ 40,00)

Uma vontade inadiável de acabar com este mundo é uma coletânea com dez narrativas curtas na qual ficção e realidade criam uma trama que envolve e revolta. A tônica das histórias é a crítica à sociedade contemporânea, com seu deslustre e sua virtude. Como uma moeda, que sempre tem duas faces, Daniel Ricci Araújo nos confronta com temas que estão no dia a dia dos noticiários como xenofobia, racismo, relações familiares, drogadição, a violência urbana. Ele também nos apresenta o outro lado, ao falar de solidariedade, compaixão e cumplicidade. Em alguns dos contos, Daniel se afasta da nossa realidade para mergulhar em um cenário distópico, por meio da ficção científica, e nos apresentar situações nas quais a ética e o bom senso parecem não mais existir. A obra é um convite à reflexão sobre o papel e a responsabilidade de cada um com o hoje e o amanhã.

Afropessimismo, de Frank B. Wilderson III (Todavia, 400 páginas, R$ 84,90)

Por que a questão da raça permeia grande parte do nosso universo moral e político? Por que um ciclo perpétuo de escravidão — em todas as suas formas: política, intelectual e cultural — continua a definir a experiência da negritude? E por que a violência contra os negros é um traço predominante em todo o mundo? Essas são apenas algumas das questões que este livro levanta. Wilderson apresenta, nesta obra, as bases de um movimento intelectual — o afropessimismo — que vê a negritude pelo prisma da escravidão perpétua. A partir de clássicos da literatura, do cinema, da filosofia e da teoria crítica, ele mostra que a construção social da escravidão, vista pelas lentes da subjugação dos negros, não é uma relíquia do passado, mas um mecanismo que alimenta nossa civilização. Sem a dinâmica senhor-negro escravizado, sustenta o autor, um dos pilares da civilização mundial iria a colapso. Mais do que qualquer outro grupo, os negros serão sempre vistos como escravos em relação à humanidade. Afropessimismo fala ainda da infância do autor em Minneapolis e do racismo que ele sofre — seja na Califórnia dos anos 1960 ou durante o apartheid na África do Sul, onde ele se junta às fileiras do Congresso Nacional Africano. Este livro não apresenta solução para o ódio que está por toda parte, mas Wilderson acredita que reconhecer essas condições históricas é um gesto de autonomia em face de um mundo social essencialmente racializado.

Lições de um escritor que se autopublica: as livrarias independentes são boas, a Amazon nem tanto

Lições de um escritor que se autopublica: as livrarias independentes são boas, a Amazon nem tanto

Por  Jonny Diamond, no Lit Hub e, infelizmente, apenas nos EUA

Em 2019, o romancista Mason Engel publicou seu próprio romance e fez sua autopromoção visitando 50 livrarias em 50 dias através dos EUA. Ele filmou tudo, documentando o seu périplo. Naquele ponto, ele ainda pensava em, quem sabe?, vender seu romance apenas para a Amazon, que continua sendo o lugar mais importante para escritores autopublicados ganharem dinheiro com seu trabalho — mas sua viagem mudou tudo.

Como muitos de vocês provavelmente sabem, as livrarias independentes são frequentemente espaços comunitários (muito) idiossincráticos e (muito) encantadores. Eles são preenchidos não apenas por acervos altamente selecionados que refletem o que os livreiros realmente gostam, mas também o espírito de um bairro ou de uma cidade, aquela personalidade particular que se molda em torno de milhares de conversas silenciosas sobre o que importa no mundo. Foi isso que Mason Engel descobriu em sua viagem e o que o levou a deixar a Amazon.

Passado um ano, Engel decidiu voltar à estrada, desta vez com um propósito além de seu próprio trabalho. Apesar da pandemia, Engel — e seu cinegrafista Brady — visitaram 30 livrarias entre Nova Orleans e Nova York, perguntando aos livreiros por que fazem o que fazem e por que isso é importante. Os resultados estão agora aqui, em um segundo documentário chamado The Bookstour , que você pode assistir fazendo uma doação ao BINC , a maravilhosa organização sem fins lucrativos que apoia os livreiros necessitados. O BINC tem sido um apoiador inestimável nos últimos 18 meses para uma comunidade de livrarias que precisa urgentemente de ajuda financeira.

Isso tudo parece um boa coisa: apoiar os livreiros enquanto se aproveita de sua sabedoria, visão e esperança… Obrigado Mason Engel!

A Amazon está destruindo milhares de livros não vendidos

A Amazon está destruindo milhares de livros não vendidos

Por Walker Caplan, no Lit Hub

ITV News relatou que a Amazon está destruindo milhões de itens não vendidos a cada ano — livros, TVs, laptops, drones, fones de ouvido, computadores, milhares de máscaras COVID embaladas estão todos entre os resíduos. Imagens secretas do depósito de Dunfermline da Amazon no Reino Unido, da ITV News, mostram esses itens classificados em caixas marcadas como “Destroy”, para minimizar os custos de armazenamento.

Disse um ex-funcionário anônimo à ITV News : “De sexta a sexta-feira, nossa meta era geralmente destruir 130.000 itens por semana. Eu costumava ficar indignado. Não há razão para tal destruição. No geral, cinquenta por cento de todos os itens não foram abertos e ainda estão em sua embalagem plástica. A outra metade são devoluções e em bom estado. Os funcionários acabaram de ficar insensíveis ao que estão sendo solicitados a fazer. ”Um funcionário disse que em algumas semanas, até 200.000 itens podem ser marcados como “destruir”, enquanto apenas uma fração desse número seria marcada como “doar”. (Uma semana de abril mostrou mais de 124.000 itens marcados como “destruir”, enquanto apenas 28.000 foram marcados como “doar”.)

