Os dez melhores romances escritos por mulheres

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Meus dez melhores romances brasileiros

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A Nobel de 2026 (um chute)

A Nobel de 2026 (um chute)

No ano passado, acertei o Nobel de Literatura. Todos sabiam que seria um homem — a alternância está definida — e que os votantes estavam liberados para votarem em quem quisessem. Apostei no melhor que conhecia, László Krasznahorkai. E acertei.

Neste ano, dizem que o Nobel vai para uma mulher. Minha favorita é Lídia Jorge. Dentre as citadas nas casas de apostas é a que acho melhor. Mas não conheço a maioria delas, claro.

Lidia Jorge

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O impostor, de Damon Galgut

O impostor, de Damon Galgut

Eu estou apaixonado pelos livros do sul-africano Damon Galgut, dos quais já li A Promessa, O Bom Médico e agora este. Aqui, Galgut vem com a história de Adam Napier um “poeta” que vai ao interior para escrever e acaba envolvendo-se nos negócios de um amigo de infância. O tema do livro parece ser… Posso ser ousado? Como a realidade às vezes desliza sob nossos pés sem que possamos fazê-la parar.

Damon Galgut sabe incomodar. Em seus romances, o essencial não é dito, fica ligeiramente fora de foco, naquela pequena fissura por onde começa a entrar a dúvida. Há no romance uma atmosfera de inquietação permanente. O leitor nunca está inteiramente seguro de onde pisa, não porque Galgut recorra a truques ou mistérios artificiais, mas porque seus personagens carregam consigo uma espécie de moralidade opaca. Como em A Promessa, a África do Sul não aparece apenas como cenário. O país, com sua história de violência, está dentro dos personagens, contaminando relações, ambições e medos. Não há teses, a política e a história estão presentes justamente porque fazem parte da vida.

Adam Napier é um poeta branco de quarenta e poucos anos. Perdeu o emprego — substituído por um jovem negro que ele mesmo treinou, numa ironia do pós-apartheid — e perdeu sua casa. Com poucas opções, aceita a oferta do irmão: mudar-se para uma casa em ruínas no interior a fim de “reencontrar a poesia”. Ele diz a si mesmo que é um retorno à vocação. Mas todos ao redor — e o próprio leitor — sabem que é um gênero de fuga.

É então que ele conhece Canning. Um homem estranho, agradão, que afirma ter sido seu colega de escola, dono de uma enorme propriedade de caça e casado com uma bela mulher negra, Baby. Adam não lembra dele, mas é obviamente um ex-colega, pois sabe tudo do passado de Adam. E este aceita o convite. Aceita o jantar. Aceita a bebida. Aceita a amizade. E, sem perceber, aceita entrar num mundo que ele acreditava poder apenas observar de fora.

E há o título, O Impostor. A palavra parece simples, mas vai adquirindo sentidos. O “impostor” é todo mundo. Adam finge ser um poeta. Finge lembrar de Canning. Finge ser um observador neutro, um homem sensível e moralmente superior ao irmão que se vendeu ao mercado. Canning finge ser um amigo, um homem de negócios respeitável, um marido amoroso. E a própria África do Sul pós-apartheid finge ser uma nação recuperada, uma nação que resolveu seus vergonhosos problemas com uma constituição e um sorriso. E Baby? Baby não finge nada. Ela simplesmente não corresponde ao que Adam e Canning projetam nela.

Galgut escreve com uma prosa sem nenhum excesso. Não levanta a voz. Uma mudança de perspectiva, uma frase aparentemente casual, um gesto mínimo são suficientes para alterar aquilo que pensávamos compreender. É uma literatura que nos puxa para dentro dela, que nos torna seus cúmplices nas incertezas.

Depois de O Bom Médico e A Promessa, eu tinha a impressão de conhecer um pouco o território de Galgut. O Impostor mostrou-me que não. E talvez esse seja um dos maiores elogios que se possa fazer a ele: quando terminamos um livro seu, não apenas queremos ler o próximo — queremos também ler os anteriores.

Galgut acertou novamente. O Impostor é Galgut antes dos Booker Prize, mas já em plena forma.

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Ainda existem aveleiras, de Georges Simenon

Ainda existem aveleiras, de Georges Simenon

Este é um daqueles Simenon que merecem ser mais conhecidos por quem pensa que Simenon é apenas Maigret ou romances policiais ou “duros”. Nada disso, este é essencialmente um romance psicológico e familiar.

Vamos lá: há uma idade em que já não se espera que aconteça muita coisa. É desse território — o da velhice, da memória e da sensação de que o essencial já passou — que Georges Simenon extrai Ainda Existem Aveleiras, um de seus romances mais discretamente comoventes.

François Perret-Latour tem 75 anos e construiu uma vida de dinheiro, prestígio e hábitos rigorosos. Banqueiro aposentado, mora cercado por empregados e por uma existência perfeitamente organizada. Tudo parece sob controle até que notícias vindas dos Estados Unidos — a doença de sua primeira mulher e o suicídio de um filho que mal conheceu — fazem o passado retornar. Aos poucos, um desfile de outras questões familiares começam a perturbar aquela vida tão cuidadosamente ordenada.

Mas Simenon não está interessado em produzir grande tumulto. Perret-Latour vai alinhavando os panos quentes que utilizará. O que lhe interessa é observar as movimentações interiores causado por fatos da vida, alguns deles banais. Um telefonema, uma lembrança, uma conversa com a governanta, uma visita, uma notícia desagradável: são esses acontecimentos modestos que fazem Perret-Latour voltar a sentir-se vivo. É uma das grandes qualidades de Simenon: ele sabe que uma existência humana não precisa de acontecimentos extraordinários para conter um romance completo.

O título concentra essa ideia. Num passeio pelo campo, o velho banqueiro vê, numa sebe, algumas aveleiras que ainda dão frutos. A descoberta o surpreende: apesar dos aviões, das estradas, da transformação do mundo, ainda existem aveleiras. Ele próprio percebe que a conclusão é quase ingênua, mas não consegue deixar de se emocionar. As aveleiras tornam-se então uma pequena imagem daquilo que permanece quando quase tudo parece ter mudado: há ainda alguma coisa viva e simples.

E talvez seja justamente aí que o romance se distancia do Simenon mais sombrio. Não há aqui o pessimismo radical de alguns de seus romances duros. Há melancolia, certamente, mas também uma espécie de reconciliação com a vida. Perret-Latour descobre que envelhecer não significa necessariamente retirar-se do mundo. Pode significar, ao contrário, o encontro com coisas que a pressa, o dinheiro e o trabalho haviam impedido de enxergar.

Perret-Latour pode ter sido egoísta e distante, até mesmo responsável por algumas infelicidades, mas Simenon não o transforma em réu. Há uma curiosidade compassiva pelo ser humano, uma disposição para compreender suas pequenas covardias, seus arrependimentos e suas tentativas de reparar aquilo que ainda pode ser reparado. Também chama atenção a simplicidade da escrita. Simenon parece não fazer esforço algum para produzir literatura — e talvez justamente por isso produza tanta. Os diálogos são naturais, nada forçados, e as emoções não são anunciadas. Aparecem apenas nos gestos, nos silêncios.

Vocês sabem, Simenon é o anti-piegas. Mas Ainda Existem Aveleiras é um livro sobre a possibilidade de recomeçar quando já não esperávamos recomeço algum. E há uma delicadeza especial nisso: Simenon não promete uma redenção. Oferece algo muito mais modesto — e talvez mais verdadeiro. Uma pessoa pode ter desperdiçado anos, cometido erros, afastado pessoas e envelhecido. Ainda assim, alguma coisa permanece.

Afinal, ainda existem aveleiras.

