O Fim (Minha Luta 6), de Karl Ove Knausgård

O Fim (Minha Luta 6), de Karl Ove Knausgård

Foi mais de um mês de leitura, houve um momento em que me irritei com a insistência do autor em abandonar seus personagens para partir em longas digressões, mas foi por pouco tempo. Depois, lá pela página 700, não aguentava mais ver a capa do livro nem carregar suas mais de mil páginas na mochila para cá e para lá, pois leio muito em cafés e parques, só que cada vez que o abria ficava feliz em lê-lo. Sim, Knausgård me dobrou e não apenas à coluna.

Quatro anos após a publicação de A Descoberta da Escrita, volume 5 de Minha Luta, a sexta e última parte da hexalogia chegou ao Brasil em dezembro. A Companhia estava nos devendo. Por que demorou tanto não está claro, apesar do fato de serem 1049 páginas. De qualquer maneira, valeu a espera. Eu, a cada romance de série, ficava preocupado se o livro me sugaria novamente. O que mais Knausgård poderia dizer sobre si mesmo? Quantos cigarros e cafés ele ainda consumiria? Bem, dizer que são muitos não é dar spoiler.

Vamos a O Fim. Knausgård havia escrito dois volumes de Minha Luta e estava prestes a começar a trabalhar no terceiro quando o primeiro — A Morte do Pai — foi publicado. Como tratava-se de uma autobiografia muito franca e na qual todos os personagens — parentes, amigos e colegas — , eram retratados com seus nomes verdadeiros, ele resolveu enviar o primeiro romance a cada um dos citados no livro. E aqui ele começa a registrar knausgårdianamente a rixa familiar e a crise autoral desencadeada. Seu tio o acusou de inventar coisas no romance. Isso normalmente não seria uma cobrança que incomodaria a um escritor de ficção. Porém, neste caso, o autor tinha se empenhado em escrever a “verdade”, não apenas a versão emocional dela, mas também o factual, a versão real. “O objetivo do romance”, escreve ele, “era retratar a realidade como ela era”. E a insistência do tio de que Knausgård havia inventado material para embelezar sua história (que mais tarde se revelou uma falsa acusação) o fez questionar sua própria memória e motivações, o que causou uma espécie de dúvida paralisante.

O tio Gunnar, irmão de seu pai, respondeu à cópia do livro que Knausgård lhe enviou com um e-mail intitulado “Estupro verbal”. Sua raiva e determinação em bloquear a publicação deixaram seu sobrinho perturbado, até porque sua fé em suas próprias lembranças dos eventos foi abalada. Enquanto Knausgård se preocupa e chama seu editor, ainda deve levar a vida fritando bolos de peixe para o chá de seus três filhos e certificar-se de que eles assistam ao episódio de Bolibompa do dia.

Cada fralda trocada, cada cigarro fumado na sacada, cada xícara de café derramado é a invasão da vida normal que distrai da bagunça interior. Ele sabe disso, nós sabemos disso; e ficamos presos a ele.

A descrição de Knausgård dessa crise — seu nervosismo, a forma implacável com que ele repassa os eventos repetidas vezes, seu esmagador senso de transgressão e vergonha — é fascinante. Ele está disposto a expor não apenas seu medo visceral, mas também sua falta de cálculo e de premeditação. Sua falta de jeito…

Isso e o intenso debate público a que o livro foi submetido na Noruega levaram Knausgård a ser mais contido — e, portanto, menos verdadeiro — nos volumes três, quatro e cinco. Mas em O Fim, ele garante estar determinado a contar as coisas como elas são, independentemente dos custos sociais.

Um aspecto dessa ousadia renovada é um ensaio de 400 páginas sobre a vida, os pensamentos e o apelo de Adolf Hitler. Você pode perguntar onde isso se encaixa nas angústias de um romancista pai de três filhos que mora em Malmoe. É complicado, embora Knausgård tenha tomado o título de sua série das notórias memórias do líder nazista. Mais importante, o norueguês é um romântico declarado, alguém que se sente desconfortável com algumas hipocrisias racionalizadas de uma sociedade moderna que exalta os valores da igualdade enquanto privilegia de forma flagrante as desigualdades de nascimento e da beleza física, por exemplo.

Em algum lugar dentro dele está também o desejo purificador sobre o qual Hitler construiu seu culto ultranacionalista, apoiado por muitos que deveriam saber melhor, incluindo Heidegger. Knausgård explora essa tradição intelectual e busca entender como o desejo por autenticidade resultou no genocídio industrializado e nos maiores horrores do século XX.

Depois de algumas centenas de páginas de vida familiar e drama, o escritor se afasta de seus assuntos domésticos, levando-nos em outra direção. O ritmo febril diminui à medida que nos familiarizamos com trechos um pouco mais sofisticados, com grande nacos de reflexões filosóficas despejadas no meio do romance. No início desta seção, temos uma longa passagem sobre um curto poema de Paul Celan , cinquenta páginas de análise de parte de um homem que diz, ironicamente, que realmente não entende de poesia. Aqui Knausgård começa a explorar o contraste entre o individual e o coletivo, com foco em um poema ambientado em um deserto escuro, onde pessoas e nomes são escassos.

Mas o autor não está perdido. O elefante na sala é o Holocausto, e é nesse ponto que ele finalmente conecta seus temas. Grande parte desta seção intermediária é dedicada a resumir Mein Kampf, mostrando a ascensão de Hitler da obscuridade austríaca provinciana a líder de uma nação e de um povo, além de maestro de um dos maiores crimes da humanidade. É bastante perturbador ler sobre Hitler como pessoa, muitas vezes em suas próprias palavras. Knausgård tenta cobrir a vida de Hitler objetivamente, recusando-se a ver vestígios do mal onde nenhum é evidente, e critica os historiadores que sentem a necessidade de demonizar cada ação realizada em seus primeiros anos.

É um trecho intenso e exigente para o leitor. Apesar de toda a sua leitura atenta de Hitler e de seus vários historiadores — sua crítica ao trabalho de Ian Kershaw vai muito além de uma nota de rodapé –, ele nunca consegue realmente entender a origem ou o crescimento do antissemitismo demente do ditador, mas tateia bastante sobre isto e a cultura geral europeia, tão afeita a este conceito.

Talvez o tamanho do empreendimento seja grande demais para estar contido dentro de uma narrativa da luta de um escritor. A provocativa ironia do título torna-se, em vez disso, um estudo comparativo de duas pessoas meio alienadas — um que continua a escrever um livro aclamado pela crítica e o outro que é responsável pela morte de dezenas de milhões.

Claro que o desequilíbrio é evidente. A série de livros não matou ninguém nem mobilizou a humanidade. Ainda assim, Knausgård deve ser aplaudido por mostrar que o grande mistério da era moderna — a descida da Alemanha à loucura genocida — não é uma questão de “eles”, mas de “nós”. É claro que somos nós, todos nós, como sociedade, que elegemos ou damos chances aos monstros genocidas.

E nunca esse “eu” é anunciado de forma mais enfática do que na crítica de Knausgård a sua autoficção e, em particular, às consequências dela na vida real de outras pessoas. Isso cria um tipo estranho de feedback, no qual o autor se censura por suas intrusões anteriores na privacidade de outrem enquanto, simultaneamente, invade mais uma vez.

O exemplo mais perturbador é com Linda, sua segunda esposa, sobre quem ele escreveu em termos frequentemente negativos no volume dois, Um Outro Amor. Bipolar, com três filhos pequenos e lutando contra uma falta crônica de confiança como escritora, Linda sofre um colapso nervoso e acaba em um hospital psiquiátrico por vontade própria. No entanto, enquanto se tortura pela insensibilidade de suas descrições anteriores, Knausgård mais uma vez submete sua esposa a um olhar nada lisonjeiro, criando a imagem de uma mulher capaz e amada, mas indolente, tentando constantemente cortar a liberdade do autor para escrever.

A vida de Knausgård é monótona e exigente. É também bastante pobre em beleza. A cada dia, ele tenta preservar seu tempo de escrita enquanto zelosamente prepara o café da manhã para seus filhos, levando-os para o jardim de infância, fazendo compras e preparando-se para a publicação do primeiro volume de Minha Luta. Os arrebatadores primeiros dias de seu relacionamento com Linda deram lugar a uma leve irritação com a divisão dos deveres domésticos, e talvez seu confidente mais próximo seja seu amigo Geir (um dos vários Geirs no livro, isso pede que o leitor preste atenção).

Como Knausgård reconhece, a complexidade da vida permanecerá além do documentador mais escrupuloso. No entanto, a vida e a arte sempre se misturam, criando as gloriosas diferenças entre experiência e representação. Escrever sobre a vida, como observa Knausgård, foi seu meio de escapar à vida. Porém, quanto mais ele escreve sobre sua vida, mais ele é aprisionado pela autoconsciência que a empreitada exige.

