Pianistas 1

Pianistas 1

Certa vez, estava em Londres com minha filha Barbara. Eu amo a cidade, mas infelizmente talvez jamais volte pra lá. Evitemos os assuntos monetários, eles me fazem mal.

Pois estávamos em Londres e fomos a um recital de piano de um sujeito de cujo nome não lembro, mas que, se estava no Wigmore Hall à noite, tinha que ser MUITO BOM. Ele tocou Bartók, Beethoven e Schubert. Foi lindo. Daqueles recitais pra gente sair da sala eufórico.

Ao final, o público pedia um bis. Ele pediu para falar e disse algo assim:

— Amigos, hoje cedo, de madrugada, eu ainda estava em Moscou. Vim às pressas tocar para vocês em razão da doença do pianista X., como vocês sabem (eu não sabia nem de doença, nem que ele era o substituto de alguém). Estou bem cansado, porém vou dar o bis. Só que desta vez vou tocar a música que costumo tocar quase todos os dias antes de dormir e que não é um erudito. É algo para relaxar. Vou tocar Peace Piece, de Bill Evans. Não durmam, por favor.

Depois das risadas… Olha, o que o cara fez de Peace Piece foi de arrepiar até o dedão do pé. Durante a execução, eu estava até com medo de respirar, se me entendem. Não queria e não podia atrapalhar, seria um crime.

.oOo.

E a história de Peace Piece, de Bill Evans, é particularmente bonita porque a peça nasceu por acaso, durante uma sessão de gravação.

Evans estava trabalhando, em 1958, na trilha do filme Some Came Running, de Vincent Minnelli. O diretor queria uma versão de “Some Other Time”, de Leonard Bernstein. Evans começou a tocar no piano uma figura repetitiva, muito simples, com a mão esquerda: dois acordes que se alternavam continuamente. Sobre esse ostinato, começou a improvisar livremente com a mão direita. O que deveria ser apenas uma introdução acabou se transformando em outra coisa. O produtor percebeu o que estava acontecendo e tacou o dedo no botão de “Gravar”. Evans continuou improvisando — e nasceu Peace Piece.

O aspecto extraordinário está justamente na maneira como ela é construída. A mão esquerda repete obsessivamente um padrão de dois acordes, quase como um ground barroco, enquanto a mão direita parece flutuar sem nenhuma pressa, inventando melodias que não chegam a uma conclusão. Há pouquíssimo movimento, mas enorme quantidade de movimento interior. Evans consegue fazer com que pequenas alterações de intensidade, duração e articulação produzam a sensação de que a música está sempre mudando.

E há outra curiosidade deliciosa: Evans afirmou posteriormente que não planejou nem compôs propriamente “Peace Piece”. Para ele, a mão direita era uma improvisação que simplesmente aconteceu naquele momento. Por isso a gravação original, de 1958, tem uma qualidade tão particular: ouvimos um pianista descobrindo a música enquanto a toca.

Talvez seja essa a razão de Peace Piece continuar soando tão moderna. Ela está entre o jazz, a música de concerto e uma espécie de meditação — e antecipa, em certa medida, procedimentos que seriam explorados muito mais tarde pela música minimalista e pela improvisação contemplativa. É uma música de uma simplicidade enganadora: quanto menos Evans faz, mais profundamente somos obrigados a escutar. E o pianista de Londres, após maravilhosas peças escritas, nos fez levitar com aquela música não composta.

(Para Augusto Maurer, Francisco Marshall, José Beltrame Cusco, Norberto Flach e Rodrigo Nassif).

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Uma Ressurreição

Uma Ressurreição

Neste final de semana (sábado e domingo, às 17h) a Ospa apresentará uma extraordinária sinfonia que não tocava desde 2003. Um Concerto com a Sinfonia nº 2, “Ressurreição”, de Gustav Mahler, é algo para não se perder. Jamais. É uma obra que começa praticamente diante da morte — o primeiro movimento tem como ponto de partida o funeral de um herói — e vai ampliando progressivamente seu horizonte até chegar à ideia de ressurreição. Mahler transforma a sinfonia em algo maior do que uma composição puramente instrumental: uma espécie de percurso metafísico, no qual silêncio, angústia, memória e esperança vão encontrando seu lugar.

A música é monumental, mas sua grandeza não está simplesmente no tamanho da orquestra ou na duração. Está na capacidade de Mahler de fazer coexistirem, dentro da mesma obra, o sublime e o cotidiano, o solene e o grotesco, a delicadeza quase camerística e as forças descomunais da orquestra — são 200 músicos. Há momentos em que parece que estamos ouvindo a história inteira da música — Beethoven, Wagner, Schubert, a canção popular — sendo lembrada, transformada e, por que não?, ironizada. E há uma característica profundamente mahleriana: quando acreditamos ter chegado ao fim, a música parece abrir mais uma porta.

Uma curiosidade: Mahler levou vários anos para completar a sinfonia. O primeiro movimento foi estreado isoladamente em 1888, e somente em 1894, depois da morte do maestro Hans von Bülow, Mahler encontrou o impulso decisivo para concluir a obra. Conta-se que, durante o funeral de Bülow, ouviu o coral “Aufersteh’n” (“Ressuscitarás”), de Friedrich Klopstock, e percebeu que aquele texto oferecia a resposta que procurava para o final da sinfonia. Assim nasceu uma das mais impressionantes conclusões de toda a música sinfônica: não uma vitória triunfal sobre a morte, mas uma lenta, quase dolorosa afirmação de que a existência pode ter um sentido para além dela.

(Não se apavorem com os músicos fora do palco. É a multidão de almas penadas).

Programa:
Gustav Mahler | Sinfonia Nº 2 em Dó menor, “Ressurreição”
– Allegro maestoso. Mit durchaus ernstem und feierlichem Ausdruck (Com expressão totalmente grave e solene)
– Andante moderato. Sehr gemächlich. Nie eilen (Muito vagaroso. Sem pressa)
– In ruhig fließender Bewegung (Com movimento fluindo tranquilamente)
– Urlicht (Luz Primordial). Sehr feierlich, aber schlicht (Muito solene, mas simples)
– Im Tempo des Scherzos. Wild herausfahrend (No tempo do scherzo. Irrompendo de forma selvagem)

Solistas: Manuela Korossy (Soprano) e Edineia Oliveira (Mezzo-soprano)
Coro Sinfônico da OSPA
Coro de Câmara da PUCRS
Coro Masculino Ottava Bassa
OSPA
Regência: Manfredo Schmiedt

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O que podemos saber, de Ian McEwan

O que podemos saber, de Ian McEwan

McEwan é um autor especialmente bom para resenhas que não contem demais do enredo, porque o que torna seus livros fascinantes — com as exceções de A Barata e Solar, livros que detestei — é justamente a forma como ele vai deslocando, aos poucos, aquilo que pensamos saber sobre as pessoas, o passado e até sobre nós mesmos. Há escritores que contam histórias para nos fazer esquecer o mundo, McEwan faz o contrário: conta histórias para nos lembrar que de como é estranho, frágil e misterioso o que julgamos conhecer.

