Vista chinesa, de Tatiana Salem Levy

Vista chinesa, de Tatiana Salem Levy

Em 2014, antes de uma reunião de trabalho, a arquiteta Júlia, responsável por uma das obras da Olimpíadas de 2016, foi correr até a Vista Chinesa, que é um mirante em estilo chinês localizado no bairro do Alto da Boa Vista, Rio de Janeiro. O mirante está localizado na Floresta da Tijuca. Os seis quilômetros que ela percorreria em 40 min foram interrompidos por um homem armado que a levou para a floresta a fim de cometer um estupro.

Trata-se de um romance, pois o texto de Tatiana Salem Levy utiliza-se do variado instrumental romanesco, mas Vista Chinesa narra um caso verdadeiro. É óbvio que não é uma leitura fácil, mas também não é a bigorna que poderia ser. Não pensem que a autora desvia-se dos detalhes do estupro. Não, ela descreve claramente a violência sofrida e suas consequências. Descreve os sentimentos da abusada em todo o seu horror, mesmo durante a agressão. Porém, em capítulos curtos e habilmente escritos, desorganiza o tempo cronológico, mostrando a vida de Júlia antes e depois do estupro, a ruptura, o que era a vida antes e o que será depois, assim como o doloroso processo de reconhecimento do estuprador.

É um livro corajoso, resultado de entrevistas feitas pela autora com “Júlia”, cujo nome real aparece no final do livro. As vítimas de estupro — compreensivelmente — não gostam de falar nem de lembrar do fato. Aliás, as pessoas também não amam ouvir a respeito. A forma encontrada por Levy foi a de escrever seu livro como se fosse uma carta de Júlia para seus dois filhos, nascidos após o crime. O formato é engenhoso, porque permite um tom muito sutil, ao mesmo tempo brando e extraordinariamente franco, o que deixa o romance ainda mais impactante.

Recomendo fortemente.

Tatiana Salem Levy

Quatro livros de quatro autores do Fronteiras do Pensamento 2021

Quatro livros de quatro autores do Fronteiras do Pensamento 2021

O Conto da Aia
Margaret Atwood
Rocco
368 páginas

Se O Conto da Aia (1985) já era o livro mais famoso e vendido da canadense Margaret Atwood, a premiada série que tem por base o livro — The Handmaid`s Tale, atualmente na quarta temporada — alçou-o ainda mais. Para completar, a autora lançou em 2019 sua continuação, chamada Os Testamentos. O livro é um clássico moderno e tornou-se referência para quem escreve sobre políticas destinadas a mulheres. Trata-se de uma distopia ferozmente política e sombria, que não pode ser considerada uma ficção científica, pois não é propriamente futurista. A obra explora os temas da subjugação das mulheres e os vários meios pelos quais elas perdem a independência. O Conto da Aia conta a história de Offred e de seu papel como serva. As servas são forçadas a fornecer filhos para as mulheres inférteis de status social mais elevado, as esposas dos Comandantes. A ideia é a de que sejam invisíveis, tornando-se apenas a soma de suas partes biológicas. Desta forma, o corpo de Offred se torna uma causa de desconforto para ela. É um romance cada vez mais importante nos dias atuais, onde mulheres de várias partes do mundo ainda vivem uma realidade ditada pelo determinismo biológico e pela misoginia.

Elisabeth Moss, da série de TV, e Margaret Atwood

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Sapiens – Uma Breve História da Humanidade
Yuval Noah Harari
Cia. das Letras
472 páginas

Harari não para. Aos 45 anos, já é autor de livros fundamentais que certamente você conhece: Sapiens, Homo Deus, 21 Lições para o Século 21, Notas sobre a pandemia… Seu livro mais importante é Sapiens, cuja edição espanhola recebeu um belo e esclarecedor título: De animais a deuses. O livro é dividido em 4 partes. A primeira fala do surgimento na Terra do gênero Homo e de sua evolução até o triunfo do Homo Sapiens sobre as demais espécies. A segunda trata da revolução neolítica, aqui denominada “revolução agrícola”, ou seja, aquele momento que transformou a sociedade de caçadores-coletores nômades em uma de agricultores e pastores, há cerca de 10.000 anos. A terceira já nos remete à modernidade, ao período da primeira globalização e ao surgimento dos grandes impérios mundiais, como o romano e o britânico. Impérios que se baseiam na ambição de tomar, evangelizar ou “civilizar” outros povos. A última seção é dedicada à “revolução científica”, a todas as descobertas dos últimos 500 anos no campo da ciência. Aqui, ele trata dos grandes avanços tecnológicos, desde os gerados pela revolução industrial até os mais recentes na engenharia genética, como a recriação de um cérebro humano dentro de um computador.

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Drogas para Adultos
Carl Hart
Zahar
408 páginas

Neste livro, o professor de psicologia e psiquiatria da Universidade de Columbia argumenta que o uso de drogas deve ser uma questão de escolha pessoal – e que, na maioria dos casos, a escolha pessoal pode levar a resultados positivos. Suas posições podem parecer radicais para alguns, mas também fazem muito sentido – e são apoiadas por ampla pesquisa. Um dos principais motivos pelos quais as drogas têm uma imagem pública tão negativa seria o racismo. Hart observa que, após a Guerra Civil, alguns trabalhadores chineses que trabalhavam na construção de ferrovias chinesas fumavam ópio e estabeleceram “pontos de ópio” para fazê-lo. Com o tempo, mais e mais americanos brancos visitaram estes pontos. Isso, por sua vez, levou a um medo social mais amplo e preconceituoso entre os brancos e até hoje há a ligação, nos EUA, entre drogas e raça. Depois, os negros acabaram ligados à cocaína. Drogas para Adultos defende que as pessoas têm o direito de usar drogas, se assim o desejarem. Na opinião de Hart, seria melhor que elas fossem legais, com testes de pureza e apoio social para aqueles que delas precisam. O que temos agora, em vez disso, é o encarceramento racista em massa e a vergonha social. O livro é uma aula de liberdade pessoal sem estigma social.

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O Novo Iluminismo
Steven Pinker
Cia. das Letras
664 páginas

O Novo Iluminismo é, sobretudo, um livro importante nestes tempos de trevas. É também um livro muito bem escrito, farto em informações, e praticamente impecável em sua coerência. Pinker faz um chamado para a valorização do conhecimento científico como premissa e paradigma a fim de alcançarmos a superação das mazelas e sofrimentos da humanidade em todos os níveis, para a evolução da nossa espécie em direção a uma nova era de prosperidade, paz e solidariedade. Um otimista? Certamente, mas nada ingênuo, pois reconhece as implicações, as barreiras e toda a amplitude político-ideológica que tem de ser superadas. O Novo Iluminismo mapeia as melhorias acontecidas ao longo do último meio século em áreas como o racismo, sexismo, homofobia e bullying, até acidentes de carro, derramamento de óleo, pobreza, lazer, empoderamento feminino e assim por diante. Seus gráficos sugerem que o ateísmo está aumentando e a religiosidade diminuindo nos Estados Unidos. Seus estudos, se forem lidos com atenção, são convincentes, pintando um retrato implacável e insistente de melhoras baseadas no conhecimento. Esta noção faz muita falta em tempos de terraplanismo e de combate às universidades e ao conhecimento.

Bamboletras recomenda dois livros fundamentais e uma novidade

Bamboletras recomenda dois livros fundamentais e uma novidade

A newsletter de amanhã da Bamboletras.

Olá!

Nossas sugestões para esta semana gelada são quentes. Ah… Duvida? Pensa que é só uma má frase de efeito? Pois então veja só.

Sugerimos a bela edição de todos os contos de Cortázar e um clássico da literatura brasileira, a obra-prima Crônica da Casa Assassinada. De quebra, uma surpresa: o livro Camaradas, de Jodi Dean. Quem o leu voltou elogiando muito.

Abaixo, mais detalhes.

E cuide-se com o frio. Além dos cuidados com a Covid, agasalhe-se. E, se puder, doe aquele capotão velho e fora de uso porque as ruas estão cheias de sem-teto.

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Todos os Contos, de Julio Cortázar (Cia. das Letras, 1144 páginas, de R$ 269,90)

Precisamos mesmo descrever este tesouro? Pela primeira vez no Brasil, são publicados todos os contos de Cortázar, reunidos em dois volumes de capa dura, numa caixa com projeto gráfico especial. A verdadeira revolução de Cortázar, sabemos, está nos seus contos e histórias curtas. Mas não se trata de uma reedição de todos os livros de contos do escritor, mas de novas traduções feitas por Heloisa Jahn e Josely Vianna Baptista. (Cá pra nós, aqueles velhos livros da Civilização Brasileira às vezes tinham traduções de cortar os pulsos, né?). Então gente, Bestiário, Todos os fogos o fogo, As armas secretas, Octaedro, Fim do jogo, Histórias de cronópios e de famas, todos os livros fundamentais de Cortázar estão aqui e mais. A edição conta ainda com os dois célebres ensaios do autor argentino sobre a escrita de contos, Alguns aspectos do conto, de 1963, e Do conto breve e seus arredores, de 1969, além de um estudo do crítico argentino Jaime Alazraki sobre o Cortázar contista.