Outro funcionário veio  corroborar o relato do primeiro funcionário e confirmou que o depósito de Dunfermline não era o único que produzia resíduos nessa escala: “Nós nos livramos de livros novos, de iPhones novos, de PlayStations. Em todas as instalações isso acontece, acredite em mim, acontece. Trabalhei em uma instalação específica, mas conhecia outras pessoas que trabalharam em outras e elas disseram exatamente a mesma coisa. ”

A Amazon negou o envio de qualquer produto para aterros no Reino Unido em declarações à ITV e The Verge e afirma que o aterro que a ITV identificou é um local de reciclagem (apesar dos rótulos “destruir”). Disse a Amazon no comunicado: “Estamos trabalhando em direção a uma meta de descarte zero de produtos e nossa prioridade é revender, doar para organizações de caridade ou reciclar quaisquer produtos não vendidos.” A Amazon disse ao The Verge que menos de um por cento de seus produtos são incinerados para geração de energia.

Assistindo à filmagem do ITV News, é difícil não pensar em todos os que poderiam se beneficiar com os produtos marcados como “destruir”. Esses livros podem trazer alegria para escolas, hospitais, prisões; esses laptops poderiam ajudar os alunos necessitados que precisaram de laptops para aprendizado remoto no ano passado. Sem falar na sustentabilidade ambiental. Como Philip Dunne, presidente do Comitê de Auditoria Ambiental, disse ao ITV News : “[Este] é um grau verdadeiramente surpreendente de desperdício de recursos. E se for verdade, é um escândalo que a Amazon tem que resolver. ”

A Bamboletras sugere três livros muito diferentes entre si

A Bamboletras sugere três livros muito diferentes entre si

A newsletter de amanhã da Bamboletras.

Olá!

Desta vez será complicado encontrar pontos em  comum sobre os livros sugeridos. Eles só têm em comum a alta qualidade.

O primeiro é um livro de crônicas saborosas de Humberto Werneck. Livro profundamente brasileiro e dentro de nossa gloriosa tradição cronística.

O segundo é o terceiro e último volume de uma obra-prima. Os diários de Emilio Renzi, de Ricardo Piglia, deveria ser livro de cabeceira de qualquer candidato a escritor ou artista.

O último é um mosaico enganador de fatos que envolvem uma visita à Alemanha Oriental e uma foto sobre a faixa de segurança de Abbey Road, como a célebre foto da capa do disco homônimo dos Beatles.

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O Espalhador de Passarinhos, de Humberto Werneck (Arquipélago, 176 páginas, R$ 45,00)

Espalhador de boas histórias, Humberto Werneck senta conosco na calçada para uma conversa saborosa. Na memória do menino, a educação sexual na Idade Média dos anos 50 e o pequeno defunto que leva os óculos consigo para ver o nada no fundo da terra. Na pele do jornalista, os espinhos de uma entrevista petrificante com Clarice Lispector e o ensinamento de um jovem Gilberto Gil (“Minha ambição é a boa morte”). Na coleção do catador de palavras, a festimana e o balandrau. Nas retinas infatigáveis do observador da vida, as separações que não dão certo e os santos de um lugar esquecido por Deus. Um livro que preserva o canto inimitável da crônica brasileira.

Um dia na vida: Os diários de Emilio Renzi, de Ricardo Piglia (Todavia, 334 páginas, R$ 89,90)

Como nos dois volumes anteriores dos diários de Emilio Renzi, alter ego do autor, é possível montar uma cartografia pessoal de Piglia por meio das aventuras da vida íntima (casos amorosos, família, amigos), cafés, pequenos quartos alugados, quartos de hotel e jornadas pelas freeways dos Estados Unidos. Um dia na vida é o terceiro e último volume dos diários — ponto alto da produção literária de um dos escritores fundamentais da literatura latino-americana. O pânico de viver sob uma ditadura. As dúvidas sobre ser ou não um intelectual público. As amizades literárias e os amores. O triunfo com a publicação de Respiração artificial. O envelhecimento e a doença. Aqui, como nos dois volumes anteriores dos diários, é possível montar uma cartografia pessoal de Piglia por meio das aventuras da vida íntima, cafés, quartos de hotel. E, sempre, o chamado da escrita.

O homem que viu tudo, de Deborah Levy (Todavia, 232 páginas, R$ 64,90)

No mosaico montado por Deborah Levy, as peças do mistério se sucedem e se combinam, num caleidoscópio de pistas, indícios e sugestões. Em 1988, o jovem historiador Saul Adler é convidado a viajar à Alemanha Oriental para realizar uma pesquisa. Em troca, Saul deve escrever um ensaio elogiando a vida na RDA e o regime comunista. Ele ficará hospedado na casa de seu tradutor, e pretende dar à irmã dele — fã incondicional dos Beatles — uma foto atravessando a famosa Abbey Road. Enquanto aguarda sua namorada, que irá retratar a cena, Saul é atropelado. Embora sofra apenas ferimentos leves, o acidente mudará o rumo de sua vida.

Hoje é Bloomsday, gente!

Hoje é Bloomsday, gente!

(Espero que Caetano W. Galindo não se assuste com incrível número de anotações justo na sua tradução. É o que acontece quando GOSTO MUITO. Imagine se ele abre o meu exemplar… Há quase outro Ulysses dentro… E escrito com caneta…)

Trecho final do poema “James Joyce”, de Jorge Luis Borges:

“Entre a aurora e a noite está a história
universal. E vejo desde o breu,
junto a meus pés, os caminhos do hebreu,
Cartago aniquilada, Inferno e Glória.
Dai-me, Senhor, coragem e alegria
para escalar o cume deste dia”.

Escalei o cume do 16 de junho por 3 vezes e escalaria a quarta.

Hoje é o Bloomsday, mas também é o Dalloway Day!

Hoje é o Bloomsday, mas também é o Dalloway Day!

Hoje é o Bloomsday, mas pelo visto apareceu outra efeméride para ser comemorada pertinho, quase na mesma data, neste ano exatamente na mesma data. O curioso é que Virginia Woolf não gostava nada do Ulysses de James Joyce, mas olha só:

Da Lit Hub

Todos os anos, na “quarta-feira de meados de junho”, a Royal Society of Literature celebra o trabalho e o legado de Virginia Woolf. Este ano, o Dalloway Day cai na quarta-feira, 16 de junho (que também é Bloomsday), e as comemorações marcarão o centenário da Monday or Tuesday, a única coleção de contos de Woolf.

