
E têm colorados que dizem que nunca usamos meias cinzas. Eu achava bonito.
Por Hernán Carrasco
Quando o mundo descobriu o Angine de Poitrine, a dupla canadense já vinha aprimorando seu talento há anos. Oficialmente, a banda começou em 2019, mas vale ressaltar que Khn (guitarra/baixo) e Klek (bateria) se conhecem desde os treze anos e tocam juntos há mais de vinte . Portanto, a sincronia e a cumplicidade que os tornaram famosos em seus shows e raras aparições são algo que vem sendo construído há décadas.
Foi no dia 5 de fevereiro deste ano que nós, meros mortais, tivemos o privilégio de assistir a uma apresentação ao vivo de Angine de Poitrine na rádio americana KEXP.
Minha primeira impressão daquela imagem foi: “Que diabos é isso?” Os figurinos, as bolinhas nas roupas, o contraste entre o preto e o branco, o baixo e aqueles narizes gigantes — tudo parecia um sonho que se tem depois de ser anestesiado. Depois de analisar a imagem por completo, fiquei com mais perguntas do que respostas.
Aqueles de nós que clicaram no vídeo por curiosidade se depararam com uma performance inicialmente difícil de compreender. Visualmente, músicos com fantasias ou máscaras não são novidade: Slipknot, The Residents, Daft Punk e Gwar são apenas alguns dos artistas que já esconderam seus rostos do público.
Musicalmente, o que a dupla apresentou foi algo verdadeiramente raro. As notas que emanavam da guitarra/baixo modificado de Khn não soavam “normais”, e a precisão rítmica da bateria de Klek, na caixa e nos pratos, também fazia você questionar a fórmula de compasso em que a música foi escrita. Era hipnótico, diferente de tudo que se ouve normalmente: música microtonal. É isso que Angine de Poitrine faz.
O QUE É MÚSICA MICROTONAL?
A música ocidental padrão geralmente usa 12 notas, e o menor intervalo entre duas notas adjacentes é chamado de semitom . Um microtom é qualquer intervalo menor que um semitom, sendo o exemplo mais comum o quarto de tom, que é metade de um semitom.
As escalas microtonais não são incomuns em si mesmas, já que grande parte da música oriental utiliza microtons naturalmente, como é o caso da música árabe, turca, indiana e persa. Tampouco são algo inédito no Ocidente, pois artistas como Frank Zappa e bandas como King Gizzard & the Lizard Wizard ou Primus já experimentaram com esse tipo de escala microtonal.
Não podemos afirmar que Angine de Poitrine foram pioneiros na música microtonal, mas certamente contribuíram para esclarecer esse tipo de composição musical.
A sessão que eles fizeram para a KEXP no primeiro mês de funcionamento acumulou 4,5 milhões de visualizações no YouTube. Agora, quase quatro meses depois, já está com 15,5 milhões de visualizações.
Sem dúvida, há um fator de novidade na encenação e na música da dupla, mas algo “novo” por si só não é suficiente para acumular quinze milhões de visualizações em tão pouco tempo . Esses números são até melhores do que os de algumas estrelas pop que apareceram no Tiny Desk da NPR.
Só para dar um exemplo: o último vídeo da Dua Lipa no Tiny Desk teve 17 milhões de visualizações em um ano, enquanto o da Angine de Poitrine quase alcançou esse número com oito meses a mais de visualizações. O vídeo do Foo Fighters no Tiny Desk teve 2,9 milhões de visualizações em quase três semanas. A menos que algo extraordinário aconteça, provavelmente não alcançará o número de visualizações do primeiro mês dos canadenses.
Nada mal para um tipo de música que, em teoria, “não deveria funcionar”, muito menos em um nível popular ou viral, especialmente se houver três linhas microtonais tocando simultaneamente, mas é aí que reside o gênio dos canadenses, que, ao comporem essas músicas, o fizeram de uma forma que a música possui esse fator hipnótico que impede você de escapar.
DE QUEBEC PARA TODA A GALÁXIA
Khn e Klek eram músicos no circuito local de Saguenay, Quebec, e em uma das casas de shows da região, surgiu a oportunidade de tocar duas vezes na mesma semana. No entanto, como já haviam se apresentado com sua banda principal, não puderam tocar novamente no mesmo local. A solução? Aparecer fantasiados. E foi assim que nasceram os dois personagens de bolinhas pretas e brancas, obcecados por triângulos, agora conhecidos mundialmente como Angine de Poitrine. Por que triângulos? “É a melhor forma. Nós amamos triângulos. Eles são lindos e é a forma mais poderosa”, declarou Khn em entrevista ao veículo de mídia canadense Cult MTL.
Quando a mesma publicação perguntou por que eles formaram a banda, a resposta foi bem peculiar. “A ideia por trás da banda era adotar uma abordagem um tanto satírica ao rock em geral. Queríamos exagerar, então a guitarra/baixo de dois braços foi a escolha perfeita para tirar sarro dos guitarristas icônicos”, explicou Khn, acrescentando: “Às vezes, nas músicas, temos trechos que são pura piada; podemos simplesmente gritar ‘Salve Santana! ’. Obviamente, adoramos Santana. É uma declaração de amor, mas também uma caricatura, porque você precisa ser capaz de rir de si mesmo e dizer: ‘O que fazemos é ridículo’”.
Em entrevista ao The Guardian, Klek afirmou que o álbum “Flying Microtonal Banana” do King Gizzard & the Lizard Wizard foi, sem dúvida, uma inspiração para eles, e acredita que o apelo dos microtons reside no fato de “soarem como algo novo para as pessoas”, embora não possa afirmar se os ouvintes os consideram um contraponto reconfortante à cultura gerada por inteligência artificial, já que não passam muito tempo online.
