O Concerto Nº 2 de Brahms pela Ospa

O Concerto Nº 2 de Brahms pela Ospa

Dois verdadeiros artistas, dois verdadeiros poetas. O maestro francês Martin Lebel e o pianista suíço Homero Francesch nos trouxeram, junto à Ospa, toda a dimensão do por si imenso Concerto nº 2 para Piano e Orquestra de Johannes Brahms. Obra da maturidade do compositor, eles fizeram com que tudo o que fosse humano na sala se arrepiasse.

Como disse o pianista e professor Fernando Rauber Gonçalves nas Notas de Concerto, há compositores tardios (como também Bach) que não estão requentando velhas fórmulas, como alguns de seus contemporâneos pensavam, mas indicando caminhos. Arnold Schoenberg, o cúmulo da vanguarda em sua época, citado por Rauber, considerava Brahms um compositor inovador e revolucionário, cunhando o famoso ensaio “Brahms, o progressivo”, de 1947. Schoenberg, primeiro em palestras pelo rádio e depois por escrito, defendia que Brahms não era um tradicionalista, mas alguém que expandiu a linguagem musical — até estraçalhar nossos corações, completo eu.

E talvez seja justamente isso que torna o Segundo Concerto tão extraordinário. Sua arquitetura monumental não é um tour de force, mas uma construção profundamente humana. Brahms escreve para um instrumento gigantesco — a orquestra — e, ao mesmo tempo, para o íntimo de quem escuta. Há momentos de enorme força e som, mas também há delicadezas de suspender o tempo. O segundo movimento, com sua fúria e seu lirismo, e sobretudo o terceiro, com aquele maravilhoso diálogo entre piano e violoncelo…

Aliás, no começo do terceiro movimento — o Nº 2 tem quatro –, sentado no meu mezanino de sempre, consultei o ChatGPT e fiz a pergunta “O Concerto 2 de Brahms não parece ter 2 primeiros movimentos?”. As IAs gostam de dar estímulos positivos, enchendo a bola da gente, né? Ela respondeu que era uma observação genial de minha parte… Não, não há nada de gênio em mim, os dois primeiros movimentos são de tempos rápidos, grandiosos, daqueles que pedem aplausos. Pô, fica muito claro que Brahms não está seguindo o modelo tradicional de concerto em três movimentos. Ele expaaaaande a forma. O segundo movimento muda o centro de gravidade da obra antes de chegarmos ao verdadeiro movimento lento. Eu não sei porque ele fez aquilo, sei que o “desequilíbrio” funciona.

O primeiro movimento começa de maneira quase desconcertante. Em vez de uma abertura triunfal, temos aquele tema da trompa, lindo e interrogativo, que convida o piano a entrar. Este entra respondendo à orquestra. É uma música de enorme extensão, mas o drama é sobretudo interior. A relação piano-orquestra é muito mais complexa do que a de solista contra acompanhamento. Quando termina, pensamos que lá vem o movimento lento.

Mas não. Entra um Allegro appassionato. É quase como se alguém tivesse aberto uma porta e, de repente, estivéssemos em outro lugar (ou com outro compositor). A diferença de caráter é enorme. A música fica mais física, mais violenta. O piano deixa de ser aquele interlocutor do primeiro movimento e passa a participar de uma verdadeira luta dramática. E o mais curioso é que Brahms chamava isso de scherzo. Não vou discutir com ele.

Só que não há praticamente nada daquele scherzo leve e brincalhão tipo Beethoven e Bruckner. É algo sombrio e apaixonado, talvez trágico.

É aí que surge a impressão de que existem dois primeiros movimentos.

Há uma história deliciosa: quando Brahms foi estrear este Concerto pela primeira vez, em 1881, teria dito um amigo que “A nova peça é muito bonita, mas é pequena”. (Dizem que ele estava velho e tocava mal seu próprio concerto).

Já Francesch, de 78 anos e em perfeita forma, tocou Brahms com um som muito convincente e entendendo que o piano não era o protagonista absoluto. O instrumento respirava dentro da orquestra. E Lebel levou a coisa sem muito peso, de forma muito moderna, deixando aflorar o movimento e a tensão que nunca deixam a música repousar completamente.

A duração de 50 minutos do concerto me deixou mobilizado por todo o tempo. É longo, sim, mas não senti o tempo passar. Sim, foi um momento raro. Brahms não pareceu um compositor do passado. Pareceu alguém que estava ali, descobrindo algo conosco. É para isso que existem os grandes músicos: para fazer com que uma obra que conhecemos nos pareça, de repente, desconhecida.

E para que, por alguns momentos, tudo o que há de humano numa sala se arrepie.

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Tomou um tiro e deu

Tomou um tiro e deu

Já adianto que essa ideia de mandar o Pezzolano embora é burra. Por incrível que pareça, o Inter fez um bom primeiro tempo, mas é como aquele cara que faz evoluções com uma cimitarra na frente do Indiana Jones. Tomou um tiro e deu.

O Inter não sabe fazer gols. Não tem um artilheiro, nem um bom atacante de lado. Sei que é mais fácil demiti-lo, claro, só que o fato é que Pezzolano é um lutador sem armas. Em caso de demissão, sugiro chamar o Roth…

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Basta! Uma carta aberta de artistas e pensadores judeus em defesa de Mark Ruffalo

Basta! Uma carta aberta de artistas e pensadores judeus em defesa de Mark Ruffalo

Dan Sheehan
1º de setembro de 2026

Centenas de artistas, escritores, profissionais criativos, líderes religiosos e pensadores judeus — incluindo Emma Seligman, Gabor Maté, Hannah Einbinder, Ilana Glazer, James Schamus, Larry Charles, Joel Coen, Miranda July, Molly Crabapple, Sarah Sherman, Tavi Gevinson, Todd Haynes e Tony Kushner — assinaram uma carta aberta “em resposta à ultrajante campanha difamatória contra nosso respeitado colega Mark Ruffalo”.

Ruffalo, um defensor de longa data dos direitos palestinos e que tem se manifestado veementemente contra a conduta de Israel em Gaza e na Cisjordânia, foi acusado pela gigante da mídia Paramount Skydance de invocar “estereótipos antissemitas” em suas críticas à fusão de US$ 111 bilhões com a Warner Bros Discovery (WBD).

Em um comunicado compartilhado em suas redes sociais no mês passado, o ator destacou a ligação entre a Paramount Skydance, dirigida pelo CEO David Ellison, e a Oracle, empresa de tecnologia administrada pelo pai de Ellison, Larry. A Oracle fornece software para as Forças de Defesa de Israel há décadas, e Larry Ellison é o maior doador da história da organização sem fins lucrativos Amigos das Forças de Defesa de Israel.

Além de condenar a “falsa e perigosa instrumentalização de acusações de antissemitismo contra aqueles que são corajosos o suficiente para apontar o óbvio”, a carta aberta detalha a profunda ligação entre os Ellisons e o genocídio em Gaza, e destaca uma pesquisa recente do Washington Post que constatou que 61% dos judeus americanos agora concordam que Israel está cometendo crimes de guerra em Gaza.