A Lit Hub tem o orgulho de fazer parte das festividades, que este ano incluem um workshop de redação de contos, uma discussão explorando a relação entre Woolf e Katherine Mansfield, passeios a pé, um podcast e uma mesa redonda. Você pode ver o programa completo aqui , mas é claro que recomendamos o podcast, no qual a editora sênior do Lit Hub, Corinne Segal, moderou uma conversa entre Deborah Levy e Merve Emre enquanto discutiam o que Virginia Woolf significava para eles e a influência duradoura de seu trabalho sobre sua própria escrita. Esta ampla conversa apresentará uma exploração da força e fragilidade de Woolf, e de como a leitura de escritores do passado muda os autores de hoje e o que ainda temos que aprender com Virginia Woolf. Registre-se aqui para ouvir e tenha um ótimo Dalloway Day!

Chegou o Vol. 2 de Escravidão, de Laurentino Gomes, na Bamboletras, mas não apenas ele

Chegou o Vol. 2 de Escravidão, de Laurentino Gomes, na Bamboletras, mas não apenas ele

A newsletter de amanhã da Bamboletras.

Olá!

Hoje é o Bloomsday, mas não teremos nada de Joyce em nossas recomendações, mas sim três livros com importantes pontos de contato.

O primeiro é a segunda parte de Escravidão, de Laurentino Gomes, uma importante e estarrecedora obra que traça um cenário bastante completo do que foi a escravidão em nosso país. Infelizmente, é uma história contada por pessoas brancas, mas a documentação levantada pelo autor dá uma visão muito ampla da desumanidade da escravatura. A obra será uma trilogia.

Outra sugestão é o recente lançamento da nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, autora dos já clássicos Hisbisco Roxo e Americanah. Desta vez, Chiamamanda chega com Notas sobre o Luto, uma narrativa que descreve e extrapola a história da morte do pai da autora por covid-19.

Para finalizar, sugerimos E se as cidades fossem pensadas por mulheres?, livro que demonstra como as cidades foram pensadas para homens brancos e propõe soluções para que as mulheres se sintam melhor em nossas urbes.

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Escravidão (Volume II), de Laurentino Gomes (Globo, 512 páginas, R$ 59,90)

Neste segundo livro, Laurentino concentra-se no século XVIII. O período representou o auge do tráfico negreiro no Atlântico, motivado pela descoberta das minas de ouro e diamantes no Brasil e pela disseminação, em outras regiões da América, do cultivo de cana-de-açúcar, arroz, tabaco, algodão e outras lavouras marcadas pelo uso intensivo de mão de obra cativa. Nenhum outro assunto é tão importante e tão definidor da nossa identidade nacional quanto a escravidão. Conhecê-la ajuda a explicar o que fomos no passado, o que somos hoje e também o que seremos daqui para a frente. Em um texto impactante que inclui imagens e gráficos, Laurentino Gomes lança o segundo volume de sua obra, resultado de 6 anos de pesquisas, que incluíram viagens por 12 países e 3 continentes.

E se as cidades fossem pensadas por mulheres?, Org. de Laura Sito e Mariana Felix (Zouk, 142 páginas, R$ 41,00)

Considerando que as cidades se constituem como um espaço masculino e branco, no qual diferentes grupos sociais vivem de formas distintas e com oportunidades desiguais, o presente livro visa mostrar o olhar plural das mulheres que compõem a cidade: mulheres periféricas, mulheres universitárias, mulheres trans, mulheres negras, mulheres gestoras públicas, mulheres educadoras, mulheres de movimentos sociais, mulheres jovens, velhas. Dessa forma, contribui para pensarmos em que medida a ação dos movimentos de mulheres, intelectuais e feministas pode auxiliar os(as) gestores(as) públicos(as) a planejar as cidades com uma perspectiva de gênero? Como podemos avançar? Como podemos construir uma sociedade feminista, antirracista e inclusiva?

Notas sobre o luto, de Chimamanda Ngozi Adichie (Cia. das Letras, 144 páginas, R$ 32,90)

De uma das mais importantes vozes da literatura contemporânea, esse livro é um relato não apenas sobre a morte de um pai amado, mas também sobre a memória e a esperança que permanecem com aqueles que ficam. O livro foi escrito após a morte do pai de Chimamanda Ngozi Adichie em junho de 2020, durante a pandemia de covid-19, o que mantinha distante a família Adichie, Notas sobre o luto é um relato forte sobre a dor da perda e as lembranças e resiliência trazidas por ela. Consciente de ser uma entre milhões de pessoas sofrendo naquele momento, a autora se debruça não só sobre as dimensões familiares e culturais do luto, mas também sobre a solidão e a raiva inerentes a ele. Com uma linguagem precisa, Chimamanda junta a própria experiência da morte de seu pai às lembranças da vida de um homem forte e honrado, sobrevivente da Guerra de Biafra, professor de longa carreira, marido leal e pai exemplar.

Bamboletras recomenda Doramar, o novo livro de Itamar Vieira Junior, e mais

Bamboletras recomenda Doramar, o novo livro de Itamar Vieira Junior, e mais

A newsletter de amanhã da Bamboletras.

Olá!

Torto Arado vendeu mais de 100 mil exemplares. Para o Brasil, isto é um fenômeno muito significativo, ainda mais se considerarmos a alta qualidade e a poesia da prosa do baiano Itamar Vieira Junior. Agora, ele retorna com seu segundo livro, Doramar ou A Odisseia: Histórias que recomendamos sem medo de errar e por já termos lido uma das histórias.

Coincidentemente, Pequena Coreografia do Adeus é também o segundo livro da paulista Aline Bei, que fez uma linda estreia com o esplêndido O Peso do Pássaro Morto. A história do livro é muito boa, importante e comum a muitos de nós. Leia a sinopse!

De quebra, recomendamos outro livro notável: Nomadland.

