BamboFilmes: todo o apresentado e o próximo

BamboFilmes: todo o apresentado e o próximo

Todos adoraram “Infâmia”! Realmente, é um filme surpreendente sobre a homossexualidade e suas repercussões. É de 1961, mas vale ainda hoje. A lista dos filmes apresentados nos orgulha demais.

1. Sunset Boulevard (Crepúsculos dos Deuses), de Billy Wilder (1950)
2. As Vinhas da Ira, de John Ford (1940)
3. Pacto Sinistro, de Alfred Hitchcock (1951)
4. Prisão, de Ingmar Bergman (1949)
5. Rebecca, de Alfred Hitchcock (1940)
6. Amarcord, de Federico Fellini (1973)
7. Delírio de Loucura, de Nicholas Ray (1956)
8. O Sétimo Selo, de Ingmar Bergman (1957)
9. O Criado, de Joseph Losey (1963)
10. Vá e Veja, de Elem Klímov (1985)
11. O Espírito da Colmeia, de Victor Erice (1973)
12. A Infância de Ivan, de Andrei Tarkovski (1962)
13. Oito e Meio, de Federico Fellini (1963)
14. Profissão: Repórter, de Michelangelo Antonioni (1975)
15. O Desaparecimento (The Vanishing, Spoorloos), de George Sluizer (1988)
16. Zabriskie Point, de Michelangelo Antonioni (1970)
17. Morte em Veneza, de Luchino Visconti (1971)
18. Inverno de Sangue em Veneza (Don´t Look Now), de Nicolas Roeg (1973)
19. A Conversação, de Francis Ford Coppola (1974)
20. O Desprezo, de Jean-Luc Godard (1963)
21. Expresso para o Inferno, de Andrey Konchalovsky (1985)
22. Dersu Uzala, de Akira Kurosawa (1975)
23. Infiel, de Liv Ullmann (2000)
24. Infâmia (The Children’s Hour), de William Wyler (1961)

O próximo será o megaclássico “Morangos Silvestres” de Ingmar Bergman (1957), na próxima segunda-feira, às 19h30, na Livraria Bamboletras.

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Sobre “Infâmia”, de William Wyler

Sobre “Infâmia”, de William Wyler

Vimos ontem, no BamboFilmes aqui da Livraria Bamboletras, o filme “Infâmia”, de William Wyler. Não sabia que era tão extraordinário, tão bom. Conversamos após a sessão e, estranhamente, não falei daquela cena que, para mim, era o coração do filme — um daqueles raros momentos em que o cinema parece parar. Reconstruindo parte de contexto: as personagens de Audrey Hepburn e Shirley MacLaine acabaram de perder uma ação de difamação. A comunidade as condenou por homossexualidade. O colégio fechou. A vida que construíram com esforço foi reduzida a cinzas.

É nesse cenário que a personagem de Audrey Hepburn diz mais ou menos estas palavras: “É curioso. As palavras mudaram de significado. Palavras que antes usávamos com naturalidade, como ‘querida’, ‘amada’, ‘amor’… Agora não posso mais usar. Elas se tornaram obscenas. Pecaminosas”. Ela estava falando da interiorização da culpa.

Dali em diante, qualquer gesto de afeto entre duas mulheres, mesmo o mais casto, carregará a sombra da suspeita. A palavra “amiga” já não significa “amiga”. A palavra “carinho” já não significa “carinho”. E Audrey percebe que não há como lutar contra isso. Audrey Hepburn — tão frequentemente reduzida a ícone de graça e leveza — faz essa cena com uma frieza que arrepia. Não há lágrima. Não há desespero. Há apenas um espanto contido, uma espécie de estupefação racional diante do absurdo.

Dentro do filme, antes desta cena, William Wyler demonstrara uma grande capacidade de filmar o que não se via ou dizia. Ele simplesmente muda nesta cena. Wyler consegue o impossível em 1961: contornar o Código Hays (que exigia que a “perversão” fosse punida e mostrada como tragédia) e, ainda assim, criar um filme que não condena suas personagens — condena a sociedade que as condena.

Valeu muito a pena enfrentar o frio. Um BAITA FILME.

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O Agente Secreto deixou centenas de filmes…

1. O Agente Secreto deixou centenas de filmes atrás de si para chegar ao grupinho de pretendentes ao Oscar. É meio burro qualificá-lo como “perdedor”.

2. O Oscar pouco interessa para a sobrevivência de um filme. Basta ver a pífia lista dos últimos vencedores. Tudo esquecível. Basta ver que Hitchcock, Kubrick, Lynch, Altman, Welles, etc., nunca receberam um Oscar. E fiquei apenas dentre aqueles que trabalharam nos EUA. O Agente Secreto, com sua linguagem original e provocativa, ficará. Tenho certeza.

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Partindo de Wim Wenders e indo para a política na música

A pergunta que o repórter fez para Wim Wenders (sobre Gaza) foi muito lógica e pertinente. A política já estava pipocando na entrevista. Mesmo assim, Wenders ficou atônito e comeu mosca. Sinceramente, acho que ele quis proteger os organizadores — que são políticos, obviamente — e tratou de subir no muro. Foi, como se dizia no Julinho, uma “burrada” dele.

A arte sempre foi política e quero falar naquela que é considerada a mais neutra das artes: a música erudita. Dou risada quando dizem que ela é neutra. Até hoje, os nomes das salas de concerto mudam e o repertório obedece a quem tem dinheiro. Mesmo os mecenas têm seus lados. Até bem pouco tempo, a música erudita era controlada pela igreja, servida a reis e até hoje pode ser banida por ditadores.

