Em agosto de 1922, Virginia Woolf abriu uma página em branco de um de seus cadernos a fim de fazer algumas anotações sobre “um livro que talvez se chamasse ‘Em Casa’ ou ‘A Festa’”. Um trecho:
“Este será um livro curto, composto por seis ou sete capítulos, cada um completo em si mesmo, mas que deverá apresentar algum tipo de fusão entre si. Todos devem convergir para a festa no final. Minha ideia é ter alguns personagens, como Mrs. Dalloway, muito em relevo: então ter interlúdios de pensamento, ou reflexão, ou breves digressões (que devem estar relacionadas, logicamente, ao resto), tudo compacto, mas não abrupto.”
Segue-se uma lista de capítulos potenciais, começando com “Mrs. Dalloway in Bond Street”, um conto que ela havia terminado recentemente (e na primeira linha do qual Clarissa Dalloway decide comprar luvas para si mesma), e então esta nota: “Capítulos para serem feitos em um mês, aproximadamente. Deve haver alguma diversão —”.
“Mas se os escritores modernistas nos ensinaram alguma coisa, é que nossa experiência do tempo raramente é linear, que sob a superfície de cada momento presente correm profundas correntes de memória”, escreveu Mark Hussey em seu livro ‘Mrs. Dalloway: Biografia de um Romance’:
“Portanto, embora aquele esboço em seu caderno represente Woolf começando a planejar seu próximo romance, reunindo ideias que vinham amadurecendo há algum tempo, não seria correto considerá-lo como ‘o’ início de Mrs. Dalloway… Podemos identificar muitas fontes para o mundo criado por Woolf em seu quarto romance, mas nenhuma inspiração original específica.”
Ainda assim, em agosto de 1923, um ano depois, ela estava no meio do processo. “Tenho lutado há muito tempo com ‘As Horas’ [título provisório de Woolf para Mrs. Dalloway], que está se revelando um dos meus livros mais tentadores e resistentes”, escreveu ela em seu diário.
“Algumas partes são tão ruins, outras tão boas! Ainda não consigo parar de inventar — ainda. Qual é o problema? Mas quero me revigorar, não me anestesiar, então não direi mais nada. Só preciso observar este sintoma peculiar: a convicção de que continuarei, levarei isso até o fim, porque me interessa escrever sobre isso.”
No dia seguinte, ela acrescentou:
“Sabe, estou pensando freneticamente sobre leitura e escrita. Não tenho tempo para descrever meus planos. Devo falar bastante sobre ‘As Horas’ e minha descoberta: como escavo belas cavernas por trás dos meus personagens; acho que isso me dá exatamente o que quero: humanidade, humor, profundidade. A ideia é que as cavernas se conectem e que cada uma venha à luz do dia”.
As belas cavernas deram frutos. Mrs. Dalloway foi publicado em 14 de maio de 1925 pela Hogarth Press, a editora que Woolf dirigia com seu marido, Leonard Woolf, com uma capa que se tornaria icônica, criada pela irmã de Woolf, Vanessa Bell. Vendeu modestamente, mas desde então se tornou uma das obras mais celebradas — e influentes — do cânone literário inglês.
Por alguma razão, eu queria ir ao Bairro, um local úmido na Zona Sul de Porto Alegre, que era habitado em sua esmagadora maioria por reacionários. Pedi um Uber e o cara me disse que me levaria até a entrada do Bairro, mas que jamais entraria naquele antro bolsonarista. Concordei.
Chegando no limite determinado pelo motorista, desci do carro e penetrei no Bairro. Era tudo sombrio, escuro mesmo, logo veio um ônibus. Entrei e perguntei ao motorista onde ele ia. Ele me respondeu que todos os ônibus do Bairro eram circulares, que nenhum me levaria para outro lugar que não o próprio Bairro.
— Dou voltas o dia inteiro. Trabalho 24/7. Não tenho folga. Só paro quando morrer.
— E se tu bater com o ônibus?
— Se bater, não sei o que acontece.
— OK — respondi.
Então o ônibus começou a andar pelo Bairro. Era lindo. A arquitetura era gótica, com edifícios enormes. O ônibus entrava nos corredores dos edifícios, belíssimos e úmidos, com água vertendo das paredes cravejadas de pingos. Tudo era grande, imenso e lindo, apesar de lembrar filmes de terror. Tinha muitas esculturas ameaçadoras. Vi alguns monstros de Goya transformados em pedra.
Desci do ônibus, pois avistei um local iluminado. Só podia ser um bar. Era e a placa da porta anunciava em giz branco:
HOJE, ÀS 23h, SHOW COM O POWER TRIO “LIBERTÉ, ÉGALITÉ & VAI SE FUDÊ”
Gostei da coisa e entrei. Pouca gente. Pedi uma garrafa inteira de cachaça Weber Haus amburana e esperei pelo show. O trio, somadas as idades, tinha mais de 210 anos. Liberté era baixista e vocalista, Égalité, guitarrista, e Vai se fudê era o baterista. Liberté era até razoável, Égalité era uma merda; quem salvava o grupo era o excepcional Vai se fudê. Parecia o baterista do Angine de Poitrine. Um sujeito exato, se me compreendem. No conjunto, eram bem ruins.
No intervalo do espetáculo, vieram sentar-se comigo. Liberté só queria saber da minha cachaça, Vai se fudê estava quieto e Égalité não parava de falar. De repente, Égalité disse que Vai se fudê estava muito deprimido porque queria que um amigo especial viesse a seu casamento que seria dali um mês.
— O amigo negou-se a vir?
— Não, nem foi convidado.
— E quem é ele?
Égalité me disse que era Paulo Cézar Caju. Fiquei surpreso e perguntei porque Vai não tentava contato. É que Vai queria que uma pessoa culta fizesse o convite, não um borra-bostas como nós. E Égalité me propôs ligar para Caju, pois achou que eu era suficientemente fino para tanto. Fiquei envaidecido. Com a falicidade dos sonhos, peguei o celular e liguei para Caju, que hoje mora na França.
— Caju? Ça va? Tudo bem? Teu amigo Vai se fudê quer a tua presença em seu casamento.
— Pelo Rio Grande do Sul, por essa escumalha, eu não movo uma palha. Mas pelo meu amigo Vai, vou, sim.
— Por que detestas tanto nosso estado?
— Porque tudo aí é falso.
— Mas tu não foste Campeão do Mundo pelo Grêmio?
Ouvi uma risadinha de escárnio da voz grave de Caju.
— Falso Campeão do Mundo — ganhamos um torneio ridículo patrocinado pela Toyota. Falso Grêmio — contrataram eu e o Mário Sérgio só para jogar aquele jogo. Aquilo não era o Grêmio. E jamais me valorizaram, valorizaram só o Mário Sérgio. Ele era branco, claro.
— Tá, mas tu vens pro casamento?
— Vou.
Todos na mesa se animaram. Falamos de música. Égalité confessou que ele, como músico, não existia, que era como a Égalité mesmo!
Corta.
Caju está na minha casa se arrumando para ir ao Bairro. Ele e sua mulher, uma deslumbrante senegalesa, estão se aprontando. São padrinhos de Vai. Caju sai do quarto com um terno cor-de-rosa. Vou causar no Bairro, ele me diz. Pegamos o Uber. Quando chegamos ao bar — o casamento seria lá –, o rosto de Vai se fudê iluminou-se ao ver Caju e sua senagalesa. Eu e Elena entramos atrás. Vai se fudê chorava dizendo meu amigo, meu amigo… A mulher de Vai, uma velhinha magrinha de olhos azuis, tinha lágrimas até no queixo.
E então eu acordei. Estava realmente comovido. Elena, a meu lado, toda coberta, aquecia sua bochecha direita no travesseiro. Mal ela sabia que também chorara ao ver o reencontro dos amigos.
Encontro com o Mar (1962) é mais uma obra breve e profunda de Pär Lagerkvist. Novamente, a religião está presente, como em tantos livros deste ateu. Este livro é a continuação de A Morte de Ahasverus. E é uma continuação pra lá de estranha. Estamos no tempo das Cruzadas — Tobias consegue um meio de ir para a Terra Santa. Paga o comandante de um barco pirata para levá-lo. No meio do caminho, após uma luta, temos um longo monólogo de um dos integrantes da tripulação. O livro termina após este monólogo. Lagerkvist não está nem aí para questões de simetria ou para fechar os parênteses que abriu. O livro existe para mostrar o motivo pelo qual um padre abandonou a batina: a luxúria. Tudo diante de uma enorme mar enigmático, mais velho que todos nós.
No navio estão o Capitão — homem minúsculo de voz frágil que governa a todos com mão de ferro –, o Gigante — especialista em pilhagens e ataques brutais –, Ferrante — movido por insaciável desejo de riquezas e pela pura maldade –, e Giusto — o pusilânime. Mas é com Giovanni que Tobias estabelece o vínculo mais profundo. Como o ex-padre acabou naquele antro de marginais? Criado pela mãe viúva para tornar-se sacerdote, vivendo na mais estrita observância dos dogmas, Giovanni sucumbe ao desejo sexual quando ouve a confissão de uma mulher casada atormentada por uma paixão adúltera. A voz e o hálito da mulher… O confessor, enredado pela voz, transforma-se em amante.