Segue abaixo a carta e a lista de signatários na íntegra.

“Basta!”

Somos artistas, escritores, profissionais criativos, líderes religiosos e pensadores judeus que, em resposta à ultrajante campanha difamatória contra nosso respeitado colega Mark Ruffalo, temos uma mensagem simples para compartilhar com o mundo: Basta! Basta da instrumentalização falsa e perigosa de acusações de antissemitismo contra aqueles que são corajosos o suficiente para apontar o óbvio: que o ataque ao povo palestino e o ataque às nossas liberdades em nosso país estão profundamente interligados, e não há nada de antissemita em reconhecer esse fato.

A fusão proposta entre a Paramount e a Warner Brothers Discovery não é uma mera combinação de duas grandes empresas multinacionais. Sim, ela destruirá milhares e milhares de empregos. Sim, ela consolidará ainda mais o controle oligárquico sobre a nossa mídia (basta ver o desmantelamento da CBS News). Sim, ela sufocará a competição e a criatividade na produção e distribuição de filmes e programas de televisão.

Mas tudo isso e muito mais será feito como parte de um projeto maior de dominação tecnológica, um projeto que Larry Ellison e seus parceiros nunca hesitaram em alardear — e que eles próprios vincularam explicitamente ao seu apoio às depredações contínuas infligidas ao povo palestino e ao silenciamento dos críticos desses horrores. Todos vimos isso após a aquisição do TikTok, intermediada por Trump — uma aquisição que eles declararam abertamente ter sido motivada, em grande parte, pelo desejo de impulsionar a propaganda pró-Israel. Larry Ellison, pessoalmente, com seus impressionantes US$ 350 milhões em financiamento e promessas de doação ao Instituto Tony Blair para a Mudança Global, tem sido o principal apoiador de Blair, que assume um papel influente na tomada de Gaza, arquitetada por Trump, através do “Conselho da Paz”, um território que se tornou um laboratório a céu aberto para tecnologias de controle e assassinato baseadas em inteligência artificial, como as celebradas pela ex-CEO da Oracle (e atual membro do conselho da Oracle e da Paramount), Safra Catz.

O caminho da IA ​​para a WarnerMount passa por Gaza, e Ellison frequentemente nos alerta sobre o mundo orwelliano que ele preparou para nós, enquanto consolida o controle sobre o que assistimos e como assistimos, sabendo que, enquanto assistimos, ele e sua comitiva corrupta estarão sempre nos observando: “Os cidadãos se comportarão da melhor maneira possível porque estamos constantemente gravando e relatando.”

Apontar as conexões cruciais entre o que está acontecendo em Gaza e o que está acontecendo em Hollywood é exatamente o oposto do antissemitismo. É, para nós, a própria essência do dever ético judaico. De acordo com uma pesquisa recente do Washington Post, 61% dos judeus americanos agora concordam que Israel está cometendo crimes de guerra em Gaza; e quatro em cada dez concordam que esses crimes equivalem a genocídio. Será que aqueles que atacam Mark Ruffalo como antissemita realmente acreditam que todos esses judeus americanos também são antissemitas? Ou que não vemos a conexão entre, por um lado, a impunidade criminosa que levou os EUA e Israel a um desastre sem fim e, por outro, as manobras oligárquicas de poder dos Musks, Ellisons, Thiels e outros que estão trabalhando para desmantelar nossa democracia?

Mas a virulência e a falsidade das calúnias que dirigem aos seus críticos evidenciam a crescente fragilidade da sua posição, baseada em insinuações. Hoje, cada vez mais pessoas de consciência unem-se para proclamar, em voz alta e unívoca: Acabou o tempo de usar acusações espúrias de antissemitismo em defesa da guerra, da oligarquia e, agora, da dominação da inteligência artificial. Essa estratégia desgastada já não funciona mais.

Apoiamos com orgulho Mark Ruffalo e todas as pessoas decentes que estão corajosamente se levantando e dizendo a verdade ao poder.

NOTAS:

Ver Safra Catz em uma cúpula do Conselho Israelense-Americano discutindo as armas secretas “assustadoras” da Oracle em Gaza: “Não quero me gabar, mas…” (link)

Os executivos da Oracle são cristalinos em sua posição sobre Israel: ” Apoiar Israel está no nosso DNA — mesmo que nos custe clientes. Essa é a nossa agenda.” (link)

Catz tem sido muito insistente em afirmar que não tolerará funcionários nas empresas que ajuda a administrar que não compartilhem de suas opiniões: ” Para os funcionários, é claro: se você não é a favor dos Estados Unidos ou de Israel, não trabalhe aqui.” (link)

Para obter detalhes sobre as parcerias da Oracle com as forças armadas e a polícia israelenses, acesse: Oracle. Aqui está Ellison falando sobre seu objetivo de “registrar e relatar constantemente”.

Sobre a parceria entre Ellison e Blair, veja Blair e o Bilionário . Assista à conversa entre Blair e Ellison sobre a dominação global da IA: acesse “Uma oportunidade incrível para reimaginar o Estado…”. Sobre Blair e seu papel em Gaza, veja Blair Assume um Papel Maior .

No TikTok e em Israel, veja Benjamin Netanyahu proclamando a aquisição como “a compra mais importante que está acontecendo” durante a guerra: acesse “As armas mudam com o tempo…”

Para saber mais sobre a crescente e perigosa instrumentalização do antissemitismo como ferramenta para destruir a liberdade de expressão e outros direitos, e como os judeus estão lutando contra essa instrumentalização, visite o site da Diaspora Alliance.

Para pesquisas recentes sobre a visão cada vez mais crítica dos judeus americanos em relação a Israel, veja o artigo do The Washington Post intitulado “A maioria dos judeus diz que Israel está cometendo crimes de guerra – e 39% dizem que é genocídio…”

Todos os links estão na Literary Hub na matéria com o título “Enough! An Open Letter from Jewish Creatives and Thinkers in Defense of Mark Ruffalo”.

 

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O Duelo, de Anton Tchékhov

O Duelo, de Anton Tchékhov

Nesta rara novela de Tchékhov — como todos sabem, ele se dedicava mais aos contos e às peças de teatro –, a gente fica imaginando que outras novelas e romances maravilhosos ele também poderia ter escrito. Aqui, neste O Duelo, a ideologia encontra o abismo humano. O Duelo vai muito além do confronto físico que lhe dá título, transformando-se num palco para algumas das grandes questões existenciais que assombravam a intelligentsia russa do século XIX.

A história se passa numa pequena cidade litorânea do Cáucaso, um microcosmo, onde Tchékhov reúne figuras que representam polos opostos da existência. De um lado, Laiévski, um burocrata de 28 anos, é a personificação do “homem supérfluo” da literatura russa. Trata-se um sujeito que se mudou para o campo com sua amante, Nadiéjda, com sonhos de uma vida simples, mas que se perdeu no jogo, na bebida e na inércia. Vive pedindo dinheiro para todo mundo. De outro, o zoólogo Von Koren, um darwinista social convicto, representa a razão fria e o pragmatismo mais extremo, vendo em Laiévski um ser inferior. Acharia melhor se este fosse eliminado para o bem da evolução da espécie.

