Um cão no meio do caminho, de Isabela Figueiredo

Um cão no meio do caminho, de Isabela Figueiredo

Bem, então, o estar à parte interessa-me do ponto de vista humano. E se me interessa do ponto de vista humano, interessa-me do ponto de vista literário. 

Isabela Figueiredo, em entrevista para a Bertrand Livreiros

Humano, demasiado humano. O título de Um cão no meio do caminho poderia ser o mesmo da obra de aforismos de Nietzsche. Entre o melancólico e o bem-humorado, a portuguesa Isabela Figueiredo arrasa neste romance. Li os dois primeiros livros de Isabela e neles ficava clara a estupenda narradora. Mas Caderno de Memórias Coloniais era autobiográfico e o mesmo parecia acontecer com A Gorda. Este Um Cão seria seu primeiro livro com história original e acabou que o li com ainda maior prazer.

Ela conta a história de José Viriato, um solitário catador de lixo que quase só sai de casa à noite. Um dia ele conversa com Beatriz, conhecida no bairro como a Matadora, mas que na verdade é um pessoa bastante reservada, uma acumuladora que mantém tudo o que é seu em caixas e vive apertada num canto de seu apartamento. Ela fica doente, ele a trata, tornam-se amigos e muitos dos seus traumas vão lenta e delicadamente surgindo sob o olhar inteligente de Isabela. São dois personagens invisíveis, mais por terem desistido do que por vulnerabilidade social. (Vulnerabilidade no Brasil não é mesmo que em Portugal). E não, não é uma história de amor.

Fiquei muito surpreso com a crítica hostil que apareceu na Folha de São Paulo. Ainda bem que não acreditei nela. Ela dizia que o livro é sobre a amizade e reclamava que Isabela não dá espaço ao leitor para pensar. Não entendo, pois (1) é muito mais do que uma história sobre amizade: o livro é tanto sobre este tema quanto sobre solidão e traumas e (2) encontrei bons espaços para reflexão. Se Viriato é falador, a história de Beatriz é apenas espreitada. Muito de si é deixado a cargo de nossa imaginação, assim como na relação entre os pais de Viriato.

Não há nada de pieguice no dolorido livro de Isabela. Um cão é compassivo e duro, franco e abrasivo, e alguns dos mais exigentes leitores da Livraria Bamboletras, retornaram perguntando se temos outro no mesmo estilo.

Isabela Figueiredo

 

Mariana Enriquez

Mariana Enriquez

Eu adoro a escritora argentina Mariana Enriquez. Mas custei a entrar em sincronia com seu livro Nossa Parte de Noite.

Sou um sujeito que não consegue levar a sério o sobrenatural, seja ele em filmes, em livros ou nas formas mais comuns do catolicismo, islamismo, neopentecostalismo, etc. Falou em magia, milagre, vida depois da morte ou em entidades, deu pra mim.

Então, me raciocinei todo e passei a encarar aquilo que de inexplicável acontecia como um elemento do terror muito próprio da autora. Isto é, relaxei e a coisa começou a funcionar.

Acho que nunca esquecerei os últimos capítulos que li do livro — não cheguei à metade de suas 541 páginas. São maravilhosos.

 

Fuga da Sibéria, de Leon Trótski

Fuga da Sibéria, de Leon Trótski

Não, nada de Revolução, propaganda ou discursos políticos. Mas quem já leu Trótski pode facilmente intuir o grande narrador (e leitor) que há por trás do revolucionário. Por trás? Não, aqui, o narrador está no centro do palco. Traduzido pela primeira vez no Brasil e escrito pelo próprio protagonista da aventura, Fuga da Sibéria narra a fuga em um trenó de renas por mais de 800 Km na Sibéria. Ele leva mais de um mês indo de trem em trem, sempre altamente vigiado, junto de outros políticos presos, inventa uma doença para não chegar ao destino e foge com a ajuda de um siberiano totalmente bêbado…

Como participante da Revolução de 1905, sufocado pelo poder czarista, Trotsky, de 27 anos, foi julgado e deportado perpetuamente para a Sibéria. O destino final está localizado acima do Círculo Polar Ártico, a 1.600 km da estação ferroviária mais próxima. Num dos postos da viagem, o prisioneiro inicia a sua fuga pela estepe siberiana, um território selvagem e extremo, com temperaturas inferiores a -25 ºC e populações com costumes, alcoolismo, pobreza e solidariedade desconhecidas.

Este é o relato em primeira pessoa daqueles dias exaustivos de perseguição. Temendo a cada momento sua captura e confiando sua vida e liberdade ao imprevisível cocheiro Nikífor, Trótsky torna-se, talvez contra sua vontade, um viajante preocupado. Ele viaja pela tundra, fica fascinado pelas renas, passa as noites perto do fogo como qualquer outro nômade siberiano, tenta colocar Nikífor na linha, traça estratégias para evitar ser reconhecido, faz anotações e sempre tem o revólver em mãos como último recurso. Este diário de viagem, escrito enquanto ocorria nas paradas para descanso e alimentação, agitado pelo suspense e pela expectativa, é muito bom, parece um filme de ação. com algum humor. Curiosa e felizmente, Fuga da Sibéria mostra-nos como pensava o jovem Trotsky, um narrador literário na sua forma mais pura.

Um dos apelidos de Trótski era “caneta”. Estava sempre com uma na mão.