A escrita é característica do autor: austera, precisa, despojada. Cada frase parece medida para dizer apenas o essencial, e justamente por isso ganha densidade. Não há excesso emocional, mas uma contenção que intensifica o efeito. O leitor é tão convidado a acompanhar a história, quanto a habitar um estado de espírito. Como em outras obras de Lagerkvist, a busca pela fé é a busca pelo sentido. Não há como ir adiante. O mar, nesse contexto, pode ser lido tanto como ausência de Deus quanto como sua manifestação mais enigmática.
Para leitores que apreciam a ficção escandinava de inquirição filosófica — algo na linhagem de Ingmar Bergman –, Encontro com o mar é uma joia breve, densa e inesquecível. Não se trata de um romance de ação, mas de um longo e sereno confronto com as perguntas que não se calam: o que separa um padre de um pirata? A fé resiste ao desejo? E, acima de tudo, há paz possível?
Fabrício Falkowski é uma figura rara no jornalismo. Num mercado onde os profissionais estão sempre pulando de uma empresa para outra — seja por opção, seja pelos frequentes passaralhos (demissões) — Fabrício está há 27 anos no Correio do Povo, sempre cumprindo a função de setorista do SC Internacional. Ele começou lá em 1999 e permanece no posto até hoje. Neste livro cheio de detalhes deliciosos, ele conta os últimos 25 anos do Inter, de 2000 a 2024. Fabrício não é um repórter chapa branca. Pelo contrário, foi o cara que trouxe à tona a roubalheira que culminou na responsabilização e condenação do ex-presidente Vitorio Piffero e de seu factotum Pedro Affatato por desvio de valores para benefício próprio, entre 2015 e 2016 –, ano em que o Inter caiu para a segunda divisão pela primeira e única vez em sua história.
Um dos pontos mais interessantes do livro é o foco: Fabrício narra o dia a dia, mas também se volta para o processo jornalístico. Como se constrói uma notícia? Onde termina a informação e começa a opinião? E há o “Nós” do título — ou seja, o livro inclui tanto o autor como o torcedor que consome e se consome no clube e reage às informações. Pois é importante ter um olho na rede de expectativas, paixões e distorções.
O livro tem 412 páginas com fotos e muitos detalhes pouco conhecidos dos bastidores do clube. O texto é fluido, grudento, fácil de ler. Há pra todos os gostos. Há tragédia para quem é de tragédia, há a narrativa dos grandes feitos para quem quiser rememorar aqueles dias. Há também os períodos de pasmaceira. Fabrício viajava muito com o clube. Foi ao Mundial Fifa de 2006, por exemplo. A desgraça de 2016 está muito bem contada, assim como os bastidores dos já citados roubos de dirigentes. Apesar de ser escrito em primeira pessoa, cabem tanto observações pessoais do repórter como da evolução do jornalismo. Não se trata de jornalismo gonzo — ou seja, o repórter não é o protagonista, só se torna parte da história quando uma notícia sua muda os rumos do clube.
Interessou-me muito a evolução ou involução do jornalismo esportivo. Fabrício fala no empobrecimento do jornalismo esportivo. É verdade. Antes, as entrevistas era frequentes e sabíamos mais dos profissionais. Os repórteres viam os treinos. Hoje, os treinos são fechados — precisa ser sempre assim? –, só os chatíssimos técnicos dão entrevistas e muitas vezes nem se conhece a voz dos jogadores que se ama ou detesta. É uma perda não sabermos quem é burro, quem é inteligente. Existem câmeras mostrando cada detalhe dos lances, mas não se sabe bem quem é o jogador, se ele é articulado ou se é um Jardel. Tudo ficou muito distante. Recentemente, Fabrício passou a perambular por assuntos também importantes — como o efeito da liberação das bets.
O Inter, o Jornalismo e Nós não oferece respostas fechadas, nem busca absolver ou condenar. Para mim, foi como ler um detalhado balanço de um tempo em que aconteceu literalmente de tudo. Um balanço que, de certa forma, é também a minha história como fanático do futebol.
Recomento fortemente aos colorados! Ah, o livro está quase de graça na Bamboletras: R$ 49,90.
Gosto demais dos artistas escandinavos. Bergman, Vinterberg, Strindberg, Ibsen, Sibelius, Berwald, Hamsun, Blixen, Knausgård — todos ótimos. Para completar, amo o frio, me sinto muito bem com ele. Meu termostato corporal parece ter sido regulado na Finlândia que não conheço. Então, vamos a mais um livro do sueco Largerkvist.
A Morte de Ahasverus (li na edição de 1964 ao lado, mas o livro foi relançado em 2023 e pode ser encontrado) é uma novelinha bem curta. Se passa na época das Cruzadas, com aquele monte de gente indo estupidamente à Terra Santa. Contrariamente a O Sétimo Selo, de Bergman, aqui as pessoas estão indo e não voltando da jornada. Assim como Bergman era um ateu nascido em uma família altamente religiosa, Lagerkvist descreve-se como “ateu religioso” ou um “crente sem fé”. Sim, só fazem ateus assim na Escadinávia. O livro move-se entre a parábola e a meditação metafísica. Inserido no ciclo de romances que orbitam o universo religioso (como Barrabás e Encontro com o Mar), o texto retoma a figura lendária do judeu errante, Ahasverus, condenado à imortalidade por ter rejeitado Cristo. Mas Lagerkvist não se interessa pela lenda em si: ele a transforma num instrumento para pensar o paradoxo fundamental da existência humana — querer viver sem fim e, ainda assim, desejar a morte.
A narrativa tem algo de arcaico. Começa numa estalagem medieval, onde diferentes personagens — peregrinos, marginalizados, figuras errantes — se cruzam. Nesse cenário quase teatral, Ahasverus surge menos como protagonista tradicional e mais como um coadjuvante que ouve histórias de desejos e destinos. Ao seu redor, personagens como Tobias e Diana (velhos amantes) parecem responder a um chamado silencioso. Não sabem porque estão indo para a Terra Santa, mas estão indo.
Ahasverus, condenado a vagar eternamente, encarna uma ideia: a de que viver sem fim não é uma bênção, mas uma condenação. A morte, em seu contexto, deixa de ser ameaça e passa a ser desejada — é quase como uma libertação. O título já anuncia o paradoxo: a morte daquele que não pode morrer. Lagerkvist mantém o estilo que o caracteriza: linguagem despojada, austera, mas carregada de simbolismo. Não há explicações psicológicas nem desenvolvimento tradicional de personagens. Em vez disso, o livro avança em encontros, monólogos, diálogos e situações que mostram muitas dúvidas sobre a jornada.
Essa economia intensifica o caráter filosófico da obra: cada cena funciona como uma variação sobre os mesmos temas — sofrimento, fé, destino — criando uma atmosfera quase religiosa. Todas as falas dos personagens que não acreditam em deus citam-no em minúsculas. Só Ahasverus usa Deus. Isto — o fato dos descrentes falarem deus — é explicado em nota. A crença aparece como um enigma. Como em outras obras de Lagerkvist, o leitor fica perplexo diante do mistério. E talvez seja essa a sua verdadeira força — a de transformar uma antiga lenda em uma meditação moderna sobre a condição humana, onde viver e morrer deixam de ser opostos claros e passam a habitar a mesma zona.
Já ouvi várias pessoas me dizendo que iam roubar minha edição de O Anão. O livro foi publicado pela Civilização Brasileira em 1970, época em que a editora era sinônimo de bom livro e de resistência à ditadura. Mas O Anão nunca foi republicado e virou raridade. Houve tempo em que o livro estava custando R$ 1000 na Estante Virtual. Hoje, sua cotação está bem mais baixa, o que não se reflete em sua qualidade. Li as 150 páginas de meu cobiçado volume em voz alta para minha mulher — um hábito nosso — e podem crer que o livro não perdeu nada após tantos anos.
Pär Lagerkvist é um dos tantos Nobéis de Literatura escandinavos. Todos são suspeitos, como o medíocre Jon Fosse. Só que eu garanto: li alguns de seus livros e o cara é muitíssimo bom, genial mesmo. O Anão é um romance curto, mas de uma força perturbadora que poucos livros alcançam. É escrito em primeira pessoa pelo próprio — um anão que vive numa corte renascentista italiana. Mais do que observar, ele encarna o ódio, o desprezo e uma visão radicalmente negativa da humanidade. A escolha desse narrador é decisiva: Lagerkvist não descreve o mal de fora, mas o faz falar. E essa voz é tanto mais inquietante quanto mais lúcida e coerente se apresenta.
Desde as primeiras páginas, percebe-se que o anão não é apenas um personagem, mas uma espécie de catalisador, afinal, ele provoca acontecimentos com suas ações. Ele não faz momices, é sério, pretende-se um conselheiro e aspira a ter a grandeza de seu príncipe. Além disso, despreza o amor, a arte, a religião e qualquer forma de compaixão, vendo nelas meras fraquezas. Sua existência parece ser definida pela negação do humano — e, paradoxalmente, é justamente isso que o torna profundamente humano. A vida na corte — com suas políticas, intrigas, traições e violências — parece ser seu habitat.
O anão se percebe como alguém à parte, quase de outra espécie, superior aos homens que despreza. No entanto, à medida que a narrativa avança, torna-se claro que ele é menos uma exceção monstruosa e mais uma caricatura de toda a situação da corte. Como diz o próprio, o que assusta nos homens não é o anão em si, mas “o anão que se esconde neles” — uma dimensão sombria que preferimos ignorar.