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Doramar ou A Odisseia: Histórias, de Itamar Vieira Junior (Todavia, 160 páginas, R$ 49,90)

Quem se deslumbrou — isto é, quase todo mundo — com a maestria narrativa de Torto Arado, romance que converteu Itamar Vieira Junior em um dos nomes centrais da nossa literatura contemporânea, vai encontrar neste Doramar ou a Odisseia ainda mais motivos para celebrar a ficção do autor. Num diálogo permanente com nossas questões sociais e a tradição literária brasileira, Itamar enfeixa um conjunto de histórias a um só tempo atuais e calcadas na multiplicidade de culturas que formam o país. Lidas na sequência, atestam a vitalidade de um escritor que encontra uma boa parcela de inspiração em personagens que desafiam os limites que lhes foram impostos e abraçam a existência em toda a sua plenitude.

Nomadland, de Jessica Bruder (Rocco, 304 páginas, R$ 59,90)

No interior dos EUA, empregadores descobriram uma nova força de trabalho educada, disposta e de baixo custo, composta em sua maioria por pessoas mais velhas e sem endereço fixo. Muitos deles estão afundados em dívidas, sem poder pagar um aluguel ou uma hipoteca, e com uma aposentadoria que mal dá para o básico. Resultado da recessão econômica de 2008, essa parcela invisível da sociedade ganhou as estradas em trailers, ônibus e vans, formando uma crescente comunidade de nômades, que não aceitam o rótulo de “sem-teto”, são simplesmente “sem-casa”. Eles têm um lar e este está sobre quatro rodas, acompanhando-os para onde forem (geralmente o próximo trabalho mal remunerado, sem direitos trabalhistas e em condições duvidosas). Nesta reportagem sensível e impressionante, Jessica Bruder segue as rotas mais usadas dos que trabalham em empregos temporários e conhece gente de todo tipo: um ex-professor, um ex-executivo do McDonald’s, um ministro de igreja, um policial aposentado e veteranos de guerra, entre muitos outros. E a protagonista — a garçonete-caixa-empreiteira-avó Linda May.

Pequena Coreografia do Adeus, de Aline Bei (Cia. das Letras, 264 páginas, R$ 49,90)

Julia é filha de pais separados: sua mãe não suporta a ideia de ter sido abandonada pelo marido, enquanto seu pai não suporta a ideia de ter sido casado. Sufocada por uma atmosfera de brigas constantes e falta de afeto, a jovem tenta reconhecer sua individualidade e dar sentido à sua história, tentando se desvencilhar dos traumas familiares. Entre lembranças da infância e da adolescência, e sonhos para o futuro, Julia encontra personagens essenciais para enfrentar a solidão ao mesmo tempo que ensaia sua própria coreografia, numa sequência de movimentos de aproximação e afastamento de seus pais que lhe traz marcas. Escrito com a prosa original que fez de Aline Bei uma das grandes revelações da literatura brasileira contemporânea, Pequena Coreografia do Adeus é um romance emocionante que mostra como nossas relações moldam quem somos.

Os livros mais vendidos em maio na Bamboletras

Os livros mais vendidos em maio na Bamboletras

Nossa lista de mais vendidos de maio! Nossos best sellers são sempre ótimos livros! 🥰

1. Torto Arado, de Itamar Vieira Júnior (Todavia)
2. Os Supridores, de José Falero (Todavia)
3. O Avesso da Pele, de Jeferson Tenório (Companhia das Letras)
4. A República das Milícias, de Bruno Paes Manso (Todavia)
5. Pequena Coreografia do Adeus, de Aline Bei (Companhia das Letras)
6. Atos Humanos, de Han Kang (Todavia)
7. Fada, de Dyonelio Machado (Zouk)
8. Mulheres de Minha Alma, de Isabel Allende (Bertrand Brasil)
9. As Inseparáveis, de Simone de Beauvoir (Record)
10. Diários 1909-1923, de Franz Kafka (Todavia)

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Bamboletras recomenda livros e seminário, todos fora da curva

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A newsletter de amanhã da Bamboletras.

Olá.

Desta vez temos sugestões bem fora da curva. Por “fora da curva”, entendemos aquilo que, em razão de características especiais e únicas, se distingue dos demais, dentro de uma mesma categoria. Pois o que dizer da literatura pantagruélica de Rabelais e do sempre originalíssimo Gonçalo M. Tavares? De quebra, sugerimos o livro da jornalista Ana Garske sobre algo que também deveria ser fora do normal: a luta contra a Covid-19 em nossos hospitais.

E ainda divulgamos o seminário virtual Romance: Modos de Fazer, que tem concepção, montagem, roteiro e direção de Reginaldo Pujol Filho e que é uma das melhores ideias de interação com escritores que temos visto.

Boa semana com boas leituras!

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Pantagruel e Gargântua, de François Rabelais (Ed. 34, 448 páginas, R$ 87,00)

Uma obra-prima irresumível. Então lá vai textão: François Rabelais (1483?-1553) estudou direito, tornou-se monge franciscano e depois beneditino, quase foi expulso da Igreja por ter tido três filhos, trabalhou como secretário de um dos homens de confiança do rei Francisco I, publicou traduções de autores gregos e latinos, e formou-se em medicina. Além de tudo isso, teve tempo para escrever quatro obras fundamentais do Renascimento: Pantagruel (1532), Gargântua (1534) — aqui reunidos no primeiro dos três volumes das Obras completas de Rabelais —, o Terceiro livro (1546) e o Quarto livro (1548-1552) de Pantagruel, e também uma miscelânea de almanaques, versos, cartas e outros textos, que inclui um Quinto livro de autoria questionada. Dessa forma, segundo Mikhail Bakhtin, ele ocupa um lugar na história da literatura “ao lado de Dante, Boccaccio, Shakespeare e Cervantes”. As aventuras dos gigantes Gargântua e Pantagruel, pai e filho, e suas peripécias em Paris e outros locais, são um dos pontos altos da ficção humorística ocidental. Sem respeitar nenhuma regra — de verossimilhança, composição épica, hierarquia ou do puro e simples bom senso —, Rabelais revolucionou o romance, parodiando as novelas de cavalaria, os tratados antigos, os preceitos da Igreja e as disputas políticas entre o rei da França e o líder supremo do Sacro Império Romano-Germânico, Carlos V. Alternando os registros popular e erudito, incorporando listas diversas, poemas e textos nonsense, e se utilizando da picardia, do grotesco e do escatológico para satirizar a pompa dos poderosos, Rabelais antecipou recursos estilísticos que só apareceriam séculos depois na prosa moderna — algo que foi captado nesta tradução de Guilherme Gontijo Flores, que também assina a organização, a apresentação e os comentários a cada capítulo de Pantagruel e Gargântua. Completam o volume cerca de 120 ilustrações de Gustave Doré, selecionadas a partir das edições de 1854 e 1873 da obra de Rabelais.