Em O que podemos saber, McEwan parte de uma pergunta que parece simples, mas que logo se torna importante e abissal: o que, afinal, podemos saber sobre uma pessoa que já viveu, sobre um tempo que já passou, sobre uma vida que não é a nossa? O romance se constrói nesse espaço entre memória e imaginação, entre aquilo que os documentos preservam e aquilo que inevitavelmente se perde. E é justamente aí que a literatura aparece — não como uma máquina de recuperar o passado, mas como um modo delicado e inteligente de conversar com aquilo que desapareceu.

Por falar em inteligência, McEwan tem uma bem particular. Ele é mestre em transformar grandes questões em experiências íntimas. O futuro, a memória, o amor, a morte, a passagem do tempo e a nossa relação com as gerações que virão não aparecem como temas filosóficos. Ganham corpo em personagens, desejos, segredos e descobertas. O resultado é um romance que pensa sem jamais deixar de contar uma história.

Neste livro, há também uma espécie de melancolia muito bonita. Não apenas a melancolia diante do que já aconteceu, mas diante daquilo que não poderá mais ser conhecido. Toda vida humana contém zonas inacessíveis. Pessoas que amamos guardam pensamentos que nunca nos revelaram. Acontecimentos importantes são esquecidos ou varridos minuciosamente para baixo do tapete, sentimentos mudam de significado com o passar dos anos. Mesmo quando temos documentos, fotografias, cartas e testemunhos, nunca possuímos inteiramente uma existência.

A história desenrola-se em dois tempos. Em 2119, o mundo foi devastado por alterações climáticas e guerras nucleares que reduziram a população global à metade, afundaram boa parte da Inglaterra (transformado num arquipélago) e tornaram a Nigéria a grande potência. Neste cenário, Thomas Metcalfe, um professor de literatura, dedica-se a estudar o período de 1990 a 2030, uma época que ele chama de “era de ouro”, de abundância e liberdade. E de irresponsabilidade, claro.

A sua obsessão é um poema perdido: Uma Coroa para Vivien, escrito em 2014 pelo poeta Francis Blundy para a sua esposa e lido uma única vez durante um jantar de aniversário e nunca mais encontrado. O poema, uma complexa sequência de 15 sonetos, tornou-se uma lenda, envolto em mistério e especulação. Tom, juntamente com a sua companheira e colega Rose, vasculha os registros digitais do século XXI — e-mails, mensagens, blogs — na esperança de encontrar uma pista que o leve ao poema perdido.

A primeira metade do livro é narrada por Tom, que nos guia pela sua desajeitada investigação a um passado que só conhece através de arquivos. McEwan utiliza esta estrutura para nos fazer olhar para o nosso presente com olhos de estranhamento: o nosso excesso de informação, as nossas redes sociais, as nossas certezas científicas e as nossas estupidezes cotidianas são dissecados com uma curiosa distância crítica que nos faz rir.

A segunda metade, porém, reserva uma reviravolta típica de McEwan (que lembra a estrutura de Reparação). A narradora passa a ser Vivien, a esposa do poeta, que revela uma teia de segredos, amores proibidos e um crime brutal que nenhum arquivo digital poderia conter. É aqui que o romance atinge a sua maior profundidade: o que podemos saber, mesmo com acesso a toda a informação do mundo, é apenas uma fração do que realmente aconteceu. O título, que parece uma pergunta, revela-se uma afirmação melancólica: aquilo que podemos saber é limitado, fragmentado e sujeito à interpretação.

A escrita de McEwan é, como sempre, precisa e elegante. Ele constrói um futuro distópico que funciona como um espelho do nosso presente, refletindo as nossas ansiedades sobre as alterações climáticas, as guerras e o colapso da ordem global. Contudo, o autor não fica preso pelo gênero apocalíptico, que é apenas pano de fundo. A história que é, essencialmente, sobre o amor, a memória e a traição.

A beleza do romance está na forma como McEwan, de 78 anos, transforma a busca por um poema num veículo para questões universais. O que fica de nós quando morremos? O que sobrevive para além dos “likes”? Como é que o futuro nos julgará? O que podemos saber também é um romance sobre a distância. A distância entre uma pessoa e outra, entre o presente e o passado, entre aquilo que aconteceu e aquilo que conseguimos contar sobre o que aconteceu. Mas é também um livro sobre o esforço humano de atravessar essas distâncias.

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A Montanha, de novo

A Montanha, de novo

Dentro da obra de Thomas Mann, sempre gostei mais de Doutor Fausto do que de A Montanha Mágica. Lá nos anos 80, eu dizia isto para o tradutor Herbert Caro, que, se bem lembro, não se posicionava, apesar de seu amor pela música.

Reli há pouco Os Buddenbrook, mas não abri nem A Montanha e nem o Fausto neste século. desde aquele época, a euforia pelo Fausto reduziu-se lentamente e ficou o afeto pela Montanha. É incrível como este romance permanece na minha memória. Nada do que é dito por Luisa Coquemala em suas ótimas aulas sobre A Montanha Mágica é totalmente estranho a mim. Às vezes me vêm expressões como “a luta pela alma de Hans Castorp”, “o filho enfermiço da vida” e ninguém pode bater a porta que já espero o consequente caminhar silencioso e sexy de uma russa. As expressões cômicas do livro — pois há, e muitas! — ainda estão tão presentes em minha memória quanto os capítulos “Neve” e “Politicamente Suspeita”. Qualquer hora dessas, a saudade de Settembrini vai apertar e volto ao livrão de Mann, certamente antes do Fausto.

