Este poema de Drummond deveria ser estudado nas escolas

Diz muito sobre nosso tempo bolsonarista.

~ Morte do leiteiro

Há pouco leite no país,
é preciso entregá-lo cedo.
Há muita sede no país,
é preciso entregá-lo cedo.
Há no país uma legenda,
que ladrão se mata com tiro.
Então o moço que é leiteiro
de madrugada com sua lata
sai correndo e distribuindo
leite bom para gente ruim.
Sua lata, suas garrafas
e seus sapatos de borracha
vão dizendo aos homens no sono
que alguém acordou cedinho
e veio do último subúrbio
trazer o leite mais frio
e mais alvo da melhor vaca
para todos criarem força
na luta brava da cidade.

Na mão a garrafa branca
não tem tempo de dizer
as coisas que lhe atribuo
nem o moço leiteiro ignaro,
morados na Rua Namur,
empregado no entreposto,
com 21 anos de idade,
sabe lá o que seja impulso
de humana compreensão.
E já que tem pressa, o corpo
vai deixando à beira das casas
uma apenas mercadoria.

E como a porta dos fundos
também escondesse gente
que aspira ao pouco de leite
disponível em nosso tempo,
avancemos por esse beco,
peguemos o corredor,
depositemos o litro…
Sem fazer barulho, é claro,
que barulho nada resolve.

Meu leiteiro tão sutil
de passo maneiro e leve,
antes desliza que marcha.
É certo que algum rumor
sempre se faz: passo errado,
vaso de flor no caminho,
cão latindo por princípio,
ou um gato quizilento.
E há sempre um senhor que acorda,
resmunga e torna a dormir.

Mas este acordou em pânico
(ladrões infestam o bairro),
não quis saber de mais nada.
O revólver da gaveta
saltou para sua mão.
Ladrão? se pega com tiro.
Os tiros na madrugada
liquidaram meu leiteiro.
Se era noivo, se era virgem,
se era alegre, se era bom,
não sei,
é tarde para saber.

Mas o homem perdeu o sono
de todo, e foge pra rua.
Meu Deus, matei um inocente.
Bala que mata gatuno
também serve pra furtar
a vida de nosso irmão.
Quem quiser que chame médico,
polícia não bota a mão
neste filho de meu pai.
Está salva a propriedade.
A noite geral prossegue,
a manhã custa a chegar,
mas o leiteiro
estatelado, ao relento,
perdeu a pressa que tinha.

Da garrafa estilhaçada,
no ladrilho já sereno
escorre uma coisa espessa
que é leite, sangue… não sei.
Por entre objetos confusos,
mal redimidos da noite,
duas cores se procuram,
suavemente se tocam,
amorosamente se enlaçam,
formando um terceiro tom
a que chamamos aurora.

Carlos Drummond de Andrade, de A Rosa do Povo (1945).

Porto Alegre e seus pobres que votam em ricos

Porto Alegre e seus pobres que votam em ricos

Tive que ir a um cartório na Marquês do Pombal e voltei caminhando pelo bairro Moinhos de Vento.

Vi que lá — Parcão e redondezas — só tem propaganda da direita mais extrema. Gente apadrinhada pelo Bibo Nunes, gente do Novo…

Quando chego na Bamboletras, leio no Matinal Jornalismo a confirmação daquilo que penso há anos: uma pesquisa feita em mapas eleitorais garantindo que são os bairros ricos quem comanda as viradas no poder em Porto Alegre.

E o pessoal dos bairros pobres — sem formação e noção política — apenas segue os ricos.

Enquanto isso, a senadora comunista Carolina Cosse ganhou as eleições para a prefeitura de Montevidéu. Eles terão uma intendenta bem vermelha. Só que lá, a direita raramente vence entre os mais pobres.

É outro grau de escolaridade, outro nível de informação.

Vote no PUM.

Bom dia, Coudet (com os lances daquilo de ontem)

Bom dia, Coudet (com os lances daquilo de ontem)

Meu caro Coudet. Acho que tu tens boas ideias e gostaria que permanecesses no clube, mas as boas ideias têm de ser acompanhadas de bons resultado. Se não for assim, o treinador dança. Estamos no Brasil e aqui os ignorantes parecem ter calma só com o governo. O romantismo da agressão vale apenas para o futebol, de resto, somos uma comunidade pacífica de indignados, como escreveu o grande Miguel Torga.

Foto: Ricardo Duarte | SC Internacional

O fato é que, apesar da segunda colocação no Brasileiro e da liderança na Libertadores, tu estás nocauteado pelos fatos e o que tens feito não te ajuda em nada. E tem Gre-Nal no próximo sábado, depois do jogo contra o América em Cali pela Libertadores.

Sim, tens pouco time, mas escalar Musto e Lindoso juntos… Insistir com Marcos Guilherme… Colocar Moisés em campo… Às vezes, tu escalas Rodinei… E, pior, insistes com o tal do Zé Gabriel…

Só falta tu entrares com Musto, Zé Gabriel e Marcos Guilherme em Cali.

Sim, há uma campanha para te derrubar. Ela parte da imprensa e de uma boa fatia da torcida. Virá um merda para o teu lugar, claro. Depois eles colocam a culpa no Guerrinha (outro incompetente) e nos diretores. Lembro do que foi feito com o Aguirre, lembro das consequências. Tudo começou naquele 5 x 0 e acabou na Série B. Mas a maioria é burra e não liga fatos.

Os dirigentes também são péssimos. Tu tens um presidente que está fechando 4 anos de gestão sem nenhum título. Nem Gauchão ele conseguiu! Marcelo Medeiros é patético. Tinhas um cara razoável do teu lado — Alessandro Barcellos –, mas o presidente não suportou ficar ao lado de quem será candidato a presidente, mesmo que ele não possa mais ser reeleito graças a deus.