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O bom médico, de Damon Galgut

O bom médico, de Damon Galgut

Damon Galgut tem uma premiadíssima obra-prima em seu currículo: A promessa — livro vencedor do Booker Prize de 2021, entre outros vários prêmios. Por isso, fui procurar outros livros dele. Em O bom médico, ele conta a história do encontro entre dois médicos num hospital miserável do interior da África do Sul. Pouco depois do fim do apartheid ninguém sabe muito bem como será o novo país e Galgut bota sua lente no conflito entre duas pessoas: uma que desistiu de agir e outra que acredita, talvez ingenuamente, que ainda é possível mudar o mundo. Publicado em 2003 e finalista do Booker Prize daquele ano, o romance se passa no interior da África do Sul. O hospital, abandonado e decadente, torna-se uma espécie de miniatura da própria África do Sul: o regime mudou, mas o passado (e a pasmaceira) continua instalado nas paredes.

O narrador, Frank Eloff, é um médico que já perdeu a fé em quase tudo. Profissional competente, mas acomodado, carrega uma espécie de culpa histórica e pessoal: seu passado inclui uma hesitante experiência no Exército durante o apartheid. Ele não espera mais nada daquele lugar e, sobretudo, não acredita em grandes gestos. É justamente por isso que a chegada de Laurence Waters, jovem médico idealista, o incomoda tanto. Laurence acredita que a medicina pode transformar a realidade e se empenha em levar atendimento às comunidades pobres. O conflito entre os dois é rico porque Galgut não transforma Laurence no “bom médico” do título de maneira simples. Seu idealismo contém generosidade, mas também vaidade, imprudência e uma espécie de desejo de se sentir moralmente superior.

E aqui está, para mim, a grande inteligência do romance: Galgut não adere nem ao cinismo, nem ao idealismo. Frank sabe que o mundo é complicado e, por isso, não faz quase nada… Laurence acredita que sabe como o mundo deve ser e, justamente por isso, acaba produzindo coisas que carregarão consequências que não consegue controlar… O primeiro peca pela omissão; o segundo, pela ação irrefletida. Entre ambos fica uma pergunta terrível: é melhor não fazer nada diante da injustiça ou agir, mesmo correndo o risco de fazer mal?

A África do Sul pós-apartheid é mais do que cenário. O hospital situa-se num antigo território criado para a população negra, e sua decadência material parece representar a dificuldade de simplesmente decretar que o passado acabou. A democracia chegou, mas as estruturas, os ressentimentos, a desigualdade e a violência continuam presentes. O apartheid está muitas vezes nas margens, nas relações entre as pessoas e na sensação de que todos carregam alguma coisa que prefeririam esquecer. Li algumas críticas que chamam a atenção precisamente para essa tensão entre passado e presente e para a persistência das divisões sociais e raciais.

Também é importante a forma como Galgut conta a história. Frank é um narrador pouco confiável, não necessariamente porque mente deliberadamente, mas porque enxerga o mundo a partir de suas próprias feridas, ressentimentos e limitações. Ele interpreta Laurence, sua amante Maria, os colegas e os acontecimentos — e a gente não acredita muito nele. Eu, pelo menos. Essa ambiguidade é uma das razões pelas quais o romance é tão interessante.

Há ainda uma questão que acho particularmente bonita: o que significa ser “bom”? Um bom médico é aquele que cura? Aquele que tenta ajudar? Aquele que respeita os limites de uma situação? Aquele que assume responsabilidades? Ou aquele que simplesmente não consegue assistir passivamente ao sofrimento? (Como comuna, sempre desconfiei de quem faz caridade, mas isso não vem ao caso). Galgut parece sugerir que a bondade, quando se transforma em certeza sobre o próprio papel no mundo, pode se tornar perigosa. (Nota: não gosto muito dos pró-ativos). E, ao mesmo tempo, o cinismo de Frank não é uma forma superior de lucidez: é também uma maneira de fugir.

Por isso, O Bom Médico é interessante não apenas pela questão do apartheid — que já renderia uma longa conversa —, mas porque permite discutir coisas muito próximas de nós: idealismo, culpa, responsabilidade, omissão, desejo de ser uma pessoa boa e, sobretudo, a dificuldade de distinguir uma boa intenção de uma boa ação. Sim, é na zona desconfortável entre esperança e fracasso que este romance realmente vive.

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O Duelo, de Anton Tchékhov

O Duelo, de Anton Tchékhov

Nesta rara novela de Tchékhov — como todos sabem, ele se dedicava mais aos contos e às peças de teatro –, a gente fica imaginando que outras novelas e romances maravilhosos ele também poderia ter escrito. Aqui, neste O Duelo, a ideologia encontra o abismo humano. O Duelo vai muito além do confronto físico que lhe dá título, transformando-se num palco para algumas das grandes questões existenciais que assombravam a intelligentsia russa do século XIX.

A história se passa numa pequena cidade litorânea do Cáucaso, um microcosmo, onde Tchékhov reúne figuras que representam polos opostos da existência. De um lado, Laiévski, um burocrata de 28 anos, é a personificação do “homem supérfluo” da literatura russa. Trata-se um sujeito que se mudou para o campo com sua amante, Nadiéjda, com sonhos de uma vida simples, mas que se perdeu no jogo, na bebida e na inércia. Vive pedindo dinheiro para todo mundo. De outro, o zoólogo Von Koren, um darwinista social convicto, representa a razão fria e o pragmatismo mais extremo, vendo em Laiévski um ser inferior. Acharia melhor se este fosse eliminado para o bem da evolução da espécie.

Na verdade, há vários “duelos”. Não há apenas o duelo final entre os dois homens, mas também o duelo silencioso entre os amantes que já não sabem se se amam, o duelo ideológico entre o niilismo boêmio e a rigidez científica, o duelo individual entre sonho e realidade, que dilacera o protagonista por dentro e o duelo da própria forma, onde Tchékhov equilibra a concisão do conto com a amplitude do romance .

Von Koren é brilhante e tem razão em muitos dos seus diagnósticos sobre a inépcia de Laiévski, mas seu antídoto para o mal é um autoritarismo que beira o totalitarismo, tratando pessoas como “insetos e nulidades” em nome da humanidade, da evolução e da razão. Já Laiévski é patético e autodestrutivo, mas sua falência é profundamente humana.

Ao contrário do que se poderia esperar, O Duelo não se resolve na violência do combate. O clímax se desvia por um acaso, por uma intervenção casual. A novela termina numa nota de ateísmo, sugerindo que a redenção e a justiça não vêm de grandes gestos ideológicos, mas sim de pequenas correções éticas na vida cotidiana.

Esta é uma obra de realismo psicológico, uma boa análise de humanos em crise e um comentário atemporal sobre o perigo de se transformar pessoas em meros objetos de uma teoria. Para fãs de Tolstói, Dostoiévski ou Turguêniev, O Duelo é uma leitura essencial que, como bem disse um amigo aqui da livraria, nos lembra que, na maioria das vezes, “os duelos fazem parte da maneira como enxergamos o mundo”.

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Mediação de “Pequenas coisas como estas”, de Claire Keegan

Pequenas Coisas Como Estas, de Claire Keegan, é um livro curto, de linguagem econômica, mas moralmente muito perturbador. Eu faria a mediação de modo a não transformar a conversa apenas em “o que Bill deveria ter feito?”, porque o livro oferece questões muito mais interessantes sobre culpa, silêncio, conveniência e coragem.

Roteiro de mediação — Pequenas Coisas Como Estas

1. Comece pelo título

Pergunte:

“O que são, afinal, as ‘pequenas coisas’ do título?”

Deixe o grupo falar antes de explicar. A expressão pode parecer referir-se aos pequenos gestos cotidianos, mas vai ganhando um peso moral enorme. O livro pergunta, de certo modo, o que fazemos quando uma coisa aparentemente pequena exige de nós uma decisão enorme.

2. Bill Furlong: quem é esse homem?

Bill é um homem comum, trabalhador, pai de família, comerciante. Não é apresentado como herói.

