Pergunte ao Pó, de John Fante

Pergunte ao Pó, de John Fante

Pergunte ao Pó (1939), de John Fante (1909-1983) é excelente, certamente um dos grandes romances estadunidenses do século XX. Tem a energia da juventude, o humor de quem sabe rir de si mesmo e uma melancolia que só se revela plenamente depois da última página. É um livro sobre o fracasso e a esperança, sobre a esperança teimosa de continuar escrevendo, amando e vivendo. Nada da típica ascensão ou queda de um herói. Pergunte ao Pó faz algo mais raro: acompanha um jovem que ainda não sabe quem é, mas que acredita, com uma mistura de arrogância e desespero, que nasceu para ser escritor.

O carcamano Arturo Bandini chega a Los Angeles trazendo quase nada, mora de aluguel num quarto miserável, com poucos dólares no bolso e uma confiança quase insuportável em seu próprio talento. Pobre e faminto, ele escreve, sonha, passa fome comendo apenas laranjas, apaixona-se, mente para si mesmo e tenta desesperadamente um caminho.

A grande invenção Fante está na criação de Bandini. Ele é vaidoso, impulsivo, preconceituoso, ridículo em muitos momentos, mas também vulnerável e profundamente humano. Não pede a simpatia do leitor; conquista-a justamente porque nunca esconde suas contradições e as merdas que diz e faz. Sua voz oscila entre a grandiloquência e o desamparo, entre a ambição desmedida e a consciência de sua própria insignificância.

No centro do romance está a relação entre Bandini e Camilla Lopez, garçonete mexicana de temperamento forte. O amor entre os dois não encontra repouso. É uma dança feita de atração, ressentimento, orgulho e desencontros. Camilla desafia Bandini porque não cabe na fantasia que ele constrói sobre ela. Mas Pergunte ao Pó é também um romance sobre literatura. Bandini acredita que escrever o tornará imortal, que bastará publicar um conto para escapar da pobreza, do anonimato e da mediocridade. Aos poucos, descobre que a literatura não salva ninguém da vida. Escrever não elimina a fome, não cura a solidão nem torna o amor menos difícil. Ainda assim, continua sendo a única forma de dar sentido ao caos.

Fante escreve com uma prosa seca e veloz. Não há ornamentações. Cada frase parece nascer da urgência de quem conhece a precariedade. Sob essa aparente simplicidade esconde-se o orgulho dos derrotados, a dignidade dos esquecidos e a beleza dos pequenos instantes. Não é por acaso que escritores como Charles Bukowski reconheceram em John Fante um mestre. Muito antes da chamada literatura “suja”, Fante já escrevia sobre personagens comuns, derrotados e imperfeitos, mas o fazia com uma ternura que impede qualquer cinismo. Seus fracassados continuam sonhando.

Ao terminar Pergunte ao Pó, compreendemos que Arturo Bandini talvez nunca alcance a grandeza que imagina merecer. Mas também percebemos que sua obstinação em escrever, possui algo de profundamente comovente. É a história de alguém que insiste em transformar a vida em literatura, mesmo quando a vida parece responder apenas com pó.

A poeira do título? Não sei. Ele aparece nas ruas, no peitoril das janelas, no deserto que cerca a cidade. John Fante nos lembra que, se um dia quisermos saber quem fomos, talvez seja preciso perguntar ao pó.

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Obs. final: faltou dizer que Fante criou vários livros tendo Arturo Bandini como personagem principal. A coisa é bem bagunçada, pois alguns narram a vida pregressa de Bandini e outros o que virá depois e não foram publicados em ordem. Pergunte ao Pó é o mais famoso deles:

O Caminho de Los Angeles (The Road to Los Angeles, escrito em 1936, mas publicado postumamente em 1985)
Espere a Primavera, Bandini (Wait Until Spring, Bandini, publicado em 1938)
Pergunte ao Pó (Ask the Dust, publicado em 1939)
Sonhos de Bunker Hill (Dreams from Bunker Hill, publicado em 1982)

John Fante

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De uma entrevista do romancista húngaro László Krasznahorkai

(…) Nunca saberemos quantos dos livros que hoje vou autografar serão efectivamente lidos além da página em que fica a dedicatória. Alguém chegará ao fim desses livros? A literatura sofreu uma transformação enorme.

Tenho a impressão de que a literatura contemporânea esqueceu praticamente tudo o que aconteceu durante o século XX. Desde Marcel Proust até James Joyce, Samuel Beckett, Thomas Bernhard​ ou Fernando Pessoa a literatura percorreu um caminho extraordinário. No entanto, hoje parece ter regressado à linguagem e às estruturas narrativas do século XIX: quanto mais acessível e fácil de consumir for um livro, maior é o seu sucesso.

No início isso surpreendia-me. Depois percebi a razão: esses livros podem ser lidos sem grande esforço e praticamente sem bagagem cultural. A literatura mais exigente requer prática de leitura e formação cultural. Hoje a formação mudou profundamente. O conhecimento dos clássicos e das humanidades perdeu espaço. No seu lugar surgiu outra aptidão: conseguir obter depressa a maior quantidade possível de informação sobre qualquer assunto. As questões de que a literatura sempre tratou passaram para segundo plano.

É com enorme tristeza que digo que pertenço à geração dos escritores que se está a despedir de uma determinada ideia de literatura, da sua forma de criação, da sua influência na sociedade e do percurso em que um livro saía das mãos do escritor, chegava ao leitor e acabava por exercer algum efeito duradouro sobre a vida humana. Creio que esse ciclo chegou ao fim. (…)

László Krasznahorkai em entrevista a Isabel Lucas, no Ípsilon (publico.pt)

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Os 50 maiores livros (uma antologia pessoal): XXXIV — Ao Farol (ou Passeio ao Farol), de Virginia Woolf

Os 50 maiores livros (uma antologia pessoal): XXXIV — Ao Farol (ou Passeio ao Farol), de Virginia Woolf

Em diferentes fases da vida, eu li três vezes este livro. E sempre o li como se comesse chocolate, sempre com a intenção de me deliciar mais um pouquinho. Isso não acontece devido a alguma reviravolta na trama, nem a réplicas espirituosas, nem a envolvimentos românticos. Na verdade, Virginia Woolf frequentemente ignora a trama em favor do exame das minúcias, colocando sob seu microscópio as emoções humanas ou, como na seção central deste livro, a maneira como uma casa se decompõe, como se a casa fosse humana. Eu sou um sujeito, acho, que exijo consistência e profundidade naquilo que leio, mas com VW esqueço de tudo. Está frio em Porto Alegre e fiquei mais do que contente em afundar de novo no banho quente deste livro e isso, creio, foi devido aos personagens.

