Elena

Elena

Hoje é teu aniversário, Elena. Diz o Google que tu nasceste a 12.138 Km de onde nasci. Isso em linha reta porém curva, porque a terra é redonda, sabemos. Não sei o que mais admiro em ti. Tua boa conversa, tua beleza, teu companheirismo, tua inteligência, teu humor ácido — de que sou a vítima preferida –, tua elegância difícil de caracterizar. Mesmo quando vestes uma de minhas camisetas furadas de andar em casa, pareces perfeitamente composta. Tu vestes aquilo de um jeito que sei lá. Pareces uma nobre vítima de um naufrágio ou uma aristocrata que está camuflada em casa. Eu? Eu me sinto como a camiseta, ora. Aliás, perto de ti, sempre fui a camiseta puída que teve sorte. E que fica feliz.

Não vou colocar uma foto tua com uma de minhas camisetas porque podes provocar paixões, então vai uma tirada em 2020. Sabes onde estavas?

Bamboletras recomenda só livros sensacionais

Bamboletras recomenda só livros sensacionais

A newsletter desta quarta-feira da Bamboletras.

Silvina Ocampo (1903-1993)

Olá!

Ah, vocês pensam que a gente está exagerando? Pois não estamos não. Estamos indicando o início da Quadrilogia das Estação de Karl Ove Knausgård, o segundo livro lançado no Brasil da grande Silvina Ocampo e o delicado relado dos dias finais de García Márquez (com fotos). Viram? Não estávamos brincando! Veja abaixo!

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Outono, de Karl Ove Knausgård (Cia. da Letras, 208 páginas, R$ 69,90

Quem leu a série Minha Luta, sabe que Karl Ove Knausgård faz descrições como ninguém. E agora ele retorna com uma sensível e encantadora Quadrilogia das Estações. Outono, primeiro volume da nova série, é uma coletânea da aguçada observação do autor sobre a vida que o cerca. “28 de agosto. Agora, enquanto escrevo, você não sabe nada a respeito de nada – o que a espera, em que tipo de mundo você há de surgir.” Assim começa Outono: com uma carta de Karl Ove Knausgård para a filha que ainda não nasceu, contando-lhe o que deve esperar ao vir à luz. Com breves capítulos que tratam do mundo material e natural, ele descreve os mais diversos elementos com a precisão e a intensidade hipnotizantes que se tornaram sua marca. De forma sensível, relata também os dias ao lado de sua esposa e de seus filhos na zona rural da Suécia, baseando-se nas memórias de sua própria infância para dar uma perspectiva inigualável sobre a relação entre pais e filhos. Nada é pequeno ou grande demais para escapar de sua atenção.

As Convidadas, de Silvina Ocampo (Cia. das Letras, 264 páginas, R$ 79,90)

Segundo livro da autora argentina publicado no Brasil, As Convidadas reúne 44 contos breves em que fantasmas emergem de fotos, crianças surdas-mudas criam asas e o absurdo irrompe de fatos e objetos cotidianos para destroçar a monotonia das relações familiares. Uma das escritoras fundamentais do século XX, Silvina Ocampo vem sendo revalorizada com entusiasmo nos últimos anos. Seu nome é cada vez mais citado como referência por uma nova geração de autoras que tem alcançado protagonismo nas letras latino-americanas, e sua obra começa a sair da sombra de figuras como Adolfo Bioy Casares e Jorge Luis Borges, que faziam parte de seu grupo literário em Buenos Aires. As Convidadas, lançado originalmente em 1961, é considerado emblemático em sua maturidade estilística. As obsessões da escritora, como as crianças que agem de maneira enigmática e muitas vezes parecem mimetizar os adultos, chegam-nos já no primeiro conto, “Assim eram seus rostos”, até atingirem uma apoteose no texto que dá título ao livro. Nele, um garoto enfermo é deixado a sós com a empregada em seu aniversário de seis anos, quando recebe como convidadas meninas estranhíssimas, vindas sabe-se lá de onde. O desfecho é uma síntese do humor absurdo presente na prosa de Silvina, sempre atravessada por elementos insólitos e perturbadores.

Gabo & Mercedes: Uma despedida, de Rodrigo García (Record, 112 páginas, R$ 64,90)

O relato íntimo dos últimos dias de um dos maiores autores da literatura mundial, Gabriel García Márquez, e de sua esposa e musa inspiradora Mercedes Barcha, escrito pelo filho mais velho do casal, Rodrigo García. Em 2014, aos 86 anos, Gabriel García Márquez, um dos escritores de língua espanhola mais queridos do mundo e vencedor do Prêmio Nobel de Literatura, pegou um resfriado. “Desta, a gente não sai”, disse Mercedes Barcha, sua esposa havia mais de cinquenta anos, a Rodrigo, filho mais velho deles. Para tentar dar sentido ao período difícil que a família teria pela frente, Rodrigo começa a colocar em palavras detalhes daqueles dias que ficariam para sempre em sua lembrança. O resultado é uma crônica forte e emocionante dos últimos momentos do mestre latino-americano e de sua musa inspiradora, que nos deixou seis anos depois de perder seu amado Gabo. Com talento, respeito e delicadeza, Rodrigo García traça um retrato comovente e revelador de uma família que sofre com a perda de um ente querido e transforma uma das mentes mais brilhantes da literatura internacional em um memorável protagonista. Em um encarte com fotos, ele relembra os dias de glória do pai como escritor, momentos marcantes do casamento dele com Mercedes e da vida em família.

