Guimarães Rosa é — e sempre será! — notícia

Guimarães Rosa é — e sempre será! — notícia

Parece haver uma conjuração em curso. Desde ontem, quando confessei não lembrar bem de Grande Sertão: Veredas, estou recebendo uma série admoestações de queridos amigos. Curiosamente, Paulo Timm (dois links, o que comprova que Guimarães Rosa só pode ser cantado por quem controla dois espaços na internet) não me fez qualquer advertência, mas me mandou um texto sobre Rosa e Grande Sertão, o qual não posso deixar de publicar. Paulo Timm é homem de dois mundos e age de forma exatamente contrária a do meu falecido amigo Herbert Caro. O Dr. Caro viajava para a Alemanha a cada 1º de dezembro a fim de fugir da “canícula”. Voltava a Porto Alegre lá por 31 de março, vivendo dois invernos por ano. Já Paulo Timm busca o calor: vive um verão em Torres (RS) e outro em Covilhã, na Serra da Estrela (Portugal). 

Bem, antes de passar a palavra a Paulo Timm, prometo que vou ler os dois livros que já estão sobre o meu criado-mudo e depois repego o Grande Sertão, OK? E não gritem mais comigo!

.oOo.

“Quando escrevo, repito o que já vivi antes.
E para estas duas vidas, um léxico só não é suficiente.
Em outras palavras, gostaria de ser um crocodilo
vivendo no rio São Francisco. Gostaria de ser
um crocodilo porque amo os grandes rios,
pois são profundos como a alma de um homem.
Na superfície são muito vivazes e claros,
mas nas profundezas são tranquilos e escuros
como o sofrimento dos homens.”

Então, Guimarães é notícia em destaque?

Por quê…?

Aconteceu alguma coisa? Ganhou o Nobel de Literatura Post Mortem? A patrulha descobriu que ele era racista, homofóbico, ou vice-versa?

Nada disso, apenas Guimarães — eterno — e uma resenha ao léu no Blog do Milton Ribeiro, que não resisti a comentar. Daí a cobrança dele por esta aventura que se segue: falar sobre o maior autor moderno do país. Aquele que ultrapassou o modernismo e o regionalismo para entronizá-los na literatura mundial, com a mesma envergadura de “Cem Anos de Solidão”. Talvez mais original, mais ousada. Advirto o editor: – Não sei nada de literatura, a não ser como leitor. Penso comigo: – Devorei a “Biblioteca Lar Feliz” que minha mãe, professora primária em Santa Maria, guardou com tanto zelo, até morrer. E havia outra coleção: “Terremarear”… Como esquecer esses nomes todos? Mas, curiosamente, lá não havia muitos clássicos. Até hoje não li sequer um livro de Shakespeare. Conheço-o, como diria Machado, de vista e de chapéu. Ainda assim, pra mó de me compreenderem saibam que “ Soletrei, anos e meio, meante cartilha, memória e palmatória.”  No Cícero Barreto e Colégio São Luiz, em Santa Maria, anos 1950/53. E o fiz até cansar, porque era muito fraquinho, não dava pra esportes coletivos, mal brincava na rua. Sempre escutando minha mãe: ” Acho que esse menino não dura, já está no blimbilim”.

Mas Milton me anima: — Trata-se de depoimentos, fã clube!

Levo medo. “Abriu em mim um susto. Mal haja-me!”  Afinal respondo:  :“Do demo? Não gloso. Senhor pergunte aos moradores. Em falso receio, desfalam no nome dele – dizem só : o Que-Diga.”

“Parece até que ficou o feliz, que antes não era…”

Pois assim funciona o Guimarães, pra mim:  Como um desencontro de palavras  que escorre em melodia, como a fala de todo mineiro. Outra lógica.

Decididamente, me retombo como água caindo em cachoeira. E me vou, retórico, vaidoso e despido de vergonhas a caminho da crônica, embebido de diadorices .

Grande Sertáo, Veredas foi o melhor romance que li:  Lhe digo, à puridade.- Pois não sim…?”

A primeira vez na juventude e não consegui entender nada. Nem o título. Sertão, pra mim, ficava no Nordeste do país: “Vidas Secas”, “O Cangaceiro”, “O Pagador de Promessa”. Glauber, “Os Retirantes”. Guimarães não é minero?, perguntei ao Fabinho, um de meus gurus, comunista visceral, com quem repartia o verdadeiro “aparelho” na Demétrio Ribeiro, 1094. Meados da década de 60. Aliás, outro cadáver da ditadura. Homenagem. Ele me disse que sim, mas não explicou mais. Tudo é e não é…” Passei décadas sem voltar ao livro. Mas, perto dos 60 anos, fui morar num ermo de Goiás: Olhos d‘Água. Afinal, um homem nessa idade “ carece de aragem de descanso. Solito e Deus. Cuidando de plantar mandioca, cuidar das galinhas e fazer poesia. Cansado de guerra!

“Sofro pena de contar não….Melhor se arrepare: pois, num chão, e com igual formato de ramos e folhas, não dá a mandioca mansa, que se come comum, e a mandio-brava, que mata?

Lá convivi com muitas gentes oriundas das Gerais, pessoas simples, rudes e sábias. E também com um mineiro, meu senhorio, Betão, de Cordisburgo, cidade de Guimarães, cujo pai havia sido dele colega. Eu lhe ensinei a tomar chimarrão nas madrugadas, ele me devolvia com mineirices.  E susseguinte… sem remediável, ”percebendo a maneira curiosa de toda aquela gente pensar e falar, ocorreu-me voltar ao “Grande Sertáo”. Pois “ponho primazia é na leitura — eu gosto muito de moral — ajudo com meu querer acreditar. De sorte que carece de se escolher. Que no causo, é reler com o jeito, agora, de poder entender. Porque aprendi com aquela gente do Planalto Central, que o excesso de argumentos e a falta de jeito falecem a razão. Que redescoberta! Comecei a entender tudo. Há sertão nas Gerais, um sertão misterioso e encharcado durante as águas, que são abundantes; há uma filosofia popular profunda entre mineiros e goianos (estes, dizem, mineiros fugidos depois de matar alguém…) Hoje, Grande Sertão, é um dos meus livros de cabeceira. Vez por outra roubo-lhe uma expressão. Ou um parágrafo inteiro – aí cito…-. E coisa incrível: Oferecendo-me para ler em grupo com algumas pessoas o livro, aqui em Torres, descobri duas mulheres devotas da obra, uma psicóloga, Angela, a outra professora, Vera. Nem precisou reler o livro com elas. Elas o sabiam melhor do que eu… Coisas deste mundo que ninguém, nem o mais o desinquieto, desentende… “Só um e outro, um em si juntos. O viver em ponto sem parar (consegue). Coração-mente. Pensamento. Avançam parados dentro da luz.

Parece que aqui, mesmo com o mar a tiracolo, com a Serra Geral subindo ao longe, também tem sertão…Pois ele está é dentro da alma de cada um de nós.