Perguntas:

  • Vocês gostam de Bill?
  • Ele é um homem moralmente corajoso ou apenas alguém decente que se vê obrigado a agir?
  • Por que Keegan faz dele um personagem tão comum?
  • O que há de extraordinário em sua decisão?

Aqui eu insistiria numa questão interessante:

“Bill é um herói ou simplesmente fez aquilo que qualquer pessoa deveria fazer?”

Essa pergunta costuma dividir o grupo.

3. O passado de Bill

O passado dele é fundamental: a própria origem de Bill está ligada à generosidade de uma mulher que poderia ter escolhido abandoná-lo.

Pergunte:

“Bill ajuda porque é um homem bom ou porque sabe, por experiência própria, o que significa alguém decidir não abandoná-lo?”

Isso permite discutir memória e gratidão sem transformar o personagem numa espécie de santo.

4. O grande tema: o silêncio

Este talvez seja o eixo central da discussão.

Todos sabem — ou suspeitam — que há algo terrível acontecendo. Mas existe um silêncio coletivo.

Pergunte:

  • Por que as pessoas não falam?
  • Quem se beneficia desse silêncio?
  • O silêncio é covardia?
  • É medo?
  • É autopreservação?
  • Ou é simplesmente a maneira como uma sociedade inteira aprende a conviver com uma injustiça?

E uma pergunta que pode render muito:

“O que é mais assustador no livro: as pessoas que fazem o mal ou as pessoas decentes que conseguem viver ao lado dele?”

5. A Igreja e a sociedade

É importante não reduzir o livro à denúncia de uma instituição específica. Keegan mostra um sistema social inteiro.

Pergunte:

  • Por que ninguém quer saber demais?
  • Que papel desempenham o dinheiro, o emprego, a reputação e a dependência social?
  • O que significa desafiar uma instituição que organiza a vida da comunidade?
  • Bill coloca apenas a si mesmo em risco ou também sua família?

Aqui aparece uma das grandes sutilezas do livro: fazer o bem não é gratuito.

6. Eileen, a esposa

Eu dedicaria um bom tempo a ela, porque é fácil deixar Eileen em segundo plano.

Ela representa, de certa forma, a necessidade de proteger a estabilidade conquistada pela família.

Pergunte:

“Eileen está errada ao querer que Bill não se meta?”

E depois:

“Até onde podemos exigir coragem moral de alguém quando as consequências atingem também sua mulher e suas filhas?”

Essa é uma pergunta particularmente boa porque impede uma leitura simplista.

7. A cena do convento

Aqui vale perguntar primeiro sobre a experiência de leitura:

“Em que momento vocês perceberam que Bill não conseguiria simplesmente ir embora e esquecer o que viu?”

E depois:

  • O que muda dentro dele?
  • Ele toma uma decisão racional ou quase instintiva?
  • Por que a menina que ele encontra provoca nele uma reação tão forte?

8. A linguagem de Claire Keegan

Este é um ponto que eu exploraria bastante.

Keegan escreve sem melodrama. Ela não precisa descrever longamente a crueldade para que nós a sintamos.

Pergunte:

  • O que o livro ganha com essa contenção?
  • Teria sido mais fácil ou menos poderoso se Keegan tivesse explicado tudo?
  • Por que sentimos tanto justamente diante daquilo que não é dito?

Uma boa provocação:

“Keegan escreve um livro sobre silêncio usando uma linguagem que também é silenciosa?”

9. O final

Sem necessariamente procurar uma interpretação definitiva:

  • O final é esperançoso?
  • É corajoso ou irresponsável?
  • Bill mudou sua vida ou apenas deu o primeiro passo?
  • O que vocês imaginam que acontecerá depois?

E uma pergunta especialmente boa:

“O livro termina quando Bill resolve o problema — ou justamente quando começa o verdadeiro problema?”

Para fechar

Eu terminaria com uma pergunta mais ampla, que tira o grupo da Irlanda dos anos 1980 e traz o livro para nós:

“Quantas vezes na nossa própria vida percebemos que alguma coisa está errada, mas preferimos não olhar muito de perto porque olhar significaria ter de fazer alguma coisa?”

E talvez acrescentasse:

“Será que são realmente as grandes decisões que definem uma pessoa — ou são as pequenas coisas que ela faz quando ninguém está olhando?”

Essa última, para mim, é a pergunta que melhor resume o livro. Claire Keegan pega uma história aparentemente pequena e transforma-a numa espécie de teste moral para o leitor. E o mais incômodo é que, depois de terminar, não temos tanta certeza de que passaríamos nesse teste.

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Da Elena no meu aniversário

Um poema do pouco conhecido aqui, de Nikolay Gumilyov.

Bebê elefante

Meu amor por você agora é um bebê de elefante
Nascido em Berlim ou em Paris
Que anda, com pernas bambas
Pelos aposentos do dono do zoológico.

Não lhe ofereça baguetes
Não lhe ofereça grandes repolhos,
Ele só pode comer um gomo de tangerina
Um cubo de açúcar ou um bombom.

Não chore, minha doce, que em uma gaiola apertada
Ele se tornará o escárnio dos comuns,
Para que a fumaça dos charutos seja soprada em seu nariz
Por comerciantes ao som do riso de costureiras.

Não pense, minha querida, que o dia chegará
Quando, enfurecido, ele quebrará as correntes
E correrá pelas ruas
Como um ônibus, esmagando as pessoas aos gritos.

Não, deixe-se sonhar com ele pela alta madrugada
Em brocado e cobre, com penas de avestruz,
Como aquele Magnífico que outrora
Carregou para a trêmula Roma Aníbal.

(1920)

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Sabemos que ler poesia traduzida é como tomar banho de capa de chuva. (c)
Então, coloco o original no primeiro comentário.
Feliz aniversário, meu q u e r i d o!

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O que podemos saber, de Ian McEwan

O que podemos saber, de Ian McEwan

McEwan é um autor especialmente bom para resenhas que não contem demais do enredo, porque o que torna seus livros fascinantes — com as exceções de A Barata e Solar, livros que detestei — é justamente a forma como ele vai deslocando, aos poucos, aquilo que pensamos saber sobre as pessoas, o passado e até sobre nós mesmos. Há escritores que contam histórias para nos fazer esquecer o mundo, McEwan faz o contrário: conta histórias para nos lembrar de como é estranho, frágil e misterioso o que julgamos conhecer.

Em O que podemos saber, McEwan parte de uma pergunta que parece simples, mas que logo se torna importante e abissal: o que, afinal, podemos saber sobre uma pessoa que já viveu, sobre um tempo que já passou, sobre uma vida que não é a nossa? O romance se constrói nesse espaço entre memória e imaginação, entre aquilo que os documentos preservam e aquilo que inevitavelmente se perde. E é justamente aí que a literatura aparece — não como uma máquina de recuperar o passado, mas como um modo delicado e inteligente de conversar com aquilo que desapareceu.

Por falar em inteligência, McEwan tem uma bem particular. Ele é mestre em transformar grandes questões em experiências íntimas. O futuro, a memória, o amor, a morte, a passagem do tempo e a nossa relação com as gerações que virão não aparecem como temas filosóficos. Ganham corpo em personagens, desejos, segredos e descobertas. O resultado é um romance que pensa sem jamais deixar de contar uma história.

Neste livro, há também uma espécie de melancolia muito bonita. Não apenas a melancolia diante do que já aconteceu, mas diante daquilo que não poderá mais ser conhecido. Toda vida humana contém zonas inacessíveis. Pessoas que amamos guardam pensamentos que nunca nos revelaram. Acontecimentos importantes são esquecidos ou varridos minuciosamente para baixo do tapete, sentimentos mudam de significado com o passar dos anos. Mesmo quando temos documentos, fotografias, cartas e testemunhos, nunca possuímos inteiramente uma existência.