Na verdade, há vários “duelos”. Não há apenas o duelo final entre os dois homens, mas também o duelo silencioso entre os amantes que já não sabem se se amam, o duelo ideológico entre o niilismo boêmio e a rigidez científica, o duelo individual entre sonho e realidade, que dilacera o protagonista por dentro e o duelo da própria forma, onde Tchékhov equilibra a concisão do conto com a amplitude do romance .

Von Koren é brilhante e tem razão em muitos dos seus diagnósticos sobre a inépcia de Laiévski, mas seu antídoto para o mal é um autoritarismo que beira o totalitarismo, tratando pessoas como “insetos e nulidades” em nome da humanidade, da evolução e da razão. Já Laiévski é patético e autodestrutivo, mas sua falência é profundamente humana.

Ao contrário do que se poderia esperar, O Duelo não se resolve na violência do combate. O clímax se desvia por um acaso, por uma intervenção casual. A novela termina numa nota de ateísmo, sugerindo que a redenção e a justiça não vêm de grandes gestos ideológicos, mas sim de pequenas correções éticas na vida cotidiana.

Esta é uma obra de realismo psicológico, uma boa análise de humanos em crise e um comentário atemporal sobre o perigo de se transformar pessoas em meros objetos de uma teoria. Para fãs de Tolstói, Dostoiévski ou Turguêniev, O Duelo é uma leitura essencial que, como bem disse um amigo aqui da livraria, nos lembra que, na maioria das vezes, “os duelos fazem parte da maneira como enxergamos o mundo”.

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Eu voto no Rio Grande do Sul

Meu voto:
(agora na ordem da urna eletrônica):

Dep. Federal: Fernanda Melchionna (5050)
Dep. Estadual: Matheus Gomes (50123)
Senadora (1ª vaga): Manuela (500)
Senador (2º vaga): Pimenta (131)
Governadora: Juliana (12, caiu uma lágrima)
Presidente: Lula (13)

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Quinta série

Quinta série

Como diz um grande amigo meu, a quinta série vive em muitas pessoas.

Um cara me perguntou agora:

— Você conhece o Garcia?

Bah, óbvio que eu pensei “Aquele que te comeu dentro da pia?”

E se alguém me perguntasse qual é o país com duas sílabas e uma de comer eu diria Japão, mas pensaria Cuba.

Desculpe, gente. Normalmente sou um cara fino e guardo as bobagens pra mim. É que voltei da corrida e a endorfina produz monstros.

Imagem: O sono da razão produz monstros (El sueño de la razón produce monstruos), gravura número 43 da série Los Caprichos, criada por Francisco Goya entre 1797 e 1799.

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BamboFilmes: todos os filmes apresentados e o próximo —

BamboFilmes: todos os filmes apresentados e o próximo —

1. Sunset Boulevard (Crepúsculo dos Deuses), de Billy Wilder (1950)
2. As Vinhas da Ira, de John Ford (1940)
3. Pacto Sinistro, de Alfred Hitchcock (1951)
4. Prisão, de Ingmar Bergman (1949)
5. Rebecca, de Alfred Hitchcock (1940)
6. Amarcord, de Federico Fellini (1973)
7. Delírio de Loucura, de Nicholas Ray (1956)
8. O Sétimo Selo, de Ingmar Bergman (1957)
9. O Criado, de Joseph Losey (1963)
10. Vá e Veja, de Elem Klímov (1985)
11. O Espírito da Colmeia, de Victor Erice (1973)
12. A Infância de Ivan, de Andrei Tarkovski (1962)
13. Oito e Meio, de Federico Fellini (1963)
14. Profissão: Repórter, de Michelangelo Antonioni (1975)
15. O Desaparecimento (The Vanishing, Spoorloos), de George Sluizer (1988)
16. Zabriskie Point, de Michelangelo Antonioni (1970)
17. Morte em Veneza, de Luchino Visconti (1971)
18. Inverno de Sangue em Veneza (Don´t Look Now), de Nicolas Roeg (1973)
19. A Conversação, de Francis Ford Coppola (1974)
20. O Desprezo, de Jean-Luc Godard (1963)
21. Expresso para o Inferno, de Andrey Konchalovsky (1985)
22. Dersu Uzala, de Akira Kurosawa (1975)
23. Infiel, de Liv Ullmann (2000)
24. Infâmia (The Children’s Hour), de William Wyler (1961)
25. Morangos Silvestres, de Ingmar Bergman (1957)
26. Stromboli, de Roberto Rossellini (1950)
27. Bom dia, de Yasujiro Ozu (1959)
28. Cabra marcado para morrer, de Eduardo Coutinho (1984)
29. McCabe & Mrs. Miller, de Robert Altman (1971)
30. Se meu apartamento falasse, de Billy Wilder (1960)
32. Sunset Boulevard (Crepúsculo dos Deuses), de Billy Wilder (1950) — atendendo a pedidos
33.

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Atrás do balcão da Bamboletras (LXXX)

Entra uma moça bem bonita na livraria. É bem jovem e, paradoxalmente, tem cabelos grisalhos. Penso que ela deve ter muita personalidade ou ser uma pessoa excêntrica o suficiente para não se dobrar às modinhas. Ela me pede para ver os cartões. Respondo-lhe que temos poucos e que a maioria ainda é do Natal. Ela examina um a um e parece encontrar um adequado a seu propósito.

Então se aproxima do balcão, eu elogio seus cabelos, ela agradece e me conta que ainda não foi chamada de desleixada, mas que vai acontecer. Diz:

— Eu vou te pedir uma coisa muito pessoal.

Atender numa livraria pode ser muito divertido e já vou antegozando a surpresa que viria. Qual seria a “coisa pessoal”?

— É que eu estou grávida e hoje veio o resultado de qual é o sexo do bebê. Não olhei ainda, mas o resultado está no meu celular. Quero que tu leia e escreva no cartão se é menino ou menina. Vou dar o cartão para meu marido. Quero ver a cara dele ao saber. E então ele vai me informar. Achei um cartão bem bonitinho, olha.

Olhei e vi um cartão de Natal daqueles da Anna Cunha. Uma imagem bonita, naive, digna, de ateu, nem parecia um Jesus Cristinho e não tinha nada escrito nele. Ela tinha conseguido encontrar o que queria.

Peguei o celular dela a fim de ver o laudo. O sistema pediu o CPF. Ela o recitou número por número. O troço pediu depois uma senha.

— Ah, deixa eu ver com meu marido.

Ela ligou pra ele e me recitou a senha dígito por dígito. O laudo se abriu e eu me tornei a pessoa mais importante do universo. Li o sexo da criaturinha e peguei a caneta para escrever. Perguntei:

— Escrevo menino-menina ou guri-guria?

— Pera, deixa eu ver com meu marido.