Vamos lá: durante séculos, os compositores dependiam de nobres, reis e igreja para sobreviverem. A música encomendada servia para legitimar o poder: coroações, casamentos reais, celebrações de vitórias militares, etc. Mas então você diz que Mozart era apolítico. Ora, ele compôs “A Flauta Mágica” com simbolismo maçônico (sociedade secreta perseguida na época). O tranquilo Haydn passou 30 anos como “servo musical” da família Esterházy, só compondo by demand. Há os hinos nacionais (muitos de origem erudita), aberturas e sinfonias para celebrações cívicas. Beethoven inicialmente dedicou sua 3ª Sinfonia (“Eroica”) a Napoleão, mas rasgou a dedicatória quando Napoleão se autoproclamou imperador…

Mais: Beethoven escreveu sua ópera “Fidelio” sobre liberdade e resistência à tirania. As óperas de Verdi se tornaram hinos do movimento de unificação italiano. Shostakovich literalmente viveu sob Stalin. Suas sinfonias são cheias de críticas codificadas ao regime soviético. Antes de Stálin, “O Casamento”, de Stravinsky, foi censurada na Rússia czarista. Luigi Nono compôs obras explicitamente políticas, como “Il Canto Sospeso” (sobre vítimas do fascismo). John Cage usou o acaso como crítica ao controle e autoritarismo.

Ainda mais: “As Bodas de Fígaro” (Mozart) critica a aristocracia: um criado que enfrenta seu senhor feudal, “Wozzeck” (Berg) denuncia a exploração dos pobres e a desumanização militar, “Porgy and Bess” (Gershwin) trata dos negros e da pobreza nos EUA.

OK, Milton, mas o que me dizes da música instrumental, muito mais presente em nossas salas de concerto? Pois eu respondo que, quando a palavra é censurada, a música instrumental pode comunicar-se politicamente.

Primeiro, há os nacionalistas. Chopin: Mazurcas e polonaises (Polônia sob domínio russo). Smetana e Dvořák: os tchecos durante o império Austro-Húngaro. Grieg: Noruega invadida pela Suécia. Sibelius: Finlândia invadida pelos Rússia Imperial. (A famosa “Finlândia” foi escrita para a “Festa da Imprensa” de 1899, uma manifestação disfarçada para apoiar a imprensa finlandesa contra a censura russa).

Mas há os discordantes: Prokofiev e Shostakovich tiveram obras banidas na URSS por “formalismo” (música “difícil demais para o povo”). Messiaen compôs “Quarteto para o Fim dos Tempos” num campo de prisioneiros nazista (para compor, deram-lhe um espaço no banheiro).

Contemporaneamente, há muitas questões políticas. As orquestras, antes privilégio masculino, estão lotadas de mulheres e agora elas invadiram a regência. E por que o cânone tem tão poucas mulheres e pessoas não-brancas? Quem frequenta concertos? Quem pode estudar música erudita? O financiamento público da música é sempre uma decisão política. Iniciativas maravilhosas como El Sistema (Venezuela) usam orquestras para inclusão social.

Um dos maiores compositores atuais, o estadunidense John Adams (Composer) cria obras sobre natureza e crise climática, além de ter escrito a ópera “Nixon in China”, muito ouvida por meu filho…

A música erudita não é apenas “arte pela arte” — nela, esteve sempre misturado o poder, a resistência, a identidade e a transformação social. Cada nota carrega história, e cada execução é um ato político. E, para finalizar este texto desorganizado, digo-lhes que se ouve CLARAMENTE quando os músicos são incultos e ignoram o significado daquilo que tocam.

A música não existe sem sua circunstância histórica. Toda obra musical nasce de um contexto. O que acontecia no mundo quando aquilo foi composto? Para quem o compositor escrevia? Quem ouvia? O que o compositor vivia em sua época?

Leonard Bernstein e outros grandes músicos sempre disseram (aspas de LB): “Para comunicar, o músico precisa ter algo a dizer. E esse algo vem de dentro, de suas experiências, cultura, leituras, amores, dores.” Por exemplo, o intérprete A sabe tocar todas as notas perfeitamente, mas não dá a menor importância a quem compôs, nem quando, nem por quê. Ele vai tocar no máximo corretamente. Já o intérprete B leu cartas do compositor, estudou a época, conhece a forma, entende as referências e o contexto. Será AUDÍVEL que ele tocará com camadas de significado. Para quem têm vivência, é muito óbvio o grau de cultura de quem toca.

Bem, este foi meu destampatório de segunda de Carnaval. Nada contra o Carnaval.

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Trens Rigorosamente Vigiados 7 x 1 Trens Estreitamente Vigiados

Trens Rigorosamente Vigiados 7 x 1 Trens Estreitamente Vigiados

O filme ‘Trens Estreitamente Vigiados’ (1966) ficou célebre. Ele é a lendária adaptação de uma moderna, linda e delicada e novela de 1965 de Bohumil Hrabal. Ela conta a história de amadurecimento do jovem e inexperiente Miloš Hrma, que está servindo como guarda de estação no centro da Tchecoslováquia no final da Segunda Guerra Mundial. O foco é o amadurecimento sexual do rapaz, que sofre de ‘ejaculatio praecox’. Apesar do final um tanto trágico, é um dos filmes mais queridos da década de 60, ganhador do Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira em 1968. Um marco do cinema e um dos principais filmes da chamada Nouvelle Vague tcheca.

Ontem o revi, após finalizar a leitura do livro de Hrabal, lançado no Brasil pela 34 e chamado de ‘Trens Rigorosamente Vigiados’. Tinha quase esquecido do filme. É chocante a diferença. Foi um sofrimento assistir até o final a imensa simplificação que o diretor Menzel e o próprio Hrabal fizeram no roteiro. Eu realmente pensava que o filme não seria massacrado pelo livro, mas foi.

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“Ainda estou aqui”, “O Agente Secreto” e?

Em 2025, tivemos “Ainda estou aqui” e Fernanda Torres sendo reconhecidos (e não validados) internacionalmente.

Este ano iniciou com “O Agente Secreto” e Wagner Moura fazendo o mesmo.

