Puxa vida, o sul-africano Galgut é realmente um mestre. Em um quarto estranho não são relatos autobiográficos tradicionais, mas sim um romance de características autobiográficas. O livro é classificado como um “romance”, no entanto, seu material e protagonista estão diretamente relacionados à experiência pessoal de Damon Galgut. Não é autoficção porque, bem, não é ficção. Sua particularidade reside no fato de que ele utiliza técnicas ficcionais para processar e reconstruir materiais reais de sua vida. São três viagens bem pouco turísticas em três tempos diferentes. O autor confirmou em entrevista que as três viagens narradas no livro (Grécia, África, Índia) são baseadas em experiências suas. Curiosamente, a narrativa alterna entre “ele” e “eu” para se referir ao protagonista. Na mesma entrevista, ele explicou: “Em parte ele sou eu completamente, em parte ele é um estranho que observo.” O The Guardian — sim, pesquisei após ler o livro — fala que, embora seja “claramente baseado em eventos autobiográficos”, ele oferece a “verdade de um escritor”, estando, deste modo, na fronteira entre a vida real e a ficção, podendo ser considerada uma autoficção ou romance autobiográfico, mas não uma autobiografia em sentido estrito.
Em um quarto estranho tem algo que eu poderia chamar de delicadeza inquietante. Damon, o protagonista, viaja, cruza paisagens e fronteiras, encontra desconhecidos e se deixa levar por relações que começam com boas promessas e terminam, não raro, em desconforto, exaustão ou desamparo. Há nele uma inquietação que não se resolve com o deslocamento geográfico.
O livro se organiza em três movimentos, três experiências de viagem e de aproximação com outras pessoas. Em cada uma delas, Galgut investiga a incapacidade de assumir compromissos, entre a solidariedade e o incômodo, entre a vontade de ajudar alguém e a necessidade de preservar a própria integridade. Seus personagens se aproximam, apenas isso. Às vezes, parece intimidade, mas são pessoas dividindo o mesmo espaço.
Uma das grandes virtudes do romance está na forma. Como disse, Galgut alterna a narração entre primeira e terceira pessoa. Assim, cria uma distância curiosa entre o escritor e seu personagem, para depois dissolver subitamente o espaço. Essa escolha produz um efeito interessante: nos instalamos no personagem mas jamais inteiramente. O próprio eu parece ser uma espécie de quarto estranho. Outro fato é que as frases interrogativas não vêm com ponto de interrogação e, como li este livro em voz alta para minha mulher, às vezes tinha que repetir a frase para cantar a música da pergunta.
Como sempre, a prosa é fluida e sem sentimentalismos. Ainda bem que Galgut não transforma a inquietação de seus personagens em declarações existenciais tipo Mia Couto. Seu talento está justamente em deixar que os gestos, os silêncios, os desconfortos e as pequenas ambiguidades revelem aquilo que as pessoas não sabem ou preferem não dizer. O que realmente devemos aos outros? Até onde vai nossa responsabilidade? Em que momento a liberdade se converte em abandono?
Damon Galgut, que demonstrara sua extraordinária capacidade de observar as fraturas íntimas e sociais da África do Sul em livros como O Bom Médico e nos sensacionais O Impostor e A Promessa, tem uma qualidade essencial: a compreensão de que os dramas humanos raramente se apresentam de maneira organizada, com causas evidentes e conclusões definitivas. Vivemos por aproximações, equívocos, impulsos e recuos. Talvez a maior estranheza não esteja nos quartos em que entramos durante uma viagem, mas no fato de que, mesmo quando encontramos abrigo, alguma coisa em nós segue do lado de fora.





