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Anotação sobre Falcão

Anotação sobre Falcão
Falcão em 1979

Li hoje uma discussão sobre se Falcão teria sido o maior jogador do Inter em todos os tempos. Gostaria de dar meu pitaco. Entre 1973 — tinha 16 anos naquele ano — e a Libertadores de 1980, devo ter visto Falcão jogar umas 300 vezes. Acho que ele fez parte do mais importante time do Inter (o de Minelli, entre 74 e 76), o time que nos tirou da rotina provinciana de campeonatos gaúchos, dando-nos protagonismo nacional.

Pois bem, conhecendo as várias formações daqueles anos, reafirmo a enorme importância de Falcão, mas o coloco ao lado de Carpeggiani, Figueroa e Lula. Este último, tão pouco lembrado, ouviu risadas de seus companheiros quando disse que ia ao Maracanã arrebentar com o Botafogo. E fomos lá e ganhamos por 3 x 2, com três gols de Lula. Ele veio do Fluminense acostumado a ser campeão e mudou a cabeça de um grupo que via os paulistas e cariocas como inatingíveis. Já Carpeggiani era o dono e responsável pelo ritmo acelerado do time de Minelli e Figueroa secundava Lula na indignação contra o provincianismo. Ou seja, Falcão sempre esteve bem acompanhado.

Ele foi o principal jogador do time de 79-80. Antes, era um monstro como outros. Aqueles eram times espetaculares, cheios de craques. Caras como, por exemplo, Batista, Jair e Valdomiro seriam deuses se jogassem atualmente. É minha opinião. Digo isso sem ser passadista. Acho que são fatos mesmo.

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Os 50 maiores livros (uma antologia pessoal): XVIII – Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa

Faz muito tempo que li Grande Sertão: Veredas. Foi uma leitura adolescente e nunca mais revisitei o livro. O fato não impede que eu tenha a melhor das lembranças. Dele e de Sagarana. Mas jamais poderia escrever algo honesto se às vezes confundo trechos  do romance e da coleção de contos. Então, convidei Fernanda Melo (2 links) — grande admiradora da obra-prima de Guimarães Rosa — para escrever o 18º post desta série.

.oOo.

Grande Sertão: Veredas entra com mérito e facilmente em qualquer lista de livros preferidos de quem o tenha lido. Mas ele é um daqueles livros que exige do seu leitor. Não é um livro para ler pressionado por prazos, para fazer prova de vestibular ou com o objetivo de aprender sobre o interior do Brasil. É preciso tempo para se adaptar à linguagem, para que ela, ao invés de truncada, se torne musical. A narrativa de Riobaldo, feita na primeira pessoa, avança, recua e muitas vezes confunde, tal como seria recordar uma vida. A viagem pelo Sertão é longa e cheia de pequenos causos. Se for para ler com pressa, querendo chegar logo ao fim, vai parecer uma eternidade. O outro caminho é curtir cada pedaço, se interessar pelas expressões (quase todas as frases de Guimarães Rosa citadas por aí são retiradas deste livro), embarcar nas reminiscências, compartilhar a visão de mundo de Riobaldo, apaixonar-se por Diadorim…

Eu gostaria muito de ter lido Grande Sertão: Veredas sem saber que foi representado por Bruna Lombardi numa minissérie da Globo (os mais velhos poderão apelar para uma referência ainda mais antiga, do filme de 1965, com a atriz Sonia Clara). Apesar das andanças, das superstições, da linguagem do sertão, das disputas de terra e do amadurecimento de Riobaldo, é Diadorim que o leitor busca em cada uma de suas páginas. Os seus olhos verdes, o seu comportamento reservado, as mãos delicadas, sua maneira firme e determinada, o perfume do seu corpo, as palavras soltas… tudo em Diadorim confunde e deixa Riobaldo em suspenso. Diadorim e a saga no sertão se confundem. Acredito que antes o amor de Riobaldo e Diadorim também confundiam também o leitor. Riobaldo não se permite dar vazão ao que sente por Diadorim, outro homem, algo ainda hoje – apesar de tantas lutas e progressos com relação à aceitação da homossexualidade – perfeitamente compreensível. Quem lia aquilo sem saber previamente da história de Diadorim, não conseguiria deixar de perguntar: Riobaldo é gay? O que teria acontecido se ele tivesse tentado? Ou será que no fundo ele sabia que Diadorim era uma mulher? A explicação mais bonita que vi da história de Diadorim e Riobaldo foi de uma entrevista de um ator italiano, desses de novela da Globo, que disse que Grande Sertão lhe ensinou que amor não tem sexo, que amor é algo que existe entre essências. Talvez conhecer o livro antecipadamente tenha nos retirado o privilégio de chegar a uma conclusão semelhante.

Falando em paixão, em amor, não dá para deixar de citar a evidente torcida de Guimarães Rosa, demonstrada nesse e em outros livros, pelo sertão. Falando de modo bem amargo, o sertanejo seria quase um bom selvagem. A linguagem deliciosa e musical do livro, ao invés de eternizar a fala do jagunço, criaria outra, realmente musical e deliciosa, só que fora da realidade. Metidos em guerras confusas, dormindo sob o céu estrelado e sem saber do que será o amanhã, os personagens de Guimarães têm sempre uma grandeza, uma proximidade com o eterno. O homem a cavalo, a filha do moço da venda, o matador de aluguel, nunca podem ser reduzidos apenas ao que fazem. Mesmo quando fala da morte, da necessidade e da ignorância, o leitor sempre têm a impressão de que eles, interioranos, vivem de uma maneira mais autêntica do que nós, leitores citadinos.

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Confessionário

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

A pergunta do café da manhã

— Mamãe, por que meu time nunca ganha nada? — pergunta o menino de 12 anos, ignorando o pai.

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

80 anos – A linhagem sagrada de Andrei Tarkovsky

Andrei Tarkovsky (1932-1986): apenas sete filmes lhe garantiram um lugar central na história do cinema | Foto: Divulgação

Por Josias Teófilo 1
Publicado na Revista Continente e no Sul21 em 20 de outubro de 2012

Andrei Tarkovsky entrou para a história do cinema com apenas sete longas-metragens, cinco deles feitos na União Soviética e os outros dois na Itália e na Suécia, na década de 1980, já no exílio. Seu legado, entretanto, não é exclusivamente cinematográfico. Seguindo uma tradição russa de artistas que são também teóricos da arte – entre o final do século 19 e o começo do século 20, Tolstoi escrevera seu polêmico ensaio O que é a arte?, Kandinsky, o livro Do espiritual na arte, e Malevitch, junto com o poeta Maiakovsky, o Manifesto Suprematista –, Tarkovsky escreveu (“por falta de coisa melhor a fazer”, como ele dizia) um dos mais influentes e poderosos escritos teóricos sobre o cinema: o livro Esculpir o tempo.

Tarkovsky – cujo pai, Arseni, era poeta – nasceu num pequeno vilarejo a cerca de 350 quilômetros de Moscou, em abril do ano de 1932. A família com esse nome surgiu há aproximadamente sete séculos, e, até meados do século 19, o Principado Tarkovsky existiu na região do Cáucaso – sua linhagem espiritual, contudo, parece ser muito mais antiga do que a genealógica.