Ela escreve no WhatsApp e recebe a resposta:

— Ele escolheu guri-guria.

Escrevi, botei um ponto de exclamação ao final, fechei o envelope e lhe entreguei.

— Agora vou pra casa e ele vai me dizer.

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Da Elena no meu aniversário

Um poema do pouco conhecido aqui, de Nikolay Gumilyov.

Bebê elefante

Meu amor por você agora é um bebê de elefante
Nascido em Berlim ou em Paris
Que anda, com pernas bambas
Pelos aposentos do dono do zoológico.

Não lhe ofereça baguetes
Não lhe ofereça grandes repolhos,
Ele só pode comer um gomo de tangerina
Um cubo de açúcar ou um bombom.

Não chore, minha doce, que em uma gaiola apertada
Ele se tornará o escárnio dos comuns,
Para que a fumaça dos charutos seja soprada em seu nariz
Por comerciantes ao som do riso de costureiras.

Não pense, minha querida, que o dia chegará
Quando, enfurecido, ele quebrará as correntes
E correrá pelas ruas
Como um ônibus, esmagando as pessoas aos gritos.

Não, deixe-se sonhar com ele pela alta madrugada
Em brocado e cobre, com penas de avestruz,
Como aquele Magnífico que outrora
Carregou para a trêmula Roma Aníbal.

(1920)

*******

Sabemos que ler poesia traduzida é como tomar banho de capa de chuva. (c)
Então, coloco o original no primeiro comentário.
Feliz aniversário, meu q u e r i d o!

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Pianistas 1

Pianistas 1

Certa vez, estava em Londres com minha filha Barbara. Eu amo a cidade, mas infelizmente talvez jamais volte pra lá. Evitemos os assuntos monetários, eles me fazem mal.

Pois estávamos em Londres e fomos a um recital de piano de um sujeito de cujo nome não lembro, mas que, se estava no Wigmore Hall à noite, tinha que ser MUITO BOM. Ele tocou Bartók, Beethoven e Schubert. Foi lindo. Daqueles recitais pra gente sair da sala eufórico.

Ao final, o público pedia um bis. Ele pediu para falar e disse algo assim:

— Amigos, hoje cedo, de madrugada, eu ainda estava em Moscou. Vim às pressas tocar para vocês em razão da doença do pianista X., como vocês sabem (eu não sabia nem de doença, nem que ele era o substituto de alguém). Estou bem cansado, porém vou dar o bis. Só que desta vez vou tocar a música que costumo tocar quase todos os dias antes de dormir e que não é um erudito. É algo para relaxar. Vou tocar Peace Piece, de Bill Evans. Não durmam, por favor.

Depois das risadas… Olha, o que o cara fez de Peace Piece foi de arrepiar até o dedão do pé. Durante a execução, eu estava até com medo de respirar, se me entendem. Não queria e não podia atrapalhar, seria um crime.

.oOo.

E a história de Peace Piece, de Bill Evans, é particularmente bonita porque a peça nasceu por acaso, durante uma sessão de gravação.

Evans estava trabalhando, em 1958, na trilha do filme Some Came Running, de Vincent Minnelli. O diretor queria uma versão de “Some Other Time”, de Leonard Bernstein. Evans começou a tocar no piano uma figura repetitiva, muito simples, com a mão esquerda: dois acordes que se alternavam continuamente. Sobre esse ostinato, começou a improvisar livremente com a mão direita. O que deveria ser apenas uma introdução acabou se transformando em outra coisa. O produtor percebeu o que estava acontecendo e tacou o dedo no botão de “Gravar”. Evans continuou improvisando — e nasceu Peace Piece.

O aspecto extraordinário está justamente na maneira como ela é construída. A mão esquerda repete obsessivamente um padrão de dois acordes, quase como um ground barroco, enquanto a mão direita parece flutuar sem nenhuma pressa, inventando melodias que não chegam a uma conclusão. Há pouquíssimo movimento, mas enorme quantidade de movimento interior. Evans consegue fazer com que pequenas alterações de intensidade, duração e articulação produzam a sensação de que a música está sempre mudando.

E há outra curiosidade deliciosa: Evans afirmou posteriormente que não planejou nem compôs propriamente “Peace Piece”. Para ele, a mão direita era uma improvisação que simplesmente aconteceu naquele momento. Por isso a gravação original, de 1958, tem uma qualidade tão particular: ouvimos um pianista descobrindo a música enquanto a toca.

Talvez seja essa a razão de Peace Piece continuar soando tão moderna. Ela está entre o jazz, a música de concerto e uma espécie de meditação — e antecipa, em certa medida, procedimentos que seriam explorados muito mais tarde pela música minimalista e pela improvisação contemplativa. É uma música de uma simplicidade enganadora: quanto menos Evans faz, mais profundamente somos obrigados a escutar. E o pianista de Londres, após maravilhosas peças escritas, nos fez levitar com aquela música não composta.

(Para Augusto Maurer, Francisco Marshall, José Beltrame Cusco, Norberto Flach e Rodrigo Nassif).

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Uma Ressurreição

Uma Ressurreição

Neste final de semana (sábado e domingo, às 17h) a Ospa apresentará uma extraordinária sinfonia que não tocava desde 2003. Um Concerto com a Sinfonia nº 2, “Ressurreição”, de Gustav Mahler, é algo para não se perder. Jamais. É uma obra que começa praticamente diante da morte — o primeiro movimento tem como ponto de partida o funeral de um herói — e vai ampliando progressivamente seu horizonte até chegar à ideia de ressurreição. Mahler transforma a sinfonia em algo maior do que uma composição puramente instrumental: uma espécie de percurso metafísico, no qual silêncio, angústia, memória e esperança vão encontrando seu lugar.

A música é monumental, mas sua grandeza não está simplesmente no tamanho da orquestra ou na duração. Está na capacidade de Mahler de fazer coexistirem, dentro da mesma obra, o sublime e o cotidiano, o solene e o grotesco, a delicadeza quase camerística e as forças descomunais da orquestra — são 200 músicos. Há momentos em que parece que estamos ouvindo a história inteira da música — Beethoven, Wagner, Schubert, a canção popular — sendo lembrada, transformada e, por que não?, ironizada. E há uma característica profundamente mahleriana: quando acreditamos ter chegado ao fim, a música parece abrir mais uma porta.

Uma curiosidade: Mahler levou vários anos para completar a sinfonia. O primeiro movimento foi estreado isoladamente em 1888, e somente em 1894, depois da morte do maestro Hans von Bülow, Mahler encontrou o impulso decisivo para concluir a obra. Conta-se que, durante o funeral de Bülow, ouviu o coral “Aufersteh’n” (“Ressuscitarás”), de Friedrich Klopstock, e percebeu que aquele texto oferecia a resposta que procurava para o final da sinfonia. Assim nasceu uma das mais impressionantes conclusões de toda a música sinfônica: não uma vitória triunfal sobre a morte, mas uma lenta, quase dolorosa afirmação de que a existência pode ter um sentido para além dela.

(Não se apavorem com os músicos fora do palco. É a multidão de almas penadas).