Macha, de Claudia Tajes

Macha, de Claudia Tajes

Claudia Tajes é uma escritora que sabe fazer rir como poucos. Neste Macha, o humor é em parte substituído pela leveza ao tocar em temas não tão fáceis. Li este livro em voz alta durante 4 noites para minha mulher. No início nós ríamos muito, depois a coisa ficou mais séria e as risadas foram substituídas por sorrisos.

Em capítulos curtos, Tajes vai acrescentando dados sobre o caos que se instala na vida de Celina. Esta é uma bancária de 48 anos que, numa manhã, após sonhos intranquilos, acorda inadvertidamente metamorfoseada em uma estranha criatura que faz xixi em pé e coça as partes íntimas em público. Ou seja, acorda com um pênis, com mais barriga e menos bunda, com mais pelos e mais peso. Quando acorda e vai ao quarto do filho pegar uma camiseta maior, acaba agredida, pois o filho acha que um ladrão entrara em casa. OK, sem spoilers. E não preciso falar no óbvio parentesco da história com Kafka.

Celina é separada de Roney, um sujeito escroto que fica abismado e profere todo gênero de preconceitos frente a transformação da ex. O emprego é outro problema, a forma de vestir é mais um — o fio de consequências parece não ter fim. E os amigos? Tajes trata o tema de forma leve e coloca Celina — que a esta altura talvez já queira ser Afonso (nome do pai de Celina) ou sabe-se lá quem — em várias situações que nos faz pensar nos problemas de adequação de gays e de transsexuais a um mundo machista e dominado pelas Leis de Damares do binarismo rosa e azul. É realmente um atrevimento mudar de sexo ou expressar-se através das roupas… E como demonstrar seu carinho para o filho todo desconfiado?

Li o livrinho de Tajes porque um muito qualificado grupo de leituras escolheu-o para iniciar seus trabalhos em março de 2024. Entendo perfeitamente o motivo. São poucas páginas e muito pano pra manga.

Claudia Tajes | Foto: FSP

Pessoas decentes, de Leonardo Padura

Pessoas decentes, de Leonardo Padura

Este é o melhor dos romances do detetive Mario Conde. Dizer isto não é dizer pouca coisa. Em mais esta novela policial, Padura trata do assassinato de um ex-ministro cubano num momento de grande efervescência em Cuba, com a visita de Barack Obama e dos Rolling Stones. O assassinado é Reynaldo Quevedo, uma pessoa absolutamente asquerosa. Muita gente gostaria de ter a honra de por fim a seus dias, pois era o Jdanov cubano, o homem que perseguia os artistas a fim de colocá-los na linha, o cara que acabou com a carreira de vários deles e que também não facilitava a vida de gays e lésbicas. Porém, apesar de estar quase feliz com a morte do sujeito, cabe a um Mario Conde já aposentado dar uma mão a seus ex-colegas policiais. Afinal, eles estavam atarefados com Obama e os Stones. Para quem não sabe, Conde é uma espécie de alter ego dos desencantados cubanos, um cético que perdeu toda a esperança. Já o morto é um filho da puta sob todos os aspectos e, através da busca de seu assassino, é revisto todo um processo histórico obscuro da revolução.

Mas há outra história e outro crime. Como muitos de vocês sabem, Padura gosta de contar duas histórias em capítulos alternados. Vamos a elas, sem spoilers.

Havana, 1910. Naquele tempo, Havana era chamada a Nice da América. Significava dizer uma cidade de festa, alegria, álcool e prazeres. Lá vivia o cafetão mais famoso e querido de Havana, Alberto Yarini y Ponce de León, grande amigo do detetive Arturo Saborit. Havia uma bonita história de amizade e fidelidade entre ambos, entre o “cafetão bom”, que tinha aspirações mais elevadas do que administrar jogos de azar e suas prostitutas, e o policial. Um caso de assassinato de duas mulheres em Havana Velha expõe a luta entre Yarini, refinado e de boa família, e seu rival Lotot, um francês, que contesta sua posição de proeminência. O desenvolvimento destes acontecimentos terá uma ligação com a história do presente de uma forma que nem o próprio Mário Conde suspeita. Ah, importante: Alberto Yarini foi um personagem real, ele existiu.

Havana, 2016. Um acontecimento histórico abala Cuba: a visita de Barack Obama no que foi chamado de “Degelo Cubano” – a primeira visita oficial de um presidente dos EUA desde 1928 –, acompanhada de eventos como um show dos Rolling Stones e de desfile da Chanel, vira o ritmo pachorrento da ilha de cabeça para baixo. Assim, quando um ex-líder do Governo cubano é encontrado assassinado no seu apartamento, a polícia, ocupada com a visita presidencial, recorre a Mario Conde para auxiliar na investigação. Como já disse, o morto tinha muitos inimigos, pois no passado atuara como censor para que os artistas não se desviassem dos slogans da Revolução. Fora um homem despótico e cruel que encerrara a carreira de muitos artistas que não queriam ceder a seus pedidos e extorsões. Quando aparece um segundo corpo assassinado com o mesmo método poucos dias depois, Conde deve descobrir se as duas mortes estão relacionadas e o que está por trás desses assassinatos.

Como sempre, Padura remonta acontecimentos históricos e políticos. No caso de 2016, revemos a arte dos contrarrevolucionários e os excessos do processo de Inquisição. A conjuntura é o assassinato de um daqueles inquisidores que, como sempre, se beneficiou de abusos de poder.  O cenário das duas histórias é bastante peculiar e funcional à narrativa, com muito cubanismo e bom humor. Porém, em ambas as ficções prevalece um tom melancólico — o entusiasmo dos amigos de Conde pelas degelo que vivem não o atinge e, a certa altura, falando sobre essas mudanças, conta ao amigo e irmão de vida, o magrelo Carlos: “Claro que é necessário, muito necessário. Deixe que as coisas aconteçam… Mas não creio que aconteça nada além do que está acontecendo. E a qualquer momento tudo volta e a gente se ferra”. Sim, foi o que aconteceu. Houve um grande revés nos anos seguintes, em grande parte graças às decisões teimosas de Donald Trump.