A história acompanha a família Ramsay e suas visitas à Ilha de Skye, na Escócia, de 1910 a 1920. Lá, há enormes ondas, há um céu sempre mudando de humor e, claro, há o brilho do farol. Quando você entra no fluxo da prosa, é difícil escapar. O estilo de escrita de Woolf é propositalmente inovador. Ela cria frases gigantescas seguidas por linhas abruptas e mais curtas. É quase um poema disfarçado de romance. Normalmente não sou fã de poesia. Sempre preferi uma experiência de leitura mais tangível, uma que não seja movida por imagens.

A proximidade com os personagens, a compreensão que VW tem deles é o que os tornou tão envolventes. Eles não são extraordinários — na verdade, até pelo contrário. São tipos intelectuais de classe média, do tipo que você encontra em muitos livros. Pode-se até dizer que eles não oferecem nada de novo, nada para surpreender ou excitar um leitor. No entanto, para mim, a familiaridade com eles era uma prova da habilidade com que foram descritos – porque todo mundo conhece alguém como eles. Virginia Woolf, em algumas centenas de páginas, pareceu capturar exatamente a essência de certas pessoas — certos traços, peculiaridades e maneirismos que posso reconhecer da minha vida, do meu mundo, apesar de estar a cem anos de distância.

Se a Sra. Ramsay é a baseada na figura da mãe de VW, o que dizer de Lily Briscoe? Sua posição fora da família Ramsay torna sua perspectiva uma das mais interessantes e importantes do romance. Sempre senti uma conexão emocional com Lily enquanto ela anseia pelo apoio e amor dos outros. Ela vê a família Ramsay como um símbolo idealizado de amor e união perfeita; no entanto, as outras perspectivas revelam uma realidade muito diferente. Lily é uma constante em todo o romance, assim como o próprio farol. Mesmo quando o tempo passa e certos personagens vêm e vão, Lily está sempre lá com sua pintura, otimismo e introspecção fascinante. Ela é feminina e independente, uma figura contrastante com a Sra. Ramsay. Ou melhor, a feminilidade convencional, representada pela Sra. Ramsay na forma de casamento e família, confunde Lily, e ela, bem, ela talvez seja VW x sua mãe.

Ah, o farol. É o fio condutor que atravessa todo o romance, aquele destino tão desejado pelos filhos da Sra. Ramsay e tão persistentemente evitado pelo Sr. Ramsay. A ênfase contínua em visitar o farol… Ele parece representar uma espécie de objetivo final inatingível. Quando James finalmente chega ao farol depois de anos querendo visitá-lo, ele percebe que ele não se compara ao farol que ele imaginou quando criança. É interessante ver o relacionamento de todos com o farol conforme o romance avança, especialmente na sua seção final.

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Compre o livro na Livraria Bamboletras, na Av. Venâncio Aires, 113. Ah, não mora em Porto Alegre? Use o WhatsApp 51 99255 6885. A gente manda!

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BamboFilmes: todos os filmes apresentados e o próximo

BamboFilmes: todos os filmes apresentados e o próximo

1. Sunset Boulevard (Crepúsculos dos Deuses), de Billy Wilder (1950)
2. As Vinhas da Ira, de John Ford (1940)
3. Pacto Sinistro, de Alfred Hitchcock (1951)
4. Prisão, de Ingmar Bergman (1949)
5. Rebecca, de Alfred Hitchcock (1940)
6. Amarcord, de Federico Fellini (1973)
7. Delírio de Loucura, de Nicholas Ray (1956)
8. O Sétimo Selo, de Ingmar Bergman (1957)
9. O Criado, de Joseph Losey (1963)
10. Vá e Veja, de Elem Klímov (1985)
11. O Espírito da Colmeia, de Victor Erice (1973)
12. A Infância de Ivan, de Andrei Tarkovski (1962)
13. Oito e Meio, de Federico Fellini (1963)
14. Profissão: Repórter, de Michelangelo Antonioni (1975)
15. O Desaparecimento (The Vanishing, Spoorloos), de George Sluizer (1988)
16. Zabriskie Point, de Michelangelo Antonioni (1970)
17. Morte em Veneza, de Luchino Visconti (1971)
18. Inverno de Sangue em Veneza (Don´t Look Now), de Nicolas Roeg (1973)
19. A Conversação, de Francis Ford Coppola (1974)
20. O Desprezo, de Jean-Luc Godard (1963)
21. Expresso para o Inferno, de Andrey Konchalovsky (1985)
22. Dersu Uzala, de Akira Kurosawa (1975)
23. Infiel, de Liv Ullmann (2000)
24. Infâmia (The Children’s Hour), de William Wyler (1961)
25. Morangos Silvestres, de Ingmar Bergman (1957)
26. Stromboli, de Roberto Rossellini (1950)
27. Bom dia, de Yasujiro Ozu (1959)

O próximo será “CABRA MARCADO PARA MORRER” (1984), de Eduardo Coutinho.

📢 LIVRARIA BAMBOLETRAS
📍 Endereço: Av. Venâncio Aires, 113.
⏰ Horário: Segunda a sábado, das 10h às 19h.
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Atrás do balcão da Bamboletras (LXXVIII)

Entram uma mãe com sua filha na Livraria Bamboletras. O sotaque da mãe é inextricável — depois soube que era uma argentina de La Plata que hoje mora em Fortaleza. Complicado, né? Perguntei o nome da menina. Era Érica e tinha 7 anos.

Eu estava ouvindo as Novas Aventuras (Nouvelles Aventures) de György Ligeti e perguntei à menina:

— Érica, isto é música?

Ela respondeu imediatamente:

— Não!

Fiquei rindo de sua resposta e ela seguiu escolhendo seus livrinhos no infantil. Passaram-se 5 minutos e ela deu um grito súbito.

— Moço, é música sim!