Agora, leio que Dale não viajou para Cali por problemas particulares. Sei… Entendi… Num time que conta com um presidente tão fraco e ainda bolsonarista tudo pode acontecer, né? Vai ver o gringo foi franco.

E assim vamos em queda livre.

Faça algo pela vida, Coudet. Tens pouco tempo!

E aprenda:

(1) Com bons resultados, com treinador e grupo fechados, a direção não consegue demitir.

(2) Vocês são profissionais, é diferente, mas saiba que colorados mesmo só na torcida… Hoje, na gestão do clube, só temos gente interessada em dinheiro e manutenção de poder.

Boa sorte na terça!

Vicentina

Fazia tempo que eu não passava entre as grades. Nem tinha certeza de que passaria, pois estou mais gorda depois desses anos todos, mas tentei e quando vi estava na rua. Logo parti em busca da Juno ou daquelas pessoas de cheiro bom que nos deixaram. Comecei a caminhar em busca de algum deles, tudo porque não suportava mais ficar em casa com pessoas que não gostavam de mim.

Caminhei por uns 3 dias, senti frio, não achava a Juno para podermos deitar juntas, descansei onde podia, bebi água de poças, sofri muito com a chuva — odeio chuva — e nada. Minha cabeça ficava cada vez mais confusa com a fome. Eu pensava que encontraria logo a Juno ou aquelas pessoas que me afagavam, mas não encontrava ninguém e já nem sabia mais para onde estava indo. Só sabia que não queria voltar para casa, não queria ver aquela mulher que dizia sempre “Sai, Vicentina” ou pra aquela que me sorria e depois sumia. Não, eu tinha que achar a Juno.

Então, entrei num lugar cheio de carros e pessoas que caminhavam muito de um lado para outro. Falavam sozinhas com umas coisas de plástico no ouvido. Depois saíam. Antes de recomeçar minha busca, decidi ficar um tempo por ali porque tinha cheiro de carne. Às vezes, eles saiam rapidamente de carro, quase correndo, sempre em grupos, era estranho. Uma hora, uma moça saiu com um cigarro na mão e eu achei que podia me aproximar. Ela me fez carinho e eu fiquei feliz. Ela viu que gostei.

Mas devia ser meio burra porque disse “Vem cá, Pretinha” sem usar meu verdadeiro nome. Lá não estava a Juno, mas tinha comida. A moça fez um tom de voz feliz quando me viu comer com vontade. Lá tinha carne com cheiro de fumaça. Degustando aquilo, lembrei do dia em que levaram a Juno. Ela ficou deitada parada no chão do pátio com o mesmo cheiro daquele pássaro que caçamos. Era um cheiro estranho, sem fumaça, mas não era ruim. Aí, as pessoas que eu não quero mais ver pegaram ela no chão e a levaram. Ela nunca mais voltou e eu fiquei lá num canto, quieta, triste, com saudade e louca para procurá-la. E saí.

Agora, tanta gente passava a mão em mim, eram tantas as pessoas diferentes que gostavam de mim que eu sentia um quebranto de ir ficando por lá em vez de procurar a Juno ou as pessoas de cheiro bom. Lá tinha um inebriante cheiro de fumaça misturada com carne e eles também usavam umas coisas de ferro na cintura que também tinha cheiro de fumaça. E entravam e saíam. Também tinha gente que chegava lá com as mãos amarradas. Eles guardavam aquelas pessoas como a gente ruim que ficou na minha casa fazia comigo. Então, nem tudo era novidade.

De noite, sempre tinha alguém que botava fogo num buraco da parede e eu ganhava mais carne enfumaçada. Como ir embora? De vez em quando, me atiravam carne antes de acender o fogo e eu lembrava de novo da Juno e de que tinha que procurá-la. Mas confesso que estava gostando daquela nova rotina de agrados e carne. Tentava me comportar bem para que eles fizessem aquele tom de voz feliz.

Só que um dia, de surpresa, chegou uma das pessoas ruins da minha casa e todos eles fizeram juntos tons de carinho pra mim. Eu não queria ir embora, mas me levaram de volta. Claro que eu pensei que a Juno estava em casa me esperando e fiquei até feliz quando vi que estavam me levando pra casa. Fiquei animada. Eu e ela íamos poder latir de novo para as pessoas que passavam na rua. Saí do carro em casa, procurei por ela, mas ela não estava lá.

Agora, quero ir embora de novo. Quero a Juno ou a gente que me dava carne ou aqueles de cheiro bom que até meio que esqueci. Lembro só que, quando eles foram embora, a gente ruim gritava com eles com o mesmo tom de quando eu fazia cocô na garagem porque não gosto de fazer cocô na chuva, só faço lá fora quando está seco. Quero ir embora. Só isso. Não quero mais comer, só quero ir embora.

25 de setembro

25 de setembro

Hoje é uma de minhas datas felizes. 25 de setembro é o dia no nascimento de minha filha Bárbara Jardim.

O dia iniciou quase mágico. Fui fechar uma torneira na cozinha e fiquei com a coisa na mão enquanto via sair um esguicho que atravessava a cozinha de lado a lado. Ainda bem que o registro funcionou…

Depois, liguei para a Babi, que me deu uma patética notícia da área da cinofilia fingida de antanho. Sem detalhes.

Feliz aniversário, Babi! Uma coisa que a gente jamais esquece é do dia do nascimento dos filhos. Minha memória é tão vívida que é surpreendente que a Bárbara e o Bernardo sejam hoje adultos.

Isso deve estar na raiz daquilo que faz os pais serem tão ridículos.

Maravilhosa foto do Bernardo, meu filho, retratando sua irmã Bárbara, hoje de aniversário. A legenda no Instagram diz: “25 de setembro, dia dessa fenomenal ex-treinadora de cães”.