A estratégia narrativa de alternar as duas histórias funciona muito bem, os diálogos são trabalhados detalhadamente, as cotas humorísticas são entregues fundamentalmente nessas conversas dos personagens. Havana é a protagonista do romance, o ambiente que existia em Cuba em 2016 é transmitido com grande precisão e há uma elaborada reconstrução daquela cidade em 1910.

Será que eu deveria manter a primeira frase desta resenha? Padura tem 14 romances, 10 com Mario Conde. Talvez eu não devesse me atrever a fazer uma avaliação de todas as obras do grande escritor cubano, mas afirmo com segurança que Pessoas Decentes está entre as melhores. Não tem como não estar.

Recomendo muito.

Eu e Padura | Foto: Roberta Fofonka

Ao Sul da Fronteira, de Rogério Brasil Ferrari

Ao Sul da Fronteira, de Rogério Brasil Ferrari

Alguns de vocês sabem que eu sou um livreiro que lê e escreve bastante. Alguns sabem que eu, hoje um jornalista cultural em estado de latência, faço minhas resenhazinhas. Deste modo, por ser isto ou aquilo, às vezes recebo livros autografados de presente. Infelizmente, apesar da vontade, não leio todos, pois não faria mais nada além disso. Porém, muitas vezes leio e, se é o caso, trato de elogiá-los aqui. É o caso.

Ao Sul da Fronteira, do gaúcho Rogério Brasil Ferrari, é um livro que envereda por diversos caminhos sem se perder em nenhum deles. No início, parece o retrato de um casal porto-alegrense cujo casamento matou o sexo — cuidem-se meninos! — e onde a mulher vai procurar diversões sensuais em outras plagas. Parece que tudo se dirige a uma história erótica como tantas. Mesmo com a diferença entre o que foi procurado na internet e o que acabou encontrando, Helena vai à Montevidéu para um encontro. Estava precisando. Afinal, diversão era tudo o que faltava em casa.

Quando chega ao país vizinho, ela encontra o que busca e muito mais. Encontra sexo, álcool, aventura e alguém com uma história incompleta devido a fatos ligados à Operação Condor, alguém que insiste em incomodar quem não quer remexer no passado. E, bem, então teremos um thriler erótico? Não, ainda não expus todos os elementos. Há uma pesada questão familiar ocorrendo com a pessoa de Montevidéu, muito mais pesada do que as bebedeiras do marido de Helena que, obviamente, descobriu-se apaixonado pela esposa assim que ela cruzou o Chuí.

Rogério Ferrari mistura tudo isso num livro de grande competência. Nada de discursos inflamados ou palavras de ordem, nada de espasmos, a tragédia e a tristeza de nosso continente vem chegando como uma secreção que embebe tudo lentamente e que por fim sufoca. É daqueles livros que o leitor primeiramente estranha a forma do texto — com uma estranha notação para as falas e outras originalidades — e depois não desgruda mais.

Como nova intervenção gonzo, digo que, no primeiro dia contei para minha mulher o que tinha lido. Estava, claro, no começo do livro, quando ele dá sua primeira virada. Na noite seguinte, ela me pediu a continuação e assim fomos até o final. Ela conheceu todos os personagens principais e a história sem ler o livro. O que prova isto? Prova que a história é boa, pois minha Elena não é trouxa como o marido daquela Helena.

Recomendo. O livro está esperando por você aqui na Bamboletras.

Rogério Brasil Ferrari

Os perigos de fumar na cama, de Mariana Enriquez

Os perigos de fumar na cama, de Mariana Enriquez

Os perigos de fumar na cama (2009) é o primeiro livro de contos publicado na Argentina por Mariana Enriquez. Conheci esta notável escritora através de outro livro de contos As coisas que perdemos no fogo, de 2016. No Brasil, As coisas foi um livro que sumiu, graças à editora Intrínseca. A não reimpressão do livro tornou-o uma raridade que hoje custa de mais de R$ 200 na Estande Virtual. Pelo mesmo caminho irá seu extraordinário romance Nossa Parte de Noite, que está desaparecendo. Ao que tudo indica, o mesmo acontecerá com Os Perigos… No meio do ano, ele desaparecerá e não haverá Madre de la Plaza de Mayo que o fará reaparecer. Tudo obra da mesma editora, que não costuma manter seus livros em catálogo por muito tempo e que parece desconhecer que a “curva de vendas” de um livro de qualidade é muito diferente de outros.