No final do livro, podemos sentir seu desespero crescente para terminar a tarefa. Na página final, ele promete que nunca mais “fará algo assim” com Linda e as crianças. Seja qual for a verdade dessas palavras, sua vida agora está destinada a ficar à sombra dessa realização literária verdadeiramente monumental em seis volumes. E talvez não haja maior marca de sucesso artístico do que isso.

Com os seis livros finalmente terminados, vem a pergunta: é realmente bom?, valeu mesmo a pena? Sim, valeu a pena ler. Muito. Certamente foi um percurso muito interessante e não me arrependo dele. Knausgård encara o abismo como Bergman, encara o abismo como talvez só um nórdico tenha disposição de fazê-lo. Ele abre feridas e escreve sobre o que as causou, com honestidade comovente e dor palpável. O que mais vou lembrar são as seguintes cenas: a limpeza da casa no primeiro volume, seu total desamparo em face de seu pai dominador em A Ilha da Infância, seus amores por algumas mulheres e a vergonha da ejaculação precoce, as madrugadas e reuniões de Uma Temporada no Escuro, as perigosas bebedeiras e a tentativa de automutilação — sob álcool — de A Descoberta da Escrita, a relação com o irmão e o colapso assustador de Linda na última parte de O Fim. Ah, e a riqueza do cotidiano, pois há emoção, memórias e lembranças proustianas — até paixão — em cortar uma laranja ou calçar um sapato.

Se eu leria tudo de novo? Algumas partes, sim. Até porque já estou com saudades.

RECOMENDO MUITO.

P.S.: Clique aqui para todas as resenhas da série.

Karl Ove Knausgård

Doutor Fausto, de Thomas Mann

Doutor Fausto, de Thomas Mann

O Doutor Fausto, de Thomas Mann, além de possuir imenso valor literário, é uma espécie de bíblia reverenciada pelos amantes da música. É um daqueles livros sobre o qual alguns leitores referem-se citando o número de cada capítulo. O XXV, por exemplo, é a celebre conversa de Adrian Leverkühn com o demônio. Há o oitavo, onde o professor Kretzschmar explica brilhantemente a Sonata Op. 111, de Beethoven. Percebem? O que desejo dizer é que o Doutor Fausto é um livro citado capítulo por capítulo, tal a impressão que causa a quem se apaixona por ele. É o mesmo que fazemos com a Parábola de Grande Inquisidor de Os Irmãos Karamázovi. Claro que ele pode e deve ser fruído também por quem sofre de amusia, assim como os Karamázovi pode ser lido por quem não deseja matar o pai, mas amar a música ajuda.

Narrada por um amigo, o professor Serenus Zeitblom, Doutor Fausto é a história do músico Adrian Leverkühn que, como o Fausto da lenda, vende a alma ao Demônio. Como contrapartida, ganha por alguns anos uma absoluta genialidade musical, suficiente para a composição de um conjunto de obras imortais. Publicado em 1947, este livro faz parte do período final de Thomas Mann, sendo tecnicamente seu romance mais ousado, no qual música e política, realidade e símbolo, o bem e o mal, estão entrelaçados de forma  impressionista e irrepetível. Sempre é bom ressaltar que a tradução da Nova Fronteira é do saudoso e competentíssimo Herbert Caro, que proporcionou grandes manhãs de sábado a um grupo de jovens que se encontrava na King`s Discos da Galeria Chaves em Porto Alegre para falar sobre… música e literatura. O que aprendi com este sábio não tem tamanho, mas esta é outra conversa.

Moby Dick, de Herman Melville

Moby Dick, de Herman Melville

Call me Ishmael. Assim inicia o espantoso livro do estadunidense Melville, originalmente publicado em três fascículos por uma editora londrina, no ano de 1851. Mody Dick, em meio a reflexões e narrativas sobre a vida no mar, conta a história do capitão Ahab, o qual deseja incondicionalmente matar o cachalote Moby Dick, o qual destruiu todos os barcos que tentaram caçá-lo e é responsável por arrancar-lhe uma perna.

O interesse da tripulação do Pequod é a obtenção de lucro a partir da pesca de baleias. Mas o capitão Ahab tem o objetivo particular de se confrontar com Moby Dick, o Cque, é claro, é temido pelos baleeiros. A grandiosidade polifônica que esta história de obstinação alcança supera em muito qualquer sinopse que possa se escrever. É um livro profundamente humano, profundamente irracional, a descrição de um embate homérico do homem contra o irracional, do homem contra a natureza, do homem contra suas fragilidades. É um livro que passa lenta e inexoravelmente do âmbito humano para o cósmico.

Ishmael é um jovem que decide trocar uma vida segura em terra pela aventura em alto mar. Após algumas experiências, embarca em um baleeiro de Nantucket, o Pequod. É Ishmael quem narra a viagem e a loucura do capitão tomado pela ideia de vingança. A grande baleia branca que escapa a todos os perseguidores levou-lhe a perna e a paz. Enquanto não matá-la, Ahab não desistirá, mesmo enfrentando uma tripulação que apenas quer fazer seu trabalho e voltar para casa.

A recepção ao livro foi fria. Desigual, arrastado, crossover, um romance ensaístico com problemas estruturais evidentes, dizia-se. Passadas algumas décadas, o livro foi visto como antecipatório — um dos primeiros a utilizar o hibridismo entre gêneros, a considerar a realidade como um caos caleidoscópico, a romper com as amarras do romance clássico do século XIX. A baleia branca de Melville pode ser o que quisermos que ela seja:  a morte, deus, o mal, o destino. A bordo do Pequod estamos todos nós.

Baía dos Tigres, de Pedro Rosa Mendes

Baía dos Tigres, de Pedro Rosa Mendes

Oh, mas quem é Pedro Rosa Mendes para estar numa lista de melhores livros? Bem, em primeiro lugar, o autor é um esplêndido escritor e jornalista português; em segundo lugar, minha lista não guarda ordem de precedência. Agora que já tomei esta medida profilática de me defender de meus sete leitores amantes dos grandes clássicos, vou tratar de explicar porque este livro é IMPRESSIONANTE.

Este livro é sobre coisas simples: a tranquilidade do medo e a vitalidade da morte. (…) A razão para tal projeto era a mais nobre de todas, ou seja, nenhuma em especial. As duas frases grifadas fazem parte da nota introdutória do livro. A que projeto refere-se Rosa Mendes? Em junho de 1997 ele chegou a Luanda, em Angola, às margens do Atlântico, com a ideia de atravessar a África até chegar a Quelimane, em Moçambique. No caminho, as sangrentíssimas guerras tribais e entre os países da região, minas por todo lado, além da pobreza absoluta, tanto material quanto moral. E fome. Para temperar um pouco mais a coisa, o autor descobre duas coisas em Luanda, uma boa e uma ruim. A boa: sua mulher lhe avisa que está grávida em Portugal, mas que ele terá o tempo necessário para a reportagem, pois seu rebento nascerá apenas dali a seis ou sete meses; a ruim: o prognóstico que recebe de todos com quem fala de seu plano: você não sobreviverá.

A voz do autor é serena e elegante. Não é uma história contada em ritmo frenético, o andamento é o do humanista que deseja ouvir e compreender todos os envolvidos. Estive na palestra de Rosa Mendes na Flip de 2005. Ele estava com Jon Lee Anderson — o americano falava sobre a Guerra do Iraque e o português sobre a Guerra de Angola — e Anderson fez uma pergunta curiosa ao português: Baía dos Tigres recebeu muitos prêmios destinados a livros de ficção, por quê? A resposta foi típica da pessoa modesta que pareceu ser Rosa Mendes. Ele deu muitas voltas até dizer que era em função da linguagem do livro. E, diante da insistência de Anderson, ele acabou deixando escapar: ora, é que acharam que era bem escrito e não devia misturar-se a textos jornalísticos. Anderson respondeu com a gargalhada de quem já sabia antecipadamente a resposta.

Para dar ideia do que é este livro — que reencontrei na semana passada numa estante da Siciliano –, vou resumir algumas das histórias. Como a do encontro com um técnico francês que estava no país para testar o efeito das minas. Umas explodiam assim, outras assado. Umas eram cedidas a um grupo e, puxa, matavam mesmo; então recebi outras e repassei ao lado contrário. Essas eram melhores, as pessoas ficavam efetivamente mutiladas, deixavam os caras bem feridos, davam um trabalhão às equipes. Querem mais? Que tal a história das famílias de angolanos que operam suas vacas a fim de tirar-lhe alguns bifes, depois as costuram com alguns pontos e tratam de recuperá-la, pois não podem sobreviver sem elas? Por falar em mutilações, que tais as que são feitas na genitália feminina das africanas? Mas o melhor do livro é a narrativa dos interesses envolvidos. Portugal, Estados Unidos, Cuba, Brasil (Petrobrás e Odebrecht), mais os de grupos armados como UNITA, MPLA, FNLA, FRELIMO, RENAMO, etc. Sobre tudo isso, a total falta de observadores internacionais.