Crônica da Casa Assassinada, de Lúcio Cardoso (Cia. das Letras, 560 páginas, R$ 84,90)

Este livro é um clássico absoluto da literatura brasileira. Publicado pela primeira vez em 1959, Crônica da casa assassinada conta a história da decadência de uma família tradicional mineira: cada geração se vê mais pobre que a anterior, dilapidando o patrimônio para sobreviver. Os Meneses, porém, continuam sendo respeitados na pequena comunidade onde vivem. A Chácara, a grande casa que gera orgulho mas que também aprisiona, é vista com reverência e desconfiança por todos que conhecem o clã. A história dos Meneses é contada através de diferentes narradores, que se enfrentam e se contradizem, mas que constroem com maestria um retrato profundo da vida familiar. A chegada de Nina — jovem carioca que se muda após se casar com Valdo, um dos irmãos — vai abalar a relação difícil entre eles. É uma história densa, não linear, cheia de ciúmes, rancores e perversões. Como dissemos, é narrado por várias vozes, incluindo membros da família Meneses e habitantes de Vila Velha, cidade onde vivem. Não devemos acreditar em tudo o que lemos ali. Fantasmagórico e envolvente, Crônica da casa assassinada surpreendeu em 1959, por trazer temas pouco comuns à época, como a homossexualidade e as relações incestuosas.

Camarada — Um Ensaio sobre Pertencimento Político, de Jodi Dean (Boitempo, 208 páginas, R$ 55,00)

No século XX, milhões de pessoas se dirigiram umas às outras como “camarada”. Hoje, em círculos de esquerda é mais comum ouvir falar em “aliados”. Neste livro, Jodi Dean insiste no fato de que essa mudança exemplifica o problema fundamental da esquerda contemporânea: a sobreposição da identidade política a uma relação de pertencimento político que precisa ser construída, sustentada e defendida. Neste ensaio com recortes e análises bastante originais, Dean nos oferece uma teoria da camaradagem. Camaradas são pessoas que se encontram de um mesmo lado de uma luta política. Unindo-se voluntariamente por justiça, sua relação é caracterizada por disciplina, coragem e entusiasmo. Analisando o igualitarismo da figura do camarada à luz das diferenças de raça e gênero, Dean recorre a um leque de exemplos históricos e literários. Eis um livro curto que articula história, psicanálise e filosofia num texto prazeroso de ler como ensaio de interesse geral.

Caim, de José Saramago

Caim, de José Saramago

Caim é o que odeia deus.
José Saramago

Quem não sabe quem foi Caim, o que matou Abel e que foi uma espécie de anti-herói bíblico? É dele que trata este romance de Saramago.

Bem, podemos facilmente dividir a obra de Prêmio Nobel José Saramago (1922-2010) entre os livros sérios e os divertimentos. Caim está decididamente entre os divertimentos. Narrativa leve, constantemente cômica e fluida, é uma road novel a pé e em jumento pelo Velho Testamento. Talvez melhor fosse chamar o romance de picaresco, “diz-se picaresco dos romances e das peças de teatro cujo herói é um aventureiro ou um vadio que vai de um lugar a outro, sem destino determinado”. O surpreendente capítulo final — que não será contado aqui — dá uma inesperada grandeza à sucessão de boas piadas contidas no romance.

Como fez em O Evangelho segundo Jesus Cristo, aqui Saramago retoma a Bíblia como base e o faz com graça e inteligência extremas. O livro começa com a história com Adão e Eva no paraíso. Após os eventos que levam à expulsão deles, Caim nasce, cresce, mata o irmão Abel e logra convencer deus de ser Ele o culpado pelo fato de ver e não interferir. Admitindo em parte sua culpa, deus poupa Caim mas dá-lhe uma punição: ele será um errante. E aqui inicia-se o que chamei de road novel: as andanças de Caim pelas histórias do Velho Testamento: Lilith, Jó, Abraão, Noé, etc. O efeito muitas vezes é cômico, mas há um compromisso complexo e indignado além da paródia. Profundas questões morais alternam-se com fatos rotineiros.

Caim chama a atenção da bela e casada (e rica) Lilith e se torna o amante dela. Mas, é dispensado após fazer-lhe um filho e decide seguir pelo mundo. A falta de contentamento parece ser um castigo divino. Errante, sobre um burrinho, Caim começa a viajar por diferentes tempos e lugares.

Em seu caminhar, Caim passa pelas histórias mais conhecidas (só the best of) do Velho Testamento. Saltando no tempo, pois há estradas que apresentam “presentes diferentes”, Saramago dedica um olhar mais do que debochado a cada uma delas. E todas elas possuem um elemento comum além da presença de Caim: um deus mau ou pior do que isso, um deus que parece desejar apenas punir ou vingar-se de sua criação — Caim, Abraão, Jó… — ou que se compraz com limpezas étnicas (expressão minha) — Sodoma e Gomorra, o episódio da arca de Noé…

Com humor corrosivo e paradoxal leveza, Caim não é leitura indicada para carolas ou quetais. Ou é, pois os católicos costumam ignorar o Velho Testamento. Um livro que redime Caim e acusa deus de ser o autor intelectual dos crimes mais hediondos deveria talvez irritar mais os judeus do que os católicos? Não sei e, para dizer a verdade, nem me interessa. O que me importa é a alta diversão proporcionada por Saramago neste romance despretensioso e de final arrebatador.

Entre seus episódios, Saramago vai filtrando heresias como a ideia de que, se antes deus aparecia aos homens, agora ele deixou de fazê-lo pela vergonha gerada por algumas de suas tristes atitudes ou, numa frase do português com destino ao Citador: “A história dos homens é a história de seus desacordos com deus, nem ele nos entende nem nós o entendemos.”

Caim é, enfim, o personagem que Saramago encontrou para levar ao extremo sua ideia de que onde há movimento também há inconformismo e, portanto, uma história que valha a pena contar. E além de revisar o Antigo Testamento, este romance analisa aquela outra fonte de nossa tradição cultural que é a Odisseia. Como Ulisses, Caim também muitas vezes esconde seu nome verdadeiro e se propõe a viver seu destino errático, não sem esconder um ás na manga.

José Saramago (1922-2010)

 

 

Todo o Salinger com desconto na Bamboletras e mais Mariana Enriquez e Sapatas

Todo o Salinger com desconto na Bamboletras e mais Mariana Enriquez e Sapatas

A newsletter de amanhã da Bamboletras.

Olá!

Nesta semana temos 3 sugestões matadoras, por assim dizer — pois matador é o nosso presidente, né? Imaginem: toda obra de Salinger com desconto, um romance premiado da fantástica (em todos os sentidos) Mariana Enriquez e mais o essencial de Alison Bechdel. Sim, exageramos, mas este é nosso papel. Fazer o quê?

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O Apanhador no Campo de Centeio, de J. D. Salinger (Todavia, 255 páginas, de R$ 59,90 por R$ 50,90)

Neste mês, este clássico do século XX completou 70 anos. E, bem, a Bamboletras está dando 15% de desconto em toda a obra de Salinger. O recluso autor escreveu apenas 4 pequenos livros, mas que livros! São eles O Apanhador, Nove Histórias (maravilhoso), Franny e Zooey e Erguei bem alto a viga, carpinteiros & Seymour — Uma introdução (igualmente imperdível!). Sobre O Apanhador: é Natal e Holden Caulfield conseguiu ser expulso de mais uma escola. Com uns trocados e seu indefectível boné vermelho de caçador, o jovem traça um plano incerto: vagar três dias por Nova York, adiando a volta à casa dos pais. Seus dias e noites serão marcados por encontros confusos, e ocasionalmente comoventes, brigas e dúvidas que irão consumi-lo. Acima de tudo, paira a inimitável voz de Holden, o adolescente raivoso e idealista que quer desbancar o mundo dos “fajutos”, num turbilhão de ressentimentos, humor, frases lapidares, insegurança, bravatas e rebelião juvenil. Esta edição brasileira tem tradução de Caetano W. Galindo e, pela primeira vez, traz a capa original de seu lançamento.