Ambos são combatidos pela direita. Mas “O Agente Secreto” ainda é pior — traz consigo um monte de nordestinos financiados pelo Bolsa Família, sendo que um dos principais reside na América Comunista, ou seja, na Califórnia, recebendo polpuda mesada de empresários comunistas que desviam seus impostos de renda para financiar a revolução através da Rouanet.

Esperamos que, ano que vem ou ainda em 2026, “Dark Horse” tome de assalto os cinemas do mundo a fim de restaurar a verdade. Passemos uma borracha no passado. Queremos Anistia e “Dark Horse”.

Mas, falando sério, que orgulho que dá ver filmes tão bons feitos em nosso país por gente parecidinha com a gente. E como é cinematograficamente culto o Kleber, né? Mas este já é outro assunto.

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O pós-sessão de “Vá e Veja”

O pós-sessão de “Vá e Veja”

Veio pouca gente assistir, mas quem veio ficou boquiaberto com o filme “Vá e Veja”, que apresentamos ontem, às 19h30, na Livraria Bamboletras. Ao término da sessão, ninguém se deu conta de que se tinham passado 2h26. Após o filme, conversamos bastante sobre o comportamento alucinado do exército alemão, completamente drogado com metanfetamina.

Sim, essa é uma afirmação histórica documentada. O exército alemão, durante a Segunda Guerra Mundial, fez uso sistemático e em larga escala de metanfetamina, principalmente sob a forma de um estimulante conhecido como Pervitin. Só para a frente russa, foram mandados 250 milhões de comprimidos.

Ele era usado para combater a fome e a fadiga — permitia que os soldados permanecessem alertas e combatessem por dias com pouco ou nenhum sono e sem comer — e também para aumentar a confiança e a coragem.

O Pervitin é frequentemente chamado de “a droga da Blitzkrieg”. O sucesso das campanhas rápidas e avassaladoras na Polônia (1939) e, especialmente, na França (1940) é atribuído em parte à capacidade das tropas Panzer e da infantaria de avançarem sem parar por dias, sustentadas pela droga.

O próprio Hitler usava a metanfetamina e, ao final da vida, já tinha um dos “efeitos colaterais” da droga: o Mal de Parkinson.

Enfim, aquele comportamento descontrolado dos alemães era, em parte, devido ao simples fato de eles estarem drogados.

Segundo uma reportagem recente de O Globo, a metantetamina (apelidada de Cristal) é a droga dos ricos no Brasil. Hoje é caríssima. Segundo a reportagem, 1 g custa R$ 550.

P.S. — Lembro que, quando era pequeno, ouvia as pessoas nos estádios dizerem que era pra dar Pervitin a alguns “cavalos cansados” do futebol da época. E, dizia-se naqueles tempos sem antidoping, que a coisa rolava.

Bem, quem veio gostou.

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Os melhores filmes de Ingmar Bergman na minha opinião de hoje

Os melhores filmes de Ingmar Bergman na minha opinião de hoje

Os melhores filmes de Ingmar Bergman, segundo este devoto:

1. O Sétimo Selo
2. Persona
3. Gritos e Sussurros
4. Morangos Silvestres
5. Fanny e Alexander
6. Sarabanda
7. Cenas de um Casamento
8. O Silêncio
9. Sonata de Outono
10. O Ovo da Serpente
11. O Rosto
12. Sorrisos de uma Noite de Amor
13. A Fonte da Donzela
14. Face a Face
15. Prisão
16. Monika e o Desejo

E o que dizer do roteiro de Infiel, obra-prima dirigida por Liv Ullmann?

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“As Vinhas da Ira” na Livraria Bamboletras

“As Vinhas da Ira” na Livraria Bamboletras

O segundo filme da “BamboFilmes” será um clássico do cinema engajado. Baseado na obra de John Steinbeck, “As Vinhas da Ira” é um filme bem diferente do livro que lhe dá origem. No livro, há dois tipos de capítulos que se intercalam e se complementam: há os narrativos, com foco no drama da família Joad; e há os líricos, poéticos e genéricos, que não focam nos Joad, mas expandem o contexto, criando um retrato coletivo e metafórico da crise.

O filme do grande John Ford — um católico conservador que tinha amizades com o pessoal da esquerda — foca-se apenas na história dos Joad e é muito bom. Trata-se de um libelo bem comuna. Durante o Macartismo (década de 1950), “As Vinhas da Ira” foi banido em algumas cidades e chamado de “propaganda comunista”.

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BamboFilme I

BamboFilme I

Ontem tivemos uma bela e amorosa noite de cinema aqui na Bamboletras. Tudo funcionou. O cinema é isso: um ritual coletivo. Vieram cinéfilos que já tinham visto 5 vezes Sunset Boulevard, assim como curiosos. Todo mundo saiu satisfeito.

Atendendo aos primeiros pedidos, pensamos numa próxima sessão com As Vinhas da Ira, de John Ford. Um monumento do cinema humanista e uma obra poderosa baseada no romance de John Steinbeck, que captura a dor e a dignidade dos marginalizados durante a Grande Depressão nos EUA.

Pensávamos em sessões mensais, mas já estou achando que podem ser quinzenais. E assim a gente vai resistindo.

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Papinho em Persona

Papinho em Persona

Eu li muitos livros de e sobre Ingmar Bergman. Uma coisa a qual muitos atores se referem é que as filmagens sempre eram muito divertidas. Mesmo num filme como Gritos e Sussurros, as atrizes só lembravam de terem rido muito.

E aqui temos uma foto das filmagens de Persona, com Bibi e Liv — elas que tão pouco falavam durante o filme — de papo com Ingmar.

