O pastorzinho de merda

O pastorzinho de merda

Ao menos uma vez por dia, alguém vem me ofender no Twitter. Sempre fico meio assustado porque costumo levar a sério o que dizem. Depois dou risadas, pois, na verdade, as ofensas são sempre dirigidas ao Ministro da Educação Milton Ribeiro.

Eu sempre respondo com um #ForaBolsonaroGenocida, o que deve deixar o ofensor desconcertado por alguns segundos. Agora já posso responder com um #BolsonaroGenocidaComedorDePãoComLeiteCondensado.

Só que hoje me chamaram de pastorzinho de merda. E eu adorei! Ri alto!

Fico preocupado. Será que estou me acostumando a apanhar, mesmo que por tabela?

Spica, a entrevista

Spica, a entrevista

Talvez alguns de vocês lembrem daquele post sobre o rádio Spica, meu amuleto futebolístico. Bem, eu colocarei o link como primeiro comentário. Ninguém é obrigado a ler todas as minhas bobagens, é óbvio.

Pois hoje fui entrevistado pelo SBT a respeito do rádio e das histórias que cercam o pequeno aparelho de 56 anos. Passamos desde a Samritzu, a fabricante japonesa que vendeu um milhão destes radinhos nos anos 60, pelas superstições de minha mãe — são incríveis –, pelos motivos que levaram minha família a ser toda colorada, pela final de 75 contra o Cruzeiro, pelas Libertadores e o Mundial e o conserto do rádio e seu “retorno triunfal” contra o Boca. Ufa!

Eu achei uma boa e divertida entrevista sobre um assunto bobinho. Vai ao ar num “Bom dia, Rio Grande” da semana que vem. Claro que a maior parte será cortada, mas foi um bom momento em que pude me distrair do mundo real.

Agradeço ao repórter Jeremias Wernek por ser tão leve e por ter feito voltar à tona partes boas de minha modesta biografia.

Importantes testemunhos deste domingo

— McCartney III, o disco pandêmico de Paul — onde ele toca todos os instrumentos — é um bom disco.

— Elena me mandou no super com missões muito difíceis. Como se não bastasse saber que moranga é o mesmo que abóbora, descobri que salsão é o mesmo que aipo.

— Mas a realidade mais fundamental que se descortinou foi que, para se descascar um bombom Ouro Branco, o melhor método não é o dar uma delicada mordida em qualquer lugar. O melhor é morder a base, retirando-a, para depois subir pelos lados. Experimenta e verás.

Meus melhores professores (nenhum da Universidade)

Meus melhores professores (nenhum da Universidade)

Hoje é Dia do Professor. Sei que é a mais importante das profissões e um dos ofícios mais mal pagos e desconsiderados de nosso país.

Este dia me afeta, fico sempre triste nos dias 15 de outubro. Sim, porque quase todo mundo que tem meu grau de escolaridade tem um professor universitário para homenagear e eu não. Nenhum ficou como modelo. A maioria ficava entre o insuportável e o indiferente.

Os meus grandes professores foram três do Ensino Médio — do Colégio Júlio de Castilhos — e vou tratar de lembrá-los, pois tenho boas lembranças deles, além de gratidão.

1. Moacyr Flores (que ainda anda por aí, ativo aos 85 anos): esse cara não ensinava apenas história como mostrava a formação das versões e dos mitos históricos. Foi um professor genial. Falava rindo, sempre com uma ironia que jamais atingia seus alunos. Quase 50 anos depois, ainda lembro de algumas aulas.

2. Sara: eu tinha 15 anos e só estudava, jogava futebol e me masturbava. A Sarinha enfiou a literatura de forma definitiva na minha cabeça. Ela indicava um livro para cada aluno, com frequência diferentes para cada um. A minha frequência era um livro por semana. Depois, ela comentava as obras com cada um.

3. Serjão: esse era sósia do Muhammad Ali. Fui primeiramente para as exatas por causa dele. Era o melhor professor de Física do mundo. No dia das provas, ele chegava de óculos escuros e sentava imóvel com seu corpanzil na mesa do professor. Ninguém sabia para onde ele olhava, ninguém colava.

Esses são os meus ídolos. Eles vêm lá de longe, da primeira metade dos anos 70.