Nossa Parte de Noite, de Mariana Enriquez (Intrínseca, 544 páginas, R$ 79,90)

Quem leu o esplêndido As coisas que perdemos no fogo sabe da alta qualidade da prosa da argentina Mariana Enriquez. Nossa parte de noite ganhou na Espanha o Premio Herralde de Novela e o Premio de la Crítica 2019. Um pai e um filho cruzam a Argentina de carro, de Buenos Aires até as Cataratas do Iguaçu, na fronteira com o Brasil. São os anos da ditadura militar argentina, soldados armados estão no controle e o ambiente é de tensão. A mãe do garoto Gaspar morreu em circunstâncias obscuras, em um suposto acidente. O terror sobrenatural se mistura com terrores bem reais neste romance deslumbrante — em casas cujos interiores sofrem mutações, passagens que escondem monstros inimagináveis, rituais com sacrifícios humanos que envolvem êxtase e dor, andanças na Londres psicodélica dos anos 1960, fetiche por pálpebras humanas, liturgias sexuais enigmáticas e a repressão da ditadura, os desaparecidos, a chegada incerta da democracia e os primeiros casos de aids em Buenos Aires. Um romance que amedronta e envolve na mesma medida. Mariana Enriquez nasceu em 1973 em Buenos Aires. É jornalista, subeditora do jornal Página/12 e professora.

O Essencial de Perigosas Sapatas, de Alison Bechdel (Todavia, 395 páginas, R$ 109,90)

Ao longo de mais de duas décadas, Alison Bechdel, autora da premiada graphic novel Fun Home, levou a vida de Mo, Lois, Ginger, Sparrow e de suas amigas a dezenas de jornais. Narrada como uma novela ilustrada, a história se passa em tempo real: as personagens se conhecem, se apaixonam, atam e desatam relacionamentos, trocam de empregos, envelhecem, e suas vidas ao longo de vinte anos refletem as mudanças sociais, culturais e políticas contemporâneas. Selecionadas pela autora, as tiras de O Essencial de Perigosas Sapatas dão a medida do impressionante escopo do trabalho de Bechdel.

“Foi repugnante”: leia a fulminante avaliação de Tchékhov sobre a noite de estreia de sua primeira peça

“Foi repugnante”: leia a fulminante avaliação de Tchékhov sobre a noite de estreia de sua primeira peça

Hoje é o data do 117º aniversário da morte de Anton Tchékhov. Ele é considerado um dos maiores escritores de contos de todos os tempos, e suas peças, hoje clássicas, estabeleceram as bases para o realismo do teatro contemporâneo. Além disso, ele foi médico praticante durante a maior parte de sua carreira de escritor. O que esse cara não poderia fazer? Mas até Tchékhov ficava constrangido.

Em 1887, ele — até então basicamente um satírico e contista — foi contratado por um gerente de teatro para escrever sua peça de estreia, Ivanov. Escreveu Ivanov em apenas duas semanas e a peça foi imediatamente produzida. Tchékhov ficou puto. Em uma carta para seu irmão Alexandr, logo após a primeira apresentação, Tchékhov criticou os atores como “irreconhecíveis”, “bêbados como sapateiros”, transformando seu texto em algo “tedioso e nojento”. No entanto, o público adorou a peça, que foi aplaudida e elogiadíssima. Tchékhov resumiu seus sentimentos conflitantes sucintamente: “No geral, me sinto cansado e irritado. Foi repugnante, embora a peça tivesse sido um sucesso”.

Aqui está a carta completa e incrível:

Bem, a primeira apresentação acabou. Vou lhe contar tudo em detalhes. Para começar, Korsh me prometeu dez ensaios, mas deu apenas quatro, dos quais apenas dois poderiam ser chamados de ensaios, pois os outros dois eram torneios em que messieurs les artistes se exercitavam em brigas e discordâncias. Davydov e Glama eram os únicos dois que conheciam seus papéis, os outros improvisavam.

Ato um. – Estou atrás do palco em uma pequena caixa que parece uma cela de prisão. Minha família está nervosa. Contrariamente às minhas expectativas, estou calmo. Os atores estão nervosos. Se benzem. A cortina sobe… O ator principal esquece suas falas e diz qualquer coisa. Kiselevsky, em quem eu depositava grande esperança, não proferiu uma única frase corretamente — literalmente nenhuma. Ele disse coisas de sua própria larva… Apesar disso e dos erros do diretor de palco, o primeiro ato foi um grande sucesso.

Ato dois. – Muitas gente no palco. Eles não conhecem suas partes, cometem erros, falam bobagens. Cada palavra me corta como uma faca Mas — ó Musa! — esse ato também foi um sucesso. Houve chamadas para todos os atores e fui chamado duas vezes ao palco antes de fechar a cortina. Parabéns e sucesso.

Terceiro ato. – A atuação não é ruim. Sucesso enorme. Tive de me aproximar da cortina três vezes e, ao fazê-lo, Davydov apertou minha mão e Glama, como Manilov, apertou minha outra mão em seu coração. O triunfo do talento e da virtude…

Quarto ato, cena um. – A plateia, desacostumada a deixar seus lugares e ir ao bar entre duas cenas, reclama. A cortina sobe. Tudo bem: avista-se a mesa da ceia (de casamento). A banda toca floreios. Os padrinhos saem: eles estão bêbados, então você vê que eles acham que devem se comportar como palhaços e dar cambalhotas. A brincadeira e a atmosfera me reduzem ao desespero. Sai então Kiselevsky: é uma passagem poética, comovente, mas o meu Kiselevsky não conhece o seu papel, está bêbado e um breve diálogo poético se transforma em algo tedioso e nojento: o público fica perplexo. No final da peça, o herói morre porque não consegue superar o insulto que recebeu. A audiência não entende essa morte. Aplausos para os atores e para mim. Ouço sons de assobios, abafados pelas batidas de palmas.

No geral, sinto-me cansado e aborrecido. Foi repugnante, embora a peça tivesse sido um sucesso considerável…

Os frequentadores do teatro dizem que nunca tinham visto tal efervescência no teatro, tantos aplausos. E nunca o autor fora chamado para ser aplaudido depois do segundo ato.

Portanto, dramaturgos, se vocês já se irritaram com o resultado de seu trabalho…

Uma rara foto de Tchékhov sorrindo

Os conselhos de Roberto Bolaño para escrever contos são… bastante selvagens

Os conselhos de Roberto Bolaño para escrever contos são… bastante selvagens

Por Emily Temple, no Lit Hub

Em 2004, Roberto Bolaño, que esta semana completa há 18 anos de morte, publicou uma lista de “conselhos sobre a arte de escrever contos” na coleção de ensaios Entre Paréntesis. O conselho que Bolaño dá aos aspirantes a escritores é muito específico e provavelmente não servirá para todos (escrever quinze contos de cada vez??). É também um pouco tenso — quase ninguém que escreve esse tipo de lista cita explicitamente outros escritores –, mas, em última análise, pode ser resumido a um ponto principal: você deve ler. Bem, você não vai ouvir nenhum argumento contrário sobre isso.

Aqui está a lista completa:

Agora que tenho quarenta e quatro anos, vou oferecer alguns conselhos sobre a arte de escrever contos.

1. Nunca aborde um conto de cada vez. Se alguém abordar um conto de cada vez, poderá estar escrevendo o mesmo conto até o dia de sua morte.

2. É melhor escrever contos três ou cinco de cada vez. Se alguém tiver energia, escreva nove ou quinze de cada vez.

3. Cuidado: a tentação de escrever dois contos de cada vez é tão perigosa quanto escrevê-los um de cada vez. É como nossa interação com os espelhos.

4. É preciso ler Horacio Quiroga, Felisberto Hernández e Jorge Luis Borges. É preciso ler Juan Rulfo e Augusto Monterroso. Qualquer contista que tenha algum apreço por esses autores jamais lerá Camilo José Cela ou Francisco Umbral, mas lerá, sim, Julio Cortázar e Adolfo Bioy Casares, mas de modo algum Cela ou Umbral.

5. Vou repetir mais uma vez, caso ainda não esteja claro: não considere Cela ou Umbral, de forma alguma.

6. Um contista deve ser corajoso. É um fato triste de reconhecer, mas é assim que as coisas são.

7. Os contistas costumam se gabar de ter lido Petrus Borel (Joseph-Pierre Borel). Na verdade, muitos contistas são notórios por tentarem imitar a escrita de Borel. Que grande erro! Em vez disso, eles deveriam imitar a maneira como Borel se veste. Mas a verdade é que quase nada sabem sobre ele — e nem sobre Théophile Gautier ou Gérard de Nerval.

8. Vamos chegar a um acordo: leia Petrus Borel, vista-se como Petrus Borel, mas leia também Jules Renard e Marcel Schwob. Acima de tudo, leia Schwob, depois vá para Alfonso Reyes e de lá vá para Borges.

