O que vocês estão fazendo (II)

O que vocês estão fazendo (II)

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O que vocês estão fazendo (I)

O que vocês estão fazendo (I)

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O estado das coisas

O estado das coisas

Impossível pensar que a democracia vá resistir a uma eventual eleição de Flávio Bolsonaro. Viram o Bananinha ameaçando servidores de perseguição? E o Allan dos Santos, chamando os padres católicos de “viadinhos com esperma na boca que dão a bunda”. É essa gente que iria governar.

Ou seja, ou Flávio perde ou o país involui.

Esta é a opinião do PUM.

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Os dez melhores romances escritos por mulheres

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BamboFilmes — todos os filmes apresentados e o próximo: Andrei Rublev

BamboFilmes — todos os filmes apresentados e o próximo: Andrei Rublev

1. Sunset Boulevard (Crepúsculo dos Deuses), de Billy Wilder (1950)
2. As Vinhas da Ira, de John Ford (1940)
3. Pacto Sinistro, de Alfred Hitchcock (1951)
4. Prisão, de Ingmar Bergman (1949)
5. Rebecca, de Alfred Hitchcock (1940)
6. Amarcord, de Federico Fellini (1973)
7. Delírio de Loucura, de Nicholas Ray (1956)
8. O Sétimo Selo, de Ingmar Bergman (1957)
9. O Criado, de Joseph Losey (1963)
10. Vá e Veja, de Elem Klímov (1985)
11. O Espírito da Colmeia, de Victor Erice (1973)
12. A Infância de Ivan, de Andrei Tarkovski (1962)
13. Oito e Meio, de Federico Fellini (1963)
14. Profissão: Repórter, de Michelangelo Antonioni (1975)
15. O Desaparecimento (The Vanishing, Spoorloos), de George Sluizer (1988)
16. Zabriskie Point, de Michelangelo Antonioni (1970)
17. Morte em Veneza, de Luchino Visconti (1971)
18. Inverno de Sangue em Veneza (Don´t Look Now), de Nicolas Roeg (1973)
19. A Conversação, de Francis Ford Coppola (1974)
20. O Desprezo, de Jean-Luc Godard (1963)
21. Expresso para o Inferno, de Andrey Konchalovsky (1985)
22. Dersu Uzala, de Akira Kurosawa (1975)
23. Infiel, de Liv Ullmann (2000)
24. Infâmia (The Children’s Hour), de William Wyler (1961)
25. Morangos Silvestres, de Ingmar Bergman (1957)
26. Stromboli, de Roberto Rossellini (1950)
27. Bom dia, de Yasujiro Ozu (1959)
28. Cabra marcado para morrer, de Eduardo Coutinho (1984)
29. McCabe & Mrs. Miller, de Robert Altman (1971)
30. Se meu apartamento falasse, de Billy Wilder (1960)
32. Sunset Boulevard (Crepúsculo dos Deuses), de Billy Wilder (1950) — repetido a pedidos
33. O Silêncio, de Ingmar Bergman (1963)
34. Jules e Jim, de François Truffaut (1962)
35. Andrei Rublev, de Andrei Tarkovsky (1966)

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O meu eleitor é aquele que ora para alienígena e bebe detergente

O meu eleitor é aquele que ora para alienígena e bebe detergente

O deputado federal José Medeiros (PL, foto), que concorre ao Senado no Mato Grosso confessou que “O meu eleitor é aquele que ora para alienígena e bebe detergente”.

Ele está certo: a extrema direita vive da ignorância. Deem livros e educação pra essa gente e seus eleitores que eles somem.

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Zucco: esperar o que desse sujeito?

Zucco: esperar o que desse sujeito?

O candidato ao governo do Rio Grande do Sul, Luciano Zucco (PL) destinou uma única emenda para eventos ou cultura durante seu mandato como deputado federal: R$ 200 mil para o Dia da Família, realizado no final de 2025 em Santa Maria. A atividade reuniu de fiéis evangélicos a motoqueiros e incluiu a contratação, sem licitação, de um cantor gospel alinhado ao bolsonarismo.