É. Onde não há dinheiro, as “forças de paz” não aparecem e os direitos humanos não interessam. Não ocorre nem a venda da  “democracia salvadora” e de eleições livres. Um grande livro.

O Vermelho e o Negro, de Stendhal

O Vermelho e o Negro, de Stendhal

Este é um romance pouco falado atualmente, mas  não há justificativa para ignorar esta obra-prima de Stendhal — que tinha o nome civil de Henri-Marie Beyle. É o livro que traz um dos maiores personagens da literatura de todos os tempos: o mal sucedido alpinista social Julien Sorel. André Gide escreveu que este livro de 1830 é o primeiro romance do século XX, por estar muito à frente de seu tempo. Tem razão Gide. A trama divide-se em duas partes: na primeira parte, no interior da França, Sorel abandona o trabalho da carpinteiro ao lado do pai e dos irmãos para tornar-se acólito do padre (ou cura) Chélan. Este lhe consegue um lugar de tutor dos filhos do prefeito de Verrières, Sr. de Rênal. Sorel parece um clérigo austero e seríssimo, mas na verdade prefere a Sra. de Rênal à Bíblia. O casal é descoberto e o cura o indica para um seminário. Novas maquinações e nosso herói vai para Paris, agora como secretário do Marquês de La Mole.

A segunda parte passa-se em Paris, onde conhece Mathilde de La Mole, filha do novo empregador de Sorel. Ela fica dividida entre o crescente interesse por Sorel — em função de suas admiráveis qualidades pessoais — e sua repugnância em se envolver com um homem de classe inferior. Não contarei desfecho do romance, nem o retorno da Sra. de Rênal à história, mas sou obrigado a falar mais um pouco sobre Sorel. Ele é o símbolo do homem inteligente e talentoso que sucumbe aos privilégios do nascimento e à falta de  traços de nobreza. Havia um mal disfarçado sistema de castas na França. (Bem, e não há ainda hoje algo semelhante no Brasil?) Enquanto sonha estar sob o comando de Napoleão – seu modelo que mofava em Santa Helena – para fazer fortuna e viver grandes paixões, busca o seminário e tudo o que pensa que possa fazê-lo ascender socialmente. Lá, começa a alimentar secretamente seus desejos de grandeza, característica que mantém ao longo do romance sob várias formas. Todo O Vermelho e o Negro é um passo-a-passo do desperdício, do desaproveitamento e da aniquilação de Sorel. A arte suprema de Stendhal — uma autor objetivo e piadista que dizia gostar da prosa cartorial — está em fazer com que a época em que se passa o romance pareça atrasada em relação ao personagem. Pelo romance perpassam a frustração e a falsa alegria de quem pensa que vai vencer, o contraste entre o campo e a cidade, com suas hipocrisias distintas, a guerra, os conflitos religiosos e, é claro, o amor e suas traições. Obrigatório.

P.S. — Stendhal nunca explicou o título de seu romance. Simplesmente, não se sabe a que se refere.

Os Ensaios, de Montaigne

Os Ensaios, de Montaigne

Permitam-me dizer que Michel de Montaigne (1533-1592) teria sido o maior blogueiro do mundo. Seus Ensaios tratam de absolutamente qualquer coisa — da medicina, da atitude dos criados, dos cavalos, da morte, das variações dos estados de espírito, da amizade, da agricultura, do clima e, pasmem, até da filosofia. Mas cada assunto abordado traz consigo tamanha qualidade de texto, fluidez de pensamento, ironia e inteligência que nos quedamos — e quedar é a palavra — totalmente apaixonados. Os ensaios são muitos e normalmente não são longos. Ele foi o inventor do gênero, criando-o como um amigo que nos sussurra, dentro de uma perspectiva subjetiva, ideias fundamentadas de tolerância e liberdade. Nada sei sobre filosofia, mas ele deve ter sido importantíssimo, pois, sem revoluções, usou a sua consciência individual e a contrapôs aos dogmas divinos da Idade Média. Sim, estamos no século XVI, meus amigos. Se não existisse Montaigne, o mundo seria certamente pior. A totalidade de seus ensaios cabe normalmente em três volumes. Modernamente, são feitas seleções como a que mostramos acima, lançada em 2010 pela Penguin-Companhia. É um livro para se ter em casa e abrir de vez em quando. Ele serve para colocar nossas ideias no lugar, para que aprendamos a pensar, para que nos acalmemos através de inevitáveis sorrisos de compreensão. Para ele, nada é definitivo; com ele, ao esmiuçar cada assunto, teremos lições gentis de como abordar questões e veremos como tudo é tão, mas tão profundo, que boa parte de nossa visão da vida torna-se mera superficialidade. (Ah, através de suas argumentações, ele nos ensina a não nos perder em bobagens, a ser mentalmente produtivos. O complicado é aprender a agir assim. Talvez nem ele conseguisse…).

Montaigne analisou as instituições, as opiniões e os costumes de sua época, tomando a humanidade como objeto de estudo. Porém, não deixa dúvidas: “sou eu mesmo a matéria de meus livros”. Além de comentar o mundo, Montaigne, em sua sinceridade e absoluta exposição, fala de suas crises renais, sobre o que acha de cada odor, sobre sua falta de memória e faz o maior mimimi lamentando-se por não ser dotado de um pênis que satisfaça todas as mulheres. Tudo isto permeado por uma concepção muito original do que é a ética. É o que eu disse: é um amigo que, falando de si, fala de todos.

Tristram Shandy, de Laurence Sterne

Tristram Shandy, de Laurence Sterne

Beethoven gostava de temas curtos e afirmativos. O crítico Otto Maria Carpeaux também, até demais. Beethoven repetia seus temas à exaustão, mas não enchia o saco. Carpeaux não os repete, mas larga aqui e ali juízos curtos, afirmativos e terríveis que às vezes me deixam louco. A literatura não prescinde de justificativas mais, digamos, alongadas. Eu gosto de Beethoven e de Carpeaux, só que o austríaco tem uma capacidade de me irritar que o alemão só utilizou n`A Batalha de Wellington e na Pastoral. Pobre do grande LAURENCE STERNE: na História da Literatura Ocidental, o maravilhoso amansa-burro de 2300 páginas de Carpeaux, ganhou a curta e grossa má vontade do mestre:

Não é romancista, e não compreendemos como seus contemporâneos puderam dar o nome de romance a esse aglomerado de conversas, digressões e anedotas, sem ação novelística, que é o Tristram Shandy.

Que equívoco! Fico curioso sobre o que diz Carpeaux sobre outro livro notável, também quase exclusivamente um aglomerado de conversas e digressões filosóficas: O Homem Sem Qualidades, de Robert Musil. Consulto e ele demonstra coerência, fazendo questão de chamar a obra-prima inacabada de romance-ensaio. OK. Romance-ensaio é mais que um aglomerado de conversas e digressões, porém Carpeaux sempre ensina muito e conta com minha INDULGÊNCIA.

Mas creio que Carpeaux, se se alongasse um pouco mais, não ousaria falar mal da espetacular prosa de Sterne. Seu principal romance (ou não), A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Tristram Shandy, é uma de minhas melhores lembranças literárias. Este livro extravagante, publicado em capítulos entre os anos de 1759-67, tem importantes admiradores. James Joyce, Luigi Pirandello, Samuel Beckett e MACHADO DE ASSIS, que o cita com conhecimento, foram alguns dos escritores que se declararam influenciados pelo irlandês Sterne, um pároco muito bem sucedido e amante de intermináveis digressões pontuadas de anedotas escabrosas e alusões cínicas. Agrada-me intensamente a forma como Sterne decepciona seus leitores ao não dar seguimento às ações que esboça, coisa que Roberto Bolaño se esmera em realizar (ou não).

A cena inicial do romance nos conta sobre o nascimento de Tristram. Seu pai costumava fazer duas coisas no primeiro domingo do mês. A primeira era dar corda no relógio da sala; a segunda era cumprir seus deveres conjugais. Porém, num destes domingos, sua mãe, JÁ PENETRADA mas sem o menor interesse, pergunta repentinamente (a pontuação, sempre originalíssima, é puro Sterne):

– Por favor, meu caro, não te esqueceste de dar corda ao relógio? ————-Por D—–! gritou meu pai, lançando uma exclamação, mas cuidando ao mesmo tempo de moderar a voz. ——–Houve jamais mulher, desde a criação do mundo, que interrompesse um homem com pergunta assim tão tola?