As Cinco Badaladas do Sino, de Ana Garske (Catarse, 128 páginas, R$ 30,00)

Uma jornalista retorna ao hospital onde trabalhou por três anos para registrar a batalha dos profissionais de saúde da instituição na guerra contra a pandemia da Covid-19. À procura da voz e do rosto de anônimos que viraram estatística na coluna dos mortos ou dos recuperados, encontra histórias de superação e alegria pela chance de recomeçar. Na outra margem, familiares recontam a trajetória de entes queridos que tiveram a vida e os sonhos arrancados abruptamente pela fúria do vírus. Buscam, na lembrança de momentos inesquecíveis ao lado desses amores perdidos, resgatar a força para seguir em frente. Quem eram, quais os planos, com o que sonhavam os Paulos, Cristinas, Marias, Josés, até terem suas vidas interrompidas pela Covid 19? Quem eram, até serem infectados pelo coronavírus, e como vivem a partir da superação da doença as Sandras, Eduardos, Veras, Leonardos?

Atlas do Corpo e da Imaginação, de Gonçalo M. Tavares (Dublinense, 528 páginas, R$ 159,90)

Quem já leu alguma obra de Tavares sabe que este angolano é único. Único mesmo! Neste incomparável Atlas, ele atravessa a literatura, o pensamento e as demais formas de arte, da dança à arquitetura, usando palavras e imagens para tratar de temas como identidade, tecnologia, morte e relações amorosas; esmiuçando os conceitos de cidade, racionalidade, alimentação e muito mais. Ampliando fragmentos, o autor mapeia e põe ordem à confusão do mundo, com discurso ilustrado por fotografias d’Os Espacialistas, coletivo de artistas plásticos. Um livro para ler e ver, com sua narrativa delineada pelo próprio leitor-espectador, através de reflexões visuais que nos conduzem pelo labirinto que é o mundo onde vivemos.

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E, para finalizar, olha só que legal: o escritor Reginaldo Pujol Filho está lançando a segunda edição de Romance: Modos de Fazer, seminário virtual que criou no ano passado para debater com romancistas as técnicas, os segredos, os caminhos, as ideias por trás de seus romances. São 8 encontros, com 8 romancistas sobre 8 romances no formato do que Reginaldo chama de “aula-entrevista”. Neste ano, os encontros serão com

Maria Valéria Rezende,
Juan Pablo Villalobos,
José Falero,
Carola Saavedra,
Eliana Alves Cruz,
Luisa Geisler,
Samir Machado de Machado e
Itamar Vieira Júnior.

Mesmo com 8, este timaço faria frente à combalida dupla Gre-Nal, não acham?

Aqui você tem todas as informações: https://reginaldopujolfilho.wordpress.com/romance-modos-de-fazer-vol-2/

O fazer literário de dois gênios e um romance gaúcho para aquecer o clima

O fazer literário de dois gênios e um romance gaúcho para aquecer o clima

A newsletter de amanhã da Bamboletras.

Olá.

Esta é uma semana de grandes lançamentos: a biografia de João Gilberto Noll escrita por Flavio Ilha, os extraordinários Diários de Franz Kafka e um originalíssimo romance que se passa aqui ao lado da Cidade Baixa, no Menino Deus, são três excelentes dicas da Bamboletras para esta semana fria e de algum temor sobre uma terceira onda que esperamos que não ocorra.

Poderíamos mostrar outros ótimos livros, mas mantenhamos nosso número tradicional de três, que está nos três poderes (Judiciário, Executivo e Legislativo), nos Três Mosqueteiros, nos Três Porquinhos, nos três sobrinhos do Pato Donald (Huguinho, Zézinho e Luizinho), na Santíssima Trindade, etc.

Boa semana com boas leituras!

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João aos Pedaços, de Flávio Ilha (Diadorim, 248 páginas, R$ 60,00)

Biografia do escritor João Gilberto Noll, resultado de quatro anos de pesquisa do jornalista e escritor Flávio Ilha. A obra traz também quatro contos inéditos e dezenas de fotos de Noll, além de cartas e trechos do romance inacabado que o escritor deixou. Ilha teve acesso a cartas e documentos pessoais de Noll cedidos pela família e amigos. O jornalista e escritor é leitor de Noll desde seu primeiro livro, ‘O cego e a dançarina’, de 1980. Em menor ou maior intensidade, acompanhou de perto seu trabalho, mas só foi conhecê-lo pessoalmente em 2016, ao cursar uma de suas oficinas literárias. Nesta ocasião os dois iniciaram um processo juntos: Flavio propôs a produção de um documentário sobre sua história literária, que seria feito a partir das tradicionais caminhadas do escritor no centro da cidade de Porto Alegre, e também de leituras de trechos de seus livros por pessoas convidadas. “Noll inclusive já havia selecionado alguns trechos para ler, estava empolgado, mas morreu antes de conseguirmos dar início ao projeto. Como não seria possível fazer o trabalho sem ele, decidi transformar em uma biografia. Comecei aos poucos, tateando, procurando pessoas. Só engrenou mesmo em 2019” afirma Flávio Ilha.

Diários, de Franz Kafka (Todavia, 572 páginas, R$ 99,90)

“Tudo que não é literatura me entedia”, anota Franz Kafka em certo dia de 1913. A essa altura, Kafka, um advogado judeu de Praga, era funcionário de um instituto de seguros trabalhistas e começava a receber uma modesta atenção como o autor da novela ‘O veredicto’. Sua glória seria póstuma e por obra do amigo Max Brod, que não destruiu sua obra como lhe fora pedido e fez o contrário, divulgou-a. Uma prova disso são estes ‘Diários’, verdadeiro monumento literário do século XX traduzido integralmente pela primeira vez no Brasil por Sergio Tellaroli. São páginas assombrosas. Constituem aquilo que o escritor argentino Ricardo Piglia qualificou como o “laboratório do escritor”: o espaço em que o autor de ‘A metamorfose’ experimentava e afiava a sua escrita em meio a comentários sobre sua época, suas leituras, suas decepções amorosas, rascunhos de cartas, relatos de sonhos, começos de obras literárias jamais concluídas, bem como diversas de histórias acabadas.