Pobre do RS.

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Grandes Igrejas, Master Negócios

É brilhante a explicação do Caso Master no revelando.brasil do Instagram. Fábio Porchat e grande equipe fizeram um super trabalho. O trabalho foi tão bom que furou as bolhas e o Meta, “por engano”, tirou o vídeo do ar por algumas horas. O negócio é ir lá ver e compartilhar.

Por Luiz Artur Ferraretto (Ou seja, não é a opinião de um amador, muito pelo contrário).

POR QUE O VÍDEO COM O HUMORISTA FÁBIO PORCHAT É O MELHOR PRODUTO JORNALÍSTICO SOBRE O CASO MASTER?
​
É simples: por apresentar os fatos — todos de conhecimento da grande mídia — de forma lógica. Nenhum veículo jornalístico de porte fez isso.

Com apoio do ICL, Mídia Ninja e 342 Artes, o projeto Revelando é uma iniciativa do podcast Calma Urgente. Seu segundo episódio mostra as relações entre políticos de ultradireita, uma igreja neopentecostal, o banqueiro Daniel Vorcaro e integrantes do STF.

O material chegou a 6 milhões de visualizações e 140 mil compartilhamentos. Rapidamente, tornou-se o vídeo mais assistido no YouTube. No entanto, o perfil do Revelando foi tirado do ar no Instagram e só por pressão popular voltou.

​Qual o motivo para que a Meta aja assim? Até agora, não há uma resposta da big tech. Só para lembrar: as empresas de Mark Zuckerberg apoiam o governo Trump, defensor da candidatura de Flávio Bolsonaro, um dos citados na reportagem.

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Meus dez melhores romances brasileiros

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A Nobel de 2026 (um chute)

A Nobel de 2026 (um chute)

No ano passado, acertei o Nobel de Literatura. Todos sabiam que seria um homem — a alternância está definida — e que os votantes estavam liberados para votarem em quem quisessem. Apostei no melhor que conhecia, László Krasznahorkai. E acertei.

Neste ano, dizem que o Nobel vai para uma mulher. Minha favorita é Lídia Jorge. Dentre as citadas nas casas de apostas é a que acho melhor. Mas não conheço a maioria delas, claro.

Lidia Jorge

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O Senado e o Rio Grande do Sul

Nosso estado tem uma relação muito difícil com o Senado. Mandamos muita merda pra lá.

Recentemente tivemos um incrível bando de indiferentes, estólidos e inúteis como senadores do RS. O último que elegemos foi Hamilton Mourão (Republicanos), que nem quis saber de enchente nem nada. Nestes 4 anos, nem chegou perto do RS e talvez não lembre direito onde é o estado pelo qual se elegeu.

Antes, tivemos gente estulta como Luis Carlos Heinze (PP), Lasier Martins (PDT) e Ana Amélia Lemos (PP).

Acho que, este ano, temos obrigação de eleger Manuela (500, PSOL) e Pimenta (131, PT). Estamos devendo muito ao país. Ainda mais que Mourão ficará dormindo no Senado por mais 4 anos, imaginem!

O Van Rato todos sabem quem é, mas agora acabo de conhecer o tal Sanderson. Meu deus, o que é aquilo? Que idiota!

Na imagem de IA, Mourão e Lasier fazendo o que sabem.

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Assim estão o Inter e o Grêmio no Brasileiro de 2026

Internacional: apresenta um risco estimado de 68,4% de rebaixamento, impulsionado por um número de vitórias muito baixo na competição.

Grêmio: registra cerca de 59,4% de risco de queda, com um índice de dificuldade de tabela ligeiramente superior ao do rival.