Programa:
Gustav Mahler | Sinfonia Nº 2 em Dó menor, “Ressurreição”
– Allegro maestoso. Mit durchaus ernstem und feierlichem Ausdruck (Com expressão totalmente grave e solene)
– Andante moderato. Sehr gemächlich. Nie eilen (Muito vagaroso. Sem pressa)
– In ruhig fließender Bewegung (Com movimento fluindo tranquilamente)
– Urlicht (Luz Primordial). Sehr feierlich, aber schlicht (Muito solene, mas simples)
– Im Tempo des Scherzos. Wild herausfahrend (No tempo do scherzo. Irrompendo de forma selvagem)

Solistas: Manuela Korossy (Soprano) e Edineia Oliveira (Mezzo-soprano)
Coro Sinfônico da OSPA
Coro de Câmara da PUCRS
Coro Masculino Ottava Bassa
OSPA
Regência: Manfredo Schmiedt

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O que podemos saber, de Ian McEwan

O que podemos saber, de Ian McEwan

McEwan é um autor especialmente bom para resenhas que não contem demais do enredo, porque o que torna seus livros fascinantes — com as exceções de A Barata e Solar, livros que detestei — é justamente a forma como ele vai deslocando, aos poucos, aquilo que pensamos saber sobre as pessoas, o passado e até sobre nós mesmos. Há escritores que contam histórias para nos fazer esquecer o mundo, McEwan faz o contrário: conta histórias para nos lembrar de como é estranho, frágil e misterioso o que julgamos conhecer.

Em O que podemos saber, McEwan parte de uma pergunta que parece simples, mas que logo se torna importante e abissal: o que, afinal, podemos saber sobre uma pessoa que já viveu, sobre um tempo que já passou, sobre uma vida que não é a nossa? O romance se constrói nesse espaço entre memória e imaginação, entre aquilo que os documentos preservam e aquilo que inevitavelmente se perde. E é justamente aí que a literatura aparece — não como uma máquina de recuperar o passado, mas como um modo delicado e inteligente de conversar com aquilo que desapareceu.

Por falar em inteligência, McEwan tem uma bem particular. Ele é mestre em transformar grandes questões em experiências íntimas. O futuro, a memória, o amor, a morte, a passagem do tempo e a nossa relação com as gerações que virão não aparecem como temas filosóficos. Ganham corpo em personagens, desejos, segredos e descobertas. O resultado é um romance que pensa sem jamais deixar de contar uma história.

Neste livro, há também uma espécie de melancolia muito bonita. Não apenas a melancolia diante do que já aconteceu, mas diante daquilo que não poderá mais ser conhecido. Toda vida humana contém zonas inacessíveis. Pessoas que amamos guardam pensamentos que nunca nos revelaram. Acontecimentos importantes são esquecidos ou varridos minuciosamente para baixo do tapete, sentimentos mudam de significado com o passar dos anos. Mesmo quando temos documentos, fotografias, cartas e testemunhos, nunca possuímos inteiramente uma existência.

A história desenrola-se em dois tempos. Em 2119, o mundo foi devastado por alterações climáticas e guerras nucleares que reduziram a população global à metade, afundaram boa parte da Inglaterra (transformado num arquipélago) e tornaram a Nigéria a grande potência. Neste cenário, Thomas Metcalfe, um professor de literatura, dedica-se a estudar o período de 1990 a 2030, uma época que ele chama de “era de ouro”, de abundância e liberdade. E de irresponsabilidade, claro.

A sua obsessão é um poema perdido: Uma Coroa para Vivien, escrito em 2014 pelo poeta Francis Blundy para a sua esposa e lido uma única vez durante um jantar de aniversário e nunca mais encontrado. O poema, uma complexa sequência de 15 sonetos, tornou-se uma lenda, envolto em mistério e especulação. Tom, juntamente com a sua companheira e colega Rose, vasculha os registros digitais do século XXI — e-mails, mensagens, blogs — na esperança de encontrar uma pista que o leve ao poema perdido.

A primeira metade do livro é narrada por Tom, que nos guia pela sua desajeitada investigação a um passado que só conhece através de arquivos. McEwan utiliza esta estrutura para nos fazer olhar para o nosso presente com olhos de estranhamento: o nosso excesso de informação, as nossas redes sociais, as nossas certezas científicas e as nossas estupidezes cotidianas são dissecados com uma curiosa distância crítica que nos faz rir.

A segunda metade, porém, reserva uma reviravolta típica de McEwan (que lembra a estrutura de Reparação). A narradora passa a ser Vivien, a esposa do poeta, que revela uma teia de segredos, amores proibidos e um crime brutal que nenhum arquivo digital poderia conter. É aqui que o romance atinge a sua maior profundidade: o que podemos saber, mesmo com acesso a toda a informação do mundo, é apenas uma fração do que realmente aconteceu. O título, que parece uma pergunta, revela-se uma afirmação melancólica: aquilo que podemos saber é limitado, fragmentado e sujeito à interpretação.

A escrita de McEwan é, como sempre, precisa e elegante. Ele constrói um futuro distópico que funciona como um espelho do nosso presente, refletindo as nossas ansiedades sobre as alterações climáticas, as guerras e o colapso da ordem global. Contudo, o autor não fica preso pelo gênero apocalíptico, que é apenas pano de fundo. A história que é, essencialmente, sobre o amor, a memória e a traição.

A beleza do romance está na forma como McEwan, de 78 anos, transforma a busca por um poema num veículo para questões universais. O que fica de nós quando morremos? O que sobrevive para além dos “likes”? Como é que o futuro nos julgará? O que podemos saber também é um romance sobre a distância. A distância entre uma pessoa e outra, entre o presente e o passado, entre aquilo que aconteceu e aquilo que conseguimos contar sobre o que aconteceu. Mas é também um livro sobre o esforço humano de atravessar essas distâncias.

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A Montanha, de novo

A Montanha, de novo

Dentro da obra de Thomas Mann, sempre gostei mais de Doutor Fausto do que de A Montanha Mágica. Lá nos anos 80, eu dizia isto para o tradutor Herbert Caro, que, se bem lembro, não se posicionava, apesar de seu amor pela música.

Reli há pouco Os Buddenbrook, mas não abri nem A Montanha e nem o Fausto neste século. desde aquele época, a euforia pelo Fausto reduziu-se lentamente e ficou o afeto pela Montanha. É incrível como este romance permanece na minha memória. Nada do que é dito por Luisa Coquemala em suas ótimas aulas sobre A Montanha Mágica é totalmente estranho a mim. Às vezes me vêm expressões como “a luta pela alma de Hans Castorp”, “o filho enfermiço da vida” e ninguém pode bater a porta que já espero o consequente caminhar silencioso e sexy de uma russa. As expressões cômicas do livro — pois há, e muitas! — ainda estão tão presentes em minha memória quanto os capítulos “Neve” e “Politicamente Suspeita”. Qualquer hora dessas, a saudade de Settembrini vai apertar e volto ao livrão de Mann, certamente antes do Fausto.

