Sobre Renato e os treinadores brasileiros, por Idelber Avelar

Sobre Renato e os treinadores brasileiros, por Idelber Avelar

Ontem ficou provado: qualquer treinador europeu mediano dá um baile em treinadores brasileiros considerados de ponta.

Pelo terceiro ano consecutivo, a Copa Libertadores foi conquistada por um treinador europeu, ambos — Jesus em 2019, Abel em 2020 e 2021 — oriundos de um país que talvez nem se classifique para a Copa, que é periférico no futebol europeu.

O plantel do Flamengo é muito superior ao do Palmeiras, não é pouco, não. E, com a exceção de uns quinze minutos durante o segundo tempo, depois do gol do Gabriel, a sensação que se teve o jogo todo é que o Palmeiras tinha o controle completo da peleja.

No banco do Flamengo, você tinha a cena patética do lateral Filipe Luís, que tinha saído contundido, explicando coisas ao Renato, porque o técnico do Flamengo é tão capaz de ler a disposição tática de uma partida como eu de ler aramaico.

Foi bom para o futebol o resultado de ontem, porque a pior coisa que pode nos acontecer como país é recompensar gente que estimula a ignorância, que alardeia a inutilidade do estudo. Porra, nós temos os piores índices do mundo em leitura, matemática e ciências, e vamos usar uma posição de destaque e poder — como é a de um treinador de clube grande — para estimular as pessoas a não estudarem? O sujeito que faz isso é um criminoso.

O Renato Gaúcho faz isso o tempo todo. Ele acha que, por ter sido boleiro, não precisa estudar. Vai perder o Brasileirão choramingando por um calendário que foi ruim do mesmo jeito para o virtual campeão (que tem tantos jogadores convocados em datas FIFA como o time dele), perdeu a Copa do Brasil levando goleada e nó tático de um clube médio em casa, e perdeu a Libertadores levando outro nó tático do mesmo portuga que já lhe havia aplicado um quando ele treinava o Grêmio.

Isso vindo do fanfarrão que levou 5 x 0 do Flamengo de Jesus e respondeu que se ele tivesse um time de 200 milhões, ele também ganharia tudo. O plantel do Flamengo é hoje avaliado em 700 milhões e ele conseguiu não ganhar nada. Alguém imagina a Alemanha contratando o Felipão de técnico depois do 7 x 1? Não, né? Foi isso o que o Flamengo fez.

Em condições normais de temperatura e pressão, eu torço contra o Flamengo e contra o Cruzeiro, mas os títulos do Flamengo de 2019 não me incomodaram em nada. Fiquei feliz, inclusive. É isso o que a galera mais fanaticamente clubista precisa entender quando comenta aqui: eu amo futebol, futebol bem jogado, e o Brasil precisa desesperadamente de alguns Jorge Jesus por aqui.

Ontem, sim, impunha-se torcer pelo Palmeiras. O Abel Ferreira não é nenhum Guardiola, mas para esta terra de cegos, o olho dele já tá bom demais. Ele estuda, trabalha, respeita os outros.

Agora, o time grande que contratar o fanfarrão do Renato Gaúcho merece uma zica de 100 anos. Merece o mesmo destino que merecerá o Brasil se reeleger Bolsonaro.

Gene Tierney

Gene Tierney

Publicado no perfil do Facebook de Gusthavo Stern-Ew

A mulher mais linda da história do cinema segundo o poderoso produtor Darryl F. Zanuck. Talvez ele tenha razão. Ao lado dela somente Ava Gardner, Sophia Loren, Hedy Lamarr e Elizabeth Taylor. Para o cineasta Martin Scorsese, Gene Tierney é uma das atrizes mais subestimadas do cinema norte-americano. E a sua história daria um filme de sucesso. De origem irlandesa, inglesa e judaica sefardita, Gene atuou em 37 filmes. Nascida numa família rica da Costa Leste, seu pai era um magnata. Educada nas escolas de maior prestígio do país, inclusive na Suíça. Desde cedo, demonstra interesse pela carreira de atriz, representando muitas vezes para os pais e amigos. Aos 17 anos, em uma visita aos estúdios da Warner Bros., causa sensação com sua beleza, e o diretor Anatole Litvak diz a sua mãe: “Ela deveria fazer cinema”. Fez um teste, pouco depois, mas o pai recusou o contrato. Se a filha queria representar, deveria fazê-lo “num teatro a sério”. Depois de dois anos na Europa, ela voltou aos Estados Unidos. Em 1938 se apresentou na Broadway em “What a Life!” e ao mesmo tempo em “The Primerose Path” (1938). Seus papéis subsequentes, em “Mrs O’Brian Entertains” (1939) e “Ring Two” (1939), recebem elogios dos críticos novaiorquinos. Richard Watts escreve: “Não vejo razão para a senhorita Tierney não ter uma longa e interessante carreira teatral, isto é, se o cinema não a sequestrar”. Figura voluptuosa, voz profunda e sensual, a atriz ganha destaque de pronto por sua beleza e, rapidamente, dá o salto para o cinema quando o produtor da 20th Century-Fox, Darryl F. Zanuck, a vê no palco e a levou para Hollywood, onde estreou em 1940 no western “A Volta de Frank James / The Returno f Frank James”, ao lado de Henry Fonda e dirigida por Fritz Lang. No ano seguinte, atua em cinco filmes, dando início a uma carreira de sucesso. Em 1943, com a sofisticada comédia “O Diabo Disse Não”, tem a crítica a seus pés e se torna uma das estrelas mais bem pagas de Hollywood. O ano de 1944, no entanto, foi o de sua consagração. O ano de “Laura”, onde faz o papel de uma mulher enigmática cobiçada por três homens. Lançado no dia 11 de outubro de 1944, em uma première em Nova York, a estréia no Brasil se dá em 29 de janeiro de 1945.