Que livro!

Não deem bola para a horrível capa desta edição espanhola. Este é um livro absolutamente apaixonante que me foi indicado pela Elena. Trata-se de “Galina”, a autobiografia da cantora lírica soviética Galina Vishnevskaya. É um documento humano de raríssima qualidade e, puxa vida, ela é uma escritora genial. Esposa de Mstislav Rostropovich, artista talvez maior que o marido, ela consegue ser engraçada, trágica, irritadíssima e temperamental como a diva que era, e sempre envolvente e inteligente. Tive que comprar o livro em espanhol após a Elena ter me INTIMADO. “Tu tem que ler ‘Galina’, tu vai adorar! Lê em inglês ou espanhol, no que tiver, mas lê”. Não há uma tradução para o português, o que é um CRIME. Escrito no exílio, poucas vezes li um texto de tamanha sinceridade. Talvez apenas em Bernhard. Todo o sistema artístico da URSS está lá descrito, assim como suas irritações com os norte-americanos durante as excursões em concertos. O que são aqueles capítulos sobre sua professora de canto? São 344 páginas — em inglês e russo o livro tem mais de 500 páginas, os espanhóis trataram de deixar a letra bem pequena… — para serem lidas de joelhos e nem hay que tener un español así tan bueno. A clareza das frases e dos raciocínios apontam para uma pessoa indiscutivelmente genial. Fala de si, mas em nenhum momento deixa de lado o cenário todo. Que mulher! Agora mesmo dei risadas — tive que interromper a leitura — durante uma briga do célebre casal. Se este livro aparecer na sua frente, agarre-o com firmeza. Não haverá arrependimento, garanto.

Um exemplo do humor do livro:

Bamboletras recomenda Jessé, Sidarta e poesia

Bamboletras recomenda Jessé, Sidarta e poesia

A newsletter desta quarta-feira da Bamboletras.

Olá!

Desta vez, excepcionalmente, não recomendaremos nenhum livro de ficção, mas dois ensaios brasileiros e um livro de poesia em edição bilíngue. O de Jessé Souza fala de como o povo brasileiro foi estigmatizado por seus intelectuais. Sidarta Ribeiro fala sobre o fim do mundo e isto não é uma metáfora. Já a Prêmio Nobel Louise Glück vem com belos poemas que não chegam a ser leves, mas que se viram bem na escuridão (leia abaixo).

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Brasil dos Humilhados, de Jessé Souza (Civilização Brasileira, 252 páginas, R$ 39,90)

Com texto de fácil leitura, Brasil dos Humilhados mostra as bases elitistas do pensamento social brasileiro dominante. Aquele mesmo que culpa o povo, supostamente inferior, pelas mazelas do país. O livro expõe como as elites econômicas e políticas se apropriam dos “intelectuais” para aumentar seu domínio sobre a população. Essa visão depreciativa do povo brasileiro foi determinada pelas ideias dos intérpretes mais importantes do país, como Sérgio Buarque de Holanda, e trazida até a atualidade por outros pensadores fundamentais, como Raymundo Faoro e Roberto DaMatta, influenciando a maior parte da inteligência nacional até hoje. Com esta legitimação científica, tal tolice se alastrou por toda a sociedade: das elites industriais, financistas e da mídia aos partidos políticos, da direita à esquerda. Isso fez com que crescessem estigmas sobre a suposta corrupção do povo, sobre a miséria criada por culpa própria e sobre a preguiça, criando uma autoimagem do Brasil como nação sem futuro e da percepção dos brasileiros como seres desprovidos de virtudes.

Sonho Manifesto, de Sidarta Ribeiro (Cia. das Letras, 204 páginas, R$ 44,90)

Mantido o rumo atual da vida na Terra, o futuro é impossível. Em seu novo livro, o autor de O oráculo da noite compartilha conhecimentos de cientistas, pajés, xamãs, mestras e mestres de saber popular, artistas e inventores que nos lembram da importância de sonhar coletivamente com o futuro do planeta. Há cerca de 100 mil anos, um grupo da espécie Homo sapiens fundou a linhagem que veio a conquistar todo o planeta. Uma estirpe violenta em que os mais fortes frequentemente oprimem os mais fracos, mas que também são capazes de muito altruísmo e extremados cuidados parentais. A constatação desse paradoxo é o ponto de partida de Sidarta Ribeiro em seu novo livro. Em Sonho manifesto, o renomado neurocientista denuncia a profundidade da crise ambiental e social ao mesmo tempo em que celebra a oportunidade única que temos hoje de expandir a consciência planetária. O caminho para esse sonho coletivo, diz o autor, é o resgate do melhor de nossa ancestralidade. Pesquisador inquieto, Ribeiro reúne dezenas de histórias de griôs da África ocidental, mestres de Capoeira, babalorixás, xamãs e pajés dos povos originários, além de dados sobre pesquisas científicas recentes e relatos das mais diversas tradições como budismo e taoismo.

Receitas de Inverno da Comunidade, de Louise Glück (Cia. das Letras, 88 páginas, R$ 49,90)

Este é o primeiro livro da poetisa após ter sido laureada com o Prêmio Nobel de Literatura de 2020. Em edição bilíngue, esta é uma coletânea enxuta, de apenas quinze poemas. Neles estão os temas que consagraram Louise Glück como uma das maiores vozes da literatura contemporânea: a solidão, a exaustão, o trauma, as descobertas da juventude e as reflexões que acompanham o envelhecimento. Seus poemas — que mesclam ensaio, ficção, mitologia, psicanálise e filosofia, na forma de épicos condensados — são capazes de iluminar as fragilidades da alma humana. Receitas de inverno da comunidade é um livro poderoso sobre a vulnerabilidade. Ao refletir sobre a finitude, Louise Glück trata de dramas individuais que são comuns a todos nós: “Nunca fui muito boa com coisas vivas./ Com luminosidade e escuridão me viro bastante bem”.