O apuro visual de A infância de Ivan (1962) | Foto: Divulgação

Depois de realizar o seu primeiro longa-metragem, A infância de Ivan (1962), que ganhou o Leão de Ouro no Festival de Veneza, concorrendo com diretores como Kubrick, Godard e Pasolini, Tarkovsky partiu para um ambicioso projeto: retratar uma figura central da cultura e da ortodoxia russa, Andrei Rublev, pintor de ícones do século 15. A falta de informações existentes sobre a vida de Rublev, em vez de uma dificuldade, foi uma grande oportunidade para o seu gênio criador. O resultado foi um filme de 3 horas e 20 minutos, em preto e branco, com exceção da cena final, colorida, em que surgem os ícones dourados pintados por Rublev.

O épico Andrei Rublev: obra-prima absoluta | Foto: Divulgação

Ao fazer um épico sobre o pintor de ícones medieval, que incorpora uma tradição pictórica que vem desde Bizâncio, Tarkovsky não se liga a uma tradição de arte religiosa de inspiração cristã? O fato é que ele viveu num contexto político em que esses temas religiosos, se não proibidos, eram mal vistos pelas autoridades soviéticas, que então seguiam a cartilha marxista-leninista. Rublev, contudo, era uma símbolo internacional da arte russa, e o quinto centenário do seu nascimento ajudou Tarkovsky a aprovar ideológica e financeiramente o seu projeto.

Depois de pronto, entretanto, o filme foi apresentado ao presidente soviético Leonid Brejnev e, em seguida, censurado, sob alegação de passar uma imagem negativa da história da Rússia. Apesar da censura, o diretor do Festival de Cannes já havia visto a película e, junto à direção do Festival de Veneza, ameaçou não incluir mais nenhum filme soviético, caso Rublev não fosse permitido. O filme não só participou em Cannes como ganhou o prêmio da crítica internacional, o que possibilitou a sua exibição em todo o mundo.

O interesse de Tarkovsky na história residiu no profundo paradoxo entre a obra de Rublev, reconhecida universalmente pela serenidade e harmonia, e o contexto social em que ele viveu, de guerras sangrentas, fome e morte – tudo que foi retratado no filme e que desagradou as autoridades soviéticas. Terá Tarkovsky, homem de interesses metafísico-religiosos, vivendo em plena Guerra Fria na União Soviética, se identificado com a situação paradoxal de Rublev? A questão é mais ampla do que essa. Parece haver uma afinidade estética entre ele e o pintor medieval, e, mais do que estética, uma afinidade espiritual entre a sua arte imagética e a tradição iconográfica.

“Se eu usar cores muito marcantes o filme se caracterizará por elas” | Foto: Divulgação

Ídolo e ícone

No livro O ícone – Uma escola do olhar, Jean-Yves Leloup faz uma distinção entre ídolo e ícone. O primeiro seria qualquer forma de representação religiosa que prende o olhar em si mesmo, pelas formas, cores ou movimentos que chamam a atenção, provocando emoções. O ícone, ao contrário, não tem movimento nem profundidade, as cores e formas obedecem a padrões tradicionais. Nele, a transcendência é o fator essencial, a intenção é mostrar o “Invisível no visível, Presença na aparência”. Mas como relacionar uma arte tão antiga como a iconografia com uma tão nova como o cinema? Tarkovsky criticava tanto o modelo de criação cinematográfica que coloca a emoção como objetivo primordial, a saber, o modelo hollywoodiano de cinema comercial, como o modelo que coloca o intelecto no centro dessa atividade – os chamados filmes de arte.

Ele se mostrou profundamente decepcionado, por exemplo, com o que viu nos festivais de Cannes dos quais participou, de diretores como Fellini, Polanski, etc. Podemos dizer que o cinema que Tarkovsky rechaça seria como o ídolo de que fala Leloup? Para ele, “um artista sem fé é como um pintor que houvesse nascido cego”: a “função” do seu cinema é, portanto, essencialmente espiritual. Ele se recusava a usar cores vivas nos seus filmes (“Se eu usar cores muito marcantes o filme se caracterizará por elas”), repelia a expressividade excessiva dos atores (o recém falecido Erland Josephson, ator preferido de Bergman, afirmou certa vez, em entrevista, a imensa dificuldade em interpretar como Tarkovsky queria: sem emoção, de modo que o espectador pudesse livremente interpretar o que estivesse vendo). Além disso, ele dispensava o uso da música como muleta para produzir efeitos pré-definidos e, o que foi motivo da sua principal divergência com Eisenstein, negava os excessos da montagem.

Enfim, Tarkovsky buscava a pureza, podemos dizer até infantil, do olhar cinematográfico, que aspira a um hieróglifo da verdade – o mesmo poderia ser dito do ícone e sua tradição, com os quais Tarkovsky, desde muito cedo, teve contato em seu país natal. As semelhanças são profundas e podem indicar uma ancestralidade espiritual, coisa estranha a uma arte nova como o cinema, mas que é muito rica para a compreensão do fenômeno artístico como um fenômeno que transcende o tempo e o espaço.

1 Josias Teófilo, jornalista, é mestrando em Filosofia pela Universidade de Brasília com o tema A cumplicidade espiritual: o papel social do artista segundo Andrei Tarkovsky no filme Andrei Rublev.

Foto: Divulgação

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

O Lacaio e a Meretriz, de Nina Berberova

O Lacaio e a Meretriz, de Nina Berberova

Nossa, este livrinho — são apenas 62 páginas — da Nova Fronteira é bem ruinzinho. Lançado em 1989, narra a história de Tânia, uma russa bonita e de seios grandes que foge da Revolução Bolchevique pelo Japão, chegando em 5 páginas à Paris. Aparentemente, ela não tem nenhuma opinião sobre a Revolução. Desinibida, rouba o pretendente da irmã, o qual morre logo após o casamento. deixando nossa personagem principal à deriva na capital francesa, à procura de um marido que lhe pague as contas. Ele vem na figura de um garçom também fugido de St. Petersburgo e ela passa a detestá-lo por sua incompetência em ganhar dinheiro. Ele rasteja, dizendo adorar a mulher. Deprimida, já gorda e decaída ela segue o roteiro óbvio. Fujam!

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Notas sobre o Música na UFCSPA desta quarta-feira

O Quarteto Instrumental formado Artur Elias (flauta), Elena Romanov (violino), Vladimir Romanov (viola) e Rodrigo Alquati (violoncelo) deu um excelente recital na universidade de nome difícil de pronunciar. Contrapartida que todos os cursos mais ricos deveriam dar ao público por levarem boa parte da grana que deveria ir para a área das Humanas  — dia desses o IA, por exemplo, vai abaixo –, o Música na UFCSPA merece todos os elogios. A série mantém-se impecavelmente afastada da mediocridade. Toda a programação é de primeira linha e hoje não apenas os músicos eram excelentes como também o repertório consistia de obras raramente executadas entre nós. O ingresso é sempre gratuito.

Gostaria de fazer duas pequenas críticas à organização: a primeira é que a função estava marcada para às 12h30 e a portaria deixou todo mundo lá fora até às 12h29. Teve um senhor idoso que disse “Já que é assim vou almoçar”. E foi embora. A segunda é que as pessoas que vão a concertos, neste horário, normalmente deram uma fugidinha do trabalho e têm horário apertado. Ou seja, tem que começar na hora, nunca com atraso.