Em relação ao processo de composição, ambos os membros afirmaram na mesma entrevista que suas músicas surgem de improvisações e que os loops são fundamentais para a estrutura de suas composições. “Há uma sensação de ansiedade ou algo assim que vem com a repetição, a fricção com os microtons. Estamos sempre brincando com essa sensação, com a tensão e a resolução”, explicou Klek.
No mês passado, a banda Angine de Poitrine embarcou em sua primeira turnê internacional de verdade, com shows esgotados no Reino Unido e em diversos países europeus . Eles têm apresentações em festivais e outros locais agendados para os próximos meses do verão do Hemisfério Norte. “Não posso dizer que estamos encarando isso de forma leviana ou apenas por diversão, porque quando você sente esse tipo de expectativa , as pessoas criam expectativas e você precisa dar o seu melhor. Não posso dizer que meus pensamentos estiveram livres de dúvidas sobre: o que posso fazer para ser um músico melhor? Mas o que sempre me vem à mente é que as pessoas se apaixonaram pela autenticidade e simplicidade da banda”, disse Khn ao The Guardian.
Com dois álbuns lançados, o mais recente em abril deste ano sob o nome de “Vol. II”, os canadenses continuam a conquistar o mundo e reafirmam aquele mantra que os gênios sempre repetem: mantenham-se estranhos, mantenham-se únicos.
ANGINE DE POITRINE AO VIVO: MESTRES DE SUA ARTE
O desejo dos fãs de ver Angine de Poitrine ao vivo fez com que todos os shows anunciados para este ano esgotassem em questão de horas. Uma das paradas da atual turnê europeia da banda canadense foi na Bélgica, mais especificamente em Bruxelas, para se apresentar no festival “Les Nuits Botanique 2026”.
Num palco ao ar livre, diante de uma plateia estimada em 2.000 pessoas, a dupla apresentou seu terceiro e último show na Bélgica. A expectativa era palpável; pessoas de todas as idades vestiam roupas pretas e brancas de bolinhas, jovens em trajes Khn e Klek, e outros exibiam triângulos em suas roupas.
Às 9 horas em ponto, e diante de uma ovação estrondosa dos presentes, digna de alguém que se sagrou campeão de algum torneio, Khn e Klek apareceram no palco com seus trajes característicos e a saudação protocolar de seu planeta de origem: suas mãos formando um triângulo.
A dupla precisou apenas de uma configuração de palco simples para deslumbrar todos que compareceram ao Jardim Botânico de Bruxelas: a bateria, o enorme pedal de efeitos do Khn e a já clássica cortina de bolinhas pretas e brancas que todos viram na sessão da KEXP.
O que se seguiu foi um show de rock completo, um espetáculo em todos os sentidos da palavra: visual, musical e espiritual — não no sentido religioso, mas no sentido de como a arte pode nutrir o espírito e nos lembrar por que estamos vivos.
Logo de início, com “Angor” e seu pulso hipnótico, e sem qualquer refrão, o Angine de Poitrine tinha o público na palma da mão. Apesar do que se possa pensar sobre rock matemático ou microtonal, na segunda música já era possível ver pessoas fazendo crowdsurfing; uma delas devia ter entre 50 e 60 anos.
Um dos comentários no vídeo viral deles na KEXP dizia: “É incrível como eles soam exatamente como se parecem”, e quando você tem a oportunidade de vê-los, essa afirmação faz todo o sentido. A música deles é tão extravagante quanto os figurinos, mas essas canções têm uma qualidade hipnótica. Além dos loops e escalas microtonais, essas composições têm alma; têm aquela faísca que só os seres humanos são capazes de ter.
É uma música inteligente, mas também tem uma pegada funky e dançante, e é realmente eletrizante. No meio do show, quando os primeiros acordes da gloriosa “Mata Zyklek” soaram, a maioria dos jovens estava fazendo crowdsurfing nas primeiras filas. A habilidade de Khn no contrabaixo/guitarra é verdadeiramente de outro mundo; ele é um cirurgião das cordas, tudo isso usando uma roupa que quase lhe esconde a visão. Ele cria loops com as diferentes partes de guitarra, toca o baixo, deixa o loop rodar e então se lança em riffs improvisados que eletrizam cada pessoa na plateia.
O que dizer sobre o virtuosismo de Klek na bateria? Um cronômetro suíço empalidece em comparação com sua performance e o groove contagiante que ele imprime em suas viradas. Que horas ele está tocando? Melhor nem perguntar. Klek é a força motriz por trás do Angine de Poitrine, e ele faz sua presença ser sentida com seu magnetismo no palco, sua cabeça enorme, seu nariz caricato e olhos que brilham intensamente quando ele está realmente arrasando.
Perto do fim do show, chega a hora de “Fabienk”, outra de suas ótimas canções, e quando você começa a ouvir a plateia cantando a melodia da guitarra como se estivesse assistindo ao The White Stripes tocar “Seven Nation Army”, você percebe que está presenciando algo especial. Uma ovação estrondosa irrompe mais uma vez para a banda de Quebec quando a música termina.
A música de encerramento, “Sherpa”, pilar do álbum de estreia da dupla, é mais um daqueles momentos que ficam para sempre gravados na memória de quem assiste a um show deles. Aquela mistura caótica de guitarras, baixo e uma seção rítmica galopante que culmina no clímax da canção é a melhor representação de que o rock ainda está vivo e forte. Uma longa ovação mais uma vez acolhe os canadenses quando eles se despedem.
Em meio aos riffs de guitarra e linhas de baixo pesados e engenhosos de Khn, e à precisão impecável de Klek na bateria, percebe-se que o fio condutor do show sempre foi a essência artística de ambos, o compromisso em fazer do rock algo agradável para todos, independentemente da escala tonal ou microtonal em que se encontre.