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A favor dos livros, contra a nova modinha

A favor dos livros, contra a nova modinha

Como livreiro totalmente ralado financeiramente, acordei nesta manhã tão preocupado com as vendas como em bater nesse discurso de que o livro impresso é um “vilão ecológico”. Certo, admito, o livro é até um dos vilões, mas… está bem longe de ser o maior deles. Vejamos:

1. Um livro físico dura décadas, séculos. Qualquer e-reader tem bateria de lítio — obtido em mineração predatória — e vida útil de 5 a 7 anos, exigindo substituição.

2. O livro usa energia apenas na produção. O digital exige servidores (data centers) ligados 24h, que consomem água e energia elétrica constantemente para cada nuvem, cada download e cada sincronização.

3. O papel é 100% reciclável e biodegradável. Até a Macabéa o comia à noite com a finalidade de matar a fome. (Vá ler!). O plástico de capas de tablets e embalagens leva 500 anos para se decompor. Imagina a Macabéa comendo um celular!

4. Comércio local é igual a menos transporte: quando vendo livros presencialmente, evito o impacto de entregas individuais motorizados das compras online. Mais: dou preferência às bicicletas.

5. Se vendo usados, estou no topo da economia circular — prolongando a vida de um produto que já consumiu recursos, sem gerar novo gasto.

6. Livros encalhados não se tornam lixo tóxico.

7. Mais, o ganho ecológico é MAIOR: o livro transforma comportamentos.

8. Pessoas que leem são mais críticas, consomem com mais consciência e tendem a adotar hábitos mais verdes (se alguns não buscam os livros que reservam na Livraria Bamboletras não sou eu o culpado).

9. Um livro sobre sustentabilidade, natureza ou consumo consciente gera um efeito cascata positivo muito maior do que a mordida de carbono da sua produção. Até um livro Machado de Assis gera um efeito cascata, mas isso é conversa pra outro discurso.

10. Papel mata árvores? As árvores do papel são plantadas para isso. Se pararmos de comprar papel, essas florestas viram pasto ou soja, que emitem 10x mais CO2. Sim, nesse item parti pra ignorância!

11. Meu negócio não é anti-ecológico: é necessário. Cada livro que vendo é uma semente de pensamento crítico. E, ao contrário do que dizem, a indústria do papel é uma das poucas que colhe o que planta. O problema ecológico não está nos livros, está no consumo descartável — e livro não se descarta, a gente guarda, a gente empresta, a gente herda.

Então, venham à Bamboletras e salvem uma livraria.

Foto: minha biblioteca pessoal. O que tem de livro bom e biodegradável você não imagina.

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A Hora da Estrela, de Clarice Lispector (PGO VI)

A Hora da Estrela, de Clarice Lispector (PGO VI)

Não chegaria a dizer que A Hora da Estrela é dividido em duas partes, mas sim que o romance muda profundamente de ritmo. Na primeira metade, quem ocupa o centro da cena é o “autor” Rodrigo S. M. Ele hesita, interrompe a narrativa, filosofa, questiona seu direito de escrever sobre Macabéa. É um texto cheio de desvios, em que Clarice parece desmontar o próprio ato de narrar. Ouvi que vários leitores ficam impacientes, porque a história parece nunca começar. Então, algo muda ali pela metade.

A partir do momento em que Macabéa ganha mais espaço, a narrativa flui com surpreendente naturalidade. Os encontros com Olímpico, a amizade ambígua com Glória, a consulta à cartomante, tudo passa a ter uma cadência muito mais rápida, quase vertiginosa. Rodrigo continua presente, mas interfere menos. É como se, depois de tanta reflexão sobre a dificuldade de contar aquela vida, ele finalmente aceitasse deixar Macabéa existir diante de nós. Há uma ironia nisso: o narrador passa páginas dizendo que não sabe como contar a história e, quando enfim começa a contá-la, percebemos que sabia desde o início. O livro deixa de falar principalmente da escrita e passa a falar da personagem.

Eu acrescentaria ainda uma interpretação. Talvez essa mudança de ritmo tenha também um efeito emocional. Na primeira parte, Clarice nos mantém à distância, fazendo-nos pensar. Na segunda, ela nos desarma. Quando chegamos ao final, já não estamos analisando Macabéa; estamos profundamente envolvidos com ela. Bem, não foi uma interpretação. Foi quase.

Essa é uma das razões pelas quais A Hora da Estrela é tão bom. O romance não apenas conta uma história; ele dramatiza o nascimento da própria história, até que, de repente, percebemos que já não estamos lendo sobre um problema literário, mas sobre uma mulher cuja existência passou a nos importar profundamente. É uma transformação quase imperceptível — e de enorme poder artístico.

Clarice Lispector escolheu como protagonista alguém que passaria despercebido por quase todos. O livro recusa qualquer grandiosidade. Não há heróis, feitos memoráveis ou reviravoltas espetaculares. Há Macabéa, uma jovem nordestina pobre que vive no Rio de Janeiro quase sem deixar marcas no mundo. Ela trabalha, sonha pouco, deseja pouco e parece ocupar um lugar onde a sociedade acostumou-se a não enxergar ninguém.

Mas Clarice Lispector transforma essa vida aparentemente insignificante no centro absoluto da nossa atenção. Como disse, o romance é narrado por Rodrigo S. M., um escritor que hesita o tempo todo diante da tarefa de contar a história de Macabéa. Essa hesitação mais que mero artifício, é uma reflexão sobre a própria literatura. Como narrar a vida de alguém tão vulnerável sem reduzi-la a um objeto de piedade? Como encontrar palavras para quem nunca teve voz?

A escrita é ao mesmo tempo delicada e cortante, alterna momentos de ironia, compaixão, humor e espanto, Cada interrupção do narrador, cada dúvida, cada comentário sobre a escrita, reforça a sensação de que estamos diante de um(a) autor(a) que não aceita respostas fáceis.

O desfecho, tão conhecido quanto devastador, não encerra apenas a história de Macabéa. Ele nos obriga a perguntar que destino reservamos às pessoas invisíveis e qual é o papel da arte diante dessa realidade. Mais do que um livro sobre pobreza ou exclusão, A Hora da Estrela é uma reflexão sobre a dignidade humana. Clarice Lispector nos lembra que toda vida, por mais anônima que pareça, contém uma grandeza que merece ser reconhecida. E talvez seja essa a verdadeira hora da estrela: o instante em que alguém, finalmente, é visto.

Acho que essa é a obra em que Clarice mais claramente demonstra que a literatura não existe apenas para contar histórias, mas também para devolver humanidade àqueles que a realidade costuma deixar à margem. É um romance que termina, mas continua fazendo perguntas muito depois da última página.

.oOo.

O humor em A Hora da Estrela é uma das coisas mais sofisticadas do romance — e muitas vezes passa despercebido porque o final é tão devastador. Mas Clarice é frequentemente engraçada, só que de um jeito muito particular: um humor desajeitado, absurdo, melancólico. Macabéa é involuntariamente cômica. Suas frases, suas interpretações literais, seus desejos modestíssimos (um cachorro-quente, um creme de beleza, ouvir a Rádio Relógio) criam situações engraçadas. Mas o leitor ri e, imediatamente, sente um desconforto: estamos rindo da ingenuidade dela ou da pobreza do mundo que a cerca?