O historiador Moacyr Flores

Nossa tragédia (1): da mentalidade censora

Nossa tragédia (1): da mentalidade censora

Trabalhei por oito ótimos anos num veículo progressista. Aprendi muito. Adorava trabalhar lá, as pessoas foram sempre muito éticas e eu me orgulho de minha vasta produção naqueles anos, apesar de achar que o jornal pecava pela falta de ousadia. Bem, tenho histórias que, penso, devem se repetir na maioria das hoje combalidas trincheiras da esquerda.

Sou um cara mais para o intuitivo do que para o analítico, então recebo e reajo a flashes. Ou, melhor dizendo, um dia tiro uma foto, outro dia outra, e assim vou formando meu mosaico de impressões.

Vamos a três fotos que me ocorreram hoje.

(1) Um colega diz que não devemos publicar uma reportagem sobre um novo método de produção de carne porque deixaríamos irritados os veganos e eles, parte de nosso público, poderiam nos linchar. Então fiquei sabendo que não podíamos falar de carne.

(2) Uma reportagem que coloquei para provocar foi encarada como se eu fosse um ET. Ela dizia que o gaúcho fazia menos exames de toque retal do que os homens de outras unidades da federação porque não a coisa não seria lá algo muito masculino. Era uma pesquisa de boa fonte, séria e médica. Como temos uma editoria de Geral, não vi problema, mas houve gente dizendo que aquilo não era pra nós. OK, não devemos rir ou explicitar nossos lados mais ridículos, mesmo que sejam verdadeiros.

(3) Fui advertidíssimo e me senti ameaçado por expor NO MEU BLOG uma opinião independente. Ela teria o condão de chamar as feministas contra o jornal. Sim, muitas delas disseram que iam abandonar o jornal por minha causa. Alguém acredita nisso? Em resposta, devo dizer que Porto Alegre é um ovo e que fui algumas vezes cumprimentado na rua por feministas em razão do mesmo texto. Ou seja, a rejeição não era consensual.

Fiquei puto ao notar novamente um respeito sem sentido pela militância, sem interessar quão tola seja.

Critico uma versão específica da política identitária que é performática em suas demonstrações de consciência social. Não gosto particularmente porque é um grupo muito inclinado a censurar, a atacar em bloco indivíduos. Odeio isso. Ao calar seus inimigos políticos, eles calam também o dissenso dentro da própria esquerda e é este dissenso que sempre fez a esquerda ser vibrante intelectualmente. São os questionadores que evitam que a ideologia se fossilize porque nos obrigam a repensar. Mas suas vozes foram caladas.

Angela Nagle

É impressionante como essa mentalidade censora se espalhou. O pior é que as pessoas nem se dão conta dela e de como a censura e o constrangimento causado pelos “erros” de gente bem intencionada — e, fundamentalmente, de mesma ideologia — resultaram na colocação da esquerda em um gueto no qual esta passou apenas a falar para si mesma e não com a sociedade. Pior, com uma linguagem toda própria, muitas vezes incompreensível não somente para a população, mas para quem estivesse desinformado. Ah, as vanguardas… Nós contribuímos demais para a ascensão da direita, que deve permanecer por décadas com boa parte do poder.

Enquanto isso, estávamos preocupados com a apropriação cultural, com o lugar de fala, com as bolhas e não com as coisas que estavam realmente no imaginário popular. Nós adubávamos a segmentação para satisfazer certos grupos, gastávamos energia com as polêmicas do dia e com as malditas audiências públicas sobre porra nenhuma e não com avanço dos evangélicos nas periferias, com o recuo da mentalidade científica, com o próprio papel das redes e com aquilo tudo que acabou viabilizando o inferno bolsonarista.

Fico triste com minha falta de força. Sinto-me em parte responsável por nossa tragédia, apesar de ter passado anos dizendo que o maior perigo desse país estava no fundamentalismo religioso e na desgraça que é nossa educação. Mas fui vencido de todas as formas.