A essência humana de um show de rock jamais poderá ser substituída por inteligência artificial, e nestes tempos sombrios em que vivemos, essa é a melhor consolação possível.

1. Sunset Boulevard (Crepúsculos dos Deuses), de Billy Wilder (1950)
2. As Vinhas da Ira, de John Ford (1940)
3. Pacto Sinistro, de Alfred Hitchcock (1951)
4. Prisão, de Ingmar Bergman (1949)
5. Rebecca, de Alfred Hitchcock (1940)
6. Amarcord, de Federico Fellini (1973)
7. Delírio de Loucura, de Nicholas Ray (1956)
8. O Sétimo Selo, de Ingmar Bergman (1957)
9. O Criado, de Joseph Losey (1963)
10. Vá e Veja, de Elem Klímov (1985)
11. O Espírito da Colmeia, de Victor Erice (1973)
12. A Infância de Ivan, de Andrei Tarkovski (1962)
13. Oito e Meio, de Federico Fellini (1963)
14. Profissão: Repórter, de Michelangelo Antonioni (1975)
15. O Desaparecimento (The Vanishing, Spoorloos), de George Sluizer (1988)
16. Zabriskie Point, de Michelangelo Antonioni (1970)
17. Morte em Veneza, de Luchino Visconti (1971)
18. Inverno de Sangue em Veneza (Don´t Look Now), de Nicolas Roeg (1973)
19. A Conversação, de Francis Ford Coppola (1974)
20. O Desprezo, de Jean-Luc Godard (1963)
21. Expresso para o Inferno, de Andrey Konchalovsky (1985)
22. Dersu Uzala, de Akira Kurosawa (1975)
23. Infiel, de Liv Ullmann (2000)
24. Infâmia (The Children’s Hour), de William Wyler (1961)
25. Morangos Silvestres, de Ingmar begman (1957)
O próximo será “Stromboli” de Roberto Rossellini, na próxima segunda-feira (15), às 19h30, na Livraria Bamboletras.

Bartleby resiste a interpretações únicas. Quanto menos você explicar Bartleby, melhor a conversa costuma ficar. É como uma investigação coletiva de um enigma.
1.Abertura
“Há livros que nos impressionam por aquilo que revelam. Bartleby nos impressiona por aquilo que se recusa a revelar. Mais de 170 anos depois de sua publicação, ainda discutimos quem é Bartleby, o que ele quer e o que Melville pretendia dizer.”
“Qual foi o sentimento predominante ao terminar o livro?”
A diversidade das respostas já introduz a riqueza do texto.
2. O narrador
Muitas leituras se concentram em Bartleby e esquecem que o narrador é igualmente fascinante.
Uma observação interessante: Sem o narrador, Bartleby seria apenas um excêntrico. O drama nasce da incapacidade do advogado de compreender o que tem diante de si.
“Quem é o personagem mais estranho deste conto: Bartleby ou o advogado?”
3. Chegue ao centro do livro:
“I would prefer not to”. “Prefiro não fazer” (LPM, Cassia Zanon), “Prefiro não” (Antofágica, Antônio Xerxenesky), “Prefiro não fazê-lo” (Cultrix, Olívia Kränenbühl), “Eu preferia não fazê-lo” (Record, A. B. Pinheiro de Lemos)
Mostre como a frase é estranha. Ele não diz:
Ele apenas “prefiro não”, “
É uma linguagem sem confronto direto.
Pergunta para o grupo: Por que essa fórmula nos desconcerta tanto?
4. Bartleby como símbolo
Aqui você pode abrir várias possibilidades.
Bartleby seria:
O mais interessante é que o texto sustenta todas essas hipóteses sem confirmar nenhuma.
Você pode perguntar: “Qual interpretação mais convence vocês?”
5. O humor do conto
Muitas pessoas esquecem que Bartleby é muito engraçado.
Melville cria situações quase cômicas em torno de algo profundamente trágico.
6. O final
Sem tentar resolvê-lo.
Perguntas:
E principalmente: “O advogado falhou com Bartleby?”
Essa vai gerar ótima discussão.
7. O finalzinho
Eu terminaria com uma pergunta ampla:
“Por que um conto tão curto continua sendo lido no mundo inteiro?”
E talvez com uma observação:
“Existem personagens que parecem pessoas. Bartleby parece uma condição humana. Em algum momento da vida, todos nós já sentimos vontade de responder ao mundo: ‘Prefiro não’.”
Para um grupo da Bamboletras, que parece gostar de literatura mais reflexiva, eu apostaria menos na crítica social e mais no mistério existencial. O que torna Bartleby inesquecível não é a denúncia de um sistema? Ou o fato de que ele toca uma região da experiência humana que reconhecemos sem conseguir nomear completamente.
8. O finalzinhoínho
“Ah, Bartleby! Ah, humanidade!” .
O narrador está exclamando por Bartleby (o indivíduo) ou pela humanidade (o coletivo falho)? Ele aprendeu alguma coisa no final ou apenas se livrou de um incômodo?
9. Perguntas para fechar
Alegoria do Trabalho Moderno: “Bartleby seria o santo padroeiro do ‘quiet quitting’ (demissão silenciosa) ou alguém que sofre de burnout profundo?” .
Resistência Passiva: “A frase ‘Eu preferiria não’ é uma forma de resistência política válida ou um sintoma de depressão e isolamento?” .
Sobre o Incompreensível: “Devemos tentar explicar Bartleby (excesso de trabalho, luto, loucura) ou a força do conto está justamente na sua recusa em ser explicado?”