9. A verdade é que, com Edgar Allan Poe, todos teríamos material de qualidade mais do que suficiente para ler.

10. Pense no ponto número 9. Pense e reflita sobre ele. Você ainda tem tempo. Pense no número 9. Na medida do possível, faça-o de joelhos dobrados.

11. Deve-se também ler alguns outros livros e autores altamente recomendados — por exemplo, Perì Hýpsous (século I dC; Sobre o Sublime), do notável Pseudo-Longinus  — uma obra clássica sobre a estética e os efeitos de uma boa escrita –; os sonetos do infeliz e corajoso Philip Sidney, cuja biografia Lord Brooke escreveu; The Spoon River Anthology (1916), de Edgar Lee Masters; Suicidios ejemplares (1991), de Enrique Vila-Matas; e nquanto as mulheres dormem (1990), de Javier Marías.

12. Leia esses livros e também Anton Tchékhov e Raymond Carver, pois um dos dois é o melhor escritor do século XX.

Bamboletras ensina a como remover um presidente e recomenda Tokarczuk e Schroeder

Bamboletras ensina a como remover um presidente e recomenda Tokarczuk e Schroeder

A newsletter de amanhã da Bamboletras.

Olá!

Escrever este “Olá” é sempre um desafio. Como encontrar pontos em comum entre os livros sugeridos? Bem, desta vez a gente não conseguiu, mas leia as sinopses abaixo porque não há nada que não seja excelente em nossas sugestões!

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Como remover um presidente, de Rafael Mafei (Cia. das Letras, 450 páginas, R$ 64,90)

Este é um completo e aprofundado estudo das dimensões políticas e jurídicas do impeachment e sua aplicação na lei brasileira. Desde os anos 1990, raramente a América Latina viveu um ano sem um impeachment consumado, ou ao menos sem a ameaça de um. Só no Brasil, houve mais de 250 denúncias de crimes de responsabilidade e o afastamento de dois presidentes. Em Como remover um presidente , o jurista Rafael Mafei reconstitui o desenvolvimento histórico do impeachment — seu surgimento na Inglaterra, sua importância para a Constituição americana e utilização no Brasil —, para então examinar a fundo não apenas os casos de Collor e Dilma, que marcaram o país após a redemocratização, mas também as tentativas contra Vargas, FHC, Lula e Bolsonaro. Um assunto muito atual e que retorna a cada governo, infelizmente.

Correntes, de Olga Tokarczuk (Todavia, 400 páginas, R$ 74,90)

Quem leu Sobre os ossos dos mortos sabe da alta qualidade da ganhadora do Prêmio Nobel de 2018 Olga Tokarczuk. Em Correntes, ela mescla vida pessoal com ficção num livro cheio de surpresas, que inclui relatos vários, comentários e contos que formam um movimentado diário de viagem. Olga é uma das escritoras que melhor explora a autoficção, em que vivências pessoais e ficções se fundem. O livro é composto de 116 pequenos capítulos. O roteiro passa por diferentes museus de anatomia da Europa e nos Estados Unidos. A narrativa é intercalada de observações sobre o ato de viajar, pessoas que a autora encontra no caminho, perrengues, pequenas histórias e imprevistos. Quando ela enviou os originais para seu editor, o caráter fragmentário da narrativa suscitou dúvidas e ele pensou que se tratava de um rascunho vitimado por confusões de “Ctrl C” e “Ctrl V”. A leitura atenta, porém, revela a óbvia concatenação entre os textos. Este é um dos méritos de Tokarczuk: conseguir misturar temas aparentemente isolados (como filosofia, higiene pessoal e Borges, por exemplo) de uma maneira inventiva, inteligente e cativante. E ela recebeu o Nobel, né?

As partes nuas, de Claudia Schroeder (Francisco Alves, 128 páginas, R$ 35,00)

Claudia Schroeder reúne poemas produzidos ao longo dos últimos quatro anos no livro As partes nuas, lançado pela Francisco Alves. Para montar o conjunto, a poetisa contou com a curadoria do poeta Pedro Gonzaga. Dividida em sete partes, a obra traz uma voz que se expressa sem medo, entre a ironia e a ternura, em versos que exploram as facetas de ser mãe, mulher e ser humano — com todos seus sentimentos e pulsões. De acordo com o português José Luís Peixoto, trata-se de um “livro-corpo”. Publicitária há 28 anos, Claudia Schroeder estreou na poesia com Leia-me toda (2010), faz parte da coletânea portuguesa A poesia é para comer (2011) e publicou o infantil A menina que descobriu o sol (2018).

Exemplares autografados pela autora.

O médico das termas, de Arthur Schnitzler

O médico das termas, de Arthur Schnitzler

O escritor e tradutor Marcelo Backes realizou um belo esforço para tornar Arthur Schnitzler um clássico no Brasil. Não conseguiu, mas deixou-nos um notável legado. Este excelente autor austríaco, contemporâneo de Freud — com quem manteve contato e possui uma série de afinidades –, foi médico, dramaturgo, romancista e contista. Seus temas giram torno de psicologia, sexo e morte. Dele é Breve Romance de Sonho, história que foi utilizada por Stanley Kubrick em De Olhos Bem Fechados.

O médico das termas é uma obra tão curta quanto intensa em que Schnitzler expõe as dúvidas sentimentais de um médico que se divide entre duas jovens, Sabine e Katharine, de diferentes classes sociais. O livro é ima joia de perfeição. O Dr. Gräsler é um equivocado contumaz que parece lutar para fracassar. Sua psicologia é de verossimilhança absoluta e o livro seria um clássico a receber reedições e reedições se nossa sociedade fosse mais esperta e leitora. Gräsler parece fugir de quem finalmente o aceita — de quem talvez o ame. Sempre deseja a mulher da qual acaba de desistir, está com uma e quer outra, está com outra e conclui que primeira é a ideal. Paradoxalmente, a frieza expositiva do autor combina muito bem com a quentíssima história. O uso do monólogo interior e a prosa fluida e nua caracterizam o romance.

Médico das termas é a mais baixa categoria na profissão. É aquele médico que atende pessoas em estações de águas termais. Ele fica disponível em hotéis durante a alta temporada, sem nada a fazer na baixa. Então, passa a vida em busca de verões e de hotéis. Trabalha na Europa na durante os meses de calor e depois, quando esfria, vai para a quentinha Lanzarote, na costa da África, próxima do Marrocos.

A partir daqui, meu texto contém spoilers. Após o suicídio de sua irmã solteira Friederike, o Doutor Gräsler passa o verão como médico de spa em uma cidade termal. Lá ele conhece e se apaixona por Sabine, de 27 anos, filha de um cantor de ópera. Sabine deveria ter se tornado cantora a pedido de seu pai, mas depois trabalhou como enfermeira. Seu noivo, um médico, morreu jovem, coitado. Sabine é linda e inteligente. O Dr. Gräsler reconhece que Sabine é a mulher perfeita, mas não consegue abordá-la. Quando as coisas parecem tomar um rumo, vocês já sabem — ele foge para sua cidade natal. Lá ele arranja outro caso com uma simples lojista, mas Katharina lhe parece fácil e vulgar. Ele mora por um tempo com ela, sempre com saudades de Sabine.

Quando volta para o amor de Sabine, é tarde. Esta lhe dá um belo e mais que merecido pé na bunda.

Então, ele retorna correndo para Katharina, seu verdadeiro amor, mas ocorre um problema que nem meu amor aos spoilers faz contar. Deste modo, o médico, desprezador profissional, fica deprimido e sozinho. Neste ínterim descobre casos de sua irmã Friederike, aquela que morreu. E ele, pensando que ela era uma imaculada virgem…

Depois de ver todos os seus planos derreterem — há outros, profissionais — Gräsler casa em alguns dias com uma agradecida Frau Sommer. O inverno está chegando. Ninguém vai mais às termas. O casal vai para outro hotel em Lanzarote, onde está quente e há desocupados para serem tratados. Lá, ele será médico para o veraneio.

Recomendo fortemente, mas acho que agora só em sebos.