Mas o concerto era consolo para quaisquer males. Após o conjunto iniciar de forma um pouco hesitante o Allegro do Quarteto em Ré maior, K. 285, de Mozart, a coisa simplesmente engrenou e foi perfeita até o final. Com a costumeira segurança, Artur Elias comandou o Mozart de forma esplêndida. Ele, “cantou” o Adagio como poucas vezes ouvi. Impossível não ficar feliz com o que ouvimos.

Em seguida, no Tchaikovsky, passou o bastão à Elena Romanov, que solou brilhantemente um arranjo do Andante Cantabile do Quarteto de Cordas op. 11 nº1. O concerto foi finalizado com a curiosa e muito boa 15 minutes, do contemporâneo Jean-Michel Damase, obra complicada, cheia de episódios contrastantes. Ia conferir se a duração seria de exatos 15 minutos, mas esqueci…

Com justiça, a plateia aplaudiu de pé. O bis veio com Carinhoso de Pixinguinha. Também foi ótimo, mas a plateia estava tão satisfeita com o que vira que, se eles fizessem uma exibição amadora de sapateado, seriam igualmente ovacionados.

Olho no Música na UFCSPA. O público ainda não se deu conta de sua existência.

P.S. — Deveria ser normal, rotineiro, mas não é. Este quarteto, todo saído da Ospa, ensaia e toca música de câmara. Assim fazendo, apenas demonstram de forma inequívoca seu amor e dedicação à música. Não ficarão ricos por isso.

O quarteto no palco da UFCSPA
Em primeiro plano, a mulher e o filho do flautista Artur Elias (ao fundo).
Elena Romanov. de muito longe, a criatura mais bonita do palco.
Seu marido Vladimir.
E o violoncelista Rodrigo Alquati.

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

(Com belas fotos) Não pensem que tenho algo contra uma nova Biblioteca Pública, mas…

… penso que antes temos que reabrir nossa bela Biblioteca Pública da Riachuelo, sob pena de criarmos uma segunda Ospa, com sua sede sempre futura.

Clique para ampliar

Eu sei bem da situação da Cultura no RS, faço parte da diretoria da Amaospa (Associação de Amigos da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre) e nada do que está escrito no folder ao lado me é estranho. Também não vejo problema em planejar uma Biblioteca Pública maior, mas desconfio que estes longos 6 anos — há previsão de ficar fechada por mais dois, ou seja, toda uma geração passará sua  juventude sem conhecê-la — em que nossa Biblioteca Pública do Estado esteve fechada, fizeram com que as pessoas esquecessem um pouco de como ela era e de suas funções. E da urgência de sua reabertura. Ontem, Dia do Livro, houve uma caminhada desde o Memorial do Rio Grande do Sul, na Praça da Alfândega, até a centenária BPE. Estavam convidados “os que torcem e defendem um novo prédio para os livros e a cultura”. Também foi criada uma Petição Pública que assinei: Eu também quero uma NOVA Biblioteca Pública pro RS, JÁ.

Mas, sabem, acho que há um problema de prioridades. Primeiro uma coisa e depois outra. Dentro do governo, os processos tem de ser acompanhados detidamente para que não parem em algum gabinete. Há que ter a sociedade e ao menos um bom deputado empurrando e cobrando. Abrir canais, ter foco e dar visibilidade é tudo. O documento acima diz-se desolado com a demoradíssima restauração da velha e querida Biblioteca, e não a descarta de modo algum, mas vai logo pedindo uma nova, uma que possa abrigar um acervo que tornou-se grande demais. Mas há um fato muito importante: uma biblioteca não é apenas um monte de livros organizados, uma biblioteca é um lugar de convivência e… Posso lembrá-los de como era a nossa?

Eu, por exemplo, fui centenas de vezes até a velha biblioteca, passei lá milhares de horas — não há nenhum exagero nesta afirmativa — e jamais retirei ou abri um livro de seu acervo. Ou seja, a BPE era utilizada de outra forma por mim. Eu ia lá para baixo e ficava na sala mais frequentada e uma das mais silenciosas, um local bonito com um jardim ao lado. Chamava-se Sala de Leitura ou algo análogo. Era onde podíamos entrar com nossos livros e pertences. Eu ia lá simplesmente estudar, ler jornais ou os livros que trouxera. Era tranquilo, era bom de ficar lá, era um ambiente de concentração, sofisticado, onde a gente tinha a impressão de absorver as coisas mais rapidamente. A maioria das pessoas lia os jornais disponíveis; outros faziam como eu, mudando de atividade a cada meia hora. Como ganho secundário, digo que era um bom lugar para conhecer pessoas, talvez namorar. As bibliotecas públicas,  meus amigos, são formadas por outras coisas além de livros: há cadeiras e mesas, idealmente há conforto e silêncio e, em nosso caso havia tudo isso e mais beleza. Atualmente, toda a biblioteca tem uma coisa barata e fundamental: wireless. Na minha época de BPE, não havia internet e a gente lia jornais. Hoje há coisa melhor e as pessoas frequentam as bibliotecas entre papéis e tablets ou notebooks. As pessoas falam muito no acervo, no acervo, no acervo hoje colocado num porão da Casa de Cultura Mario Quintana, mas este obsessivo leitor e amante dos livros que vos escreve, repete: uma biblioteca pública não é feita apenas de livros. O acervo é um material de pesquisa fundamental, é o que dá nome e justifica a instituição, mas, convenhamos, poderia ficar temporariamente organizado em outro local, como está hoje, até que o nova sede ficasse pronta. O grande acervo é o que impede a reabertura da velha BPE? Penso que não.

E o que também parece estar longe da memória das pessoas é que a BPE/RS possuía o Salão Mourisco, que era uma das melhores salas de concerto da cidade. Quantos concertos de música de câmara assisti no Mourisco nos finais de tarde? Por motivos bem diferentes, lembro especialmente de dois: um onde Marcello Guerchfeld e uma pianista (Cristina Capparelli?) interpretaram as duas Sonatas para Violino e Piano de Béla Bartók. A temperatura emocional da coisa foi tão alta que, ao aplaudir, olhei para o lado e vi que metade da minha fila tinha estado chorando. Eu? Desmilinguido, claro. Outra vez foi cômico. Meu pai tinha um daqueles chaveiros que respondiam a determinado tom. Isto é, quando ele queria encontrar suas chaves, largava um Si Menor e o troço apitava. E ele, inteiramente esquecido de seu chaveiro, foi ao concerto. Ora, cada vez que o pianista esbarrava na nota, a engenhoca berrava, glu, glu, glu, glu, glu (5x). A princípio olhamos para todos os lados a fim de descobrir quem era o imbecil que fazia aquilo. Quando meu pai se deu conta que era ele, levantou cuidadosamente, foi ao banheiro e fez submergir o chaveiro na privada. A BPE/RS era um local vivo.