A frase principal de Bartleby nas quatro edições que possuo do livro. Cada um traduz “I would prefer not to” de uma forma diferente.
“Prefiro não fazer” (LPM, Cássia Zanon, 2003),
“Prefiro não” (Antofágica, Antônio Xerxenesky, 2023),
“Prefiro não fazê-lo” (Cultrix, Olívia Kränenbühl, 1985),
“Eu preferia não fazê-lo” (Record, A. B. Pinheiro de Lemos, 1984).
Já que é um clássico do século XIX, eu escolheria uma outra forma, mais antiquada: “Preferiria não fazê-lo”.

Eu vou demonstrar porque você deve dar um livro pro seu amor ou ficante no Dia dos Namorados. Algumas vezes, eu e Elena lemos o mesmo livro ao mesmo tempo ou um após o outro e é maravilhoso. Certa vez, em Bombinhas, a gente foi tomar banho lá longe — somos o terror dos salva-vidas — e, enquanto eles ficavam pensando que a gente ia sucumbir a qualquer momento — fomos advertidos muitas vezes –, nós estávamos era discutindo Os Irmãos Karamázov que ela lia em russo e eu em português. E passamos horas por lá. Sem os livros, claro.
Olha, fofocar ou xingar a família Bolsonaro e sua quadrilha é bom e necessário, mas aqui se trata de amor, gente, não de outra coisa. É Dia dos Namorados, não vá dar um par de meias ou uma camisa que ele vai mentir pra próxima namorada que comprou no Shopee. Dê um livro e escreva uma dedicatória.

QED
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Antes de começarmos a falar de Vidas Secas, talvez valha lembrar uma coisa importante: este não é um livro que tenta seduzir o leitor. Graciliano Ramos escreve de maneira seca porque o mundo que ele mostra também é seco — de água, de esperança, de linguagem. E talvez esteja aí uma das grandes forças do romance: ele nos coloca diante de personagens que mal conseguem explicar a própria vida, mas cuja humanidade aparece justamente nesses silêncios, nesses limites, nesses pequenos desejos quase invisíveis.
A pergunta que atravessa o livro talvez seja simples e brutal: o que sobra do ser humano quando quase tudo lhe foi tirado? Porém, Vidas Secas não é apenas um romance sobre pobreza ou sertão. É também um livro sobre linguagem, sobre dignidade, sobre a dificuldade de pensar e sonhar num mundo que parece feito apenas para sobreviver. E, talvez, sobre o quanto disso ainda permanece entre nós.
Linguagem
1. Estrutura fragmentada: capítulos quase autônomos: isso ajuda ou dificulta a leitura?
2. Linguagem enxuta: o que não é dito pesa mais que o dito?
3. A seca como mais que cenário: ela é quase uma personagem?
4. Desumanização: os personagens falam pouco… isso os empobrece ou os protege?
5. Estamos lendo uma história ou um tipo de documentário?
Personagens (especialmente Fabiano e Sinhá Vitória)
1. Fabiano: um bruto ou uma vítima de um sistema que o impede até de pensar?
2. Sinhá Vitória: o sonho da cama — pequeno ou imenso?
3. Relação entre os dois: há afeto? Ou apenas sobrevivência compartilhada?
4. As crianças: o que significa crescer sem linguagem?
5. Eles foram privados até da possibilidade de ser mais em razão da pobreza?
Baleia (o capítulo mais famoso)
1. Por que Baleia é tão bom personagem?
2. Quem chorou lendo o capítulo…?
3. O ponto de vista do animal: o que isso revela sobre os humanos?
4. A morte de Baleia: é o momento mais cruel — ou o mais compassivo do livro?
5. OK, por que sofremos mais por Baleia do que por Fabiano?
Sociedade, destino e sentido
1. O soldado amarelo: violência individual ou sistema?
2. Há crítica social ou apenas exposição?
3. O final: é circular? Há esperança ou é uma condenação eterna?
4. O livro é político, existencial… ou ambos?
Mais
1. A linguagem como limite: quem não tem palavras, tem menos mundo?
2. Animalização X humanidade: linha muito tênue
3. Repetição: a vida como ciclo sem progresso
4. Silêncio: o livro fala muito através dele
Lembrete
Evitar transformar o debate só em “denúncia social”. Claro, é importante, mas dar foco à humanidade é ainda mais importante. O livro é principalmente uma reflexão brutal sobre o que resta no humano quando quase tudo falta.
Acabo de ver/ouvir em bom áudio o show do Angine de Poitrine no Electric Ballroom de Camden Town (Londres). Fiquei rebolando na cozinha enquanto fazia mais um de meus geniais guacamoles. Depois fui ler as avaliações da dupla nos jornais — lá ainda há crítica musical — e todos foram muito elogiosos aos falsamente caóticos rapazes dos loops microtonais de guitarra-baixo e da seguríssima bateria. O Guardian disse algo bem próximo do que penso: dentro do deprimente cenário da música atual, esses canadenses anônimos são um sopro de inteligência e criatividade.
Talvez por ter ouvido muito rock progressivo na adolescência — há 50 anos, portanto — e os eruditos minimalistas do final do século XX, adaptei-me imediatamente ao grupo de Khn e Klek. A música do Angine de Poitrine me atrai e agrada de uma forma muito peculiar. É muito alegre. Não me surpreende o avassalador sucesso do grupo entre o público alternativo.
Esses caras devem ter por volta de 30 anos e não podem ter surgido do nada. Mas ninguém está interessado em saber quem são. E eu muito menos. Só quero ouvi-los.

Nesta época de Banco Master e tariflávios, do Senado inimigo do povo agindo na calada da noite (que absurdo!), das guerras que não acabam e da 5 x 2 que não sai nunca, é importante esclarececer a diferença entre ground e passacaglia.