Cenário Estadual: o modelo aponta 92,3% de probabilidade de que pelo menos um time gaúcho caia para a segunda divisão, com 35,5% de chance de rebaixamento duplo.

Para ambos faltam 10 jogos. O Inter jogará contra 5 adversários diretos: Corinthians, Grêmio, Mirassol, Vitória e Vasco. O Grêmio sei lá.

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O impostor, de Damon Galgut

O impostor, de Damon Galgut

Eu estou apaixonado pelos livros do sul-africano Damon Galgut, dos quais já li A Promessa, O Bom Médico e agora este. Aqui, Galgut vem com a história de Adam Napier um “poeta” que vai ao interior para escrever e acaba envolvendo-se nos negócios de um amigo de infância. O tema do livro parece ser… Posso ser ousado? Como a realidade às vezes desliza sob nossos pés sem que possamos fazê-la parar.

Damon Galgut sabe incomodar. Em seus romances, o essencial não é dito, fica ligeiramente fora de foco, naquela pequena fissura por onde começa a entrar a dúvida. Há no romance uma atmosfera de inquietação permanente. O leitor nunca está inteiramente seguro de onde pisa, não porque Galgut recorra a truques ou mistérios artificiais, mas porque seus personagens carregam consigo uma espécie de moralidade opaca. Como em A Promessa, a África do Sul não aparece apenas como cenário. O país, com sua história de violência, está dentro dos personagens, contaminando relações, ambições e medos. Não há teses, a política e a história estão presentes justamente porque fazem parte da vida.

Adam Napier é um poeta branco de quarenta e poucos anos. Perdeu o emprego — substituído por um jovem negro que ele mesmo treinou, numa ironia do pós-apartheid — e perdeu sua casa. Com poucas opções, aceita a oferta do irmão: mudar-se para uma casa em ruínas no interior a fim de “reencontrar a poesia”. Ele diz a si mesmo que é um retorno à vocação. Mas todos ao redor — e o próprio leitor — sabem que é um gênero de fuga.

É então que ele conhece Canning. Um homem estranho, agradão, que afirma ter sido seu colega de escola, dono de uma enorme propriedade de caça e casado com uma bela mulher negra, Baby. Adam não lembra dele, mas é obviamente um ex-colega, pois sabe tudo do passado de Adam. E este aceita o convite. Aceita o jantar. Aceita a bebida. Aceita a amizade. E, sem perceber, aceita entrar num mundo que ele acreditava poder apenas observar de fora.

E há o título, O Impostor. A palavra parece simples, mas vai adquirindo sentidos. O “impostor” é todo mundo. Adam finge ser um poeta. Finge lembrar de Canning. Finge ser um observador neutro, um homem sensível e moralmente superior ao irmão que se vendeu ao mercado. Canning finge ser um amigo, um homem de negócios respeitável, um marido amoroso. E a própria África do Sul pós-apartheid finge ser uma nação recuperada, uma nação que resolveu seus vergonhosos problemas com uma constituição e um sorriso. E Baby? Baby não finge nada. Ela simplesmente não corresponde ao que Adam e Canning projetam nela.

Galgut escreve com uma prosa sem nenhum excesso. Não levanta a voz. Uma mudança de perspectiva, uma frase aparentemente casual, um gesto mínimo são suficientes para alterar aquilo que pensávamos compreender. É uma literatura que nos puxa para dentro dela, que nos torna seus cúmplices nas incertezas.

Depois de O Bom Médico e A Promessa, eu tinha a impressão de conhecer um pouco o território de Galgut. O Impostor mostrou-me que não. E talvez esse seja um dos maiores elogios que se possa fazer a ele: quando terminamos um livro seu, não apenas queremos ler o próximo — queremos também ler os anteriores.

Galgut acertou novamente. O Impostor é Galgut antes dos Booker Prize, mas já em plena forma.