Enriquez tem interessantes pontos de contato com a literatura popular. Ela é uma escritora que admira profundamente Stephen King, Lovecraft e os mestres do suspense e terror. É uma especialista no gênero. Escreve com beleza e conhece a arte de criar climas como poucos. Nada de descrições de grandes horrores, apenas a classe em montar habilmente situações que façam nossa imaginação trabalhar. E é dentro de nós que surgem os monstros. Guardadas as proporções, assim como os europeus reivindicaram Hitchcock como grande cinema quando ele era considerado um diretor eficiente em filmes de gênero, reivindico Enriquez para a grande literatura. E não estou nem um pouco sozinho nisso. Leiam o que escreveu o jornalista Guilherme Conte sobre seu romance Nossa Parte de Noite:

Nada te prepara direito para a jornada que é abrir Nossa parte de noite, estupendo romance da escritora argentina Mariana Enriquez. Você pode achar que está simplesmente lendo um livro, mas a verdade é que a história nos traz para outra dimensão ao longo de suas quase seiscentas páginas, e quando nos damos conta a vida lá fora parece algo desimportante, secundário, distante. A terrível ditadura argentina se entrelaça a monstros, sacrifícios humanos, magia, sadismo e violência, em uma história que se desenrola por três décadas. Uma saga que nos leva aos subterrâneos mais profundos e escuros do medo, que, afinal, é sempre tão grande quanto a nossa imaginação. Ninguém escreve como Mariana, e esse livro é um retrato perfeito disso.

Bem, e o que faz os argentinos escreverem tão bem? Deixemos esta questão de lado para falar um pouco do livro.

O terror de Mariana não envolve seres monstruosos e ela raramente faz uso do sobrenatural. Seu terror nasce e se insere no cotidiano. Uma viagem em família ou com os amigos pode acabar em pura angústia e medo. Uma visita à tia também. Tudo nasce da interação entre as pessoas — inveja, rancor e ódio — ou de fatos como a loucura e a esquizofrenia. É um “terror cotidiano” que invade vidas, mas Mariana não esquece que este também pode ser causado por governos e outras doenças. Sim, em suas histórias há um poderoso subtexto social, relacionando poder, loucura e ocultismo.

Dos 12 contos do livro, creio que Carne, Rambla Triste, O Carrinho, A Virgem da Pedreira e Garotos Perdidos vão custar a sair de minha combalida memória. Seus personagens não são pessoas ricas presas em seus labirintos, há muita pobreza a forçar os limites e também a atraente beleza física, a beleza da experiência e da pureza das pessoas. Mariana trabalha com mestria temas como os maus sentimentos, a tristeza e a loucura. Preparem-se.

Recomendo a todos os mentalmente fortes!

Sátántangó, de László Krasznahorkai

Sátántangó, de László Krasznahorkai

Dizer que este livro é inquietante é uma grande delicadeza. Obviamente brilhante, este livro conta uma história muito triste, às vezes monstruosa. Como disse um crítico húngaro, “a grandeza do livro é palpável, mas as pessoas parecem não saber o que fazer com ela”. Eu não soube. O livro, que é de 1985, recebeu o Man Booker International quando foi traduzido para o inglês em 2015. É um clássico moderno cuja versão para o cinema, dirigida pelo excelente Béla Tarr, tem 7h30 de duração. Mas o livro não é longo, tem 227 páginas. É que o diretor quis que o filme tivesse a mesma duração de uma leitura do livro. Olha, acho que levei mais de 7h, apesar da ótima tradução, direto do húngaro, feita por Paulo Schiller

São 12 capítulos, ou danças, numeradas de 1 a 6 e de 6 até 1. O climax do livro está nos capítulos de número 6. Cada um deles tem apenas um enorme parágrafo que é formado por longas e belas frases. Krasznahorkai disse ironicamente o seguinte quando questionado sobre suas frases: “Todo mundo sabe que o ponto não pertence aos seres humanos, o ponto pertence aos deuses. Os deuses ficarão com o último ponto.” Talvez Sátántangó trate das reações das pessoas às promessas de esperança e salvação: “Não estou interessado em acreditar em algo, mas em compreender as pessoas que acreditam.” Hum, é um caminho.

Como disse, o livro é não é longo, em muitos momentos é chega a ser estimulante, mas que projeta não permite que se ria dele, como fazemos com Kafka ou Bernhard (ao menos eu rio algumas vezes com estes autores). É que aqui são criadas alegorias que logo depois são destruídas. Pobres de nós.

Lama, lama, muita chuva e lama. E pobreza. Na primeira metade, a ação centra-se no retorno de Irimiás, um homem que pode ser ou não ser um profeta, ou é o diabo, ou apenas um vigarista, a uma aldeia húngara apodrecida e encharcada. A aldeia parece ser um assentamento abandonado, onde toda a esperança foi perdida e todos os prédios estão caindo. É habitado por um elenco de camponeses desesperados tentando enganar uns aos outros com seu pouco dinheiro, enquanto cobiçam a esposa ou o marido do próximo, além de um médico minuciosa e perpetuamente bêbado que observa obsessivamente os vizinhos, também há mulheres tentando vender-se, uma menina deficiente que tenta matar seu gato e um adolescente malandro. No final do primeiro capítulo, eles descobrem que Irimiás, que pensavam que estava morto, está a caminho da propriedade, com seu amigo Petrina. Os moradores locais se reúnem no bar e caído e sujo para esperá-lo, onde bebem, discutem, brigam e dançam grotescamente ao som de um acordeão, enquanto se provocam sexualmente, por assim dizer. Quando chega, Irimiás parece um chefe de marionetes.

Irimiás e Petrina chegam e depois não conto mais. Pode-se falar no fim da era soviética, mas, por favor, é muito mais do isso. Na verdade, a única alegoria que permanece é a da falta de sentido da vida e da impossível salvação. Tudo muito Beckett e Kafka, com temperos de Bernhard. Tudo parece extremamente verossímil e a reação do leitor só pode ser a de horror a um mundo sem sentido. Krasznahorkai deleita-se com descrições pouco ortodoxas; nenhum objeto é insignificante demais para seu olhar preocupado. Isso causa estranheza porque se alguém descreve um punhal ele acabará sendo usado. Aqui não… Sim, há um cuidadoso e elegante trabalho de linguagem em Sátántangó.