Ground (ou ground bass) e passacaglia são parentes muito próximos, a ponto de muitos musicólogos discutirem onde termina um e começa o outro. Ambos se baseiam numa ideia simples: uma linha de baixo ou uma progressão harmônica que se repete continuamente, enquanto as vozes superiores variam. São, portanto, um tipo de variações sobre um ostinato.
Também é importante lembrar que a famosa Ground em dó menor (c minor) foi escrita por WILLIAM CROFT e não por Henry Purcell. Purcell escreveu a ainda mais famosa New Ground em mi menor (e minor). Certo?
Vocês podem ouvir estas maravilhas facilmente em vídeos.
Todos adoraram “Infâmia”! Realmente, é um filme surpreendente sobre a homossexualidade e suas repercussões. É de 1961, mas vale ainda hoje. A lista dos filmes apresentados nos orgulha demais.
1. Sunset Boulevard (Crepúsculos dos Deuses), de Billy Wilder (1950)
2. As Vinhas da Ira, de John Ford (1940)
3. Pacto Sinistro, de Alfred Hitchcock (1951)
4. Prisão, de Ingmar Bergman (1949)
5. Rebecca, de Alfred Hitchcock (1940)
6. Amarcord, de Federico Fellini (1973)
7. Delírio de Loucura, de Nicholas Ray (1956)
8. O Sétimo Selo, de Ingmar Bergman (1957)
9. O Criado, de Joseph Losey (1963)
10. Vá e Veja, de Elem Klímov (1985)
11. O Espírito da Colmeia, de Victor Erice (1973)
12. A Infância de Ivan, de Andrei Tarkovski (1962)
13. Oito e Meio, de Federico Fellini (1963)
14. Profissão: Repórter, de Michelangelo Antonioni (1975)
15. O Desaparecimento (The Vanishing, Spoorloos), de George Sluizer (1988)
16. Zabriskie Point, de Michelangelo Antonioni (1970)
17. Morte em Veneza, de Luchino Visconti (1971)
18. Inverno de Sangue em Veneza (Don´t Look Now), de Nicolas Roeg (1973)
19. A Conversação, de Francis Ford Coppola (1974)
20. O Desprezo, de Jean-Luc Godard (1963)
21. Expresso para o Inferno, de Andrey Konchalovsky (1985)
22. Dersu Uzala, de Akira Kurosawa (1975)
23. Infiel, de Liv Ullmann (2000)
24. Infâmia (The Children’s Hour), de William Wyler (1961)
O próximo será o megaclássico “Morangos Silvestres” de Ingmar Bergman (1957), na próxima segunda-feira, às 19h30, na Livraria Bamboletras.

Hoje os planetas estão girando com mais leveza porque é o aniversário da Elena. Quando ela sorri, tenho a sensação de que o universo deu certo. Desde a primeira vez que a vi, pensei “Como é linda!”. Tenho muita sorte pela inacreditável sucessão de eventos que fez com que nos conhecêssemos e etc. Poucas pessoas conseguem reunir beleza, sensibilidade, inteligência e cultura com tão desconcertante naturalidade — como se a elegância fosse apenas uma forma muito normal de existir. Talvez o amor verdadeiro seja isto: continuar admirando. E eu continuo. Esses quase 13 anos não diminuíram meu amor e admiração: apenas os refinaram.

Há muitos pontos de contato entre James Joyce e João Guimarães Rosa. Apesar de terem surgido em mundos distantes — a Dublin urbana e o sertão mineiro –, ambos reinventaram a língua literária para tentar capturar algo que a linguagem comum não alcançava.
Alguns traços comuns são particularmente fortes:
1. A língua como invenção
Nenhum dos dois se contentava com o idioma “normal”. Joyce distorce o inglês, mistura registros, cria trocadilhos, neologismos e ritmos musicais — sobretudo em Ulysses e radicalmente em Finnegans Wake.
Rosa faz algo semelhante com o português: funde fala sertaneja, arcaísmos, termos eruditos, invenções próprias e ecos de várias línguas. Em Grande Sertão: Veredas, o idioma parece nascer diante do leitor.
Ambos tratam a língua não como instrumento, mas como matéria viva.
2. A tentativa de dizer o indizível
Os dois perseguem experiências difíceis de formular:
— o fluxo da consciência,
— o mistério do mal,
— a memória,
— o tempo,
— a espiritualidade,
— a identidade.
Joyce mergulha na interioridade urbana moderna; Rosa, numa metafísica sertaneja.
3. Musicalidade extrema
Os textos dos dois pedem leitura em voz alta.
Joyce compõe frases quase como partituras. Rosa também trabalha com:
— aliterações,
— ritmos orais,
— repetições,
— sonoridades hipnóticas.
Há páginas de Rosa que lembram encantamentos; páginas de Joyce que parecem peças vocais.
4. Universalizar o local
Isso é fascinante nos dois.
Joyce praticamente nunca saiu literariamente de Dublin. Rosa quase nunca saiu do sertão. Mas ambos transformaram um espaço regional em universo humano total.
Dublin, em Joyce, vira um microcosmo da civilização ocidental. O sertão rosiano vira uma paisagem metafísica do homem.
A famosa frase de Joyce sobre Dublin — “se a cidade desaparecesse, poderia ser reconstruída por meus livros” — combina muito com GR.
5. Erudição escondida sob oralidade
Os dois parecem espontâneos, mas são profundamente arquitetados.
Joyce usa:
Homero, Tomás de Aquino, Shakespeare, liturgia católica, filosofia e todo um mundo.
Rosa mobiliza:
Línguas antigas, mitologia, Bíblia, filosofia, tradição oral, filologia e todo um mundo.