A história desenrola-se em dois tempos. Em 2119, o mundo foi devastado por alterações climáticas e guerras nucleares que reduziram a população global à metade, afundaram boa parte da Inglaterra (transformado num arquipélago) e tornaram a Nigéria a grande potência. Neste cenário, Thomas Metcalfe, um professor de literatura, dedica-se a estudar o período de 1990 a 2030, uma época que ele chama de “era de ouro”, de abundância e liberdade. E de irresponsabilidade, claro.

A sua obsessão é um poema perdido: Uma Coroa para Vivien, escrito em 2014 pelo poeta Francis Blundy para a sua esposa e lido uma única vez durante um jantar de aniversário e nunca mais encontrado. O poema, uma complexa sequência de 15 sonetos, tornou-se uma lenda, envolto em mistério e especulação. Tom, juntamente com a sua companheira e colega Rose, vasculha os registros digitais do século XXI — e-mails, mensagens, blogs — na esperança de encontrar uma pista que o leve ao poema perdido.

A primeira metade do livro é narrada por Tom, que nos guia pela sua desajeitada investigação a um passado que só conhece através de arquivos. McEwan utiliza esta estrutura para nos fazer olhar para o nosso presente com olhos de estranhamento: o nosso excesso de informação, as nossas redes sociais, as nossas certezas científicas e as nossas estupidezes cotidianas são dissecados com uma curiosa distância crítica que nos faz rir.

A segunda metade, porém, reserva uma reviravolta típica de McEwan (que lembra a estrutura de Reparação). A narradora passa a ser Vivien, a esposa do poeta, que revela uma teia de segredos, amores proibidos e um crime brutal que nenhum arquivo digital poderia conter. É aqui que o romance atinge a sua maior profundidade: o que podemos saber, mesmo com acesso a toda a informação do mundo, é apenas uma fração do que realmente aconteceu. O título, que parece uma pergunta, revela-se uma afirmação melancólica: aquilo que podemos saber é limitado, fragmentado e sujeito à interpretação.

A escrita de McEwan é, como sempre, precisa e elegante. Ele constrói um futuro distópico que funciona como um espelho do nosso presente, refletindo as nossas ansiedades sobre as alterações climáticas, as guerras e o colapso da ordem global. Contudo, o autor não fica preso pelo gênero apocalíptico, que é apenas pano de fundo. A história que é, essencialmente, sobre o amor, a memória e a traição.

A beleza do romance está na forma como McEwan, de 78 anos, transforma a busca por um poema num veículo para questões universais. O que fica de nós quando morremos? O que sobrevive para além dos “likes”? Como é que o futuro nos julgará? O que podemos saber também é um romance sobre a distância. A distância entre uma pessoa e outra, entre o presente e o passado, entre aquilo que aconteceu e aquilo que conseguimos contar sobre o que aconteceu. Mas é também um livro sobre o esforço humano de atravessar essas distâncias.

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A Montanha, de novo

A Montanha, de novo

Dentro da obra de Thomas Mann, sempre gostei mais de Doutor Fausto do que de A Montanha Mágica. Lá nos anos 80, eu dizia isto para o tradutor Herbert Caro, que, se bem lembro, não se posicionava, apesar de seu amor pela música.

Reli há pouco Os Buddenbrook, mas não abri nem A Montanha e nem o Fausto neste século. desde aquele época, a euforia pelo Fausto reduziu-se lentamente e ficou o afeto pela Montanha. É incrível como este romance permanece na minha memória. Nada do que é dito por Luisa Coquemala em suas ótimas aulas sobre A Montanha Mágica é totalmente estranho a mim. Às vezes me vêm expressões como “a luta pela alma de Hans Castorp”, “o filho enfermiço da vida” e ninguém pode bater a porta que já espero o consequente caminhar silencioso e sexy de uma russa. As expressões cômicas do livro — pois há, e muitas! — ainda estão tão presentes em minha memória quanto os capítulos “Neve” e “Politicamente Suspeita”. Qualquer hora dessas, a saudade de Settembrini vai apertar e volto ao livrão de Mann, certamente antes do Fausto.

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A favor dos livros, contra a nova modinha

A favor dos livros, contra a nova modinha

Como livreiro totalmente ralado financeiramente, acordei nesta manhã tão preocupado com as vendas como em bater nesse discurso de que o livro impresso é um “vilão ecológico”. Certo, admito, o livro é até um dos vilões, mas… está bem longe de ser o maior deles. Vejamos:

1. Um livro físico dura décadas, séculos. Qualquer e-reader tem bateria de lítio — obtido em mineração predatória — e vida útil de 5 a 7 anos, exigindo substituição.

2. O livro usa energia apenas na produção. O digital exige servidores (data centers) ligados 24h, que consomem água e energia elétrica constantemente para cada nuvem, cada download e cada sincronização.

3. O papel é 100% reciclável e biodegradável. Até a Macabéa o comia à noite com a finalidade de matar a fome. (Vá ler!). O plástico de capas de tablets e embalagens leva 500 anos para se decompor. Imagina a Macabéa comendo um celular!

4. Comércio local é igual a menos transporte: quando vendo livros presencialmente, evito o impacto de entregas individuais motorizados das compras online. Mais: dou preferência às bicicletas.

5. Se vendo usados, estou no topo da economia circular — prolongando a vida de um produto que já consumiu recursos, sem gerar novo gasto.

6. Livros encalhados não se tornam lixo tóxico.

7. Mais, o ganho ecológico é MAIOR: o livro transforma comportamentos.

8. Pessoas que leem são mais críticas, consomem com mais consciência e tendem a adotar hábitos mais verdes (se alguns não buscam os livros que reservam na Livraria Bamboletras não sou eu o culpado).

9. Um livro sobre sustentabilidade, natureza ou consumo consciente gera um efeito cascata positivo muito maior do que a mordida de carbono da sua produção. Até um livro Machado de Assis gera um efeito cascata, mas isso é conversa pra outro discurso.

10. Papel mata árvores? As árvores do papel são plantadas para isso. Se pararmos de comprar papel, essas florestas viram pasto ou soja, que emitem 10x mais CO2. Sim, nesse item parti pra ignorância!

11. Meu negócio não é anti-ecológico: é necessário. Cada livro que vendo é uma semente de pensamento crítico. E, ao contrário do que dizem, a indústria do papel é uma das poucas que colhe o que planta. O problema ecológico não está nos livros, está no consumo descartável — e livro não se descarta, a gente guarda, a gente empresta, a gente herda.

Então, venham à Bamboletras e salvem uma livraria.

Foto: minha biblioteca pessoal. O que tem de livro bom e biodegradável você não imagina.

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A Hora da Estrela, de Clarice Lispector (PGO VI)

A Hora da Estrela, de Clarice Lispector (PGO VI)

Não chegaria a dizer que A Hora da Estrela é dividido em duas partes, mas sim que o romance muda profundamente de ritmo. Na primeira metade, quem ocupa o centro da cena é o “autor” Rodrigo S. M. Ele hesita, interrompe a narrativa, filosofa, questiona seu direito de escrever sobre Macabéa. É um texto cheio de desvios, em que Clarice parece desmontar o próprio ato de narrar. Ouvi que vários leitores ficam impacientes, porque a história parece nunca começar. Então, algo muda ali pela metade.

A partir do momento em que Macabéa ganha mais espaço, a narrativa flui com surpreendente naturalidade. Os encontros com Olímpico, a amizade ambígua com Glória, a consulta à cartomante, tudo passa a ter uma cadência muito mais rápida, quase vertiginosa. Rodrigo continua presente, mas interfere menos. É como se, depois de tanta reflexão sobre a dificuldade de contar aquela vida, ele finalmente aceitasse deixar Macabéa existir diante de nós. Há uma ironia nisso: o narrador passa páginas dizendo que não sabe como contar a história e, quando enfim começa a contá-la, percebemos que sabia desde o início. O livro deixa de falar principalmente da escrita e passa a falar da personagem.