A Livraria, de Penelope Fitzgerald

A Livraria, de Penelope Fitzgerald

Para mim, uma decepção. Este é um livro sobre uma livraria, só que não fala em livros, fala da dificuldade de estabelecer uma empresa do gênero em uma pequena cidade costeira na Inglaterra. Talvez o problema seja eu, talvez tenha errado ao esperar outra coisa.

A viúva de meia-idade Florence Green tem energia de sobra e decide abrir a única livraria de Hardborough. Porém, Florence passa e enfrentar certa oposição a seu projeto. A influente “dona da cidade” Violet Gamart tinha outros planos para a centenária casa que Florence escolheu para a livraria e deseja que ela se mude. Ou suma de uma vez. Ela faz de Florence sua inimiga.  Num ambiente de inveja e pequenas maldades, o romance narra a luta de Florence.

Na superfície, A Livraria é apenas isso — uma história sobre a vida em uma pitoresca vila à beira-mar, mas também é algo completamente diferente. Embora haja aqueles toques da vida pitoresca e aconchegante da vila inglesa, em sua essência, o livro é principalmente sobre o rancor e o rancor que sobe à superfície da vila quando Florence Green, uma viúva que acaba de se mudar para Hardborough, decide abrir uma livraria. Enquanto no final da década de 1950, tal abertura poderia ter sido vista como um acontecimento para a pequena vila, logo se torna óbvio que não é o caso. Muitos veem Florence como tendo ultrapassado os limites sociais ao comprar um prédio que era procurado para outros fins e esse fato resulta em muito sofrimento para essa viúva de bom coração.

Com algo de um conto melancólico, A Livraria é, em última análise, mais do que sobre apenas uma livraria. É uma história sobre moral, sobre como tratamos os outros, sobre a vida em uma pequena vila e as questões e complexidades que surgem. 

Ah, a revisão da Bertrand Brasil não atrapalha a leitura do livro, mas há vários erros pelo caminho.

Penelope Fitzgerald (1916-2000): conto melancólico

 

Dia 5 de maio, Dia da Língua Portuguesa

Por Eduardo Afonso

“Volta e meia alguém olha atravessado quando escrevo “leiaute”, “becape” ou “apigreide” – possivelmente uma pessoa que não se avexa de escrever “futebol”, “nocaute” e “sanduíche”.

Deve se achar um craque no idioma, me esnobando sem saber que “craque” se escrevia “crack” no tempo em que “gol” era “goal”, “beque” era “back” e “pênalti” era “penalty”. E possivelmente ignorando que esnobar venha de “snob”.

Quem é contra a invasão das palavras estrangeiras (ou do seu aportuguesamento) parece desconsiderar que todas as línguas do mundo se tocam, como se falar fosse um enorme beijo planetário.

As palavras saltam de uma língua para outra, gotículas de saliva circulando em beijos mais ou menos ardentes, dependendo da afinidade entre os falantes. E o português é uma língua que beija bem.

Quando falamos “azul”, estamos falando árabe. E quando folheamos um almanaque, procuramos um alfaiate, subimos uma alvenaria, colocamos um fio de azeite, espetamos um alfinete na almofada, anotamos um algarismo.

Falamos francês quando vamos ao balé usando um paletó marrom, quando fazemos um croqui ou uma maquete com vidro fumê; quando comemos uma omelete ou pedimos na boate um champanhe ao garçom; quando nos sentamos no bidê, viajamos na maionese, ou quando um sutiã (sob o edredom) provoca uma gafe – ou um frisson.

Falamos tupi ao pedir um açaí, um suco de abacaxi ou de pitanga; quando vemos um urubu ou um sabiá, ficamos de tocaia, votamos no Tiririca, botamos o braço na tipoia, armamos um sururu, comemos mandioca (ou aipim), regamos uma samambaia, deixamos a peteca cair. Quando comemos moqueca capixaba, tocamos cuíca, cantamos a Garota de Ipanema.

Dá pra imaginar a Bahia sem a capoeira, o acarajé, o dendê, o vatapá, o axé, o afoxé, os orixás, o agogô, os atabaques, os abadás, os babalorixás, as mandingas, os balangandãs? Tudo isso veio no coração dos infames “navios negreiros”.

As palavras estrangeiras sempre entraram sem pedir licença, feito uma tsunami. E muitas vezes nos pegando de surpresa, como numa blitz.

Posso estar falando grego, e estou mesmo. Sou ateu, apoio a eutanásia, gosto de metáforas, adoro bibliotecas, detesto conversar ao telefone, já passei por várias cirurgias. E não consigo imaginar que palavras usaríamos para a pizza, a lasanha, o risoto, se a máfia da língua italiana não tivesse contrabandeado esse vocabulário junto com a sua culinária.

Há, claro, os exageros. Ninguém precisa de um “delivery” se pode fazer uma “entrega”, ou anunciar uma “sale” se se trata de uma “liquidação”. Pra quê sair pra night de bike, se dava tranquilamente pra sair pra noite de bicicleta?