A ambientação renascentista funciona como cenário simbólico. Em meio à arte, à ciência e ao poder — elementos associados ao florescimento da época — Lagerkvist introduz uma presença que desmente qualquer idealização. O anão atravessa guerras, epidemias e conspirações, sempre revelando o quanto a civilização convive com a barbárie. Nesse sentido, o livro dialoga com o contexto em que foi escrito (em 1944), quando a Europa confrontava o horror — tema central na obra do autor.
A cidade-estado renascentista onde ocorre a ação não é clara, mas há um personagem chamado Bernardo, que é sem dúvida inspirado em Leonardo da Vinci, o que nos faz pensar no final do século XV. Também há referências a igrejas que se encontram na região de Florença. Ao mesmo tempo, o anão, narrador do romance, fala em criações como A Última Ceia, pintada em Milão… Além disso, o príncipe César Bórgia empregou Leonardo da Vinci como arquiteto militar… Desta forma, há muitas referências históricas dançando incontrolavelmente no contexto do romance.
Como disse, o anão é o narrador e tudo é contado alguns minutos ou horas após a ocorrência dos fatos e antes dos seguintes. Tal artifício faz com que todos os acontecimentos sejam quentes, contados de forma ofegante, e que O Anão planeje no papel seus próximos passos. Ou seja, a colocação do foco narrativo é muito inteligente, fazendo com que o leitor sinta a respiração do anão-monstro arquitetando suas vinganças, incorporando o mal e curtindo seu ódio de misantropo.
Ele obviamente ama a guerra, e quando lhe pedem para cometer um crime, ele o expande sob o pretexto de beneficiar o príncipe… Todos mudam durante o romance, todos mudam na cabeça do narrador, menos ele, que se mantém coerente da primeira à última página. Mesmo impressionado com a ciência de Bernardo, sente repulsa pela busca que este empreende para chegar à verdade e ao âmago das coisas.
A escrita é seca, direta, despojada — o que intensifica o impacto. Não há grandes explicações psicológicas nem tentativas de justificar o personagem. O mal não é analisado: é apresentado. E essa recusa de interpretação fácil é talvez o aspecto mais perturbador do romance. O leitor não encontra uma distância confortável. Ao contrário, é levado a reconhecer algo familiar. Afinal, convivemos com monstros como Netanyahu, certo?
Gabriel García Márquez, ao escrever Memórias de minhas putas tristes declarou ter-se inspirado neste livro de Kawabata, homenageando-o ao narrar uma história de amor não consumado com uma jovem adormecida. No livro de GGM, o velho protagonista não tem relações sexuais com a adolescente virgem. O encontro acontece de forma completamente diferente do que ele havia planejado. Ao chegar ao quarto, ele encontra a menina de 14 anos profundamente adormecida (dopada pela cafetina para acalmar seus medos). Diante da garota indefesa, o velho não tem coragem de acordá-la ou tocá-la. Em vez disso, ele apenas a contempla durante a noite, deita-se ao lado dela e também acaba dormindo. Na manhã seguinte, vai embora antes que ela acorde, sem nunca ter tido qualquer contato físico ou sexual com a jovem.
Não apenas GGM ficou fascinado pela obra. Mishima a considerava uma obra-prima, talvez a maior da literatura japonesa. E Vargas Llosa escreveu: “Breve, bela e profunda, A Casa das Belas Adormecidas deixa no ânimo do leitor a sensação de uma metáfora cujos termos não são fáceis de entender”.
As interpretações mais correntes são:
1. A Metáfora da Morte e da Velhice (a mais aceita)
A interpretação mais forte e recorrente é que a casa e as jovens adormecidas representam a relação do homem com a morte.
As jovens são a morte: belas, jovens e silenciosas, elas aguardam os velhos em um quarto que mais se assemelha a um túmulo. Eguchi, o protagonista, deita-se ao lado delas como quem se prepara para o último sono. A impossibilidade de acordá-las ou ter uma troca real é a impossibilidade de dialogar com a morte.
O sono é um ensaio: cada noite passada ao lado de uma “bela adormecida” é um ensaio para a morte definitiva. Eguchi busca, nas palavras de Mishima, “dormir um sono como a morte” ao lado da beleza pura, na esperança de que essa experiência seja menos solitária e aterrorizante.
A “vida após a morte”: o fato de as mulheres estarem vivas, mas inacessíveis, cria um estado liminar. É como se os velhos estivessem experimentando um além onde a beleza existe, mas a interação e a consciência, não.
2. A Metáfora do Desejo Puro e Irrealizável
Outra leitura fundamental é que o livro explora o desejo em seu estado mais radical e impossível.
O objeto sem sujeito: o desejo humano, especialmente na velhice, é frequentemente direcionado a um ideal. As jovens, ao estarem inconscientes, tornam-se o objeto perfeito do desejo: passivas, não rejeitam, não julgam, não têm vontade própria. São um receptáculo vazio onde o velho pode projetar todas as suas fantasias.
A ausência de relação: a grande ironia é que, para realizar seu desejo sem os entraves da realidade (a fala, a vontade da outra pessoa), Eguchi acaba por aniquilar a própria possibilidade de uma relação. Ele tem acesso ao corpo, mas não à pessoa. É o ápice do prazer solitário, uma fantasia que se torna real, mas que é vazia.
O desejo nostálgico: o que Eguchi realmente busca não é sexo, mas o contato com sua própria juventude perdida, suas memórias e vitalidade. As jovens são espelhos onde ele vê seu passado, um passado que não pode mais tocar.
3. A Metáfora do Japão Pós-Guerra e a Decadência Cultural
Numa chave sociológica e histórica, a casa pode ser lida como uma alegoria do Japão do pós-guerra sob ocupação norte-americana.
A casa como o Japão antigo: o espaço fechado, ritualístico, regido por códigos de silêncio e uma estética refinada, representaria o Japão tradicional, derrotado e envergonhado.
As jovens como a nação indefesa: as jovens virgens e drogadas seriam a própria nação japonesa, inconsciente, violada em sua soberania, mas mantida artificialmente “viva” e bela aos olhos dos estrangeiros (os velhos clientes).
A relação parasitária: os velhos (os EUA/ocidente) usufruem da beleza e da passividade do Japão, pagando por isso, mas sem jamais estabelecer uma troca genuína. O medo de Eguchi de que uma das jovens morra durante a noite reflete o medo de que o Japão “morresse” sob a ocupação.
4. A Metáfora do Olhar Masculino e da Objetificação da Mulher
Uma leitura feminista moderna vê o livro como uma alegoria radical do patriarcado.
A mulher como objeto: a casa é a materialização do “olhar masculino” levado ao extremo. A mulher é despojada de sua voz, de seu movimento, de sua consciência — ou seja, de sua humanidade — para se tornar um objeto de uso e descarte.
O velho como o poder: Eguchi não precisa seduzir, convencer ou pedir permissão. Ele simplesmente paga e consome. A anônima “mulher da casa” gerencia tudo, sendo uma cúmplice dessa estrutura de poder.
A violência estrutural: a violência do livro não está nos atos (que são, pelas regras, contidos), mas na própria premissa: criar um espaço onde a mulher é reduzida à sua função biológica de ser jovem, bela e virgem, enquanto o homem, mesmo decrépito e impotente, ainda detém todo o poder e o direito de consumir.
5. A Metáfora da Criação Artística
Uma interpretação mais metalinguística, adorada por alguns críticos, é que o livro é uma alegoria sobre o próprio ato de escrever.
O velho como o artista: Eguchi, imóvel, contemplando a beleza imóvel e tentando extrair sentido, memória e emoção dela, seria o artista diante de sua criação ou de sua musa.
As jovens como a obra de arte: a obra de arte (o romance, a pintura) está ali, bela, silenciosa e imóvel. Ela não responde, não dialoga. Cabe ao artista/leitor projetar nela seus significados, suas dores e suas memórias.
O ritual da criação: a ida à casa, o pagamento, a preparação do quarto, o deitar-se ao lado da beleza — tudo isso seria um ritual de criação artística, solitário e que acontece na fronteira entre a vigília e o sonho, a vida e a morte.
Em síntese:
A genialidade de Kawabata é que nenhuma dessas interpretações anula a outra. Elas coexistem. A casa é o corpo envelhecido que ainda deseja. As jovens são a juventude perdida e a morte que se aproxima. O sono é a impossibilidade de comunicação entre gerações, entre desejos, entre o eu e o outro. A transgressão está em desejar o que não se pode ter (a juventude, a vida, o outro). A beleza está em aceitar a derrota final e, ainda assim, contemplar o que é belo, ainda que esse belo seja uma ilusão fúnebre. O livro não oferece respostas fáceis. Ele oferece uma imagem perturbadora que cada leitor, como Eguchi diante da jovem, precisa contemplar e preencher com seu próprio significado.
(Elena, minha mulher, para quem eu li o livro em voz alta, disse que viu um enorme paralelo da obra com As intermitências da morte, indiscutível obra-prima de José Saramago. No livro de Saramago, a morte se afasta, aqui ela se aproxima. Muito).