Bom dia, Coudet (com os melhores lances da mais nova derrota para o Grêmio)

Bom dia, Coudet (com os melhores lances da mais nova derrota para o Grêmio)

Coudet, mesmo considerando que perdemos os atacantes Guerrero, Yuri, Peglow e Pottker (esse não faz falta), mesmo considerando que Edenílson e Moisés (esse também não faz falta) estão suspensos, mesmo considerando que Patrick e Uendel (por incrível que pareça, esse fez falta!) foram problemas de última hora, teu time foi mal escalado.

Desde a tua chegada, Lindoso jamais conseguiu fazer aquela função central no trio que fica atrás dos dois atacantes. Praxedes e Nonato seriam melhores tentativas. Nem vou falar em Johnny mais atrás. Também escalar Marcos Guilherme foi um erro. Não sei quem poderia ter entrado em seu lugar no começo do jogo, pois estamos com poucos atacantes. Talvez um cara mais defensivo, sei lá. Porque o cara driblador, que vence a marcação, esse não temos MESMO.

Como se não bastasse, eu e as redes sociais que comentavam o jogo estavam achando que o Grêmio estava subindo de produção e que tu deverias ter mudado o time, colocando D`Alessandro desde os 20 do segundo tempo. Muita gente — inclusive eu — estava berrando, pedindo a entrada do gringo. Aí o Grêmio marcou e tu fizeste o que deverias ter feito antes. No desespero, tudo ficou mais complicado, mas mesmo assim perdemos gols com Musto e Galhardo. E o que é aquele Leandro Fernández? É o novo Pottker?

Último gol do Inter no Grêmio.

Nossa situação no Grupo E da Libertadores complicou. Temos duas partidas FORA DE CASA contra os ressuscitados América e Universidade Católica, o Grêmio tem os mesmos jogos, mas em casa. Esperar ajuda do tricolor? Tá louco, né? Inter (saldo 3) e Grêmio (1) têm 7 pontos, América (-2) e La U (-2) têm 4. Como os parênteses mostram, temos melhor saldo, mas isto foi conquistado faz tempo, agora só temos obtido escores apertados.

Sim, complicou. Seria bem constrangedor cair fora da Libertadores na primeira fase, não? Vamos ter que segurar a onda fora do Beira-Rio. Terça-feira que vem teremos o América em Cali, às 21h30. E, infelizmente, não temos outro time.

Mas o pior é que entramos sempre medrosos em campo nos Gre-Nais. Somos um time disponível, dócil. O número de passes errados é algo de abobar. Ontem, nossas saídas de bola eram sempre na base de um chutão do Cuesta. Não parece haver aproximação nem ângulos para passes. Ingênuo, pensei que a ideia era a de jogar com a bola no chão e não a de entregá-la para o cabeceio da zaga adversária. E isso se acentua quando vemos o Grêmio na nossa frente.

E o Jussa, Coudet? O que é aquilo? E o Lomba anda esquisito, não achas?

Bem, nosso próximo jogo é pelo Covidão, sábado, às 19h, contra o São Paulo, no Beira-Rio. Nem imagino quem irás escalar. Tanto a recuperação no Brasileiro quanto um um bom resultado em Cali são urgências.

Te vira, meu.

Parceria Matinal / Bamboletras

Parceria Matinal / Bamboletras

Fundada há 25 anos, a Livraria Bamboletras é um dos principais redutos culturais de Porto Alegre.

Localizada na Cidade Baixa, no Centro Comercial Nova Olaria da Lima e Silva, ela começou atendendo o público infantil, por isso o divertido nome de Bamboletras. Posteriormente, atendendo a pedidos dos pais, o leque de opções se expandiu e passamos a receber obras de literatura para adultos, poesia, filosofia, política, psicologia, teatro, música, etc.

Sempre com acervo atualizado, de alta qualidade e autonomia de escolhas, a pequena Bamboletras passou os últimos meses se reinventando. Antes da pandemia, o foco era o atendimento presencial, o conhecimento sobre cada livro, a boa sugestão, a conversa no balcão e a negociação gentil, mas, durante o fechamento das lojas, como sobreviver com a impossibilidade de ser visitada pelos clientes? Sem os clientes presentes, o atendimento seguiu pelo telefone e outros meios virtuais. As entregas passaram a ser feitas por ciclistas, motoboys ou correio. Com agilidade.

Também o gênero dos livros procurados mudou. Paradoxalmente, numa época em que finalmente havia tempo para ler, ocorreram poucos lançamentos. Porém, a Bamboletras descobriu que os leitores queriam finalmente ler aqueles clássicos que foram deixados para trás pela falta de tempo do antigo normal. Foi uma pandemia de calhamaços, de ler o grande romance russo ainda não lido, de fazer musculação com livros pesados (em Kg) e de, ops, livros de receitas… Porque as pessoas estavam fazendo suas refeições em casa e deviam estar cansadas da repetição dos mesmos pratos.

Então foi a pandemia de Dostoiévski, Melville, Clarice, Hilda, Ferrante, Bela Gil e Rita Lobo. A Bamboletras passou a fazer parte de uma cadeia que contava com editores para publicar os livros, distribuidoras para enviá-los e as bikes e o serviço postal para levá-los aos clientes. E o ponto forte, o atendimento, continuou nos meios virtuais. Hoje, na reabertura, dá gosto de ver os clientes que entram na livraria e ficam extasiados em razão da longa ausência.

A comunidade de leitores e livros é do que a Bamboletras precisava antes, é a comunidade que a está mantendo nos tempos difíceis e é a comunidade com quem a livraria gostará de estar quando tudo isso acabar.