Arthur Schnitzler (1862-1931)

poema de silêncio

poema de silêncio

Tive uma amiga que ambicionava escrever
poemas de silêncio

trabalhou muito até que conseguiu
organizar numa mesa de vidro transparente
doze folhas brancas de papel branco
com uma joia em cima de cada uma
para cada amigo receber
o seu poema de silêncio
quando fosse encontrada no robe branco
da morte branca que nos oferecia

cheguei a tempo de salvá-la
fizeram-lhe a lavagem ao estômago
não me perdoou a alma mal lavada
nunca mais nos vimos
viaja agora de país em país
sem joias sem poemas sem amigos
e telefona-me às vezes depois da meia-noite
quando o silêncio raspa o vidro da janela

Helder Macedo

Helder Macedo (1935)

“Escreva como se estivesse morrendo”: leia alguns conselhos de escrita de Annie Dillard

“Escreva como se estivesse morrendo”: leia alguns conselhos de escrita de Annie Dillard

Do Lit Hub
Mal traduzido por mim

Annie Dillard, uma das melhores escritoras estadunidenses, é também uma de suas melhores professoras. Em How to Write An Autobiographical Novel, de Alexander Chee, Dillard aparece como uma professora generosa e estimulante que incentiva seus alunos a visualizarem seus livros nas prateleiras das livrarias. Maggie Nelson, questionada no The Rumpus, quais conselhos de redação ela dá a seus alunos com mais frequência. Kevin Barry, quando questionado sobre o melhor conselho de redação que já recebeu: “Annie Dillard disse uma vez que o único conselho de que qualquer escritor precisa é manter suas despesas gerais baixas”. Em comemoração ao seu 76º aniversário, aqui está uma coleção incompleta — mas ainda assim abrangente — de alguns dos melhores conselhos de escrita de Annie Dillard.

Escreva de acordo com seus próprios interesses idiossincráticos:

Por que você nunca encontra nada escrito sobre aquele seu pensamento idiossincrático, sobre seu fascínio por algo que ninguém mais entende? Porque depende de você. Há algo que você acha interessante, por um motivo difícil de explicar? É difícil de explicar porque você nunca leu em nenhuma página. Então aí é que você começa. Você foi feito para dar voz a isso, a seu próprio espanto.

Escreva como se estivesse morrendo. Ao mesmo tempo, suponha que você escreva para um público que consiste apenas em pacientes terminais. O que você começaria a escrever se soubesse que morreria em breve? O que você poderia dizer a um paciente moribundo que não o enfureceria com sua trivialidade?

–De “Write Till You Drop”, The New York Times , 1989

Você é o único de você… Sua perspectiva é única, neste momento. Não se preocupe em ser original… Sim, tudo foi escrito, mas também, o que você quer escrever, antes de escrever, era impossível de escrever. Caso contrário, já existiria. Você torna isso possível. Escrevendo.

–De ” Annie Dillard and the Writing Life “, conforme recontado por Alexander Chee

Encontre inspiração lendo outras pessoas:

Leia por prazer. Se você gosta de Tolstói, leia Tolstói; se você gosta de Dostoiévski, leia Dostoiévski. Force um pouco, mas não leia algo totalmente estranho à sua natureza e depois diga: “Nunca serei capaz de escrever assim”. Claro que você não vai. Leia livros que você gostaria de escrever. Se você quiser escrever literatura, leia literatura. Escreva livros que você gostaria de ler. Siga sua própria estranheza…

Quanto mais você lê, mais você escreve. Quanto melhor o material que você ler, melhor o material que você escreverá. Você pode desenvolver o gosto pela boa literatura gradualmente. Mantenha uma lista dos livros que deseja ler. Você logo aprenderá que “clássicos” são livros infinitamente interessantes. Quase todos eles. Você pode continuar a relê-los por toda a sua vida a cada dez anos, e vários outros aparecerão para você em diferentes estágios de sua vida.

–Do conselho enviado aos alunos da University of North Carolina em Chapel Hill, republicado no Image Journal

Hemingway estudou, como modelos, os romances de Knut Hamsun e Ivan Turguenev. Isaac Bashevis Singer, por acaso, também escolheu Hamsun e Turguenev como modelos. Ralph Ellison estudou Hemingway e Gertrude Stein. Thoreau amava Homer; Eudora Welty amava Tchekhov. Faulkner descreveu sua dívida para com Sherwood Anderson e Joyce; EM Forster, sua dívida para com Jane Austen e Proust. Por outro lado, se você perguntar a um poeta de 21 anos de que poesia ele gosta, ele dirá, sem corar: “Ninguém”. Ele ainda não compreendeu que os poetas gostam de poesia e os romancistas gostam de romances; ele mesmo gosta apenas do papel, de pensar em si mesmo.

–De “Write Till You Drop”, The New York Times , 1989

Na escrita, a ação é tudo:

Não use construções verbais passivas. Você pode reescrever qualquer frase.

–Do Image Journal

Como obtemos uma escrita vívida? Verbos, primeiro. Verbos precisos. Toda a ação na página, tudo o que acontece, acontece nos verbos. A voz passiva precisa de gerúndios para fazer qualquer coisa acontecer. Mas muitos gerúndios juntos na página contribuem para o zumbido. Não faça isso. Os verbos dizem ao leitor se algo aconteceu uma vez ou continuamente, o que está em movimento, o que está em repouso. Os gerúndios são preguiçosos, não tem que tomar uma decisão e logo, tudo está acontecendo ao mesmo tempo, desordem, caos. Não faça isso. Além disso, más escolhas de verbos significam advérbios. Na maioria das vezes, você não precisa deles. Ele correu rápido ou correu? Ele caminhou devagar ou ele vagueou? . . .

Os advérbios são um sinal de que você usou o verbo errado. Verbos controlam quando algo está acontecendo na mente do leitor.

–De ” Annie Dillard and the Writing Life “, conforme recontado por Alexander Chee

Em caso de dúvida, volte ao específico e concreto:

Sempre localize o leitor no tempo e no espaço repetidas vezes. Escritores iniciantes correm para os sentimentos, para as vidas interiores. Em vez disso, mantenha as aparências superficiais; acertar os cinco sentidos; dar a história da pessoa e do lugar, e a aparência da pessoa e do lugar. Use nomes e sobrenomes. Ao escrever, coloque tudo em um lugar e um tempo.

Não descreva sentimentos.

O caminho para as emoções do leitor é, estranhamente, através dos sentidos.

–Do Image Journal

Se sua escrita o confunde, investigue a parte confusa:

Examine todas as coisas intensa e implacavelmente. Sondar e pesquisar cada objeto em uma obra de arte; não o abandone, não o percorra, como se fosse compreendido, mas siga-o até que o veja no mistério de sua própria especificidade e força. Os desenhos e pinturas de Giacometti mostram sua perplexidade e persistência. Se ele não tivesse reconhecido sua perplexidade, não teria persistido.

–De “Write Till You Drop”, The New York Times , 1989

Gaste tudo agora. Não guarde suas melhores ideias para depois:

Gaste tudo, atire, jogue, perca tudo, imediatamente, sempre. Não acumule o que parece bom para um lugar posterior no livro, ou para outro livro; dê, dê tudo, dê agora. O impulso de guardar algo bom para um lugar melhor mais tarde é o sinal para gastá-lo agora. Algo mais surgirá para depois, algo melhor. Essas coisas se enchem por trás, por baixo, como água de poço. Da mesma forma, o impulso de guardar para si mesmo o que aprendeu não é apenas vergonhoso, é destrutivo. Tudo o que você não dá livre e abundantemente se perde para você.

–De “Write Till You Drop”, The New York Times , 1989

É o começo de uma obra que o escritor joga fora.

Uma pintura cobre seus rastros. Os pintores trabalham do zero. A versão mais recente de uma pintura sobrepõe as versões anteriores. Os escritores, por outro lado, trabalham da esquerda para a direita. Os capítulos descartáveis ​​estão à esquerda. A última versão de uma obra literária começa em algum lugar no meio da obra e melhora no final. A versão mais antiga permanece fragmentada à esquerda.

Às vezes, o escritor deixa seus primeiros capítulos no lugar por gratidão; ele não pode contemplá-los ou lê-los sem sentir novamente o bendito alívio que o exaltou quando as palavras apareceram pela primeira vez — alívio por ele estar escrevendo alguma coisa. Afinal, aquele começo serviu para levá-lo aonde estava indo; certamente o leitor não precisa disso como base.

–De The Writing Life

… e, em geral, corte cruelmente:

Não use palavras extras. Uma frase é uma máquina; tem um trabalho a fazer. Uma palavra extra em uma frase é como uma peça estranha à máquina…

A unidade da obra é mais importante do que qualquer outra coisa. Essas digressões que eram tão divertidas de escrever devem desaparecer.

–Do Image Journal

Uma tarde, sob sua orientação, trouxemos nossas páginas escritas, mais tesouras e fita adesiva. Agora cortem apenas as melhores frases, [Dillard] disse. E cole-os em uma página em branco. E então, quando você tiver isso, escreva em torno deles, disse ela. Preencha o que está faltando e faça com que alcance o melhor do que você escreveu até agora.

Eu assisti enquanto as frases que não importavam sumiam.

–De ” Annie Dillard and the Writing Life “, conforme recontado por Alexander Chee

Aponte o leitor para o que é importante:

Se algo em sua narrativa ou poema for importante, dê um espaço proporcional. Quer dizer, centímetros reais. O leitor precisa gastar tempo com um assunto para se preocupar com ele. Não se intimide com suas grandes cenas; estique-as.