Aborto espontâneo

Aborto espontâneo

Cada um tem sua versão sobre cada acontecimento grave, é claro. Nas grandes crises, que para minha sorte ocorreram todas a mais de 10 anos, eu sempre me recolhi, mas às vezes me dá vontade de escrever um livro chamado Quatro (ou Cinco, ou Seis) Relatos Autobiográficos. Talvez eu pudesse ser tão franco quanto Knausgård, mesmo sem um pingo de seu talento. Seria um monumental gol contra — ninguém leria o livro e eu ainda arranjaria problemas com figuras que hoje estão lá longe, quietas.

Agora, enquanto lavava louça, pensei em três casos: um em minha família, outro na de outrem — mas como encheram o meu saco! — e ainda outro político, o qual me renderia certamente um processo de parte de um partido de direita. Mas, amanhã de manhã, tenho certeza que meu projeto de complicar estará abortado. Afinal, todos nós temos coisas jamais confessadas se remexendo em nossa cabeça e eu acharei as minhas muito bobas.

Fonte da imagem: https://www.morandosozinho.net/papel-higienico-joga-no-lixo-ou-privada/

Deus e o Diabo em Terra Brasilis

Deus e o Diabo em Terra Brasilis

Eu chego em casa e tomamos café. Aqueles pães da Elena tornam a gente falante. O café incentiva ainda mais e, se não fazemos revolução na mesa do bar — até porque o bar é impossível –, começamos a pensar alto, inspirados por Dostô e sem álcool.

Dmitri Karamázov, personagem de ‘Os Irmãos Karamázov’, de Dostoiévski, diz: “Aí lutam Deus e o Diabo. E o campo de batalha é o coração dos homens”. Assim, Dostoiévski colocava em xeque os valores do humanismo em suas várias vertentes — cristã, idealista, materialista. No espaço psíquico é onde Deus e o demônio se revelavam. Era uma luta travada em silêncio, em espaço obscuro e inconsciente.

Na nossa crise atual, há outra luta, barulhenta e furiosa. Irritante, na verdade. Podemos chamá-la de uma luta entre a razão e a paixão ou crença. De um lado, há os cientistas nos alertando sobre o que fazer — isolamento, máscaras, cuidados –, de outro há os crentes — em Bolsonaro, na onipotência de que não pegará a doença, no espaço sagrado da igreja que impede a entrada do vírus.

Por mais que a luta dostoievskiana possa resultar numa vingança ou crime individual, o debate externo é pior, pois é tão social que pode arrastar a mortes. Hoje chegamos a 10.000, não?

Foi isso. Leu até aqui? Sua vida não mudou. Nem a nossa. Tô de boa com a ciência. Me cuidando para não ter nem aquela gripezinha de todo inverno, apesar de meu histórico de atleta… Aquela gripezinha… A minha, não a do Diabo.

Convivendo com o Asperger de Greta

Uma de minhas experiências mais felizes no jornalismo foi a de trabalhar com um menino que sofria do mesmo Asperger da Greta. Um dos donos da empresa onde eu trabalhava me pediu para acompanhá-lo com cuidado e atenção. Leigo, nervoso e um pouco contrariado, li o que podia sobre a síndrome e o menino fez coisas incrivelmente positivas, com sua absurda capacidade de concentração. Ele só falava comigo, os outros só recebiam um oi e olhe lá. Na hora de sair, ele sempre me perguntava sobre sua produção naquele dia. Ela era sempre espantosa. Traduzia, revisava e descobria notícias com uma velocidade diferente do habitual, acompanhada de uma profunda atenção aos detalhes. Certamente devia sofrer com a dificuldade de se relacionar, era mesmo uma pessoa original que raramente olhava para mim e que vinha conversar sobre uns assuntos fora do habitual — eu me divertia com isso, mas tinha enorme respeito por ele e acho que ele gostava de passar aquelas manhãs trabalhando comigo. Sei lá onde anda hoje, espero que bem. Tenho carinho por ele.

Dia 25

Estou indo dormir às 4h da madrugada, mas como valeu a pena ir no happy hour(s) da Cláudia Beylouni Santos!!! Comidas e amigos maravilhosos, ambiente perfeito, inteligente e alegre, casa linda e com o amigo Pedro Pereira, que é um violonista do cacete, puxando uma roda de samba que teve até a Elena cantando, tocando violão e piano — sim, minha mulher é violinista, genial e linda e eu sou um sortudo. E, bem, eu tentei cantar várias músicas, pois embestaram de dizer que bossa nova era comigo… Gente, que baita noite de 25! Talvez a melhor de todas.

