Por alguma razão, eu queria ir ao Bairro, um local úmido na Zona Sul de Porto Alegre, que era habitado em sua esmagadora maioria por reacionários. Pedi um Uber e o cara me disse que me levaria até a entrada do Bairro, mas que jamais entraria naquele antro bolsonarista. Concordei.
Chegando no limite determinado pelo motorista, desci do carro e penetrei no Bairro. Era tudo sombrio, escuro mesmo, logo veio um ônibus. Entrei e perguntei ao motorista onde ele ia. Ele me respondeu que todos os ônibus do Bairro eram circulares, que nenhum me levaria para outro lugar que não o próprio Bairro.
— Dou voltas o dia inteiro. Trabalho 24/7. Não tenho folga. Só paro quando morrer.
— E se tu bater com o ônibus?
— Se bater, não sei o que acontece.
— OK — respondi.
Então o ônibus começou a andar pelo Bairro. Era lindo. A arquitetura era gótica, com edifícios enormes. O ônibus entrava nos corredores dos edifícios, belíssimos e úmidos, com água vertendo das paredes cravejadas de pingos. Tudo era grande, imenso e lindo, apesar de lembrar filmes de terror. Tinha muitas esculturas ameaçadoras. Vi alguns monstros de Goya transformados em pedra.
Desci do ônibus, pois avistei um local iluminado. Só podia ser um bar. Era e a placa da porta anunciava em giz branco:
HOJE, ÀS 23h,
SHOW COM O POWER TRIO
“LIBERTÉ, ÉGALITÉ & VAI SE FUDÊ”
Gostei da coisa e entrei. Pouca gente. Pedi uma garrafa inteira de cachaça Weber Haus amburana e esperei pelo show. O trio, somadas as idades, tinha mais de 210 anos. Liberté era baixista e vocalista, Égalité, guitarrista, e Vai se fudê era o baterista. Liberté era até razoável, Égalité era uma merda; quem salvava o grupo era o excepcional Vai se fudê. Parecia o baterista do Angine de Poitrine. Um sujeito exato, se me compreendem. No conjunto, eram bem ruins.
No intervalo do espetáculo, vieram sentar-se comigo. Liberté só queria saber da minha cachaça, Vai se fudê estava quieto e Égalité não parava de falar. De repente, Égalité disse que Vai se fudê estava muito deprimido porque queria que um amigo especial viesse a seu casamento que seria dali um mês.
— O amigo negou-se a vir?
— Não, nem foi convidado.
— E quem é ele?
Égalité me disse que era Paulo Cézar Caju. Fiquei surpreso e perguntei porque Vai não tentava contato. É que Vai queria que uma pessoa culta fizesse o convite, não um borra-bostas como nós. E Égalité me propôs ligar para Caju, pois achou que eu era suficientemente fino para tanto. Fiquei envaidecido. Com a falicidade dos sonhos, peguei o celular e liguei para Caju, que hoje mora na França.
— Caju? Ça va? Tudo bem? Teu amigo Vai se fudê quer a tua presença em seu casamento.
— Pelo Rio Grande do Sul, por essa escumalha, eu não movo uma palha. Mas pelo meu amigo Vai, vou, sim.
— Por que detestas tanto nosso estado?
— Porque tudo aí é falso.
— Mas tu não foste Campeão do Mundo pelo Grêmio?
Ouvi uma risadinha de escárnio da voz grave de Caju.
— Falso Campeão do Mundo — ganhamos um torneio ridículo patrocinado pela Toyota. Falso Grêmio — contrataram eu e o Mário Sérgio só para jogar aquele jogo. Aquilo não era o Grêmio. E jamais me valorizaram, valorizaram só o Mário Sérgio. Ele era branco, claro.
— Tá, mas tu vens pro casamento?
— Vou.
Todos na mesa se animaram. Falamos de música. Égalité confessou que ele, como músico, não existia, que era como a Égalité mesmo!
Corta.
Caju está na minha casa se arrumando para ir ao Bairro. Ele e sua mulher, uma deslumbrante senegalesa, estão se aprontando. São padrinhos de Vai. Caju sai do quarto com um terno cor-de-rosa. Vou causar no Bairro, ele me diz. Pegamos o Uber. Quando chegamos ao bar — o casamento seria lá –, o rosto de Vai se fudê iluminou-se ao ver Caju e sua senagalesa. Eu e Elena entramos atrás. Vai se fudê chorava dizendo meu amigo, meu amigo… A mulher de Vai, uma velhinha magrinha de olhos azuis, tinha lágrimas até no queixo.
E então eu acordei. Estava realmente comovido. Elena, a meu lado, toda coberta, aquecia sua bochecha direita no travesseiro. Mal ela sabia que também chorara ao ver o reencontro dos amigos.