O filme intriga os críticos com sua mistura de estilos (noir, psicodrama, melodrama e thriller). Leva o Oscar de Melhor Fotografia e é indicado para outras quatro categorias: Melhor Diretor, Melhor Ator Coadjuvante (Clifton Webb), Melhor Roteiro e Melhor Direção de Arte. A atriz teve sua única indicação ao Oscar pela excelente atuação em “Amar Foi Minha Ruína”, de 1945, perdendo a estatueta para Joan Crawford por “Alma em Suplício / Mildred Pierce”. Elegante e boa intérprete, Tierney é dirigida por excelentes diretores: Lubitsch, John Ford, Preminger, Joseph L. Mankiewicz, Jules Dassin, Josef von Sternberg, entre outros. Casou-se em junho de 1941 com um famoso figurinista francês, Oleg Cassini, de quem se divorcia em fevereiro de 1952. Durante uma apresentação na Hollywood Canteen, grávida, é abraçada por uma fã que, sem que soubesse, era portadora de rubéola. Através desse incidente sua filha nasce com graves problemas e seu casamento acaba. Daria nasce prematura, exigindo uma transfusão de sangue completa, além de surda, parcialmente cega e com retardo mental. Isso, como era de se esperar, prejudica sua vida emocional. De uma breve reconciliação com o marido, nasceu uma segunda filha, Christina. Abandonada, ferida e desencantada, a bela e famosa atriz jogou-se de cabeça numa vida desregrada, marcada por múltiplos amantes, dentre os quais o então senador John F. Kennedy, o milionário Howard Hughes e os atores Spencer Tracy e Tyrone Power. Ao conhecer o príncipe Ali Khan, ex-marido de Rita Hayworth, apaixonou-se perdidamente. Rita já havia sofrido bastante nas mãos do príncipe, que apesar de rico, vivia às custas dela. Enamorada, Gene planejava casar-se, mas Khan não queria compromisso. Quando começou a pressioná-lo, ele se afasta. Sentindo-se humilhada e louca de amor, começa a desenvolver os primeiros sintomas da cruel depressão que iria lhe acompanhar por toda a vida.

Convidada para estrelar o clássico de aventura “Mogambo” (1953), termina sendo substituída por Grace Kelly, que recebe uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante pelo papel de Linda Nordley. Com suspeita de esquizofrenia e depressão suicida, inconformada com o fracasso de seus relacionamentos, Tierney é internada em 1957 em uma instituição psiquiátrica, de onde só sai três anos depois. Segundo a própria atriz, esteve “às portas da loucura”. Passa por diversos tratamentos de choque. Tais fatos fizem com que não participasse de nenhum filme no período de 1955 a 1961. Em 1959, ainda frágil, aceita o papel principal na comédia “ Holiday for Lovers” (1959). No entanto, devido a um colapso nervoso, é forçada a deixar a produção da Fox, sendo substituída por Jane Wyman, e é novamente internada. Em busca de uma vida tranquila, Tierney casou-se em 1960 com um barão do petróleo texano, W. Howard Lee, ex-marido de Hedy Lamarr, com quem vive até a morte deste em fevereiro de 1981. Durante o casamento sofre um aborto espontâneo. Em 1962, retorna às telas no magnífico drama político “Tempestade Sobre Washington”, de Otto Preminger, aparecendo ainda em três outros filmes e alguns episódios de séries de TV, sendo o último, “Escrúpulos / Scruples”, em 1980. Em 1979 a atriz escreve sua autobiografia, onde fala abertamente sobre sua vida pessoal, doença mental e carreira. Gene foi uma republicana convicta e uma forte defensora de Richard Nixon e Ronald Reagan. Tierney faleceu vitima de enfisema em 6 de novembro de 1991, em Houston, 13 dias antes de seu 71º aniversário.

Gene Tierney (1920-1991)

Joseph Brodsky, em entrevista com o jornal Observer, em 25 de outubro de 1981

Joseph Brodsky, em entrevista com o jornal Observer, em 25 de outubro de 1981

Todos nós somos levados a uma armadilha psicológica armada por nossa civilização. Nossa mãe, babá ou outra pessoa, desde a infância, nos diz que a vida é bela, que a pessoa é bela, que o bem triunfará sobre o mal, e que o lobo malvado jamais virá. E quando nos deparamos com algo nojento, nossa primeira reação é: não pode ser, houve um erro — que cometemos nós ou, melhor ainda, outra pessoa. As mães deveriam dizer aos filhos que, cinquenta por cento das vezes, um lobo cinzento furioso aparece na soleira da porta e se parece com a gente.

Joseph Brodsky (1940-1996)

Para as pessoas da minha geração, ficou difícil reconhecer o próprio país (por Marcelo Coelho, na Folha)

Para as pessoas da minha geração, ficou difícil reconhecer o próprio país (por Marcelo Coelho, na Folha)

A sensação não vem de agora. Começou com a campanha presidencial de Bolsonaro, ou antes até. Algumas pessoas da minha geração — os que entraram na universidade entre 1975 e 1985 — têm dito a mesma coisa.

Não reconhecem mais o Brasil; tudo lhes parece incompreensível, selvagem, fora de alcance.

Como se, de repente (isso me aconteceu uma ou duas vezes) entrássemos de carro numa avenida deserta, sem perceber que estávamos na contramão. No instante seguinte, o fluxo avança, e teremos sorte se conseguirmos subir na calçada sem trombar de frente.

Claro, direitistas sempre houve. Longe de mim pensar que todo mundo era de esquerda. Um ou outro tio malufista; apresentadores de TV defendendo a Rota; algum conhecido que se alinhava com organizações tradicionalistas católicas; um grupo da TFP no restaurante; o zelador, o taxista, a favor da pena de morte.

Mas isso era distante. Era visível, manifestava-se todo santo dia —mas não ocupava lugar conspícuo na cabeça. A maré parecia ser outra, para quem crescera vendo a ditadura declinar.