Cláudia, muito obrigado.

Os feios e as belas

As mulheres bonitas que são possíveis aos feios são as inteligentes e apenas elas. Acompanhem o raciocínio tendo em mente que nós, em nossa profunda modéstia, sabemos que para burros não servimos. Uma bela mulher, mas para quem as luzes da inteligência brilham pouco ou ficam no pisca-pisca, vai buscar seu Adônis e, portanto, nos excluirá automaticamente. Nunca a convenceremos, na conversa, da flor de pessoa que efetivamente somos: dedicados, meigos, cultos, amorosos, solidários, bons de papo, etc. Já as inteligentes, podemos lentamente convencer ou subitamente surpreender com uma frase que fará com que elas voltem rapidamente a cabeça, lançando a fragrância de seus cabelos em nosso colo.

Um dia normal

Um dia normal

O dia começou cedo. Muito cedo. Acordei às 6h15 para receber a pessoa que faz a faxina na livraria. Na situação em que o comércio se encontra, não dá para pagar hora extra a cada faxina. Então eu venho, abro as portas e fico lendo na frente da livraria. Hoje deu 40 páginas de Knausgård. Deste forma, o dia começou bem. Enquanto vocês aproveitavam os últimos minutos aquecendo as bochechas em seus travesseiros, eu lia prazerosamente um autor de que gosto muito.

Depois, fui até o fórum onde trabalha minha filha. Não conhecia, ela trabalha num local bonito e limpo, em uma mesa em L cheia de processos e com um monitor. Senti falta do cheiro de café. Ah, se ela soubesse o quanto eu desejo que ela tenha uma vida menos atribulada do que a minha!

Agora, ela me manda pelo Whats a foto de uma xícara de café, feito após minha saída…

Agora, de volta ao trabalho, espero que a Elena me chame para fazermos uma reunião com um pessoal que representa a Unimed. Estou pagando “apenas” R$ 1402,41 por mês e quase não fico doente. Deveria receber uma medalha da instituição por pagar o plano há 20 anos quase sem utilizá-lo. Num mundo ideal, este valor deveria baixar.

E depois vou ter que enfrentar a uma fila na Caixa porque meu cartão deixou de funcionar e, deste modo, não consigo usar o caixa eletrônico. Aliás, os cartões da Caixa são de péssima qualidade. É o segundo que tenho que trocar em menos de um ano.

E assim a vida passa.

Ainda bem que a livraria não vai de todo mal.

Ciático

Pela primeira vez estou com a tal terrível dor no ciático que tantas vezes ouvi meus amigos descreverem para eu achar graça. Estou com dificuldades para levantar de cadeiras e camas e também para mexer os quadris. Ainda bem que não tenho compromissos importantes nos próximos dias. Imaginem se eu tivesse uma Noite de Núpcias pela frente, algo assim, sei lá.

5 anos. 5 anos, Elena

5 anos. 5 anos, Elena

5 anos. 5 anos, Elena, completados neste 31 de agosto. E desde o primeiro momento, mesmo quando não tinha a menor ideia de como tu pensavas e falavas, mesmo quando não conhecia tua voz, mesmo quando eu só admirava de longe tua risada e a forma de caminhar, eu já tinha certeza, eu já sabia que te amava.

Obrigado por me aguentar por tanto tempo. Estou adorando.

O oitavo pecado capital, o que foi retirado: a Melancolia

O oitavo pecado capital, o que foi retirado: a Melancolia

Os sete pecados capitais já foram oito. O oitavo era a Melancolia, entendida no sentido da tristeza profunda, aquela que pode acabar em suicídio, atentando contra a “obra de Deus”. Ou seja, tal melancolia não seria a tristeza comum e inevitável que todos sentem. É a doença da depressão, do isolamento extremo, da tristeza que parece, à pessoa que a sente, sem fim.