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Julie Christie, aos 85 anos

Por Gustavo Fuks-Schneider

Julie Christie, a lenda do cinema britânico que Al Pacino chamou de “a mais poética de todas as atrizes”, nasceu em Chabua, Assam, Índia, em 14 de abril de 1940, filha de uma artista plástica e um plantador de chá. A jovem Christie cresce em meio a plantação de seu pai antes de ser enviada para a Inglaterra para estudar. Terminando seus estudos em Paris, onde se muda para aprimorar o francês, com o objetivo de se tornar lingüista (Christie é fluente em francês e italiano), a adolescente Julie fica apaixonada pela liberdade do continente.

Também era apaixonada pela vida boêmia dos artistas e tinha planos de se tornar uma também. Christie faria sua estréia como atriz profissional em 1957 como membro do Repertório Frinton de Essex. Christie não gostava do palco, mesmo que lhe permitisse viajar, incluindo uma turnê com a companhia aos Estados Unidos. Seu verdadeiro métier como atriz seria o cinema, estreando 1961 na série de televisão do gênero ficção científica “A For Andrômeda”. A estreia no cinema se dá em 1962 numa participação especial na comédia “The Ealing-like comedy Crooks Anonymous” que foi seguido por um papel maior em outra comédia, “The Fast Lady”. Os produtores da série James Bond ficaram suficientemente intrigados com a jovem atriz para considerá-la pelo papel que posteriormente foi para Ursula Andress em Dr. No (1962), mas abandonaram a ideia porque Christie não era suficientemente peituda.

Em 1963 Christie trabalhou pela primeira vez com o homem que lançaria sua carreira no topo, o diretor John Schlesinger, quando a escolheu como substituta da atriz originalmente escalada para “Billy Liar”. A performance de Christie como Liz impressionou a ponto de se tornar um símbolo, se não um ícone, do novo cinema britânico. Sua presença na tela era tal que o grande John Ford a escalou como a jovem prostituta em “Young Cassidy”. Charlton Heston a queria para seu filme “The War Lord” mas o estúdio recusou suas exigências salariais.

Embora as revistas Amercan tenham retratado Christie como uma “recém-chegada” quando ela chegou ao super estrelato em 1965 no filme “Darling”, produção dirigido por Schlesinger, que adorava Christie, para desempenhar o papel da modelo Diana Scott, quando Shirley MacLaine saiu do elenco. (MacLaine era a irmã do homem que se tornaria amante de Christie no final dos anos 1960 e início dos anos 70, Warren Beatty, para quem alguns, como o ator Rod Steiger, acreditam que ela desistiria de sua carreira. Por sua complexa atuação, Christie ganhou elogios, incluindo os prêmios de melhor atriz da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas e da Academia Britânica de Cinema.

Christie alcança o topo principalmente porque pareou “Darling” com o papel de Lara na adaptação de David Lean, vencedor do Oscar, de Doctor Zhivago (1965), de Boris Pasternak (1965), um dos campeões de bilheteria de todos os tempos. Christie era agora uma estrela que exigia um cachê de US $ 400.000 por filme, fato constatado com tristeza no diário de Charlton Heston. Mais interessada em cinema como forma de arte do que em consolidar seu estrelato, Christie combinou “Zhivago” com um papel duplo em “Fahrenheit 45” para o diretor François Truffaut, diretor que ela admirava. O filme foi prejudicado pela falta de inglês do diretor e pelo atrito entre Truffaut e o ator Oskar Werner, que substituiu Terence Stamp, mais apropriado para o papel. Stamp e Christie eram amantes antes que ela se tornasse famosa, e ele não tinha certeza de que poderia atuar com ela, devido a seus próprios problemas de ego. Por sua parte, Werner se ressentiu com a atenção que Truffaut deu a Christie. O filme é um fracasso.

Stamp superou esses problemas do ego para assinar como sua co-estrela na adaptação de John Schlesinger de “Far from the Madding Crowd” (1967), de Thomas Hardy, que também contou com dois grandes atores ingleses, Peter Finch e Alan Bates. É um filme que é muito mais lembrado agora do que quando foi recebido em 1967. O filme e sua performance como heroína Hardy Bathsheba Everdene não teve boa recepção por parte da crítica. Muitos dos quais criticaram Christie por ser muito “mod” e, portanto, falsa. um dos contos clássicos de Hardy sobre o destino. Alguns disseram que sua contemporânea Vanessa Redgrave teria sido uma escolha melhor como Bathsheba, mas embora seja verdade que Redgrave é uma atriz de excepcional talento, não tinha o apelo sexual e a qualidade de estrela de Christie, o que faz a história de três homens apaixonados por uma mulher mais plausível, como um filme.

Embora ninguém o soubesse, o período de 1967 a 1968 representou o ponto alto da carreira de Christie. Por sorte, como a heroína Hardy que ela retratou, ela conheceu o homem que transformou sua vida, minando suas pretensões de carreira como estrela de cinema em seu romance de sete anos, o ator americano Warren Beatty. Viver sua vida sempre foi muito mais importante do que ser uma estrela. Beatty, que via a profissão de estrela de cinema como uma “esteira que leva a mais esteiras” e que era rico o suficiente depois de Bonnie e Clyde (1967) para não precisar mais trabalhar novamente. Christie e Beatty visitaram uma fazenda durante a produção de “Madding Crowd” e ficaram horrorizados com a exploração industrial dos animais.

Depois disso, os direitos dos animais se tornaram um assunto muito importante para Christie. Mesmo após a separação, Christie e Beatty que permanecem como amigos íntimos por quatro décadas. O último sucesso de bilheteria de Christie em que ela atuou como protagonista foi “Petulia” em 1968 para Richard Lester, um filme que apresentou uma das maiores atuações de George C. Scott, perfeitamente contrabalançada pela imagem de beleza da atriz. “Petulia” é um dos principais filmes da década, uma obra-prima subestimada. Apesar da presença do grande George C. Scott e da excelente Shirley Knight, o filme não funcionaria sem Julie Christie. Francamente, não há outra atriz que poderia ter desempenhado o papel. Nesse estagio da sua carreira, Christie realmente chegou no ápice do estrelato como atriz.