Disse pra ela que os cantores não utilizavam palavras como gente normal, mas sim uma linguagem inventada baseada em emoções. Expliquei que o acompanhamento inclui objetos inusitados, como móveis sendo arrastados e sacos de papel estourados. Ela ficou em dúvida.

— Mãe, me ajuda! É música?

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Os 50 maiores livros (uma antologia pessoal): XXXIII — Jane Eyre, de Charlotte Brontë

Os 50 maiores livros (uma antologia pessoal): XXXIII — Jane Eyre, de Charlotte Brontë

Eu li todo Jane Eyre (1847) para minha mulher. Fiquei com um carinho todo especial pelo livro. É um daqueles romances que sobrevivem porque, além de ser uma história apaixonante, é uma conjetura — avaliei muito este termo — sobre a liberdade das mulheres. Jane Eyre é o romance de uma mulher que não quis abrir mão de si mesma. Mesmo pobre, primeiro negou-se a ficar com um homem casado, depois recusou o casamento com um sujeito bem estranho, na verdade um gay que desejava um casamento de conveniência, ao menos eu interpretei assim. Aliás, o hétero e o gay eram ambos bem estranhos.

Vale lembrar que Charlotte Brontë seria um caso atípico em qualquer época. Ela era uma escritora de inteligência e alta percepção estilística. Mas também era uma figura excêntrica: era antiquada — com suas apropriações do terror gótico e seu protagonista byroniano-assustador-sedutor –, porém era excepcionalmente progressista em sua representação da situação das governantas e em sua insistência de que o trabalho de mulheres tinha valor. Era também uma forasteira isolada dos principais circuitos literários ingleses, longe da grande metrópole onde gente como Thackeray e Dickens pontificavam. Ela achava Londres um lugar de perigos e vícios inimagináveis. Quando uma amiga visitou a cidade em 1834, Charlotte chegou a escrever uma carta para ela depois, expressando seu espanto por ela ter retornado “inalterada”.

É reveladora é a relação de Brontë com Thackeray. Ela era perspicaz o suficiente para compreender seu gênio, chegando a dedicar-lhe a segunda edição de Jane Eyre devido à sua profunda admiração por A Feira das Vaidades. Felizmente, ela também era distante o suficiente das fofocas literárias para não saber que Thackeray havia escondido sua esposa em um hospício (o fato de um personagem de Jane Eyre ter feito quase o mesmo foi pura coincidência). Seus encontros também foram marcados por confusão: diz-se que Charlotte ficou inicialmente estupefata ao conhecer seu ídolo — e confusa quando ele começou a falar sobre o aroma de charutos, sem perceber que ele estava fazendo uma referência lisonjeira à cena de um capítulo de Jane Eyre em que o cheiro do charuto do Sr. Rochester deixa Jane encantada. Charlotte pareceu não entender…

Mal-entendidos semelhantes ocorreram quando ele organizou uma festa em homenagem a Brontë, em 1849. O problema desta vez foi que ela se recusou a reconhecer que era Currer Bell (o pseudônimo que usara na publicação inicial de Jane Eyre) e só dava respostas curtas e ríspidas. Thackeray ficou puto e acabou saindo de sua própria festa para ir ao clube. Very english.

Quando Jane Eyre foi publicado, sob o pseudônimo masculino de Currer Bell, muitos leitores ficaram impressionados com a intensidade daquela voz narrativa em primeira pessoa. Havia ali uma mulher pobre, órfã e considerada feia que ousava afirmar, com absoluta convicção, sua igualdade diante dos homens. Entre os muitos talentos de Brontë, está a capacidade de nos fazer sentir como se estivéssemos vendo o mundo exatamente como sua narradora o vê. Há a maneira acolhedora como ela nos envolve na história com esse discurso direto a “você”, ao “leitor”, a quem ela convida constantemente a ver o que ela vê. Imaginamos “a luz de uma lamparina a óleo pendurada no teto”, esforçando-nos para ver exatamente a mesma cena sob a mesma luz bruxuleante que Jane. Mas não é apenas o que Jane vê que importa: Brontë também nos leva para o fundo de sua mente e, aparentemente, de sua alma. Mesmo quando ela diz: “Caro leitor, talvez você nunca sinta o que eu senti!”.

Às vezes, Jane Eyre parece um romance gótico. Há a infância quase sob tortura, a mansão isolada, o patrão enigmático, os corredores escuros, os segredos do andar de cima e uma atmosfera de permanente expectativa. Mas Charlotte Brontë utiliza todos esses elementos apenas como cenário. O verdadeiro mistério do romance é o de como preservar a própria dignidade num mundo que tenta, a todo momento, dizer como você deve agir e pensar.

Para mim, a melhor parte da história é o começo, quando Jane está na Escola Lowood, definindo-se como pessoa. O livro poderia ter terminado ali, mas então Jane foi morar com o estranho Rochester a fim de ensinar sua filha. Jane atravessa a infância de forma bem dickensiana, marcada pela humilhação e a severidade da escola. Depois vem o amor por Rochester e as imposições de St. John Rivers. Em cada etapa, ela poderia escolher um caminho mais fácil: submeter-se, aceitando a dependência e os “deveres”. Ela se recusa, mas não é uma rebelde, é apenas íntegra. Jane ama profundamente, porém nunca aceita que o amor custe sua liberdade.

É justamente essa tensão que faz de Rochester e St. John figuras complementares. Rochester representa a paixão hétero que ignora os limites da moral. St. John representa a moral torta que sufoca qualquer possibilidade de paixão. Jane rejeita ambos. Ela busca uma vida em que amor, respeito e autonomia possam coexistir.

Mas Jane Eyre também é um extraordinário romance psicológico. Charlotte Brontë escreve como se acompanhasse o movimento mais íntimo da consciência. Muito antes de Virginia Woolf, ela compreendia que os acontecimentos decisivos da vida não ocorrem apenas no mundo exterior, mas na lenta transformação interior das pessoas. Ao mesmo tempo, o livro é um retrato mordaz da sociedade inglesa vitoriana. A condição feminina, as diferenças de classe, a educação, a religião e a hipocrisia moral aparecem constantemente, mas nunca transformam o romance em panfleto. Charlotte Brontë discute essas questões através de personagens vivos e contraditórios.