Houve, certamente, o fenômeno Collor. De uma hora para outra, os bairros de classe média alta cobriram-se de faixas apoiando o candidato; falava-se que, ganhando Lula, os sem-teto ocupariam nossas casas e que as autoridades econômicas sequestrariam nossos investimentos no banco.

O medo do “comunismo” e o discurso anticorrupção eram semelhantes aos de hoje; Collor também se apresentava como alguém fora do sistema, e adotou um estilo populista.

Mas não me lembro de sentir, na época, o estranhamento que Bolsonaro me provoca. Talvez porque a democracia acabava de ser inaugurada; o direitismo não representava ameaça institucional. A retórica de Lula, em 1989, era por sua vez bem mais radicalizada do que seria depois.

Vejo com espanto que, com tudo o que tivesse de contrário a minhas convicções, o mundo de Collor ainda era próximo do meu. Um ministro dele, eu conhecia dos corredores da USP. O vice de Collor, bem ou mal, era Itamar Franco. O ministro da Cultura era Sérgio Paulo Rouanet. O próprio presidente, entre um e outro passeio de jet-ski, foi para a Espanha e visitou o Museu do Prado.

Sim, havia barbaridades, direitismos, neoliberalismos, anticomunismo. Mas tudo se vendia na embalagem da “modernidade” — da abertura comercial, do fim da reserva de mercado para a informática, da privatização, da compra de carros importados.

Resumindo: no governo Collor, a elite (a minha elite) ainda estava presente. O verniz de classe sobrevivia. O presidente não fazia a gente passar vergonha no exterior.

Aquele meu mundo tinha diferenças internas: havia fernando-henriquistas, lulistas, neoliberais, marinistas, adeptos do PSOL, roqueiros, amantes da ópera, ex-hippies, deslumbrados. O Brasil cabia nessas diferenças todas; o Brasil era “nosso”.

Sinto que isso foi sumindo para dentro de um buraco. Parte da “minha turma” entrou nele. Gente perseguida pelo regime de 1964 votou no defensor de Brilhante Ustra!

Mas não é só o apoio a Bolsonaro.

Quando você menos espera, um parente ou amigo anuncia que não vai se vacinar. Era uma pessoa razoável, frequentadora do Cine Belas Artes. Outro fura a fila da vacina. Era uma pessoa corretíssima, incapaz de estacionar na fila dupla.

Volto então os olhos para o antibolsonarismo. Há os amigos que sobram. Mas uma parcela significativa da oposição já não tem nada a ver comigo. Nem falo dos que odeiam qualquer um que escreva na Folha, ou dos que acreditam em Cuba, ou dos que sustentam que nunca houve corrupção no PT.

Esses ainda eu reconheço. Mas um contingente desconhecido se organiza: desconfiam de um homem que se diz pró-feminista, ou de um branco que fala sobre preconceito racial. Ai de quem criticar a queima de uma estátua, a atitude de uma cantora negra, a política de mudar regras “machistas” do português.

Talvez seja uma coisa que aconteça com todas as gerações. A minha — o que ainda resta dela — já vai perdendo seu lugar no mundo.

Marcelo Coelho (1959)

.oOo.

Há décadas — meus amigos mais antigos sabem disso –, digo que a baixa qualidade da educação causaria o que está acontecendo. Previ inclusive o crescimento dos evangélicos e sua entrada na política. Às vezes eu acerto. 

Éramos inconscientes do que havia de civilizado em nosso país? A barbárie chegou para ficar?

Concordo com a segunda frase, infelizmente. Mas sabem que eu conhecia a nossa crescente incivilidade? Mas só tive contato com ela quando fui dar aulas na periferia. Ali reina a barbárie.

Um grito | Padura escreve sobre as manifestações em Cuba

Um grito | Padura escreve sobre as manifestações em Cuba

Por Leonardo Padura

Parece bem possível que tudo o que aconteceu em Cuba desde o último domingo, 11 de julho, tenha sido encorajado por um maior ou menor número de pessoas contrárias ao sistema, algumas delas até mesmo pagas, com o objetivo de desestabilizar o país e causar uma situação de caos e insegurança. Também é verdade que em seguida, como costuma acontecer nesses eventos, ocorreram atos oportunistas e lamentáveis de vandalismo. Mas acredito que nenhuma das evidências tira um pingo de razão do grito que escutamos. Um grito que também é fruto do desespero de uma sociedade que atravessa não só uma longa crise econômica e uma crise pontual de saúde, mas também uma crise de confiança e uma perda de expectativas.

A esse clamor desesperado, as autoridades cubanas não deveriam responder com os habituais lemas, repetidos há anos, e com as respostas que essas autoridades querem ouvir. Nem mesmo com explicações, por mais convincentes e necessárias que sejam. O que se impõe são as soluções que muitos cidadãos esperam ou exigem, alguns se manifestando na rua, outros dando sua opinião nas redes sociais e expressando sua desilusão ou discordância, muitos contando com os poucos e desvalorizados pesos que têm em seus empobrecidos bolsos e muitos, muitos mais, fazendo filas em um silêncio resignado por várias horas sob sol ou chuva, inclusive com a pandemia, filas nos mercados para comprar comida, filas nas farmácias para comprar medicamentos, filas para conseguir o pão nosso de cada dia e para tudo imaginável e necessário.

Acredito que ninguém com um mínimo de sentimento de pertencimento, com um sentido de soberania, com uma responsabilidade cívica pode querer (ou mesmo acreditar) que a solução para esses problemas venha de qualquer tipo de intervenção estrangeira, muito menos de natureza militar, como chegaram a pedir alguns, e que, também é verdade, representa uma ameaça que não deixa de ser um cenário possível.