Mas a língua portuguesa também se insinua dentro das bocas falantes de outros idiomas. Os japoneses chamam capitão de “kapitan”, copo de “koppu”, pão de “pan”, sabão de “shabon”. Tudo culpa nossa. Como o café, que deixou de ser apenas o grão e a bebida, para ser também o lugar onde é bebido. E a banana, tão fácil de pronunciar quanto de descascar, e que por isso foi incorporada tal e qual a um sem-fim de idiomas. E o caju, que virou “cashew” em inglês (eles nunca iam acertar a pronúncia mesmo).

“Fetish” vem do nosso fetiche, e não o contrário. “Mandarim”, seja o idioma, seja o funcionário que manda, vem do portuguesíssimo verbo “mandar”. O americano chama melaço de “molasses”, mosquito de “mosquito” e piranha, de “piranha” – não chega a ser a conquista da América, mas é um começo.

Tudo isso é a propósito do 5 de maio, Dia da Língua Portuguesa, cada vez mais inculta e nem por isso menos bela. Uma língua viva, vibrante, maleável, promíscua – vai de boca em boca, bebendo de todas as fontes, lambendo o que vê pela frente.

Mais de oitocentos anos, e com um tesão de vinte e poucos.

Louis Ferdinand Céline: os misteriosos manuscritos agora publicados

Louis Ferdinand Céline: os misteriosos manuscritos agora publicados

Do perfil de Rosa Freire d’Aguiar no Facebook

Chega amanhã às livrarias na França uma pérola: o romance “Guerre”, de Céline, escrito em 1934, e cujos originais estavam esquecidos (ou escondidos?) há quase 90 anos não se sabe onde. O polêmico escritor francês, de quem eu traduzi 3 livros editados pela Companhia, teria escrito “Guerre” por volta de 1934, e o guardou em casa por dez anos, no apartamento de Montmartre. Em junho de 1944, Céline, que colaborara abertamente com o ocupante nazista e publicara infectos panfletos antissemitas, deixou a França às pressas antes que fosse preso por colaboracionismo com o inimigo. Não teve como levar todos os manuscritos. Seu apartamento foi logo invadido por vizinhos que lutavam na Resistência e que, por sua vez, tiraram de lá umas 6 mil laudas — entre elas, as de “Guerre”.

Depois, ninguém sabe o que aconteceu com esse tesouro literário. Sessenta anos mais tarde,, foram entregues (por quem? por quê?) a um jornalista, que contactou os herdeiros, que não quiseram saber dele. Então o jornalista entregou os manuscritos à polícia.

A editora Gallimard, sabendo disso, logo se interessou em publicá-los. Amanhã sai o primeiro inédito. “Guerre” conta a história de um soldado na Primeira Guerra Mundial, salvo por um inglês e que, depois da convalescença, vai para Londres. O próprio Céline participou da Primeira Guerra.
“Londres”, aliás, será o segundo romance dessa série de inéditos.

O trabalho de edição, feito por um historiador, não foi fácil. Céline era médico e tinha “letra de médico”, aqui e ali ilegível, e o manuscrito trazia abreviações, rasuras, acréscimos entre as linhas, palavras e trechos impossíveis de decifrar, e que por isso virão entre colchetes.

Uma dúvida que cerca essa história é por que Céline não teria publicado o livro? Afinal, em 1934 já era o bem-sucedido autor de “Viagem ao fim da noite” (1932). E pouco depois publicaria o segundo romance, ‘Morte a crédito” (1936). Não se sabe a razão. Mas o mistério chegou ao fim e descobriu-se um grande texto, diz a imprensa. Um romance “breve, vivo, trágico e lúbrico, a ser posto ao lado das obras-primas do escritor”, escreveu o Le Monde.

A Sinfonia Nº 4 de Brahms

A Sinfonia Nº 4 de Brahms

Fonte principal: o Symphony Guide do Guardian

Johannes Brahms (1833-1897)

No próximo sábado, dia 7 de maio, a Ospa apresentará a Sinfonia Nº 4 de Brahms. Ah, também está no programa o Concerto para Piano Besame Mucho de Schumann, interpretado pelo excelente Jean Louis Steuerman. Mas meu foco vai para o que me interessa, a Sinfonia de Brahms.

É curioso. Em vida e a contragosto, Brahms foi chamado de conservador e reacionário em contraposição a Wagner, o revolucionário. Como os wagnerianos acabaram por dominar a maior parte da crítica na virada do século, demorou muito para que a obra de Brahms fosse colocada no lugar que merecia. Um dos que mais contribuíram para mudar esse estado de coisas foi Arnold Schoenberg, que expôs, numa conferência realizada nos Estados Unidos em 1933, o quanto Brahms era inovador. Tanto Schoenberg quanto Brahms foram fiéis à essência da música de câmara e a algumas de suas técnicas de composição — como a variação contínua dos motivos e a diversidade nos modos de repetição — que permitiam criar diferentes perspectivas da mesma prosa musical.