Eu acrescentaria ainda uma interpretação. Talvez essa mudança de ritmo tenha também um efeito emocional. Na primeira parte, Clarice nos mantém à distância, fazendo-nos pensar. Na segunda, ela nos desarma. Quando chegamos ao final, já não estamos analisando Macabéa; estamos profundamente envolvidos com ela. Bem, não foi uma interpretação. Foi quase.

Essa é uma das razões pelas quais A Hora da Estrela é tão bom. O romance não apenas conta uma história; ele dramatiza o nascimento da própria história, até que, de repente, percebemos que já não estamos lendo sobre um problema literário, mas sobre uma mulher cuja existência passou a nos importar profundamente. É uma transformação quase imperceptível — e de enorme poder artístico.

Clarice Lispector escolheu como protagonista alguém que passaria despercebido por quase todos. O livro recusa qualquer grandiosidade. Não há heróis, feitos memoráveis ou reviravoltas espetaculares. Há Macabéa, uma jovem nordestina pobre que vive no Rio de Janeiro quase sem deixar marcas no mundo. Ela trabalha, sonha pouco, deseja pouco e parece ocupar um lugar onde a sociedade acostumou-se a não enxergar ninguém.

Mas Clarice Lispector transforma essa vida aparentemente insignificante no centro absoluto da nossa atenção. Como disse, o romance é narrado por Rodrigo S. M., um escritor que hesita o tempo todo diante da tarefa de contar a história de Macabéa. Essa hesitação mais que mero artifício, é uma reflexão sobre a própria literatura. Como narrar a vida de alguém tão vulnerável sem reduzi-la a um objeto de piedade? Como encontrar palavras para quem nunca teve voz?

A escrita é ao mesmo tempo delicada e cortante, alterna momentos de ironia, compaixão, humor e espanto, Cada interrupção do narrador, cada dúvida, cada comentário sobre a escrita, reforça a sensação de que estamos diante de um(a) autor(a) que não aceita respostas fáceis.

O desfecho, tão conhecido quanto devastador, não encerra apenas a história de Macabéa. Ele nos obriga a perguntar que destino reservamos às pessoas invisíveis e qual é o papel da arte diante dessa realidade. Mais do que um livro sobre pobreza ou exclusão, A Hora da Estrela é uma reflexão sobre a dignidade humana. Clarice Lispector nos lembra que toda vida, por mais anônima que pareça, contém uma grandeza que merece ser reconhecida. E talvez seja essa a verdadeira hora da estrela: o instante em que alguém, finalmente, é visto.

Acho que essa é a obra em que Clarice mais claramente demonstra que a literatura não existe apenas para contar histórias, mas também para devolver humanidade àqueles que a realidade costuma deixar à margem. É um romance que termina, mas continua fazendo perguntas muito depois da última página.

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O humor em A Hora da Estrela é uma das coisas mais sofisticadas do romance — e muitas vezes passa despercebido porque o final é tão devastador. Mas Clarice é frequentemente engraçada, só que de um jeito muito particular: um humor desajeitado, absurdo, melancólico. Macabéa é involuntariamente cômica. Suas frases, suas interpretações literais, seus desejos modestíssimos (um cachorro-quente, um creme de beleza, ouvir a Rádio Relógio) criam situações engraçadas. Mas o leitor ri e, imediatamente, sente um desconforto: estamos rindo da ingenuidade dela ou da pobreza do mundo que a cerca?

Também há muito humor no narrador Rodrigo S. M. Ele é exagerado, dramático, contraditório. Às vezes parece um escritor parodiando escritores. Quando faz declarações grandiosas sobre sua missão literária e logo em seguida se desmente, Clarice está brincando com a figura do intelectual atormentado. Eu diria até que existe um quê de Machado de Assis nesse aspecto: um narrador que conversa com o leitor, interrompe a narrativa, comenta suas próprias limitações e ironiza a si mesmo. Em A Hora da Estrela, o riso vem sempre acompanhado de um pequeno susto. Clarice nos faz rir para que percebamos, um segundo depois, que o objeto do riso é também uma pessoa profundamente vulnerável. Talvez seja por isso que o humor do livro permaneça na memória: ele não serve para aliviar a tragédia, mas para torná-la ainda mais humana.

É um riso triste o que nos ocorre quando ela não quer deixar a conversa com o namorado morrer e pergunta, ao passar em frente a uma ferragem:

Eu gosto tanto de parafuso e prego, e o senhor?

É uma pergunta engraçada, mas também devastadora. Ela revela o esforço desesperado de Macabéa para manter viva uma conversa, para estabelecer um vínculo, para existir diante do outro. Ela não sabe seduzir, não sabe flertar, não sabe conversar. Então recorre ao primeiro objeto que encontra na vitrine. Rimos da inadequação da pergunta e, um instante depois, sentimos uma enorme compaixão por aquela moça que simplesmente não aprendeu os códigos da convivência. Vejam bem, aqui o humor nunca é uma pausa da tragédia, ele é uma forma da tragédia.

Quando Macabéa diz

“Eu sou datilógrafa, virgem e gosto de Coca-Cola.”

nós sorrimos. Mas não porque ela seja ridícula. Sorrimos porque ela acredita que essas três informações bastem para definir uma vida. O humor nasce da pobreza das categorias disponíveis para ela, não de sua pobreza como pessoa.

Clarice constrói Macabéa de tal maneira que ela nunca se torna um símbolo abstrato da pobreza. Ela continua sendo uma pessoa singular, com pequenos gostos, pequenas obsessões, pequenas alegrias. Isso é decisivo, porque impede que o romance se transforme numa tese social. Macabéa não representa apenas “os pobres”, ela é Macabéa.

E, finalmente (já escrevi demais!), há uma observação muito pessoal que faço: costuma-se dizer que Clarice escreveu um romance sobre uma pessoa invisível. Eu iria um pouco além: ela escreveu um romance sobre o ato de observar. Rodrigo aprende a olhar Macabéa. O leitor aprende a olhar Macabéa. E, terminado o livro, talvez aprendamos a olhar de outro modo as pessoas que cruzam diariamente o nosso caminho.

É aí que, para mim, reside a verdadeira dimensão ética de A Hora da Estrela. A literatura não salva Macabéa. Mas talvez salve alguma coisa no leitor: a capacidade de perceber que nenhuma vida é pequena demais para merecer atenção.

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PGO

Desde março deste ano, rola o PGO (Pequenas Grandes Obras), que é um Clube de Leituras da Livraria Bamboletras. O foco são os clássicos curtos, livros sempre muito bons ou representativos e que deixam tempo livre para os participantes lerem outras coisas. Há vagas.

Livros do PGO:

Março: O primeiro amor, de Ivan Turguêniev
Abril: A casa das belas adormecidas, de Yasunari Kawabata
Maio: Vidas secas, de Graciliano Ramos
Junho: Bartleby, de Herman Melville
Julho: Ao farol, de Virginia Woolf
Agosto: A hora da estrela, de Clarice Lispector
Setembro: Ratos e homens, de John Steinbeck

 

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Flanar III: Roteiro para a moderação de grupos de leitura: A Promessa, de Damon Galgut

A Promessa, de Damon Galgut é um livro sobre uma família, mas também sobre a África do Sul, sobre uma promessa nunca cumprida, mas também sobre a dificuldade humana de agir moralmente. O romance evita julgamentos explícitos e confia na inteligência do leitor.

Abertura

“Quando vocês fecharam o livro, qual foi a sensação predominante? Gostaram do livro ou não?”

  • melancolia
  • frustração
  • admiração
  • tristeza
  • beleza
  • indignação

Essa diversidade já vai mostrar a riqueza do romance.

A promessa

Aparentemente o livro gira em torno de uma promessa simples. Rachel, antes de morrer, pede que Salome receba a casa onde vive.

“O título do livro é ‘A Promessa’. Qual é, literalmente, a promessa que dá nome ao romance? E, para além disso, que outras promessas — do país, da história, dos personagens — estão em jogo?”