Depois de conhecer Beatty, Julie Christie renunciou essencialmente a qualquer desejo de atuar em qualquer filme, ou de se manter como atriz de primeira linha (o sucesso nas bilheterias é uma garantia dos melhores papéis, mesmo nos filmes de arte). em “They Shoot Horses Don’t They? (1969) e “Anne of the Thousand Days” (1969), dois personagens que receberam indicações ao Oscar pelas segundas escolhas, Jane Fonda e Geneviève Bujold. Depois de filmar In “Search of Gregory” (1969), um fracasso crítico e de bilheteria, para cumprir suas obrigações contratuais, Christie passou um tempo com Beatty na Calfiornia, alugando uma casa de praia em Malibu. Voltaria atuar em “The Go-Between” (1971), de Joseph Losey, um belo filme com um roteiro do grande Harold Pinter, e ganhou outra indicação ao Oscar como proprietária de um prostíbulo no clássico menor de Robert Altman, “McCabe & Mrs. Miller” (1971) onde atua com Beatty. No entanto, como o próprio Beatty, ela não procurou trabalho estável, o que pode ser um suicídio profissional para um ator que deseja manter uma posição no primeiro escalão de estrelas de cinema.

Ao mesmo tempo, Julie Christie recusou o papel da imperatriz russa em “Nicholas and Alexandra” (1971), outro filme que ganhou a segunda escolha (Janet Suzman) de indicação ao Oscar de Melhor Atriz. Dois anos depois, ela apareceu no famoso filme de terror psicológico “Don’t Look Now” (1973), mas isso provavelmente foi um favor para o diretor Nicolas Roeg, que havia sido seu diretor de fotografia em “Fahrenheit 451”, “Far From the Madding Crowd” e “Petulia”. Em meados dos anos 70, seu caso com Beatty chegou ao fim, mas os dois continuaram amigos íntimos e trabalharam juntos em “Shampoo” (1975) (do qual ela se arrependeu em aceitar) e “Heaven Can Wait” (1978).

Christie ainda era estrela suficiente, devido ao seu magnetismo, e não à sua própria atração nas bilheterias, para receber US $ 1 milhão para interpretar a personagem Jacqueline Kennedy Onassis em “The Greek Tycoon” (1978) (um papel eventualmente interpretada por Jacqueline Bisset sem grandes elogios). Christie assinou o contrato, mas foi forçada a desistir de ser protagonista em “Agatha” (1979) (que foi preenchida por Vanessa Redgrave) depois que ela quebrou o pulso. Então aceita o papel da protagonista feminina em American Gigolo (1980), quando Richard Gere foi originalmente acrescentado ao elenco mas desistiu quando John Travolta entrou no elenco depois imenso sucesso nas bilheterias como o rei da discoteca Tony Manera em “Saturday Night’ (1977) e como Danny Zuko em Grease (1978). Christie nunca aceitaria ser co-estrela ao lado uma figura de talento duvidoso. Quando o próprio Travolta desistiu e Gere retornou ao projeto, era tarde demais para Christe reconsiderar, já que a parte já havia sido preenchida pela atriz e modelo Lauren Hutton. Levaria 15 anos para Christie e Gere trabalharem juntos.

O fim de sua carreira de Julie Christie em Hollywood acontece após recusar o papel de Louise Bryant em Reds (1981), um papel escrito por Warren Beatty com ela em mente, Christie entendia que uma atriz americana deveria desempenhar o papel. (A mais recente namorada de Beatty, Diane Keaton, desempenhou o papel e ganhou uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz.) De qualquer forma Christie permaneceu no filme, Beatty dedicaria a produção a ex namorada, o filme foi gestado enquanto o casal namorava.

Julie Christie retorna ao Reino Unido e tornou-se a resposta do Reino Unido para Jane Fonda, fazendo campanha por várias causas sociais e políticas, incluindo direitos dos animais e desarmamento nuclear. As partes que ela tirou foram dirigidas principalmente por sua consciência social, como aparecer no primeiro longa-metragem de Sally Potter, “The Gold Diggers” (1983), que não foi um remake do antigo “The Return of the Soldier” de Avery Hopwood, mas uma parábola feminista feita inteiramente por mulheres que todos compartilhavam a mesma escala salarial. Os papéis em “The Return of the Soldier” (1982), com Alan Bates e Glenda Jackson e “Heat and Dust” (1983), da Merchant-Ivory, pareciam anunciar um retorno à forma, mas Christie – como convém a esse símbolo da liberdade e falta de conformidade dos anos 60 – decidiu fazer do seu jeito. Decide dar um tempo na carreira, embora seu talento e beleza únicos ainda fossem muito procurados pelos cineastas.

Nesse ponto, a carreira cinematográfica de Christie entra em eclipse. Mais uma vez, seria particularmente exigente com seu trabalho, tanto que muitos vieram vê-la, essencialmente, como aposentada. Em 1986 se sente atraída por um projeto da diretora argentina María Luisa Bemberg, “Miss Mary”, a produção passou um tanto quanto desapercebida na época. No entanto um renascimento da carreira ocorreria anos depois, com a sua vez como Gertrude, no ambicioso, senão totalmente bem-sucedido “Hamlet” (1996) de Kenneth Branagh. Como Christie disse na época, ela não achava que poderia recusar Branagh, pois ele era um tesouro nacional. Mas o melhor ainda estava por vir: sua vez de estrela de cinema desbotada, casada com Nick Nolte e paquerada por um homem mais jovem em “Afterglow’ (1997), lhe trouxe elogios. Ela recebeu sua terceira indicação ao Oscar de Melhor Atriz por sua atuação e apareceu nos prêmios tão radiante e excepcionalmente bonita como sempre. Sempre iconoclasta, ficou visivelmente aliviada, após o anúncio do prêmio, ao saber que havia perdido!