Com a interrupção, o velho Shandy, desconcertado, descuidou-se de outra: a do coitus interruptus; e é desta forma que nasce o HOMÚNCULO ou, para nós, o feto daquele que seria o protagonista da “ação”. A piada fez enorme sucesso e por anos não apenas as prostitutas da Inglaterra perguntaram a seus candidatos QUERES DAR CORDA EM MEU RELÓGIO? como as senhoras de respeito deixaram de comprar relógios para suas casas com receio dos comentários que tal ato poderia provocar… Que os comprassem os maridos!

É notável o momento em que Shandy desiste de narrar sua própria vida – o livro é escrito na primeira pessoa. Isto acontece lá pela página 80 de um livro de 600 páginas. Ele observa que gastou alguns meses escrevendo a respeito das primeiras horas de sua vida. Constata assim que demora muito mais para escrever do que para viver e que os acontecimentos narrados estão afastando-se mais rapidamente do que a narrativa avança… Impossível alcançar. Conclui que o melhor é parar de perseguir a si mesmo e conversar com os leitores. A vida de Tristram segue seu curso e Sterne, bem, Sterne sabe e declara-se consciente de que a literatura existe primeiro para SATISFAZER O AUTOR… Danem-se os leitores.

Tudo é desrespeito neste romance moderno com raízes no Quixote. Riso e melancolia brincam sob a batuta de Sterne. Como se não bastasse ser um excêntrico romance sobre quem escreve um romance, Tristram Shandy apresenta uma série de artifícios antes nunca vistos: uma página inteiramente pintada de preto, tentativas de desenhar graficamente a evolução do romance, alguns capítulos em branco (em que nada é escrito) e uma página também em branco, limpinha, para que o leitor desenhe sua amada.

O encontro de Drummond com os Beatles

O encontro de Drummond com os Beatles

Em tempos pré-internéticos, não era possível simplesmente jogar o nome de uma música estrangeira no google para ficar sabendo qual era a tradução. Então, só havia duas opções: ou traduzia por conta própria ou então torcia para sua música favorita aparecer traduzida em alguma publicação.

Em março de 1969, os beatlemaníacos brasileiros devem ter feito a festa quando viram a matéria especial sobre o livro-biografia da banda, escrito por Hunter Davies, da antiga revista “Realidade”. Isso porque, seis canções do maior grupo de todos os tempos vieram escritas em português ilustrando o texto jornalístico. Versões criadas por ninguém menos que Carlos Drummond de Andrade, um dos poetas brasileiros mais renomados no mundo.
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O poeta mais ilustre de Itabira traduziu cinco músicas dos Beatles, todas presentes no “White Album”: Ob-la-di, Ob-la-da, Piggies, Why we don’t do it in the road?, I will, Blackbird e Happiness is a warm gun. As versões foram feitas em tradução livre e alguns versos acabaram saindo bem engraçados.


OBLADI, OBLADA
(Paul McCartney – John Lennon. Tradução de Carlos Drummond de Andrade)

Desmond tem um carrinho na Praça do Mercado.
Molly vocaliza num conjunto.
Desmond diz a Molly: Por teu rosto sou vidrado
Molly diz-lhe: O quê? E pega-lhe na mão.
Obladi, obladá, a vida continua: olá,
olalá, como a vida continua!
Obladi, obladá, a vida continua… Olá,
olalá, como a vida continua!
Desmond toma o ônibus, vai à joalheria
compra anel de ouro de ofuscar
e leva-o a Molly, que espera junto à porta.
De anel no dedo, eis Molly a cantar.

Em um par de anos terão construído
um lar bacana doce que nem cana.
Um par de garotos corre pelo pátio
desse casal unido.

Olha Desmond feliz na Praça do Mercado.
Ao lado, os molequinhos ajudando.
Molly ficou em casa se enfeitando
e à noite ainda canta no conjunto.

Olha Molly feliz na Praça do Mercado.
Ao lado, os molequinhos ajudando.
Desmond ficou em casa se enfeitando
e à noite ela ainda canta no conjunto.
E se querem se divertir, obladi, obladá!

PORCOS
(George Harrison. Tradução de Carlos Drummond de Andrade)
Viste os porquinhos
rebolando na imundície?
Para todos os porquinhos
a vida está cada vez mais difícil
e brincam sempre na sujeira por aí.
Viste os mais taludos porquinhos
em suas engomadas, alvíssimas camisas?
Olha os mais taludos porquinhos
em algazarra na imundície
com camisas alvíssimas a folgar por aí.

Em seus chiqueiros, plenamente protegidos,
ao que vai por aí nem ligam.
Nos olhos deles falta uma coisinha:
precisam mesmo é de suma porcaria.

Por toda parte há muitos porquinhos
vivendo suas porquinhas vidas.
Podes vê-los para o jantar saindo
com suas porquinhas mulherinhas
de garfo e faquinha para comer presunto.

E POR QUE NÃO AQUI NA ESTRADA?
(Paul McCartney – John Lennon. Tradução de Carlos Drummond de Andrade)
E por que não aqui na estrada?
Não há ninguém para ver nada
E por que não aqui na estrada?

FAREI TUDO
(Paul McCartney – John Lennon. Tradução de Carlos Drummond de Andrade)
Desde sempre te amei
e bem sabes que ainda te amo.
Devo esperar toda a vida?
Se quiseres – esperarei.
Se alguma vez te vi
nem sequer teu nome escutei.
Mas isso não faz diferença:
sempre a mesma coisa sentirei.

Eu te amarei por todo o sempre, sempre,
desde a raiz do meu coração
e te amarei quando estivermos juntos
e te amarei na solidão.

Quando finalmente te encontrar
tua canção envolverá o espaço.
Canta bem alto, para eu escutar.
Tudo farei para te dar o braço
pois tudo em ti me prende a mim.
Bem sabes que farei tudo
Tudo farei.

MELRO
(Paul McCartney – John Lennon. Tradução de Carlos Drummond de Andrade)
Melro que cantas no morrer da noite,
com estas asas rotas aprende teu voo
A vida toda
esperaste a hora e a vez de teu voo.
Melro que cantas no morrer da noite,
com estes olhos fundos aprende a ver
A vida toda
esperaste a hora e a vez de ser livre.

Voa, melro, voa, melro,
para o clarão da escura noite.

Voa, melro, voa, melro,
para o clarão da escura noite.

Melro que cantas no morrer da noite,
com estas asas rotas aprende teu voo
A vida toda
esperaste a hora e a vez de teu voo
esperaste a hora e a vez de teu voo
esperaste a hora e a vez de teu voo.

A FELICIDADE É UM REVÓLVER QUENTE
(John Lennon – Paul McCartney. Tradução de Carlos Drummond de Andrade)

Até que essa garota não erra muito
oi oi oi oi oi oi oi oi
Acostumou-se ao roçar da mão-de-veludo
como lagartixa na vidraça.

O cara da multidão, com espelhos multicores
sobre seus sapatões ferrados
descansa os olhos enquanto as mãos se ocupam
no trabalho de horas extraordinárias
com a saponácea impressão de sua mulher
que ele papou e doou ao Depósito Público.

Preciso de justa-causa porque vou rolando para baixo
para baixo, para os pedaços que deixei na cidade-alta,
preciso de justa-causa porque vou rolando para baixo

Madre Superiora dispara o revólver
Madre Superiora dispara o revólver
Madre Superiora dispara o revólver

A felicidade é um revólver quente
A felicidade é um revólver quente
Quando te pego nos braços
e meus dedos sinto em teu gatilho,
ninguém mais pode com a gente,
pois a felicidade é um revólver quente, lá isso é.

Fonte: Outros 300

Ulysses, de James Joyce

Ulysses, de James Joyce

Bloom acorda. Prepara o café da manhã para sua mulher, Molly. Assiste a um enterro. Visita um editor de um jornal. Almoça. Olha um anúncio de jornal na biblioteca. Responde a uma carta recebida. Janta. Encontra o amigo Dedalus. Vagueia pela praia. Masturba-se olhando uma moça. Reencontra Dedalus. Vão a um puteiro. Encaminham-se para a casa de Bloom. Entabulam uma conversa filosófica. Dedalus vai embora e Bloom retorna ao leito conjugal, onde dormirá enquanto sua mulher tem fantasias quentíssimas.

Tudo isso em apenas um dia, 16 de junho de 1904. São 18 capítulos que cobrem aproximadamente 18 horas. Cada capítulo escrito de forma totalmente diferente, cada cena fazendo mil referências, principalmente à Odisseia de Homero. Não é uma epopeia do cotidiano, mas sim uma obra anti-épica, cujo naturalismo não se percebe no nível mais superficial da narrativa. As frequentes transgressões linguísticas, a justaposição de frases ostensivamente poliglotas, a mistura de estilos — épico, lírico, drama, comédia — são os percursos seguidos por Joyce com a finalidade de quebrar os protocolos estabelecidos do gênero do romance para chegar à essência das coisas e à exploração do inconsciente, escondido pelas aparências. O que mais me fascina são os 18 estilos diferentes, os 18 escritores chamados por Joyce para escreverem o maior romance do século XX.