 Há aqui uma camada histórica importante. O romance começa em 1986, pouco antes do fim do apartheid, e termina já no governo de Jacob Zuma. As promessas da nova África do Sul — a reconciliação, a redistribuição de terras, a justiça — também ficam por cumprir . Pergunta ao grupo: “A promessa da casa à Salomé e a promessa da nova África do Sul são a mesma coisa?”

“O narrador diz-nos, num certo momento, que não ouvimos muito sobre Salomé ‘porque não nos importamos em perguntar’. Como é que este gesto narrativo — o autor a apontar o dedo ao leitor — te afetou? Foi uma acusação?”

“No final do livro, Amor finalmente dá a Salomé a escritura da casa. Mas Salomé já é muito velha. Esta resolução chega tarde demais? É uma reparação genuína ou apenas um gesto simbólico?” 

 Mas… A promessa realmente é o centro do romance?

Ou ela funciona como símbolo?

Questões:

  • O que exatamente impede que a promessa seja cumprida?
  • Falta de dinheiro?
  • Burocracia?
  • Racismo?
  • Covardia?
  • Autoengano?

Talvez todos.

A família Swart

Vale discutir cada integrante.

– Manie

É realmente religioso ou usa a religião para aliviar sua consciência? O patriarca que promete e não cumpre. Como descreveriam a sua relação com a promessa? É má-fé ou simples esquecimento?

– Anton

Talvez o personagem mais frustrado do livro. o filho, outrora cheio de promessas, que se torna um homem deprimido e amargo. Acaba por se suicidar. Como é que a desilusão com a promessa da família se reflete nele?

  • Ele possui consciência moral?
  • Ou apenas consciência da própria mediocridade?

Como interpretar o assassinato que cometeu?

– Astrid

É a personagem mais adaptada ao novo mundo ou a mais superficial? a filha mais velha, obcecada com status e aparências. Morre num assalto. O que a sua morte nos diz sobre a violência na África do Sul pós-apartheid?

A indiferença (Manie), a superficialidade (Astrid)e a autodestruição (Anton).

– Amor

O próprio nome já sugere uma leitura simbólica.

Pergunta interessante:

Por que justamente Amor demora tanto para cumprir aquilo que considera certo?

Ela é uma heroína?

Ou apenas alguém menos hipócrita que os outros?

– Salome

Curiosamente, é uma personagem central que quase não fala.

Perguntas:

Por que Galgut escolhe esse silêncio? Por ela ser uma representação?

Ela simboliza toda uma população invisibilizada?

Vale notar que ela permanece presente enquanto quase todos os demais desaparecem.

A África do Sul

É impossível separar o romance da história sul-africana.

Sem transformar a conversa numa aula de História, vale lembrar rapidamente:

  • apartheid
  • fim do apartheid
  • eleição de Mandela
  • mudanças sociais
  • permanências

Pergunta importante:

A família muda tanto quanto o país?

Ou ambos mudam apenas na aparência?

A estrutura do romance

Talvez seja o aspecto mais inovador. O narrador faz algo incomum. Ele muda constantemente de foco. Entra na mente de personagens secundários. Às vezes conversa diretamente com o leitor.

“O romance está dividido em quatro partes, cada uma dedicada a um funeral — Mãe, Pai, Astrid e, finalmente, Anton. Apenas Amor sobrevive. O que é que esta estrutura de ‘quatro mortes em quatro décadas’ sugere? Porque é que Galgut terá escolhido organizar o livro assim?”

“O narrador — ou a voz narrativa — deste livro é muito peculiar. Galgut usa aquilo a que alguns chamaram ‘uma câmara de cinema’, com perspectivas que se alternam e se sobrepõem, por vezes no meio de uma frase. O narrador dirige-se ao leitor, faz apartes, comenta. O que acharam desta escolha? Funciona? Ou atrapalha?” Ele critica personagens, tira sarro deles. 

Pergunte:

Isso aproximou vocês do romance? Vocês aceitaram a cumplicidade?

Ou dificultou a leitura?

Outra pergunta:

O narrador parece improvisar enquanto conta a história?

  1. O tempo

O romance é dividido por quatro funerais.

Interessante perguntar:

Por que Galgut escolhe mortes como pontos de organização? Aprendemos mais sobre uma família durante um funeral?

Existe alguma cena de felicidade duradoura?

  1. Humor

Embora seja um livro triste, há muito humor. Um humor às vezes cruel.

Pergunte:

Vocês riram? Em quais momentos? Por que rir em um romance tão melancólico?

  1. O título

“A Promessa”. No singular.

Qual promessa?

A da mãe? A da nova África do Sul? A promessa de justiça? A promessa que fazemos a nós mesmos? Todas?

  1. O final

Experimente:

O cumprimento da promessa representa uma vitória ou chega tarde demais? É possível reparar décadas de injustiça com um único gesto?

O romance termina oferecendo esperança? Ou apenas resignação?

Algumas perguntas que costumam render boa conversa

  • Existe algum personagem verdadeiramente bom?
  • Quem desperta mais compaixão?
  • Quem desperta mais irritação?
  • O livro é político ou profundamente humano ou as duas coisas?
  • Vocês enxergam Amor como protagonista ou apenas como fio condutor?
  • O silêncio de Salome é uma escolha literária ou uma denúncia?
  • O que mais permanece na memória: os acontecimentos ou a forma como Galgut escreve?
  1. Encerramento

“No início parece que lemos a história de uma promessa não cumprida. Ao terminar, talvez percebamos que lemos algo maior: um romance sobre tudo aquilo que uma sociedade adia enfrentar — até que o tempo torna qualquer reparação insuficiente.”

“Se vocês tivessem que resumir A Promessa em uma única palavra, qual seria?”

As respostas normalmente convergem para termos como culpa, espera, memória, justiça, tempo, herança ou silêncio.

“Depois de tudo o que falamos, acham que a promessa foi cumprida, no final? E se foi cumprida, que significado tem esse cumprimento — tardio, simbólico e talvez insuficiente?”

“O livro termina com Amor a encontrar, entre os pertences de Anton, um romance inacabado com a nota: ‘Uma saga familiar ou um romance familiar?’ . O que acham que esta pergunta diz sobre o próprio livro que acabámos de ler?”

Na minha opinião, a força de A Promessa não está apenas na história da família Swart, mas na maneira como Galgut transforma um drama íntimo em uma reflexão sobre responsabilidade moral, privilégio, passagem do tempo e a dificuldade — individual e coletiva — de fazer o que sabemos ser justo.

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Por que eu compro livros?

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Pergunte ao Pó, de John Fante

Pergunte ao Pó, de John Fante

Pergunte ao Pó (1939), de John Fante (1909-1983) é excelente, certamente um dos grandes romances estadunidenses do século XX. Tem a energia da juventude, o humor de quem sabe rir de si mesmo e uma melancolia que só se revela plenamente depois da última página. É um livro sobre o fracasso e a esperança, sobre a esperança teimosa de continuar escrevendo, amando e vivendo. Nada da típica ascensão ou queda de um herói. Pergunte ao Pó faz algo mais raro: acompanha um jovem que ainda não sabe quem é, mas que acredita, com uma mistura de arrogância e desespero, que nasceu para ser escritor.

O carcamano Arturo Bandini chega a Los Angeles trazendo quase nada, mora de aluguel num quarto miserável, com poucos dólares no bolso e uma confiança quase insuportável em seu próprio talento. Pobre e faminto, ele escreve, sonha, passa fome comendo apenas laranjas, apaixona-se, mente para si mesmo e tenta desesperadamente um caminho.

A grande invenção Fante está na criação de Bandini. Ele é vaidoso, impulsivo, preconceituoso, ridículo em muitos momentos, mas também vulnerável e profundamente humano. Não pede a simpatia do leitor; conquista-a justamente porque nunca esconde suas contradições e as merdas que diz e faz. Sua voz oscila entre a grandiloquência e o desamparo, entre a ambição desmedida e a consciência de sua própria insignificância.