Encontro com o Mar (1962) é mais uma obra breve e profunda de Pär Lagerkvist. Novamente, a religião está presente, como em tantos livros deste ateu. Este livro é a continuação de 

Fabrício Falkowski é uma figura rara no jornalismo. Num mercado onde os profissionais estão sempre pulando de uma empresa para outra — seja por opção, seja pelos frequentes passaralhos (demissões) — Fabrício está há 27 anos no Correio do Povo, sempre cumprindo a função de setorista do SC Internacional. Ele começou lá em 1999 e permanece no posto até hoje. Neste livro cheio de detalhes deliciosos, ele conta os últimos 25 anos do Inter, de 2000 a 2024. Fabrício não é um repórter chapa branca. Pelo contrário, foi o cara que trouxe à tona a roubalheira que culminou na responsabilização e condenação do ex-presidente Vitorio Piffero e de seu factotum Pedro Affatato por desvio de valores para benefício próprio, entre 2015 e 2016 –, ano em que o Inter caiu para a segunda divisão pela primeira e única vez em sua história.



Gosto demais dos artistas escandinavos. Bergman, Vinterberg, Strindberg, Ibsen, Sibelius, Berwald, Hamsun, Blixen, Knausgård — todos ótimos. Para completar, amo o frio, me sinto muito bem com ele. Meu termostato corporal parece ter sido regulado na Finlândia que não conheço. Então, vamos a mais um livro do sueco Largerkvist.

Já ouvi várias pessoas me dizendo que iam roubar minha edição de O Anão. O livro foi publicado pela Civilização Brasileira em 1970, época em que a editora era sinônimo de bom livro e de resistência à ditadura. Mas O Anão nunca foi republicado e virou raridade. Houve tempo em que o livro estava custando R$ 1000 na Estante Virtual. Hoje, sua cotação está bem mais baixa, o que não se reflete em sua qualidade. Li as 150 páginas de meu cobiçado volume em voz alta para minha mulher — um hábito nosso — e podem crer que o livro não perdeu nada após tantos anos.

Gabriel García Márquez, ao escrever Memórias de minhas putas tristes declarou ter-se inspirado neste livro de Kawabata, homenageando-o ao narrar uma história de amor não consumado com uma jovem adormecida. No livro de GGM, o velho protagonista não tem relações sexuais com a adolescente virgem. O encontro acontece de forma completamente diferente do que ele havia planejado. Ao chegar ao quarto, ele encontra a menina de 14 anos profundamente adormecida (dopada pela cafetina para acalmar seus medos). Diante da garota indefesa, o velho não tem coragem de acordá-la ou tocá-la. Em vez disso, ele apenas a contempla durante a noite, deita-se ao lado dela e também acaba dormindo. Na manhã seguinte, vai embora antes que ela acorde, sem nunca ter tido qualquer contato físico ou sexual com a jovem.

Ao saber do argumento da novelinha Primeiro Amor, de Ivan Turguêniev, logo as pessoas pensam em algo batido, já lido em livro ou visto no cinema. Novamente um adolescente apaixonado por uma jovem mulher? Acho até que o filme georgiano 27 Beijos Roubados é um pequeno roubo a Turguêniev. No filme, a menina promete cem beijos ao garoto apaixonado durante as férias, mas algo que descobrimos no final do filme fez com que ela ficasse devendo 27. Uma decepção. Apesar de breve, o livrinho de Turguêniev tem notável densidade emocional, psicológica e social — é um daqueles livros em que a aparente simplicidade esconde complexidades. Narrado como memória, o texto acompanha Vladímir, que revisita sua adolescência e o impacto devastador de sua paixão por Zinaída. Esse ponto de vista retrospectivo é decisivo: não se trata apenas de uma história de amor juvenil, mas de uma releitura madura de uma experiência formadora, em que o passado já está filtrado pelo tempo e pela perda. A narrativa, portanto, nasce da distância — e essa distância é o que lhe dá melancolia e lucidez.

Você não vai gostar de nenhum dos personagens de Bestas Encurraladas, de Magnus Mills, creio eu. Este é um romance meio comédia, meio sério, que mostra as “maravilhas” do trabalho assalariado. A gente começa a ler e acha tudo muito simples, mas há por trás uma boa e sofisticada engrenagem literária. A história acompanha um narrador sem nome, promovido a chefe de dois operários escoceses — Tam e Richie — que fazem cercas no interior do país. Sim, cercas para fazendas, para impedir a fuga de animais. A rotina é repetitiva: estacas, arame, tensão da cerca, trabalho duro durante o dia, pub à noite, outras tensões com os clientes, a chefia e o dono da firma. Mas, pouco a pouco, a rotina se deforma: acidentes estranhos, mortes tratadas com naturalidade, situações que deslizam para o absurdo sem jamais abandonar o mesmo tom burocrático. O resultado é uma narrativa que se move entre o realismo operário marxista e uma espécie de pesadelo kafkiano.