Em março deste ano, começamos a reunir grupos de leitura na Livraria Bamboletras, grupos da própria livraria. O primeiro livro que escolhi foi Primeiro Amor, de Ivan Turguêniev. Eu tinha lido o livro há décadas numa edição portuguesa e gostara muito. Achei ainda melhor nesta releitura. Eu chamo estes grupos — os quais leem o mesmo livro a cada mês — de Pequenas Grandes Obras (PGO) ou Clube dos Clássicos Breves, mas os nomes não pegaram. A ideia é de ler livros grandes autores em pequenos formatos — não vamos solicitar a leitura de Moby Dick, mas por que não Bartleby? Ou A Morte de Ivan Ilitch em lugar de Guerra e Paz ou Anna Kariênina? Ou O Jogador em lugar de Crime e Castigo? Nada contra os livros longos — posso me considerar um dos Reis dos Calhamaços –, mas eu não gostaria que alguém me impusesse um livro enorme para ler em um mês. Todos nós temos nossas leituras e outras aspirações e não precisamos ser pautados de modo tão pesado, certo? E também acho que a grandeza de um livro não se mede por sua espessura, mas pelo seu impacto e eco em nossa consciência, certo?
Porém… Como os 6 leitores deste blog sabem, tenho o vício de escrever resenhas. Parece que só finalizo a leitura de um livro após escrevê-la. Lá vai mais uma.
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Ao saber do argumento da novelinha Primeiro Amor, de Ivan Turguêniev, logo as pessoas pensam em algo batido, já lido em livro ou visto no cinema. Novamente um adolescente apaixonado por uma jovem mulher? Acho até que o filme georgiano 27 Beijos Roubados é um pequeno roubo a Turguêniev. No filme, a menina promete cem beijos ao garoto apaixonado durante as férias, mas algo que descobrimos no final do filme fez com que ela ficasse devendo 27. Uma decepção. Apesar de breve, o livrinho de Turguêniev tem notável densidade emocional, psicológica e social — é um daqueles livros em que a aparente simplicidade esconde complexidades. Narrado como memória, o texto acompanha Vladímir, que revisita sua adolescência e o impacto devastador de sua paixão por Zinaída. Esse ponto de vista retrospectivo é decisivo: não se trata apenas de uma história de amor juvenil, mas de uma releitura madura de uma experiência formadora, em que o passado já está filtrado pelo tempo e pela perda. A narrativa, portanto, nasce da distância — e essa distância é o que lhe dá melancolia e lucidez.
O primeiro aspecto que impressiona é a forma como Turguêniev captura o caráter absoluto e açambarcante do primeiro amor. Não há medida, não há ironia interna no jovem Vladímir: ele ama com intensidade total, como se sua vida dependesse disso. Ele se derrama, se desmancha. Esse amor, no entanto, é recebido de forma hesitante e assimétrica. Zinaída, figura central e enigmática, exerce um fascínio quase cruel — cercada de um séquito de admiradores, ela alterna charme, manipulação e vulnerabilidade. A relação entre os dois nunca se equilibra: ele vive a experiência como revelação, enquanto ela joga um jogo. Essa diferença é fundamental para o efeito do livro.
O que Turguêniev constrói é, sobretudo, um curto romance de formação — uma passagem brutal da inocência à realidade. O momento decisivo da narrativa (sim, não convém revelar detalhes) desloca completamente o sentido do amor vivido por Vladímir e o insere numa dimensão mais complexa, onde entram poder, desejo e autoridade. A figura do pai, nesse sentido, é crucial: ela introduz uma camada trágica que transforma a história íntima em algo mais amplo, social, estrutural. O amor deixa de ser apenas sentimento e passa a ser também revelação do mundo adulto em sua ambiguidade moral.
A linguagem de Turguêniev acompanha essa transformação com precisão. Sua prosa é lírica, mas contida; sensível, mas nunca excessiva. Ele trabalha com olhares, gestos, silêncios e evita qualquer dramatização excessiva. Esse estilo cria uma tensão muito particular: os acontecimentos são intensos, mas narrados com uma serenidade que sugere compreensão tardia. A memória, aqui, não é apenas lembrança, mas forma de elaboração. É o passado sendo reorganizado pelas emoções do narrador.
Não obstante a voz do narrador, nota-se que não é somente ele que está sofrendo o primeiro amor. Se analisarmos a fundo, vamos encontrar mais dois primeiros amores acontecendo e em choque. (Isso explicaria a tradução do título do livro, que é Primeiro Amor e não O Primeiro Amor). Talvez o aspecto mais duradouro de Primeiro Amor seja justamente essa coexistência de intensidade e desilusão. O livro não idealiza o amor — pelo contrário, mostra-o como experiência e ferida. Amar, aqui, é aprender algo essencial e irreversível: que o outro não nos pertence, que o mundo não corresponde às nossas expectativas.
Ao final, o que permanece não é apenas a história de Vladímir, mas a sensação de que todo primeiro amor carrega em si algo de definitivo — não porque dure, mas porque marca. É uma experiência que inaugura não só o sentimento amoroso, mas também a consciência da perda. E talvez seja isso que faz deste livro uma obra tão persistente: ele não fala apenas do primeiro amor, mas da primeira vez em que compreendemos que crescer é, talvez, perder alguma coisa.
Você não vai gostar de nenhum dos personagens de Bestas Encurraladas, de Magnus Mills, creio eu. Este é um romance meio comédia, meio sério, que mostra as “maravilhas” do trabalho assalariado. A gente começa a ler e acha tudo muito simples, mas há por trás uma boa e sofisticada engrenagem literária. A história acompanha um narrador sem nome, promovido a chefe de dois operários escoceses — Tam e Richie — que fazem cercas no interior do país. Sim, cercas para fazendas, para impedir a fuga de animais. A rotina é repetitiva: estacas, arame, tensão da cerca, trabalho duro durante o dia, pub à noite, outras tensões com os clientes, a chefia e o dono da firma. Mas, pouco a pouco, a rotina se deforma: acidentes estranhos, mortes tratadas com naturalidade, situações que deslizam para o absurdo sem jamais abandonar o mesmo tom burocrático. O resultado é uma narrativa que se move entre o realismo operário marxista e uma espécie de pesadelo kafkiano.
O grande trunfo do romance está justamente no tom. Mills escreve com radical economia: frases curtas, repetição de situações, diálogos mecânicos. É um livro sobre pessoas burras, eu diria. O estilo despojado cria um efeito curioso — quanto mais neutra a narração, mais perturbadores se tornam os acontecimentos. Há uma recusa total de dramatização: eventos potencialmente chocantes são tratados como parte da rotina, o que gera um humor sombrio. Essa monotonia de estilo transforma o livro numa espécie de fábula moderna sobre o trabalho.
Por trás da história de três homens construindo cercas, esconde-se uma alegoria. As cercas — que deveriam conter animais — parecem também simbolizar os limites que os vão organizar — regras, rotinas, hierarquias. O título, aliás, sugere essa ambiguidade central: quem são, afinal, as “bestas” a serem contidas? Os animais ou os trabalhadores? Ao longo do romance, a repetição da vida laboral se transforma em algoz. Os trabalhadores tendem a serem máquinas submissas e silenciosas.
O final é inquietante, com um pé em O Conto da Aia. O romance não oferece catarse nem explicação clara — pelo contrário, sua força está na recusa de fechar sentidos. À medida que a narrativa avança, o leitor percebe que foi capturado pela mesma lógica que aprisiona os personagens: repetição, obediência, aceitação do absurdo. É um livro curto, mas que permanece ecoando, como uma espécie de piada sombria que, quanto mais se pensa nela, menos engraçada se torna.
Este livro foi muito reconhecido e premiado, Mills foi finalista do Booker Prize com este romance. O autor conhece bem o mundo do trabalho assalariado e da obediência. Ele é um ex-motorista de ônibus elogiado por Thomas Pynchon.
Em 1900, Thomas Mann enviou pelo correio a única cópia manuscrita de Os Buddenbrook — pagando um seguro de mil marcos, valor que fez o funcionário rir. Segundo o ChatGPT, seria algo como 20 mil euros hoje. O romance, que narra o auge e a queda de uma dinastia de comerciantes, revela mais do que a decadência de uma família: é um belo retrato — afiado, crítico e interessante — da burguesia alemã, onde laços de sangue e negócios se confundem e a tradição sucumbe à modernidade. Mann teceu sua narrativa com documentos reais da sua própria família, provocando escândalo em Lübeck. Tios e tias reconheceram-se nos personagens, acusando-o de expor seus segredos. O escritor, porém, defendia que a arte não inventa. O autor tinha 26 anos em 1901, ano de do lançamento do livro, e talvez este seja o melhor romance longo que qualquer autor tenha escrito nesta idade.
Thomas Mann (1875-1955) veio da condição de péssimo aluno, sem formação profissional, e de herdeiro decadente dos frutos da atividade comercial exercida pelas gerações anteriores de sua família em Lübeck. Os negócios se encerraram porque ele e o irmão mais velho, Heinrich Mann (1871-1951), foram considerados inaptos pelo próprio pai a sucedê-lo. Antes de morrer, o pai, condenado pelo câncer, fechou a própria empresa e deixou a fortuna sob tutela de um administrador financeiro.