Em sua palestra no Fronteiras do Pensamento de 2018, o escritor José Eduardo Agualusa citou o fato da retirada da Melancolia como um dos pecados. Depois, ele entrou em considerações mais literárias sobre a criação e a cura através da literatura. A melancolia, vista como um pecado, é polêmica mesmo, pois ela não depende de um ato, mas de uma condição, de uma postura pessoal, digamos. Não é uma ação, mas uma vivência.

Ela foi colocada como pecado por ser uma insatisfação profunda que, segundo a igreja, surge da percepção errada de que falta sentido à vida. Isso atacaria a religião. Também seria uma forma de não aceitarmos a realidade, de não estarmos contentes com o que temos.

Melancholia, de Albrecht Dürer, séc. XV | Wikimedia Commons
Melancholia, de Albrecht Dürer, séc. XV | Wikimedia Commons

Após uma discussão de séculos, foi o Papa Gregório I quem atualizou a lista de pecados. Na época da criação dos oito pecados, os mais graves eram os mais egocêntricos. Portanto, o orgulho e a vaidade seriam os piores de todos. Logo depois viria a melancolia, pois confundia-se algo que hoje consideramos doença com a “característica extrema” de voltar-se para si mesmo.

A palavra melancolia tem origem grega e significa “bílis negra”. Victor Hugo escreveu que “a melancolia é a felicidade de estar triste”. Não o entendo. Ele devia estar se referindo àquela tristeza leve que nos acomete, não ao estado de paralisia que associamos à depressão.

Depois, a melancolia foi substituída pela preguiça. E o orgulho e a vaidade juntaram-se no pecado da soberba.

Então, ficaram os atuais Soberba, Avareza, Luxúria, Inveja, Gula, Ira e Preguiça.

Meu tratamento com o Dr. Eduardo, psiquiatra

Meu tratamento com o Dr. Eduardo, psiquiatra

Foi entre 1981 e 1983. Um dia, tentei telefonar para o CREA-RS, usando o número que tinha na minha cabeça. Não era aquele. Tinha trocado um 77 por um 07. Mas ouvi uma secretária eletrônica responder e me interessei. Dizia algo assim:

— Aqui é do consultório do Dr. Eduardo Pinheiro (só tenho certeza do primeiro nome), médico psiquiatra. Deixe seu recado após o sinal.

Hesitei um pouco, pensei nos meus ídolos do Monty Python, apresentei-me e comecei a contar ali mesmo, segurando o riso, uma série de problemas pelos quais estava passando. Devo ter ligado umas três vezes, pois a ligação era cortada pela secretária após três minutos. Lembro de logo ter me dado conta do potencial cômico daquilo, lembro do notável esforço para não rir, lembro de certa angústia para encontrar o tom correto durante o improviso. Eu desejava alguém que me ouvisse, alguém especializado e a quem não precisasse pagar. Expliquei ao Dr. Eduardo que, mesmo que pagasse pela sessão, ele não falaria mesmo, então eu usaria a secretária, que ainda tinha a vantagem de eu não precisar me deslocar.

Ainda não existia o Bina, então jamais seria descoberto, só se o Dudu — logo fiquei íntimo — me denunciasse à polícia, caso impossível porque psiquiatras são pessoas que não devem se irritar demais.

Nossa, quantas vezes telefonei! Planejava as inserções de 3 minutos com princípio, meio e fim. Ligava uma ou duas vezes por dia, dependendo de minha necessidade. Uma vez, ele interrompeu meu discurso, ouvi sua voz risonha do outro lado. Preferi desligar o telefone como tinha previamente planejado e passei a ligar após às 22h e nos finais de semana. O conteúdo era absolutamente verdadeiro, mas com doses cavalares de exagero. Como nos consultórios. Não escondia meu nome nem o de ninguém; minha persona tinha meu nome e meus amigos tinham os seus. Fantasiava que ele me ouvia, o que podia não ser verdade. Ninguém sabia de nada, só minha namorada na época. Planejei discurso por discurso durante uns dois ou três meses, quando comecei a cansar da coisa. Afinal, eu aspirava à alta.

Então, durante um almoço na casa de meus pais, contei para eles o que estava fazendo. Rimos um monte e pai me pediu o número do Dr. Dudu: desejava dar um testemunho familiar. Perguntou antes minha situação no tratamento e telefonou na nossa frente.