–Do Image Journal

Avaliar seu trabalho enquanto você escreve é ​​inútil:

Não há uma relação proporcional, nem inversa, entre a estimativa de um escritor de uma obra em andamento e sua qualidade real. A sensação de que o trabalho é magnífico e a sensação de que é abominável são ambos mosquitos a serem repelidos, ignorados ou mortos, mas não tolerados.

–De The Writing Life

Não se compare ao seu amigo mais produtivo:

Faulkner escreveu As I Lay Dying em seis semanas… Algumas pessoas participam de corridas de trenós puxados por cães que duram uma semana, passam pelas Cataratas do Niágara em barris, pilotam aviões pelo Arco do Triunfo. Algumas pessoas não sentem dor no parto. Não há necessidade de considerar os extremos humanos como normas.

–De The Writing Life

Lembre-se de que a publicação é subjetiva:

A publicação não é um indicador de excelência. Isso é o mais difícil de aprender. Quando uma revista rejeita sua história ou poema, não significa que não foi “bom” o suficiente. Isso significa que a revista pensava que seus leitores em particular não precisavam daquela história ou poema. Os editores pensam nos leitores: o que isso traz para o leitor? Também existe um culto à celebridade neste país, e muitas revistas publicam apenas pessoas famosas e rejeitam trabalhos melhores de pessoas desconhecidas.

Você precisa saber essas coisas em algum lugar no fundo da sua mente e precisa esquecê-las e escrever tudo o que for escrever.

–Do Image Journal

Acima de tudo, continue trabalhando:

O talento não é suficiente… Escrever é trabalho. Qualquer um pode fazer isso, qualquer um pode aprender a fazer isso. Não é ciência de foguetes, são hábitos mentais e hábitos de trabalho. Comecei com pessoas muito mais talentosas do que eu, e elas estão mortas ou na prisão ou não estão escrevendo. A diferença entre eu e eles é que estou escrevendo.

–De ” Annie Dillard and the Writing Life “, conforme recontado por Alexander Chee

Bamboletras recomenda o último Bernardo Carvalho e duas boas biografias

Bamboletras recomenda o último Bernardo Carvalho e duas boas biografias

A newsletter de amanhã da Bamboletras.

Olá!

Duas biografias de grandes intelectuais — Hannah Arendt e Euclides da Cunha — e mais o último romance de Bernardo Carvalho — O último gozo do mundo — fazem a alegria desta semana tiritante.

Mais detalhes abaixo. Boa semana com boas leituras!

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O último gozo do mundo, de Bernardo Carvalho (Cia. das Letras, 144 páginas, R$ 49,90)

A história de uma professora de sociologia que vê seu casamento desmoronar pouco antes do início de uma pandemia global. “O último gozo do mundo” é o décimo terceiro livro de Bernardo Carvalho. Presa de um tempo em que “a leitura do mundo tornou-se descontínua e episódica”, a protagonista desta novela parte, com o filho pequeno, numa jornada para um retiro no interior do Brasil. Lá, mora um homem que prevê o futuro depois de ter sobrevivido ao vírus ameaçador. Um rastro de perplexidade e de perguntas sem respostas vai sendo deixado para trás, numa narrativa enigmática, eletrizante e que se torna mais e mais perturbadora. Podemos distinguir as causas dos efeitos? Como damos sentido a uma narrativa? O que restou de humanidade num Brasil dominado pela morte?

Arendt, entre o amor e o mal: uma biografia, de Ann Heberlein (Cia. das Letras, 256 páginas, R$ 64,90)

Este perfil biográfico entrelaça a vida e a obra de Hannah Arendt, autora de obras fundamentais como Origens do totalitarismo e Eichmann em Jerusalém. Inclui posfácio de Heloisa Starling. A vida de Hannah Arendt se estende por um período imprescindível na história do mundo ocidental, que abrange não apenas a ascensão do regime nazista e as crises da Guerra Fria, mas a formulação de reflexões fundamentais sobre o valor e a culpa da humanidade diante desses episódios. Nesse sentido, suas contribuições intelectuais estão diretamente relacionadas à sua vida, marcada por experiências terríveis, mas também por amor, exílio e saudade.

Euclides da Cunha, uma biografia, de Luís Cláudio Villafañe G. Santos (Todavia, 432 páginas, R$ 89,90)

Euclides da Cunha viveu apenas 43 anos e foi militar, engenheiro, jornalista, cientista, literato e cartógrafo. A despeito da abundância de fontes, alguns episódios de sua vida continuam pouco conhecidos, como a expedição à Amazônia e a passagem pelo Itamaraty. Esta biografia traz ainda novas interpretações para eventos conhecidos, sublinhando contradições entre o discurso e os fatos, o que realça sua profunda humanidade.

Doramar ou A Odisseia, de Itamar Vieira Junior

Doramar ou A Odisseia, de Itamar Vieira Junior

Torto Arado recebeu merecido reconhecimento público no Brasil. A história de Bibiana e Belonísia é ótima. É um esplêndido livro que gira em torno de vários temas, preferencialmente a escravidão, o racismo e a situação da mulher. Além disso, dentro de um arcabouço poético raras vezes obtido, também abre um Brasil desconhecido das grandes cidades. O livro é portentoso e vendeu 200 mil exemplares em nosso país tão triste e pouco leitor. Se não me engano, Torto Arado é o terceiro livro de Itamar. Antes, ele havia publicado A Oração do Carrasco e Dias. Pois este Doramar é uma revisão ampliada de Oração. Deixando claro: Doramar não é uma apenas uma reedição revisada. Há inéditos nele.

Sim, ainda prefiro Torto Arado, mas, puxa vida, como Doramar é bom! As razões de sua qualidade são parecidas: traz questões sociais de negros, ribeirinhos, índios, mulheres e alcança profunda compaixão e poesia. Mas a poesia de Itamar não torna as coisas sujas mais belas, ela é um filtro catalisador de impressões, empatias e ódios.

Contos como A Floresta do Adeus, Alma, VoltarDoramar ou A Odisseia retomam o tema das mulheres que enfrentam situações adversas. No último conto, o que dá título ao livro, é narrada a história de uma empregada doméstica que, ao sair do trabalho, vê um cão à morte e queda-se ou desaba em pensamentos sobre sua condição de mulher pobre e negra. O profundamente poético e terrível Meu mar (fé) faz lembrar vagamente outra obra-prima, o conto Mijito, de Lucia Berlin. Alma conta a história de uma escrava que foge e inicia uma caminhada obstinada e solitária ao interior do país. Fala da escravidão e tem um final arrepiante. A Oração do Carrasco é sobre um profissional da morte extremamente pragmático, que não contesta a necessidade de seu ofício, mas que não consegue convencer seu filho a abraçar a mesma profissão. Manto da Apresentação traz o artista plástico Arthur Bispo do Rosário. Os outros contos não são esquecíveis.

O resultado é um painel triste e espantoso. Itamar é um artesão, seus contos trazem um misto de lirismo e dureza, sendo de linguagem extremamente trabalhada, mas cujo suor não é passado ao leitor. A finalização de alguns deles — como A Floresta do Adeus — é de um virtuosismo arebatador. Acho que Itamar é o autor mais vendido atualmente no Brasil e tenho a certeza de que este posto foi raras vezes melhor ocupado.

Recomendo fortemente.

Mesmo inferior a Torto Arado, Doramar é excelente. Itamar veio para ficar.

Os livros mais vendidos em junho na Bamboletras

Os livros mais vendidos em junho na Bamboletras

E vamos aos mais vendidos de junho! Itamar Vieira Júnior, que já ocupava o topo de nossa lista há um bom tempo, agora ocupa a primeira e a segunda colocações. E, como de costume, só temos ótimos livros em nossa lista! Os leitores da Bambô só levam coisa boa. Apareça, aqui há qualidade e curadoria!

1. Torto Arado, de Itamar Vieira Junior (Todavia)
2. Doramar ou a Odisseia: Histórias, de Itamar Vieira Júnior (Todavia)
3. Os Supridores, de José Falero (Todavia)
4. Notas sobre o Luto, de Chimamanda Ngozi Adichie (Companhia das Letras)
5. Pequena Coreografia do Adeus, de Aline Bei (Companhia das Letras)
6. E se as cidades fossem pensadas por mulheres, de Laura Sito e Mariana Félix (Zouk)
7. João aos pedaços, de Flávio Ilha (Diadorim)
8. Porto Alegre, Cidade Baixa: Um bairro que contém seu passado, de Renato Menegotto (Marcavisual)
9. O Avesso da Pele, de Jeferson Tenório (Companhia das Letras)
10. Diários: 1909-1923, de Franz Kafka (Todavia)

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se isto não é amor

Amar o dia, detestar o dia,
chamar a noite e desprezá-la logo,
temer o fogo e acercar-se ao fogo,
ter a um tempo pena e alegria.
Estar juntos valor e covardia,
o desprezo cruel e o brando rogo,
ter valente entendimento cego,
atada a razão, livre ousadia.
Buscar lugar em que aliviar os males
e não querer do mal fazer mudança,
desejar sem saber que se deseja.
Ter o gosto e o desgosto iguais
e todo o bem livrado na esperança,
se isto não é amor, não sei o que seja.