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Lista de livros do PGO

O Pequenas Grandes Obras (PGO) é o grupo de leituras de Livraria Bamboletras:

Março: O primeiro amor, de Ivan Turguêniev
Abril: A casa das belas adormecidas, de Yasunari Kawabata
Maio: Vidas secas, de Graciliano Ramos
Junho: Bartleby, de Herman Melville
Julho: Ao farol, de Virginia Woolf
Agosto: A hora da estrela, de Clarice Lispector
Setembro: Ratos e homens, de John Steinbeck
Outubro: O capote e outras histórias, de Nikolai Gógol
Novembro: Pedro Páramo, de Juan Rulfo

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As atuações na partida de ontem no STF

As atuações na partida de ontem no STF

Dedé Mendonça: é um estólido. Não tem a menor condição de estar onde está. Mal intencionado, além de vulgar e ignorante. Nem leu os autos — talvez não os tenha entendido –, mas o implante deu certo.

Zanin: calma e categoria. Não fez implante.

Dino: o dono do jogo. Inteligente, articulado, culto, sarcástico. Mandou em todos todo o tempo. Logo precisará de um implante.

Gilmar: atrás do escudo de Dino, saltava com espada na mão e tirava nacos da carne de Dedé. Se Dino faz ironia, Gil tenta alcançar a jugular. Macho alfa, não fará implante.

Xandão: muito esperto. Nem parecia ser um potencial réu. Vai espernear até o último momento. Se cair, vai levar junto o dedébil Dedé. Careca.

Fachin: lembro que estava sentado no plenário. Foi engolido por Dino que, por sinal, deveria fazer um regime. Nem um implante salva Fachin. Esse nunca deveria ter saído de Passo Fundo.

Carminha: tudo o que ela quer é brilhar e satisfazer a Globo. Seu objetivo oculto é chegar ao elenco da Família Addams. Magnífica cabeleira.

Fuck: o nome diz tudo. Acho que a peruca está muito comprida e caída para a frente. Ficaremos felizes se ela tapar todo seu rosto.

Pra que a porra daquela cruz?

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O mais laico dos Réquiens, o de Verdi

O mais laico dos Réquiens, o de Verdi

Escrito após o concerto de domingo (13/09/2026) na Casa da Ospa.

Quem viu, viu.

Dos 3 maiores Réquiens — os de Mozart, Brahms e Verdi (sem desejar ofender Fauré, Britten e Ligeti) –, o de Verdi é o de texto mais interessante. Todos também têm uma baita história de como os autores decidiram por escrever um Réquiem, uma melhor que a outra, mas a de Verdi é especial. Não vou contar tudo aqui, só o essencial. O Réquiem é dedicado ao escritor Alessandro Manzoni e, como Manzoni na juventude, o compositor italiano foi ateu e anticlerical em seus anos jovens e maduros. Só quando envelheceu deu uma olhadinha para a igreja. O texto de seu Réquiem fala em Deus, mas, sejamos claros, apesar de belíssimo, é um “Réquiem de Terror”. Ele pede para Deus que a morte não seja o fim. “Oh, Senhor, não permita que a morte seja eterna”. Não há anjinhos, paraísos ou diabos, há medo.

A essência do Réquiem de Verdi é esta: não há uma “narrativa” de anjos e diabos no sentido tradicional que associamos a outras obras sacras ou à imaginação popular. Não tem Deus na porta te recebendo. O que Verdi faz é algo psicológico e humano. Ele transforma o texto litúrgico em um drama de medo, terror e súplica. Isso mesmo: medo, terror e súplica. Parece minha mãe quando entrava num avião.

O Réquiem de Verdi não é bem uma missa, é a ópera da alma humana diante do vazio (ou não). É a fé transformada em drama, o latim católico ganhando a intensidade do palco italiano. Verdi, mestre do conflito, compõe o encontro entre o terror e a esperança, entre o grito e o sussurro (obrigado, INGMAR BERGMAN).