No centro do romance está a relação entre Bandini e Camilla Lopez, garçonete mexicana de temperamento forte. O amor entre os dois não encontra repouso. É uma dança feita de atração, ressentimento, orgulho e desencontros. Camilla desafia Bandini porque não cabe na fantasia que ele constrói sobre ela. Mas Pergunte ao Pó é também um romance sobre literatura. Bandini acredita que escrever o tornará imortal, que bastará publicar um conto para escapar da pobreza, do anonimato e da mediocridade. Aos poucos, descobre que a literatura não salva ninguém da vida. Escrever não elimina a fome, não cura a solidão nem torna o amor menos difícil. Ainda assim, continua sendo a única forma de dar sentido ao caos.

Fante escreve com uma prosa seca e veloz. Não há ornamentações. Cada frase parece nascer da urgência de quem conhece a precariedade. Sob essa aparente simplicidade esconde-se o orgulho dos derrotados, a dignidade dos esquecidos e a beleza dos pequenos instantes. Não é por acaso que escritores como Charles Bukowski reconheceram em John Fante um mestre. Muito antes da chamada literatura “suja”, Fante já escrevia sobre personagens comuns, derrotados e imperfeitos, mas o fazia com uma ternura que impede qualquer cinismo. Seus fracassados continuam sonhando.

Ao terminar Pergunte ao Pó, compreendemos que Arturo Bandini talvez nunca alcance a grandeza que imagina merecer. Mas também percebemos que sua obstinação em escrever, possui algo de profundamente comovente. É a história de alguém que insiste em transformar a vida em literatura, mesmo quando a vida parece responder apenas com pó.

A poeira do título? Não sei. Ele aparece nas ruas, no peitoril das janelas, no deserto que cerca a cidade. John Fante nos lembra que, se um dia quisermos saber quem fomos, talvez seja preciso perguntar ao pó.

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Obs. final: faltou dizer que Fante criou vários livros tendo Arturo Bandini como personagem principal. A coisa é bem bagunçada, pois alguns narram a vida pregressa de Bandini e outros o que virá depois e não foram publicados em ordem. Pergunte ao Pó é o mais famoso deles:

— O Caminho de Los Angeles (The Road to Los Angeles, escrito em 1936, mas publicado postumamente em 1985)
— Espere a Primavera, Bandini (Wait Until Spring, Bandini, publicado em 1938)
— Pergunte ao Pó (Ask the Dust, publicado em 1939)
— Sonhos de Bunker Hill (Dreams from Bunker Hill, publicado em 1982)

John Fante

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De uma entrevista do romancista húngaro László Krasznahorkai

(…) Nunca saberemos quantos dos livros que hoje vou autografar serão efectivamente lidos além da página em que fica a dedicatória. Alguém chegará ao fim desses livros? A literatura sofreu uma transformação enorme.

Tenho a impressão de que a literatura contemporânea esqueceu praticamente tudo o que aconteceu durante o século XX. Desde Marcel Proust até James Joyce, Samuel Beckett, Thomas Bernhard​ ou Fernando Pessoa a literatura percorreu um caminho extraordinário. No entanto, hoje parece ter regressado à linguagem e às estruturas narrativas do século XIX: quanto mais acessível e fácil de consumir for um livro, maior é o seu sucesso.

No início isso surpreendia-me. Depois percebi a razão: esses livros podem ser lidos sem grande esforço e praticamente sem bagagem cultural. A literatura mais exigente requer prática de leitura e formação cultural. Hoje a formação mudou profundamente. O conhecimento dos clássicos e das humanidades perdeu espaço. No seu lugar surgiu outra aptidão: conseguir obter depressa a maior quantidade possível de informação sobre qualquer assunto. As questões de que a literatura sempre tratou passaram para segundo plano.

É com enorme tristeza que digo que pertenço à geração dos escritores que se está a despedir de uma determinada ideia de literatura, da sua forma de criação, da sua influência na sociedade e do percurso em que um livro saía das mãos do escritor, chegava ao leitor e acabava por exercer algum efeito duradouro sobre a vida humana. Creio que esse ciclo chegou ao fim. (…)

László Krasznahorkai em entrevista a Isabel Lucas, no Ípsilon (publico.pt)

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Os 50 maiores livros (uma antologia pessoal): XXXIV — Ao Farol (ou Passeio ao Farol), de Virginia Woolf

Os 50 maiores livros (uma antologia pessoal): XXXIV — Ao Farol (ou Passeio ao Farol), de Virginia Woolf

Em diferentes fases da vida, eu li três vezes este livro. E sempre o li como se comesse chocolate, sempre com a intenção de me deliciar mais um pouquinho. Isso não acontece devido a alguma reviravolta na trama, nem a réplicas espirituosas, nem a envolvimentos românticos. Na verdade, Virginia Woolf frequentemente ignora a trama em favor do exame das minúcias, colocando sob seu microscópio as emoções humanas ou, como na seção central deste livro, a maneira como uma casa se decompõe, como se a casa fosse humana. Eu sou um sujeito, acho, que exijo consistência e profundidade naquilo que leio, mas com VW esqueço de tudo. Está frio em Porto Alegre e fiquei mais do que contente em afundar de novo no banho quente deste livro e isso, creio, foi devido aos personagens.

A história acompanha a família Ramsay e suas visitas à Ilha de Skye, na Escócia, de 1910 a 1920. Lá, há enormes ondas, há um céu sempre mudando de humor e, claro, há o brilho do farol. Quando você entra no fluxo da prosa, é difícil escapar. O estilo de escrita de Woolf é propositalmente inovador. Ela cria frases gigantescas seguidas por linhas abruptas e mais curtas. É quase um poema disfarçado de romance. Normalmente não sou fã de poesia. Sempre preferi uma experiência de leitura mais tangível, uma que não seja movida por imagens.

A proximidade com os personagens, a compreensão que VW tem deles é o que os tornou tão envolventes. Eles não são extraordinários — na verdade, até pelo contrário. São tipos intelectuais de classe média, do tipo que você encontra em muitos livros. Pode-se até dizer que eles não oferecem nada de novo, nada para surpreender ou excitar um leitor. No entanto, para mim, a familiaridade com eles era uma prova da habilidade com que foram descritos – porque todo mundo conhece alguém como eles. Virginia Woolf, em algumas centenas de páginas, pareceu capturar exatamente a essência de certas pessoas — certos traços, peculiaridades e maneirismos que posso reconhecer da minha vida, do meu mundo, apesar de estar a cem anos de distância.

Se a Sra. Ramsay é a baseada na figura da mãe de VW, o que dizer de Lily Briscoe? Sua posição fora da família Ramsay torna sua perspectiva uma das mais interessantes e importantes do romance. Sempre senti uma conexão emocional com Lily enquanto ela anseia pelo apoio e amor dos outros. Ela vê a família Ramsay como um símbolo idealizado de amor e união perfeita; no entanto, as outras perspectivas revelam uma realidade muito diferente. Lily é uma constante em todo o romance, assim como o próprio farol. Mesmo quando o tempo passa e certos personagens vêm e vão, Lily está sempre lá com sua pintura, otimismo e introspecção fascinante. Ela é feminina e independente, uma figura contrastante com a Sra. Ramsay. Ou melhor, a feminilidade convencional, representada pela Sra. Ramsay na forma de casamento e família, confunde Lily, e ela, bem, ela talvez seja VW x sua mãe.

Ah, o farol. É o fio condutor que atravessa todo o romance, aquele destino tão desejado pelos filhos da Sra. Ramsay e tão persistentemente evitado pelo Sr. Ramsay. A ênfase contínua em visitar o farol… Ele parece representar uma espécie de objetivo final inatingível. Quando James finalmente chega ao farol depois de anos querendo visitá-lo, ele percebe que ele não se compara ao farol que ele imaginou quando criança. É interessante ver o relacionamento de todos com o farol conforme o romance avança, especialmente na sua seção final.