Então, entre o ideal e o imediato, entre o quase-pronto e o projetão, desculpem, fico primeiramente com o imediato e quase-pronto. E aconselho: a pressão deve ser feita primeiro pela reabertura daquilo que é lindo e que nos foi roubado para só depois vir o projeto. Até parece que já estou ouvindo as respostas que a Ospa ouviu: “O que vocês querem não é factível. Onde seria a nova BPE? Vocês já têm local?”. E todo o périplo percorrido pela Ospa será percorrido pela BPE. Lembrem que a orquestra está há anos sem o Teatro da Ospa e sem a Sala Sinfônica. Então aconselho: nada de atropelar as coisas.

Abaixo, mostro para vocês algumas fotos tiradas por Ramiro Furquim para o Sul21 em 5 de maio de 2012. Hoje, ela não está mais cercada, mas, em compensação, a pintura já está lascada. Afinal, são anos de restauração… São quinze fotos para que vocês vejam o crime que é deixar a velha e querida BPE/RS fechada. Quem sabe uma pressão e petições para reabri-la o quanto antes, hein?

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Kafka y Praga, de Harald Salfellner

A edição da Vitalis

Este livro foi publicado em português pela editora carioca Tinta Negra, mas eu desconhecia a existência da obra. Vi-a pela primeira vez em fevereiro deste ano, no bairro judeu de Praga. Eu estava na lojinha de uma sinagoga e Franz Kafka y Praga (Vitalis, 120 páginas) estava lá em checo, alemão, inglês e espanhol. Comprei imediatamente a tradução hermana. O livro é bom e inclassificável. É um livro de viagens, mas também tem muito de história e de literatura. Quando digo que tem muito, quero dizer que é muito mesmo. Ou seja, o livro desagradará o turista desinteressado em Kafka ou alguém que não quer saber da história de Praga. Os inversos, em qualquer sentido, também são verdadeiros. O livro sustenta-se firmemente nestas três pernas. Por isso é tão curioso e talvez por isso seja tão lido e vendido em lojinhas de turistas e em livrarias.

Os diários e cartas de Kafka comprovam uma importante relação com a cidade, um verdadeiro amor. Há relatos de caminhadas longuíssimas, roteiros, descrições de locais, de parques, de ruas, de casas, do Castelo de Praga — onde ele, por um período, escreveu à noite numa tranquila ruela do castelo, fechadíssimo em um pequeno quarto de uma casa alugada por sua irmã, pois precisava de silêncio para trabalhar –, além de  subidas pela velha escadaria do castelo, missão que fazia diariamente e que não é para qualquer sedentário. É um belo livro, com centenas de fotos, algumas infelizmente colorizadas.

Em Kafka y Praga, o escritor pode ser visto de uma perspectiva diferente. Céus, quantas vezes aquela família se mudou, quantos endereços, pareciam gostar de carregar coisas! Outras coisas que, acho, não se notam em seus livros, são a profunda ligação do escritor com a cultura judaica, tão importante em Praga, e suas amizades com muita gente. Eu sempre tive a impressão de um escritor insular, kafkianamente ensimesmado, quase apartado do mundo, lendo A Metamorfose entre risadas para poucos conhecidos, mas Kafka dava palestras, ia quase diariamente a cafés e namorava bastante. Vender livros era o que não conseguia… E procurava com grande afinco um lugar tranquilo para escrever e reclamava, ao menos em seus diários, que os vizinhos, todos e via de regra, eram sempre insuportáveis. Só havia barulho no mundo. Salfellner também conta a luta dos checos — às vezes nas ruas — para afirmarem sua cultura e língua em uma cidade de pesada presença alemã. Lembrem que o escritor ainda escrevia em alemão e até hoje, na cidade, as pessoas que desejam falar conosco tentam em primeiro em checo e depois a pergunta é Sprechen sie Deutsch? Parece que a segunda língua é o inglês só para os mais jovens e para os que se envolvem com o turismo.

Enfim, se você quer um livro de curiosidades sobre Kafka e sobre a história de Praga na virada do século, este é bem bom. Mas, se você estiver indo a Praga, não deixe de adquirir o livro do Lonely Planet sobre a cidade. Este sim é indispensável.

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Cristiano Ronaldo nega troca de camisas com jogador de Israel: “Não troco com assassinos”

Ao final da partida entre Portugal e Israel pelas Eliminatórias da Copa do Mundo de 2014, em 25 de março — por quê será que a imprensa daqui não deu a devida importância ao fato? –, o jogador português Cristiano Ronaldo recusou-se a trocar sua camisa com a de um jogador de Israel. Questionado sobre a recusa, afirmou: “Não troco minha camisa com assassinos”. O jogo terminou empatado em três gols. Ronaldo poderia estar irritado com o empate em 3 x 3, mas há uma bela atitude pregressa do português: em novembro de 2012, entidades de educação palestinas e vítimas de bombardeios israelenses  receberam os recursos da venda da Chuteira de Ouro do atleta português. A chuteira, prêmio recebido em 2011 ao ser eleito o melhor jogador da temporada, é estimada em 1,4 milhão de euros.

Cristiano Ronaldo deixa gramado sem trocar camisa com israelense

Bem, após o apito final, o camisa sete foi procurado por um dos israelenses para a troca de camisa. A resposta de Cristiano foi clara: “Há uma bandeira de Israel bordada aí, não quero levar isso”. A declaração mais dura, mencionando a palavra “assassinos” foi registrada no vestiário após o jogo, quando jornalistas perguntaram ao jogador o motivo de ter recusado a troca de camisas.

A foto apresentada pelo Nouvelles d’aujourd’hui mostra outro jogador português carregando uma camisa da seleção de Israel, sem flagrar a polêmica.

O vídeo abaixo não flagra o momento da negativa, mas mostra uma conversa de Ronaldo com um jogador adversário e sua saída sem efetuar a troca, fato estranho para um ídolo como ele.

Com informações do Futepoca (dica de minha filha Bárbara Ribeiro).

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Hoje, de Tata Amaral

Ontem, em mais um belo domingo cigano em Porto Alegre, vimos dois filmes e uma exposição surpreendente que merece uma segunda visita — pois chegamos quase na hora do fechamento. A exposição é a do sul-africano William Kendridge e está lá no Iberê Camargo. Os filmes foram o bom Ginger & Rosa e o extraordinário Hoje, de Tata Amaral.

Já ouvi de algumas pessoas que o tema da ditadura já encheu o saco. Discordo totalmente. A ditadura é o grande fato histórico de nosso passado recente e, sinceramente, nem a literatura nem o cinema a exploraram de forma crítica e inteligente. Isto para não falar na própria política, que tem medo de tocá-la e que — com honradas exceções — se protege na Lei da Anistia. E, se a Lei da Anistia protege militares e a polícia, há uma Lei do Silêncio que protege os muitos civis apoiadores, financiadores e beneficiários, sem falar na corrupção do período, substituída por mensalões. Acho que até os julgamentos deveriam obedecer à cronologia dos fatos.

Hoje é um passo enorme no sentido de dar dimensão humana às vítimas da repressão. O filme, passado em um dia dentro de um apartamento, mostra Vera (Denise Fraga) chegando de mudança em sua nova casa, após receber uma indenização do governo brasileiro em razão do desaparecimento do companheiro. vítima da ditadura militar. Com o dinheiro, ela compra seu primeiro imóvel e, no dia da mudança, recebe uma visita. O roteiro foi baseado no livro Prova Contrária, de Fernando Bonassi e, se eu conto o que acontece, estrago tudo.