Também há muito humor no narrador Rodrigo S. M. Ele é exagerado, dramático, contraditório. Às vezes parece um escritor parodiando escritores. Quando faz declarações grandiosas sobre sua missão literária e logo em seguida se desmente, Clarice está brincando com a figura do intelectual atormentado. Eu diria até que existe um quê de Machado de Assis nesse aspecto: um narrador que conversa com o leitor, interrompe a narrativa, comenta suas próprias limitações e ironiza a si mesmo. Em A Hora da Estrela, o riso vem sempre acompanhado de um pequeno susto. Clarice nos faz rir para que percebamos, um segundo depois, que o objeto do riso é também uma pessoa profundamente vulnerável. Talvez seja por isso que o humor do livro permaneça na memória: ele não serve para aliviar a tragédia, mas para torná-la ainda mais humana.

É um riso triste o que nos ocorre quando ela não quer deixar a conversa com o namorado morrer e pergunta, ao passar em frente a uma ferragem:

Eu gosto tanto de parafuso e prego, e o senhor?

É uma pergunta engraçada, mas também devastadora. Ela revela o esforço desesperado de Macabéa para manter viva uma conversa, para estabelecer um vínculo, para existir diante do outro. Ela não sabe seduzir, não sabe flertar, não sabe conversar. Então recorre ao primeiro objeto que encontra na vitrine. Rimos da inadequação da pergunta e, um instante depois, sentimos uma enorme compaixão por aquela moça que simplesmente não aprendeu os códigos da convivência. Vejam bem, aqui o humor nunca é uma pausa da tragédia, ele é uma forma da tragédia.

Quando Macabéa diz

“Eu sou datilógrafa, virgem e gosto de Coca-Cola.”

nós sorrimos. Mas não porque ela seja ridícula. Sorrimos porque ela acredita que essas três informações bastem para definir uma vida. O humor nasce da pobreza das categorias disponíveis para ela, não de sua pobreza como pessoa.

Clarice constrói Macabéa de tal maneira que ela nunca se torna um símbolo abstrato da pobreza. Ela continua sendo uma pessoa singular, com pequenos gostos, pequenas obsessões, pequenas alegrias. Isso é decisivo, porque impede que o romance se transforme numa tese social. Macabéa não representa apenas “os pobres”, ela é Macabéa.

E, finalmente (já escrevi demais!), há uma observação muito pessoal que faço: costuma-se dizer que Clarice escreveu um romance sobre uma pessoa invisível. Eu iria um pouco além: ela escreveu um romance sobre o ato de observar. Rodrigo aprende a olhar Macabéa. O leitor aprende a olhar Macabéa. E, terminado o livro, talvez aprendamos a olhar de outro modo as pessoas que cruzam diariamente o nosso caminho.

É aí que, para mim, reside a verdadeira dimensão ética de A Hora da Estrela. A literatura não salva Macabéa. Mas talvez salve alguma coisa no leitor: a capacidade de perceber que nenhuma vida é pequena demais para merecer atenção.

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PGO

Desde março deste ano, rola o PGO (Pequenas Grandes Obras), que é um Clube de Leituras da Livraria Bamboletras. O foco são os clássicos curtos, livros sempre muito bons ou representativos e que deixam tempo livre para os participantes lerem outras coisas. Há vagas.

Livros do PGO:

Março: O primeiro amor, de Ivan Turguêniev
Abril: A casa das belas adormecidas, de Yasunari Kawabata
Maio: Vidas secas, de Graciliano Ramos
Junho: Bartleby, de Herman Melville
Julho: Ao farol, de Virginia Woolf
Agosto: A hora da estrela, de Clarice Lispector
Setembro: Ratos e homens, de John Steinbeck

 

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Flanar III: Roteiro para a moderação de grupos de leitura: A Promessa, de Damon Galgut

A Promessa, de Damon Galgut é um livro sobre uma família, mas também sobre a África do Sul, sobre uma promessa nunca cumprida, mas também sobre a dificuldade humana de agir moralmente. O romance evita julgamentos explícitos e confia na inteligência do leitor.

Abertura

“Quando vocês fecharam o livro, qual foi a sensação predominante? Gostaram do livro ou não?”

  • melancolia
  • frustração
  • admiração
  • tristeza
  • beleza
  • indignação

Essa diversidade já vai mostrar a riqueza do romance.

A promessa

Aparentemente o livro gira em torno de uma promessa simples. Rachel, antes de morrer, pede que Salome receba a casa onde vive.

“O título do livro é ‘A Promessa’. Qual é, literalmente, a promessa que dá nome ao romance? E, para além disso, que outras promessas — do país, da história, dos personagens — estão em jogo?”

 Há aqui uma camada histórica importante. O romance começa em 1986, pouco antes do fim do apartheid, e termina já no governo de Jacob Zuma. As promessas da nova África do Sul — a reconciliação, a redistribuição de terras, a justiça — também ficam por cumprir . Pergunta ao grupo: “A promessa da casa à Salomé e a promessa da nova África do Sul são a mesma coisa?”

“O narrador diz-nos, num certo momento, que não ouvimos muito sobre Salomé ‘porque não nos importamos em perguntar’. Como é que este gesto narrativo — o autor a apontar o dedo ao leitor — te afetou? Foi uma acusação?”

“No final do livro, Amor finalmente dá a Salomé a escritura da casa. Mas Salomé já é muito velha. Esta resolução chega tarde demais? É uma reparação genuína ou apenas um gesto simbólico?” 

 Mas… A promessa realmente é o centro do romance?

Ou ela funciona como símbolo?

Questões:

  • O que exatamente impede que a promessa seja cumprida?
  • Falta de dinheiro?
  • Burocracia?
  • Racismo?
  • Covardia?
  • Autoengano?

Talvez todos.

A família Swart

Vale discutir cada integrante.

– Manie

É realmente religioso ou usa a religião para aliviar sua consciência? O patriarca que promete e não cumpre. Como descreveriam a sua relação com a promessa? É má-fé ou simples esquecimento?

– Anton

Talvez o personagem mais frustrado do livro. o filho, outrora cheio de promessas, que se torna um homem deprimido e amargo. Acaba por se suicidar. Como é que a desilusão com a promessa da família se reflete nele?

  • Ele possui consciência moral?
  • Ou apenas consciência da própria mediocridade?

Como interpretar o assassinato que cometeu?

– Astrid

É a personagem mais adaptada ao novo mundo ou a mais superficial? a filha mais velha, obcecada com status e aparências. Morre num assalto. O que a sua morte nos diz sobre a violência na África do Sul pós-apartheid?

A indiferença (Manie), a superficialidade (Astrid)e a autodestruição (Anton).

– Amor

O próprio nome já sugere uma leitura simbólica.