E há as perguntas, inúmeras, que nos fazemos durante a leitura. O ponto mais óbvio é a religião. É difícil para nós avaliarmos a sinceridade de Jane em relação à sua fé cristã, particularmente sua atitude em relação ao zelo missionário de seu primo St. John. Será que ainda existe nela a orgulhosa “pagã” e rebelde que ela declara ser nas primeiras páginas? Ela diz uma coisa e quer dizer outra quando professa seu desejo de se submeter aos ideais cristãos? Seu amor inabalável por Rochester é algo que ela mantém apesar (e em oposição) aos ensinamentos da Igreja sobre o casamento — ou existe um conjunto mais complexo de conflitos internos em jogo? O mesquinho e religioso St. John expressa a verdade profunda sobre os homens de fé? Ou ele é simplesmente uma maçã podre? É possível para nós, que tivemos a sorte de crescer em uma sociedade predominantemente secular, sentir a profunda fé que influencia Jane?

Talvez seja essa a razão da permanência do livro. Poucos romances conseguem unir, com tamanha naturalidade, suspense, paixão, crítica social e reflexão moral. Quase dois séculos depois, Jane segue falando a nós porque a busca de uma vida em que seja possível amar sem deixar de ser quem se é universal.

Há um aspecto que me emocionou especialmente nesse romance. Diferentemente de tantas heroínas do século XIX, Jane não vence porque é bela, rica ou socialmente privilegiada. Ela vence porque possui algo muito mais raro: uma consciência independente. Charlotte Brontë parece nos dizer que a verdadeira nobreza não vem do nascimento nem da fortuna, mas da capacidade de permanecer fiel a si mesmo mesmo quando isso exige renúncia. Talvez seja essa a razão de Jane Eyre continuar tão moderno.

Charlotte com filtro, certamente

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Marcos Abreu

Marcos Abreu

Generoso. Este é o adjetivo que melhor serve a Marcos Abreu, pessoa que trazia em si muitíssimas outras qualidades além da generosidade. O mesmo cara que, a pedido de gravadoras estaduninenses, recuperava o som do piano tocado por Rachmaninov na segunda década do século XX e do clarinete de Benny Goodman de alguns anos depois, assim como gravações de Noel Rosa e Aracy de Almeida, o mesmo cara que projetava a acústica de tantos teatros — fez um milagre na casa da Ospa — e descobria soluções para tantas salas por todo o país, preocupava-se em que a Elena comprasse as melhores caixas de som e chegava à Livraria Bamboletras para dizer que um cabo devia ser trocado — isso logo ao entrar aqui.

Masterizou milhares de CDs, ia a todos os Concertos possíveis, era um baita papo, estava sempre alegre, era gregário, gostava muito de festas e de pessoas, detestava restaurantes com som ambiente — era capaz de ir embora se estava muito alto –, apresentou-nos a aprazível Salvador do Sul, conhecia música como poucos, gostava de comer queijo Brie com geleia de pêssego dos DOCES Crochemore e era amigo, amigo, amigo de todo mundo. Ignoro sua idade, mas devia ter uns anos a menos do que eu. Bah, Marcos Abreu, que merda tu teres nos deixado assim de repente. Foi um choque difícil de suportar, cara.

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Sobre Jane Eyre, de Charlotte Brontë

Sobre Jane Eyre, de Charlotte Brontë

Cada época relê seus clássicos à sua maneira. Estou finalizando a leitura do tremendo romance Jane Eyre e, na minha opinião, St. John Rivers é claramente gay. Isso não interessa? Ah, interessa, sim. Leia o romence! Ele é um gay muito religioso e chato, chato, chato. Acho que, sem poder dizê-lo, Charlotte Brontë faz enorme esforço para exprimir que ele não quer nada com Jane por ser gay, não por ser um ato pecaminoso — claro, o livro é de 1847 e foi originalmente publicado sob o pseudônimo masculino de Currer Bell. Na Inglaterra vitoriana não havia gays (…) e, mais, havia um forte preconceito contra mulheres escritoras, sobretudo quando escreviam obras de grande ambição intelectual ou que abordavam temas considerados impróprios, como desejo feminino, independência ou crítica social. O melhor romance inglês de todos os tempos — Middlemarch — foi escrito por George Eliot, na verdade Mary Ann Evans.

St. John só mostra como Charlotte foi genial. Há muita sexualidade no romance. Vejamos: eJane Eyre, Charlotte Brontë cria dois pólos opostos de masculinidade que cortejam a heroína: de um lado, o fogoso e apaixonado Sr. Rochester; de outro, o frio, austero e devoto St. John Rivers. Enquanto Rochester representa o desejo e a paixão avassaladora, St. John simboliza o dever, a razão e a completa negação do afeto. É exatamente essa repressão extrema que leva muitos leitores a questionar a verdadeira natureza da sexualidade do clérigo. Jane diz que abraçá-lo é como abraçar mármore. Ele tem um profundo incômodo em relação às mulheres. Ele não demonstra qualquer interesse romântico ou atração genuína por Jane, deixando claro que seu pedido de casamento é um ato de dever, não de amor. Para ele, Jane não é uma parceira desejada, mas uma ferramenta útil para seu trabalho missionário. Sua rigidez e frieza são tão marcantes que chegam a ser descritas como uma forma de “insanidade” — uma insanidade fria e controlada que contrasta com a paixão avassaladora de Rochester. A insistência de St. John para que Jane se case com ele e o acompanhe à Índia é vista por alguns não como um ato de amor, mas como uma forma de “predação sexual”, onde ele não deseja seu corpo, mas busca controlar e possuir sua alma. 

A interpretação mais recorrente é que St. John Rivers é um homem que reprime seus próprios desejos, possivelmente homossexuais, ao ponto de se tornar uma figura assexuada. Ele canaliza toda a sua energia para a religião e o trabalho missionário como uma fuga das tentações “pecaminosas” que ele teme e odeia. Essa leitura o transforma em um espelho invertido de Jane: ele representa o caminho que ela poderia ter seguido caso tivesse se fechado completamente para a vida e para o amor, sufocando sua própria natureza apaixonada. A rejeição de Jane a seu pedido de casamento é, sob essa ótica, uma rejeição não apenas de uma vida sem amor, mas também de uma existência marcada pela repressão sexual e espiritual.