O Dies Irae (Dia da Ira) é o centro da obra: é a sequência mais famosa e aterrorizante. Nele, um cataclisma rasga o céu. Verdi pinta um quadro de juízo final com tímpanos trovejantes, trompetes e coro em uníssono gritando de pavor. Não há diabos com tridentes, há medo.

Diferente, por exemplo, do Fausto ou de certas peças, Verdi não coloca anjos e demônios disputando a alma de cada um da plateia. O drama está todo dentro do ser humano, de ti, que és um pecador que implora por misericórdia, aterrorizado com a possibilidade da condenação…

Ou seja, a súplica é humana. Os momentos de paz não são coros de anjos, mas vozes humanas pedindo descanso, réquiem. Aprendam, crianças: “Réquiem” significa repouso.

O final é muito ambíguo: a obra termina com o Libera Me, que é uma das páginas mais tensas já escritas. A soprano canta “Libera me, Domine” (Livrai-me, Senhor) com uma intensidade que beira o desespero, e o coro responde com um sussurro talvez apavorado. Não há resolução gloriosa — apenas um exausto pedido final.

Escrevi tudo isto para deixar claro que Verdi não escreveu para a igreja: escreveu para nós. E, paradoxalmente, ao humanizar o sagrado, ao secularizar o sacro, toca aquilo que imaginamos como sendo o divino. É música que não consola — perturba. Querem uma frase de efeito? O Réquiem de Verdi é a prova de que o medo da morte pode ser tão belo quanto o amor pela vida.

Agora sobre a execução da Ospa. O coro foi incrível, projetando em alto e bom som para plateia todo o desespero da partitura. Gostei também dos 4 solistas, mas concepção foi o mais importante. Não sei se foi por ter pensado em tudo o que explicitei acima, mas o fato é que tudo foi passado de uma forma muito bela e clara. Manfredo Schmiedt montou tudo — digo “montou” porque este Réquiem é quase uma ópera — com grande musicalidade e olha que a última vez que vi este Réquiem ser tocado na minha frente foi na Filarmônica de Berlim…

Sim, estou eufórico por meu fim de semana terminar com baita música, mesmo que ele só faça dizer memento mori, memento mori, memento mori… Meninos, novamente aprendam, esta expressão latina quer dizer “lembre-se de que você vai morrer”.

E vai, né?

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Ainda existem aveleiras, de Georges Simenon

Ainda existem aveleiras, de Georges Simenon

Este é um daqueles Simenon que merecem ser mais conhecidos por quem pensa que Simenon é apenas Maigret ou romances policiais ou “duros”. Nada disso, este é essencialmente um romance psicológico e familiar.

Vamos lá: há uma idade em que já não se espera que aconteça muita coisa. É desse território — o da velhice, da memória e da sensação de que o essencial já passou — que Georges Simenon extrai Ainda Existem Aveleiras, um de seus romances mais discretamente comoventes.

François Perret-Latour tem 75 anos e construiu uma vida de dinheiro, prestígio e hábitos rigorosos. Banqueiro aposentado, mora cercado por empregados e por uma existência perfeitamente organizada. Tudo parece sob controle até que notícias vindas dos Estados Unidos — a doença de sua primeira mulher e o suicídio de um filho que mal conheceu — fazem o passado retornar. Aos poucos, um desfile de outras questões familiares começam a perturbar aquela vida tão cuidadosamente ordenada.

Mas Simenon não está interessado em produzir grande tumulto. Perret-Latour vai alinhavando os panos quentes que utilizará. O que lhe interessa é observar as movimentações interiores causado por fatos da vida, alguns deles banais. Um telefonema, uma lembrança, uma conversa com a governanta, uma visita, uma notícia desagradável: são esses acontecimentos modestos que fazem Perret-Latour voltar a sentir-se vivo. É uma das grandes qualidades de Simenon: ele sabe que uma existência humana não precisa de acontecimentos extraordinários para conter um romance completo.