O filme,nada naturalista e todo em tom menor, mostra em 90 minutos um leque de opções dramáticas, fixando-se na questão da dúvida sobre a delação e da culpa. Não há nenhum general, nenhuma arma, nenhuma correria. Tudo se passa em São Paulo, em 1998. As cenas mostradas são de como aquelas pessoas chegaram aos dias de hoje, iluminando os fatos passados com uma luz ambígua. Imperdível.

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Djokovic

Djokovic

O pessoal caprichou nas fotos do duelo Djokovic x Nadal, hoje, em Monte Carlo. Mas ninguém utilizou melhor o formato do troféu do que o fotógrafo da Reuters.

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

E outra da Cantata BWV 34, também de J. S. Bach

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Uma ária da Cantata BWV 84, de J. S. Bach

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Um local da cidade: o Tuim, onde só se vende refrigerante com receita médica

Foto: Ramiro Furquim/Sul21

A antiga Rua da Ladeira chama-se General Câmara desde 1870, mas a população insiste em utilizar o velho nome para designar a rua onde um deck de madeira se esgueira pela calçada no número 333, no início da subida. Ali, de segunda a sexta, entre 10 e 21h, são consumidos sete mil litros do melhor chope e seis mil maravilhosos bolinhos de bacalhau por mês.

Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Com 74 anos de história, o Tuim é um dos bares mais tradicionais de Porto Alegre. É um negócio de família, administrado pela terceira geração de descendentes portugueses – o que explica o carinho bolinho de bacalhau, uma constante no cardápio. André Azevedo é o administrador do bar que antes era gerido por seu pai e, antes disso, pelo filho de criação do avô.

André conta que desde os 14 anos vive entre as mesas e garrafas do estabelecimento do pai. Quando seu Manuel revelou que queria vender o Tuim – que na época tinha metade do tamanho atual — André discordou e propôs-se a tocar o negócio. O pai então cedeu 50% do Tuim para André, um ex-técnico de mecânica, hoje com 32 anos. Quem o vê tirando chope não o imagina fazendo outra coisa.

A primeira sede do bar na Rua Uruguai, à esquerda na foto cedida por André Azevedo | Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Antes de vir parar na subida entre a Praça da Alfândega e o Theatro São Pedro, o Tuim teve outras moradas. Em 1941, foi inaugurado na Rua Uruguai (foto acima) e passou ainda pela Riachuelo antes de se estabelecer na General Câmara, em 1958. Quando assumiu, André fez reformas para ampliar o bar e aumentar a clientela. Na parede, um quadro avisa o horário de fechamento, às 21h – “por tradição” – e a recusa de abrir as portas em finais de semana e feriados, “por falta de movimento”. Além dos tradicionais chope e bolinho de bacalhau, o Tuim serve almôndegas, batatas fritas, salsichas bock e, nos últimos anos, passou a servir almoço. Os frequentadores sabiam que os funcionários almoçavam e pediram. “A gente não sabia se ia dar certo, mas hoje vendemos 70 almoços por dia”.

Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Se o Tuim sempre esteve ligado à família Azevedo, também é um bar famíliar. Não pelo recato dos frequentadores, mas pela intimidade existente entre eles. “Noventa por cento da clientela são pessoas que vêm todos os dias”, conta André. Ele explica que a maioria dos clientes, das mais variadas profissões possíveis – políticos, jornalistas, intelectuais, funcionários públicos, advogados –, se conhece bem. Há fregueses com mais de 40 anos de Tuim.

O momento mais importante, André tirando o chope | Foto: Ramiro Furquim/Sul21

André diz que os 10% de frequentadores que não são fixos “entram facilmente no ritmo” dos outros. Quando alguém chega sozinho com o bar cheio, o dono logo ajeita as coisas para que se abra um espaço para o novo cliente em uma mesa com gente. “Em outros bares não tem isso, mas aqui tem uma interação maior. No Tuim, os clientes são parte do bar”, diz.

Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Depois de tantos anos, a linha entre funcionários, clientes e amigos se diluiu inteiramente. “O convívio diário com a freguesia torna meu trabalho muito prazeroso. Volto faceiro para casa todos os dias. E mais inteligente”, brinca ele, que ouve e participa das conversas dos intelectuais que, entre um chope e outro, discutem de política a questões existenciais.

Com tantos fregueses fiéis – e embriagados – não é de se admirar que algum, um dia, tenha burlado a sagrada hora de fechamento e ficado dentro do Tuim um pouco mais do que o esperado. André conta rindo sobre uma noite em que um cliente, depois de “tomar todos os uísques possíveis”, se despediu e foi embora do bar. O dono, então, guardou as garrafas na geladeira, limpou o balcão, apagou as luzes, trancou as portas e acionou o alarme.

Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Quando André voltava para casa, já na Osvaldo Aranha, recebeu o aviso no celular de que o alarme do Tuim tinha disparado. Voltou correndo para a General Câmara só para ouvir da rua os berros de “Tu me trancou aqui dentro!”.  A suposição de André é de que o tal freguês tinha voltado e dormido no banheiro, já que “estava bem embalado”. O tal cliente, cujo nome André não divulga nem sob tortura, reclamou que ficou absolutamente desesperado durante os poucos minutos em que ficou preso. Afinal, não sabia onde ligava o ar condicionado — era verão — e nem tinha conseguido tirar chope.

Foto: Ramiro Furquim/Sul21

O Tuim adota um rígido código de ética. Quem chega lá totalmente bêbado, não é servido, é mandado para casa. Por outro lado, ele não serve refrigerantes em hipótese alguma. Só que a saúde de alguns dos clientes mais antigos demonstra inadequação ao segundo preceito. Então André conta, rindo, que abre exceções e vende refrigerantes mediante a apresentação de receita médica. “Sim, a ética do bar teve de ser flexibilizada… Começaram a pedir para eu vender refrigerante porque os médicos não os deixavam mais beberem, mas eles queriam continuar frequentando o bar. Afinal, são pessoas que vêm aqui há décadas. Os caras têm todos os amigos aqui dentro. Então tive que vender refris, mas não os deixo em exposição”.

Foto: Ramiro Furquim/Sul21

OK, mas então qualquer um pode beber um refrigerante no deck do Tuim? “Não, também não é assim. Só com atestado médico!”. Ah, bom.

Onde está Wal… Onde estou? | Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Quando estávamos nos retirando, um frequentador conhecido por Paraíba estava reclamando para André que o bar não tinha café expresso. Ele estava bebendo cachaça e sonhava com um café depois. Só que o Tuim não serve café. Quando soube que havia jornalistas presentes, Paraíba adotou um tom de político em campanha: “Temos um projeto de nossa autoria que inclui a instalação de uma máquina de café expresso no Tuim para daqui cem anos”. Como bons jornalistas, anotamos. Vamos conferir se será aprovado, ora.