Olivetti Lettera 32, de Carolina Panta (Zouk, 178 páginas, R$ 46,90)

Olivetti Lettera 32 é um romance de 37032 palavras. Um narrador incomum. Três personagens expostas a páginas escritas. Uma máquina de escrever. O romance estrutura-se a partir de um livro recebido. Cada uma das mulheres residentes no prédio do bairro Menino Deus acaba por, em algum momento de um mesmo dia, receber um tomo. Os volumes estampam seus nomes nas capas. O que se cria, a partir da chegada dos exemplares, é um resgate de suas vidas. Um narrador misterioso, aparentemente onisciente, busca métodos de escrita e recursos linguísticos para contar essas mulheres. Descobre-se, assim, durante a leitura das narrativas, um sentimento de culpa transversal ao feminino das personagens. Muito disso é apresentado pelo narrador a partir de bilhetes anexados às obras. Ele conversa, expõe-se também às personagens trazendo os dramas das mulheres aos olhos da leitura, assim como os seus próprios. Diva, Eleonora, Maria Luíza. Três personagens de tempos diferentes, vivenciando a dor e o prazer de se constituir como mulher.

Salman Rushdie mete sua colher na questão do cancelamento da biografia de Philip Roth

Salman Rushdie mete sua colher na questão do cancelamento da biografia de Philip Roth

Por Walker Caplan
Traduzido mal e porcamente por mim

No início desta semana, soubemos que a Skyhorse Publishing está pronta para republicar Philip Roth: The Biography, de Blake Bailey, depois que a editora inicial do livro, a WW Norton, colocou o livro fora de impressão devido a notícias de que Bailey havia assediado e agredido ex-alunos de sua turma da oitava série e estuprou a executiva editorial Valentina Rice .

Antes das notícias sobre a decisão da Skyhorse, críticos, a indústria editorial e leitores estavam divididos sobre a decisão da Norton de retirar o livro. Alguns concordaram, outros condenaram o comportamento de Bailey, mas argumentaram que os livros têm valor além de seus autores (ou argumentaram que as deficiências do livro lhe conferem valor histórico). Alguns temiam que a WW Norton abra um precedente preocupante para retirar os livros da impressão. O último a meter a colher foi Salman Rushdie. Em uma entrevista ao Irish Times, Rushdie compartilhou seus pensamentos sobre a decisão de Norton de tirar a biografia de Roth da impressão:

Eu não li o livro de Bailey, mas, em geral, não gosto da ideia de nenhum livro ser descartado porque o autor possa ser um canalha. Posso entender a repulsa dos editores por tal autor, obviamente. Mas parece censura moral. E eu não gosto das sugestões que foram feitas de que isso, de alguma forma, ‘cancela’ Roth também.

Há um movimento progressista juvenil, muito do qual é extremamente valioso, mas parece haver dentro dele uma aceitação de que certas ideias devem ser suprimidas, e acho que isso é preocupante. Onde quer que tenha havido censura, as primeiras pessoas a sofrer com ela são as minorias desprivilegiadas. Portanto, se em nome das minorias desprivilegiadas você deseja endossar a supressão do pensamento errado, estamos em uma via escorregadia.

Rushdie também teve seu ‘cancelamento’. Passou uma década escondido sob proteção policial depois que o aiatolá Khomeini do Irã emitiu uma fatwa pedindo a morte de Rushdie após a publicação de Os Versos Satânicos. Os Versos Satânicos foram proibidos em vários países; cadeias de livrarias pararam de vender o livro. O tradutor japonês de Rushdie foi esfaqueado e assassinado, seu tradutor italiano foi esfaqueado e gravemente ferido, e seu editor norueguês foi baleado, mas sobreviveu). Rushdie tem sido um defensor da liberdade de expressão, tuitando sua desaprovação aos escritores que se retiraram do evento PEN’s 2015 Gala por causa de sua decisão de homenagear o Charlie Hebdo, assinando a polêmica “Carta sobre Justiça e Debate Aberto” de Harper.

Disse Rushdie ao The Guardian após a controvérsia PEN / Charlie Hebdo: “Se apenas endossássemos a liberdade de expressão para as pessoas de quem gostamos de falar, isso seria uma noção muito limitada de liberdade de expressão”. Para Rushdie, o cancelamento do livro de Blake Bailey é outra ameaça à liberdade de expressão, se sua censura depende de definições prévias.

Biografia de Philip Roth escrita por Blake Bailey foi “cancelada”

Biografia de Philip Roth escrita por Blake Bailey foi “cancelada”

(Traduzo rápida, mal e porcamente este artigo para mostrar como a cultura de cancelamento norte-americana está atingindo gente como Philip Roth. Não quero saber muito sobre a vida pessoal de Bailey, mas fico perplexo com a vontade de destruir a obra de alguém através de sua vida. Já temos Allen, não? Se o artigo cancela o biógrafo — talvez ele mereça –, atinge também Roth de maneira profunda. Por exemplo, a foto que acompanha o artigo é inequívoca. Para quem lê inglês, será melhor clicar no link porque minha a tradução é quase sem revisão).

O novo livro de Blake Bailey sobre Philip Roth foi retirado por sua editora nos Estados Unidos após várias alegações de má conduta sexual contra o biógrafo. O trabalho deve ser julgado pelos padrões de sua vida?