Também acredito que qualquer cubano dentro ou fora da ilha sabe que o bloqueio, ou embargo comercial e financeiro dos Estados Unidos, como queiram chamá-lo, é real e se internacionalizou e intensificou nos últimos anos. E é um fardo muito pesado para a economia cubana (como seria para qualquer outra economia). Aqueles que vivem fora da ilha e querem hoje ajudar seus familiares em meio a uma situação crítica, podem comprovar que existe e o quanto existe ao serem praticamente impedidos de enviar uma remessa para seus familiares, só para citar uma situação que afeta muitos. É uma política antiga que, aliás (às vezes alguns esquecem), praticamente todo o mundo tem condenado por muitos anos nas sucessivas assembleias das Nações Unidas.

E não acredito que alguém possa negar que também foi desencadeada uma campanha midiática na qual, até das formas mais grosseiras, foram divulgadas informações falsas que, do princípio ao fim, só servem para diminuir a credibilidade de seus gestores.

Mas acredito, junto a tudo o que foi dito acima, que os cubanos precisam recuperar a esperança e ter uma imagem possível de futuro. Se a esperança se perde, perde-se o sentido de qualquer projeto social humanista. E a esperança não é recuperada pela força. Ela é resgatada e alimentada com soluções, mudanças e diálogos sociais, que por não chegarem têm causado, entre tantos outros efeitos devastadores, os anseios migratórios de tantos cubanos e agora provocam o grito de desespero de pessoas entre as quais certamente havia criminosos oportunistas e pessoas pagas para tanto. Embora eu me recuse a acreditar que no meu país, a esta altura, possa haver tanta gente, tantas pessoas nascidas e educadas entre nós que se vendam ou cometam crimes. Porque se assim fosse, isso seria fruto da sociedade que os fomentou.

A forma espontânea com que um número notável de pessoas também tem se manifestado nas ruas e nas redes, sem se atrelar a nenhuma liderança, sem receber nada em troca ou roubar nada pelo caminho, deveria ser um alerta. E penso que é uma amostra alarmante das distâncias que se abriram entre as esferas políticas dirigentes e as ruas (e isso foi até mesmo reconhecido pelos dirigentes cubanos). Só assim se explica que o que aconteceu, sobretudo em um país onde quase tudo se sabe quando se quer saber, como todos nós também sabemos.

Para convencer e acalmar os desesperados o método não pode ser o das soluções de força e obscuridade, como impor um apagão digital que cortou há dias as comunicações de muitos, mas que não impede as ligações de quem quer dizer alguma coisa, a favor ou contra. Muito menos pode se empregar como argumento de convencimento a resposta violenta, especialmente contra os não violentos. E já se sabe que a violência pode ser não apenas física.

Muitas coisas parecem estar em jogo hoje. Talvez até depois da tempestade venha a calmaria. Talvez os extremistas e fundamentalistas não consigam impor suas soluções extremistas e fundamentalistas, e não se enraíze um perigoso estado de ódio que tem crescido nos últimos anos.

Mas, de qualquer forma, é necessário que cheguem as soluções, respostas que não deveriam ser apenas de natureza material mas também de caráter político. E assim uma Cuba melhor e inclusiva poderia responder às razões desse grito de desespero e perda de esperanças que, em silêncio, mas com força desde antes do 11 de julho, vinham de muitos de nossos compatriotas. Esses lamentos que não foram escutados e cujas chuvas originaram esse lamaçal.

Como cubano que vive em Cuba, trabalha e acredita em Cuba, presumo que tenho o direito de pensar e expressar minha opinião sobre o país em que vivo, trabalho e acredito. Já sei que em momentos como este e ao tentar expressar uma opinião, acontece de ser “sempre reacionário para alguns e radical para outros”, como disse certa vez Claudio Sánchez Albornoz. Também assumo esse risco, como um homem que almeja ser livre, que espera ser cada vez mais livre.

Mantilla (Havana), 15 de julho de 2021

* Tradução de Isabella Meucci

Pois é, eu e Padura | Foto: Roberta Fofonka

Compartilhando uma passagem de Vassili Grossman, sobre Tchékhov, em Vida e Destino:

Compartilhando uma passagem de Vassili Grossman, sobre Tchékhov, em Vida e Destino:

“Não, não chega. Tchékhov trouxe à nossa consciência essa massa enorme de russos, todas as classes, estratos sociais, idades… Mais do que isso! Ele nos trouxe esses milhões como democrata, entendam, como um democrata russo. Ele disse o que ninguém antes, nem mesmo Tolstói, havia dito: antes de tudo, todos nós somos pessoas, entendam, pessoas, pessoas, pessoas! Disse isso na Rússia, como ninguém antes havia dito. Ele disse: o mais importante é que as pessoas são pessoas, e só depois são bispos, russos, lojistas, tártaros, operários. Entendam: as pessoas não são melhores ou piores por serem bispos ou operários, tártaros ou ucranianos; as pessoas são iguais, porque são pessoas. Há meio século, cegas pela estreiteza partidária, as pessoas achavam que Tchékhov era o porta-voz de uma época ultrapassada. Mas Tchékhov é o porta-estandarte da maior bandeira que já foi erguida nos mil anos de história da Rússia: da autêntica e boa democracia russa, entendam, da dignidade humana russa, da liberdade russa. Pois nosso humanismo sempre foi irreconciliavelmente sectário e cruel. De Avvakum159 a Lênin nossa ideia de humanismo e liberdade sempre foi partidária, fanática, impiedosamente sacrificando a pessoa a uma concepção abstrata de humanidade. Até Tolstói, com a pregação da teoria da não violência, é intolerante e, principalmente, não parte do ser humano, mas de Deus. É importante para ele que triunfe a ideia de bondade, contudo os homens de Deus sempre tentaram enfiar Deus no homem à força, e na Rússia eles não se detiveram diante de nada para alcançar esse objetivo: degolar, matar, o que quer que fosse. Tchékhov disse: vamos colocar Deus de lado, vamos colocar de lado as chamadas grandes ideias progressistas, comecemos pela pessoa, sejamos bons e atenciosos para com a pessoa, seja ela quem for: bispo, mujique, industrial milionário, trabalhador forçado de Sakhalina, empregado de restaurante; comecemos por respeitar, ter compaixão, amar a pessoa, pois sem isso não chegamos a lugar algum. Isso é que se chama democracia, a até agora irrealizada democracia russa. O russo viu de tudo em mil anos, a grandeza e a ultragrandeza, só não viu uma coisa: a democracia. Essa é, a propósito, a diferença entre os decadentistas e Tchékhov: o Estado pode se irritar com o decadente e lhe dar um tapa na nuca, uma joelhada no traseiro. Mas o Estado não entende a essência de Tchékhov, e por isso o atura. Na nossa casa, a democracia não tem valor; estou falando da democracia de verdade, a democracia humana.”