Hoje, orgulhosa, a Livraria Bamboletras inicia uma parceria com o Matinal / Parêntese / Roger Lerina. Afinal, temos grandes afinidades. Ele também dá grande atenção à cultura e, deste modo, também faz parte da comunidade que queremos ver crescer, mesmo que em tempos hostis: a dos amantes da arte e da cultura, a dos leitores e livros.

A Vida Mentirosa dos Adultos, de Elena Ferrante

A Vida Mentirosa dos Adultos, de Elena Ferrante


Este é o primeiro livro que leio de Elena Ferrante. Certo dia, dentro de uma livraria, estive com a Série Napolitana e com a série de Karl Ove Knausgård, Minha Luta, disponíveis na minha frente. Resolvi que ia ler apenas uma das duas. Então, percorri as três primeiras páginas de A Amiga Genial e três primeiras de A Morte do Pai. Não lembro por qual motivo, escolhi o norueguês e só agora começo a preencher a lacuna cultural contemporânea de não ter lido Ferrante. Ela é excelente!

E, nossa, gruda na gente! Trata-se de uma narradora poderosa. Texto fluido e sedutor, capítulos curtos — a gente pensa que dá tempo de ler mais um e mais um e vai indo–, muitos fatos em poucas linhas e quase nenhuma frase ensaística, demonstrando que a história, as situações e a estrutura arranham mais a realidade do que as teorizações intermináveis.

Ferrante é uma excelente analista das famílias, de como elas influenciam as crianças e adolescentes, jogando-as em qualquer direção. Às vezes, elas obedecem, em outras vão no exato sentido que os pais tentam evitar.

O livro é narrado por Giovanna. Logo da cara, ela, aos 12 anos, filha de professores bem-sucedidos, ouve seu admirado e amado pai dizer à mãe como a filha ficou “feia”. Tornou-se como Vittoria, sua irmã com quem rompeu relações há muito tempo, uma mulher na qual “feiura e o maldade coincidiam perfeitamente”. Morena, desajeitada, de seios grandes, ela era bem diferente de sua mãe, esguia e elegante. Ela fica marcada com a acusação do pai. Então, quer conhecer a tia cuja aparência deve comparar com a sua. Sua jornada a leva para o inferno napolitano de onde seus pais vieram originalmente, o Pascone, um bairro pobre cheio de gente que fala berrando e se relaciona brigando.

O processo de amadurecimento da menina é muito bem relatado. É o desabrochar de uma mulher, mas é mais: é o entendimento de como a vida é complexa, contraditória e dura.

E há os reflexos do machismo. A postura dos meninos é para humilhar — “basta colocar um travesseiro sobre seu rosto e você será uma ótima foda”, um deles diz sobre ela, tendo primeiro elogiado seu seios e traseiro. No dia seguinte, quando o mesmo garoto tenta flertar, ela lhe enfia um lápis afiado em seu braço, acidentalmente, é claro — como se sua tia tivesse se infiltrado nela. A direção da escola a chama. Ela mente que foi por acaso e seu pai, presente na reunião, termina o serviço seduzindo a diretora com um discurso polido e elogioso. Ela se desmancha e esquece a punição.

Todos, mas principalmente os homens, podem ser mentirosos mas são apaixonantes e ela admira Roberto, um duplo de Giovanna — jovem, intelectual e educado. Certamente ele é diferente. Bem…

Aos poucos, Giovanna que descobre que os adultos de sua vida mentem para ela. E que ela, ficando adulta, também começa a contar suas lorotas. Também aprende que o conteúdo das mentiras é menos curioso do que seus estilos — exagero, omissão, justificativa, foco — e que variam no prazer e na dor que proporcionam.

Ferrante é ótima e conta a história da adolescente Giovanna com segurança. É a Dickens de nosso tempo, fazendo com que, sem apelação ou golpes baixos, a gente queira saber o que acontecerá depois. Se possível imediatamente.

Recomendo.

Pobreza estilo Napoli, uma imagem do Pascone | https://www.giovanniminervini.it/un_altrove_imprevedibile-r5898

Bom dia, Coudet (com os lances de Inter 4 x 3 América de Cali)

Bom dia, Coudet (com os lances de Inter 4 x 3 América de Cali)

Quando Uendel deu dois belos passes para os primeiros gols do Inter, deu para sentir que teríamos uma noite estranha pela frente. Eram menos de 20 min e já estava 2 x 0 (Hernández e Boschilia) contra o América de Cali. Jogávamos muito bem até que Zé Gabriel resolveu dar dois gols de presente para os colombianos. Recebendo um lançamento óbvio e sem ser acompanhado pelo jovem zagueiro do Inter, Vergara fez 2 x 1. Mas o jogo era todo do Inter e logo Hernández fez o terceiro, o segundo dele.

Hernández faz o terceiro, mas nada de tranquilidade | Foto: Ricardo Duarte / SC Internacional

Era um jogo tranquilo. 3 x 1 no primeiro tempo com ampla superioridade. Só que não contávamos com novo desligamento colorado. O time simplesmente parou… Aos 3 min do segundo tempo, Zé Gabriel deu novo presente ao errar um passe na saída de bola, permitindo um contra-ataque fulminante do América. Gol de Ramos, 3 x 2.

E seguimos meio parados, tentando adormecer sobre aquele instável 3 x 2. Mas haveria mais emoção. Moreno empatou o jogo aos 32. O jogo ficou tão difícil que o América era quem pressionava e ameaçava virar. Já imaginaram? De 3 x 1 para 3 x 4?

Com o jogo empatado, Coudet tacou D’Alessandro no lugar de Lindoso. E foi dali — dele, de Dale — que surgiu nosso gol da vitória em jogada finalizada por Boschilia. Para nosso gáudio, o camisa 21 chutou de fora da área, a bola desviou na zaga e tomou endereço não previsto pelo bom goleiro Chaux. 4 x 3 e mais três pontos.