— Dr. Eduardo, sou o pai daquele rapaz que lhe telefona frequentemente para aliviar sua angústia. Há fatos que deveria relatar ao Sr. a fim de que o tratamento tome a direção correta.

E falou e falou. Não lembro bem do conteúdo, só de sua seriedade. Era sobre fatos preocupantes de minha infância, por aí. Ligou duas vezes enquanto nós dávamos gargalhadas. Achei que era um bom final, até porque o Dudu poderia mudar de postura, pensando que éramos membros de uma seita montada especialmente para lhe atazanar a vida. Eu sabia que, para ouvir os recados na tecnologia da época — duas fitas cassete, uma com a voz de Dudum outra com as ligações –, ele tinha que passar por cada um deles in-tei-ri-nho. Mas ele não mudou o número do telefone, prova de que não estava tão incomodado. Porém, no dia seguinte, deixei na secretária eletrônica do Dr. Dudu a informação de que estava curado. Novamente ele não precisava falar para eu saber. Estava livre.

Nunca mais telefonei. Obrigado, Dudu.

P.S. — Importante: não posso indicar o tratamento porque esqueci o número.

secretária-eletrônica

Este é o post de Nº 4000 deste blog

Este é o post de Nº 4000 deste blog

Pois é. Tantas vezes já pensei em parar, mas sempre aparece mais um assuntinho e vou ficando. Uma vez até fiz um post anunciando o fim do blog, mas apareceu um cara comemorando… E ele me detestava tanto que resolvi responder. Então, retirei o post de despedida e estou aqui até hoje. Os blogs estão fora de moda, acho que a sobrevivência do meu deve-se ao fato de ele aceitar tudo ou, melhor dizendo, de seu dono meter a colher em tudo. Publico sobre livros, música, futebol e sempre me pedem mais cinema, coisa que eu insisto em esquecer. Ou talvez os blogs não estejam acabando, mas apenas descobrindo seu real espaço de pequena influência. Aliás, noto que a maioria dos sites — mesmo os de grandes corporações — também não apitam muito.

Tenho 765 posts sobre literatura, 628 sobre futebol, 604 sobre música, 451 sobre política, 347 Porque hoje é sábado — categoria extinta em razão das pessoas terem desaprendido, entre tantas outras coisas, a diferença entre erotismo e pornografia –, 266 besteróis, 251 resenhas de livros, 231 sobre cinema, 171 em torno do meu umbigo, 166 crônicas, 166 crônicas familiares, 134 sobre viagens, 48 contos, etc.

O Google sempre me encontra, pois quase todos os textos são originais, ainda que sejam infelizmente meus. Só agora convidei o Samuel Sganzerla para escrever sobre o Grêmio, outro pedido de meus sete leitores. O incrível é que não o conheço pessoalmente.

O blog também me gerou dois processos. O primeiro foi movido por Letícia Wierzchowski contra uma crítica minha. Ela tinha razão, eu cometera uma cavalice. Pedi desculpas, retirei a coisa, ela retirou o processo e tudo acabou em civilidade. Não me orgulho do episódio. Mas me orgulho do processo de Mônica Leal contra mim. É uma medalha, uma demarcação de oposição. E mais não digo para ela não repetir a dose.

Só que o blog me proporcionou conhecer muita gente boa e legal. Todos os sete são.

Então, devo seguir mais um tempo aqui.

Foto: Santiago Ortiz
Foto: Santiago Ortiz

“Doutor, estou tendo uma crise de representação”

“Doutor, estou tendo uma crise de representação”

O paciente entrou no consultório com ar desalentado, deitou-se no divã e disse:

— Doutor, estou tendo uma crise de representação.

— Não me diga.

— Ninguém me representa e os que um dia se propuseram a isso, desistiram, mudaram, sei lá.

— Sim.

— Vi que a coisa era grave quando compareci em a audiência nesta semana e não encontrei meu representante, meu advogado. Não sabia mais quem era ele. Se o vi, não reconheci. Voltei para casa desesperado com a derrota na causa e, quando subi as escadas, cruzei com o síndico. Ele me disse que havia um vazamento no meu apartamento, só que, doutor…

psi

— Sim?

— Não votei nele. Ele não me representa.

— Acredito.