Vassili Grossman (1905-1964)

Sobre o Gre-Nal e o racismo (aqui guardado para o próximo episódio)

Sobre o Gre-Nal e o racismo (aqui guardado para o próximo episódio)

Como certamente tais fatos se repetirão, seja em atos de torcedores, seja nas palavras de falsos mas barulhentos representantes como Eduardo Bueno (o Peninha), copio profilaticamente este excelente texto aqui no blog. 

Por Carlos André Moreira

No momento do Gre-Nal, eu estava tão alheio à partida que estava editando um vídeo para o Admirável Mundo Livro. Precisei perguntar para o meu irmão para saber quanto foi. Ao saber que o Inter ganhou, fiquei feliz, claro. Ao saber que os gremistas estão reclamando de roubo, achei natural, o mimimi tricolor é bem conhecido, mas, como não vi o jogo, não tenho opinião. E, claro, fiquei MAIS FELIZ AINDA ao saber que os gremistas estão reclamando.

Agora, a nota triste da coisa é o episódio já bastante divulgado que gerou as mesmas e inacreditáveis discussões de sempre sobre se um gremista chamar um colorado de “macaco” é racista.

Sério, eu não acredito que tem gente lá fora que AINDA discuta isso.

Eu fui repórter esportivo nos anos 2000. Cobri minha cota de gre-nais e ouvi algumas coisas de arrepiar os cabelos. Uns poucos anos antes disso, foi a época em que a torcida do Grêmio começou a adaptar o cântico da torcida do centro do país, “Ah, eu tou maluco”, para “Bah, eu sou gaúcho”. Ao mesmo tempo, a torcida do Grêmio enchia tanto saco da do Inter com essa coisa do “macaco” (não vou reproduzir a musiquinha que inclusive era tocada com banda completa pela então chamada “Alma Castelhana”, mais tarde “Geral do Grêmio”, vocês, lembram, não finjam que não) que uma hora, em um gesto de desafio, a torcida do Inter começou a parodiar a “Bah, eu sou gaúcho” por “Ah, eu sou macaco” quando vencia os Gre-Nais. Um desafio semelhante ao do Flamengo com o “Urubu” ou à apropriação da “palavra com N” pela comunidade negra americana, guardadas as proporções.

Mas como o jogo do preconceito estrutural tem cartas marcadas e é impossível de ser ganho, bastaram alguns anos se passarem para que o gremista sem noção do próprio racismo começasse a argumentar: “Aihn, mas os próprios colorados se chamam assim”. Sim, começaram a se chamar assim para jogar de volta na cara o racismo anterior: “Me chamou de macaco e perdeu assim mesmo, otário”. NÃO e JAMAIS para que tu tenha a tranquilidade garantida pra usar um insulto cuja origem é historicamente racista, seu idiota.

Foi só passar mais uns anos e chegou-se a inventar uma origem histórica alternativa e mentirosa absolutamente DESONESTA para vender a ideia de que chamavam os colorados de “macacos” porque subiam nas árvores do seu antigo estádio. Não quero dar carteiraço, mas eu pesquisei extensamente a história do clássico e ISSO É MENTIRA, e o fato de que ela precisou ser inventada, pra mim, significa, com muita clareza, que em alguma parte do seu inconsciente coletivo, digamos assim, a torcida gremista está ciente do passado comprometedor do termo e quer tentar alterá-lo (o passado, claro, não o termo, dado que muitos não parecem muito inclinados a deixar de usá-lo quando a cabeça incha).

Uma árvore lotada de torcedores | Foto: http://www.tecnologiaefloresta.com.br/

Um lindo texto de Nina Paduani que repasso para a Elena

Um lindo texto de Nina Paduani que repasso para a Elena

Sim, para a Elena que, como eu, ama Londres. A Embankment Station, Elena, é aquela para onde a gente ia a fim de chegar ao Southbank Center do outro lado da ponte, à National Gallery, à St. Martin-in-the-fields, à Trafalgar, ao Covent Garden, etc.

Por Nina Paduani

pouco antes do Natal de 2012, os funcionários da estação de metrô Embankment, em Londres, viram uma mulher visivelmente perturbada na plataforma. ela ficava perguntando para onde a voz tinha ido. eles não entendiam o que ela queria dizer. “a voz?” sim, a voz, ela respondeu. o homem que diz “cuidado com o vão”. ah, é isso? não se preocupe, disse a equipe do Embankment. o aviso ainda existe, apenas o atualizaram. novos sistemas digitais, vozes eletrônicas. diante de sua feição de tristeza, a equipe perguntou se ela estava bem.