O que o funcionário do correio jamais imaginaria é que aquele romance de formação – escrito entre 1897 e 1900 – se tornaria um dos marcos definitivos da literatura europeia. A história do auge e da queda de uma família de comerciantes de Lübeck, ao longo de quatro gerações (1835-1877), é muito mais que uma simples crônica de costumes: é curiosa uma dissecação da alma burguesa. Digo isto, porque é um livro paradoxal — sofrido, monumental e leve de ser lido. Publicado em 1901, já tinha a marca de uma maturidade estética impressionante para um autor tão jovem.
Tratava-se de traçar a decadência de uma família de burgueses de Lübeck ao longo de quatro gerações, mas não apenas como uma sequência de fatos documentais, e sim como uma parábola complexa sobre a tensão entre valores éticos, pressões sociais, responsabilidades econômicas e pulsões íntimas. A ambição de respeito, conforto e continuidade social, que inicialmente impulsiona os Buddenbrook ao sucesso, converte-se, aos poucos, em peso incômodo: a busca por estabilidade econômica e reputação civil começa a dar errado, abrindo fissuras que o leitor acompanha com uma mistura de fascínio e desconforto.
O romance abre com uma cena emblemática: a família reunida para um almoço dominical na nova casa da Mengstrasse, em Lübeck. Todos os burgueses da cidade, empresários, advogados e representantes da igreja, comparecem. O velho Johann Buddenbrook, ainda vigoroso e pragmático, representa o espírito fundador – aquele que construiu a fortuna com trabalho árduo e confiança inabalável nos valores mercantis. Seu filho, o cônsul Jean Buddenbrook, já traz os primeiros sinais de fragilidade: é muito religioso, sentimental, um tanto inepto para os negócios, preocupado em preservar a respeitabilidade social.
Com a terceira geração, encarnada por Thomas Buddenbrook, a decadência torna-se palpável. Thomas é um homem dividido: dedica-se com esforço sobre-humano a manter a aparência de solidez da firma, mas sente-se consumido pela representação social que precisa sustentar. O narrador descreve com precisão cirúrgica como o cuidado obsessivo com a imagem exterior – o bigode sempre frisado, as casacas impecáveis, a postura irrepreensível – que esconde um esgotamento interior que prenuncia a ruína. A ironia trágica atinge seu clímax quando Thomas morre de forma quase grotesca: após uma extração dentária mal feita, cai na rua, coberto de lama e sangue, ele que jamais permitira uma mancha em suas roupas.
Se Thomas Buddenbrook é o herói trágico da decadência, seu filho Hanno é o germe da dissolução definitiva. Desde a infância, Hanno mostra aversão aos negócios e inclinação para a música, herdada da mãe, Gerda, uma talentosa violinista, mas fria e distante. Hanno é descrito como frágil, doentio, alheio às exigências práticas da vida.
A crítica literária contemporânea vê em Hanno o primeiro de uma linhagem de “artistas desviados” na obra de Mann – personagens que, por sua sensibilidade exacerbada, sua introspecção e sua incapacidade de se adaptar ao mundo burguês, estão fadados à doença, à loucura ou à morte. Hanno não é apenas o último Buddenbrook; é o símbolo da vitória da arte sobre a vida prática – ainda que essa vitória signifique a extinção da família.
Nas palavras do próprio Thomas: “Sempre haverá homens que têm direito àquele interesse pelo próprio eu e a essa observação minuciosa dos seus sentimentos: poetas que sabem dar forma segura e bela à sua vida interior privilegiada, enriquecendo assim o mundo de outras pessoas. Mas nós nada mais somos do que simples comerciantes; as nossas auto-observações são desesperadamente insignificantes”. A ironia, claro, é que quem pronuncia estas palavras é um comerciante – e quem as escreve é o poeta que venceu.
Como já disse, um aspecto fascinante de Os Buddenbrook é sua dimensão autobiográfica, que Mann nunca escondeu. A cidade de Lübeck é claramente identificável; as personagens tinham correspondentes reais na família do autor – e alguns parentes, como um tio que se reconheceu no desajeitado Christian Buddenbrook, reagiram com indignação, acusando-o de “sujar o próprio ninho”.
Mas o elemento mais intrigante é a origem materna de Mann. Sua mãe, Julia da Silva-Bruhns, era brasileira, nascida em Angra dos Reis, filha de um comerciante alemão e uma brasileira. Julia era bela e musicalmente dotada – características que Mann transferiu para diversas personagens femininas, incluindo Gerda, a mãe de Hanno.
Estudos recentes mostram como Thomas Mann via sua própria “mestiçagem” – entre a seriedade paterna alemã e a sensibilidade artística materna “latina” – como a fonte de seu talento, mas também como uma marca de degenerescência aos olhos da sociedade alemã da época, obcecada por pureza racial. Os artistas em sua obra são quase sempre “mestiços” – e é justamente essa condição híbrida que os torna artistas, mas também os condena.
As figuras femininas em Os Buddenbrook merecem grande atenção. Em contraste com a idealização da mãe nos escritos autobiográficos de Mann, o romance apresenta uma galeria de mulheres problemáticas. A avó Antoinette ama o luxo; a mãe Elisabeth é piegas e facilmente enganada por pastores hipócritas; Clothilde, uma parente pobre, é descrita como eternamente magra apesar de devorar quantidades enormes de comida; Clara, a irmã doentiamente religiosa, morre jovem.
A mais complexa é Gerda, esposa de Thomas e mãe de Hanno. Retratada como bela, fria, distante, ela só se anima ao tocar violino – e sua intimidade musical com o tenente von Throta, visita habitual da casa, é descrita com sutileza que mal disfarça o adultério espiritual (e talvez físico). É dela que Hanno herda “o sangue ruim, venenoso” que o desvia dos negócios para a arte.
A exceção parcial é Tony Buddenbrook, irmã de Thomas, que alguns críticos (e eu também) consideram a personagem mais cativante do romance. Tony é repetidamente sacrificada em casamentos de conveniência que fracassam, mas mostra uma resiliência notável, sobrevivendo a todos os outros membros da família e mantendo, mesmo na adversidade, uma lealdade obstinada ao nome Buddenbrook. É ela quem, nas cenas finais, ainda tenta preservar a dignidade do clã extinto.
Um dos momentos mais extraordinários do romance ocorre quando Thomas Buddenbrook, já em decadência física e espiritual, descobre um exemplar de “O Mundo como Vontade e Representação”, de Schopenhauer. A leitura do capítulo “Da Morte e sua Relação com a Indestrutibilidade do nosso Ser-em-si” provoca nele uma experiência quase mística. Thomas experimenta uma breve iluminação, sente-se libertado do peso da individualidade – mas logo retorna à sua existência mundana de comerciante e político, incapaz de integrar essa visão à vida prática. A ironia é que ele morrerá pouco depois, de forma inglória, sem a transcendência que vislumbrara.
Os Buddenbrook é muitas vezes descrito como um romance naturalista, herdeiro da tradição realista do século XIX – e de fato Mann utiliza todos os recursos desse estilo: descrições minuciosas, atenção aos detalhes materiais, construção cuidadosa do ambiente social. Mas há algo mais. A prosa de Mann já ensaia aqui os mergulhos psicológicos que atingirão seu ápice em A Montanha Mágica. O narrador alterna habilmente entre o olhar externo – capaz de descrever com precisão quase fotográfica as roupas, os móveis, os gestos – e a sondagem dos abismos íntimos das personagens.
A estrutura, centrada na sucessão de pais e filhos, confere ao romance uma coerência quase musical: cada geração repete, em tom menor, os temas da anterior, até que a melodia se extingue. Reduzir Os Buddenbrook a uma simples “saga de família” seria ignorar sua verdadeira grandeza. O que Mann nos oferece é uma meditação sobre a incompatibilidade entre vida prática e vida espiritual, entre o mundo dos negócios e o mundo da arte, entre a afirmação da vontade e a aceitação da morte.
A família Buddenbrook decai não porque seus membros sejam incompetentes nos negócios, mas porque a própria forma de vida burguesa, baseada na acumulação, na aparência e na perpetuação do nome, traz em si o germe de sua dissolução. O triunfo final da arte é também a confirmação da derrota: a arte floresce apenas onde a vida já não pode prosperar.
A decadência dos Buddenbrook é inevitável? Poderia ter sido evitada se as escolhas fossem outras? Hanno é vítima das circunstâncias ou herói trágico? O que Mann quer dizer ao fazer Thomas Buddenbrook ter uma experiência mística com Schopenhauer pouco antes de morrer de forma tão prosaica? Tony Buddenbrook é uma tola manipulada ou uma heroína resiliente? Até que ponto a figura de Gerda – a mãe musical e distante – reflete a visão ambivalente de Mann sobre sua própria mãe brasileira?
Bem, fui longe. Finalizando, Os Buddenbrook não é apenas o primeiro romance de Thomas Mann; é a pedra fundamental sobre a qual ele edificaria toda a sua obra. Nele já estão presentes todos os grandes temas que o acompanhariam pela vida: a relação conflituosa entre arte e burguesia, a doença como expressão da sensibilidade, a música, a sexualidade fluida que o próprio Thomas tinha, a morte como libertação, a ambiguidade da herança familiar.