María de Zayas y Sotomayor (Madrid, 12 de setembro de 1590 – depois de 1647)

Bamboletras recomenda o novo livro de Daniel Galera e mais

Bamboletras recomenda o novo livro de Daniel Galera e mais

A newsletter de amanhã da Bamboletras.

Olá!

Pois é. Recebemos o novo livro de Daniel Galera, O deus das avencas. Ele é composto de três novelas e quem já leu voltou falando muito bem dele. Não muito longe, mas com um viés mais realista, recomendamos Uma vontade inadiável de acabar com este mundo, coletânea de dez narrativas de outro Daniel, o Ricci Araújo. Para finalizar, Afropessimismo, um esplêndido estudo sobre o circuito permanente de escravidão que insiste em definir a experiência da negritude.

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O Deus das Avencas, de Daniel Galera (Cia. das Letras, 248 páginas, R$ 54, 90) 

O deus das avencas traz três novelas reunidas neste livro. Na primeira novela, a que dá título ao livro, um casal se fecha em casa à espera do nascimento do primeiro filho, e mergulha numa incerteza crescente, tanto pelo destino deles quanto pelos rumos do país. Em Tóquio, Galera abandona a narrativa mais realista ao retratar a vida de um homem solitário, obrigado a enfrentar o passado em um mundo que atravessou um desastre ambiental e tecnológico. E, por fim, em Bugônia, ele dá um passo além ao recriar a história de uma comunidade pós-apocalíptica em simbiose com a natureza, que, pressionada pelas ameaças externas de um planeta devastado, precisa se transformar de forma radical. O deus das avencas é um livro especulativo e por vezes sombrio, mas extremamente humano.

Uma vontade inadiável de acabar com este mundo, de Daniel Ricci Araújo (Quatorze Vinte Um, 172 páginas, R$ 40,00)

Uma vontade inadiável de acabar com este mundo é uma coletânea com dez narrativas curtas na qual ficção e realidade criam uma trama que envolve e revolta. A tônica das histórias é a crítica à sociedade contemporânea, com seu deslustre e sua virtude. Como uma moeda, que sempre tem duas faces, Daniel Ricci Araújo nos confronta com temas que estão no dia a dia dos noticiários como xenofobia, racismo, relações familiares, drogadição, a violência urbana. Ele também nos apresenta o outro lado, ao falar de solidariedade, compaixão e cumplicidade. Em alguns dos contos, Daniel se afasta da nossa realidade para mergulhar em um cenário distópico, por meio da ficção científica, e nos apresentar situações nas quais a ética e o bom senso parecem não mais existir. A obra é um convite à reflexão sobre o papel e a responsabilidade de cada um com o hoje e o amanhã.

Afropessimismo, de Frank B. Wilderson III (Todavia, 400 páginas, R$ 84,90)

Por que a questão da raça permeia grande parte do nosso universo moral e político? Por que um ciclo perpétuo de escravidão — em todas as suas formas: política, intelectual e cultural — continua a definir a experiência da negritude? E por que a violência contra os negros é um traço predominante em todo o mundo? Essas são apenas algumas das questões que este livro levanta. Wilderson apresenta, nesta obra, as bases de um movimento intelectual — o afropessimismo — que vê a negritude pelo prisma da escravidão perpétua. A partir de clássicos da literatura, do cinema, da filosofia e da teoria crítica, ele mostra que a construção social da escravidão, vista pelas lentes da subjugação dos negros, não é uma relíquia do passado, mas um mecanismo que alimenta nossa civilização. Sem a dinâmica senhor-negro escravizado, sustenta o autor, um dos pilares da civilização mundial iria a colapso. Mais do que qualquer outro grupo, os negros serão sempre vistos como escravos em relação à humanidade. Afropessimismo fala ainda da infância do autor em Minneapolis e do racismo que ele sofre — seja na Califórnia dos anos 1960 ou durante o apartheid na África do Sul, onde ele se junta às fileiras do Congresso Nacional Africano. Este livro não apresenta solução para o ódio que está por toda parte, mas Wilderson acredita que reconhecer essas condições históricas é um gesto de autonomia em face de um mundo social essencialmente racializado.

Lições de um escritor que se autopublica: as livrarias independentes são boas, a Amazon nem tanto

Lições de um escritor que se autopublica: as livrarias independentes são boas, a Amazon nem tanto

Por  Jonny Diamond, no Lit Hub e, infelizmente, apenas nos EUA

Em 2019, o romancista Mason Engel publicou seu próprio romance e fez sua autopromoção visitando 50 livrarias em 50 dias através dos EUA. Ele filmou tudo, documentando o seu périplo. Naquele ponto, ele ainda pensava em, quem sabe?, vender seu romance apenas para a Amazon, que continua sendo o lugar mais importante para escritores autopublicados ganharem dinheiro com seu trabalho — mas sua viagem mudou tudo.

Como muitos de vocês provavelmente sabem, as livrarias independentes são frequentemente espaços comunitários (muito) idiossincráticos e (muito) encantadores. Eles são preenchidos não apenas por acervos altamente selecionados que refletem o que os livreiros realmente gostam, mas também o espírito de um bairro ou de uma cidade, aquela personalidade particular que se molda em torno de milhares de conversas silenciosas sobre o que importa no mundo. Foi isso que Mason Engel descobriu em sua viagem e o que o levou a deixar a Amazon.

Passado um ano, Engel decidiu voltar à estrada, desta vez com um propósito além de seu próprio trabalho. Apesar da pandemia, Engel — e seu cinegrafista Brady — visitaram 30 livrarias entre Nova Orleans e Nova York, perguntando aos livreiros por que fazem o que fazem e por que isso é importante. Os resultados estão agora aqui, em um segundo documentário chamado The Bookstour , que você pode assistir fazendo uma doação ao BINC , a maravilhosa organização sem fins lucrativos que apoia os livreiros necessitados. O BINC tem sido um apoiador inestimável nos últimos 18 meses para uma comunidade de livrarias que precisa urgentemente de ajuda financeira.

Isso tudo parece um boa coisa: apoiar os livreiros enquanto se aproveita de sua sabedoria, visão e esperança… Obrigado Mason Engel!

A Amazon está destruindo milhares de livros não vendidos

A Amazon está destruindo milhares de livros não vendidos

Por Walker Caplan, no Lit Hub

ITV News relatou que a Amazon está destruindo milhões de itens não vendidos a cada ano — livros, TVs, laptops, drones, fones de ouvido, computadores, milhares de máscaras COVID embaladas estão todos entre os resíduos. Imagens secretas do depósito de Dunfermline da Amazon no Reino Unido, da ITV News, mostram esses itens classificados em caixas marcadas como “Destroy”, para minimizar os custos de armazenamento.

Disse um ex-funcionário anônimo à ITV News : “De sexta a sexta-feira, nossa meta era geralmente destruir 130.000 itens por semana. Eu costumava ficar indignado. Não há razão para tal destruição. No geral, cinquenta por cento de todos os itens não foram abertos e ainda estão em sua embalagem plástica. A outra metade são devoluções e em bom estado. Os funcionários acabaram de ficar insensíveis ao que estão sendo solicitados a fazer. ”Um funcionário disse que em algumas semanas, até 200.000 itens podem ser marcados como “destruir”, enquanto apenas uma fração desse número seria marcada como “doar”. (Uma semana de abril mostrou mais de 124.000 itens marcados como “destruir”, enquanto apenas 28.000 foram marcados como “doar”.)

Outro funcionário veio  corroborar o relato do primeiro funcionário e confirmou que o depósito de Dunfermline não era o único que produzia resíduos nessa escala: “Nós nos livramos de livros novos, de iPhones novos, de PlayStations. Em todas as instalações isso acontece, acredite em mim, acontece. Trabalhei em uma instalação específica, mas conhecia outras pessoas que trabalharam em outras e elas disseram exatamente a mesma coisa. ”

A Amazon negou o envio de qualquer produto para aterros no Reino Unido em declarações à ITV e The Verge e afirma que o aterro que a ITV identificou é um local de reciclagem (apesar dos rótulos “destruir”). Disse a Amazon no comunicado: “Estamos trabalhando em direção a uma meta de descarte zero de produtos e nossa prioridade é revender, doar para organizações de caridade ou reciclar quaisquer produtos não vendidos.” A Amazon disse ao The Verge que menos de um por cento de seus produtos são incinerados para geração de energia.