Christie vive com o jornalista investigativo de esquerda Duncan Campbell (colunista do Manchester Guardian) desde 1979, primeiro no País de Gales, depois em Ojai, Califórnia e agora no East End de Londres, antes de se casar em janeiro de 2008. Além de seu trabalho no cinema, ela narrou muitos livros em fita. Em 1995, ela fez um retorno triunfante ao palco em um renascimento em Londres do “Old Times” de Harold Pinter, que recebeu suas excelentes críticas. Em 2004 participa da bem sucedida franquia Harry Potter em “Harry Potter and the Prisoner of Azkaban”, no mesmo ano está em “Finding Neverland” ao lado de Kate Winslet e Johnny Depp. Sendo indicada ao Bafta, na categoria melhor atriz coadjuvante. Em todos seus projetos recentes Julie Christie trabalhou em papéis coadjuvantes. Christie – uma atriz que sempre evitou o estrelato vulgar – provou ser uma inspiração para sua co-estrela Sarah Polley, a extraordinária talentosa atriz canadense com uma inclinação política de esquerda que também abomina Hollywood.

De sua co-estrela em “No Such Thing” (2001) e “The Secret Life of Words” (2005), Polley diz que Christie está ciente de sua mercantilização pela indústria cinematográfica e pela mídia de massa nos anos 60. Não querendo ser reduzida a um produto, ela se rebelou e assumiu o controle de sua vida e carreira. Sua atitude faz dela uma das heroínas de Polley, que a chama de uma de suas mães substitutas. (Polley perdeu a própria mãe quando tinha 11 anos.) Christie e Polley são rebeldes. Sarah Polley havia saído do set do filme de grande orçamento previsto como sua passagem para o estrelato de Hollywood, Almost Famous (2000), para ter um tipo diferente de vida e carreira. Ela retornou ao seu país natal, Canadá, para aparecer no filme independente de baixo orçamento “The Law of Enclosures” (2000), um filme de arte presciente do diretor John Greyson que compensou o drama com o cenário de uma guerra perpétua no Golfo, três anos antes da invasão de George W. Bush. Iraque, iniciando a segunda guerra mais longa da história dos EUA. Tirando um hiato de atuação, Polley foi ao Canadian Film Centre de Norman Jewison para aprender a dirigir e dirigir, fazendo curtas conceituadas antes de lançar sua estréia no cinema em “Away from Her” (2006), que foi filmada e concluída em 2006 mas mantido para lançamento até 2007 por seu distribuidor. Sua uma magnífica performance de uma mulher com Alzheimer foi vencedora do Globo de ouro, do National Board of Review, Critics’ Choice, Screen Actors Guild, entre inúmeros outros prêmios e para arrematar, mais uma indicação ao Oscar de melhor atriz, embora fosse a franca favorita ao prêmio, acabou perdendo para a francesa Marion Cotillard.

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Sobre o Oscar de Fernanda Torres e “Ainda estou aqui” (esperando estar errado)

Sobre o Oscar de Fernanda Torres e “Ainda estou aqui” (esperando estar errado)

Fernanda Torres, “Ainda estou aqui” e o cinema brasileiro já são vencedores.

Não acho que esta seja uma frase defensiva ou vazia. Eles já são vencedores mesmo. Fizeram muita gente ver seu ótimo filme. Entraram triunfantes em muitos países. Fernanda realmente arrasa sob qualquer ângulo. É uma super mulher.
Outro fato óbvio é que os resultados do Oscar seguem o gosto norte-americano e normalmente eu discordo dele. Para mim, normalmente, o melhor filme deles nem entra na disputa e vai aparecer aqui lá no segundo semestre, Talvez até num streaming da vida, no meio de um monte de porcarias.

Houve tempo, quando eu era uma espécie de editor de cultura do Sul Vinte Um, em que eu dava meus favoritos ao Oscar nos sete prêmios principais (melhor filme, melhor diretor, melhor filme estrangeiro e as 4 principais premiações de atores). Lia tudo. Em três anos consecutivos — 2013, 2014 e 2015 –, acertei os 18 de 21 vencedores. (Toma essa, Ticiano, em 2014 acertei todinhos!) E não foi por votar em quem eu achava que merecia, mas interpretando o mau gosto e as necessidades dos produtores estadunidenses. Hoje, acompanho tudo sem atenção.

Só vi três filmes entre os concorrentes: “A Garota da Agulha”, “Conclave” e “Ainda estou aqui”, então estou BEM POR FORA, mas algo me diz que Demi Moore é favorita à atriz principal. Uma atriz que antes era considerada bonitinha e bobinha e que atua bem em um papel dramático é uma twice-born! Tem que ganhar! Há algo mais lindo e enternecedor para o mau gosto deles? Talvez, claro, ela mereça por sua atuação, então será mais favorita ainda.

Espero estar errado.

Filme por filme, desconsiderando minha condição geopolítica, achei “A Garota da Agulha” melhor do que o filme do Salles, só que não conheço os outros concorrentes nem de nome. E acharia deveras estranho que “Ainda estou aqui” ganhasse o prêmio de melhor filme geral.

Mas, claro, se Fernanda e o “Ainda estou aqui” levarem os prêmios estarei com a turma do Brasil-sil-sil.

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Fernanda Torres e as “velhas”

Fernanda Torres e as “velhas”

A brilhante atuação de Fernanda Torres como embaixadora de nossa melhor cultura deve ser saudada. Num mundo ideal, Fernanda seria clonada para atuar em filmes e como embaixadora ao mesmo tempo. Mas, para ela ficar igualzinha, a Fernanda 2 precisaria de pais e ambiente iguais, então esqueçam minha ficção, ela fracassou. A Fernanda original cresceu sem o sertanejo universitário e os bolsonaristas. Bem, talvez aí se encontre uma boa ficção. Uma Fernanda nova e apenas boba!