Em ambos, o popular e o erudito convivem o tempo inteiro.
6. O herói errante
Bloom e Riobaldo são viajantes interiores.
Leopold Bloom atravessa um dia comum transformado em epopeia. Riobaldo atravessa o sertão tentando entender o demônio, o amor e o destino. Os dois romances são jornadas tanto geográficas quanto mentais.
7. A ambição de reinventar o romance
Nem Joyce nem Rosa queriam apenas contar histórias. Queriam ampliar as possibilidades da literatura.
Depois deles, escrever do mesmo modo anterior parece… insuficiente.
Por isso ambos são vistos não apenas como grandes escritores nacionais, mas como criadores de linguagem comparáveis aos grandes renovadores do século XX.
Há inclusive leitores que sentem que Rosa é “o Joyce do português” — embora isso simplifique demais os dois. Rosa tem uma dimensão mística e oral muito mais intensa; Joyce é mais urbano, irônico e estruturalmente experimental.
Mas os dois compartilham uma convicção rara: a de que a realidade só pode ser alcançada quando a própria língua entra em estado de aventura.
Vimos ontem, no BamboFilmes aqui da Livraria Bamboletras, o filme “Infâmia”, de William Wyler. Não sabia que era tão extraordinário, tão bom. Conversamos após a sessão e, estranhamente, não falei daquela cena que, para mim, era o coração do filme — um daqueles raros momentos em que o cinema parece parar. Reconstruindo parte de contexto: as personagens de Audrey Hepburn e Shirley MacLaine acabaram de perder uma ação de difamação. A comunidade as condenou por homossexualidade. O colégio fechou. A vida que construíram com esforço foi reduzida a cinzas.
É nesse cenário que a personagem de Audrey Hepburn diz mais ou menos estas palavras: “É curioso. As palavras mudaram de significado. Palavras que antes usávamos com naturalidade, como ‘querida’, ‘amada’, ‘amor’… Agora não posso mais usar. Elas se tornaram obscenas. Pecaminosas”. Ela estava falando da interiorização da culpa.
Dali em diante, qualquer gesto de afeto entre duas mulheres, mesmo o mais casto, carregará a sombra da suspeita. A palavra “amiga” já não significa “amiga”. A palavra “carinho” já não significa “carinho”. E Audrey percebe que não há como lutar contra isso. Audrey Hepburn — tão frequentemente reduzida a ícone de graça e leveza — faz essa cena com uma frieza que arrepia. Não há lágrima. Não há desespero. Há apenas um espanto contido, uma espécie de estupefação racional diante do absurdo.
Dentro do filme, antes desta cena, William Wyler demonstrara uma grande capacidade de filmar o que não se via ou dizia. Ele simplesmente muda nesta cena. Wyler consegue o impossível em 1961: contornar o Código Hays (que exigia que a “perversão” fosse punida e mostrada como tragédia) e, ainda assim, criar um filme que não condena suas personagens — condena a sociedade que as condena.
Valeu muito a pena enfrentar o frio. Um BAITA FILME.

Em agosto de 1922, Virginia Woolf abriu uma página em branco de um de seus cadernos a fim de fazer algumas anotações sobre “um livro que talvez se chamasse ‘Em Casa’ ou ‘A Festa’”. Um trecho:
“Este será um livro curto, composto por seis ou sete capítulos, cada um completo em si mesmo, mas que deverá apresentar algum tipo de fusão entre si. Todos devem convergir para a festa no final. Minha ideia é ter alguns personagens, como Mrs. Dalloway, muito em relevo: então ter interlúdios de pensamento, ou reflexão, ou breves digressões (que devem estar relacionadas, logicamente, ao resto), tudo compacto, mas não abrupto.”
Segue-se uma lista de capítulos potenciais, começando com “Mrs. Dalloway in Bond Street”, um conto que ela havia terminado recentemente (e na primeira linha do qual Clarissa Dalloway decide comprar luvas para si mesma), e então esta nota: “Capítulos para serem feitos em um mês, aproximadamente. Deve haver alguma diversão —”.
“Mas se os escritores modernistas nos ensinaram alguma coisa, é que nossa experiência do tempo raramente é linear, que sob a superfície de cada momento presente correm profundas correntes de memória”, escreveu Mark Hussey em seu livro ‘Mrs. Dalloway: Biografia de um Romance’:
“Portanto, embora aquele esboço em seu caderno represente Woolf começando a planejar seu próximo romance, reunindo ideias que vinham amadurecendo há algum tempo, não seria correto considerá-lo como ‘o’ início de Mrs. Dalloway… Podemos identificar muitas fontes para o mundo criado por Woolf em seu quarto romance, mas nenhuma inspiração original específica.”
Ainda assim, em agosto de 1923, um ano depois, ela estava no meio do processo. “Tenho lutado há muito tempo com ‘As Horas’ [título provisório de Woolf para Mrs. Dalloway], que está se revelando um dos meus livros mais tentadores e resistentes”, escreveu ela em seu diário.
“Algumas partes são tão ruins, outras tão boas! Ainda não consigo parar de inventar — ainda. Qual é o problema? Mas quero me revigorar, não me anestesiar, então não direi mais nada. Só preciso observar este sintoma peculiar: a convicção de que continuarei, levarei isso até o fim, porque me interessa escrever sobre isso.”
No dia seguinte, ela acrescentou:
“Sabe, estou pensando freneticamente sobre leitura e escrita. Não tenho tempo para descrever meus planos. Devo falar bastante sobre ‘As Horas’ e minha descoberta: como escavo belas cavernas por trás dos meus personagens; acho que isso me dá exatamente o que quero: humanidade, humor, profundidade. A ideia é que as cavernas se conectem e que cada uma venha à luz do dia”.