Os dois ficaram em silêncio por alguns segundos até que o paciente disse:

— Meu Deputado Estadual não foi eleito.

— O Federal?

— Também não.

— Senador?

— Perdeu por pouco.

— Presidente?

— Votei na Dilma, que já não me representava.

— Votaste em quem não te representava… Grave… Prefeito?

— O Sr. me toma por quem?

— Desculpe. E Governador?

— O Sr. realmente está me desconhecendo!

— Creio que deve haver pessoas em posições de algum poder que lhe representem. Vereador?

— Sim, votei numa boa menina. Foi eleita.

— Viu?

— É pouco, doutor.

— E o teu trabalho, ele representa tuas capacidades, teu papel e a forma como és necessário à sociedade…

— O que faço representa meu chefe, não a mim.

O médico contém o riso e diz que aquilo é muito comum.

— E as bancadas da Bala, da Bíblia, do Boi, da Bola?

— Nada doutor. Com B só Balzac, Bach, Beethoven e Brahms.

— E os movimentos identitários?

— Meu deus, doutor. Eles chegaram a tal grau de certeza de sua superioridade moral que não posso nem encará-los. Sinto-me indigno. E não poderiam me representar porque é o lugar de fala que garante a verdade do que é dito. Não adianta estudar. E meu lugar de fala é uma bosta: branco, homem, hetero, mesmo que traído pela mulher.

— Opa.

— Minha mulher, poderíamos chamá-la de Molly, elegeu um representante para minha função.

— Ela é mole?

— Meu deus, doutor, falo de Molly Bloom. Cito Ulysses.

— Ah, sim.

O médico se remexe na cadeira.

— Minha mulher tem um amante. Ponto.

O médico queria mudar de assunto. Decidira que representação era o tema daquela sessão. Adultério ficaria para uma ou várias próximas.

— E aqueles teus B`s queridos? Bach, Beethoven, etc.?

— Shostakovich.

— Como?

— Shostakovich. A polícia stalinista vinha buscar as pessoas em suas casas, à noite. Eles não davam tempo para o cara se vestir. Era levado para “prestar seu depoimento” como estivesse, normalmente de pijamas ou cuecas. Era para humilhar mesmo.

— E daí?

— E daí que Shostakovich passou a dormir vestido, preparado, para passar menos vergonha.

— E o que isso tem a…

— Depois ele pensou que seria melhor que não o pegassem dentro de casa. E começou a dormir no corredor. Quando ouvia o som do elevador, pegava a pasta e aguardava.

— Que loucura.

— Mas eles nunca vieram. A NKVD e a KGB nunca vieram.

— …

— E eu tenho medo do MBL, mas não apenas deles. Tenho medo de todos. E todos fazem linchamentos virtuais. Ninguém me representa.

— Escreva um textão no Facebook. Diga que respeita todo mundo. Os identitários, os punitivistas, a puta que o pariu, que cada um deve respeitar o espaço do outro, diga que acredita no diálogo e na democracia, que saúda respeitosamente cada degeneração. Não, não, não faça textão, responda a cada um de cada vez, sempre concordando. Depois volte aqui e vamos tratar do adultério em 30 sessões. Chama a Mole junto.

O melhor presente

O melhor presente

Meu aniversário é apenas dia 19, mas acho que recebi hoje o melhor presente de aniversário de minha vida. Minha mulher, Elena Romanov, que é uma violinista de raro brilho, fez toda uma preparação secreta. Levou-me até uma pequena igreja aqui de Salvador do Sul, dizendo que queria estudar violino num espaço que não fosse acusticamente “seco” como nosso quarto de hotel. Pediu que eu levasse um livro para ler, a fim de não me entediar. OK. Lá chegando, após fazer algumas escalas, me pediu que eu fosse sentar em um lugar determinado e começou a tocar a Chaconne de Bach. No início eu achei “puxa, que bem tocado” para uma brincadeira improvisada, mas a coisa se estendeu de tal forma e com tamanha perfeição e musicalidade que primeiro me emocionei a ponto de ver surgirem algumas lágrimas e depois mais ainda porque me dei conta de que aquilo, talvez, fosse um presente imaterial para mim. Quando fui agradecer, apareceu um sujeito na igreja vazia falando para ela “Eu entrei aqui para fazer umas preces, mas depois disso já considero que tenha feito”.