Assistindo à filmagem do ITV News, é difícil não pensar em todos os que poderiam se beneficiar com os produtos marcados como “destruir”. Esses livros podem trazer alegria para escolas, hospitais, prisões; esses laptops poderiam ajudar os alunos necessitados que precisaram de laptops para aprendizado remoto no ano passado. Sem falar na sustentabilidade ambiental. Como Philip Dunne, presidente do Comitê de Auditoria Ambiental, disse ao ITV News : “[Este] é um grau verdadeiramente surpreendente de desperdício de recursos. E se for verdade, é um escândalo que a Amazon tem que resolver. ”

A Bamboletras sugere três livros muito diferentes entre si

A Bamboletras sugere três livros muito diferentes entre si

A newsletter de amanhã da Bamboletras.

Olá!

Desta vez será complicado encontrar pontos em  comum sobre os livros sugeridos. Eles só têm em comum a alta qualidade.

O primeiro é um livro de crônicas saborosas de Humberto Werneck. Livro profundamente brasileiro e dentro de nossa gloriosa tradição cronística.

O segundo é o terceiro e último volume de uma obra-prima. Os diários de Emilio Renzi, de Ricardo Piglia, deveria ser livro de cabeceira de qualquer candidato a escritor ou artista.

O último é um mosaico enganador de fatos que envolvem uma visita à Alemanha Oriental e uma foto sobre a faixa de segurança de Abbey Road, como a célebre foto da capa do disco homônimo dos Beatles.

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O Espalhador de Passarinhos, de Humberto Werneck (Arquipélago, 176 páginas, R$ 45,00)

Espalhador de boas histórias, Humberto Werneck senta conosco na calçada para uma conversa saborosa. Na memória do menino, a educação sexual na Idade Média dos anos 50 e o pequeno defunto que leva os óculos consigo para ver o nada no fundo da terra. Na pele do jornalista, os espinhos de uma entrevista petrificante com Clarice Lispector e o ensinamento de um jovem Gilberto Gil (“Minha ambição é a boa morte”). Na coleção do catador de palavras, a festimana e o balandrau. Nas retinas infatigáveis do observador da vida, as separações que não dão certo e os santos de um lugar esquecido por Deus. Um livro que preserva o canto inimitável da crônica brasileira.

Um dia na vida: Os diários de Emilio Renzi, de Ricardo Piglia (Todavia, 334 páginas, R$ 89,90)

Como nos dois volumes anteriores dos diários de Emilio Renzi, alter ego do autor, é possível montar uma cartografia pessoal de Piglia por meio das aventuras da vida íntima (casos amorosos, família, amigos), cafés, pequenos quartos alugados, quartos de hotel e jornadas pelas freeways dos Estados Unidos. Um dia na vida é o terceiro e último volume dos diários — ponto alto da produção literária de um dos escritores fundamentais da literatura latino-americana. O pânico de viver sob uma ditadura. As dúvidas sobre ser ou não um intelectual público. As amizades literárias e os amores. O triunfo com a publicação de Respiração artificial. O envelhecimento e a doença. Aqui, como nos dois volumes anteriores dos diários, é possível montar uma cartografia pessoal de Piglia por meio das aventuras da vida íntima, cafés, quartos de hotel. E, sempre, o chamado da escrita.

O homem que viu tudo, de Deborah Levy (Todavia, 232 páginas, R$ 64,90)

No mosaico montado por Deborah Levy, as peças do mistério se sucedem e se combinam, num caleidoscópio de pistas, indícios e sugestões. Em 1988, o jovem historiador Saul Adler é convidado a viajar à Alemanha Oriental para realizar uma pesquisa. Em troca, Saul deve escrever um ensaio elogiando a vida na RDA e o regime comunista. Ele ficará hospedado na casa de seu tradutor, e pretende dar à irmã dele — fã incondicional dos Beatles — uma foto atravessando a famosa Abbey Road. Enquanto aguarda sua namorada, que irá retratar a cena, Saul é atropelado. Embora sofra apenas ferimentos leves, o acidente mudará o rumo de sua vida.

O Impostor, de Javier Cercas

O Impostor, de Javier Cercas

O Impostor narra o escandaloso caso de Enric Marco. Marco era uma espécie de “testemunha viva” da história da Espanha recente, tendo participado da Guerra Civil Espanhola, sido deportado para a Alemanha, sobrevivido ao campo de concentração nazista de Flossenbürg, e — de volta à Espanha — participado da luta antifranquista por quase quatro décadas… Só que não.

Mais: Marco era uma das “reservas morais” do país, tinha concedido mais de 8 mil palestras, fora entrevistado por todos os meios de comunicação, detalhara suas histórias em minúcias — pois possuía enorme conhecimento de história e criara sua própria biografia sempre com um pé firme na verdade –, só que era tudo fantasia. Neste “romance sem ficção”, Cercas conta toda a lorota de Enric Marco, O Impostor mostra os mecanismos através dos quais Marco forjou uma nova biografia em vida.

Enric Marco é um grande personagem. Diz o Google que ele, aos 100 anos, ainda está vivo. Ele tem mil máscaras, sendo uma espécie Alonso Quijano, o homem que criou Dom Quixote para si mesmo. Porém, se o tema e o personagem são sensacionais, às vezes Cercas fica aquém do mesmo, dando voltas e mais voltas para sempre reencontrar a famosa citação de Faulkner que diz que “o passado nunca passa, não é sequer passado, mas apenas uma dimensão do presente”. Cercas fez muitas entrevistas com Marco e com quem o cercava, e foi pouco a pouco destruindo praticamente todas as afirmações sobre a biografia do mentiroso. O livro também comenta bastante a relação entre os dois e isto é um de seus pontos altos. O diálogo imaginário que ele tem com Marco é soberbo.

Marco tem uma relação de amor e de ódio com o autor. Primeiro quer que ele o salve, que o livro sirva para recuperá-lo frente à opinião pública. Depois, quando vê que o escritor desmonta cada uma de suas versões dos fatos, quase chora dizendo “deixe-me ao menos alguma coisa”. Também retrata o seu “escritor” como “um pequeno burguês neurótico e fraco, com a consciência sempre a incomodar”, mas que acaba por lucrar com seus personagens: “Você não suspeita de que vivi o que vivi e inventei o que havia inventado só para você contar?”.

Marco é um midiopata, um homem obcecado por aparecer e por tornar-se uma “autoridade”, que quer ser admirado de qualquer maneira. E era uma autoridade… Ante a qual a opinião pública espanhola quedou-se boquiaberta.

Quem descobriu a impostura de Marco foi o historiador Benito Bermejo, um daqueles caras que não se contenta com qualquer resposta. A falta de coincidência em alguns pontos das próprias falas do “herói cívico”, meteram um mosquito no ouvido de Bermejo, que partiu para uma investigação mais exaustiva. Tal investigação revelou a grande mentira de alguém que representava a Associação das Vítimas do Nazismo na Espanha, daquele que durante 20 anos foi uma figura emblemática na Federação das Associações de Pais de Estudantes da Catalunha, daquele que foi secretário da CNT (Confederação Nacional do Trabalho) no final dos anos setenta. E Marco jamais foi deportado, nunca pôs os pés num campo de concentração alemão, nem foi um ferrenho opositor do franquismo. Enric Marco era uma invenção, uma ficção.

Cercas escreve o livro sem a intenção de defender ou justificar o ato aberrante. Sua finalidade está mais próxima da necessidade de um confronto com o espelho. Dele e do próprio leitor. Quantos de nós somos impostores? Algumas mentiras são nobres como Platão consideraria, oficiosas como Montaigne colocaria, ou uma válvula de escape da realidade como Nietzsche afirmava? Pois Marco, depois dos 50 anos de idade, decidiu se levantar contra o anonimato de sua vida. E o fez mentindo, inventando uma história heroica que conseguiu manter por mais 30 anos, sabendo aproveitar-se do esquecimento histórico.

A realidade mata e a ficção salva. Essa premissa ressoa insistentemente à medida que as páginas passam. Talvez sim. A mentira de Marco é a Rainha das mentiras, é a Mentira das mentiras, é uma zombaria implacável contra a dor de quem realmente morreu ou sobreviveu no inferno. Porém, nela também fica clara a necessidade humana de sobreviver diante da realidade inóspita e avassaladora.

Recomendo.

Obs.: A edição brasileira, com a figura de Marco ocupando a parte vazada da capa, é um achado.