Parece mentira, né, Boschilia? | Foto: Ricardo Duarte / SC Internacional

Para completar o Nirvana, o Grêmio perdeu por 2 x 0 de La U, porém tudo isso certamente está dentro dos cálculos do infalível Renato Gaúcho.

Agora somos líderes do Grupo E da Libertadores  com 7 pontos e saldo +4. O Grêmio está em segundo com 4 pontos e saldo 0. Seguem América e La U, ambos com 3 pontos e saldo -2. A próxima rodada será no dia 23 (quarta-feira) às 21h30: América x La U em Cali e Inter x Grêmio no Beira-Rio.

Mas ficam sempre as perguntas:

— Por que o Inter desliga?
— Por que tantas falhas defensivas?
— A culpa seria mesmo de Cuesta?
— Por que tantos passes errados?

“Feliz pela vitória, pelo esforço que fizeram os jogadores. Tínhamos muitas baixas. Fizemos uma boa partida, mas cometemos erros conceituais, como estar posicionados no ataque com vantagem no marcador. Os detalhes dos gols, eu vou ver depois. Mais que intensidade ou parte física, perdemos muitas bolas sem necessidade. Conceitualmente temos que repassar um monte de coisas. Como, por exemplo, sofrermos empate em um jogo com os dois laterais no ataque. São coisas conceituais que temos que repetir, coisas conceituais na saída que temos que melhorar. Mas corrigir ganhando é muito mais fácil. A Libertadores é muito dura. Tem que ganhar e nós fizemos. Uma partida que parecia muito tranquila e terminou com demasiada emoção para o meu gosto”.

(Eduardo Coudet, sobre a vitória sobre o América e o susto que levou)

.oOo.

Ficha técnica:

Internacional (4): Marcelo Lomba; Saravia, Zé Gabriel, Rodrigo Moledo e Uendel; Rodrigo Lindoso, Boschilia (Lucas Ribeiro), Nonato (Johnny) e Patrick (D’Alessandro); Thiago Galhardo e Abel Hernández (Leandro Fernández). Técnico: Eduardo Coudet.

América de Cali-COL (3): Chaux; Ureña, Torres, Segovia e Velasco; Carrascal, Paz (Jaramilla) e Sierra; Pérez (Moreno), Ramos e Vergara. Técnico: Cruz Real.

Gols: Abel Hernández, a um minuto e aos 31 minutos do primeiro tempo e Gabriel Boschilia, aos 18 minutos do primeiro tempo e 45 minutos do segundo tempo (I). Vergara, aos 27 minutos do primeiro tempo, Adrián Ramos, aos três minutos do segundo tempo, e Moreno, aos 32 minutos do segundo tempo (A).

Cartões amarelos: Patrick e Moledo (I). Segovia, Sierra e Paz (A).

Arbitragem: Facundo Tello apita, auxiliado por Gabriel Chade e Facundo Rodriguez, trio argentino.

Estádio: Beira-Rio.

 

O time do Inter para o jogo de hoje…

Devemos melhorar com as presenças de Saravia e Patrick, além de Galhardo jogando desde o início. Mas o número de desfalques é impressionante. Temos dois ataques inteiros lesionados, considerando-se que Pottker seja jogador de futebol.

Time para hoje:

Lomba;
Saravia, Zé Gabriel, Moledo e Uendel (Jussa);
Johnny (Lindoso);
Boschilia, Nonato (Lindoso) e Patrick;
Galhardo e Hernández (Dale).

Suspensos: Cuesta, Moisés, Musto, Edenílson, Praxedes e Marcos Guilherme.
Lesionados: Guerrero, Peglow, Yuri e Pottker.

O Colorado lidera a chave com os mesmos quatro pontos do vice-líder Grêmio, mas leva vantagem no saldo de gols.

Nossa tragédia (1): da mentalidade censora

Nossa tragédia (1): da mentalidade censora

Trabalhei por oito ótimos anos num veículo progressista. Aprendi muito. Adorava trabalhar lá, as pessoas foram sempre muito éticas e eu me orgulho de minha vasta produção naqueles anos, apesar de achar que o jornal pecava pela falta de ousadia. Bem, tenho histórias que, penso, devem se repetir na maioria das hoje combalidas trincheiras da esquerda.

Sou um cara mais para o intuitivo do que para o analítico, então recebo e reajo a flashes. Ou, melhor dizendo, um dia tiro uma foto, outro dia outra, e assim vou formando meu mosaico de impressões.

Vamos a três fotos que me ocorreram hoje.

(1) Um colega diz que não devemos publicar uma reportagem sobre um novo método de produção de carne porque deixaríamos irritados os veganos e eles, parte de nosso público, poderiam nos linchar. Então fiquei sabendo que não podíamos falar de carne.

(2) Uma reportagem que coloquei para provocar foi encarada como se eu fosse um ET. Ela dizia que o gaúcho fazia menos exames de toque retal do que os homens de outras unidades da federação porque não a coisa não seria lá algo muito masculino. Era uma pesquisa de boa fonte, séria e médica. Como temos uma editoria de Geral, não vi problema, mas houve gente dizendo que aquilo não era pra nós. OK, não devemos rir ou explicitar nossos lados mais ridículos, mesmo que sejam verdadeiros.

(3) Fui advertidíssimo e me senti ameaçado por expor NO MEU BLOG uma opinião independente. Ela teria o condão de chamar as feministas contra o jornal. Sim, muitas delas disseram que iam abandonar o jornal por minha causa. Alguém acredita nisso? Em resposta, devo dizer que Porto Alegre é um ovo e que fui algumas vezes cumprimentado na rua por feministas em razão do mesmo texto. Ou seja, a rejeição não era consensual.