Mas o assunto é sério — tem mais uma coisa sobre Fernandinha. Ontem, vi-a chegar no palco do Festival de Santa Bárbara toda de preto e sentar. Repentina e estudadamente, o vestido abriu e ela cruzou as pernas. Foi lindo de ver aquela fenda. Teve graça, estilo e sensualidade. O minimalismo tem classe, penso eu com meus botões e chinelos de dedo. Estou neste mundo há 67 anos e sei que, antigamente, mulheres de 59 anos, não se permitiam a isso, eram consideradas umas velhas e deviam se comportar de acordo com as normas da decência e da menopausa.

Era uma bobagem, né? Observo mulheres há mais de 50 anos e as adoro. Por exemplo, como são belas aquelas velhas atrizes inglesas que vão ganhando idade naturalmente, com o talento e a inteligência se derramando pelos olhos! Vanessa Redgrave, Judi Dench, Helen Mirren, Maggie Smith… Elas capturam nossos olhos.

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Peça Inacabada para Piano Mecânico, de Nikita Mikhalkóv

Peça Inacabada para Piano Mecânico, de Nikita Mikhalkóv

Revimos hoje a obra-prima Peça Inacabada para Piano Mecânico, de Nikita Mikhalkóv. Baseada em Platónov, de Tchékhov, com atores maravilhosos, é mais uma obra russa que, na hora de apontar grandes autores russos, deixa Dostoiévski de lado. Estou colecionando.

Todos sabem que Tchékhov é o maior autor de todos os tempos e que, toda vez que a gente vai tomar uma decisão deve pensar Nele, além de orar todos os dias por Ele. O filme é lindo, bem dirigido e cheio de memoráveis diálogos.

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A Garota da Agulha, de Magnus von Horn

A Garota da Agulha, de Magnus von Horn

Acabamos de ver agora o hipnótico e expressionista “A Garota da Agulha”, filme do sueco Magnus von Horn que concorre com “Ainda estou aqui” como melhor filme estrangeiro.

Karoline é uma operária que luta para sobreviver em Copenhague após a Primeira Guerra Mundial. Quando se vê desempregada, abandonada e grávida, ela conhece a carismática Dagmar. O filme é em preto e branco e é ótimo, de bela fotografia e atuações. É tudo muito cinematográfico, mas acho que fica abaixo do brasileiro. Grande adversário.

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Liv Ullmann

Liv Ullmann

A maior de todas está completando 86 anos hoje.

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Binoche na Bamboletras

Binoche na Bamboletras

Eu peço a vocês: não sintam ciúmes, não me queiram mal.

É que uma vez eu ganhei de aniversário uma foto autografada de e por Juliette Binoche, a aniversariante de hoje.

Eu ganhei de aniversário com um papel comprobatório de autenticidade. Está exposta na Livraria Bamboletras, onde mais?

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Juliette Binoche faz 60 anos

Juliette Binoche faz 60 anos

Por respeito, procurei uma foto atual de Juliette Binoche. Une photo d’aujourd’hui. Não queria uma da jovem atriz. Encontrei esta de 2022 no Festival de Berlim. Ela não para, faz filmes e mais filmes, sempre brilhantemente. Ainda bem.

Ela diz que os diretores gostam de colocá-la em papéis dramáticos e que ficam desconcertados quando a conhecem porque ela passa seus dias fazendo piadas, muitas vezes inconvenientes ou autodepreciativas. Te compreendo, Ju.

Hoje, está completando 60 anos. Gosto demais da poesia de seu rosto, assim como da inteligência que transborda de seu olhar. Parabéns, deusa.

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Maestro, um retrato (muito) incompleto de Leonard Bernstein

Maestro, um retrato (muito) incompleto de Leonard Bernstein

Rafael Ortega Basagoiti

O personagem Leonard Bernstein era excessivo. Ele viveu em um conflito quase permanente sobre como administrar a homossexualidade, ou melhor, a bissexualidade, em tempos em que a tolerância (especialmente nos Estados Unidos) não era o que é agora, e além disso foi investigado pelo FBI por sua tendência esquerdista. Apaixonado, extrovertido, suas manifestações de efusividade seriam hoje objeto, no mínimo, de escândalo (sua própria filha declara em um dos documentários que beijava todos que estavam ao seu alcance, um músico da Filarmônica de Viena relata o assunto com ironia: “Disseram-me, não enxugue, afinal é suor de Bernstein”). Na época em que conheceu sua futura esposa, Felicia Montealegre, ele já havia tido seus namoros homossexuais, e Paul R. Laird, em sua excelente biografia (Life and Work of Leonard Bernstein , Turner, 2018), sugere que sua amizade com Aaron Copland provavelmente foi mais do que isso.

Mas o ambiente era o que era, e um de seus mentores, Serge Koussevitzky, então diretor da Orquestra Sinfônica de Boston, pressionou-o a mudar seu sobrenome (sugeriu Leonard Burns) para eliminar o toque judaico e a se casar. Ambas as coisas, a segunda destinada a reprimir os rumores de sua homossexualidade, ajudariam sua carreira. Lenny não mudou o sobrenome, mas se casou com Felicia. O conflito sobre sua sexualidade persistiu e ele acabou se separando da esposa para se juntar ao amante Tom Cothran. Mas quando Felicia foi diagnosticada com o câncer que acabaria com sua vida, ele voltou e ficou com ela até sua morte. Ele a amava, não há dúvida disso, por mais que sua tendência sexual o levasse para outras camas.

É esta relação única entre Lenny e Felicia, e o conflito sexual que lhe está subjacente, que é o foco do filme Maestro, protagonizado e realizado por Bradley Cooper, produzido pela Netflix e agora disponível na plataforma. Não entrarei no aspecto puramente cinematográfico neste artigo, mas vale a pena fazer algumas anotações que surgem depois de ter visto o filme. Não há nada de questionável, em princípio, no fato de o filme focar nessa relação, a ponto de Felicia (aliás, maravilhosamente interpretada por Carey Mulligan), ser praticamente o papel principal. Na verdade, é uma faceta pouco delineada em outros documentários. E, a julgar pela declaração da própria filha Jamie (protagonista de uma das cenas do filme, que motiva Felicia a pressionar Lenny a falar com ela e a negar os rumores sobre sua homossexualidade), é uma questão bem retratada. Acredito, no entanto, que existe um problema, e não de menor importância, em outros domínios.