As belas cavernas deram frutos. Mrs. Dalloway foi publicado em 14 de maio de 1925 pela Hogarth Press, a editora que Woolf dirigia com seu marido, Leonard Woolf, com uma capa que se tornaria icônica, criada pela irmã de Woolf, Vanessa Bell. Vendeu modestamente, mas desde então se tornou uma das obras mais celebradas — e influentes — do cânone literário inglês.

Por alguma razão, eu queria ir ao Bairro, um local úmido na Zona Sul de Porto Alegre, que era habitado em sua esmagadora maioria por reacionários. Pedi um Uber e o cara me disse que me levaria até a entrada do Bairro, mas que jamais entraria naquele antro bolsonarista. Concordei.
Chegando no limite determinado pelo motorista, desci do carro e penetrei no Bairro. Era tudo sombrio, escuro mesmo, logo veio um ônibus. Entrei e perguntei ao motorista onde ele ia. Ele me respondeu que todos os ônibus do Bairro eram circulares, que nenhum me levaria para outro lugar que não o próprio Bairro.
— Dou voltas o dia inteiro. Trabalho 24/7. Não tenho folga. Só paro quando morrer.
— E se tu bater com o ônibus?
— Se bater, não sei o que acontece.
— OK — respondi.
Então o ônibus começou a andar pelo Bairro. Era lindo. A arquitetura era gótica, com edifícios enormes. O ônibus entrava nos corredores dos edifícios, belíssimos e úmidos, com água vertendo das paredes cravejadas de pingos. Tudo era grande, imenso e lindo, apesar de lembrar filmes de terror. Tinha muitas esculturas ameaçadoras. Vi alguns monstros de Goya transformados em pedra.
Desci do ônibus, pois avistei um local iluminado. Só podia ser um bar. Era e a placa da porta anunciava em giz branco:
HOJE, ÀS 23h,
SHOW COM O POWER TRIO
“LIBERTÉ, ÉGALITÉ & VAI SE FUDÊ”
Gostei da coisa e entrei. Pouca gente. Pedi uma garrafa inteira de cachaça Weber Haus amburana e esperei pelo show. O trio, somadas as idades, tinha mais de 210 anos. Liberté era baixista e vocalista, Égalité, guitarrista, e Vai se fudê era o baterista. Liberté era até razoável, Égalité era uma merda; quem salvava o grupo era o excepcional Vai se fudê. Parecia o baterista do Angine de Poitrine. Um sujeito exato, se me compreendem. No conjunto, eram bem ruins.
No intervalo do espetáculo, vieram sentar-se comigo. Liberté só queria saber da minha cachaça, Vai se fudê estava quieto e Égalité não parava de falar. De repente, Égalité disse que Vai se fudê estava muito deprimido porque queria que um amigo especial viesse a seu casamento que seria dali um mês.
— O amigo negou-se a vir?
— Não, nem foi convidado.
— E quem é ele?
Égalité me disse que era Paulo Cézar Caju. Fiquei surpreso e perguntei porque Vai não tentava contato. É que Vai queria que uma pessoa culta fizesse o convite, não um borra-bostas como nós. E Égalité me propôs ligar para Caju, pois achou que eu era suficientemente fino para tanto. Fiquei envaidecido. Com a falicidade dos sonhos, peguei o celular e liguei para Caju, que hoje mora na França.
— Caju? Ça va? Tudo bem? Teu amigo Vai se fudê quer a tua presença em seu casamento.
— Pelo Rio Grande do Sul, por essa escumalha, eu não movo uma palha. Mas pelo meu amigo Vai, vou, sim.
— Por que detestas tanto nosso estado?
— Porque tudo aí é falso.
— Mas tu não foste Campeão do Mundo pelo Grêmio?
Ouvi uma risadinha de escárnio da voz grave de Caju.
— Falso Campeão do Mundo — ganhamos um torneio ridículo patrocinado pela Toyota. Falso Grêmio — contrataram eu e o Mário Sérgio só para jogar aquele jogo. Aquilo não era o Grêmio. E jamais me valorizaram, valorizaram só o Mário Sérgio. Ele era branco, claro.
— Tá, mas tu vens pro casamento?
— Vou.
Todos na mesa se animaram. Falamos de música. Égalité confessou que ele, como músico, não existia, que era como a Égalité mesmo!
Corta.
Caju está na minha casa se arrumando para ir ao Bairro. Ele e sua mulher, uma deslumbrante senegalesa, estão se aprontando. São padrinhos de Vai. Caju sai do quarto com um terno cor-de-rosa. Vou causar no Bairro, ele me diz. Pegamos o Uber. Quando chegamos ao bar — o casamento seria lá –, o rosto de Vai se fudê iluminou-se ao ver Caju e sua senagalesa. Eu e Elena entramos atrás. Vai se fudê chorava dizendo meu amigo, meu amigo… A mulher de Vai, uma velhinha magrinha de olhos azuis, tinha lágrimas até no queixo.
E então eu acordei. Estava realmente comovido. Elena, a meu lado, toda coberta, aquecia sua bochecha direita no travesseiro. Mal ela sabia que também chorara ao ver o reencontro dos amigos.

Encontro com o Mar (1962) é mais uma obra breve e profunda de Pär Lagerkvist. Novamente, a religião está presente, como em tantos livros deste ateu. Este livro é a continuação de A Morte de Ahasverus. E é uma continuação pra lá de estranha. Estamos no tempo das Cruzadas — Tobias consegue um meio de ir para a Terra Santa. Paga o comandante de um barco pirata para levá-lo. No meio do caminho, após uma luta, temos um longo monólogo de um dos integrantes da tripulação. O livro termina após este monólogo. Lagerkvist não está nem aí para questões de simetria ou para fechar os parênteses que abriu. O livro existe para mostrar o motivo pelo qual um padre abandonou a batina: a luxúria. Tudo diante de uma enorme mar enigmático, mais velho que todos nós.