“aquela voz”, explicou ela, “era meu marido.”

a mulher, uma médica de família chamada Margaret McCollum, explicou que seu marido era um ator chamado Oswald Laurence. Oswald nunca foi famoso, mas ele se tornou o cara que gravou todos os anúncios da Northern Line nos anos 1970.

e Oswald morreu em 2007. a morte de Oswald deixou um vazio imenso na vida de Margaret, mas uma coisa a confortou mais do que qualquer outra: todos os dias, a caminho do trabalho, ela ainda ouvia sua voz.

por cinco anos, isso se tornou sua existência. ela sabia que ele não estava realmente lá, mas sua voz, sua memória, sim. para todos os outros, era apenas mais um anúncio como tantos outros sem importância no sistema de som da estação. mas para ela, era o fantasma do homem que ela ainda amava. e que agora a havia deixado para sempre.

a equipe do Embankment se desculpou e prometeu, no entanto, que se a gravação antiga ainda existisse, eles tentariam encontrar uma cópia para lhe dar. Margaret sabia que isso era improvável, mas agradeceu a todos e se despediu.

no dia de ano novo de 2013, Margaret McCollum sentou-se na plataforma da Embankment Station, indo trabalhar como sempre. quando, dos locutores, uma voz que era familiar para ela soou. a voz de um homem que a amou tanto. e que ela nunca pensaria que ouviria novamente. “mind the gap”, disse Oswald Laurence.

uma força tarefa foi voluntariamente formada. arquivos foram escaneados e fitas antigas foram encontradas e reformadas. várias pessoas tiveram que trabalhar para localizá-los, recuperá-los e digitalizá-los. outros tiveram que mudar o código do sistema de anúncio, e ainda outros tiveram que preencher papéis e correspondência para autorizar a exceção. mas juntos, eles deram voz a Oswald novamente.

e é por isso que ainda hoje, em 2021, quem quer que desça para a estação Embankment em Londres e pare na plataforma da Northern Line, ouvirá uma voz completamente diferente dizendo ‘mind the gap’, uma voz que já não existe mais em qualquer outro lugar do metrô de Londres.

é o Oswald. falando para a Margaret.

(eu hoje conheci essa história linda e quis contar para vocês.)

Margaret McCollum

Holandeses avançam no cenário pós-pandemia e propõem um modelo econômico baseado no decrescimento

Holandeses avançam no cenário pós-pandemia e propõem um modelo econômico baseado no decrescimento

Da revista IHU

Compartilhamos o curto e claro manifesto com o qual acadêmicos holandeses propõem uma mudança do paradigma econômico mundial depois da crise da pandemia.

A nota é publicada por El Clarín, Chile, 27-04-2020. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Aparentemente a Holanda é o país que com mais força está tomando o desafio de reestruturar sua economia a partir do que nos vivemos no presente. Nesse contexto, 170 acadêmicos holandeses escreveram um manifesto em cinco pontos para a mudança econômica pós-crise da covid-19, baseado nos princípios do decrescimento:

1. Passar de uma economia focada no crescimento do PIB, a diferenciar entre setores que podem crescer e requerem investimentos (setores públicos críticos, energias limpas, educação, saúde) e setores que devem decrescer radicalmente (petróleo, gás, mineração, publicidade, etc.).

2. Construir uma estrutura econômica baseada na redistribuição. Que estabelece uma renda básica universal, um sistema universal de serviços públicos, um forte imposto sobre a renda, ao lucro e à riqueza, horários de trabalho reduzidos e trabalhos compartilhados, e que reconhece os trabalhos de cuidado.

3. Transformar a agricultura em um sistema regenerativo. Baseado na conservação da biodiversidade, sustentável e baseada em produção local e vegetariana, ademais de condições de emprego e salário justas.

4. Reduzir o consumo e as viagens. Com uma drástica mudança de viagens luxuosas e de consumo desenfreado, a um consumo e viagens básicas, necessárias, sustentáveis e satisfatórios.

5. Cancelamento da dívida. Especialmente de trabalhadores e donos de pequenos negócios, assim como de países do Sul Global (tanto a dívida a países como a instituições financeiras internacionais).

Em tempos de angústia, nada melhor do que as narrativas sombrias e engraçadas de Charles Dickens

Em tempos de angústia, nada melhor do que as narrativas sombrias e engraçadas de Charles Dickens

Da coluna de JOSÉ ANDRÉS ROJO, no El País
Traduzido livremente por este criado de vocês

Muito foi dito sobre a oportunidade que o confinamento nos proporcionou de reencontrar livros e filmes, ver séries. Falamos também das chances para começar a desenhar ou escrever, para contar coisas, para ouvi-las. Ficamos em casa para ajudar a conter o contágio da doença, e acontece que, entre quatro paredes, havia muitas possibilidades. Nestes momentos em que não se sabe o que finalmente acontecerá e que a suspensão da normalidade mais uma vez valorizou o tempo e, portanto, as histórias, recordamos que Charles Dickens foi um dos mais capazes de contá-las. E este ano está sendo lembrado que ele morreu em 1870, há 150 anos.

E ele tem algo a nos dizer neste momento, as aventuras de seus personagens são interessantes, ele oferece alguma lição, seus assuntos ainda preocupam as pessoas de hoje? Há um momento em um de seus livros em que um de seus personagens deixa cair um chapéu. E este começa a escapar, empurrado por um vento “sutil e brincalhão”. “Existem poucos momentos na vida de um homem”, escreve Dickens, “onde ele experimenta um sofrimento mais grotesco do que quando persegue seu próprio chapéu”. Esse homem é o Sr. Pickwick, fundador de um clube selecionado ao qual outros membros ilustres se juntam a fim de contarem suas aventuras e registrar suas viagens e investigações, suas observações e conjecturas sobre o mundo. E essa autoridade imponente de um clube tão especial sofre esse revés no meio de uma multidão que observava algumas práticas militares. As tropas aparecem em perfeita formação, a banda militar se interrompe para tocar, os cavalos movem suas caudas de um lado para o outro, há uma sucessão interminável de guerreiros de farda vermelha e calças brancas, os soldados se preparam para executar suas exibições de tiros e manobras. E Pickwick está na primeira fila, para não perder nada, e seu chapéu voa.