No entanto, como disse, é um romance obviamente brilhante. Krasznahorkai nos convence de tudo. Até mesmo os desenvolvimentos mais estranhos da história dão-nos a impressão de realidade e são lindamente integrados na estrutura do romance, semelhante a uma suíte de danças. A epígrafe, retirada de O Castelo, de Kafka, diz muito: “Nesse caso eu o evito esperando por ele”.  Aliás, o Satantango é repleto de imagens religiosas ao estilo Tarkóvski e de sugestões de revelação, desde os sinos de Futaki no primeiro capítulo — que talvez signifiquem a “ressurreição” de Irimiás, que nunca foi batizado. “A imaginação nunca para de funcionar, mas não estamos nem um pouco mais próximos da verdade”, comenta Irimias. E depois: “É uma batalha, Petrina. E nós sempre nos afundamos. Quando achamos que estamos nos libertando, apenas ajeitamos os cadeados. Está tudo arranjado”.

As ambiguidades do livro tornam quase impossível qualquer leitura concreta de Sátántangó. Somos colocados no mesmo confuso estado de espírito dos personagens, aquele que faz a gente perder a coisa ao esperar por ela.

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P.S. — Acabo de ver uma entrevista de Krasznahorkai no YouTube. De fala mansa, é um sujeito simpático que fala ao mesmo tempo que sorri, não é nada apocalíptico, e diz que não desejava ser escritor.

László Krasznahorkai (1954). Fonte: YouTube

Meu nome é vermelho, de Orhan Pamuk

Meu nome é vermelho, de Orhan Pamuk

Vamos evitar os spoilers, apesar de que aqui será complicado fazê-lo.

O excelente Meu nome é Vermelho, do turco Orhan Pamuk, investiga dois assassinatos brutais e oferece uma linda e provocativa exploração da natureza da arte em uma sociedade islâmica. Mas a forma com que o romance é escrito também impressiona. Afinal, não é todo dia que se lê um livro com 20 narradores, alguns mais predominantes que outros. Dentre eles há um cachorro, uma árvore, a cor vermelha e um cavalo, bem como a Morte, Satanás e um cadáver. Todos fazem importantes contribuições para a narrativa, mas no centro do palco estão Negro, Ester — a casamenteira judia –, o próprio Assassino, vários miniaturistas e Shekure, o grande amor de Negro. Apesar do alto número de narradores, a leitura é fácil e a gente jamais se confunde sobre quem fala, porque cada capítulo é narrado por apenas um deles e seu nome está sempre no título do mesmo, enorme, pra ninguém se enganar: Meu nome é Vermelho, Eu sou meu cadáver, Meu nome é Negro, Serei chamado Assassino, Eu, Shekure, assim por diante.

Negro, após 12 anos de ausência, retorna à sua terra natal, Constantinopla, no meio de um inverno rigoroso. E descobre que tudo mudou. A bela Shekure, a mulher que ele desejava desde adolescente, casou e enviuvou na sua ausência, estando mais uma vez à procura de um marido. Entretanto, o seu pai, um ex-embaixador rico e influente em Veneza, conhecido por todos como “Tio”, embarcou num projeto há muito acalentado, a compilação de um livro de iluminuras para o Sultão no qual o mundo será retratado realisticamente e em perspectiva, à maneira dos pintores renascentistas que o Tio passou a admirar na Itália.

Este, porém, é um empreendimento perigoso, pois os fundamentalistas islâmicos estão na cidade e odeiam a arte ocidental. No primeiro capitulo, um dos ilustradores que trabalhava no livro que está sendo preparado para o Sultão já foi encontrado no fundo de um poço com o crânio esmagado e, em pouco tempo, haverá mais uma morte.

Estamos em Istambul (ou Constantinopla), no final dos anos 1500 — um tempo no qual o Império Otomano atingia seu auge, apesar de cada vez mais desafiado pelo Ocidente inovador. Proibidos pelo Alcorão de pintar imagens realistas, os miniaturistas da cidade fizeram durante séculos imagens estilizadas de pessoas, plantas e cavalos. A sua crença era a de que apenas Alá poderia “criar pessoas”, jamais os artistas. Então, estes eram proibidos de retratar rostos, de reproduzi-los. Só Alá poderia fazer o mesmo. Mas quando um novo Sultão — após também visitar Veneza, cheia de retratos realistas de potentados e de gente do povo, além de pinturas que usavam perspectiva — encomendou um livro ao Tio, que incluiria retratos no estilo ocidental, os artistas e mulás reacionários ficaram em polvorosa.

Depois que um famoso gravador e outra pessoa envolvida no projeto são encontrados assassinados, o Sultão exige que o autor dos crimes seja preso ou todos os miniaturistas serão condenados à morte. Negro, sobrinho de Tio Efendi, envolve-se na investigação. Ele consulta o famoso miniaturista Mestre Osman — que sente que uma era está acabando e fura seus próprios olhos –, bem como os artistas que trabalharam no livro. Com apelidos como Borboleta, Cegonha e Oliva, esses artistas relembram e discutem a diferença entre a arte ocidental e a islâmica enquanto proclamam sua inocência. Ameaçado de tortura pelo Sultão, Negro finalmente consegue descobrir o assassino.

Trata-se de um rico banquete de ideias e conhecimento.