Desde que acorda até voltar à cama — onde sua Penélope-Molly tece enorme teia de fantasias eróticas que nunca serão do conhecimento do marido –, Leopold Bloom protagoniza um monumento de rara sutileza, difícil de penetrar, mas só quem tenta obtém chegar a suas grandes iluminações.

O livro foi proibidíssimo e apenas chegou a nós por milagre. Por exemplo, um episódio do livro, entregue a uma datilógrafa, chocou de tal forma seu marido que este o arremessou às chamas. havia outra cópia menos revisada, com Joyce. Durante a Primeira Guerra Mundial, um capítulo inteiro — Sereias — foi interceptado por autoridades militares que desconfiaram que aquilo era uma longa mensagem escrita em código… Algo vital para o inimigo, certamente…

Suas características satíricas, viscerais e brutalmente depreciadoras do real, chocaram profundamente a sensibilidade do leitor médio, decepcionado ainda pela fascinação do autor pela linguagem, pelas várias formas narrativas, louca musicalidade e certamente pela descontrolada e incerta potencialidade semântica.

O mais extravagante, divertido e sujo dos livros.

Ah, as edições da Penguin são baratíssimas e a tradução é excelente e recente. Para aproveitar!

Uma Confraria de Tolos, de John Kennedy Toole

Uma Confraria de Tolos, de John Kennedy Toole

Uma Confraria de Tolos é uma obra-prima absoluta, uma obra-prima total e injustificadamente pouco lida em nosso país. Duvida? Procure no Google críticas a respeito de A Confederacy of Dunces para conferir que não estou nada sozinho em minha avaliação.

Tenho uma velha edição dos anos 80 da Record, que relançou o livro na coleção BestBolso. Certa vez, ao citar o livro em meu blog, recebi um comentário de uma leitora que morava no interior da Paraíba. Ela me contou que antes morava em São Paulo, onde lera a Confraria nos anos 80. O livro ficara por lá, mas agora tinha um filho que era um grande leitor e ela PRECISAVA apresentar o livro a ele.

Não sou uma pessoa que mereça a canonização, mas sei reconhecer alguém que precisa de auxílio. Fiquei comovido com o pedido, pois sei a falta que a leitura da Confraria faz a alguém que conheça o livro. Como a Estante Virtual ainda não existia, empreendi uma busca entre os sebos de Porto Alegre. Encontrei o livro e o mandei para a leitora aflita. Ela me agradeceu dizendo que me amava, adorava e que intercederia por mim nem que fosse no juízo final, coisa na qual ela não acreditava, mas que enfim, daria um jeito de interceder.

O tamanho do erro de negligenciar Uma Confraria de Tolos é difícil de caracterizar, mas vamos lá. Começarei pelo título. John Kennedy Toole devia estar consciente da qualidade de seu romance, senão não basearia o título de seu romance de estreia numa citação clássica de um dos maiores escritores de todos os tempos, Jonathan Swift: “Quando um verdadeiro gênio aparece no mundo, você vai reconhecê-lo por um sinal: todos os tolos se juntam contra ele”. Outro motivo de buscar inspiração em Swift é que Toole escreve um romance como eram as histórias do inglês: hilariante de cabo a rabo.

Mas também é muito triste, muito sério, louco, amargo e especialmente inteligente. Uma genial tragicomédia.

Seu protagonista, o hoje célebre — fora do Brasil — Ignatius J. Reilly, é um ser excêntrico, às vezes repugnante. Ele está por seus 30 anos, é um glutão obeso e mal-humorado que mora com a mãe e vive amaldiçoando o mundo moderno. Ignatius leva a frase de Swift a sério: ele é um anti-herói nascido na época errada, que se considera sempre perseguido por idiotas.

Uma Confraria de Tolos se passa em New Orleans nos anos 60. Como o romance Dom Quixote, é picaresco. E, se o personagem de Cervantes ia atrás de aventuras, Reilly é um preguiçoso, excêntrico e idealista atrás de emprego. Durante suas caminhadas, às quais foi atirado pela mãe, que não o suporta mais em casa — e que o acusa de encher a atmosfera de gases intestinais — , ele vocifera contra tudo e contra todo o tipo de modernidade. Walker Percy, em seu prefácio para o livro, descreve Ignatius como um “pateta genial”. Trata-se de um passadista jovem. Desdenha a cultura da modernidade, especialmente o pop. Tal desprezo torna-se sua obsessão: por exemplo, ele vai ao cinema a fim de zombar dos filmes e expressar sua indignação com a falta de “teologia e geometria” (?) do mundo contemporâneo.

Ele prefere a filosofia escolástica da Idade Média, em geral, e a filosofia de Boécio, em particular. No entanto, aprecia muitos dos confortos e conveniências modernas, enquanto observa o funcionamento de sua válvula pilórica, que reage fortemente a todos os incidentes.

Os outros personagens principais do livro, Myrna Minkoff e Irene Reilly, são esplendidamente construídos e, se é difícil dizer mais, explico o motivo: Uma Confraria de Tolos é o mais engraçado dos livros e não devo contar suas piadas neste espaço. Por exemplo, seus encontros com a polícia… Não, melhor não ir adiante.

Reilly tem muito de Toole. O autor também sofreu com uma mãe dominadora e tinha uma visão pessimista de um mundo que não entendia.

Sem encontrar uma editora para publicar o livro e sofrendo de graves crises de depressão, Toole cometeu suicídio em 1969, aos 31 anos. Sua mãe encontrou uma cópia do manuscrito entre os papéis do filho e lutou por muitos anos para conseguir uma editora. Uma Confraria de Tolos foi finalmente publicado nos Estados Unidos em 1980. No ano seguinte, Toole ganhou um Pulitzer póstumo. Nada mais merecido.

Durante o verão passado, minha filha de 17 anos pegou casualmente o livro em nossa biblioteca. Dias depois, ela voltou com uma pequena e significativa frase: “Pai, foi o melhor livro que li até hoje”.

Eu não disse?

Lista dos livros mais vendidos na Livraria Bamboletras em janeiro de 2021

Lista dos livros mais vendidos na Livraria Bamboletras em janeiro de 2021

1. Os Supridores, de José Falero.
2. Torto Arado, de Itamar Vieira Junior.
3. E fomos ser gauche na vida, de Lelei Teixeira.
4. O Avesso da Pele, de Jeferson Tenório.
5. Máscaras da Tricolina — sim, máscaras para a pandemia.
6. Mulheres de Minha Alma, de Isabel Allende.
7. A Vida Mentirosa dos Adultos, de Elena Ferrante.
8. Contra mim, de Valter Hugo Mãe.
9. Porto Alegre, Cidade Baixa: um bairro que contém seu passado, de Renato Menegotto.
10. República das Milícias, de Bruno Paes Manso.
11. Marrom e Amarelo, de Paulo Scott.

Que orgulho! Só tem livro bom aí!

Berlim Alexanderplatz, de Alfred Döblin

Berlim Alexanderplatz, de Alfred Döblin

Berlim Alexanderplatz (1929), de Alfred Döblin, tem como sub-título A história de Franz Biberkopf. Nada mais correto, é isto mesmo que o livro conta com surpreendente riqueza de detalhes e de vozes. A história se passa na Berlim do final dos anos 20 do século passado. Na época da ação, a Alemanha estava no período entre guerras. A Primeira Guerra Mundial acabara há 11 anos e  a economia alemã recuperava-se lentamente dentro da República de Weimar. Menos de cinco anos depois viria o governo nazista. O livro inicia com a saída de Biberkopf da prisão de Tegel, onde ficara por quatro anos após matar a amante.

A vida pós-prisão de Biberkopf é narrada de forma estupenda através de vários narradores e com o auxílio de notícias retiradas de jornais da época. Em montagens impressionistas, também são utilizados dados estatísticos, placas de rua, propagandas, canções da época, informações sobre tarifas. O personagem principal nada tem de especial — é um sujeito grande e forte que vive de biscates numa Alemanha empobrecida a qual não compreende e que é indiferente a ele. Biberkopf cumpriu sua pena e, na volta, tenta manter-se na linha.