Harold Bloom, por exemplo, citou a “ambiguidade do personagem de St. John Rivers”. O próprio nome do personagem, “St. John”, carrega um peso religioso que sugere abstração e frieza sexual, mas sua descrição física é paradoxalmente sexy — rosto grego, nariz clássico, boca ateniense — que contrasta com sua personalidade gelada, criando uma figura de atraente, mas distorcida em algo perigoso e prejudicial, na visão da autora.

Penso que a discussão sobre a sexualidade de St. John Rivers é uma discussão sobre os limites da repressão vitoriana. Mais do que uma afirmação categórica, a teoria de que o personagem é gay serve como uma ferramenta para explorar as profundezas da psiquê do personagem, revelando um homem cuja devoção a Deus e ao dever pode ser, na verdade, uma fuga desesperada de sua própria humanidade.

Um leitor vitoriano enxergava nele um asceta protestante, leitor freudiano veria nele um homem reprimido, um leitor contemporâneo pode identificar traços que remetem à homossexualidade ou à dissociação oculta entre desejo e vocação. Essas interpretações dizem menos de St. John quanto sobre as mudanças nas formas de compreender a sexualidade. Claro, não vou “resolver” a identidade de St. John, estou mais interessado em mostrar como um personagem de 1847 pode seguir provocando novas leituras quase dois séculos depois.

Para finalizar, o texto de Jane Eyre é muito ambíguo. Quando Rosamond Oliver sente-se atraída por St. John, este parece muito mais incomodado por ser objeto de desejo do que por perder Rosamond. Essa diferença é sutil, mas importante. Em Rochester, o super-hétero, o desejo é explosivo e incontido. Em St. John, o desejo parece sempre uma obrigação. Jane não sente que ele a ama, descrevendo esse amor de uma maneira extraordinariamente gelada. É justamente aí que entra a leitura queer. E se Jane estiver interpretando mal? E se St. John nunca tivesse amado Rosamond da maneira convencional? E se sua “luta” fosse de outra natureza?

Bah, que romance genial!

Óbvio que a Livraria Bamboletras tem o livro.

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Sonhando com o Pequenas Grandes Obras (PGO)

Hoje acordei pensando/ainda sonhando na Livraria Bamboletras, seu grupos de leitura e no tipo de mediação que costumo fazer com livros que:

  1. tenham até 250 páginas,
  2. sejam notáveis do ponto de vista literário ,
  3. gerem discussão, não apenas admiração.

Aqui vai uma seleção pensada na cama, ao acordar hoje, ainda com vontade de mijar:

Literatura brasileira

  • A Hora da Estrela (90 p.)
    • Uma leitura inesgotável. Linguagem, pobreza, metaficção, compaixão.
  • São Bernardo (190 p.)
    • Um dos maiores narradores em primeira pessoa da literatura brasileira.
  • O Alienista (80 p.)
    • Sempre atual. Humor, ciência, poder e loucura.
  • Campo Geral (160 p.)
    • Mais acessível que Grande Sertão e de enorme beleza.
  • Lavoura Arcaica (190 p.)
    • Exige mais do leitor, mas deve provocar um belo encontro.
  • Uma vida em segredo
    • Lindo livro de Autran Dourado, mas fora de catálogo.

Literatura inglesa

  • A Volta do Parafuso (150 p.)
    • Fantasmas? Loucura? Excelente debate.
  • O Estranho Caso do Dr. Jekyll e Mr. Hyde (100 p.)
    • Muito mais complexo do que a fama sugere.
  • Mrs. Dalloway (240 p.)
    • Claro.

Literatura francesa

  • A Queda (150 p.)
    • Perfeito para discussão filosófica.
  • O Baile (90 p.)
    • Cruel, elegante e irresistível.

Literatura russa

  • A morte de Ivan Illich (120 p.)
    • Existe novelinha melhor?
  • Memórias do Subsolo (170 p.)
    • Provoca discussões intensas.
  • Primeiro Amor (120 p.)
    • Delicadeza psicológica extraordinária, mas este já foi, animal.
  • A Sonata a Kreutzer (140 p.)
    • Casamento, ciúme, moralidade.

Literatura latino-americana

  • Aura (70 p.)
    • Estranhíssimo e belíssimo.
  • Pedro Páramo (130 p.)
    • Baita livro mexicano. Influenciou García Márquez.
  • O Túnel (170 p.)
    • Suspense psicológico.
  • Crônica de uma Morte Anunciada (120 p.)
    • Talvez o melhor livro para um clube de leitura.

Literatura japonesa

  • A Casa das Belas Adormecidas (130 p.)
    • Desconcertante, mas já foi em abril, debilóide.
  • A Chave (160 p.)
    • Ótimo debate

Literatura alemã

  • Michael Kohlhaas (130 p.)
    • Justiça, vingança e fanatismo.
  • A Metamorfose (80 p.)
    • Nunca decepciona.

Literatura estadunidense

  • Ratos e homens (160 p.)
    • Um Steinbeck tão bom quanto o de “A Vinhas da Ira”.

Meus campeões para a Bamboletras…

  1. A Morte de Ivan Ilitch
  2. Crônica de uma Morte Anunciada
  3. São Bernardo
  4. A Queda
  5. Campo Geral
  6. A Metamorfose
  7. Pedro Páramo
  8. Primeiro Amor (já foi)
  9. A Hora da Estrela
  10. Michael Kohlhaas

Como costumo escolher livros que mudam a ideia do que um romance pode ser: Ao Farol, Vidas Secas, Mata Doce. Acho que valeria a pena manter essa linha e montar um ciclo chamado “Romances que reinventaram a coisa”. Então, além dos citados:

  • A Morte de Ivan Ilitch
  • Pedro Páramo
  • A Hora da Estrela
  • A Queda
  • São Bernardo

Seria um percurso extraordinário: cinco livros relativamente curtos, muito diferentes entre si, mas todos decisivos para a história do romance. Acho que esse ciclo teria muito a ver com a identidade que estamos construindo.

Sim, mediar Ao Farol é loucura. Será terrível mediar um livro quase sem enredo. Se der certo, eu apostaria, sem medo, em Pedro Páramo. É curto, profundamente inovador e costuma provocar discussão. Como Ao Farol, parece confundir o leitor nas primeiras páginas, mas depois revelam uma arquitetura impressionante. Acho que teria tudo a ver com o perfil criado.