Fiquei puto ao notar novamente um respeito sem sentido pela militância, sem interessar quão tola seja.

Critico uma versão específica da política identitária que é performática em suas demonstrações de consciência social. Não gosto particularmente porque é um grupo muito inclinado a censurar, a atacar em bloco indivíduos. Odeio isso. Ao calar seus inimigos políticos, eles calam também o dissenso dentro da própria esquerda e é este dissenso que sempre fez a esquerda ser vibrante intelectualmente. São os questionadores que evitam que a ideologia se fossilize porque nos obrigam a repensar. Mas suas vozes foram caladas.

Angela Nagle

É impressionante como essa mentalidade censora se espalhou. O pior é que as pessoas nem se dão conta dela e de como a censura e o constrangimento causado pelos “erros” de gente bem intencionada — e, fundamentalmente, de mesma ideologia — resultaram na colocação da esquerda em um gueto no qual esta passou apenas a falar para si mesma e não com a sociedade. Pior, com uma linguagem toda própria, muitas vezes incompreensível não somente para a população, mas para quem estivesse desinformado. Ah, as vanguardas… Nós contribuímos demais para a ascensão da direita, que deve permanecer por décadas com boa parte do poder.

Enquanto isso, estávamos preocupados com a apropriação cultural, com o lugar de fala, com as bolhas e não com as coisas que estavam realmente no imaginário popular. Nós adubávamos a segmentação para satisfazer certos grupos, gastávamos energia com as polêmicas do dia e com as malditas audiências públicas sobre porra nenhuma e não com avanço dos evangélicos nas periferias, com o recuo da mentalidade científica, com o próprio papel das redes e com aquilo tudo que acabou viabilizando o inferno bolsonarista.

Fico triste com minha falta de força. Sinto-me em parte responsável por nossa tragédia, apesar de ter passado anos dizendo que o maior perigo desse país estava no fundamentalismo religioso e na desgraça que é nossa educação. Mas fui vencido de todas as formas.

Bom dia, Coudet (com os lances do vexame de ontem)

Bom dia, Coudet (com os lances do vexame de ontem)

O resultado de ontem foi não apenas um vexame como um balde de água fria para quem estava entusiasmado com teu time. Perder para o último colocado do campeonato, com este jogando com dez jogadores desde o primeiro minuto de jogo, diz muito mal do Inter, Coudet.

Quando falo em vexame, estou sendo delicado. Atuações como a Abel Hernández e Edenílson são inaceitáveis. E Moisés e Rodinei já comprovaram uma ruindade como a de Pottker.

Abel Hernández: atuação comprometedora | Foto: Ricardo Duarte / SC Internacional

D`Alessandro também não tem mais condições de iniciar uma partida. Sua presença só se justifica quando estamos ganhando o jogo e queremos a bola. Ele não é mais aquele jogador que supera a marcação e abre retrancas. Passou o jogo desejando ser derrubado e batendo faltas, sem nenhum resultado.

Já Cuesta tem que tomar um choque e Musto deveria ter saído de campo assim que o Goiás ficou com dez. Parece que o volante argentino deixa o time mais moroso ainda na saída de bola. Contra uma retranca, sua presença é prejudicial.

Os salários estão em dia mesmo. Às vezes parece que há desídia, desleixo.

O Inter pega o América de Cali na próxima quarta-feira (16), às 19h15. Se apresentar algo parecido com o que vimos ontem… Sei lá. Para este jogo, o Inter não poderá contar com:

— Cuesta (tem jogado muito mal)
— Moisés (horroroso)
— Edenílson (apático)
— Praxedes (ontem só deu passes para os lados)
— Marcos Guilherme (outro que tem jogado muito mal)
— Musto (sua ausência não fará falta)
— Guerrero (que pena)
— Yuri (o qual pouco vimos)
— Pottker (pelamor)
— Peglow (a ver)

Ou seja, não são ausências espetaculares, até porque são jogadores que estão em péssima fase, à exceção, é claro, do grande Guerrero. Descobrir que esses dez não farão muita falta dá uma mensagem bastante estranha sobre nosso elenco.

Pelo Covidão 2020. retornamos a campo no sábado que vem (19), às 19h, contra o Fortaleza fora de casa, quando provavelmente perderemos o liderança.

Boa sorte, Coudet.

P.S. — Impressão minha ou todos ou quase todos envolvidos na Libertadores patinaram na rodada do fim de semana?

Porto Alegre tem coisas que só Porto Alegre mesmo

Hoje, com toda aquela chuva, a Feira da Vasco estava lotada. Lotadaça, uma coisa inacreditável. Guarda-chuvas se batiam ou eles caiam sobre frutas e legumes enquanto as pessoas guardavam suas moedas e carteiras. Um mascarado molhava o outro, a maior barafunda.

Mas os sábados são também os dias em que vou ao supermercado. E, aqui, a maior surpresa: o Zaffari da Fernandes estava absolutamente vazio. Peguei as coisas da semana e fui para um dos vários caixas que me esperavam sem fila.

Mas, sabem? Antes, quando fui pegar alho na Feira, o cara da banca me disse para levar um saquinho roxo com vários alhos empilhados. Um gracinha de produto, mas eu disse pra ele:

— Não. Prefiro escolher um por um porque minha mulher gosta bem durinho.

OK, foi uma frase infeliz, impensada e o cara gritou para toda a banca e fregueses:

— Ô, pessoal, a mulher deste cidadão gosta bem durinho!

Foi uma risada só. Todo mundo me olhou. Uma mulher da banca disse que também gostava assim e que não via problema.

OK, fiquei sem jeito, preferia uma piada mais classuda. Ele não perde por esperar.

Porto Alegre tem coisas que só Porto Alegre mesmo.