No navio estão o Capitão — homem minúsculo de voz frágil que governa a todos com mão de ferro –, o Gigante — especialista em pilhagens e ataques brutais –, Ferrante — movido por insaciável desejo de riquezas e pela pura maldade –, e Giusto — o pusilânime. Mas é com Giovanni que Tobias estabelece o vínculo mais profundo. Como o ex-padre acabou naquele antro de marginais? Criado pela mãe viúva para tornar-se sacerdote, vivendo na mais estrita observância dos dogmas, Giovanni sucumbe ao desejo sexual quando ouve a confissão de uma mulher casada atormentada por uma paixão adúltera. A voz e o hálito da mulher… O confessor, enredado pela voz, transforma-se em amante.
A escrita é característica do autor: austera, precisa, despojada. Cada frase parece medida para dizer apenas o essencial, e justamente por isso ganha densidade. Não há excesso emocional, mas uma contenção que intensifica o efeito. O leitor é tão convidado a acompanhar a história, quanto a habitar um estado de espírito. Como em outras obras de Lagerkvist, a busca pela fé é a busca pelo sentido. Não há como ir adiante. O mar, nesse contexto, pode ser lido tanto como ausência de Deus quanto como sua manifestação mais enigmática.
Para leitores que apreciam a ficção escandinava de inquirição filosófica — algo na linhagem de Ingmar Bergman –, Encontro com o mar é uma joia breve, densa e inesquecível. Não se trata de um romance de ação, mas de um longo e sereno confronto com as perguntas que não se calam: o que separa um padre de um pirata? A fé resiste ao desejo? E, acima de tudo, há paz possível?

Fabrício Falkowski é uma figura rara no jornalismo. Num mercado onde os profissionais estão sempre pulando de uma empresa para outra — seja por opção, seja pelos frequentes passaralhos (demissões) — Fabrício está há 27 anos no Correio do Povo, sempre cumprindo a função de setorista do SC Internacional. Ele começou lá em 1999 e permanece no posto até hoje. Neste livro cheio de detalhes deliciosos, ele conta os últimos 25 anos do Inter, de 2000 a 2024. Fabrício não é um repórter chapa branca. Pelo contrário, foi o cara que trouxe à tona a roubalheira que culminou na responsabilização e condenação do ex-presidente Vitorio Piffero e de seu factotum Pedro Affatato por desvio de valores para benefício próprio, entre 2015 e 2016 –, ano em que o Inter caiu para a segunda divisão pela primeira e única vez em sua história.
Um dos pontos mais interessantes do livro é o foco: Fabrício narra o dia a dia, mas também se volta para o processo jornalístico. Como se constrói uma notícia? Onde termina a informação e começa a opinião? E há o “Nós” do título — ou seja, o livro inclui tanto o autor como o torcedor que consome e se consome no clube e reage às informações. Pois é importante ter um olho na rede de expectativas, paixões e distorções.
O livro tem 412 páginas com fotos e muitos detalhes pouco conhecidos dos bastidores do clube. O texto é fluido, grudento, fácil de ler. Há pra todos os gostos. Há tragédia para quem é de tragédia, há a narrativa dos grandes feitos para quem quiser rememorar aqueles dias. Há também os períodos de pasmaceira. Fabrício viajava muito com o clube. Foi ao Mundial Fifa de 2006, por exemplo. A desgraça de 2016 está muito bem contada, assim como os bastidores dos já citados roubos de dirigentes. Apesar de ser escrito em primeira pessoa, cabem tanto observações pessoais do repórter como da evolução do jornalismo. Não se trata de jornalismo gonzo — ou seja, o repórter não é o protagonista, só se torna parte da história quando uma notícia sua muda os rumos do clube.
Interessou-me muito a evolução ou involução do jornalismo esportivo. Fabrício fala no empobrecimento do jornalismo esportivo. É verdade. Antes, as entrevistas era frequentes e sabíamos mais dos profissionais. Os repórteres viam os treinos. Hoje, os treinos são fechados — precisa ser sempre assim? –, só os chatíssimos técnicos dão entrevistas e muitas vezes nem se conhece a voz dos jogadores que se ama ou detesta. É uma perda não sabermos quem é burro, quem é inteligente. Existem câmeras mostrando cada detalhe dos lances, mas não se sabe bem quem é o jogador, se ele é articulado ou se é um Jardel. Tudo ficou muito distante. Recentemente, Fabrício passou a perambular por assuntos também importantes — como o efeito da liberação das bets.
O Inter, o Jornalismo e Nós não oferece respostas fechadas, nem busca absolver ou condenar. Para mim, foi como ler um detalhado balanço de um tempo em que aconteceu literalmente de tudo. Um balanço que, de certa forma, é também a minha história como fanático do futebol.
Recomento fortemente aos colorados! Ah, o livro está quase de graça na Bamboletras: R$ 49,90.

Ontem, foi uma noite especial na Ospa. O Augusto Maurer voltou a tocar com a orquestra. No intervalo, uma mulher na plateia chamou a Elena para dizer que ela era muito elegante. Não foi a primeira vez, a Elena é da nobreza até de camiseta surrada em casa. O Brahms também esteve muito bem, apesar de não ter comparecido pessoalmente. Mas o fato curioso é que, no palco, estavam Elena e seu ex. E, na plateia, de forma dispersa, estavam eu e minhas duas ex. Parecia festival de repertório antigo. Cada um manteve seu lugar — o que, convenhamos, já é uma forma de harmonia.