Compositor, pianista, diretor, divulgador, ensaísta e professor. Talvez você possa encontrar pessoas que desenvolveram todas ou quase todas essas facetas, mas para elas terem feito isso no nível de excelência em que Leonard Bernstein fez, é, não acho que estou exagerando, muito difícil, se não impossível. Lenny foi uma das grandes personalidades musicais do século XX, sem dúvida. Muitos podem não gostar de sua música, ou pensar que ele não deveria ter ido além dos (ótimos) musicais. Para outros, seus modos no pódio podem parecer exagerados, teatrais, pouco ortodoxos e até caóticos (aqueles saltos, aquele balanço de braço, aquele movimento corporal, aquela técnica de batuta, no mínimo singular…). Talvez sua tendência, como maestro, para tempos realmente extremos — exceto o último Celibidache e algumas gravações de Bach de Scherchen, é difícil lembrar de lentidão mais no limite do que aquelas do último movimento da Nona de Mahler nas mãos de Bernstein — seja indigesto para alguns, porque foge ao cânone.

Mas esse caráter excessivo foi e continua sendo fascinante. Ele vivia a música com uma intensidade contagiante. Os seus critérios podem ser discutíveis, o seu gesto e o sus batura quebram toda a ortodoxia. Mas o que aquele homem transmitia… a paixão, a convicção, eram tais que era literalmente impossível não o seguir, não se sentir capturado pela sua mensagem, fosse ela música, interpretação ou divulgação. “Eu amo duas coisas: música e pessoas. Não sei qual dos dois eu prefiro.” Estas são as primeiras palavras de uma declaração um pouco mais longa que Leonard Bernstein, com a voz já muito rouca, em 1990, poucos meses antes de morrer, diz à câmera com comovente ternura. É o início de um estupendo documentário, The Gift of Music, narrado por Lauren Bacall e editado em DVD pela Deutsche Grammophon. Há outro documentário, Larger than life, também magnífico, creio que disponível na medici.tv.

Qualquer um desses documentários, ou qualquer uma das muitas entrevistas com Bernstein –entre elas, a que você pode ver aqui, da série Kennedy Center Honors Legend — deixa um retrato dele muito mais completo e fascinante do que o deste filme de Bradley Cooper.

Porque, na minha humilde opinião, é aí que reside o seu principal (embora não único) defeito: intitulado Maestro, espera-se encontrar um filme em que todas estas facetas estejam mais ou menos bem retratadas. Mas a música, apesar do título, parece uma companheira marginal. Aquela que é considerada sua principal obra, a Missa, aparece saindo na ponta dos pés. O mais conhecido, West Side Story, mal participa. Não há nada da sua relação, muito longa e profunda, com a Filarmónica de Israel, nem com a de Viena, a Baviera ou o Concertgebouw. Pior ainda, presume-se que o espectador conheça muito bem a vida de Bernstein antes de assistir ao filme, porque se não for o caso, a presença fugaz de pessoas tão essenciais na sua vida como Aaron Copland ou Koussevitzky é dificilmente identificável. Outros, igualmente importantes, como Dimitri Mitropoulos, o realizador grego que o impulsionou a ser compositor, ou Fritz Reiner, seu professor no Curtis Institute, em Filadélfia, nem sequer aparecem. Também passa despercebida, ou quase, a sua extraordinária atividade de divulgador que está no YouTube… Ver qualquer um destes vídeos explica de uma forma muito simples porque este homem conseguiu fisgar milhões de pessoas pela música clássica.

Mais difícil de traduzir em filme é seu papel como colunista, mas também é altamente recomendável aprofundar-se na inestimável descrição que faz de seu querido Mahler neste artigo: Mahler – Chegou a sua hora – na Alta Fidelidade, Vol 17 no. 9, setembro de 1967, posteriormente reproduzido em seu primeiro ciclo Mahleriano para CBS-Sony. É difícil explicar, sem meandros técnicos, o que é a música de Mahler, o que ela expressa e significa, com mais precisão e riqueza do que a escrita nesta coluna.

Além disso, interpretar um regente (e ainda mais um como Bernstein) é extremamente difícil, o que deve ser levado em conta ao julgar o trabalho de Cooper. O ator americano, treinado pelo diretor do Metropolitan, Yannick Nézet-Séguin, se sai razoavelmente bem em uma cena com o coro, mas quando tenta reproduzir a lendária gravação da Segunda Sinfonia de Mahler na Catedral de Ely (que faz parte do ciclo de Mahler gravado em DVD pela Deutsche Grammophon) vai longe demais. Lenny era, como já observei, excessivo. Cooper vai mais longe, mas o que em Bernstein parece um excesso natural, em Cooper parece beirar o grotesco. A sua caracterização, incluindo a controversa prótese nasal, é ótima. A dublagem presta um péssimo serviço, no entanto. A voz de Bernstein, especialmente a do Bernstein mais velho, parece demasiado melíflua (compare com o original da entrevista citada acima, mas também com o som original do filme).

Em suma, o mais problemático é que muitos virão esperando ver um retrato de Bernstein com aquelas múltiplas facetas ligadas à música que, além disso, teve uma relação única com a sua esposa, e que viveu um duro conflito com a sua tendência sexual. Mas o que você verá é o retrato de alguém que teve uma relação única com sua esposa, enquadrada em um duro conflito com sua tendência sexual… e que, além disso, também era músico. Mas como isso é pouco, o título é enganoso, porque não responde ao que se vê depois. O retrato esperado permanece incompleto.

O Bernstein de verdade

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