Dickens estava escrevendo suas histórias em capítulos, o público as esperava, lia e comemorava. Ele contou o que estava acontecendo com os curiosos membros do clube Pickwick, mas também contou histórias tristes de órfãos que viviam terríveis circunstâncias na Londres vitoriana. Casas apertadas e pobreza, mas também mansões e luxo, grandes ambições e esperanças, caminhos truncados, renúncias generosas e manobras repugnantes de exploradores sem escrúpulos. Dickens era um mestre a contar as mais diversas histórias. Você conhece George Silverman`s Explanation, nada mais do que algumas páginas em que ele conta a vida de uma criança que vê seus pais morrerem em um porão infectado e que depois renuncia à mulher que ama?

Onde exatamente estamos agora? Mais perto do homem que sofre ao levar a mulher que ama para os braços de outro ou do pobre diabo que é forçado a se fazer de bobo enquanto corre atrás do chapéu? Certamente de ambos os lados, no caso menor e no que parece maior. As histórias valem a pena e são melhores se forem contadas por alguém tão bom e engraçado como Dickens.

Charles Dickens (7 de fevereiro de 1812 – 9 de junho de 1870)

Miguel Torga (1907-1995) escreveu em seus Diários:

Miguel Torga (1907-1995) escreveu em seus Diários:

É um fenômeno curioso: o país ergue-se indignado, moureja o dia inteiro indignado, como, bebe e diverte-se indignado, mas não passa disto.

Falta-lhe o romantismo cívico da agressão.

Somo, socialmente, uma coletividade pacífica de revoltados.

Miguel Torga

No dia anterior, ele tinha anotado em seu diário:

Leveza, o melhor Greg News que vi até hoje

Leveza, o melhor Greg News que vi até hoje

No Facebook, a Elena já fez um merecido elogio ao programa de ontem de Gregório Duvivier, o Greg News, chamado “Leveza”. O tema foi a necessidade da arte e teve um final absolutamente emocionante, com a família de Gregório — ele é filho de Olivia Byington — cantando lindamente “Menina amanhã de manhã” (“Vai”), de Tom Zé. Ele, sua mãe e irmãs arrasaram num final digno para um texto sobre a presença das artes na pandemia. E, como escreveu a Elena, fazendo um contraponto com outra família que nos tortura diariamente com suas desnecessidades de tantas coisas que prezamos na civilização.

Ignoro os autores do texto, mas devem ser o próprio Gregorio Duvivier com a habitual colaboração de Bruno Torturra e Alessandra Orofino. O programa vai ao ar toda sexta-feira às 23h, na HBO.

Deve ser fácil encontrar o programa no Youtube. Uma pesquisa de ‘Greg News Leveza’ deve resolver a questão.

Aliás, está aqui:

Texto bom de guardar porque é bom (por Élvis Eliel, no Twitter)

Texto bom de guardar porque é bom (por Élvis Eliel, no Twitter)

Texto de Élvis Eliel (@ElvisEliel_)

Dois jogos e duas vitórias de Eduardo Coudet frente ao comando técnico do Internacional. Mesmo com escalações diferentes, a formatação tática foi idêntica em ambas as partidas. Já conseguiu entender como o argentino faz o seu time jogar? Se liga:

No papel, esse é o esquema. Rodrigo Lindoso como 1º volante, Edenílson e Patrick na segunda função e Johnny como meia armador. Mas isso, como eu disse, é no papel.

Na prática, Lindoso recua para a linha de zaga e se posiciona no centro. Johnny, que na teoria seria o meia, se apresenta antes de Ed e Patrick, na segunda linha. Saída de bola qualificada, muitos passes e rotação. E o mais importante: paciência para achar a melhor opção.

Essa função do Johnny ontem, foi do Nonato no 1º jogo. Box to box. Uma maneria inteligente de desestruturar a primeira linha de defesa adversária, abrindo espaço para os volantes/meias de lado infiltrarem. Assim, Edenílson marcou o primeiro gol da vitória sobre o Pelotas.

Importante ressaltar que a presença do 1º volante entre os zagueiros, além de qualificar a saída de bola, libera ambos os laterais. São duas opções a mais para os meias após o rompimentos da primeira linha de defesa.

Além dos 73,3% de posse de bola, o Inter trocou 660 passes. Mais do que qualquer partida de 2019. Resultado disso: 13 finalizações, sendo 9 no 2º tempo. Isso porque o adversário corre demais e, consequentemente, cansa. Além da pressão na saída de bola. Isso é marcar atacando.

Individualmente, D’alessandro fez chover com a liberdade de movimentação que a nova posição o proporciona. Sem correr atrás de lateral, sobra pulmão e talento.

Edenílson parece ter nascido para jogar nesse esquema. Entende a função e a executa perfeitamente. Que jogador!

Texto bom de guardar porque é bom (por Alexandre Perin, no Facebook)

Sobre a Copinha:

Um título justo, jogamos bem toda a competição, destaques individuais em vários setores (Mazetti, os 3 zagueiros, Murilo, Matheus Monteiro e Cesinha foram bem sempre, Guilherme Pato cresceu na reta final e obviamente Praxedes, um dos melhores jogadores do torneio).

Não acreditem em desinformados e mau intencionados dizendo que nosso time era mais velho. Nem que o Grêmio tem mais jogadores da idade máxima no profissional (5×3).

“Ainn na final o time podia ter vencido no tempo normal”. Claro que sim, mas pesou o nervosismo, cansaço (Inter mudou de sede 7x em 9 jogos, Grêmio por exemplo só mudou 3x) a ansiedade de querer resolver logo (chutes lotéricos qdo o óbvio era o passe), não aproveitamos decisões táticas ruins do treinador deles.

E outra coisa : o time deles é bom pra kct. Diego Rosa e Pedro Lucas tem muito futebol, o lateral direito q não jogou, Vanderson, tb é promissor. E o goleiro Adryel claramente é diferente, especial. Grêmio é referência hoje na base, precisamos seguir evoluindo para passar eles novamente.

FUTURO

Em 2018 a decisão de assinar com a Double Pass foi um acerto incrível e muito elogiado aqui por mim e outras pessoas. Inter usa base para formar um time e privilegia a técnica.
Joga com jogadores abaixo da idade e logo libera para o profissional.