As primeiras pessoas a ouvirem a Quarta Sinfonia de Brahms em 1885 ficaram surpresas, muito surpresas, tanto que cometeram heresias, em minha opinião… Em dois pianos, acompanhado, é claro, por outro pianista, Brahms tocou a sinfonia em um sarau para um grupo de amigos próximos e a reação foi um daqueles silêncios desconfortáveis. Eduard Hanslick comentou: “Sinto que acabei de ser espancado por duas pessoas terrivelmente inteligente”. Outro, o escritor Max Kalbeck, apareceu no apartamento de Brahms no dia seguinte para recomendar que o compositor não mostrasse a peça ao público na forma mostrada no sarau. Em vez disso, ele sugeriu manter o final como uma peça independente e substituir tanto o movimento lento quanto o scherzo. (Para nós, isso soa como rematada loucura). Tudo isso criou enormes dúvidas em Brahms… Ele não tinha mais certeza de que permitiria que a peça tivesse vida além de sua estreia. Mas a recepção altamente positiva da obra por parte do público convenceram Brahms de que a Quarta Sinfonia deveria sobreviver. Um correspondente do Neue Musik-Zeitung noticiou o “enorme sucesso” da obra considerando-a “a conquista mais poderosa” de Brahms no domínio sinfônico.

Como sugeri acima, tais fatos são difíceis de acreditar hoje em dia, quando a Quarta Sinfonia de Brahms é apresentada em programas de concerto como uma obra infalível, com suas lindas melodias, sua melancolia confortavelmente familiar e apelo aparentemente fácil para músicos, maestros e plateias. Mas tente ouvi-la com total concentração. Ouça-a com se fosse uma novidade — ou com velhos ouvidos do final século XIX… Na verdade, ela contém algumas das músicas mais sombrias e profundas de que se tem notícia. Aqueles primeiros comentaristas estavam certos — não em termos de fracasso da obra –, mas no sentido da intransigente complexidade intelectual, expressiva tragédia e refinamento dessa música. Por exemplo, o movimento final, a passacaglia, termina com uma das melodias mais soturnos da música sinfônica.

Ouvindo-a com atenção, ficamos conscientes de que esta é uma música escrita para machucar emocionalmente o ouvinte. A gente se dá conta de que é bizarra a ideia de que a Quarta Sinfonia de Brahms represente uma sessão agradável na sua sala de concertos preferida. O que você está ouvindo nela é a impossibilidade de um final feliz. Jan Swafford vai ainda mais longe, chamando a peça de “uma canção fúnebre” que “narra uma progressão de um crepúsculo para uma noite escura”. Em vez das trajetórias “da escuridão para a luz” de tantas sinfonias em tom menor do século XIX — pensem da Quinta e Nona de Beethoven, ou de todas as sinfonias em tons menores de Bruckner –, Brahms faz o caminho contrário. Para o musicólogo Reinhold Brinkmann, “os corais de Brahms na 1ª e a 3ª Sinfonias ressoam como ‘esperança’, mas, com seu final negativo, a 4ª revoga essa esperança”.

O primeiro movimento (Allegro non troppo) é em forma de sonata, mas não o compositor não se mostra tão fanático pelas regras. Por exemplo, não há repetição da exposição, a música é continuamente desdobrada. O tema de abertura é sereno e fragmentado dando-nos um leve sentimento de conflito.

O Andante Moderato é lindo, com uma sonoridade estranhamente antiga. O Allegro giocoso chegou a ser utilizado — em formato resumido — pelo grupo de rock progressivo Yes, na faixa Cans and Brahms do LP Fragile. É um scherzo a la Beethoven, transbordante de alegria.

O movimento final, a passacaglia, é notável. É formado por 30 variações (e uma coda final) na melodia que você ouve inicialmente pelos metais e sopros. Essa melodia permanece presente na textura de cada variação, como exige a forma da passacaglia. A melodia principal é uma expansão de uma chacona da Cantata BWV 150 de Bach (movimento final) e o utilização por parte de Brahms de um método de construção barroco é sua homenagem a uma era cheia de religiosidade e tragédia da história musical, que esta peça honra. Para mim, o final tem o poder arrasador de um drama shakespeareano. É uma profecia sombria que se cumpre. A viagem da 1ª Sinfonia de Brahms à sua 4ª é do otimismo ao pessimismo, da possibilidade de remodelar o mundo à resignação. Em 1885, com 50 e poucos anos, já um tanto velho para sua época, essa era uma trajetória que Brahms sentia ser sua também. No entanto, como todas as tragédias, a Quarta Sinfonia tem um poder catártico — o que é uma explicação, pelo menos, para a popularidade dessa sinfonia desesperadora, perturbadora e surpreendente.

Principais gravações

Orquestra Sinfônica de Boston / Andris Nelsons: mostrando cada detalhe, é das melhores gravações que a Quarta recebeu neste século.

Orquestra Filarmônica de Viena / Carlos Kleiber: uma das gravações mais marcantes da obra – ouça e fique preso da primeira à última nota.

Orquestra Filarmônica de Berlim / Simon Rattle: a delicada e transparente abordagem de Rattle capta nossa imaginação de uma forma muito especial.

Orchestre Révolutionnaire et Romantique / John Eliot Gardiner: a versão de Gardiner é poderosa e realizada em instrumentos de época. Um tremendo disco!

Da Belarus, uma história triste

Da Belarus, uma história triste

Vou contar uma história pra vocês, a Elena que me perdoe.

Corria o ano de 1997 na Belarus e a coisa estava pior do que nunca. A Elena recebia o correspondente a 18 dólares por mês, tinha uma filha e estava grávida de um menino. Pasmem, ela recebia este salário tocando na extraordinária Filarmônica da Belarus. Era para passar fome e digamos que ela não tinha como fazer as contas mensais fecharem de uma forma agradável. Antes de receber, costumava faltar pasta de dente em casa, além de outras coisas.