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A favor dos livros, contra a nova modinha

A favor dos livros, contra a nova modinha

Como livreiro totalmente ralado financeiramente, acordei nesta manhã tão preocupado com as vendas como em bater nesse discurso de que o livro impresso é um “vilão ecológico”. Certo, admito, o livro é até um dos vilões, mas… está bem longe de ser o maior deles. Vejamos:

1. Um livro físico dura décadas, séculos. Qualquer e-reader tem bateria de lítio — obtido em mineração predatória — e vida útil de 5 a 7 anos, exigindo substituição.

2. O livro usa energia apenas na produção. O digital exige servidores (data centers) ligados 24h, que consomem água e energia elétrica constantemente para cada nuvem, cada download e cada sincronização.

3. O papel é 100% reciclável e biodegradável. Até a Macabéa o comia à noite com a finalidade de matar a fome. (Vá ler!). O plástico de capas de tablets e embalagens leva 500 anos para se decompor. Imagina a Macabéa comendo um celular!

4. Comércio local é igual a menos transporte: quando vendo livros presencialmente, evito o impacto de entregas individuais motorizados das compras online. Mais: dou preferência às bicicletas.

5. Se vendo usados, estou no topo da economia circular — prolongando a vida de um produto que já consumiu recursos, sem gerar novo gasto.

6. Livros encalhados não se tornam lixo tóxico.

7. Mais, o ganho ecológico é MAIOR: o livro transforma comportamentos.

8. Pessoas que leem são mais críticas, consomem com mais consciência e tendem a adotar hábitos mais verdes (se alguns não buscam os livros que reservam na Livraria Bamboletras não sou eu o culpado).

9. Um livro sobre sustentabilidade, natureza ou consumo consciente gera um efeito cascata positivo muito maior do que a mordida de carbono da sua produção. Até um livro Machado de Assis gera um efeito cascata, mas isso é conversa pra outro discurso.

10. Papel mata árvores? As árvores do papel são plantadas para isso. Se pararmos de comprar papel, essas florestas viram pasto ou soja, que emitem 10x mais CO2. Sim, nesse item parti pra ignorância!

11. Meu negócio não é anti-ecológico: é necessário. Cada livro que vendo é uma semente de pensamento crítico. E, ao contrário do que dizem, a indústria do papel é uma das poucas que colhe o que planta. O problema ecológico não está nos livros, está no consumo descartável — e livro não se descarta, a gente guarda, a gente empresta, a gente herda.

Então, venham à Bamboletras e salvem uma livraria.

Foto: minha biblioteca pessoal. O que tem de livro bom e biodegradável você não imagina.

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A Hora da Estrela, de Clarice Lispector (PGO VI)

A Hora da Estrela, de Clarice Lispector (PGO VI)

Não chegaria a dizer que A Hora da Estrela é dividido em duas partes, mas sim que o romance muda profundamente de ritmo. Na primeira metade, quem ocupa o centro da cena é o “autor” Rodrigo S. M. Ele hesita, interrompe a narrativa, filosofa, questiona seu direito de escrever sobre Macabéa. É um texto cheio de desvios, em que Clarice parece desmontar o próprio ato de narrar. Ouvi que vários leitores ficam impacientes, porque a história parece nunca começar. Então, algo muda ali pela metade.

A partir do momento em que Macabéa ganha mais espaço, a narrativa flui com surpreendente naturalidade. Os encontros com Olímpico, a amizade ambígua com Glória, a consulta à cartomante, tudo passa a ter uma cadência muito mais rápida, quase vertiginosa. Rodrigo continua presente, mas interfere menos. É como se, depois de tanta reflexão sobre a dificuldade de contar aquela vida, ele finalmente aceitasse deixar Macabéa existir diante de nós. Há uma ironia nisso: o narrador passa páginas dizendo que não sabe como contar a história e, quando enfim começa a contá-la, percebemos que sabia desde o início. O livro deixa de falar principalmente da escrita e passa a falar da personagem.

Eu acrescentaria ainda uma interpretação. Talvez essa mudança de ritmo tenha também um efeito emocional. Na primeira parte, Clarice nos mantém à distância, fazendo-nos pensar. Na segunda, ela nos desarma. Quando chegamos ao final, já não estamos analisando Macabéa; estamos profundamente envolvidos com ela. Bem, não foi uma interpretação. Foi quase.

Essa é uma das razões pelas quais A Hora da Estrela é tão bom. O romance não apenas conta uma história; ele dramatiza o nascimento da própria história, até que, de repente, percebemos que já não estamos lendo sobre um problema literário, mas sobre uma mulher cuja existência passou a nos importar profundamente. É uma transformação quase imperceptível — e de enorme poder artístico.

Clarice Lispector escolheu como protagonista alguém que passaria despercebido por quase todos. O livro recusa qualquer grandiosidade. Não há heróis, feitos memoráveis ou reviravoltas espetaculares. Há Macabéa, uma jovem nordestina pobre que vive no Rio de Janeiro quase sem deixar marcas no mundo. Ela trabalha, sonha pouco, deseja pouco e parece ocupar um lugar onde a sociedade acostumou-se a não enxergar ninguém.

Mas Clarice Lispector transforma essa vida aparentemente insignificante no centro absoluto da nossa atenção. Como disse, o romance é narrado por Rodrigo S. M., um escritor que hesita o tempo todo diante da tarefa de contar a história de Macabéa. Essa hesitação mais que mero artifício, é uma reflexão sobre a própria literatura. Como narrar a vida de alguém tão vulnerável sem reduzi-la a um objeto de piedade? Como encontrar palavras para quem nunca teve voz?

A escrita é ao mesmo tempo delicada e cortante, alterna momentos de ironia, compaixão, humor e espanto, Cada interrupção do narrador, cada dúvida, cada comentário sobre a escrita, reforça a sensação de que estamos diante de um(a) autor(a) que não aceita respostas fáceis.

O desfecho, tão conhecido quanto devastador, não encerra apenas a história de Macabéa. Ele nos obriga a perguntar que destino reservamos às pessoas invisíveis e qual é o papel da arte diante dessa realidade. Mais do que um livro sobre pobreza ou exclusão, A Hora da Estrela é uma reflexão sobre a dignidade humana. Clarice Lispector nos lembra que toda vida, por mais anônima que pareça, contém uma grandeza que merece ser reconhecida. E talvez seja essa a verdadeira hora da estrela: o instante em que alguém, finalmente, é visto.