Pois é, o PQP Bach não acabou…

Pois é, o PQP Bach não acabou…

Venho aqui deixar essa mensagem, pois nas semanas passadas joguei no google PQPBACH e fiquei triste de perceber que o site com o domínio anterior havia sumido. Passei alguns dias tentando novamente e já esperava pelo pior. Para mostrar minha admiração, vou colar abaixo o texto que escrevi quando tinha me convencido que o blog havia acabado. Um abração a todos os envolvidos.

Algumas semanas atrás fui visitar o melhor blog (sim, isso ainda existe) sobre música clássica do Brasil e descobri que ele havia sumido. Depois de muito vasculhar, não encontrei qualquer explicação sobre o ocorrido, então decidi aguardar alguns dias, visto que isso já havia se passado antes. Porém após tanto tempo creio que dessa vez o fim seja definitivo. Estou falando, é claro, do P.Q.P.Bach.

Sim, o nome pode causar estranhamento, mas o conteúdo era sem dúvida inigualável, e o melhor sobre o assunto entre todos os sites que visitei.

Me tornei frequentador assíduo em 2007 e, através dele, tomei conhecimento de muitas das grandes músicas e compositores que admiro até hoje. Luciano Berio, Mahler, Prokofiev e Shostakovich são apenas alguns exemplos que me foram apresentados por lá, coisa pela qual serei eternamente grato por toda a vida.

Mesmo com o acesso às plataformas de streaming — o blog oferecia links para downloads gratuitos, muitos deles raríssimos —, o PQP seguia como um norte, sempre trazendo indicações certeiras, através de uma pesquisa acurada e muito bem contextualizada, mas sempre carregada de bom humor, que a ajudava a desmistificar o estigma que envolve o ouvinte e a própria música clássica como algo elitista — no pior sentido da palavra — e ou chato. Com a quantidade gigantesca de música para se conhecer e apenas uma vida para se viver, o papel que eles tiveram para mim — e para tantos outros — é digno de total respeito e admiração. Obrigado pessoal, a eternidade agradece.

Assinado: João Herberth leitor-ouvinte-admirador do PQP Bach.

Bom dia, Chacho (com os gols de Inter 2 x 0 Ceará)

Bom dia, Chacho (com os gols de Inter 2 x 0 Ceará)

Tivemos um terrível primeiro tempo e uma segunda etapa tranquila. Teu time, Coudet, parece ser assim mesmo, de radicais variações de ritmo durante os jogos, o que não é bom. Iniciamos mal, acabamos bem, vencemos, mas poderia ter sido bem mais complicado se o Ceará tivesse marcado naquela primeira etapa. Mas quem tem Galhardo marca antes, né? Sorte nossa, tem sido assim.

Thiago Galhardo, o homem não para de fazer gols | Foto: Ricardo Duarte – SC Internacional

Em todos os jogos ocorre um longo período em que ficamos desligados. Quando os adversários são fracos e não aproveitam, OK mas quando pegarmos adversários mais fortes, tipo o Flamengo, de modo nenhum podemos nos dar o luxo de estarmos um longo tempo fora do jogo, sob pena de acontecer um massacre. Ontem, ficamos desligados nos 30 primeiros minutos. E vide o final do último Gre-Nal.

Agora são 9 rodadas do Covidão 2020. Temos 20 pontos, com aproveitamento de 74,1% e saldo +10. A próxima partida será domingo, às 18h, contra o Goiás em Goiânia. Trata-se do último colocado do campeonato com uma vitória em sete jogos. Jogo fácil, mas há Libertadores na próxima quarta-feira — com 6 suspensos e 3 lesionados — e talvez ainda poupemos vários jogadores. Projeção de time? Isso o próprio Chacho responde:

— Penso o dia a dia. Preciso ver como estão os jogadores. Amanhã terei um parâmetro. No sábado, terei as 48 horas após o jogo e aí verei os melhores para domingo (contra o Goiás, em Goiânia). Não posso projetar muito.

Não somos um time para ser campeão, mas espero que sigamos próximos da ponta até o fim.

Pré-jogo de Inter x Ceará

Pré-jogo de Inter x Ceará

Ontem, sem jogar, o Inter voltou a ser líder por aproveitamento. É importante vencer hoje não somente para ampliar a vantagem, que é mínima, mas para ficarmos duas rodadas afastados de perder a liderança.

Se vencermos, ficamos a três pontos dos perseguidores Flamengo — franco-favorito para levar a taça novamente –, São Paulo e Vasco (se este ganhar seu jogo de hoje). Disse duas rodadas de distância porque, mesmo que eles encostem em nós, temos saldo de gols maior.

Então, hoje é dia de não fazer bobagem. Chega de tomar gols nos acréscimos. Nos últimos dois jogos, foram 4 pontos perdidos naqueles minutinhos finais em falhas incríveis de Moisés e Rodinei. Sei que a taça da burrice anda borbulhando e transbordando em todos os lugares, só que a esperança do torcedor aqui é que a nossa pare de vazar.

Chega de bobagens, né, Moisés? | Foto: Ricardo Duarte

 

Como votou ‘certa esquerda’ sobre a anistia da dívida das Igrejas…

Como votou ‘certa esquerda’ sobre a anistia da dívida das Igrejas…

Credo, que vergonha! Vou te contar, hein, PCdoB! Podem esquecer o meu voto. Afinal, ainda lembro do tempo em que a esquerda era de esquerda.

O PSol (e o Novo) foram unânimes na reprovação do perdão à dívida e quase todo o PT também. O resultado foi que o Congresso perdoou R$ 1 bilhão de dívidas… Ah, também quero! Vou parar de pagar impostos. O Estado é laico, não tem que perdoar dívida de quaisquer Igrejas.