Para garantir a sobrevivência, ela cantava numa igreja e depois era alimentada por lá. A filha ficava na creche e, à noite, Elena conseguia fazer um jantar digno — este fato é um ponto de honra para ela. O jantar tinha que ser sempre bom e era, com mais de um prato.

Certa vez, entrou uma graninha a mais (ou ela recém recebera seu salário, não lembro bem) e ela resolveu fazer uma extravagância após um ensaio. Talvez vocês não saibam, mas há poucas coisas no mundo mais intensas do que a fome de uma mulher grávida. E quando têm desejo então nem se fala. No caminho para a casa, carregando sua bolsa e o estojo do violino, ela passou por uma feira enorme de Minsk. E escolheu comprar uma linda ricota, a ricota dos sonhos, aquela de consistência, textura e gordura perfeitas, logo ela que anos depois descobriria que era alérgica à proteína do leite, mas que amava os queijos — e a seguir se sentia mal, claro.

Encontrada e comprada a iguaria, ela a colocou na bolsa junto com a carteira. E foi para a casa de ônibus. Se estou falando de violino, bolsa, carteira e ônibus, você, leitor esperto, já se deu conta. Sim, ela foi roubada. Levaram-lhe a ricota e a carteira.

Ela diz que não há quase criminalidade com armas na Belarus, que pouca gente é assassinada, por exemplo, mas que os ladrões são exímios, roubam mesmo, estão por todo lado e jamais são detidos.

Quando chegou em casa, ela nem se deu conta da carteira, só do sumiço da ricota. Já falei para vocês da fome das grávidas. Ela não lembra se chorou, mas acho que sim, conheço ela.

(E o filho nasceu em Manaus, pertinho da Amazonas Filarmônica e do famoso Teatro. Mas esta é outra história).

Os livros mais vendidos de abril na Bamboletras

Os livros mais vendidos de abril na Bamboletras

1. Torre das Guerreiras e outras memórias, de Ana Maria Ramos Estevão
2. Um itinerário íntimo pela psicanálise lacaniana, de Luciano Mattuella
3. Faróis do Rio Grande do Sul — Um Registro Histórico e Fotográfico, de Cláudio Tarta
4. Sobrevidas, de Abdulrazak Gurnah
5. Como cuidar de um familiar com Alzheimer e não adoecer, de Leandro Minozzo.
6. Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus
7. O Avesso da Pele, de Jéferson Tenório
8. Os Supridores, de José Falero
9. Tudo sobre o amor, de Bell Hooks
10. Torto Arado, de Itamar Vieira Junior

Bamboletras recomenda duas ótimas ficcionistas um clássico sobre cinema

Bamboletras recomenda duas ótimas ficcionistas um clássico sobre cinema

A newsletter desta quarta-feira da Bamboletras.

Rachel Cusk

Olá!

Caprichamos! Desta vez sugerimos dois romances de mulheres que envolvem desejo. Desejo e mais desejo. E, ao menos em um dos casos, repressão ao desejo. Um da consagrada canadense Rachel Cusk e outro da brasileira Nara Vidal. Para complementar, uma obra clássica sobre cinema que tinha recebido apenas traduções parciais. Sim, caprichamos.

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Segunda Casa, de Rachel Cusk (Todavia, 168 páginas, R$ 62,90)

M, escritora de meia-idade e de pouca expressão, está em chamas. O fogo é uma das imagens a que ela recorre para tentar explicar os acontecimentos que abalaram a vida pacata que leva ao lado do marido na propriedade em que moram, às margens de um pântano. Quem incendiou a rotina familiar foi L, um artista plástico que se hospeda na cabana em que o casal costuma receber artistas — a segunda casa. M está obcecada por L, e deposita nele expectativas diversas. A relação intrincada dos dois se desenvolve durante essa espécie de residência artística, compartilhada também por Brett, moça que L leva consigo, e pela família de M. Num relato retrospectivo, M conta episódios da estadia de L no pântano, temperando a narrativa com reflexões e experiências do passado. No lugar da observação atenta de Faye, narradora da trilogia (Esboço, Trânsito e Mérito) que garantiu a Cusk lugar de destaque na prosa contemporânea, vemos neste romance uma mulher se contorcendo com sua subjetividade, lançando dúvidas sobre si mesma.

Cine-olho: Manifestos, Projetos e outros escritos, de Dziga Viértov (Editora 34, 704 páginas, R$ 124,00)

Autor de clássicos como a série Kino-Pravda (1922-25) e o longa-metragem O homem com a câmera (1929), Dziga Viértov (1896-1954) foi pioneiro de uma linguagem própria para o cinema e um dos principais nomes da vanguarda soviética. Durante toda a sua vida praticou e defendeu o lema de seu amigo Maiakóvski, segundo o qual não há arte revolucionária sem forma revolucionária. Embora seja um dos diretores de cinema mais influentes do século XX, Viértov teve pouquíssimos escritos publicados em nossa língua e quase sempre em traduções indiretas. O presente volume busca reparar essa lacuna, reunindo noventa textos, vários deles inéditos, entre manifestos, roteiros, artigos, projetos, cartas e poemas, todos traduzidos diretamente do russo pelo organizador Luis Felipe Labaki, acompanhados de mais de cem imagens da Coleção Dziga Viértov do Österreichisches Filmmuseum de Viena. Uma joia!