Mas o pequeno Johann via mais do que devia ver; os seus olhos, esses olhos tímidos, castanhos e orlados de sombras azuladas, observavam demasiado bem. Não somente via a amabilidade certeira que o pai irradiava para todos, via também — via-o com perspicácia estranha e atormentadora — o quanto era difícil fazê-la; via como o pai, após cada visita, se tornava mais taciturno e pálido, como, de olhos cerrados e pálpebras avermelhadas, se recostava contra o canto da carruagem; com o coração horrorizado notava como, no limiar da casa seguinte, deslizava uma máscara por sobre esse mesmo rosto, e como, sempre de novo, uma elasticidade repentina se apoderava desse corpo fatigado… Ao ver tudo isso: mímica, fala, porte, atividade e comércio com outras pessoas, o pequeno Johann não tinha a impressão de que se tratava da realização ingênua, natural e semiconsciente de interesses práticos que o pai tivesse em comum com os demais e quisesse defender contra eles, mas sim um fim em si mesmo; parecia-lhe um esforço voluntário e artificial, onde, em vez do sentimento sincero e simples, tinha de trabalhar uma virtuosidade extremamente difícil e cansativa, para garantir a atitude impecável. Diante da ideia de que esperavam dele próprio que, também, um dia, se exibisse em reuniões públicas e agisse, falando e gesticulando, sob a pressão de todos esses olhares, Johann fechava os olhos, num arrepio de relutância medrosa…
Thomas Mann, Os Buddenbrook, Décima parte, Capítulo 3, Pág. 551 — Tradução de Herbert Caro
“Mas o pequeno Johann via mais do que devia ver; os seus olhos, esses olhos tímidos, castanhos e orlados de sombras azuladas, observavam demasiado bem. Não somente via a amabilidade certeira que o pai irradiava para todos, via também — via-o com perspicácia estranha e atormentadora — o quanto era difícil fazê-la; via como o pai, após cada visita, se tornava mais taciturno e pálido, como, de olhos cerrados e pálpebras avermelhadas, se recostava contra o canto da carruagem; com o coração horrorizado notava como, no limiar da casa seguinte, deslizava uma máscara por sobre esse mesmo rosto, e como, sempre de novo, uma elasticidade repentina se apoderava desse corpo fatigado… Ao ver tudo isso: mímica, fala, porte, atividade e comércio com outras pessoas, o pequeno Johann não tinha a impressão de que se tratava da realização ingênua, natural e semiconsciente de interesses práticos que o pai tivesse em comum com os demais e quisesse defender contra eles, mas sim um fim em si mesmo; parecia-lhe um esforço voluntário e artificial, onde, em vez do sentimento sincero e simples, tinha de trabalhar uma virtuosidade extremamente difícil e cansativa, para garantir a atitude impecável. Diante da ideia de que esperavam dele próprio que, também, um dia, se exibisse em reuniões públicas e agisse, falando e gesticulando, sob a pressão de todos esses olhares, Johann fechava os olhos, num arrepio de relutância medrosa…”
Thomas Mann, Os Buddenbrook, Décima parte, Capítulo 3, Pág. 551 — Tradução de Herbert Caro
Não morre porque é muito bom, pô! Mas, calma, vamos tratar de organizar os pensamentos. Mas, calma, vamos tratar de organizar os pensamentos. Afinal, li nas redes uma série de brigas, além de ofensas ao Nabokov (diz-se Nabôkav) e ele não merece isso. Vamos colocar o bola no chão e deter a correria adversária, pondo-os na roda. Lolita (1955) é um romance de Vladimir Nabokov narrado por Humbert Humbert, um intelectual europeu que desenvolve uma obsessão por Dolores, menina de 12 anos, a quem apelida de Lolita. Após se hospedar com a família dela, ele se casa com a mãe de Lolita, Charlotte, principalmente para ficar perto da menina. Humbert descreve Charlotte com um desdém visceral e cruel. Ele critica seu corpo — seios volumosos, idade, etc. –, seus gestos, seu sotaque norte-americano vulgar e seus modos provincianos e pretensiosos. Para ele, Charlotte representa tudo o que é banal e sexualmente indesejável — o oposto absoluto da ninfeta etérea e idealizada que ele busca em Lolita. Charlotte é, acima de tudo, o empecilho entre Humbert e Lolita. Ele a vê como uma guardiã irritante que deve ser tolerada, ludibriada ou afastada. O casamento com Charlotte é uma estratégia cínica para ficar próximo da menina.
Quando Charlotte morre em um acidente de carro, Humbert obtém a guarda exclusiva e embarca em uma longa viagem pelos Estados Unidos, durante a qual abusa e manipula Lolita repetidamente, apresentando o relacionamento como uma espécie de história de amor trágica. Conforme ela vai, digamos, crescendo, passa a resistir mais e mais a ele, acabando por fugir com outro homem ligado ao círculo literário de Humbert. Anos depois, Humbert a encontra casada, grávida e vivendo em condições modestas. Ela se recusa a voltar para ele, e ele reconhece tardiamente a enormidade do mal que causou antes de morrer na prisão enquanto aguardava julgamento pelo assassinato de Clare Quilty, o dramaturgo que sequestrou Lolita. Ele segue Quilty até sua mansão e o executa de forma premeditada.
Por que Lolita é relevante?
Simples, por ser um legítimo Nabokov, ou seja, uma obra-prima. O romance expõe como o charme, a eloquência e a autocomiseração podem disfarçar e racionalizar o abuso, tornando-se um texto fundamental para a compreensão da narrativa não confiável e do autoengano. Nabokov também utiliza o olhar obsessivo de Humbert para criticar a cultura estadunidense de meados do século XX — seus motéis, rodovias, publicidade e a mercantilização da juventude — de modo que o livro funciona também como um retrato satírico da tal Terra da Liberdade.
Nos debates contemporâneos sobre exploração sexual, consentimento e erotização de meninas na mídia, o romance permanece uma referência fundamental porque dramatiza a discrepância entre a narrativa do abusador sobre o amor e a realidade vivida pela vítima.
O que o livro tem de extraordinário?
A linguagem. A prosa de Nabokov é elaboradíssima e precisa — lúdica, ritmada — de modo que a narrativa pode parecer sedutoramente bela mesmo ao descrever atos horríveis.
O narrador. Humbert é um narrador não confiável, constantemente se justificando, minimizando o sofrimento de Lolita e apelando para a simpatia do leitor, o que torna o livro um poderoso estudo sobre manipulação.
A noção de estrutura. O falso prefácio e a confissão retrospectiva criam uma estrutura em camadas que constantemente chama a atenção para questões de culpa, testemunho e a diferença entre prazer estético e julgamento moral.
A divertida crítica cultural. A viagem através do país permite a Nabokov dissecar a cultura americana, o entretenimento de massa e o comercialismo vulgar, transformando o livro também em uma crônica de uma viagem sombria.
Pontos que podem ser alvos de críticas:
Risco de interpretação errônea por parte de gente burra ou louca. Como a narrativa é filtrada pela voz sofisticada e espirituosa de Humbert, alguns leitores se confundem, vendo-se meio seduzidos por ele, o que pode obscurecer a vítima que é Lolita.
A limitada interioridade de Lolita. Dolores raramente tem uma voz interior consistente. Para muitos críticos, isso sublinha a desumanização que Humbert lhe atribui, mas também pode dar a impressão de que o romance participa do apagamento que retrata.
Distância estética. Em entrevistas, Nabokov deu ênfase na arte e sua própria afirmação de que o romance é “sobre” estilo e imaginação, e não sobre estupro ou pedofilia. Tais afirmativas foram criticadas como evasivas ou frias diante do tema.
Potencial de fetichização. O legado cultural do livro — a moda “Lolita”, o marketing sexualizado e as adaptações suavizadas — mostra como sua crítica pode ser facilmente cooptada pela própria mercantilização de meninas que ele implicitamente condena.
Relevância geral hoje
O romance continua importante porque força os leitores a confrontarem como a linguagem pode embelezar a crueldade e como narrativas de “desejo mútuo” podem mascarar desequilíbrios de poder gritantes.
Em termos literários, é fundamental para discussões sobre ficção modernista e pós-modernista, confiabilidade narrativa e ética da leitura. Em termos culturais, continua a repercutir em conversas sobre assédio, aliciamento e a representação de menores na arte e na mídia.
Em 1900, Thomas Mann enviou pelo correio a única cópia manuscrita de “Os Buddenbrook” — pagando um seguro de mil marcos, valor que fez o funcionário rir. Segundo o ChatGPT, seria algo como 20 mil euros hoje.
O romance, que narra a ascensão e queda de uma dinastia de comerciantes, revela mais do que a decadência de uma família: é um retrato afiado da burguesia alemã, onde laços de sangue e negócios se confundem, e a tradição sucumbe à modernidade.
Mann teceu sua narrativa com documentos reais da própria família, provocando escândalo em Lübeck. Tios e tias reconheceram-se nos personagens, acusando-o de expor seus segredos. O escritor, porém, defendia que a arte não inventa. O autor tinha 25 anos em 1900 e este livro talvez seja o melhor que um autor tenha escrito nesta idade.
Thomas Mann (1875-1955) ergueu-se da condição de péssimo aluno, sem formação profissional, e de herdeiro decadente dos frutos da atividade comercial exercida pelas gerações anteriores de sua família em Lübeck. Os negócios se encerraram porque ele e o irmão mais velho, Heinrich Mann (1871-1951), foram considerados inaptos pelo próprio pai a sucedê-lo. Antes de morrer, o pai, condenado pelo câncer, liquidou a própria empresa e deixou a fortuna sob tutela de um administrador financeiro.