Por Leo Robson
Tradução mal feita por mim

Um dos elementos mais impressionantes das acusações contra o célebre biógrafo literário Blake Bailey foi a rapidez e o veemência de sua negação. Ao longo das últimas semanas, Bailey, 57, cuja biografia de Philip Roth foi publicada no mês passado, foi acusado de vários atos de agressão sexual. As alegações abrangem um período de 20 anos, desde meados da década de 1990, quando Bailey começou a dar aulas de inglês para a oitava série na Lusher Charter School em New Orleans, até 2015, quando Valentina Rice, uma executiva editorial da Bloomsbury USA, afirmou que ele a estuprou na casa do crítico do New York Times Dwight Garner. Bailey foi imediatamente dispensado por seu agente e sua editora americana, WW Norton (que, ao que constava, já havia sido informada sobre o relato de Rice) e interrompeu uma segunda impressão de seu livro sobre Roth, que já era um best seller.

Uma declaração do advogado de Bailey enfatizou que seu cliente nunca “recebeu qualquer reclamação sobre seu tempo em Lusher”. Na era pós-#MeToo, essa defesa tem pouco peso; Bailey estava em uma posição de poder e há várias alegações de que ele se envolveu em um comportamento excessivamente familiar para um ambiente escolar. Embora ele tenha rejeitado todas as acusações recentes contra ele como falsas, Bailey admitiu no passado ter relações com ex-alunas.

Até que os detalhes do contrato de Bailey sejam conhecidos, a retirada feita pela editora do livro, a Norton, da biografia de Roth, parece uma decisão estranha ou pelo menos arbitrária, uma vez que o livro não defende a violência sexual e sua escrita não depende nem foi facilitada pelos supostos crimes de seu autor. (Uma explicação pode ser simplesmente que o editor tomou a decisão à luz da revelação de que já sabia das alegações de Rice.)

Como escândalo literário, a história lembra a de Paul de Man, o crítico belga conhecido por seu trabalho sobre a indeterminação da linguagem que, depois de sua morte, publicou postumamente uma série de artigos em jornais pró-nazistas.

Como escritor, Bailey se especializou nos supostos paradoxos do caráter humano — como alguém pode ser sábio ou emocionalmente intuitivo ou encantador e também agressivo, frio, violento, irresponsável? À primeira vista, parece óbvio o que une os sujeitos das três primeiras biografias de Bailey. Richard Yates (2003), John Cheever (2009) e Charles Jackson (2013): eram todos, em uma frase preferida, “alcoólatras colossais”. O irmão mais velho de Bailey, Scott, era multiplamente viciado e um predador sexual — ele agrediu Bailey pelo menos uma vez — que passou um tempo na prisão e acabou se matando. (Ele foi diagnosticado como esquizofrênico, mas parece mais provável que ele sofresse de um transtorno de personalidade.)

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O próprio Bailey foi um alcoólatra durante vinte e trinta anos, e ele disse que o fato de Yates e Cheever escreverem sobre “famílias suburbanas aparentemente prósperas e felizes que são realmente afetadas pelo álcool e doenças mentais e assim por diante, pode ter algo a ver com o porquê fiquei atraído pelo trabalho deles ”. Ele também observou que “o que realmente me atrai são personalidades compartimentadas”. Se a atração pela primeira categoria tem suas origens nos fatos de sua experiência, então o apelo da segunda certamente se relaciona com a sensação de Bailey de que “há aspectos de minha natureza que são desprezíveis”. (Ele acrescentou: “Mas eu não sou a soma das minhas qualidades desprezíveis.”)

Ele descreveu John Cheever como “uma espécie de meu sujeito por excelência”, acrescentando que ele tinha uma “ personalidade muito compartimentada”. Cheever se imaginava, Bailey disse, como “um brâmane de Massachusetts que desempenhou o papel de um “paterfamilias do condado de Westchester”. Ele era “um homossexual enrustido que gostava de companhias muito rudes” e, como Bailey disse em outro lugar, estava “apavorado o tempo todo” de que as pessoas descobrissem a verdade. Cheever era “charmoso” e “um mentiroso sem vergonha”. Bailey disse que gostaria de “resolver esse quebra-cabeça”: como um componente de uma personalidade se relaciona com outro que parece diametralmente oposto? Ele disse que “os monstros são fascinantes”.

O retrato da divisão de Bailey carrega uma dimensão ética. Ele revelou que ouviu coisas dos detratores de Cheever “fariam absolutamente você ficar de cabelos em pé”. Mas ele tende a procurar “as coisas atenuantes”, e que saber tudo é perdoar a todos. “Nunca odiei remotamente meus súditos”, disse ele há não muito tempo. “Na verdade, sempre senti uma afinidade calorosa … Tenho uma visão muito sombria de mim mesmo como ser humano, então realmente não é minha função lançar calúnias.” Bailey citou o método de Albert Goldman em sua biografia cruel de Elvis Presley como o “oposto de como eu trabalho”. (Ele elogiou as memórias de Michael Mewshaw de Gore Vidal por revelá-lo como uma “gárgula bêbada”, mas também um “amigo generoso e constante”.)

Mas há um desvio nos comentários de Bailey entre tentar entender o mau comportamento e decidir que, afinal, não era um mau comportamento. Bailey mencionou o caso do protegido de Cheever, um contista chamado Max Zimmer. Na biografia de Cheever de Bailey, há um momento em que Cheever tira o pênis da calça. Zimmer disse: “Aqui estava eu. Com um homem com seu pênis em um lugar totalmente estranho para mim.” Zimmer temia que, se recusasse, Cheever iria “causar confusão”. Bailey afirma que isso não era o estilo de Zimmer — então “Eu o masturbava. E era uma coisa horrível de se fazer. ” Mas Bailey mais tarde viu no diário de Cheever que o escritor estava “terrivelmente atormentado” com o relacionamento: Não era mesquinho ou explorador. Estava apaixonado por Max.