Pergunta interessante:

Por que justamente Amor demora tanto para cumprir aquilo que considera certo?

Ela é uma heroína?

Ou apenas alguém menos hipócrita que os outros?

– Salome

Curiosamente, é uma personagem central que quase não fala.

Perguntas:

Por que Galgut escolhe esse silêncio? Por ela ser uma representação?

Ela simboliza toda uma população invisibilizada?

Vale notar que ela permanece presente enquanto quase todos os demais desaparecem.

A África do Sul

É impossível separar o romance da história sul-africana.

Sem transformar a conversa numa aula de História, vale lembrar rapidamente:

  • apartheid
  • fim do apartheid
  • eleição de Mandela
  • mudanças sociais
  • permanências

Pergunta importante:

A família muda tanto quanto o país?

Ou ambos mudam apenas na aparência?

A estrutura do romance

Talvez seja o aspecto mais inovador. O narrador faz algo incomum. Ele muda constantemente de foco. Entra na mente de personagens secundários. Às vezes conversa diretamente com o leitor.

“O romance está dividido em quatro partes, cada uma dedicada a um funeral — Mãe, Pai, Astrid e, finalmente, Anton. Apenas Amor sobrevive. O que é que esta estrutura de ‘quatro mortes em quatro décadas’ sugere? Porque é que Galgut terá escolhido organizar o livro assim?”

“O narrador — ou a voz narrativa — deste livro é muito peculiar. Galgut usa aquilo a que alguns chamaram ‘uma câmara de cinema’, com perspectivas que se alternam e se sobrepõem, por vezes no meio de uma frase. O narrador dirige-se ao leitor, faz apartes, comenta. O que acharam desta escolha? Funciona? Ou atrapalha?” Ele critica personagens, tira sarro deles. 

Pergunte:

Isso aproximou vocês do romance? Vocês aceitaram a cumplicidade?

Ou dificultou a leitura?

Outra pergunta:

O narrador parece improvisar enquanto conta a história?

  1. O tempo

O romance é dividido por quatro funerais.

Interessante perguntar:

Por que Galgut escolhe mortes como pontos de organização? Aprendemos mais sobre uma família durante um funeral?

Existe alguma cena de felicidade duradoura?

  1. Humor

Embora seja um livro triste, há muito humor. Um humor às vezes cruel.

Pergunte:

Vocês riram? Em quais momentos? Por que rir em um romance tão melancólico?

  1. O título

“A Promessa”. No singular.

Qual promessa?

A da mãe? A da nova África do Sul? A promessa de justiça? A promessa que fazemos a nós mesmos? Todas?

  1. O final

Experimente:

O cumprimento da promessa representa uma vitória ou chega tarde demais? É possível reparar décadas de injustiça com um único gesto?

O romance termina oferecendo esperança? Ou apenas resignação?

Algumas perguntas que costumam render boa conversa

  • Existe algum personagem verdadeiramente bom?
  • Quem desperta mais compaixão?
  • Quem desperta mais irritação?
  • O livro é político ou profundamente humano ou as duas coisas?
  • Vocês enxergam Amor como protagonista ou apenas como fio condutor?
  • O silêncio de Salome é uma escolha literária ou uma denúncia?
  • O que mais permanece na memória: os acontecimentos ou a forma como Galgut escreve?
  1. Encerramento

“No início parece que lemos a história de uma promessa não cumprida. Ao terminar, talvez percebamos que lemos algo maior: um romance sobre tudo aquilo que uma sociedade adia enfrentar — até que o tempo torna qualquer reparação insuficiente.”

“Se vocês tivessem que resumir A Promessa em uma única palavra, qual seria?”

As respostas normalmente convergem para termos como culpa, espera, memória, justiça, tempo, herança ou silêncio.

“Depois de tudo o que falamos, acham que a promessa foi cumprida, no final? E se foi cumprida, que significado tem esse cumprimento — tardio, simbólico e talvez insuficiente?”

“O livro termina com Amor a encontrar, entre os pertences de Anton, um romance inacabado com a nota: ‘Uma saga familiar ou um romance familiar?’ . O que acham que esta pergunta diz sobre o próprio livro que acabámos de ler?”

Na minha opinião, a força de A Promessa não está apenas na história da família Swart, mas na maneira como Galgut transforma um drama íntimo em uma reflexão sobre responsabilidade moral, privilégio, passagem do tempo e a dificuldade — individual e coletiva — de fazer o que sabemos ser justo.

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Por que eu compro livros?

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Foreign Tongues, dos Rolling Stones

Foreign Tongues, dos Rolling Stones

Foreign Tongues (2026) é ótimo, alegre, animado, cheio de energia e tesão. Charlie Watts era tão fundamental que Steve Jordan teve que fazer uma imitação de seu estilo. Saiu-se notavelmente bem. Paul McCartney toca baixo em uma faixa de “Foreign Tongues”, que também traz aparições de Robert Smith e Steve Winwood.

É o melhor trabalho deles em… bem, em algumas décadas. A capa, uma colagem expressionista de Nathaniel Mary Quinn, também tem sido muito elogiada. É um horror, claro, mas está perfeitamente dentro do espírito do grupo trazer capas inesquecíveis, e raramente por sua beleza.

O disco estreou em 1º lugar no Reino Unido, igualando o recorde dos Beatles, e venceu a votação de novos lançamentos da Billboard com mais de 42% dos votos.

O trio central dos Stones já passou dos 80 anos, mas estão em boa forma criativa, recombinando a energia do rock e do blues. Não é uma reinvenção, talvez nem seja um novo capítulo, mas um digno epílogo para uma das maiores histórias do rock. E sem nenhum ar de despedida.

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A coluna de Mauvício Saravia: Sobre o Ócio Criativo e o Grêmio Foot-Ball Porto-Alegrense

Prezado Mestre De Masi,

Venho, por meio desta, comunicar-lhe que sua teoria do “ócio criativo” foi submetida a um teste de campo nada ortodoxo: o Centro de Treinamentos do Grêmio, em Porto Alegre, durante os 45 dias de preparação para a volta aos gramados.

O senhor, com sua sabedoria, afirmava que o tempo livre, o descanso e a contemplação são combustíveis para a inovação, a arte e o pensamento original. Que o homem moderno precisa desacelerar para produzir mais e melhor.

Pois bem. O Grêmio desacelerou. Sobremaneira, ele desacelerou. Só que a criatividade que o senhor tanto prometia foi substituída por uma apatia tão profunda que a bola pediu música ambiente.

Permita-me reformular sua teoria:

O ócio só é criativo se houver matéria-prima criativa. No caso do Grêmio, o ócio foi apenas ócio.

O senhor estudou a Renascença italiana, os artistas florentinos, a explosão cultural do século XV. Pois o Grêmio, meu caro De Masi, teve sua própria Renascença hoje à noite: renasceu pior.

P.S.: Se o senhor puder, em espírito, enviar uma mensagem ao técnico gremista, por favor.
De Mauvício Saravia, um gremista que leu o livro que deseja sobremaneira corrigir.

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