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Compre o livro na Livraria Bamboletras, na Av. Venâncio Aires, 113. Ah, não mora em Porto Alegre? Use o WhatsApp 51 99255 6885. A gente manda!

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Os 50 maiores livros (uma antologia pessoal): XXXIII — Jane Eyre, de Charlotte Brontë

Os 50 maiores livros (uma antologia pessoal): XXXIII — Jane Eyre, de Charlotte Brontë

Eu li todo Jane Eyre (1847) para minha mulher. Fiquei com um carinho todo especial pelo livro. É um daqueles romances que sobrevivem porque, além de ser uma história apaixonante, é uma conjetura — avaliei muito este termo — sobre a liberdade das mulheres. Jane Eyre é o romance de uma mulher que não quis abrir mão de si mesma. Mesmo pobre, primeiro negou-se a ficar com um homem casado, depois recusou o casamento com um sujeito bem estranho, na verdade um gay que desejava um casamento de conveniência, ao menos eu interpretei assim. Aliás, o hétero e o gay eram ambos bem estranhos.

Vale lembrar que Charlotte Brontë seria um caso atípico em qualquer época. Ela era uma escritora de inteligência e alta percepção estilística. Mas também era uma figura excêntrica: era antiquada — com suas apropriações do terror gótico e seu protagonista byroniano-assustador-sedutor –, porém era excepcionalmente progressista em sua representação da situação das governantas e em sua insistência de que o trabalho de mulheres tinha valor. Era também uma forasteira isolada dos principais circuitos literários ingleses, longe da grande metrópole onde gente como Thackeray e Dickens pontificavam. Ela achava Londres um lugar de perigos e vícios inimagináveis. Quando uma amiga visitou a cidade em 1834, Charlotte chegou a escrever uma carta para ela depois, expressando seu espanto por ela ter retornado “inalterada”.

É reveladora é a relação de Brontë com Thackeray. Ela era perspicaz o suficiente para compreender seu gênio, chegando a dedicar-lhe a segunda edição de Jane Eyre devido à sua profunda admiração por A Feira das Vaidades. Felizmente, ela também era distante o suficiente das fofocas literárias para não saber que Thackeray havia escondido sua esposa em um hospício (o fato de um personagem de Jane Eyre ter feito quase o mesmo foi pura coincidência). Seus encontros também foram marcados por confusão: diz-se que Charlotte ficou inicialmente estupefata ao conhecer seu ídolo — e confusa quando ele começou a falar sobre o aroma de charutos, sem perceber que ele estava fazendo uma referência lisonjeira à cena de um capítulo de Jane Eyre em que o cheiro do charuto do Sr. Rochester deixa Jane encantada. Charlotte pareceu não entender…

Mal-entendidos semelhantes ocorreram quando ele organizou uma festa em homenagem a Brontë, em 1849. O problema desta vez foi que ela se recusou a reconhecer que era Currer Bell (o pseudônimo que usara na publicação inicial de Jane Eyre) e só dava respostas curtas e ríspidas. Thackeray ficou puto e acabou saindo de sua própria festa para ir ao clube. Very english.

Quando Jane Eyre foi publicado, sob o pseudônimo masculino de Currer Bell, muitos leitores ficaram impressionados com a intensidade daquela voz narrativa em primeira pessoa. Havia ali uma mulher pobre, órfã e considerada feia que ousava afirmar, com absoluta convicção, sua igualdade diante dos homens. Entre os muitos talentos de Brontë, está a capacidade de nos fazer sentir como se estivéssemos vendo o mundo exatamente como sua narradora o vê. Há a maneira acolhedora como ela nos envolve na história com esse discurso direto a “você”, ao “leitor”, a quem ela convida constantemente a ver o que ela vê. Imaginamos “a luz de uma lamparina a óleo pendurada no teto”, esforçando-nos para ver exatamente a mesma cena sob a mesma luz bruxuleante que Jane. Mas não é apenas o que Jane vê que importa: Brontë também nos leva para o fundo de sua mente e, aparentemente, de sua alma. Mesmo quando ela diz: “Caro leitor, talvez você nunca sinta o que eu senti!”.

Às vezes, Jane Eyre parece um romance gótico. Há a infância quase sob tortura, a mansão isolada, o patrão enigmático, os corredores escuros, os segredos do andar de cima e uma atmosfera de permanente expectativa. Mas Charlotte Brontë utiliza todos esses elementos apenas como cenário. O verdadeiro mistério do romance é o de como preservar a própria dignidade num mundo que tenta, a todo momento, dizer como você deve agir e pensar.

Para mim, a melhor parte da história é o começo, quando Jane está na Escola Lowood, definindo-se como pessoa. O livro poderia ter terminado ali, mas então Jane foi morar com o estranho Rochester a fim de ensinar sua filha. Jane atravessa a infância de forma bem dickensiana, marcada pela humilhação e a severidade da escola. Depois vem o amor por Rochester e as imposições de St. John Rivers. Em cada etapa, ela poderia escolher um caminho mais fácil: submeter-se, aceitando a dependência e os “deveres”. Ela se recusa, mas não é uma rebelde, é apenas íntegra. Jane ama profundamente, porém nunca aceita que o amor custe sua liberdade.

É justamente essa tensão que faz de Rochester e St. John figuras complementares. Rochester representa a paixão hétero que ignora os limites da moral. St. John representa a moral torta que sufoca qualquer possibilidade de paixão. Jane rejeita ambos. Ela busca uma vida em que amor, respeito e autonomia possam coexistir.

Mas Jane Eyre também é um extraordinário romance psicológico. Charlotte Brontë escreve como se acompanhasse o movimento mais íntimo da consciência. Muito antes de Virginia Woolf, ela compreendia que os acontecimentos decisivos da vida não ocorrem apenas no mundo exterior, mas na lenta transformação interior das pessoas. Ao mesmo tempo, o livro é um retrato mordaz da sociedade inglesa vitoriana. A condição feminina, as diferenças de classe, a educação, a religião e a hipocrisia moral aparecem constantemente, mas nunca transformam o romance em panfleto. Charlotte Brontë discute essas questões através de personagens vivos e contraditórios.

E há as perguntas, inúmeras, que nos fazemos durante a leitura. O ponto mais óbvio é a religião. É difícil para nós avaliarmos a sinceridade de Jane em relação à sua fé cristã, particularmente sua atitude em relação ao zelo missionário de seu primo St. John. Será que ainda existe nela a orgulhosa “pagã” e rebelde que ela declara ser nas primeiras páginas? Ela diz uma coisa e quer dizer outra quando professa seu desejo de se submeter aos ideais cristãos? Seu amor inabalável por Rochester é algo que ela mantém apesar (e em oposição) aos ensinamentos da Igreja sobre o casamento — ou existe um conjunto mais complexo de conflitos internos em jogo? O mesquinho e religioso St. John expressa a verdade profunda sobre os homens de fé? Ou ele é simplesmente uma maçã podre? É possível para nós, que tivemos a sorte de crescer em uma sociedade predominantemente secular, sentir a profunda fé que influencia Jane?

Talvez seja essa a razão da permanência do livro. Poucos romances conseguem unir, com tamanha naturalidade, suspense, paixão, crítica social e reflexão moral. Quase dois séculos depois, Jane segue falando a nós porque a busca de uma vida em que seja possível amar sem deixar de ser quem se é universal.

Há um aspecto que me emocionou especialmente nesse romance. Diferentemente de tantas heroínas do século XIX, Jane não vence porque é bela, rica ou socialmente privilegiada. Ela vence porque possui algo muito mais raro: uma consciência independente. Charlotte Brontë parece nos dizer que a verdadeira nobreza não vem do nascimento nem da fortuna, mas da capacidade de permanecer fiel a si mesmo mesmo quando isso exige renúncia. Talvez seja essa a razão de Jane Eyre continuar tão moderno.

Charlotte com filtro, certamente

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