Eva, de Nara Vidal (Todavia, 112 páginas, R$ 54,90)

Eva tem o diabo no corpo. Segundo corre na família, seu nome atrai maldade e pecado. Desde criança o demônio se manifesta: no jeito que ela anda, no jeito que olha e em tudo que faz. Sua infância é uma sucessão de benzimentos e rezas, sempre na tentativa de expurgar o diabo, que teima em possuí-la. Sob o cerco e o julgamento da avó e da mãe, Eva corre pelas ruas como quer. A saia é curta demais, a blusa marca demais os peitos, a perna aparece demais. Na cidade, acredita-se que em suas veias corre sangue do demônio. A dependência afetiva de Eva pela figura materna controladora manifesta-se como padrão para os relacionamentos abusivos que a narradora vive quando adulta. Situado entre a evocação do passado e o embate com o presente áspero, Eva é um romance magistral sobre a perda, mas também sobre o acúmulo de controle e violência que pode caber na relação entre mães e filhos e entre amantes.

Sobre o Exílio, de Joseph Brodsky

Sobre o Exílio, de Joseph Brodsky

Sobre o Exílio não chega a ser um grande texto ou pelo menos é um texto muito de circunstância. Quando Joseph Brodsky tinha apenas 24 anos, foi acusado de parasitismo social. O julgamento foi antológico e Savelyeva, o juiz, ficou para a História.

— Qual é a sua profissão?

— Poeta.

— E qual é a sua ocupação permanente?

— Julgava que era uma ocupação permanente.

— Quem lhe deu autorização para ser poeta?

— Ninguém. E quem decidiu que eu pertencesse à raça humana?

Condenado a cinco anos de trabalhos forçados na tundra gelada de Norinskaya, uma variante da Sibéria, Brodsky foi para sempre impedido de “exercer uma profissão para a qual não tinha as qualificações necessárias”. A sentença correu mundo e o escândalo abreviou-lhe a pena.

O evento obrigou-o a deixar sua terra natal, Leningrado (ou a atual São Petersburgo), seus amigos e sua família. Ajudado por ninguém menos que W. H. Auden, Brodsky foi viver uma nova vida nos Estados Unidos. Apesar de sua juventude, antes de sua emigração, ele já estava se destacando como um talentoso poeta e artista. Foi reconhecido por ninguém menos que a grande Anna Akhmátova, que se tornou sua mentora antes da repentina expulsão. Nos Estados Unidos, ele alcançou enorme sucesso. Recebeu o Nobel de Literatura em 1987, em recompensa por uma prolífica carreira escrevendo poemas que hoje são considerados clássicos.

Um homem com bom gosto, especialmente literário, é menos suscetível aos encantos e amarras de qualquer versão da demagogia política. O ponto, aqui, não é que a virtude constitua uma garantia para a criação de uma obra de arte, mas sim que o mal, principalmente o mal político, é sempre um péssimo estilista. Quanto mais substancial é a experiência estética de um indivíduo, mais sólido é seu gosto, mais afiado é seu foco moral, portanto, mais livre ele é, mesmo que não seja necessariamente mais feliz.

Seus poemas e escritos falam do tédio do exílio e da tristeza pela ruptura entre sua antiga vida e a nova. Durante anos, ele permaneceu banido na Rússia — nunca retornou –, embora tenha permanecido muito amado por lá, com pessoas compartilhando seus escritos no circuito underground, com poemas sendo distribuídos em samizdat ou em cópias impressas e manuscritas à mão. Isso ainda era motivo de grande tristeza para Brodsky, que foi citado como tendo dito em uma entrevista à Paris Review : “Para um escritor, não ser publicado em sua língua materna é tão ruim quanto um final ruim.” Se, como disse Adorno (1903-1969), não poderia haver poesia após Auschwitz, para o escritor russo é impossível que o exilado consiga novamente sentir-se em casa.

Como não há leis que possam nos proteger de nós mesmos, nenhum código penal é capaz de prevenir um verdadeiro crime contra a literatura; apesar de podermos impedir ameaças materiais a ela — como a perseguição de escritores, atos de censura, a queima de livros –, não temos poder algum em relação à pior das violações: a de não ler livros. Por esse crime paga-se por toda a vida; quando o violador é uma nação, ela paga com sua história.

O livro é dividido em 3 ensaios — “A condição chamada exílio”, “’Uma face incomum’” e “Discurso de aceitação”.  O melhor, disparado, é o segundo, que é o discurso que Brodsky proferiu ao receber o Nobel. É aqui, com tema livre, que ele se esbalda e todas as citações que aqui coloco foram tiradas dele. O terceiro ensaio são quatro páginas bem simpáticas onde ele diz “OK gente, eu aceito o Nobel”

Não tenho dúvida de que, se houvéssemos escolhido nossos líderes tomando por base suas experiência de leitura, e não seus programas políticos, haveria bem menos sofrimento no mundo. Parece-me que o mestre em potencial de nossos destinos deveria ser inquirido, primeiramente, não em relação ao que ele imagina que deveria ser o curso de sua política externa, mas quanto às obras de Stendhal, Dickens, Dostoiévski.

Joseph Brodsky (1940-1996)

No 1º de maio a gente não trabalha!

No 1º de maio a gente não trabalha!

Em condições normais, a Bamboletras não abre somente 3 dias por ano. Em 25 de dezembro, 1º de janeiro e 1º de maio — Dia do Trabalhador. Portanto, não abriremos neste domingo.

Mas, nesta sexta e sábado, estamos esperando vocês das 10 às 21h.