Escura, grave e escrita em tom menor, a obra-prima de Döblin tem a característica de ser muito visual. Tanto que Rainer Werner Fassbinder reconstruiu-a minuciosamente no cinema em filme de 15 horas e 41 minutos. O filme — que também é excelente — é uma transposição COMPLETA e arrebatadora do livro. Vale a pena ver — aliás, além da biblioteca, é o que estou fazendo nestes dias …

Para ler Berlim Alexanderplatz há que ter atenção: apesar de muito claro e linear, o autor mistura as falas dos personagens com a narrativa e os pensamentos dos personagens. Com a leitura, fica cada vez mais fácil. Apesar de ter um personagem principal, Berlim Alexanderplatz é um irrepetível mosaico polifônico onde várias vozes e informações se cruzam para contar uma história do submundo da Berlim do final dos anos 20. Nada dá muito certo para Biberkopf, herói, símbolo e vítima da cidade, mas o livro de Döblin é uma espetacular lição de arte narrativa.

Madame Bovary, de Gustave Flaubert

Madame Bovary, de Gustave Flaubert

Li Madame Bovary apenas uma vez e acho que não preciso de outra para colocar o livro nesta lista de indicações. Se o ser humano é uma coisa eternamente insatisfeita, aqui temos o microcosmo da infelicidade feminina e da desilusão romântica. Não vou contar em detalhes a história do livro, mas esta foi tão imitada e recontada que não guarda mais nenhuma novidade. É o romance que fundou o realismo em 1857 e, assim como a cabeça do Quixote estava cheia de romances de cavalaria, a de Emma Bovary estava lotada de romances sentimentais. Emma casa-se com o médico Charles Bovary, insípido e apaixonado por ela. O tédio insere-se de tal forma na relação que ela passa a detestar o marido. A progressão do tédio e sua transformação em desinteresse e depois ódio são contadas por um autor absolutamente impecável e no perfeito domínio de seus meios. Nada parece estar fora do lugar, nenhuma palavra. Dividido em três partes, como um concerto, demonstra como Emma permanece insatisfeita mesmo após o nascimento da filha e de seus apenas prometedores adultérios.

Na época em que foi publicado, Madame Bovary causou escândalo e foi julgado por obscenidade. Quando perguntaram a Flaubert quem era a protagonista que tinha sido descrita com tamanha perfeição e riqueza de detalhes, o autor respondeu ao tribunal com a célebre frase que diz tudo: “Madame Bovary c`est moi!”.

E era. Flaubert passou mais de uma década observando, apurando, polindo, reescrevendo e inaugurando o realismo na literatura. Flaubert foi absolvido no ridículo processo, mas não foi perdoado pelos puritanos, que não conseguiam admitir o tratamento cru dado ao tema do adultério e pelas críticas implícitas ao clero e à burguesia, ambos desprezados por Flaubert. Mas esqueçam o fundador do realismo, o processo e tudo o que cerca Bovary. O livro é antes de tudo um texto admirável, construído com arrebatador virtuosismo; um texto trabalhadíssimo onde não se notam sinais do suor do autor. Tudo flui, tudo ganha seu devido ritmo e todo detalhe jogado ali é significante e contribui para a narrativa. Talvez Madame Bovary seja a maior das aulas práticas de narração.

James Wood escreveu em Como funciona a ficção que “Tudo começa e tudo termina com Flaubert”. Discordo. A literatura moderna recebe notável impulso com Flaubert, mas já começara com Stendhal. E não termina no autor de Bovary, como diz a frase de efeito de Wood. Porém, para usar uma palavra que está na moda, Madame Bovary é um romance verdadeiramente incontornável.

Orgulho e Preconceito, de Jane Austen

Orgulho e Preconceito, de Jane Austen

O teste final de um romance será a nossa afeição por ele, como é o teste de nossos amigos e de qualquer outra coisa que não possamos definir.

E. M. Forster – Aspectos do Romance

Publicado pela primeira vez em 1813, Orgulho e Preconceito é o romance mais popular de uma autora que viveu apenas 41 anos, tendo escrito apenas outros cinco, todos excelentes: Razão e Sensibilidade (1811), Mansfield Park (1814), Emma (1815) e os póstumos A Abadia de Northanger (1818) e Persuasão (1818).

É compreensível a insistência do cinema em adaptar os trabalhos de Austen. Numa camada mais superficial, sua literatura trata de temas simples e universais dentro do cenário da pacata sociedade rural pré-vitoriana. São romances de costumes. As moças estão sempre à procura do amor e de um bom casamento, enquanto os mais velhos pensam no dinheiro e nas conveniências. Todos os conflitos são aparentemente fúteis, mas aí é que entra a autora. Austen tem um tom delicioso para contar suas histórias. Ela não faz comédia, mas é engraçada; expõe dramas, mas não é trágica; é grave, porém leve. A ação é posta em movimento pela tensão variável entre poucos personagens e pela intervenção de outras. O romance não deixa transparecer seu esquema por trás de diálogos absolutamente fluentes e de uma narradora de tom zombeteiro. Num espaço rural limitado, as pessoas fazem visitas, vão a bailes, tomam chá, enganam umas às outras, armam situações e divagam sobre suas vidas e planos. O refinado humor da escritora se manifesta em tudo: ameniza os dramas, diverte-se com os personagens e faz humor.

Em Orgulho e Preconceito, a maior fonte de humor é a convivência doméstica do casal Bennet, pais das cinco irmãs casadouras. Expliquemos a história do romance sem prejudicar a leitura de quem não o conhece. Os personagens principais são Elizabeth Bennet e Fitzwilliam Darcy. Nada mais típico e copiado: Darcy é um rico nobre e Elizabeth é a moça da pequena nobreza rural inglesa que parece apenas esperar a dádiva de um marido. Só parece. Pois Elisabeth é muito inteligente, crítica e unicamente a culpa em relação à família a faria casar com o primeiro que aparecesse. Ou nem isso, como veremos. Aliás, em sua família, apenas ela, sua irmã mais velha (Jane) e o ultrassarcático papai Bennet têm comportamentos razoáveis. A mãe só pensa em livrar-se das filhas e as outras irmãs — talvez com a exceção da moralista e puritana Mary — podem ser sintonizadas na mesma faixa da mãe. Para catalisar ainda mais a histeria familiar, há o fato de que a lei inglesa proibia que mulheres herdassem quaisquer patrimônios. Isto significa que, quando da morte de Mr. Bennet, a casa e a pequena propriedade familiar iria para um primo e as mulheres da família ficariam sem renda. Ora, você já conhece este enredo? Sim, claro, Austen foi imitadíssima, sem sucesso. Elizabeth e Mr. Darcy se conhecem e a primeira impressão é de antipatia mútua. Nos encontros seguintes, pouco a pouco, Darcy começa a ver em Elisabeth uma moça bem longe das simplesmente casadouras, reconhecendo um espírito crítico que lhe agrada inteiramente.  O Preconceito do título do romance é principalmente dele e é o primeiro a lentamente cair. Darcy chega a declarar seu amor, mas é rechaçado pelo Orgulho de Elizabeth. Como quase sempre, a personagem feminina é muito mais fascinante do que a masculina. Incompreendida ao impor dificuldades a um rico casamento, Elisabeth só encontra respaldo em seu pai, o sarcástico. Mr. Bennet é um excêntrico que se refugia em seus estudos para não ter de conviver com a mulher, mas que apoia incondicionalmente Elisabeth.

Além do conflito principal, Jane Austen traz uma galeria de personagens perfeitamente construídos — a tia hostil, a irmã fujona, Jane — que, acompanhados de seus draminhas, interferem com Darcy e Elisabeth. Os personagens nos proporcionam renovado prazer cada vez que aparecem. Seus diálogos nos conduzem naturalmente de um assunto a outro, fazendo de Orgulho e Preconceito um dos ápices da literatura mundial. Uma vez, ao ser perguntado sobre o maior casal da literatura, votei em Elisabeth Bennet e Fitzwilliam Darcy, o que provocou certo desconforto em quem esperava Beatrice Portinari e Dante Alighieri, dentre tantos outros. Acharam que eu me utilizara de um lugar-comum. Mas que culpa eu tenho de Orgulho e Preconceito ser um daqueles casos em que qualidade e popularidade permaneceram juntas?

Austen nunca casou, sempre morou com os pais na casa acima (hoje sede do Museu Jane Austen, claro). Escrevia seus romances no quarto e tinha pudor de quando alguém abria a porta — escondia imediatamente seus cadernos. Sua vida não teve grandes acontecimentos e ela ficou para titia. Porém, se você ler por aí que ela teve um caso com sua irmã Cassandra, esqueça. Uma vez, Paulo Francis deu demasiada divulgação a um artigo da imprensa marrom inglesa: Was Jane Austen gay? Era uma mero chute, mas Francis descobriu que Jane dividira por décadas a mesma cama com Cassandra — ambas solteironas — e levou a coisa à sério. Ignorando que este era um costume da época, a ex-batata inglesa do Manhattan Connection fez uma festinha com seus amigos a respeito.