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Porto Alegre (ou eu) enlouquece de vez: Quico (ou Kiko) é a cara da cidade

Penso que se o célebre Simão Bacamarte — médico da novelinha O Alienista, de Machado de Assis — morasse em Porto Alegre e tivesse total poder sobre seus cidadãos, o prefeito José Fortunati já estaria preso a uma cama do Hospital São Pedro. A ascensão do comediante Carlos Villagrán ao posto de Embaixador de Porto Alegre para a Copa do Mundo de 2014 é uma das maiores sandices que já ouvi. E sinceramente, quando ouço algumas pessoas defenderem nosso combalido prefeito, logo penso se não seria o caso de propor a Bacamarte minha internação. Putz, como sou burro, na época em que via Chaves com meus filhos, jamais me dei conta de que o cara era a cara de nossa cidade!

Não, nada do Seu Barriga nem do Seu Madruga, nada de Chaves. O escolhido foi o esnobe do seriado, conforme comentou informalmente comigo o vereador Marcelo Sgarbossa. Mas… Por que um personagem de Chaves? O México jogará em Porto Alegre? Será que não vão pensar que Villagrán é gaúcho ou que Porto Alegre é no México? Ou a livre-associação tornou-se a regra? Confesso que tenho dificuldades em propor algo mais louco. Quando pensei numa outra alternativa maluca, a primeira ideia que me surgiu foi Larissa Riquelme, mas esta tem tudo a ver com Copa do Mundo. Então, que tal Mr. Bean, Ricardo Darín, ou o casal Angelina Jolie e Brad Pitt?

Agora, soube que a ideia de ungir o comediante não foi exatamente consensual e que o secretário da Copa, João Bosco Vaz, nem sabia que haveria um Quico em sua vida. Foi uma escolha pessoal do prefeito. O motivo teria sido a paixão de Villagrán pelo futebol, algo bastante raro em porto-alegrenses. Qual o problema do tesouro, vamos tesouro, não se misture com esta gentalha, divulgar Porto Alegre? Na verdade, nenhum. Só que embaixadores normalmente são figuras ou personagens ligados à cidade.

Na boa, deixo escolher, mas acho que eu ou o prefeito, um de nós tem de ser internado. Calem-se, calem-se, vocês me deixam louco!

Ah, e sobre as obras no Beira-Rio, tenho uma opinião: acho que a questão do Inter jogar fora de Porto Alegre, em razão das obras no Beira-Rio, pode ser resolvida facilmente. O Inter entra em contato com a OAS e aluga o Olímpico até que as obras em seu estádio estejam finalizadas. De posse do Olímpico, o Inter pinta tudo de vermelho e joga lá. Loucura? De modo algum. Como eu dizia, o mundo é muito simples, doutor Simão.

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Ospa, Inge e um calor dos infernos

Foi um bonito concerto. A solista do Concerto para Violoncelo de Dvorák era Inge Volkmann. Inge foi por anos a primeira violoncelista da Ospa e aposentou-se há poucos meses. Ontem, era uma segura solista convidada. Como sempre, saiu-se muito bem. Espero que ela não pare de tocar apenas porque trabalhou tempo suficiente para poder ficar em casa, seria um absurdo. E Inge é jovem, não se parece em nada com os aposentados que conheço. Para completar a alta temperatura emocional, o regente era seu irmão Manfredo Schmiedt e, durante o Dvorák, dialogava com o flautista Klaus Volkmann, seu filho.

Por falar em alta temperatura… A Igreja da Reconciliação estava lotada e parecia o inferno na noite de ontem. O calor era insuportável e as pessoas ficam meio alucinadas. Sentamos no mezanino. Eu só via a orquestra se ficasse em pé, mas em qualquer posição que ficasse, suava feito como se tivesse voltado a jogar futebol. Nosso amigo Décio começou a brigar com os vizinhos. Ninguém tinha paciência e, de repente, um rádio ligou sozinho dentro da mochila de alguém. Entre o desconforto e a tentativa de concentrar-se no palco — afinal estamos lá para isso — , o dono da mochila não se deu conta. Então, outra pessoa avisou que “tem uma porra de um rádio ligado aí contigo”… O sujeito demorou dois minutos para encontrar e desligar a porra. Pediu desculpas. Bem na minha frente, um cidadão saltou no meio de outras pessoas a fim de ficar melhor posicionado. Um salto, entendem?, uma coisa de balé. Parou quando bateu ombro a ombro com alguém. Eu e minha mulher vimos a performance, que arrancou um oh do povo em volta. Céus!

E a temperatura subindo. No intervalo, fomos para a rua e perguntamos se a sauna era obrigatória ou se dava para ligar o ar condicionado da igreja. Resposta: se ligarmos o ar condicionado, cai a luz.

Com tudo assim resolvido, ouvimos o Te Deum de Bruckner lá de fora, onde estava instalado um telão mostrando o concerto em câmara estática. Lá fora estava muito bom, uns 17º e eu fiquei sentado com as pernas e braços abertos como se estivesse num varal. Mas não posso falar muito sobre a apresentação, que me pareceu boa, mesmo através do telão.

Espero que um dia a Ospa possa rir de 2013, um ano de extremas dificuldades, mas no qual a orquestra está sempre acompanhada de grande público. É um time que apanha, apanha e a torcida segue fiel e crescendo. E que nada nos desvie da Sala Sinfônica!  Todos estão irritados com a situação. Eu, que não tenho mais idade nem disposição para fofocas, apenas opino que desprezo a vacuidade dos posts daqueles que se deixam levar pela imaginação paranoica. Mas tergiverso: dizia que é um time que apanha, apanha e a torcida segue fiel e crescendo. E a gente trata de divulgar e ajudar de nosso modo. E de se alimentar depois:

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Os 50 maiores livros (uma antologia pessoal): XVII – O Mestre e Margarida, de Mikhail Bulgákov

Capa de O Mestre e a Margarida, edição da Alfaguara

Sabem aqueles livros que valem por cada palavra? Que é engraçado, profundo, social, histórico, existencial e grudento? Pois O Mestre e Margarida satisfaz todas as condições acima. A influência do livro pode ser medida não apenas por minhas conversas com os amigos russos da Ospa, mas no reflexo da obra na cultura mundial. O livro Os Versos Satânicos, de Salman Rushdie, tem clara e confessa influência de Bulgákov; a letra da canção Sympathy for the Devil, dos Rolling Stones, foi escrita logo após Mick Jagger ter lido o livro, assim como Pilate, do Pearl Jam, e Love and Destroy da Franz Ferdinand, a qual é baseada no voo de Margarida sobre Moscou. Mas nem só a literatura e o rock, que não viveu para ouvir, homenageia Bulgákov: o compositor alemão York Höller compôs a ópera Der Meister und Margarita, que foi apresentada em 1989 na ópera de Paris e lançada em CD em 2000.

Em vida, tudo que o ucraniano Bulgákov (1891-1940) desejava era sair de Moscou e da União Soviética. Escreveu mais de uma centena de cartas a Stálin, justificando-se e pedindo permissão para deixar o país. Afinal, se tudo o que escrevia era proibido, era um inútil para a URSS. Tanto escreveu cartas que acabou recebendo um telefonema do próprio Stálin: este lhe oferecia um emprego num teatro, para o qual deveria escrever pecinhas tranquilas com seu indiscutível talento — e Stálin sabia reconhecer quem o tinha —  e referendava o “desejo” de não ver o escritor fora do país. E Bulgákov sobreviveu escrevendo umas poucas peças de sucesso para o teatro, além de adaptar para o palco Dom Quixote e Almas Mortas.