Acho que essa é a obra em que Clarice mais claramente demonstra que a literatura não existe apenas para contar histórias, mas também para devolver humanidade àqueles que a realidade costuma deixar à margem. É um romance que termina, mas continua fazendo perguntas muito depois da última página.

.oOo.

O humor em A Hora da Estrela é uma das coisas mais sofisticadas do romance — e muitas vezes passa despercebido porque o final é tão devastador. Mas Clarice é frequentemente engraçada, só que de um jeito muito particular: um humor desajeitado, absurdo, melancólico. Macabéa é involuntariamente cômica. Suas frases, suas interpretações literais, seus desejos modestíssimos (um cachorro-quente, um creme de beleza, ouvir a Rádio Relógio) criam situações engraçadas. Mas o leitor ri e, imediatamente, sente um desconforto: estamos rindo da ingenuidade dela ou da pobreza do mundo que a cerca?

Também há muito humor no narrador Rodrigo S. M. Ele é exagerado, dramático, contraditório. Às vezes parece um escritor parodiando escritores. Quando faz declarações grandiosas sobre sua missão literária e logo em seguida se desmente, Clarice está brincando com a figura do intelectual atormentado. Eu diria até que existe um quê de Machado de Assis nesse aspecto: um narrador que conversa com o leitor, interrompe a narrativa, comenta suas próprias limitações e ironiza a si mesmo. Em A Hora da Estrela, o riso vem sempre acompanhado de um pequeno susto. Clarice nos faz rir para que percebamos, um segundo depois, que o objeto do riso é também uma pessoa profundamente vulnerável. Talvez seja por isso que o humor do livro permaneça na memória: ele não serve para aliviar a tragédia, mas para torná-la ainda mais humana.

É um riso triste o que nos ocorre quando ela não quer deixar a conversa com o namorado morrer e pergunta, ao passar em frente a uma ferragem:

Eu gosto tanto de parafuso e prego, e o senhor?

É uma pergunta engraçada, mas também devastadora. Ela revela o esforço desesperado de Macabéa para manter viva uma conversa, para estabelecer um vínculo, para existir diante do outro. Ela não sabe seduzir, não sabe flertar, não sabe conversar. Então recorre ao primeiro objeto que encontra na vitrine. Rimos da inadequação da pergunta e, um instante depois, sentimos uma enorme compaixão por aquela moça que simplesmente não aprendeu os códigos da convivência. Vejam bem, aqui o humor nunca é uma pausa da tragédia, ele é uma forma da tragédia.

Quando Macabéa diz

“Eu sou datilógrafa, virgem e gosto de Coca-Cola.”

nós sorrimos. Mas não porque ela seja ridícula. Sorrimos porque ela acredita que essas três informações bastem para definir uma vida. O humor nasce da pobreza das categorias disponíveis para ela, não de sua pobreza como pessoa.

Clarice constrói Macabéa de tal maneira que ela nunca se torna um símbolo abstrato da pobreza. Ela continua sendo uma pessoa singular, com pequenos gostos, pequenas obsessões, pequenas alegrias. Isso é decisivo, porque impede que o romance se transforme numa tese social. Macabéa não representa apenas “os pobres”, ela é Macabéa.

E, finalmente (já escrevi demais!), há uma observação muito pessoal que faço: costuma-se dizer que Clarice escreveu um romance sobre uma pessoa invisível. Eu iria um pouco além: ela escreveu um romance sobre o ato de observar. Rodrigo aprende a olhar Macabéa. O leitor aprende a olhar Macabéa. E, terminado o livro, talvez aprendamos a olhar de outro modo as pessoas que cruzam diariamente o nosso caminho.

É aí que, para mim, reside a verdadeira dimensão ética de A Hora da Estrela. A literatura não salva Macabéa. Mas talvez salve alguma coisa no leitor: a capacidade de perceber que nenhuma vida é pequena demais para merecer atenção.

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PGO

Desde março deste ano, rola o PGO (Pequenas Grandes Obras), que é um Clube de Leituras da Livraria Bamboletras. O foco são os clássicos curtos, livros sempre muito bons ou representativos e que deixam tempo livre para os participantes lerem outras coisas. Há vagas.

Livros do PGO:

Março: O primeiro amor, de Ivan Turguêniev
Abril: A casa das belas adormecidas, de Yasunari Kawabata
Maio: Vidas secas, de Graciliano Ramos
Junho: Bartleby, de Herman Melville
Julho: Ao farol, de Virginia Woolf
Agosto: A hora da estrela, de Clarice Lispector
Setembro: Ratos e homens, de John Steinbeck

 

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Flanar III: Roteiro para a moderação de grupos de leitura: A Promessa, de Damon Galgut

A Promessa, de Damon Galgut é um livro sobre uma família, mas também sobre a África do Sul, sobre uma promessa nunca cumprida, mas também sobre a dificuldade humana de agir moralmente. O romance evita julgamentos explícitos e confia na inteligência do leitor.

Abertura

“Quando vocês fecharam o livro, qual foi a sensação predominante? Gostaram do livro ou não?”

  • melancolia
  • frustração
  • admiração
  • tristeza
  • beleza
  • indignação

Essa diversidade já vai mostrar a riqueza do romance.

A promessa

Aparentemente o livro gira em torno de uma promessa simples. Rachel, antes de morrer, pede que Salome receba a casa onde vive.

“O título do livro é ‘A Promessa’. Qual é, literalmente, a promessa que dá nome ao romance? E, para além disso, que outras promessas — do país, da história, dos personagens — estão em jogo?”

 Há aqui uma camada histórica importante. O romance começa em 1986, pouco antes do fim do apartheid, e termina já no governo de Jacob Zuma. As promessas da nova África do Sul — a reconciliação, a redistribuição de terras, a justiça — também ficam por cumprir . Pergunta ao grupo: “A promessa da casa à Salomé e a promessa da nova África do Sul são a mesma coisa?”

“O narrador diz-nos, num certo momento, que não ouvimos muito sobre Salomé ‘porque não nos importamos em perguntar’. Como é que este gesto narrativo — o autor a apontar o dedo ao leitor — te afetou? Foi uma acusação?”

“No final do livro, Amor finalmente dá a Salomé a escritura da casa. Mas Salomé já é muito velha. Esta resolução chega tarde demais? É uma reparação genuína ou apenas um gesto simbólico?” 

 Mas… A promessa realmente é o centro do romance?

Ou ela funciona como símbolo?