Há os livros do detetive Maigret, mas convenhamos, Simenon ficou célebre sobretudo por seus romances curtos, intensos e econômicos, os chamados romans durs, em que a pesada densidade psicológica não depende da extensão. Por isso, quando ele escreve um romance mais longo — como O Testamento Maldito (ou a tradução literal, O Testamento Donadieu) — isso não é um acidente de percurso, mas uma escolha. Este livro tem 392 páginas, muitos personagens e traz estruturas mais amplas do que as dos dramas individuais. Aqui nós temos um painel de uma família decadente da pequena cidade portuária de La Rochelle, no oeste da França, de frente para o Atlântico Norte. Logo no primeiro capítulo, morre o patriarca dos Donadieu, que viviam — mulher, quatro filhos casados, netos e empregados — numa respeitável mansão na mui digna Rue Réaumur.
Depois de conhecido mundialmente, Simenon sempre foi cobrado para escrever uma grande romance… Como se já não os tivesse. Sua resposta era inteligente: “Meu grande romance é o mosaico formado por meus pequenos livros”. Porém, O Testamento Maldito parece mirar um patamar que raramente aparece em sua obra. Ele não chega a buscar o épico, mas cria um painel e assume uma ambição muito comum na literatura dos séculos XIX e XX: a exploração do peso da herança, da ordem familiar como destino, dos mecanismos silenciosos do poder burguês. Nesse sentido, dialoga com tradições comuns, mas filtradas por sua típica dureza e secura. É a história de uma decadência mais moral do que financeira.
Ele não acompanha apenas uma crise íntima, mas várias — descreve um organismo social inteiro que está em crise: a família, a empresa, o nome Donadieu como instituição. Ele são armadores, isto é, donos de embarcações mercantis que realizam transporte de cargas, dessas que Trump gosta de roubar. Ou seja, equipam, mantêm e exploram comercialmente navios, visando lucro. O romance narra o modo lento e natural com que a família produz o próprio sufocamento. O testamento que desencadeia o enredo não cria o conflito — ele apenas expõe o que já existia: ressentimentos e pactos que se sustentam pela conveniência.
Com sua prosa limpa, Simenon constrói um drama psicológico em que o peso da tradição vale mais do que os sentimentos individuais. Quase todos os personagens parecem condenados ao papel que herdaram: obedecer, proteger a reputação, preservar o patrimônio — ainda que isso custe a autonomia ou o afeto. E há os que desejam entrar para o clã.
O grande personagem do romance é Philippe, que chega para chacoalhar a família estabelecida, demonstrando que os filhos do patriarca eram, na verdade, uns inúteis. O modo como ele conquista Martine e passa mandar em todos é muito surpreendente. Outra grande criação é Michel, o filho conquistador de mulheres pobres. A ruptura dele com Eva é um grande momento do livro.
O romance avança em diálogos reservados e ambientes carregados, revelando aos poucos a lógica interna deste clã que transforma lealdade em prisão. Não há julgamentos: Simenon observa, com frieza, como o dinheiro, o nome e a continuidade familiar se sobrepõem à vida concreta das pessoas. O “maldito” do título brasileiro não se justifica. Não é o documento — é o destino compartilhado que ninguém consegue romper.
O Testamento Maldito se impõe como um dos grandes “romances duros” de Simenon: não é um policial, mais uma radiografia de uma família em que o que realmente assusta não é o crime, mas a normalidade que o ampara.
O filme ‘Trens Estreitamente Vigiados’ (1966) ficou célebre. Ele é a lendária adaptação de uma moderna, linda e delicada e novela de 1965 de Bohumil Hrabal. Ela conta a história de amadurecimento do jovem e inexperiente Miloš Hrma, que está servindo como guarda de estação no centro da Tchecoslováquia no final da Segunda Guerra Mundial. O foco é o amadurecimento sexual do rapaz, que sofre de ‘ejaculatio praecox’. Apesar do final um tanto trágico, é um dos filmes mais queridos da década de 60, ganhador do Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira em 1968. Um marco do cinema e um dos principais filmes da chamada Nouvelle Vague tcheca.
Ontem o revi, após finalizar a leitura do livro de Hrabal, lançado no Brasil pela 34 e chamado de ‘Trens Rigorosamente Vigiados’. Tinha quase esquecido do filme. É chocante a diferença. Foi um sofrimento assistir até o final a imensa simplificação que o diretor Menzel e o próprio Hrabal fizeram no roteiro. Eu realmente pensava que o filme não seria massacrado pelo livro, mas foi.
É curioso pensar nas manias que nós, leitores, desenvolvemos — esses pequenos rituais e peculiaridades que se tornam parte da identidade de quem lê. Por exemplo, uma das minhas manias é a de carregar livros mesmo sem a certeza de ler, às vezes com a certeza de que não vou ler, podendo levar livros até em aniversários… Mas há muitas outras. O DataBamboletras fez uma pesquisa entre seus clientes e detectou grande variedade de hábitos peculiares. Aqui estão alguns bem comuns, divididos por categorias:
1. Relacionados ao objeto livro
· Cheirar livros. (Essa eu não tenho).
· Aversão a dobrar o canto das páginas em vez de usar marcadores de páginas, bilhetes, recibos, notas fiscais ou até um lápis. (Essa eu tenho. Coleciono marcadores bonitos).
· Organização obsessiva da biblioteca pessoal. (Essa eu já tive).
· Sublinhar com lápis, marcador ou caneta. Alguns fazem anotações nas margens. Já outros têm pavor de marcar qualquer coisa no livro. (Eu sublinho com caneta e anoto coisas nas margens, para horror de alguns).
· Cuidado com a lombada. Evitar abrir demais para não estragar, ou o oposto, “quebrá-la” de propósito para deixar o livro mais confortável. (Eu quebro quando o livro é maior do que 200 páginas, aproximadamente).
2. Hábitos de leitura
· Ler várias livros ao mesmo tempo. (Raramente faço isso).
· Leitura conforme a situação. Ter um livro específico para cada momento — um na bolsa, um na mesa de cabeceira, um para viagens. (Jamais).
· Terminar um livro, mesmo que não esteja gostando, Aquela coisa de chegar até o fim por compromisso. (Já fiz muito, hoje largo com nojo).
· Reler passagens favoritas antes de dormir ou em momentos de nostalgia. (Sim, para isto sublinho os meus).
· Contar páginas ou calcular a porcentagem de progresso. (Faço. Louco total. Faço a regra de três mentalmente).
[ Persona (Ingmar Bergman) ] 1966
3. Comportamentos sociais/emocionais
· Esconder a capa do livro em público para não revelar o que está lendo. (Jamais fiz).
· Ficar ansioso perto do fim de um livro bom — alegria pela conclusão, mas tristeza pelo fim. (Sempre).
· Travar em livrarias ou sebos por horas, mesmo sem intenção de comprar. (Sempre).
· Sentir atração física por livros bonitos, mesmo que o conteúdo não interesse tanto. (Não).
· Emprestar livros com regras rígidas (“devolva como pegou”) ou, ao contrário, recusar-se a emprestar por apego. (Regras rígidas, com ameaças).
4. Manias práticas
· Sempre ter um livro à mão em filas, salas de espera ou no transporte — a ideia de tempo “perdido” sem ler é angustiante. (Sim, óbvio).
· Ler a biografia do autor antes ou depois do livro, para contextualizar. (Depois).
· Evitar ver o filme/série antes de ler o livro. Ou o contrário: ler o livro depois. (Sou indiferente).
· Colecionar edições específicas de um autor, mesmo em idiomas que não domina. (Sim, de Virginia Woolf…).
5. Superstições e pequenos rituais
· Escolher o próximo livro por “intuição” ou pelo clima do momento. (Não, sei os que vou ler semanas antes).
· Ter um livro de cabeceira fixo para ler aleatoriamente. (Nunca).
· Pular o prefácio / introdução (Depende do autor e do tamanho da introdução).
· Ler notas de rodapé apenas em ensaios, nunca em ficção. (Eu).
· Associar livros a momentos da vida (Sim, claro).
6. O Kama Sutra da leitura
Eu leio deitado, em várias posições, ou sentado numa cadeira, com o livro na mesa. Ou em filas, no banheiro, na sala de espera, no ônibus, etc.
No fundo, essas manias revelam algo bonito — a relação íntima física que se cria com a leitura. O livro deixa de ser só um objeto e vira amuleto, objeto de amor e refúgio. Cada leitor desenvolve sua própria maneira de conviver com ele.
E tu aí que tá lendo? Tem alguma mania particular que não listei?
A grandeza de um livro não se mede por sua espessura, mas pelo seu impacto e eco em nossa consciência. Num mundo de distrações infinitas, propomos um refúgio: a experiência compartilhada de ler os maiores autores em suas formas mais concentradas.
A cada mês, escolheremos uma “pequena grande obra”. Nossos encontros serão aqui na livraria, e mesclaremos o debate com o prazer do convívio e da presença. O maior protagonista será o olhar do grupo.