Deixem eu explicar melhor. Naquele mundo não havia ainda a celebração do artista. Os autores eram proibidos até de assinar seus trabalhos. Estes eram apenas ornamentais, sem estilo pessoal e, como dissemos, sem perspectiva. Os rostos eram iguais, pois retratar pessoas reais poderia gerar idolatria e adoração. Então, como escrevi, o Sultão solicitara um projeto secreto. O Tio Efêndi vai contratar um grupo de 4 dos melhores miniaturistas para criar uma obra de gênero ocidental, onde ele, o Sultão, deverá ser retratado. Um deles morre — o primeiro narrador é este cadáver. Outro também é assassinado e um dos narradores é o assassino. Desta forma um dos narradores assume duas identidades, como narrador explícito e… como o misterioso assassino. A gente só vai saber quem é no final, pois o assassino é um dos narradores não confiáveis e trata de se esconder. Aliás, nesta trama policial, temos 20 narradores nada confiáveis…

O parentesco com O Nome da Rosa é bastante óbvio. Como a obra de Eco, é um whodunnit (*) cheio de charme e profundamente erudito. O tema ostensivo de Meu nome é vermelho é a ameaça de ocidentalização da arte pictórica otomana. O tema subjacente é de como o islamismo defende suas convicções.

O amor pelas crianças é particularmente grande em Meu nome é Vermelho. Shekure, que leva o nome da própria mãe do romancista, é absolutamente devotada a seus dois filhos pequenos, que, como o romancista e seu irmão na vida real, se chamam Orhan e Shevket, e o livro é dedicado à filha mais nova de Pamuk, Rüya. Esta reunião de pais e descendentes, passado e presente, fato e ficção, da mesma forma que a arte islâmica, reúne tudo no mesmo plano, sem gradações de perspectiva e é, obviamente, deliberada.

Recomendo demais.

Orhan Pamuk (1952)

.oO0.

(*) Quem matou?, Whodunnit ou Who Done It é um recurso narrativo típico da ficção, em especial na literatura e na teledramaturgia. Consiste, inicialmente, no assassinato de um dos personagens pertecentes à trama, desencadeando um procedimento investigativo acerca da identidade do responsável pelo crime. Na literatura o Whodunnit também é bastante utilizado em romances policiais. Um dos primeiros autores a explorar o gênero foi Edgar Allan Poe em Os Assassinatos da Rua Morgue, mas se tornou mais conhecido a cargo de autores como Arthur Conan Doyle com o detetive Sherlock Holmes, Agatha Christie com Hercule Poirot, Miss Marple e outros detetives, além de Georges Simenon com o Comissário Maigret e Stieg Larsson nos livros da Trilogia Millennium.

Newsletter de 14 de dezembro de 2023

Newsletter de 14 de dezembro de 2023

Olá!

Estamos retomando nossa newsletter lembrando você de que temos a solução para quem foge de shopping lotado e precisa comprar um presentinho de final de ano — nem que seja para si mesmo.

A Bamboletras tem livros para todos os bolsos e mais: neste fim de semana haverá dois recitais sen-sa-cio-nais cujos ingressos são a compra de um livro para cada um deles. Ou seja, você vê um baita espetáculo e ainda fica com um livro! Onde mais tem isso?

Confira abaixo porque tem muita coisa — livros e música!

Este é o primeiro recital:

Homenagem ao Centenário do Compositor Bruno Kiefer

I – Canção de garoa (1957/76)
II – Canção de inverno (1957/76)
III – Canção para uma valsa lenta (1958/76)
para voz aguda e piano – poemas de Mário Quintana

IV – Terra Selvagem (1971), para piano

V – Saudade (1956), para clarinete e piano

VI – Monólogo (1981), para clarinete solo

VII – Notas Soltas (1978), para flauta solo

VIII – Música para Dois (1984/1985), para flauta e clarinete

– Traquinice
– Pequena Fuga
– Espirituoso

IX – Pobre velha música! (1957/76)
X – No ouro sem fim da tarde morta (1958/76)
para voz aguda e piano – poemas de Fernando Pessoa

Soprano: Luciana Kiefer (I, II, III, IX e X)
Flauta: Henrique Amado (VII e VIII)
Clarinete: Diego Grendene de Souza (V, VI e VIII)
Piano: Guilherme Goldberg (I, II, III, IV, V, IX e X)

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E este é o segundo:

Recital em Fá – Pela Saúde da Terra 🌎

BACH, J. S.
Concerto Italiano em fá maior
Allegro / Andante / Presto

MOZART, W. A.
Sonata Nº 12, K. 332 em fá maior
Allegro / Adagio / Allegro assai

BEETHOVEN, L. von
Sonata Op. 57, Appassionatta, em fá menor
Allegro assai / Andante con moto / Allegro ma non troppo

PROKOFIEV, S.
Sonata, Op. 1, em fá menor
Allegro

André Carrara, piano

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E é claro que agora vamos deixar três dicas de livros para você.

A mais recôndita memória dos homens, de Mohamed Mbougar Sarr — Esse livro foi indicado pelo Chico Buarque, que disse que não sabia como continuaria a escrever após ler esta maravilha. Não bastou? Bem, O livro recebeu o prêmio Goncourt e foi traduzido para mais de trinta idiomas. Em 2018, Diégane Latyr Faye, um jovem escritor senegalês, descobre em Paris um livro mítico publicado em 1938: O labirinto do inumano. Seu autor, o misterioso T.C. Elimane, desapareceu sem deixar vestígios depois que uma escandalosa acusação de plágio mobilizou a comunidade literária francesa dos anos 1940. De Dakar a Paris, passando por Amsterdam e pela Buenos Aires dos salões literários das irmãs Ocampo, que verdade o espera no centro deste labirinto?