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Enquanto isso, na Europa (e no mundo inteiro).

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Sobre “Ao Farol”, de Virginia Woolf

Sobre “Ao Farol”, de Virginia Woolf

A mãe de Virginia Woolf, Julia Stephen (1846-1895) era considerada uma das mulheres mais belas da Inglaterra. Ela casou duas vezes, tendo 3 filhos do primeiro casamento e 4 com Leslie Stephen. Virginia, em solteira, era Stephen. Deste modo, Virginia teve 7 irmãos no total: 3 por parte de seus pai e mãe (os Stephen) e 4 meios-irmãos (dos primeiros casamentos dos pais, pois Leslie teve uma filha de seu primeiro casamento).

Julia morreu quando Virginia tinha 13 anos. Virginia era obcecada pela mãe e criou seu retrato perfeito em Ao Farol. Uma de suas irmãs, Vanessa, dizia que sentia a presença de Julia enquanto lia o romance. Virginia escreveu que não lembrava de ter ficado alguma vez sozinha com a mãe, tantos eram os irmãos e as pessoas que circulavam pela casa. Julia serviu de modelo a fotógrafos e aos pré-rafaelitas ingleses. Acho que nosso gosto mudou, mas Ao Farol é um dos maiores romances de todos os tempos, sem dúvida. Que livro!

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Uma digna despedida

Anteontem, fui à despedida do pai do Francisco Marshall no Cemitério de São Miguel e Almas. Eu detesto cerimônias onde sabemos que o morto nunca foi à igreja, mas no final trata de encomendar sua alma. Esta não foi assim, foi de total elegância. Ninguém falou em deus, em vida eterna, em outro plano ou que ele tinha virado estrela. O Chico fez um elogio comovido a seu pai, depois foi mostrado o vídeo de uma neta que vive na Europa, outro filho — o Sr. Paulo teve 5 –, também mandou o seu vídeo desde a Nova Zelândia, uma neta falou em público e foi tudo bem bonito e emocionante. Foi uma despedida digna onde muita gente chorou, é claro. Além dos vídeos, durante os discursos foram apresentadas fotos de Paulo com a família.

Aprendam, Barbara Jardim Ribeiro, Bernardo Jardim Ribeiro e Elena Romanov. Sei que não mando em nada, sei que vocês farão o que der na telha, mas queria algo assim quando for minha vez. Afinal, vocês sabem o quanto sou religioso. Não façam eu me revirar!

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Stromboli foi ontem, agora vem Bom dia

Stromboli foi ontem, agora vem Bom dia

Se tu não vieste ontem ver Stromboli ontem, aqui na Livraria Bamboletras, deves rever teus conceitos. Com urgência, seu burro.

Eu tinha visto Stromboli pela primeira vez num avião. Fiquei muito impressionado com o realismo das cenas e imagens, com os atores não profissionais contracenando com a deusa Ingrid Bergman. Aliás, este é um capítulo especial. Rossellini escreveu o filme para ela após receber esta carta:

Prezado Sr. Rossellini:

Assisti aos seus dois filmes, Roma, Cidade Aberta e Paisán, dos quais gostei muito. Se o senhor precisar de uma atriz sueca que fale inglês fluentemente, que não tenha esquecido seu alemão, que seja quase incompreensível em francês e cujo único italiano seja “Ti amo”, estou pronta para ir fazer um filme com o senhor.

Ingrid Bergman

Ora, Ingrid Bergman era a maior atriz de sua época. Porém, costumava rejeitar as normas convencionais: não queria ser apenas a temida mulher fatal, nem queria continuar interpretando a boa camponesa. E virou as costas para a grana de Hollywood a fim de mudar de vida e percorrer um caminho novo e ousado na Itália, longe do puritanismo e da censura contra os quais sempre lutou na era de ouro do cinema americano. Para completar, logo ficou grávida de Rossellini e recebeu ofensas até no Senado estadunidense. Seria um mau exemplo para um país tão… puro.

E hoje temos Stromboli, cujo nome parece realmente um trovão como os do vulcão que dá nome à ilha. Rossellini filma uma mulher cercada por mar, pedra, fogo e por uma cultura incompreensível a ela. Poucos filmes mostraram com tanta intensidade o choque entre a liberdade sonhada e a liberdade realmente possível. Como fazem alguns mestres, Rossellini substituiu os grandes acontecimentos por uma sucessão de experiências concretas e, desse material aparentemente simples, faz surgir questões universais.

Quem veio ver o filme ontem saiu tri feliz porque a coisa é um portento de humanidade e beleza plástica.

~ BamboFilmes: todos os filmes apresentados e o próximo.

1. Sunset Boulevard (Crepúsculos dos Deuses), de Billy Wilder (1950)
2. As Vinhas da Ira, de John Ford (1940)
3. Pacto Sinistro, de Alfred Hitchcock (1951)
4. Prisão, de Ingmar Bergman (1949)
5. Rebecca, de Alfred Hitchcock (1940)
6. Amarcord, de Federico Fellini (1973)
7. Delírio de Loucura, de Nicholas Ray (1956)
8. O Sétimo Selo, de Ingmar Bergman (1957)
9. O Criado, de Joseph Losey (1963)
10. Vá e Veja, de Elem Klímov (1985)
11. O Espírito da Colmeia, de Victor Erice (1973)
12. A Infância de Ivan, de Andrei Tarkovski (1962)
13. Oito e Meio, de Federico Fellini (1963)
14. Profissão: Repórter, de Michelangelo Antonioni (1975)
15. O Desaparecimento (The Vanishing, Spoorloos), de George Sluizer (1988)
16. Zabriskie Point, de Michelangelo Antonioni (1970)
17. Morte em Veneza, de Luchino Visconti (1971)
18. Inverno de Sangue em Veneza (Don´t Look Now), de Nicolas Roeg (1973)
19. A Conversação, de Francis Ford Coppola (1974)
20. O Desprezo, de Jean-Luc Godard (1963)
21. Expresso para o Inferno, de Andrey Konchalovsky (1985)
22. Dersu Uzala, de Akira Kurosawa (1975)
23. Infiel, de Liv Ullmann (2000)
24. Infâmia (The Children’s Hour), de William Wyler (1961)
25. Morangos Silvestres, de Ingmar Bergman (1957)
26. Stromboli, de Roberto Rossellini (1950)

E, na próxima segunda-feira (29), às 19h30, na Livraria Bamboletras, teremos “Bom dia” (1959), de Yasujiro Ozu.