Queremos criar um espaço onde a leveza do encontro e a profundidade da reflexão caminhem juntas. Onde se possa falar sobre o dilema existencial de um personagem de Tchékhov e, no minuto seguinte, rir de uma piada.
As vagas serão limitadas a fim de garantirmos a intimidade e a qualidade do diálogo. Claro que terá um descontinho na compra do livro na livraria. A gente tem certos problemas com a Amazon, sabem?
Se você estiver interessado, envie uma mensagem por WhatsApp para a livraria (51 99255 6885) ou um e-mail para [email protected] para garantir o seu lugar neste círculo de leitores. A primeira reunião deverá ocorrer em fevereiro, depois do Carnaval, que é quando o ano realmente começa. Estamos pensando nos sábados, às 10h30. O que acham?
De memória, rapidinho, listamos algumas possibilidades. Vejam quantas obras-primas:
O primeiro amor, de Turguêniev*
Ratos e homens, de Steinbeck
A hora da estrela, de Clarice
Um herói de nosso tempo, de Liérmontov
A morte de Ivan Ilitch, de Tolstói
O alienista, de Machado de Assis
Bartleby, de Melville
A casa das belas adormecidas, de Kawabata*
Carta ao pai, de Kafka
O horla, de Maupassant
Minha vida, de Tchékhov
Um artista da fome, de Kafka
O nariz, de Gógol
A história maravilhosa de Peter Schlemihl, de von Chamisso
Michael Kohlhaas, de Von Kleist
Bola de sebo, de Maupassant
O duelo, de Tchékhov
Ninguém escreve ao coronel, De García Márquez
Noturno do Chile, de Roberto Bolaño
Contos de Belkin, de Pushkin
O velho e o mar, de Hemingway
A felicidade conjugal, de Tolstói
Alves e Cia., de Eça
A morte e a morte de Quincas Berro Dágua, de Jorge Amado
Alice no país das maravilhas, De Lewis Carrol
Os mujiques, de Tchékhov
O papel de parede amarelo, de Gilman
O capote, de Gógol
O médico e o monstro, de Stevenson
O clube dos suicidas, de Stevenson
Lady Susan, de J. Austen
A aldeia de Stepántchikovo e seus habitantes, de Dostoiévski
A metamorfose, de Kafka
Lavoura arcaica, de Nassar
Um copo de cólera, de Nassar
Flush, de Virginia Woolf
Etc.
Alejandro Fabbri, jornalista e historiador do futebol argentino, constrói em Historias Negras del Fútbol Argentino um livro que foge deliberadamente da narrativa heroica e romântica do esporte. Em vez de gols decisivos, ídolos e conquistas, ele reúne episódios sombrios, desconfortáveis e, muitas vezes, esquecidos — desde arbitragens viciadas e jogos suspeitos até pressões políticas, violências de arquibancada e decisões de bastidores que alteraram destinos de clubes e jogadores.
O mérito do livro está menos no impacto das revelações isoladas e mais no modo como Fabbri organiza a memória do futebol como território de poder, onde interesses econômicos, pressões políticas, rivalidades regionais e vaidades institucionais se entrelaçam. Sua escrita é clara, direta e jornalística, mas nunca fria: há indignação, ironia e, sobretudo, a convicção de que contar essas histórias é uma forma de restaurar a complexidade do jogo.
Fabbri evita o sensacionalismo. Ele vai aos arquivos, cita jornais, testemunhos e documentos, e mostra que o futebol argentino não foi apenas palco de glória coletiva — foi também cenário de injustiças, manipulações e tragédias silenciosas. Ao detalhar partidas anuladas ou manipuladas, campeonatos distorcidos e carreiras destruídas, o autor revela como a mística esportiva convive, desde sempre, com a sombra do amadorismo institucional e da corrupção.
O resultado é um livro que desromantiza o passado sem destruir o amor pelo jogo. Lê-lo é perceber que a história do futebol é mais rica e humana quando inclui seus fracassos, suas zonas cinzentas e seus bastidores incômodos. Para quem gosta de futebol como fenômeno cultural, e não apenas como espetáculo, este primeiro volume é instigante e… atual.
Um livro simples e direto, de alguém que vive a corrida. Alguns de vocês sabem que eu, aos 68 anos, ainda corro. Nestes dias de canícula extrema, tenho sofrido um pouco, apesar de que minha ideologia de corredor é totalmente diferente da de Murakami. Eu corro sempre confortavelmente, naquilo que chamo de “velocidade de cruzeiro”, isto é, velocidade constante e sem dor. Com o calor deste dezembro-janeiro, paro nos 4 Km, pois tudo começa a ficar complicado. Não sinto dor, não tenho dificuldades para respirar, só sinto muito calor; na verdade, parece que alguém me desliga remotamente. Segundos antes de parar, não pretendia fazê-lo e fico surpreso quando paro. Sim, estou tomando todos os remédios que me prescreveram.
Neste livro fora da curva, Haruki Murakami transforma a corrida em metáfora de escrita e disciplina. Longe de ser apenas um diário de treinamento, Do que eu falo quando falo de corrida é um ensaio autobiográfico em que o autor examina o corpo, o passar do tempo e o silêncio — aquilo que sustenta sua literatura quando ninguém está olhando. Eu escrevi silêncio? Bem, quando ele corre, costuma ouvir rock, jazz ou eruditos. Voltemos: ao narrar maratonas e dores musculares, Murakami fala, na verdade, sobre persistência, escolhas e a estranha solidão de quem decide enfrentar a si mesmo todos os dias. Escrever seria como correr.
A prosa é calma e transparente, como quem pensa enquanto caminha. Não há heroísmo; há cansaço, limites, fracassos e uma ética quase artesanal: correr e escrever exigem rotina, humildade e paciência. O autor reflete sobre a passagem dos anos, sobre a relação entre arte e resistência física. É um livro de introspecção discreta, sem alarde.
Ou seja, o ponto central do livro não é a corrida em si, mas o modo como Murakami articula disciplina, e rotina com o processo de escrita. Ele descreve o momento em que decide abandonar o bar que administrava para viver exclusivamente de literatura — e como a corrida surge em sua vida como uma prática que lhe dá método, fôlego e constância. O interesse do livro está na relação entre esses dois gestos paralelos: escrever todos os dias, correr todos os dias — ambos como tarefas pacientes e acumulativas.
Murakami evita grandes conclusões e nunca dramatiza suas experiências. Em vez disso, constrói um mosaico de pequenas cenas: treinos, viagens, competições, cansaços, fracassos discretos, satisfações modestas. A força do livro nasce justamente dessa contenção. Ele observa a si mesmo com distância, às vezes com humor, outras com leve melancolia. O resultado é um livro sobre tempo e trabalho — sobre aquilo que só se constrói lentamente, passo a passo, página a página. Murakami mostra que a escrita, como a corrida, não é feita de momentos épicos, mas de repetição, atenção e uma obstinada fidelidade ao ato de continuar.
Do que eu falo quando falo de corrida é, assim, um livro de memórias enxuto e elegante, que ilumina o cotidiano do escritor por dentro — e revela, sem didatismo, como a literatura também se articula com hábitos, insistência e, tá bem!, silêncio.
P.S. — Sim, sim, meus amigos, para dar este título a seu livro, Murakami pediu permissão para a viúva de Raymond Carver, autor de “De que falamos quando falamos de amor” (What We Talk About When We Talk About Love).
Publicado em 1965, Trens Rigorosamente Vigiados é um clássico. É um daqueles romances curtos que parecem conter um mundo inteiro. Cravado na ex-Tchecoslováquia ocupada pelos nazistas, o livro acompanha o menino / jovem Miloš Hrma, aprendiz de ferroviário, que vive à margem do conflito bélico, mas no centro de outro tipo de guerra: a do amadurecimento, do desejo, da vergonha e da fragilidade.
A narrativa de Hrabal tem um tom irresistível, ao mesmo tempo irônico e melancólico, combinando piadas — algumas delas muito inesperadas — com momentos abruptos de dor. O cotidiano da pequena estação ferroviária — seus funcionários, pequenas tragédias pessoais, manias e gestos ridículos — ganha relevo contra o pano de fundo da guerra, que nunca é o foco direto, mas que exerce uma pressão constante e silenciosa.
Como disse, este romance abarca o mundo, sendo, sobretudo, um estudo da condição humana em situações-limite, mas sem recorrer ao heroísmo convencional. Miloš não é um herói de guerra — é um jovem inseguro, dividido entre o despertar sexual e um profundo sentimento de inadequação. É justamente dessa humanidade desajeitada que nasce a força do livro. Hrabal mostra como as grandes catástrofes históricas atravessam vidas pequenas, frágeis, “insignificantes” — e como essas vidas carregam beleza.
A prosa de Hrabal é enxuta, mas cheia de subtexto e poesia. Há passagens que oscilam entre o absurdo e o lirismo. No desfecho, o gesto de Miloš atinge toda a narrativa (e principalmente o leitor): é ao mesmo tempo ato de coragem, reparação íntima e tragédia incontornável. Hrabal sugere que, em meio ao caos histórico, os indivíduos continuam a buscar sentido — ainda que esse sentido possa custar caro demais.
Trens Rigorosamente Vigiados é uma pequena obra-prima inesquecível: um romance sobre a passagem à idade adulta, sobre a guerra e a delicada brutalidade de existir.