Damon Galgut tem uma premiadíssima obra-prima em seu currículo: A promessa — livro vencedor do Booker Prize de 2021, entre outros vários prêmios. Por isso, fui procurar outros livros dele. Em O bom médico, ele conta a história do encontro entre dois médicos num hospital miserável do interior da África do Sul. Pouco depois do fim do apartheid ninguém sabe muito bem como será o novo país e Galgut bota sua lente no conflito entre duas pessoas: uma que desistiu de agir e outra que acredita, talvez ingenuamente, que ainda é possível mudar o mundo. Publicado em 2003 e finalista do Booker Prize daquele ano, o romance se passa no interior da África do Sul. O hospital, abandonado e decadente, torna-se uma espécie de miniatura da própria África do Sul: o regime mudou, mas o passado (e a pasmaceira) continua instalado nas paredes.
O narrador, Frank Eloff, é um médico que já perdeu a fé em quase tudo. Profissional competente, mas acomodado, carrega uma espécie de culpa histórica e pessoal: seu passado inclui uma hesitante experiência no Exército durante o apartheid. Ele não espera mais nada daquele lugar e, sobretudo, não acredita em grandes gestos. É justamente por isso que a chegada de Laurence Waters, jovem médico idealista, o incomoda tanto. Laurence acredita que a medicina pode transformar a realidade e se empenha em levar atendimento às comunidades pobres. O conflito entre os dois é rico porque Galgut não transforma Laurence no “bom médico” do título de maneira simples. Seu idealismo contém generosidade, mas também vaidade, imprudência e uma espécie de desejo de se sentir moralmente superior.
E aqui está, para mim, a grande inteligência do romance: Galgut não adere nem ao cinismo, nem ao idealismo. Frank sabe que o mundo é complicado e, por isso, não faz quase nada… Laurence acredita que sabe como o mundo deve ser e, justamente por isso, acaba produzindo coisas que carregarão consequências que não consegue controlar… O primeiro peca pela omissão; o segundo, pela ação irrefletida. Entre ambos fica uma pergunta terrível: é melhor não fazer nada diante da injustiça ou agir, mesmo correndo o risco de fazer mal?
A África do Sul pós-apartheid é mais do que cenário. O hospital situa-se num antigo território criado para a população negra, e sua decadência material parece representar a dificuldade de simplesmente decretar que o passado acabou. A democracia chegou, mas as estruturas, os ressentimentos, a desigualdade e a violência continuam presentes. O apartheid está muitas vezes nas margens, nas relações entre as pessoas e na sensação de que todos carregam alguma coisa que prefeririam esquecer. Li algumas críticas que chamam a atenção precisamente para essa tensão entre passado e presente e para a persistência das divisões sociais e raciais.
Também é importante a forma como Galgut conta a história. Frank é um narrador pouco confiável, não necessariamente porque mente deliberadamente, mas porque enxerga o mundo a partir de suas próprias feridas, ressentimentos e limitações. Ele interpreta Laurence, sua amante Maria, os colegas e os acontecimentos — e a gente não acredita muito nele. Eu, pelo menos. Essa ambiguidade é uma das razões pelas quais o romance é tão interessante.
Há ainda uma questão que acho particularmente bonita: o que significa ser “bom”? Um bom médico é aquele que cura? Aquele que tenta ajudar? Aquele que respeita os limites de uma situação? Aquele que assume responsabilidades? Ou aquele que simplesmente não consegue assistir passivamente ao sofrimento? (Como comuna, sempre desconfiei de quem faz caridade, mas isso não vem ao caso). Galgut parece sugerir que a bondade, quando se transforma em certeza sobre o próprio papel no mundo, pode se tornar perigosa. (Nota: não gosto muito dos pró-ativos). E, ao mesmo tempo, o cinismo de Frank não é uma forma superior de lucidez: é também uma maneira de fugir.
Por isso, O Bom Médico é interessante não apenas pela questão do apartheid — que já renderia uma longa conversa —, mas porque permite discutir coisas muito próximas de nós: idealismo, culpa, responsabilidade, omissão, desejo de ser uma pessoa boa e, sobretudo, a dificuldade de distinguir uma boa intenção de uma boa ação. Sim, é na zona desconfortável entre esperança e fracasso que este romance realmente vive.









Nesta rara novela de Tchékhov — como todos sabem, ele se dedicava mais aos contos e às peças de teatro –, a gente fica imaginando que outras novelas e romances maravilhosos ele também poderia ter escrito. Aqui, neste O Duelo, a ideologia encontra o abismo humano. O Duelo vai muito além do confronto físico que lhe dá título, transformando-se num palco para algumas das grandes questões existenciais que assombravam a intelligentsia russa do século XIX.










McEwan é um autor especialmente bom para resenhas que não contem demais do enredo, porque o que torna seus livros fascinantes — com as exceções de A Barata e Solar, livros que detestei — é justamente a forma como ele vai deslocando, aos poucos, aquilo que pensamos saber sobre as pessoas, o passado e até sobre nós mesmos. Há escritores que contam histórias para nos fazer esquecer o mundo, McEwan faz o contrário: conta histórias para nos lembrar de como é estranho, frágil e misterioso o que julgamos conhecer.





Não chegaria a dizer que A Hora da Estrela é dividido em duas partes, mas sim que o romance muda profundamente de ritmo. Na primeira metade, quem ocupa o centro da cena é o “autor” Rodrigo S. M. Ele hesita, interrompe a narrativa, filosofa, questiona seu direito de escrever sobre Macabéa. É um texto cheio de desvios, em que Clarice parece desmontar o próprio ato de narrar. Ouvi que vários leitores ficam impacientes, porque a história parece nunca começar. Então, algo muda ali pela metade.