Livros de Annie Ernaux — Aqui você pode escolhar entre os vários livros da autora, publicados desde que ela recebeu o Nobel. Todo mundo que lê um, acaba lendo mais um e mais um. Experimente! Os que mais são elogiados? Ora, Os Anos, A Vergonha, O Acontecimento, O Lugar, A Outra Filha, etc. Sua obra descortina as raízes, os estranhamentos e os constrangimentos coletivos — principalmente os femininos — da memória pessoal. A autora é um referencial inquietante de coerência, rompendo não apenas com tudo que podia, no passado, ser escrito por mulheres, como invadindo questões de classe. Imperdível!

Oblómov, de Ivan Gontcharóv – Desconfie de quem diz conhecer os russos e não conhece a obra-prima Oblómov. O livro trata de um indolente latifundiário russo que passa seus dias fazendo planos para enfrentar seus muitos e graves problemas, principalmente os relativos a sua fazenda, que cada vez mais gera menos benefícios e onde é claramente roubado por seu administrador e servos. Só que ele não age. Oblómov é um Ulisses de roupão que opta por ficar imóvel, na contracorrente dos eventos. Quando deita no sofá, sente-se protegido de toda a grosseria e da confusão que rege as ações humanas. Porém, sua atividade mental é grande. Não nasceu para ser um gladiador na arena, mas um pacífico espectador que deixa a inércia guiar sua vida. Só não pense que é um livro monótono. Bah, aí é que você se engana!

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Breve comentário sobre a Feira do Livro de Porto Alegre 2023

Dei uma passada na Feira agora e a coisa é de chorar. É uma feira de editoras, distribuidoras e sebos. Os sebos sabem vender, claro, os outros não. As editoras enfiam seus próprios livros, as distribuidoras não têm prática de vendas e enfiam o que têm, mas o principal, penso é, o que elas NÃO TÊM. Por exemplo, a distribuidora da Cia das Letras trouxe, por alguma razão, um acervo curtíssimo — quase nada — da dita cuja. Então, a maior editora brasileira está pessimamente representada. Procurem pelos livros da Cia! É triste. As livrarias que têm curadoria não estão na Feira porque ir à Feira é absurdamente caro. A minha Bamboletras não está lá, a Taverna não está lá, a Paralelo 30 não está lá, nem a Via Sapiens. Ou seja, as melhores tiveram que abrir mão da festa por falta de grana. O que tem é gente dizendo que “tudo é ótimo” e que “temos de tudo”. Dá vontade fazer uma barraca escrito LIVRARIA. Pois é tudo o que não há.

First Folio, 400 anos

First Folio, 400 anos

O “First Folio” é uma das grandes maravilhas do mundo literário. Publicada em 8 de novembro de 1623, sete anos após a morte de seu autor, foi a primeira edição impressa das peças completas de Shakespeare. Sem ele, é consenso de que boa parte de sua obra teria sido perdida. Hoje, o “First Folio” completa seu 400º aniversário. É uma das pedras fundamentais da cultura humana.

A magia de Tristram Shandy

A magia de Tristram Shandy

Por Vicente Battista
Traduzido por este blogueiro

Laurence Sterne, por Sir Joshua Reynolds

Uma parte significativa da grande literatura inglesa foi escrita por irlandeses — Oscar Wilde, William Butler Yeast, Bram Stoker, George Bernard Shaw, James Joyce e Samuel Beckett são um exemplo perfeito. Nenhum deles alguma vez negou a sua dívida para com Laurence Sterne, um compatriota nascido em Clonmel, condado de Tipperary, um século antes. Esta dívida não se limita exclusivamente aos autores irlandeses: o francês Denis Diderot, para escrever Jacques, o fatalista”, baseou-se na construção paródica, na rejeição das convenções narrativas e na figura do anti-herói proposta por Sterne que, aliás, foi contemporâneo de Diderot: ambos nasceram em 1713. Dostoiévski em O Idiota narra como o príncipe Mishkin conta a Yelizabeta e suas três filhas a história de uma pobre mulher humilhada em uma aldeia suíça que é literalmente retirada de Viagem Sentimental pela França e Itália, de Sterne. A sua influência também pode ser percebida em autores tão diversos como ETA Hoffmann, Victor Hugo e Charles Dickens. “Eu li Sterne. É admirável”, confessou Tolstói, e traduziu-o imediatamente para o russo; uma admiração que Goethe também não escondeu. Nietzsche considerou que “ele é o escritor mais livre de todos os tempos e o grande mestre da incompreensão… este é o seu propósito, ter razão e não estar certo ao mesmo tempo, misturar profundidade e bufonaria… É preciso render-se à sua fantasia benevolente, sempre benevolente.” Schopenhauer sustentou que os melhores romances de todos os tempos foram: Dom Quixote de La Mancha, Os anos de aprendizagem de Wilhelm Meister, Julia, ou a Nova Heloísa e A Vida e Opiniões de Tristram Shandy, Cavaleiro. A influência de Laurence Sterne não parou, ultrapassou línguas e continentes. Descobriremos que a escrita destemperada, cáustica e insubordinada nos textos de Julio Cortázar, José Lezama Lima e Guillermo Cabrera Infante e até Borges — a estratégia de apresentar autores e livros inexistentes como verdadeiros é típica de Sterne.