O título concentra essa ideia. Num passeio pelo campo, o velho banqueiro vê, numa sebe, algumas aveleiras que ainda dão frutos. A descoberta o surpreende: apesar dos aviões, das estradas, da transformação do mundo, ainda existem aveleiras. Ele próprio percebe que a conclusão é quase ingênua, mas não consegue deixar de se emocionar. As aveleiras tornam-se então uma pequena imagem daquilo que permanece quando quase tudo parece ter mudado: há ainda alguma coisa viva e simples.

E talvez seja justamente aí que o romance se distancia do Simenon mais sombrio. Não há aqui o pessimismo radical de alguns de seus romances duros. Há melancolia, certamente, mas também uma espécie de reconciliação com a vida. Perret-Latour descobre que envelhecer não significa necessariamente retirar-se do mundo. Pode significar, ao contrário, o encontro com coisas que a pressa, o dinheiro e o trabalho haviam impedido de enxergar.

Perret-Latour pode ter sido egoísta e distante, até mesmo responsável por algumas infelicidades, mas Simenon não o transforma em réu. Há uma curiosidade compassiva pelo ser humano, uma disposição para compreender suas pequenas covardias, seus arrependimentos e suas tentativas de reparar aquilo que ainda pode ser reparado. Também chama atenção a simplicidade da escrita. Simenon parece não fazer esforço algum para produzir literatura — e talvez justamente por isso produza tanta. Os diálogos são naturais, nada forçados, e as emoções não são anunciadas. Aparecem apenas nos gestos, nos silêncios.

Vocês sabem, Simenon é o anti-piegas. Mas Ainda Existem Aveleiras é um livro sobre a possibilidade de recomeçar quando já não esperávamos recomeço algum. E há uma delicadeza especial nisso: Simenon não promete uma redenção. Oferece algo muito mais modesto — e talvez mais verdadeiro. Uma pessoa pode ter desperdiçado anos, cometido erros, afastado pessoas e envelhecido. Ainda assim, alguma coisa permanece.

Afinal, ainda existem aveleiras.

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O bom médico, de Damon Galgut

O bom médico, de Damon Galgut

Damon Galgut tem uma premiadíssima obra-prima em seu currículo: A promessa — livro vencedor do Booker Prize de 2021, entre outros vários prêmios. Por isso, fui procurar outros livros dele. Em O bom médico, ele conta a história do encontro entre dois médicos num hospital miserável do interior da África do Sul. Pouco depois do fim do apartheid ninguém sabe muito bem como será o novo país e Galgut bota sua lente no conflito entre duas pessoas: uma que desistiu de agir e outra que acredita, talvez ingenuamente, que ainda é possível mudar o mundo. Publicado em 2003 e finalista do Booker Prize daquele ano, o romance se passa no interior da África do Sul. O hospital, abandonado e decadente, torna-se uma espécie de miniatura da própria África do Sul: o regime mudou, mas o passado (e a pasmaceira) continua instalado nas paredes.

O narrador, Frank Eloff, é um médico que já perdeu a fé em quase tudo. Profissional competente, mas acomodado, carrega uma espécie de culpa histórica e pessoal: seu passado inclui uma hesitante experiência no Exército durante o apartheid. Ele não espera mais nada daquele lugar e, sobretudo, não acredita em grandes gestos. É justamente por isso que a chegada de Laurence Waters, jovem médico idealista, o incomoda tanto. Laurence acredita que a medicina pode transformar a realidade e se empenha em levar atendimento às comunidades pobres. O conflito entre os dois é rico porque Galgut não transforma Laurence no “bom médico” do título de maneira simples. Seu idealismo contém generosidade, mas também vaidade, imprudência e uma espécie de desejo de se sentir moralmente superior.