Orlando, de Virginia Woolf

Orlando, de Virginia Woolf

Há o extraordinário Ao farol, há Mrs. Dalloway, há As Ondas, e Entre os atos. Há também o fantástico ensaio de Um teto todo seu, mas se tiver que escolher o melhor livro de Virginia Woolf, escolho a alegria de ler Orlando. Nem vou comparar a qualidade literária de um e outro livro de VW. Escolho Orlando pelo mais puro afeto. Pois não lembro de nada mais que seja ao mesmo tempo tão satisfatoriamente feérico, alegre e inteligente do que este romance digno de grandes paixões.

Orlando é um jovem aristocrata inglês da época elisabetana (1558-1603). Sacha, uma jovem russa, foi sua grande paixão e desilusão. Os encontros entre eles são puro tesão literário. Mas acontecem coisas a Orlando: ele algumas vezes dorme e avança no tempo. Então, no século XVIII, vai a Constantinopla como embaixador. Um dia, há uma revolta na cidade. E Orlando acorda mulher. É recolhida por ciganos e regressa a Inglaterra. O livro prossegue até Orlando chegar ao século XX, com 36 anos. E, mesmo desprovido da sua masculinidade, continua a amar Sacha. Virginia era casada com o grande Leonard Woolf, a quem amava incondicionalmente como amigo. Talvez o seu maior amor carnal tivesse sido Vita Sackville-West, a quem Orlando e sua indefinições é dedicado.

Como em Um teto todo seu, Virginia Woolf permanece dentro de um feminismo esclarecido, sem culpas ou ódio, apenas fazendo anotações sarcásticas e desencantadas sobre uma humanidade que despreza as mulheres. Os símbolos são fortes e elegantes, como quando Orlando retorna à Inglaterra e apenas os cães e os animais o(a) reconhecem. São os únicos a respeitarem Orlando sem se importar com seu novo sexo.

Mas não pensem Orlando como um livro centrado apenas na questão do feminino. Há as questões da sabedoria, do tempo, da felicidade e da permanência, representada pelo filho que ela tem com o estranho Marmaduke Bonthrop Shelmerdine. Quando lançado, Orlando fez imenso sucesso e permitiu a Virginia e Leonard comprarem o carro em que passeavam por Londres… Nenhuma surpresa, pois o livro é de um modernismo alegre,  repleto de poesia e humor. Apaixone-se por Orlando. Na minha opinião, é inevitável que isto ocorra logo nas primeira páginas.

Breve romance do sonho, de Arthur Schnitzler

Breve romance do sonho, de Arthur Schnitzler

Pequena obra-prima do austríaco Schnitzler (1862-1931), a história de Breve Romance de Sonho (1926) é mais conhecida na versão de Stanley Kubrick, que o transformou no filme De Olhos Bem Fechados, título bastante adequado a este curioso livrinho de cem páginas. Não é uma história pânica, é a história de um pânico, de um enorme pânico. Sem revelar inteiramente a trama, vamos em frente.

O médico Fridolin e sua mulher, Albertine, são jovens, belos e bem sucedidos. Formam uma família exemplar, eles e sua querida filhinha. Então Albertina revela a seu marido uma fantasia sexual com amigo do passado, um quase-amor, e a vida de Fridolin vira pelo avesso. Ele passa a agir como num sonho, à procura de sexo e problemas. Para piorar, a mulher, no outro dia, conta-lhe um sonho sobre um bacanal em que o marido é condenado à morte. Freud era um dos admiradores de Schnitzler e deste novela absolutamente brilhante em expor o medo e a questão de até onde deve ser levada a intimidade dos casais. A partir de uma simples revelação, tudo o que sustinha a relação parece ter perdido subitamente o sentido. Paradoxalmente, o medo faz Fridolin perder qualquer receio da morte — ao contrário, ele parece procurá-la demorando-se em aventuras pelas ruas e criando fantasias de um retorno impossível à felicidade burguesa anterior.

Talvez as temáticas psicológicas propostas pelo autor vienense ainda no tempo de Freud possam estar cientificamente superadas, mas, na verdade, isso é o que menos importa. A arte de Schnitzler ao descrever as reações de Fridolin é arrebatadora, de um virtuosismo absoluto, que torna a leitura desta Traumnovelle uma das coisas mais fascinantes que conheço.

O Anão, de Pär Lagerkvist

O Anão, de Pär Lagerkvist

Neste momento, há dois exemplares de O Anão à venda na Estante Virtual. A única edição nacional é da Civilização Brasileira, dos anos 70. Não é um livro grande, é um volume de 150 páginas. O valor mais barato praticado é de R$ 290,00; o mais caro, R$ 300,00. Não me surpreende. Tornou-se raro e é uma obra-prima daquelas que tem de ser levadas para a ilha deserta.

(Tenho certeza que meu exemplar está em minha biblioteca. Mas agora, sabedor do que ele vale, vou dar uma conferida).

O Anão, do sueco Pär Lagerkvist, é a história de Picolino, o bobo da corte de um príncipe italiano da Renascença. Sua função é a de divertir e ele a cumpre; só que ele odeia minuciosamente a todos os seus amos e quase todos são seus amos, claro. A repugnância que sente, a repulsa que Picolino dedica a todos é descrita de forma estupenda — com um foco narrativo que tentaremos explicar à frente — pelo Nobel de 1951, assim como também a forma como passa a influenciar os assuntos políticos da corte, sempre com a única e exclusiva intenção de prejudicar a todos. É um romance originalíssimo sobre o mal, a inveja e o desprezo.

A cidade-estado renascentista onde ocorre a ação não é clara, mas há um personagem chamado Bernardo, que é sem dúvida inspirado em Leonardo da Vinci, o que nos faz pensar no final do século XV. Também há referências a igrejas que se encontram na região de Florença. Ao mesmo tempo, o anão, narrador do romance, fala em criações como A Última Ceia e a Mona Lisa, a primeira delas pintada em Milão e segunda provavelmente em Florença. Além disso, o príncipe parece ser César Bórgia, que empregou Leonardo da Vinci como arquiteto militar… Desta forma, há muitas referências históricas dançando incontrolavelmente no contexto do romance.

Como disse, o anão é o narrador e tudo é contado retrospectivamente alguns minutos, horas ou semanas após a ocorrência dos fatos e antes dos seguintes. Tal artifício faz com que todos os acontecimentos sejam quentes, contados com emoção, mostrando O Anão planejar no papel seus próximos passos. Ou seja, a colocação do foco narrativo é muito inteligente, fazendo com que o leitor sinta a respiração do anão-monstro arquitetando suas vinganças, incorporando o mal e curtindo seu ódio de misantropo.

Ele ama a guerra, claro, e quando lhe pedem para cometer um crime, ele o expande sob o pretexto de beneficiar o príncipe… Todos mudam durante o romance, todos mudam na cabeça do narrador, menos ele, que se mantém coerente da primeira à última página. Curiosamente, é profundamente religioso, mas sua crença inclui um Deus que nunca perdoa. Mesmo impressionado com a ciência de Bernardo, sente repulsa pela busca que este empreende para chegar à verdade e ao âmago das coisas.

Por tudo isso e muito mais, este clássico de 1944 é de leitura obrigatória, o que justifica (ou não) seu preço (abusivo).

Grande Lagerkvist!!!

Fuimos campeones

Fuimos campeones

Lembrei hoje de um extraordinário livro do jornalista argentino Ricardo Gotta. O livro é Fuimos Campeones. Gotta foi o cara que descobriu como o Peru entregou o jogo para a Argentina em 1978. São 300 páginas de história do futebol e de investigação, tendo por pano de fundo a ditadura militar argentina.

O livro é uma joia. Pouco a pouco, vamos montando o cenário até que o zagueiro peruano Rodolfo Manzo confessa, mais de 20 anos depois dos fatos.

Manzo era o principal suspeito. Afinal, logo após a Copa, ele assinou um lindo contrato com o Velez Sarsfield e depois com futebol italiano. Logo ele, um zagueiro modesto. Inexplicável. Ele mora até hoje na Itália, pois, em qualquer lugar que vá no Peru, as pessoas lhe dizem:

– Eres tu que te vendiste.

Ele e mais cinco. Só. Ninguém mais. Não lembro mais o motivo, só que Manzo ficou mais marcado. Seu companheiro de zaga, Velásquez, acusava o sexteto desde 1978.

Revendo os gols da partida, nota-se como Manzo abandona a marcação dos atacantes argentinos. Como escorrega no momento de enfrentar Kempes num dos gols, cai, pula em branco, uma doidice só.

Na época do lançamento do livro, fiquei amigo de Gotta, pois fiz uma pequena correção sobre um detalhe do futebol brasileiro em seu texto. Passamos a conversar por e-mail e ficamos de “charlar” um dia, coisa que nunca aconteceu. Em Fuimos, Ricardo também conta casos espetaculares de subornos, entregas e vendas em Copas do Mundo. O caso mais sensacional é o que segue.