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Bloomsday 2026

Bloomsday 2026

No último sábado, tive uma tarde muito especial no Instituto Ling, dedicada a dois gigantes da literatura do século XX: James Joyce e Guimarães Rosa.

Minha função foi apenas conduzir a conversa. A riqueza veio dos participantes da mesa: Donaldo Schüller, Kathrin Rosenfield e Sergius Gonzaga. Discutimos linguagem, música, sertão, Dublin, Riobaldo, Leopold Bloom, sexualidade, metafísica e tudo o mais que foi surgindo.

Agradeço ao Instituto Ling pelo risco corrido ao me convidar e aos debatedores por sua sensibilidade, generosidade e inteligência. E também aos músicos e ao público, pela escuta atenta e pela disposição de nos acompanhar por caminhos inesperados.

Há encontros que ocupam uma tarde. Outros ocupam uma tarde e seguem reverberando por dias. Este foi um deles.

Saí de lá novamente convencido de que os mistérios da criação literária são um daqueles privilégios que justificam a nossa passagem por este mundo.

P.S. — A foto “diferente” é do autógrafo do Prof. Donaldo em seu livro sobre Joyce.

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Atrás do balcão da Bamboletras (LXXVII)

Um querido amigo da Ospa contou esta história para a Elena.

No mês passado, a orquestra tocou as Danças Sinfônicas de West Side Story, de Leonard Bernstein. Um dos movimentos é o Mambo e, em determinado momento, todos os músicos gritam:

— Mambô! — assim mesmo, como se fosse uma palavra oxítona.

Porém o Diego Grendene de Souza jura que gritava:

— Bambô!

Acho que esta é uma bela defesa das pequenas livrarias de rua. A propósito, compre livros em livrarias, é muito mais civilizado.

Assinado: Pai Milton da Bambô.

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Momento vaidade

O jornalista Cléber Lourenço está se ufanando de ter sido bloqueado pelo Mário Frias no WhatsApp. É um elogio e um galardão. Concordo. Só que eu fui processado pela Mônica Leal. Também seria um elogio e um galardão, não?

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Roteirão para um Bloomsday que analisa Ulysses x Grande Sertão: Veredas

Boa tarde a todas e a todos.

Há comparações literárias que parecem artificiais e há outras que, de tão sugestivas, acabam se impondo. James Joyce e Guimarães Rosa pertencem a mundos muito diferentes: um escreveu sobre Dublin, o outro sobre o sertão; um em inglês, o outro em português; um nasceu na Irlanda, o outro em Minas Gerais. (Aliás, Rosa nasceu em 1908 — enquanto Machado de Assis morria, ele nascia). Porém, voltando a nosso tema, leitores atentos têm frequentemente a sensação de que eles estão dialogando de alguma forma.

Ambos reinventaram a língua. Ambos seguiram a lição de Tolstói: “Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia”. Transformaram territórios locais em universos humanos.

Mas até que ponto essa aproximação é legítima? O que eles realmente têm em comum? E onde terminam as semelhanças e começam as diferenças?

Ah, tenho que apresentar a banda, a cervejaria, o escambau?

Eu sou Milton Ribeiro, livreiro, escritor e jornalista. Como jornalista, preparei várias perguntas para torturar nosso trio convidado.

Abertura: a comparação faz sentido?

  1. James Joyce e Guimarães Rosa tem realmente pontos em comum ou isto é apenas um clichê crítico?
  2. O que se ganha — e o que se perde — ao chamar GR de “Joyce brasileiro”?
  3. Se tivéssemos que apresentar GR a um leitor de Joyce, o que diríamos? E o contrário, apresentando Joyce a um leitor de GR?

A língua como invenção

  1. Em que medida Joyce e Rosa ampliaram os limites de suas respectivas línguas?
  2. Há uma diferença essencial entre os neologismos de Joyce e os de Rosa?
  3. Os dois reinventam a língua pelo mesmo motivo?
  4. O que acontece com a experiência do leitor quando a linguagem deixa de ser transparente — mero meio de referir-se a algo — e passa a chamar atenção para si mesma?
  5. Joyce e Rosa tornam a leitura mais difícil ou mais rica?
  6. É possível traduzir adequadamente escritores que reinventam a própria língua?

Universalizar o local

  1. Como Dublin e o sertão conseguem se tornar universais?
  2. Por que escritores tão profundamente regionais acabam alcançando leitores do mundo inteiro?
  3. O sertão de Rosa desempenha papel semelhante ao de Dublin em Joyce?
  4. Onde nasce a universalidade de ambos?
  5. Há algo especificamente irlandês e especificamente brasileiro que se perde quando falamos do aspecto universal dessas obras?

A erudição ocultya sob a oralidade

  1. Como explicar a convivência entre alta erudição e fala popular nos dois autores?
  2. Até que ponto o leitor precisa conhecer as referências culturais para apreciar suas obras?
  3. Como GR e Joyce usam sua erudição? Como a transformam em matéria narrativa?
  4. A oralidade funciona como máscara para uma construção extremamente sofisticada?
  5. O que aproxima um narrador sertanejo de Rosa de um narrador popular de Joyce?
  6. Quem é o interlocutor de Riobaldo? O próprio Rosa? Uma pessoa urbana e instruída? Um juiz? O leitor?

Os heróis errantes (ou anti-heróis)

  1. O que aproxima Riobaldo e Leopold Bloom?
  2. Podemos chamá-los de heróis ou já pertencem a uma tradição antiheroica?
  3. Em ambos os casos, a viagem é mais interior do que exterior?
  4. Como Joyce e Rosa transformam experiências aparentemente comuns em epopeias?
  5. Em que sentido Bloom e Riobaldo representam o homem moderno?

A ambição de reinventar o romance

  1. Joyce e Rosa mudaram o romance ou apenas levaram tendências já existentes ao limite?
  2. O que havia de radicalmente novo em Ulysses e em Grande Sertão: Veredas?
  3. Quais escritores contemporâneos ainda dialogam com essas experiências?
  4. A ambição formal desses autores aproximou ou afastou (assustou) leitores?