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A acusação de misoginia contra a escrita de Bailey remonta a pelo menos 2016, quando sua crítica irritada da biografia da escritora Shirley Jackson por Ruth Franklin foi publicada no Wall Street Journal. Ele discordou do que chamou de “tese principal” de Franklin — que Jackson havia sido explorada e maltratada por seu marido, o crítico Stanley Edgar Hyman. A história de “uma feminista pioneira”, escreveu ele, “precisa de um homem mau”. Há uma passagem especialmente reveladora. Franklin descreve como “cruel” uma passagem das memórias de Brendan Gill aqui na New Yorker na qual ela se refere a Jackson como uma mulher cujo “ar de garota gorda de palhaçada frivolidade” mascarava sua “aversão a si mesma não examinada” — uma observação que Bailey defende como “astuta”. Mas então ele resiste fortemente à sugestão de que Hyman tenha conspirado nos excessos de Jackson. Não, ele diz, eles simplesmente gostavam de comer juntos: “Isso os unia mais fortemente do que a literatura”. Bailey está ansioso para aplicar uma estrutura psicológica que acomode a insegurança feminina, mas uma que introduza agressão ou abuso masculino é um passo longe demais.

O livro de Bailey sobre Philip Roth revela seu animus de maneiras semelhantes. Laura Marsh no New Republic escreveu que a animosidade de Bailey em relação à primeira esposa de Roth, Margaret Martinson, era “algo mais do que uma questão de tomar partido em um divórcio amargo”. (Parul Sehgal, no New York Times, também foi fortemente crítico: “Com pouco menos de 900 páginas, o livro é uma extensa apologia do tratamento que Roth dava a suas mulheres.”) Frequentemente, há uma mulher má ou que faz bobagens no relato de Bailey sobre a vida de Roth e sua carreira. No final, em uma passagem muito estranha, Bailey argumenta que a proeminente feminista Carmen Callil, que se opôs a Roth como vencedor do Prêmio Internacional Man Booker de 2011 por motivos artísticos, fez todo o possível para elogiar a personagem feminina do romance Pastoral Americana para parecer despreocupada com a “alegada misoginia” de Roth.

O problema com o livro de Roth — facilmente o pior de Bailey — é que ele se inclina demais para a simpatia. Ele está irritado com a ideia de que Roth seja um misógino, apresentando isso como uma reação a Leaving a doll’s house (1996), onde a segunda esposa de Roth, Claire Bloom, dá vazão a memórias depreciativas de seu relacionamento com Roth. Bailey sofre com o equivalente biográfico da afirmação de Freud de que o psicanalista só pode levar o cliente até onde ele mesmo chegou. Ele nunca, por exemplo, levanta a possibilidade de que Roth justificou sua própria misoginia embarcando em relacionamentos com mulheres com vícios e problemas de saúde mental, ou que os atos de munificência de Roth foram controladores, digamos, ou foram oferecidos no lugar de intimidade emocional. Mais uma vez, a noção de equilíbrio de Bailey, o desejo de compreender ou perdoar, se confunde com a tendência de deixar as pessoas fora de perigo.

Em uma entrevista, Bailey simplesmente não conseguiu reconhecer a legitimidade das objeções ao seu retrato. Se Roth parecia um monstro, como a biografia também poderia ser branda ou censuradora? A resposta é que Bailey muitas vezes parece não apreciar a importância do que está contando. A força das biografias de Bailey é baseada em sua conexão intuitiva com seus temas — algo que ele enfatiza. Mas também existe uma atração inconsciente, e isso não é menos revelador.

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A própria história de vida de Bailey, conforme ele a conta, traça um arco familiar. Ele foi criado em uma família disfuncional e saiu dos trilhos. Ele se autodenomina “um jovem muito confuso e atrofiado”, mas não dá detalhes sobre conduta manipuladora ou agressão contra as mulheres, mesmo em um espírito de confissão. Bailey afirma que em seus trinta e poucos anos foi salvo ao conhecer sua futura esposa, Mary, que era estudante de graduação na época, e descobrindo sua vocação como biógrafo. Ele ainda tem cicatrizes e memórias ruins e permanece, ele disse, “muito bem conectado”.

Ele se pergunta em suas memórias de família The splendid things we planned (2014), referindo-se a seu irmão Scott: “Por que fui assim, e por que ele foi assim?” A tragédia de Scott, diz ele, é a história “do que eu poderia ter sido, ou do que, pelo menos, ainda não me tornei”, embora a referência seja à autodestrutividade de Scott. Scott, por sua vez, disse a Bailey: “Você vai ser exatamente como eu. Você vai piorar” — especulação considerada absurda pelo autor. Quando a mãe de Bailey diz a ele que Scott só precisa parar de beber, ele responde que não adianta; ele é simplesmente “um lunático sóbrio”. A mesma conclusão não ocorre a Bailey sobre sua própria recuperação.

Em um e-mail de 2020, visto pelo New York Times, Bailey escreveu para uma de suas supostas vítimas, Eve Peyton, uma ex-aluna, sobre “o horror” de uma noite em junho de 2003, na qual, ela afirma, ele a estuprou. Ele disse a ela que estava sofrendo de uma doença mental não especificada na época. Mas então o próprio relato de Bailey sobre seu progresso pessoal contém sinais preocupantes — notadamente, um descarado desprezo pelos limites que permaneceram evidentes no momento da escrita. Como ele explica, ele conheceu Mary em Lusher quando ela veio pegar o dever de casa de sua irmã de 13 anos. “Isso foi durante meu período de planejamento”, escreveu ele, “então tive tempo para flertar com ela”. Quando ele voltou a topar com ela, ela mencionou que vinha trabalhando meio período como auxiliar de professora, então ele a convidou para dar uma aula como convidada — “depois disso eu a levei para tomar um drink”. (Bailey, em suas memórias, lembra de ter dito a seu irmão que nunca tivera relações com seus alunos. Ele também disse a um entrevistador que as linhas de abertura e encerramento do romance Lolita de Nabokov, um texto que ele costumava ensinar em Lusher, “fazia meus cabelos dorsais tremerem”.)

Em uma entrevista, Bailey citou em êxtase a história de Tchekhov Dama com Cachorrinho, enfatizando a noção de que as aparências são falsas. Ele deu, a título de exemplo, a “versão recebida” dos últimos anos de Cheever, que John Updike chamou de “redentora” em que Cheever se recuperou do alcoolismo, chegou a um acordo com sua homossexualidade e criou alguns best sellers. “Nada poderia ser mais falso”, disse Bailey. “A vida superficial teve sucesso e a vida interior foi mais torturada do que nunca.”