1974. Final da primeira fase da Copa da Alemanha. A Argentina precisava imperiosamente vencer de goleada o Haiti, mas a Polônia, já classificada em primeiro lugar, tinha que ganhar da Itália. Para que, se já era a campeã do grupo? Um empresário argentino com negócios na Polônia foi escalado para abordar alguém da delegação polonesa. O escolhido foi Gadocha, outro bom negociante. O argentino perguntou a Gadocha se “Polonia iba salir a ganar”.

Ouviu o a seguinte resposta: “Isso dependerá dos argentinos”. Como a AFA não tinha cash, cada jogador argentino deu US$ 1.000,00, uma fortuna para jogadores que atuavam atrás do Muro. Sim, fizeram uma vaquinha. Os polacos foram com tudo e ganharam da Itália, enquanto a Argentina fazia 4 x 1 no Haiti. Tudo certo. No dia seguinte, Gadocha avisou a seus companheiros que a grana viria quando a Copa finalizasse para eles, antes da viagem de volta, para não dar na vista. Após vencerem o Brasil por 1 x 0 e de conquistarem o terceiro lugar, Gadocha simplesmente desapareceu. Com o dinheiro.

Saudades do amigo Gotta.

Assim na Terra, de Luiz Sérgio Metz

Assim na Terra, de Luiz Sérgio Metz

Por Anahy Metz

Quando o João Perassolo, assessor de imprensa da extinta Cosac Naify, me escreveu pedindo um texto sobre o Assim na Terra, pensei: que estrada trilhar? Como não sou especialista na obra do autor do livro, Luiz Sérgio Metz (meu pai), decidi contar algumas histórias envolvendo a vida dele que me parecem explicar de onde surgiu a obra. Há um texto do pai, publicado pela Zero Hora no caderno de Cultura, que defende que todos deveríamos nascer com o propósito de desvendar uma lenda. Não lembro bem se era uma lenda apenas, ou lendas, mas a ideia é essa. Nascer para desvendar algo. Com essa referência, escrevo três lendas a seu respeito:

Lenda Um – infância em Santo Ângelo

Meu pai tem três irmãs, Lourdes, Carmen e Bernadete. Juntas elas me contaram essas histórias.

Ele não conseguia ficar na sala de aula. Na época do colégio, ele dava um jeito de fugir para brincar com os amigos pelas sangas de Santo Ângelo. Gostava de estar em contato com a natureza e enfiar os pés descalços no barro vermelho típico das Missões. Meu avô, Arlindo, era uma alemãozão brabo, artesão marceneiro. As tias me contaram que, para não apanhar quando chegasse em casa, as mães dos amigos lavavam a roupa do meu pai, davam jeito de secar e ele chegava em casa como se nada tivesse acontecido. A escola Onofre Pires não estava preparada para ele, me conta uma professora que lecionava lá na época em que o pai foi aluno. “Gostaria que ele tivesse sido meu aluno, as outras professoras não sabiam o que fazer com o Jaca”, disse ela.

Me parece que o surgimento do Assim na Terra está justamente aí. Nas brincadeiras de rua. Elas foram transferidas para a lida com a palavra. Da maneira como o livro foi concebido, penso que não é possível que alguém trabalhe de forma tão livre com o vocabulário e as ideias se não estiver brincando, guardadas as proporções. Sempre me chamou atenção quando passava as férias em Santo Ângelo, a maneira como as histórias eram contadas pelas minhas tias, o modo como falavam sobre as pessoas com as quais conviviam. Não era algo simples do cotidiano, mas sim como se estivessem se referindo a personagens de uma história, que era real, mas dita daquele jeito, virava literatura. Me lembro delas me contando do Sete Camisas e do Sete Sacolas, uma brincadeira genial com a linguagem e, de certa forma, uma criação de personagens que, para mim, são da ordem do fantástico. Meu pai internalizou tudo isso e transferiu essa vivência e aprendizado para o “fazer” da linguagem e da produção poética.

Elas me contaram, por exemplo, o causo (vou chamar aqui de causo por que minha relação com essa contação é afetiva, enfim) do dia em que o pai tinha que mostrar as tarefas de casa demandadas pelo colégio ao meu avô. De novo, para que não apanhasse do vô Arlindo, minhas tias deram um jeito para que ele cumprisse o dever antes que o caderno fosse averiguado. Sentaram-se os quatro na mesa, minhas tias e meu pai, que deveria estar lá pela segunda série. Uma das perguntas escrita aos garranchos no caderno era: o que se deve fazer antes do almoço? Imagino que a situação devia ser tensa. O vô já estava quase chegando e o meu pai larga o seguinte no papel: sicová e silavá. Sim, diante do não cumprimento do dever de casa, da possibilidade de levar uma sumanta de pau e ainda ficar de castigo, o pai subverte a linguagem e responde a um questionamento simples brincando, numa ironia fina, e experimentando com a linguagem.

Lenda Dois – os cavalos e a Adélia

O pai sonhava estar em contato com os cavalos. Não lembro quem me contou essa história, mas vamos a ela. Na época em que entrou para o Exército, ainda em Santo Ângelo, o Jaca deu um jeito de ser transferido para São Gabriel, onde havia Cavalaria e a possibilidade de aprender a lida com os cavalos. Era o único jeito que dispunha para se aproximar desse animal que o fascinava tanto. Conseguiu a transferência e finalmente iria estabelecer uma relação com o que antes era distante. Então minha avó Adélia caiu doente. Ficou acamada durante muito tempo, o que acarretou na retransferência do pai para Santo Ângelo. Imagino o rebuliço dentro de uma instituição como o Exército para conseguir tais encaminhamentos. É óbvio, após o retorno do pai, minha avó voltou a se sentir saudável. O amor pelos cavalos teve de esperar.

Lenda Três – o relatório e a criação do Uvizinho

Nos anos 70, o pai foi estudar Filosofia em Santa Maria. Acabou trocando para o Jornalismo. Aí novamente, história que minhas tias me contaram e para a qual existe a prova. Ao final do curso, meu pai tinha de fazer um estágio e, ao final do estágio, apresentar um relatório. Algo bem burocrático. Isso era necessário para que se formasse. Ao invés de fazer o que todo formando faz, o pai escreveu um texto sobre a relação que estabeleceu com os passarinhos que habitavam/visitavam o local onde acontecia o tal aprendizado prático. Deu apelidos aos passarinhos, para um deles, Uvizinho. Experimentou novamente com a linguagem, subvertendo a seriedade burocrática exigida por um relatório. Essas coisas não eram para ele. Para o pai, a vida em si era bem mais do que um relatório emparedado sobre os aprendizados técnicos no tal estágio. Esse texto acabou dando origem ao conto “Uguino, o inventor de passarinhos”, que foi publicado posteriormente no livro de contos “O primeiro e o segundo homem”. É claro que o pai foi reprovado e teve de cursar a cadeira novamente para conseguir o diploma. A Universidade não estava preparada para ele.

Esperando Godot, de Samuel Beckett

Esperando Godot, de Samuel Beckett

O ar está cheio de nossos gritos, mas o hábito é uma grande surdina.
Samuel Beckett

Teatro vale? Mas é claro! No planejamento desta série, que não existe e que teria sido feito por mim enquanto caminhava pela rua, há também Macbeth ou A Tempestade, peças de estupenda qualidade literária escritas por Shakespeare. Beckett detestava aparecer e foi por este motivo que não foi receber o merecido Nobel em 1969. Ele preferiu ficar em casa. Uma frase atribuída a ele é a seguinte: “Eu nada tenho a dizer, mas só eu sei exprimi-lo”. Beckett teve o bom gosto de jamais explicar o significado simbólico de Esperando Godot, apenas veio à público para afirmar que Godot, não era deus (god).

Vladimir e Estragon são dois vagabundos de vaudeville que aguardam inutilmente a chega de Godot, uma coisa ou alguém que não se sabe o que ou quem é. Enquanto esperam, tagarelam a respeito de tudo, desde seus calçados, até a opção pelo suicídio e a existência de deus. Sem traços ideológicos, a peça não tem um enredo ou conflitos definidos e se passa ao lado de uma árvore. Pode-se dizer que se trata antes de um portal onde são vistos em sequência temas fundamentais da humanidade, vindo todos num ritmo alucinado de cinema mudo: o desejo de afeto, a necessidade de companhia, o ressentimento, o medo da velhice e da solidão, a salvação e o vazio. O destino em Beckett é um carro alegre e brincalhão que atropela indiferente (lembram da música?) personagens que procuram escapar dele divertindo-se de forma nada monótona. O que dizer da qualidade dos diálogos Allegro Scherzando do irlandês? Talvez devamos nos recolher como Beckett faria. Paremos aqui.