A musicalidade

  1. Como a música opera na prosa de Joyce e Rosa?
  2. A musicalidade é apenas uma questão de sonoridade ou também de estrutura?
  3. Há passagens que deveriam ser lidas em voz alta para serem plenamente apreciadas? (Quando comecei a ler Rosa, senti necessidade de falar o que lia).
  4. Que papel desempenham ritmo, repetição e variação em suas obras?
  5. É possível aproximar certas páginas de Rosa e Joyce de formas musicais específicas?
  6. O ouvido do escritor é tão importante quanto sua imaginação verbal?

Dizendo o indizível

  1. Que experiências humanas os dois tentam expressar que parecem escapar à linguagem comum? Que seriam impossíveis de dizer usando formar convencionais.
  2. O mistério ocupa lugar semelhante em Joyce e Rosa?
  3. Em que medida ambos são escritores metafísicos?
  4. O que significa afirmar que certos trechos de Joyce e Rosa devem ser sentidos antes de serem compreendidos?

Perguntas finais

  1. Se Joyce pudesse ler Grande Sertão: Veredas, o que provavelmente reconheceria como familiar?
  2. Se Rosa pudesse comentar Ulysses, o que mais o impressionaria?
  3. Qual é a maior diferença entre os dois autores?
  4. Afinal, o que explica que dois escritores separados por oceanos, línguas e culturas tenham produzido obras que parecem conversar tão intensamente?
  5. Talvez que a melhor pergunta seja esta:

Joyce e Rosa reinventaram a língua porque eram gênios da linguagem ou porque havia certas experiências humanas que só poderiam ser alcançadas mediante a reinvenção da língua?”

Ela atravessa praticamente todos os temas e tende a gerar respostas muito diferentes, acho eu.

Coisas que lembrei agora (para pesquisar)

— GR leu Ulysses? Sabe-se o que ele pensava sobre Joyce?

— O metafísico em Rosa vem através da tentativa de Riobaldo de descobrir se o diabo existe, o que foi Diadorim e quem ele próprio se tornou. Existe o diabo?

O que é o bem? O que é o amor?

— Joyce pega um homem comum comprando rins para o café da manhã, andando pelas ruas, indo a um enterro, pensando na esposa, e o transforma num equivalente moderno de Ulysses. O romance sugere que o épico não desapareceu; ele está escondido dentro da vida comum. O que é uma consciência humana? O que significa existir dentro do tempo?

Riobaldo olha para o cosmos e pergunta pelo mistério.

Bloom olha para uma barra de sabão, para um anúncio de jornal, para um enterro, para uma lembrança qualquer — e Joyce sugere que o mistério está ali também.

Talvez por isso Rosa pareça um metafísico do sertão, enquanto Joyce é um metafísico do cotidiano.

Ai, que saco, pra que complicar, Milton?

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Nelsons na 5ª de Mahler

Nelsons na 5ª de Mahler

A versão de Andris Nelsons que inaugura seu ciclo das gravações das Sinfonias de Mahler com a Filarmônica de Viena é muito digna de nota. É uma abordagem recomendada para ouvintes que valorizam interpretações ousadas, intelectualmente elaboradas e tecnicamente impecáveis — mesmo que isso venha às custas de um certo calor visceral. Não é recomendada para puristas que desejam uma Quinta Sinfonia tradicional, com um Adagietto romântico e uma narrativa dramática mais linear. Mahler linear? Ficaram loucos? A Quinta Sinfonia de Mahler é uma das obras mais monumentais e difíceis do repertório sinfônico — uma jornada de quase 80 minutos que parte da escuridão de uma marcha fúnebre e avança, através de tormentas e danças, rumo a um finale radiante. O problema é que Mahler não facilita: cada intérprete precisa decidir como contar essa história.

A sinfonia abre com a famosa fanfarra do trompete solo — um chamado que anuncia a Trauermarsch (marcha fúnebre). Nelsons conduz este movimento insistindo na solenidade do ritual fúnebre, sem pressa. O segundo movimento é uma explosão de fúria que contrasta com a marcha inicial. Aqui, Nelsons demonstra domínio da orquestração mahleriana — os metais soam poderosos e o diálogo entre seções é cuidadosamente esculpido. Uma joia. O terceiro movimento, um Scherzo vienense gigantesco para orquestra (com destaque para as trompas), é frequentemente um ponto polêmico. Mahler exige uma Viena dançante e vertiginosa — mas também um senso de estrutura para sustentar mais de quinze minutos de música. Nelsons inicia com leveza e alegria de viver, mas acho que essa energia se dissipa ao longo do movimento. Ou não? O famoso Adagietto para cordas e harpa é, para muitos, a alma da sinfonia — uma declaração de amor a Alma Mahler. Nelsons, porém, recusa uma leitura romântica. Ele o apresenta não como uma canção de amor, porém mais como uma tranquila meditação. Seu tempo é lento (cerca de dez minutos) e o tom é profundo e comovente, realçando a fragilidade e a introspecção. O Rondo-Finale é uma explosão de energia, com citações de temas anteriores que precisam soar como uma espécie de vitória. Nelsons conduz este movimento com “alegria e vivacidade”, e os últimos acordes são retumbantes.

Como considero Mahler um romântico tardio, herdeiro da tradição germânica, expressão extrema e obsessão pelos temas da morte e da transcendência, talvez Nelsons seja meio traidor, mas acho que não muito. Está tudo lá, só que sem derramamentos desnecessários.

P.S. — Para mim, esta sinfonia está muito associada ao covid. Em fevereiro de 2020, em nossa última viagem internacional, eu e Elena estávamos em Roma e vimos o último concerto na Academia Nacional de Santa Cecília antes de fechar em razão da pandemia. O grande Daniele Gatti foi o regente (regeu de cor). As primeiras máscaras já apareciam. Quando chegamos em Porto Alegre, ninguém usava ainda.

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Do conhecimento

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E têm colorados que dizem que nunca usamos meias cinzas. Eu achava bonito.

E têm colorados que dizem que nunca usamos meias cinzas. Eu achava bonito.
Gainete, Sadi, Scala, Luiz Carlos e Laurício

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