No 0x5 pro Guarani gerou uma profunda reforma na base, especialmente pelos objetivos. Antes de sair, o antigo coordenador Diego Cabrera renovou com vários lixos por longo contratos, jogadores medíocres como Cazzetta e Zé Gabriel. Decisões “estranhas” sob influência divina e com apoio dos parças empresários.

Com a chegada do novo gerente geral da base, Erasmo Damiani, claramente o inço de funcionários, diretores profissionais vazou. Pra quem não sabe, o São José inteiro estava na base colorada. Era uma esculhambacao.

O treinador do Sub 20, Fábio Matias, semifinalista em 2018, saiu antes do fiasco justamente por não compactuar. Fez bela campanha no Figueirense e retornou agora para o time mostrando uma baita competência.

O futuro é promissor.

O próximo trabalho é acabar com o Sub23, usar no máximo 21 nos aspirantes e manter o processo de transição para o profissional.

O Celeiro de Ases não voltou a pleno, mas tá chegando…

Vamo Inter!

Somos nós que estamos implantando o fascismo

Somos nós que estamos implantando o fascismo

Por Valéria Brandini (*), antropóloga.

É o povo que está elegendo o fascismo. Se não fosse esse militarzinho bunda suja, seria outro. Pesquiso o brasileiro há 25 anos. Já fiz pesquisas presenciais de norte a sul do País e atesto que o brasileiro médio “é isso aí”.

Quando a tendência da diversidade chegou, ela veio “de fora para dentro”, é uma tendência mundial, pegou a parte mais desenvolvida da sociedade, que não deve chegar a 5% – não falo de nível econômico, falo de nível cultural – e pegou o pink money da comunidade LGBTQ. Mas quem estuda tendências socioculturais sabe que uma coisa é a tendência que vem de fora, e outra coisa é sua assimilação de acordo com os valores e tendências emergentes de um grupo, ou povo.

Pois bem, há uns 7 anos entrevistei grupos de jovens homens que diziam que “não dá pra namorar hoje em dia porque só tem puta”, e grupos de jovens mulheres que “queriam casar virgem, porque a mulherada hoje não se respeita”, que acham que “não dá pra trabalhar e ser mãe e esposa ao mesmo tempo”. Isso é o brasileiro médio – homens e mulheres machistas, racistas e homofóbicos.

Entrevistei adolescentes que diziam ter medo de ir em baladas, pois “os caras não aceitam quando você não quer ficar com eles e te agridem”. Entrevistei jovens homossexuais de periferia que disseram que “tirando os Jardins (SP), ser gay na periferia é correr ameaça de espancamento e morte todo dia.

O brasileiro médio nunca foi “bonzinho”, como dizia Kate Lyra nos quadros de humor dos anos 80. O brasileiro médio “odeia viado”, odeia pobre — mesmo quando é pobre — não odeia “a pobreza”, odeia “o pobre”, divide as mulheres entre as putas e as mulheres pra casar, é racista e de um “racismo cordial” nojento, pois diz que tem amigo negro, mas não se importa que a polícia mate jovens negros inocentes. As mulheres são AS grandes machistas, pois o machismo feminino é o que forma homens e mulheres machistas na socialização primária das crianças e elas NAO QUEREM se libertar dos padrões coercitivos do machismo, elas querem manter esses padrões, pois acreditam que nele elas tem privilégios (mesmo tomando porrada de machista e com um índice altíssimo de feminicídio — vivem uma eterna síndrome de Estocolmo) — já no feminismo, teriam que ser responsáveis por suas próprias vidas, teriam que ter autonomia existencial e isso é novo e assustador.

A candidatura de B17 rompeu o lacre do reacionarismo e o protofascismo que orienta o ethos do brasileiro médio, mas que com a tendência mundial de apoio à diversidade, ficava reprimida. Democracia é isso, senhoras e senhores e infelizmente o povo brasileiro “é isso”.

Nós aqui que achamos uma abominação o machismo, homofobia e racismo do PSL, nós que lutamos contra Bolsonaro e sua ideologia de extrema-direita, sua apologia à tortura, seu desmerecimento às mulheres, seu ódio aos LGBTQ e sua depreciação dos negros, somos a minoria numa elite cultural que não representa o brasileiro médio — e não digo isso com orgulho, mas com pesar —, pois somos o que o brasileiro médio não quer.

Então, se você, como eu, acredita nos valores da diversidade, na busca por equanimidade para os excluídos, como base da cidadania, busque inspirar e influenciar os valores da igualdade por onde passar. Use o conhecimento como ferramenta para desconstruir mitos discriminatórios, use o conhecimento como forma de mostrar a realidade do Outro para aqueles fechados em suas bolhas, pois a empatia é o caminho para que estas pessoas entendam que você precisa lutar por quem não tem condições de lutar por si na sociedade. Não fique apenas na tentativa de convencimento de voto. O trabalho para inspirar é trabalho de uma vida inteira, não de uma eleição — e só ele causa mudanças profundas. Não tente “convencer”, mostre o conhecimento, desconstrua os preconceitos pelo conhecimento e deixe que escolham o caminho a seguir. Se 1 em 10 pessoas se inspirar, você venceu.

E aprenda a mandar à merda quem precisa ser mandado à merda, sem medo de que não gostem de você, pois nada é mais precioso do que a integridade, e integridade é ser inteiro no que você acredita.

A antropóloga Valéria Brandini | Foto: valeriabrandini.com

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(*) Valeria Brandini é antropóloga graduada pela Unicamp, especialista em Multimeios (Comunicação e Interdisciplinaridade), Mestre em Publicidade e Propaganda pela ECA – USP, Doutora em Ciências da Comunicação pela ECA – USP em Convênio com a Universitá La Sapienza (Roma) e Central Saint Martin’S School Of Fashion (Londres) e Pós Doutoranda em Antropologia Empresarial pela Unicamp.