🗾 Estamos ainda no Shopping Nova Olaria – Rua General Lima e Silva, 776 – loja 3
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No Facebook, recebemos este comentário de parte do Igor Freiberger:

“É bem como dizia o Antonio Ermínio de Moraes: brasileiro adora um feriado, não gosta de trabalhar e quer só benesses. Imagina parar três dias por ano! Três! Não são três horas ou três turnos, que já seria abuso. São três dias inteiros. Tu achas que os escravos tinham essa folga toda? Ou que os herdeiros que construíram este país ficam parados todo esse tempo? Meu filho, nunca verás um bilionário sem fazer nada por três dias. Quando ele não está fraudando relações trabalhistas, está tendo um trabalho imenso para organizar festas no iate ou se desgastando em conluios a fim de sugar o Estado. Ou tu achas mesmo que participar de reuniões secretas no Planalto e conchavos na FIESP não dá trabalho? Ou todo o cuidado que ele dedica para evitar que os convivas tomem uísque inferior durante o convescote e falem mal do anfitrião? A vida é dura. Nunca, jamais, verás um grande capitalista três dias parado!”

Os Dias dos Turbin, de Mikhail Bulgákov

Os Dias dos Turbin, de Mikhail Bulgákov

A primeira coisa que chama a atenção neste livro é sua original e brilhante diagramação. Tudo está muito claro e a leitura flui como poucas vezes em uma peça de teatro, pois é disso que se trata. A coisa foi tão bem bolada que nem precisamos ir aos rodapés. (Odeio rodapés). E eles são muito necessários, assim como toda a contextualização histórica e a cronologia preparada pelo excelente tradutor Irineu Franco Perpétuo.

Os Dias dos Turbin é uma peça de teatro de Mikhail Bulgákov baseada na história da Ucrânia durante a Revolução Bolchevique. A peça deriva de seu romance A Guarda Branca. Não adianta ler a peça se não soubermos, por exemplo, quem foi Petliura ou o Hétmã de toda a Ucrânia ou a participação da Alemanha no forrobodó. Isto está muito bem explicado na cronologia e nos comentários de Irineu. Fui atraído para ler Os Dias não somente por seu genial autor como por ter sido a peça de teatro preferida de Stálin, que a assistiu 16 vezes. Sua admiração por Bulgákov — um inimigo, um russo branco, um anti-bolchevique — fez com que ele salvasse a vida do escritor, dando-lhe um emprego no teatro enquanto todos os seus assessores políticos diziam que o tratamento adequado para Bulgákov era o Gulag. Se Stálin era um psicopata, também era um inteligente admirador das artes, o que o torna um ser menos imbecil do que, por exemplo, Bolsonaro. Stálin dizia que o drama sobre a família burguesa Turbin durante a guerra civil demonstrava que os bolcheviques eram invencíveis. Se quisermos, a leitura nos abre esta janela. Faz sentido.

Mas não pensem que a vida de Bulgákov foi aquele mar de rosas criado por Stálin. Ele apenas não foi morto nem condenado a trabalhos forçados. Tudo lhe foi proibido. “Estou na miséria, acossado, em completa solidão. Nos últimos sete anos, concluí dezessete obras de diferentes gêneros, e nenhuma delas foi publicada. Semelhante situação é impossível, e em nossa casa há trevas e uma completa falta de perspectiva”. Contudo, escondido, escrevendo para a gaveta, o escritor preparou sua obra-prima O Mestre e Margarida (1, 2, 3, 4 e 5), a qual foi publicada clandestinamente apenas em 1966, 26 anos após sua morte.

Em Os Dias dos Turbin, o confortável mundo tchekhovniano dos Turbin é esmagado pelo pecado da ignorância sobre o que estava acontecendo no império ao seu redor. Ou, melhor dizendo, pela crença de que ninguém tocaria em seus privilégios. Se eles não fossem ignorantes, teriam sido virados de cabeça para baixo de qualquer maneira, só que neste caso haveria menos graça. A genialidade da peça é sua honestidade impiedosa, não importa o lado. O mundo da traição e dos boatos têm sempre dois lados. É sempre inusitado vermos personagens com pouca maldade real, mas com falhas humanas — ganância, deslealdade, orgulho — que explodem aqui e ali. Os Dias do Turbin prenunciam O Mestre e Margarida. Em O Mestre e Margarida, Satanás pune Moscou e aqui há Vermelhos punindo Kiev. Bulgákov odiava os bolcheviques, mas deve ter notado que somente os pequenos atos de resistência interior eram possíveis contra eles.

Aqui temos duas histórias em que os governantes são varridos do poder. E há espaço para o humor de Bulgákov. A fuga dos brancos provavelmente será acompanhada de suas risadas, caro leitor. É o mundo de Bulgákov. Triste, implacável e engraçado.

Recomendo.

Mikhail Bulgákov (1891-1940)

458 anos de William Shakespeare (23.04.1564 – 23.04.1616) / “Soneto 66”, transcriado por Augusto de Campos

Soneto 66

Cansado de tudo isso eu clamo pela morte,
Vendo aos pobres faltar a moradia e o pão
E ao ricos amorais caber a boa sorte,
A fé servir aos maus em pífia exploração,

E a mais pura honradez de todo desprezada
A hombridade estuprada e morta pelo vício,
E a perfeição em mau feitio desnaturada,
A força convertida em monstruoso artifício,

E a arte calada com brutal autoridade,
O parvo a comandar o honesto e o diligente,
A verdade curial tida por falsidade
E o cativo servindo ao Capitão demente:

De tão cansado era melhor querer meu fim
Se a morte não roubasse o meu amor de mim.