Questões:

  • O que exatamente impede que a promessa seja cumprida?
  • Falta de dinheiro?
  • Burocracia?
  • Racismo?
  • Covardia?
  • Autoengano?

Talvez todos.

A família Swart

Vale discutir cada integrante.

– Manie

É realmente religioso ou usa a religião para aliviar sua consciência? O patriarca que promete e não cumpre. Como descreveriam a sua relação com a promessa? É má-fé ou simples esquecimento?

– Anton

Talvez o personagem mais frustrado do livro. o filho, outrora cheio de promessas, que se torna um homem deprimido e amargo. Acaba por se suicidar. Como é que a desilusão com a promessa da família se reflete nele?

  • Ele possui consciência moral?
  • Ou apenas consciência da própria mediocridade?

Como interpretar o assassinato que cometeu?

– Astrid

É a personagem mais adaptada ao novo mundo ou a mais superficial? a filha mais velha, obcecada com status e aparências. Morre num assalto. O que a sua morte nos diz sobre a violência na África do Sul pós-apartheid?

A indiferença (Manie), a superficialidade (Astrid)e a autodestruição (Anton).

– Amor

O próprio nome já sugere uma leitura simbólica.

Pergunta interessante:

Por que justamente Amor demora tanto para cumprir aquilo que considera certo?

Ela é uma heroína?

Ou apenas alguém menos hipócrita que os outros?

– Salome

Curiosamente, é uma personagem central que quase não fala.

Perguntas:

Por que Galgut escolhe esse silêncio? Por ela ser uma representação?

Ela simboliza toda uma população invisibilizada?

Vale notar que ela permanece presente enquanto quase todos os demais desaparecem.

A África do Sul

É impossível separar o romance da história sul-africana.

Sem transformar a conversa numa aula de História, vale lembrar rapidamente:

  • apartheid
  • fim do apartheid
  • eleição de Mandela
  • mudanças sociais
  • permanências

Pergunta importante:

A família muda tanto quanto o país?

Ou ambos mudam apenas na aparência?

A estrutura do romance

Talvez seja o aspecto mais inovador. O narrador faz algo incomum. Ele muda constantemente de foco. Entra na mente de personagens secundários. Às vezes conversa diretamente com o leitor.

“O romance está dividido em quatro partes, cada uma dedicada a um funeral — Mãe, Pai, Astrid e, finalmente, Anton. Apenas Amor sobrevive. O que é que esta estrutura de ‘quatro mortes em quatro décadas’ sugere? Porque é que Galgut terá escolhido organizar o livro assim?”

“O narrador — ou a voz narrativa — deste livro é muito peculiar. Galgut usa aquilo a que alguns chamaram ‘uma câmara de cinema’, com perspectivas que se alternam e se sobrepõem, por vezes no meio de uma frase. O narrador dirige-se ao leitor, faz apartes, comenta. O que acharam desta escolha? Funciona? Ou atrapalha?” Ele critica personagens, tira sarro deles. 

Pergunte:

Isso aproximou vocês do romance? Vocês aceitaram a cumplicidade?

Ou dificultou a leitura?

Outra pergunta:

O narrador parece improvisar enquanto conta a história?

  1. O tempo

O romance é dividido por quatro funerais.

Interessante perguntar:

Por que Galgut escolhe mortes como pontos de organização? Aprendemos mais sobre uma família durante um funeral?

Existe alguma cena de felicidade duradoura?

  1. Humor

Embora seja um livro triste, há muito humor. Um humor às vezes cruel.

Pergunte:

Vocês riram? Em quais momentos? Por que rir em um romance tão melancólico?

  1. O título

“A Promessa”. No singular.

Qual promessa?

A da mãe? A da nova África do Sul? A promessa de justiça? A promessa que fazemos a nós mesmos? Todas?

  1. O final

Experimente:

O cumprimento da promessa representa uma vitória ou chega tarde demais? É possível reparar décadas de injustiça com um único gesto?

O romance termina oferecendo esperança? Ou apenas resignação?

Algumas perguntas que costumam render boa conversa

  • Existe algum personagem verdadeiramente bom?
  • Quem desperta mais compaixão?
  • Quem desperta mais irritação?
  • O livro é político ou profundamente humano ou as duas coisas?
  • Vocês enxergam Amor como protagonista ou apenas como fio condutor?
  • O silêncio de Salome é uma escolha literária ou uma denúncia?
  • O que mais permanece na memória: os acontecimentos ou a forma como Galgut escreve?
  1. Encerramento

“No início parece que lemos a história de uma promessa não cumprida. Ao terminar, talvez percebamos que lemos algo maior: um romance sobre tudo aquilo que uma sociedade adia enfrentar — até que o tempo torna qualquer reparação insuficiente.”

“Se vocês tivessem que resumir A Promessa em uma única palavra, qual seria?”

As respostas normalmente convergem para termos como culpa, espera, memória, justiça, tempo, herança ou silêncio.

“Depois de tudo o que falamos, acham que a promessa foi cumprida, no final? E se foi cumprida, que significado tem esse cumprimento — tardio, simbólico e talvez insuficiente?”

“O livro termina com Amor a encontrar, entre os pertences de Anton, um romance inacabado com a nota: ‘Uma saga familiar ou um romance familiar?’ . O que acham que esta pergunta diz sobre o próprio livro que acabámos de ler?”

Na minha opinião, a força de A Promessa não está apenas na história da família Swart, mas na maneira como Galgut transforma um drama íntimo em uma reflexão sobre responsabilidade moral, privilégio, passagem do tempo e a dificuldade — individual e coletiva — de fazer o que sabemos ser justo.

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Por que eu compro livros?