Bulgákov brincando de Koroviev: censura e cartas a Stálin

Ele começou a escrever o romance em 1928. Em 1930, o primeiro manuscrito foi queimado pelo autor após ver censurada outra novela de sua autoria. O trabalho foi recomeçado em 1931 e finalizado em 1936. Sem perspectiva alguma de publicação, Bulgákov dedicou-se a revisar e revisar. Veio uma nova versão em 1937 e ainda outra em 1940, ano de sua morte. Na época, só sua mulher e amigos sabiam da existência do romance.

Uma versão modificada e com cortes da censura foi publicada na revista Moscou entre 1966 e 1967, enquanto o Samizdat publicava a versão integral. Em livro, a URSS só pôde ler a versão integral em 1973 e, em 1989, a pesquisadora Lidiya Yanovskaya fez uma nova versão — a que lemos atualmente — baseada em manuscritos do autor. A vida era assim na URSS.

O livro é digno da história contada por minha amiga bielo-russa Elena Romanov (aqui em uma versão livre e talvez equivocada de minha lavra…):

— Eu tinha uma colega de quarto que lia apenas O Mestre e Margarida. Ela terminava e voltava ao início. E dava gargalhadas e mais gargalhadas. Na Rússia o livro foi tão lido que surgiram expressões coloquiais inspiradas por ele. A frase dita por Woland “Manuscritos não ardem” é usada quando uma coisa não pode ou não será destruída. Outra é “Ánnuchka já derramou o óleo”, para dizer que o cenário da tragédia está montado.

O jovem Bulgákov e um daqueles escritores russos

As cenas de Pôncio Pilatos, do teatro, do belíssimo voo de Margarida e do baile eram conhecidas de mim por serem citadas aqui e ali com enorme admiração. E a fama é justa. Digo tudo isto porque é triste ver O Mestre e Margarida, obra muito popular em vários países, ignorada no Brasil.

Em 2006, o Museu Bulgákov, em Moscou, foi vandalizado por fundamentalistas. O museu fica no antigo apartamento de Bulgákov, ricamente descrito no romance e local dos mais diabólicos absurdos. Os fundamentalistas alegavam que O Mestre e Margarida era um romance satanista.

Bulgákov e esposa em 1937. Ele tinha uma Margarida que era pura poesia.

A ação do romance ocorre em duas frentes: a da chegada do diabo a Moscou e a da história de Pôncio Pilatos e Jesus, com destaque para o primeiro. O estilo do romance varia. Os capítulos que se passam em Moscou têm ritmo vivo e tom de farsa, enquanto os capítulos de Jerusalém estão escritos em forma clássica e naturalista. Em Moscou, o demônio (Woland) vem acompanhado de uma improvável claque composta por Koroviev — altíssimo com seu monóculo rachado –, o enorme gato Behemoth (hipopótamo, que rima com gato em russo), o pequeno Azazello e a bruxa Hella, sempre nua. Moscou surge como um caos: é uma cidade atolada em denúncias e na burocracia, as pessoas simplesmente somem e há comitês para tudo. No livro, o principal comitê é uma certa Massolit (abreviatura para sociedade moscovita de literatura, que também pode ser interpretada como literatura para as massas) onde escritores lutam por apartamentos e férias melhores. Há também toda uma incrível burocracia, tão incompreensível quanto as descritas por Kafka, mas que aqui vive uma atordoante e espetacular série de cenas hilariantes.

Homenagem do Google aos 120 anos de nascimento de Bulgákov em 2011

Como veem, em Moscou o diabo está casa e podem deixar tudo com ele, pois Woland e sua trupe demonstram toda a sua incrível criatividade para atrapalhar, alterar, sumir e assombrar. O escritor Bulgákov responde à altura das cenas criadas. A cena do teatro onde é distribuído dinheiro e a do baile — há ecos dos bailes dos romances de Tolstói — são simplesmente inesquecíveis. Falei em Tolstói, mas, fora de dúvida, a base de criação de Bulgákov é seu conterrâneo Gógol.

O livro pode ser lido como uma comédia de humor negro, como alegoria místico-religiosa, como sátira á Rússia soviética ou como crítica da superficialidade das pessoas. Bulgákov não é tolo: não há nostalgia da Rússia czarista. E mais: Woland não está em oposição direta a deus, mas como o ser que pune os maus e a covardia — é frequente no livro a menção de que a covardia é a pior das fraquezas (concordo muito). Porém, as punições de Woland são desconcertantes.

Agora é só ler, né? A tradução de Zoia Prestes, para a Alfaguara, é bastante superior à antiga, lançada lá por volta de 1993 pela Ars Poetica.

Finalmente tranquilo: Mikhaíl Afanasyevich Bulgákov em Kiev

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Vocês ainda não viram nada

Vocês ainda não viram nada
Vocês ainda não viram nada…

Ontem, após um piquenique na Redenção, fomos assistir dois filmes assim de enfiada no Guion — mania de minha cara-metade, para a qual um filme só é como se ficasse apenas nos aperitivos. Revi Nota de Rodapé, o qual minha amada ainda não vira e vi Vocês ainda não viram nada, nova provocação estética e narrativa do mestre Alain Resnais. O filme, garanto-lhes, é maravilhoso, indo buscar seu material na história clássica de Orfeu. Sem spoilers: um autor e diretor teatral fez duas montagens de sua peça Eurídice. Quando morre, ele convida os atores que participaram delas para assistirem uma terceira, totalmente diferente e despojada, realizada por jovens atores. Enquanto assistem, eles comentam e revivem a história. Há três Eurídices e Orfeus, duas mães de Orfeu — provavelmente a atriz bisou nas montagens antigas — e a estrutura do filme de Resnais é de absoluto virtuosismo. 

O que os atores veem é outro filme e muitas vezes a tela é dividida entre o que acontece na tela e nas montagens antigas, presentes na imaginação dos atores. Duas cenas de textos iguais são mostradas ao mesmo tempo. Dizer que passado e presente se confundem é uma frase imbecil, mas verdadeira para o caso.

Vocês ainda não viram nada me deixa feliz por dois motivos. Em primeiro lugar, por ele mesmo: apesar de verboso em alguns momentos, é um magnifico e típico Resnais. Em segundo lugar, pela própria realização: o diretor prova que alguns podem ser irônicos, originais — na verdade, o filme está lotado de boas ideias — e brilhantes aos… 90 anos.

Claro que o fato de considerar a idade avançada do diretor diz respeito a meu próprio de desejo de chegar mais ou menos inteiro àquela idade, mas acho que é humano regozijar-se e considerar o fato importante. É notável como o diretor de Hiroxima Mon Amour, O ano passado em Marienbad, Providence e Meu tio da América, mantém-se fiel a sua peculiar poética.

Grandes destaques do filme são as duas Eurídices que assistem a nova montagem — Sabine Azéma (mulher de Resnais) e Anne Consigny — , Pierre Arditi e, como não sê-lo?, o grande Michel Piccoli.

Anne Cosigny, a Eurídice da segunda montagem.

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!