2020: a culpa é de Beethoven

2020: a culpa é de Beethoven

Eu vou dizer pra vocês uma coisa muito séria. A culpa de 2020 estar sendo esta coisa que está sendo é de Beethoven. Sim, do cara das beterrabas e da Nona.

O cara faz 250 anos de nascimento este ano e todo mundo ia comemorar o ano de forma muy contenta. Estava tudo programado e alinhavado, mas estavam fazendo festa para festejar a existência de um músico surdo que seguiu compondo, que escreveu seu maior quarteto após quase morrer de um mal que não entrarei em detalhes devido à fedentina, que era alcoolista mas gostava de um vinho húngaro que vinha com mercúrio e que talvez o tenha matado, que era feio de doer, que era revolucionário e todos sabem o destino desses caras… Ô, desglória!

Bem, pensando melhor, era pra comemorar mesmo. Vem, vacina russa. Chega logo, porra, o ano tá acabando e o níver dele é dia 17 de dezembro!

O Herói do Nosso Tempo, de Mikhail Liérmontov

O Herói do Nosso Tempo, de Mikhail Liérmontov

Ah, a literatura russa do século XIX… Quando jovem, eu achava que ela era um fenômeno que se limitava a indivíduos como Dostoiévski, Púchkin, Gógol, Tolstói, Tchékhov, Turguêniev — e já eram muitos para um país semifeudal, pobre e lotado de analfabetos e escravos! — mas depois fui adiante com Oblómov e este O herói do nosso tempo (Martins Fontes, 221 páginas). E, olha, que livros, que literatura!

(Bem, os argentinos também têm uma penca de escritores fantásticos vá saber por quê).

Liérmontov foi um dezembrista. Ocorrida na Rússia em 1825, a Revolta Dezembrista desejava a supressão do regime servil, o fim do feudalismo, a implantação de uma democracia representativa na Rússia czarista, programas de incentivo às artes e às ciências e aproximação do país à Europa. O czar Nicolai I respondeu às reivindicações com repressão implacável, censura, tortura e o fim das atividades científicas. E, desta forma bolsonarista, venceu, sufocando a revolta. Tal tragédia foi respondida por um clima de indiferença a todo o sentido de dever, justiça e verdade, além de um desdém cínico pelo pensamento e pela dignidade do homem. É claro que isto foi impulsionado pela novidade do romantismo, que estava em seu início.

Por que iniciei minha resenha assim? Ora, porque tudo isso está incrustrado no personagem principal do livro, Pietchórin. O Herói do Nosso Tempo é não somente o retrato desse herói entediado, mas também desse tempo em que as dissidências foram esmagadas e só resta o imobilismo geral ou a exibição cínica do desinteresse. É claro que os czaristas achavam o livro desprezível.

A obra-prima de Mikhail Liérmontov é um dos mais influentes e importantes romances russos. Ele é composto por cinco seções, todas girando em torno de Pietchórin. Ele é um dos personagens mais ambíguos da literatura mundial: mente, engana e manipula os outros para obter o que deseja – e quando consegue já não sabe mais se quer aquilo.

O Herói do Nosso Tempo não é o habitual calhamaço russo. Tem pouco mais de 200 páginas e vem com um pequeno elenco de personagens. Como disse, o livro é dividido em cinco partes, sempre com o mesmo personagem principal, o citado Pietchórin. Com ele, Liérmontov talvez tenha criado o primeiro anti-herói da literatura. Num primeiro momento, Liérmontov faz com que o cínico e sem raízes Pietchórin aproxime-se de nós por meio das reminiscências de um veterano capitão que servia no Cáucaso. Em seguida, o conhecemos rápida e diretamente e, finalmente, por meio de seus próprios diários, que acabam abruptamente, como se o autor tivesse simplesmente largado a caneta.

Ou levado um tiro. A vida de Liérmontov não ficou muito distante da de seu personagem: afinal, o autor também serviu como oficial no Cáucaso, entrou em encrencas românticas e perdeu a vida em um duelo. Aliás, provavelmente, este duelo tenha sido provocado por ordem de Nicolau I. No momento do tiro, Liérmontov ergueu a arma e atirou para o alto, porém, seu “desafeto” cumpriu a ordem do czar e o autor morreu aos 27 anos com um tiro à queima-roupa, tendo deixado este estranho e belo romance e uma importante obra poética que todo russo conhece.

Pietchórin é certamente uma versão endurecida de Liérmontov. Era alguém que poderia manipular os corações das mulheres aparentemente à vontade, ou que poderia alegremente ir a um duelo fraudulento. “E daí? Se eu morrer, morrerei! A perda para o mundo não será grande. Sim, já estou bastante entediado comigo mesmo. Sou como um homem que está bocejando em um baile”.

Pietchórin é uma grande criação. Ele é por demais atraente e envolvente. Pode ter características lamentáveis ​​e é uma ameaça a si mesmo e àqueles ao seu redor. É desagradável muitas vezes. “Talvez alguns leitores queiram saber minha opinião sobre o caráter de Pietchórin. Minha resposta é o título deste livro. ‘É, eis uma ironia ferina!’, — dirão. Não sei”. Essas duas últimas palavras resumem lindamente a ambiguidade do livro. O próprio prefácio de Liérmontov diz que o livro é “um retrato composto das falhas de toda a nossa geração em seu desenvolvimento completo” e também usa a palavra “desagradável” para descrever Pietchórin.

O Herói do Nosso Tempo é narrado em primeira pessoa por três personagens diferentes, sendo que o último é o próprio Pietchórin escrevendo um diário. Tudo é digno de interesse, e gostei muito da sensação estética de ver o que vai se revelando para compor o personagem à medida que os capítulos vão passando. O livro é de arrebatador. Não preciso nem dizer que, como os russos de sua época, Liérmontov foi um mestre.

Mikhail Liérmontov (1814-1841)