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BamboFilmes: todos os filmes apresentados e o próximo — McCabe & Mrs. Miller

BamboFilmes: todos os filmes apresentados e o próximo — McCabe & Mrs. Miller

1. Sunset Boulevard (Crepúsculo dos Deuses), de Billy Wilder (1950)
2. As Vinhas da Ira, de John Ford (1940)
3. Pacto Sinistro, de Alfred Hitchcock (1951)
4. Prisão, de Ingmar Bergman (1949)
5. Rebecca, de Alfred Hitchcock (1940)
6. Amarcord, de Federico Fellini (1973)
7. Delírio de Loucura, de Nicholas Ray (1956)
8. O Sétimo Selo, de Ingmar Bergman (1957)
9. O Criado, de Joseph Losey (1963)
10. Vá e Veja, de Elem Klímov (1985)
11. O Espírito da Colmeia, de Victor Erice (1973)
12. A Infância de Ivan, de Andrei Tarkovski (1962)
13. Oito e Meio, de Federico Fellini (1963)
14. Profissão: Repórter, de Michelangelo Antonioni (1975)
15. O Desaparecimento (The Vanishing, Spoorloos), de George Sluizer (1988)
16. Zabriskie Point, de Michelangelo Antonioni (1970)
17. Morte em Veneza, de Luchino Visconti (1971)
18. Inverno de Sangue em Veneza (Don´t Look Now), de Nicolas Roeg (1973)
19. A Conversação, de Francis Ford Coppola (1974)
20. O Desprezo, de Jean-Luc Godard (1963)
21. Expresso para o Inferno, de Andrey Konchalovsky (1985)
22. Dersu Uzala, de Akira Kurosawa (1975)
23. Infiel, de Liv Ullmann (2000)
24. Infâmia (The Children’s Hour), de William Wyler (1961)
25. Morangos Silvestres, de Ingmar Bergman (1957)
26. Stromboli, de Roberto Rossellini (1950)
27. Bom dia, de Yasujiro Ozu (1959)
28. Cabra marcado para morrer, de Eduardo Coutinho (1984)

O próximo será “McCabe & Mrs. Miller” (1971), de Robert Altman.

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Foreign Tongues, dos Rolling Stones

Foreign Tongues, dos Rolling Stones

Foreign Tongues (2026) é ótimo, alegre, animado, cheio de energia e tesão. Charlie Watts era tão fundamental que Steve Jordan teve que fazer uma imitação de seu estilo. Saiu-se notavelmente bem. Paul McCartney toca baixo em uma faixa de “Foreign Tongues”, que também traz aparições de Robert Smith e Steve Winwood.

É o melhor trabalho deles em… bem, em algumas décadas. A capa, uma colagem expressionista de Nathaniel Mary Quinn, também tem sido muito elogiada. É um horror, claro, mas está perfeitamente dentro do espírito do grupo trazer capas inesquecíveis, e raramente por sua beleza.

O disco estreou em 1º lugar no Reino Unido, igualando o recorde dos Beatles, e venceu a votação de novos lançamentos da Billboard com mais de 42% dos votos.

O trio central dos Stones já passou dos 80 anos, mas estão em boa forma criativa, recombinando a energia do rock e do blues. Não é uma reinvenção, talvez nem seja um novo capítulo, mas um digno epílogo para uma das maiores histórias do rock. E sem nenhum ar de despedida.

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A coluna de Mauvício Saravia: Sobre o Ócio Criativo e o Grêmio Foot-Ball Porto-Alegrense

Prezado Mestre De Masi,

Venho, por meio desta, comunicar-lhe que sua teoria do “ócio criativo” foi submetida a um teste de campo nada ortodoxo: o Centro de Treinamentos do Grêmio, em Porto Alegre, durante os 45 dias de preparação para a volta aos gramados.

O senhor, com sua sabedoria, afirmava que o tempo livre, o descanso e a contemplação são combustíveis para a inovação, a arte e o pensamento original. Que o homem moderno precisa desacelerar para produzir mais e melhor.

Pois bem. O Grêmio desacelerou. Sobremaneira, ele desacelerou. Só que a criatividade que o senhor tanto prometia foi substituída por uma apatia tão profunda que a bola pediu música ambiente.

Permita-me reformular sua teoria:

O ócio só é criativo se houver matéria-prima criativa. No caso do Grêmio, o ócio foi apenas ócio.

O senhor estudou a Renascença italiana, os artistas florentinos, a explosão cultural do século XV. Pois o Grêmio, meu caro De Masi, teve sua própria Renascença hoje à noite: renasceu pior.

P.S.: Se o senhor puder, em espírito, enviar uma mensagem ao técnico gremista, por favor.
De Mauvício Saravia, um gremista que leu o livro que deseja sobremaneira corrigir.

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Atrás do balcão da Bamboletras (LXXIX)

Atrás do balcão da Bamboletras (LXXIX)

De um cliente da Bamboletras. Não que seja do nosso feitio, mas eu e o Max ficamos até encabulados com esta mensagem recebida pelo Whats:

Eu que agradeço, Milton.

Confesso que gosto muito dessas nossas conversas. Você costuma trazer livros, filmes e discos que merecem ser tratados com cuidado, e isso é um prazer. Além disso, é interessante perceber um fio condutor nas suas escolhas: Virginia Woolf, John Fante, Guimarães Rosa, Ozu, Eduardo Coutinho, Gavin Bryars… Todos, à sua maneira, são artistas que preferem a sugestão ao espetáculo. Talvez seja por isso que as atividades da Bamboletras tenham uma identidade tão própria.

Desejo que os próximos encontros sejam um sucesso. Afinal, uma livraria que promove leituras de Virginia Woolf, discute Machado e exibe Ozu e Eduardo Coutinho merece tudo de bom.

Um grande abraço, e até a próxima.

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Superreportagem de Mauvício Saravia

Imaginem uma pessoa que conhece o interior sombrio de Walter Kannemann e que já adentrou nas mais profundas cogitações de Luís Castro. Pois esta pessoa, certamente sofrendo de ansiedade pós-traumática após tais temeridades, foi a psicóloga que trabalhou junto à Seleção Brasileira. Seu nome é, ou era, Marisa Santiago e, sim, ela veio do Grêmio.

— Depois de eu penetrar e sair com vida da cabeça de Tetê, o inimigo da sinapse, a CBF achou que eu poderia com o Neymar — confidenciou Marisa para nossa reportagem.

No retorno ao Brasil, a família da moça colocou-a em camisa-de-força pois ela quer, de qualquer maneira, torrar no poquer o que recebeu da CBF.

Ganha a Pinel, ganham, sobremaneira, as Bets.

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Argentina 2 x 1 Inglaterra

A Inglaterra amarelou. Foi toda para a defesa. Fez como o Papito quando era técnico do Inter. Vencendo por 1 x 0, reforçou a defesa e abdicou de atacar. É o esquema que os colorados definiram como chama-derrota. Consiste em apenas “proteger a casinha”, como dizia Papito. Com isso, ele multiplicava o número de ataques do adversário. Se o time tiver uma defesa excepcional, tudo bem. Só que não há defesa excepcional contra Messi, Lautaro, Alvarez, MacAlister, etc. Tuchel, mesmo com um baita time, mostrou-se cagão. Vai jogar sábado.