E aqui está, para mim, a grande inteligência do romance: Galgut não adere nem ao cinismo, nem ao idealismo. Frank sabe que o mundo é complicado e, por isso, não faz quase nada… Laurence acredita que sabe como o mundo deve ser e, justamente por isso, acaba produzindo coisas que carregarão consequências que não consegue controlar… O primeiro peca pela omissão; o segundo, pela ação irrefletida. Entre ambos fica uma pergunta terrível: é melhor não fazer nada diante da injustiça ou agir, mesmo correndo o risco de fazer mal?

A África do Sul pós-apartheid é mais do que cenário. O hospital situa-se num antigo território criado para a população negra, e sua decadência material parece representar a dificuldade de simplesmente decretar que o passado acabou. A democracia chegou, mas as estruturas, os ressentimentos, a desigualdade e a violência continuam presentes. O apartheid está muitas vezes nas margens, nas relações entre as pessoas e na sensação de que todos carregam alguma coisa que prefeririam esquecer. Li algumas críticas que chamam a atenção precisamente para essa tensão entre passado e presente e para a persistência das divisões sociais e raciais.

Também é importante a forma como Galgut conta a história. Frank é um narrador pouco confiável, não necessariamente porque mente deliberadamente, mas porque enxerga o mundo a partir de suas próprias feridas, ressentimentos e limitações. Ele interpreta Laurence, sua amante Maria, os colegas e os acontecimentos — e a gente não acredita muito nele. Eu, pelo menos. Essa ambiguidade é uma das razões pelas quais o romance é tão interessante.

Há ainda uma questão que acho particularmente bonita: o que significa ser “bom”? Um bom médico é aquele que cura? Aquele que tenta ajudar? Aquele que respeita os limites de uma situação? Aquele que assume responsabilidades? Ou aquele que simplesmente não consegue assistir passivamente ao sofrimento? (Como comuna, sempre desconfiei de quem faz caridade, mas isso não vem ao caso). Galgut parece sugerir que a bondade, quando se transforma em certeza sobre o próprio papel no mundo, pode se tornar perigosa. (Nota: não gosto muito dos pró-ativos). E, ao mesmo tempo, o cinismo de Frank não é uma forma superior de lucidez: é também uma maneira de fugir.

Por isso, O Bom Médico é interessante não apenas pela questão do apartheid — que já renderia uma longa conversa —, mas porque permite discutir coisas muito próximas de nós: idealismo, culpa, responsabilidade, omissão, desejo de ser uma pessoa boa e, sobretudo, a dificuldade de distinguir uma boa intenção de uma boa ação. Sim, é na zona desconfortável entre esperança e fracasso que este romance realmente vive.

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O Concerto Nº 2 de Brahms pela Ospa

O Concerto Nº 2 de Brahms pela Ospa

Dois verdadeiros artistas, dois verdadeiros poetas. O maestro francês Martin Lebel e o pianista suíço Homero Francesch nos trouxeram, junto à Ospa, toda a dimensão do por si imenso Concerto nº 2 para Piano e Orquestra de Johannes Brahms. Obra da maturidade do compositor, eles fizeram com que tudo o que fosse humano na sala se arrepiasse.

Como disse o pianista e professor Fernando Rauber Gonçalves nas Notas de Concerto, há compositores tardios (como também Bach) que não estão requentando velhas fórmulas, como alguns de seus contemporâneos pensavam, mas indicando caminhos. Arnold Schoenberg, o cúmulo da vanguarda em sua época, citado por Rauber, considerava Brahms um compositor inovador e revolucionário, cunhando o famoso ensaio “Brahms, o progressivo”, de 1947. Schoenberg, primeiro em palestras pelo rádio e depois por escrito, defendia que Brahms não era um tradicionalista, mas alguém que expandiu a linguagem musical — até estraçalhar nossos corações, completo eu.