Obrigado, Elena.

(Imaginem que ela decorou a enorme peça para que eu não pudesse saber de nada antecipadamente, vendo as partituras que ela levava).

Aqui, Elena Romanov ainda estava nas escalas | Foto: Milton Ribeiro
Aqui, ela (Elena Romanov) ainda estava nas escalas | Foto: Milton Ribeiro

Modesta reflexão sobre a “arte” de ver filmes

Modesta reflexão sobre a “arte” de ver filmes

Dia desses, em questão de minutos, entraram em meu esquecido Feedly duas críticas acerca do filme argentino O Cidadão Ilustre, de Gastón Duprat e Mariano Cohn. Uma tinha sido publicada domingo e outra segunda-feira. A do domingo era constrangedora. A de segunda-feira era excelente. O fato da primeira ser contrária ao filme não significa nada, há críticas devastadoras que demonstram extrema compreensão de quem viu a obra, assim como é normalíssimo vermos elogios que mal tocam sua superfície. Meus 59 anos me mandam dizer que, quem não sabe ver filmes, habitualmente não sabe ver peças de teatro, e pior, não sabe interpretar livros. Sim, o pacote parece vir instalado completo, sem personalizações, à exceção do caso da música, que merece outro post.

Ontem, apesar da chuva, caminhei bastante pela rua, e pude pensar sobre as armadilhas que os alguns autores modernos exigem de seus leitores-expectadores. Mesmo um filme aparentemente simples como Cópia Fiel, está cheio de armadilhas para serem destrinchadas por um expectador que não seria mais um mero receptor e sim um intérprete que tem de trabalhar um pouquinho para entender o filme. No caso do citado filme de Kiarostami, o quebra-cabeça começa pelo título do filme. O nome original está em italiano, Copie Conforme. Em italiano Copie significa Cópia, mas Coppie é Casal, enquanto Conforme pode ser Fiel ou Conformado. É muito mais do que um trocadilho idiota, tem tudo a ver com o filme.

Refleti principalmente sobre o cinema porque ele é a arte mais pública e comum que temos. É difícil de se encontrar com alguém que leu há pouco exatamente o livro que a gente quer comentar. Já com os filmes é simples. Como estão em cartaz, todos os meus amigos viram O Cidadão Ilustre ou Perdidos em Paris. Dá para trocar ideias. O cinema é a grande cultura pública de nosso tempo.

O problema de certa crítica é não causado pela falta de inteligência, mas antes de falta de vivência ou pura desatenção para com a coisa artística. Lembrei dos ensaios de Bakhtin sobre Dostoiévski e de como O Idiota passou a figurar automaticamente ao lado de Os Irmãos Karamázovi como meu livro preferido de Dostô — sempre acompanhado do primeiro que conheci (a primeira vez a gente nunca esquece), Crime e Castigo. Quando li o que escrevera Bakhtin, tive que voltar a O Idiota e pensar que o título referia-se a alguém como eu… Hum… Ontem, enquanto caminhava, ri sozinho ao lembrar que Marcelo Backes cometera EM LIVRO o erro de deixar por escrito que eu seria o melhor leitor não-profissional que ele conhecera. Acho que dou a impressão de ser alguém mais inteligente do que sou. Que siga assim…

Mas avancemos: considerando aquele comentarista constrangedor e pensando que praticamente todos os grandes cineastas realizam/realizaram trabalhos sobre a linguagem, gente como ele está a ponto de dizer que — para citar apenas os vivos — Sokúrov, Kusturica, von Trier, Lynch, os irmãos Cohen, Moodysson, Sorrentino, Hartley, Polanski, Vinterberg, Haneke, P. T. Anderson são ruins, pois abusam de situações que representam outras.

Não é um assunto que me faça morrer, o que escrevo é uma reflexão vagabunda que é, para mim, nada mais do que uma curiosidade. É que quando li a primeira crítica me pareceu que o cara estava decididamente em outro mundo, numa faixa própria de esquizofrenia e estupidez. Será que ver certos filmes requer alguma especialização?

O cidadao ilustre