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Pergunte ao Pó, de John Fante

Pergunte ao Pó, de John Fante

Pergunte ao Pó (1939), de John Fante (1909-1983) é excelente, certamente um dos grandes romances estadunidenses do século XX. Tem a energia da juventude, o humor de quem sabe rir de si mesmo e uma melancolia que só se revela plenamente depois da última página. É um livro sobre o fracasso e a esperança, sobre a esperança teimosa de continuar escrevendo, amando e vivendo. Nada da típica ascensão ou queda de um herói. Pergunte ao Pó faz algo mais raro: acompanha um jovem que ainda não sabe quem é, mas que acredita, com uma mistura de arrogância e desespero, que nasceu para ser escritor.

O carcamano Arturo Bandini chega a Los Angeles trazendo quase nada, mora de aluguel num quarto miserável, com poucos dólares no bolso e uma confiança quase insuportável em seu próprio talento. Pobre e faminto, ele escreve, sonha, passa fome comendo apenas laranjas, apaixona-se, mente para si mesmo e tenta desesperadamente um caminho.

A grande invenção Fante está na criação de Bandini. Ele é vaidoso, impulsivo, preconceituoso, ridículo em muitos momentos, mas também vulnerável e profundamente humano. Não pede a simpatia do leitor; conquista-a justamente porque nunca esconde suas contradições e as merdas que diz e faz. Sua voz oscila entre a grandiloquência e o desamparo, entre a ambição desmedida e a consciência de sua própria insignificância.

No centro do romance está a relação entre Bandini e Camilla Lopez, garçonete mexicana de temperamento forte. O amor entre os dois não encontra repouso. É uma dança feita de atração, ressentimento, orgulho e desencontros. Camilla desafia Bandini porque não cabe na fantasia que ele constrói sobre ela. Mas Pergunte ao Pó é também um romance sobre literatura. Bandini acredita que escrever o tornará imortal, que bastará publicar um conto para escapar da pobreza, do anonimato e da mediocridade. Aos poucos, descobre que a literatura não salva ninguém da vida. Escrever não elimina a fome, não cura a solidão nem torna o amor menos difícil. Ainda assim, continua sendo a única forma de dar sentido ao caos.

Fante escreve com uma prosa seca e veloz. Não há ornamentações. Cada frase parece nascer da urgência de quem conhece a precariedade. Sob essa aparente simplicidade esconde-se o orgulho dos derrotados, a dignidade dos esquecidos e a beleza dos pequenos instantes. Não é por acaso que escritores como Charles Bukowski reconheceram em John Fante um mestre. Muito antes da chamada literatura “suja”, Fante já escrevia sobre personagens comuns, derrotados e imperfeitos, mas o fazia com uma ternura que impede qualquer cinismo. Seus fracassados continuam sonhando.

Ao terminar Pergunte ao Pó, compreendemos que Arturo Bandini talvez nunca alcance a grandeza que imagina merecer. Mas também percebemos que sua obstinação em escrever, possui algo de profundamente comovente. É a história de alguém que insiste em transformar a vida em literatura, mesmo quando a vida parece responder apenas com pó.

A poeira do título? Não sei. Ele aparece nas ruas, no peitoril das janelas, no deserto que cerca a cidade. John Fante nos lembra que, se um dia quisermos saber quem fomos, talvez seja preciso perguntar ao pó.

.oOo.

Obs. final: faltou dizer que Fante criou vários livros tendo Arturo Bandini como personagem principal. A coisa é bem bagunçada, pois alguns narram a vida pregressa de Bandini e outros o que virá depois e não foram publicados em ordem. Pergunte ao Pó é o mais famoso deles:

O Caminho de Los Angeles (The Road to Los Angeles, escrito em 1936, mas publicado postumamente em 1985)
Espere a Primavera, Bandini (Wait Until Spring, Bandini, publicado em 1938)
Pergunte ao Pó (Ask the Dust, publicado em 1939)
Sonhos de Bunker Hill (Dreams from Bunker Hill, publicado em 1982)

John Fante

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Oasis na Copa

Estou achando muito engraçada essa treta por causa de Wonderwall ter sido adotada pela torcida inglesa. O Oasis tem origem operária e toda a estética da banda — principalmente as roupas, mas também a postura — grita o fato. Ademais, os caras são fanáticos pelo Manchester City, vivem mesmo o futebol e os pubs. Agem como hooligans. Musicalmente, podem ser uma tentativa de cópia dos Beatles, mas o Oasis tem várias boas e grudentas melodias. E daí vem um dos nossos e ofende Liam que, fiel ao estilo torcedor, parte pra briga nas redes. É cultural os ingleses cantarem seus artistas populares em estádios. Há um lindo vídeo dos anos 60 com um estádio cantando She loves you. São afinadíssimos, vou te contar.

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De uma entrevista do romancista húngaro László Krasznahorkai

(…) Nunca saberemos quantos dos livros que hoje vou autografar serão efectivamente lidos além da página em que fica a dedicatória. Alguém chegará ao fim desses livros? A literatura sofreu uma transformação enorme.

Tenho a impressão de que a literatura contemporânea esqueceu praticamente tudo o que aconteceu durante o século XX. Desde Marcel Proust até James Joyce, Samuel Beckett, Thomas Bernhard​ ou Fernando Pessoa a literatura percorreu um caminho extraordinário. No entanto, hoje parece ter regressado à linguagem e às estruturas narrativas do século XIX: quanto mais acessível e fácil de consumir for um livro, maior é o seu sucesso.

No início isso surpreendia-me. Depois percebi a razão: esses livros podem ser lidos sem grande esforço e praticamente sem bagagem cultural. A literatura mais exigente requer prática de leitura e formação cultural. Hoje a formação mudou profundamente. O conhecimento dos clássicos e das humanidades perdeu espaço. No seu lugar surgiu outra aptidão: conseguir obter depressa a maior quantidade possível de informação sobre qualquer assunto. As questões de que a literatura sempre tratou passaram para segundo plano.