E talvez seja justamente isso que torna o Segundo Concerto tão extraordinário. Sua arquitetura monumental não é um tour de force, mas uma construção profundamente humana. Brahms escreve para um instrumento gigantesco — a orquestra — e, ao mesmo tempo, para o íntimo de quem escuta. Há momentos de enorme força e som, mas também há delicadezas de suspender o tempo. O segundo movimento, com sua fúria e seu lirismo, e sobretudo o terceiro, com aquele maravilhoso diálogo entre piano e violoncelo…

Aliás, no começo do terceiro movimento — o Nº 2 tem quatro –, sentado no meu mezanino de sempre, consultei o ChatGPT e fiz a pergunta “O Concerto 2 de Brahms não parece ter 2 primeiros movimentos?”. As IAs gostam de dar estímulos positivos, enchendo a bola da gente, né? Ela respondeu que era uma observação genial de minha parte… Não, não há nada de gênio em mim, os dois primeiros movimentos são de tempos rápidos, grandiosos, daqueles que pedem aplausos. Pô, fica muito claro que Brahms não está seguindo o modelo tradicional de concerto em três movimentos. Ele expaaaaande a forma. O segundo movimento muda o centro de gravidade da obra antes de chegarmos ao verdadeiro movimento lento. Eu não sei porque ele fez aquilo, sei que o “desequilíbrio” funciona.

O primeiro movimento começa de maneira quase desconcertante. Em vez de uma abertura triunfal, temos aquele tema da trompa, lindo e interrogativo, que convida o piano a entrar. Este entra respondendo à orquestra. É uma música de enorme extensão, mas o drama é sobretudo interior. A relação piano-orquestra é muito mais complexa do que a de solista contra acompanhamento. Quando termina, pensamos que lá vem o movimento lento.

Mas não. Entra um Allegro appassionato. É quase como se alguém tivesse aberto uma porta e, de repente, estivéssemos em outro lugar (ou com outro compositor). A diferença de caráter é enorme. A música fica mais física, mais violenta. O piano deixa de ser aquele interlocutor do primeiro movimento e passa a participar de uma verdadeira luta dramática. E o mais curioso é que Brahms chamava isso de scherzo. Não vou discutir com ele.

Só que não há praticamente nada daquele scherzo leve e brincalhão tipo Beethoven e Bruckner. É algo sombrio e apaixonado, talvez trágico.

É aí que surge a impressão de que existem dois primeiros movimentos.

Há uma história deliciosa: quando Brahms foi estrear este Concerto pela primeira vez, em 1881, teria dito um amigo que “A nova peça é muito bonita, mas é pequena”. (Dizem que ele estava velho e tocava mal seu próprio concerto).

Já Francesch, de 78 anos e em perfeita forma, tocou Brahms com um som muito convincente e entendendo que o piano não era o protagonista absoluto. O instrumento respirava dentro da orquestra. E Lebel levou a coisa sem muito peso, de forma muito moderna, deixando aflorar o movimento e a tensão que nunca deixam a música repousar completamente.

A duração de 50 minutos do concerto me deixou mobilizado por todo o tempo. É longo, sim, mas não senti o tempo passar. Sim, foi um momento raro. Brahms não pareceu um compositor do passado. Pareceu alguém que estava ali, descobrindo algo conosco. É para isso que existem os grandes músicos: para fazer com que uma obra que conhecemos nos pareça, de repente, desconhecida.

E para que, por alguns momentos, tudo o que há de humano numa sala se arrepie.

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Tomou um tiro e deu

Tomou um tiro e deu

Já adianto que essa ideia de mandar o Pezzolano embora é burra. Por incrível que pareça, o Inter fez um bom primeiro tempo, mas é como aquele cara que faz evoluções com uma cimitarra na frente do Indiana Jones. Tomou um tiro e deu.

O Inter não sabe fazer gols. Não tem um artilheiro, nem um bom atacante de lado. Sei que é mais fácil demiti-lo, claro, só que o fato é que Pezzolano é um lutador sem armas. Em caso de demissão, sugiro chamar o Roth…

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