É com enorme tristeza que digo que pertenço à geração dos escritores que se está a despedir de uma determinada ideia de literatura, da sua forma de criação, da sua influência na sociedade e do percurso em que um livro saía das mãos do escritor, chegava ao leitor e acabava por exercer algum efeito duradouro sobre a vida humana. Creio que esse ciclo chegou ao fim. (…)

László Krasznahorkai em entrevista a Isabel Lucas, no Ípsilon (publico.pt)

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Os 50 maiores livros (uma antologia pessoal): XXXIV — Ao Farol (ou Passeio ao Farol), de Virginia Woolf

Os 50 maiores livros (uma antologia pessoal): XXXIV — Ao Farol (ou Passeio ao Farol), de Virginia Woolf

Em diferentes fases da vida, eu li três vezes este livro. E sempre o li como se comesse chocolate, sempre com a intenção de me deliciar mais um pouquinho. Isso não acontece devido a alguma reviravolta na trama, nem a réplicas espirituosas, nem a envolvimentos românticos. Na verdade, Virginia Woolf frequentemente ignora a trama em favor do exame das minúcias, colocando sob seu microscópio as emoções humanas ou, como na seção central deste livro, a maneira como uma casa se decompõe, como se a casa fosse humana. Eu sou um sujeito, acho, que exijo consistência e profundidade naquilo que leio, mas com VW esqueço de tudo. Está frio em Porto Alegre e fiquei mais do que contente em afundar de novo no banho quente deste livro e isso, creio, foi devido aos personagens.

A história acompanha a família Ramsay e suas visitas à Ilha de Skye, na Escócia, de 1910 a 1920. Lá, há enormes ondas, há um céu sempre mudando de humor e, claro, há o brilho do farol. Quando você entra no fluxo da prosa, é difícil escapar. O estilo de escrita de Woolf é propositalmente inovador. Ela cria frases gigantescas seguidas por linhas abruptas e mais curtas. É quase um poema disfarçado de romance. Normalmente não sou fã de poesia. Sempre preferi uma experiência de leitura mais tangível, uma que não seja movida por imagens.

A proximidade com os personagens, a compreensão que VW tem deles é o que os tornou tão envolventes. Eles não são extraordinários — na verdade, até pelo contrário. São tipos intelectuais de classe média, do tipo que você encontra em muitos livros. Pode-se até dizer que eles não oferecem nada de novo, nada para surpreender ou excitar um leitor. No entanto, para mim, a familiaridade com eles era uma prova da habilidade com que foram descritos – porque todo mundo conhece alguém como eles. Virginia Woolf, em algumas centenas de páginas, pareceu capturar exatamente a essência de certas pessoas — certos traços, peculiaridades e maneirismos que posso reconhecer da minha vida, do meu mundo, apesar de estar a cem anos de distância.

Se a Sra. Ramsay é a baseada na figura da mãe de VW, o que dizer de Lily Briscoe? Sua posição fora da família Ramsay torna sua perspectiva uma das mais interessantes e importantes do romance. Sempre senti uma conexão emocional com Lily enquanto ela anseia pelo apoio e amor dos outros. Ela vê a família Ramsay como um símbolo idealizado de amor e união perfeita; no entanto, as outras perspectivas revelam uma realidade muito diferente. Lily é uma constante em todo o romance, assim como o próprio farol. Mesmo quando o tempo passa e certos personagens vêm e vão, Lily está sempre lá com sua pintura, otimismo e introspecção fascinante. Ela é feminina e independente, uma figura contrastante com a Sra. Ramsay. Ou melhor, a feminilidade convencional, representada pela Sra. Ramsay na forma de casamento e família, confunde Lily, e ela, bem, ela talvez seja VW x sua mãe.

Ah, o farol. É o fio condutor que atravessa todo o romance, aquele destino tão desejado pelos filhos da Sra. Ramsay e tão persistentemente evitado pelo Sr. Ramsay. A ênfase contínua em visitar o farol… Ele parece representar uma espécie de objetivo final inatingível. Quando James finalmente chega ao farol depois de anos querendo visitá-lo, ele percebe que ele não se compara ao farol que ele imaginou quando criança. É interessante ver o relacionamento de todos com o farol conforme o romance avança, especialmente na sua seção final.

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Compre o livro na Livraria Bamboletras, na Av. Venâncio Aires, 113. Ah, não mora em Porto Alegre? Use o WhatsApp 51 99255 6885. A gente manda!

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BamboFilmes: todos os filmes apresentados e o próximo — Cabra marcado para morrer

BamboFilmes: todos os filmes apresentados e o próximo — Cabra marcado para morrer

1. Sunset Boulevard (Crepúsculos dos Deuses), de Billy Wilder (1950)
2. As Vinhas da Ira, de John Ford (1940)
3. Pacto Sinistro, de Alfred Hitchcock (1951)
4. Prisão, de Ingmar Bergman (1949)
5. Rebecca, de Alfred Hitchcock (1940)
6. Amarcord, de Federico Fellini (1973)
7. Delírio de Loucura, de Nicholas Ray (1956)
8. O Sétimo Selo, de Ingmar Bergman (1957)
9. O Criado, de Joseph Losey (1963)
10. Vá e Veja, de Elem Klímov (1985)
11. O Espírito da Colmeia, de Victor Erice (1973)
12. A Infância de Ivan, de Andrei Tarkovski (1962)
13. Oito e Meio, de Federico Fellini (1963)
14. Profissão: Repórter, de Michelangelo Antonioni (1975)
15. O Desaparecimento (The Vanishing, Spoorloos), de George Sluizer (1988)
16. Zabriskie Point, de Michelangelo Antonioni (1970)
17. Morte em Veneza, de Luchino Visconti (1971)
18. Inverno de Sangue em Veneza (Don´t Look Now), de Nicolas Roeg (1973)
19. A Conversação, de Francis Ford Coppola (1974)
20. O Desprezo, de Jean-Luc Godard (1963)
21. Expresso para o Inferno, de Andrey Konchalovsky (1985)
22. Dersu Uzala, de Akira Kurosawa (1975)
23. Infiel, de Liv Ullmann (2000)
24. Infâmia (The Children’s Hour), de William Wyler (1961)
25. Morangos Silvestres, de Ingmar Bergman (1957)
26. Stromboli, de Roberto Rossellini (1950)
27. Bom dia, de Yasujiro Ozu (1959)

O próximo será “CABRA MARCADO PARA MORRER” (1984), de Eduardo Coutinho.

📢 LIVRARIA BAMBOLETRAS
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⏰ Horário: Segunda a sábado, das 10h às 19h.
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