A contracapa de Tristram Shandy, que Planeta publicou em 1976, com prólogo de Víctor Sklovski e tradução de Ana María Aznar, traz uma gravura que supostamente seria o rosto de Laurence Sterne. A ironia que se percebe em seu olhar e a expressão mordaz que seus lábios refletem dão uma medida completa do personagem. Ao ver aquela gravura e ao ler seu romance, tende-se a pensar que sua biografia também poderia ser parte de uma farsa, outro truque do próprio Sterne. Porém, os dados são verdadeiros: ele nasceu em 24 de novembro de 1713, numa pequena cidade do condado de Tipperary, no sul da Irlanda. Estudou em Cambridge e em 1738, aos 25 anos, foi ordenado sacerdote da Igreja da Inglaterra. Em 1741 casou-se com Elizabeth Lumley, com quem, nas palavras de Alfonso Reyes, “não soube manter uma relação cordial”. Em 1760 obteve o vicariato de Coxwold, no norte da Inglaterra. Um ano antes, ele havia começado a publicar Life and Opinions of Tristram Shandy, Gentleman”. Os nove livros que hoje compõem a obra foram publicados, os dois primeiros em 1759 e os restantes sete ao longo dos oito anos seguintes. Sterne morreria alguns meses depois.

Começou a escrever tarde e morreu cedo. Sua vida como escritor não durou mais que nove anos, mas foi tempo suficiente para forjar um romance que criou uma nova forma de narrar a partir da paródia. Em 1760, ele publicou Mister Yorick’s Sermons, um volume no qual compilou os excêntricos sermões que proferiu como vigário na Igreja de Coxwold. Em 1767, sob o título Cartas de Yorick para Eliza, publicou a correspondência que mantinha com sua amante Eliza Draper. Tanto para os sermões quanto para as cartas de amor, ele escolheu o nome do padre Yorick, um dos personagens de Tristram Shandy e por sua vez uma espécie de alter ego do próprio Sterne. Não é por acaso que seu nome era Yorick, como o bobo da corte que Hamlet evoca no quinto ato do drama de Shakespeare. Um mês antes de morrer, apareceu A Sentimental Journey through France and Italy, que alguns consideram ser o epílogo de Tristram Shandy.

Admirador confesso de Cervantes, Rabelais, Swift, Pope e Locke, a influência de cada um deles foi essencial para que Sterne construísse uma obra-prima que, em suas quase quinhentas páginas, antecipa muitos dos recursos narrativos da vanguarda literária de final do século 19. Século 19 e início do século 20, desde peculiaridades tipográficas: duas páginas  inteiramente pretas no capítulo 36 do livro terceiro e os capítulos 18 e 19 do livro nono completamente em branco, até capítulos que consistem em uma única frase ou a prévia do monólogo interior que Joyce desenvolveria em Ulisses um século e meio depois.

Pouco depois do aparecimento dos dois primeiros livros, The Life and Opinions of Tristram Shandy, Gentleman  tornou-se um sucesso, embora não para todos: o prestigiado Samuel Johnson destacou que o romance ignorava quase todas as regras gramaticais. “Senhor, você não sabe inglês”, disse ele a Sterne, e quando Sterne, sarcástico, reconheceu que era efetivamente ignorante dessa língua, Johnson, definitivamente, declarou: “nada extravagante pode durar”. Samuel Johnson é considerado o melhor crítico literário de língua inglesa de todos os tempos. É claro que mesmo os grandes críticos às vezes cometem erros.

Brancura, de Jon Fosse

Brancura, de Jon Fosse

A Bamboletras acaba de receber ‘Brancura’, livro do Prêmio Nobel de Literatura Jon Fosse. Li o livro numa sentada e gostei muito. Assim como Annie Ernaux, vencedora no ano passado, Fosse faz uma literatura intimista, mas aqui com toques de Beckett e Bernhard, isto é, com muito mais angústia e absurdos. Não vou dar spoilers, apenas vou dizer a situação que é descrita nas primeiras duas páginas. Um homem dirige seu carro sem destino, desconhecendo as próprias motivações, e sai da cidade até entrar numa vicinal, onde o carro fica preso na neve. Sem saber bem onde está, o narrador-personagem sai do carro para buscar ajuda. Então, o livro mergulha num interessante e muito musical fluxo de consciência, passeando entre o onírico e o terror psicológico sem deixar de lado grandes questões da humanidade. Impossível não se envolver intensamente com o texto. Livro fácil de ler e de certamente difícil tradução, Fosse recebeu resposta à altura por parte do excelente tradutor Leonardo Pinto Silva.

Não sei se o norueguês Fosse mereceu ou não o Prêmio, o fato é que se trata de um grande escritor. Gostei muito do que li. O final é especialmente belo.

Recomendo.

Jon Fosse (1959)

Bloomsday: Mrs. Dalloway encontra Mr. Bloom

Bloomsday: Mrs. Dalloway encontra Mr. Bloom

Virginia Woolf nasceu no dia 25 de janeiro de 1882. James Joyce em 2 de fevereiro do mesmo ano. São 8 dias de diferença.

James Joyce publicou seu primeiro livro, Música de Câmara, em 1907. Woolf estreou na literatura em 1915, com The Voyage Out. São 8 anos de diferença.

A curiosidade leva a gente a lugares estranhos. Deste modo, descobrimos que, adulto, Joyce media 1,78m. E que Woolf media 1,70m. 8 centímetros de diferença.

Por justificadas razões, James Joyce escolheu o dia 16 de junho de 1904, uma quinta-feira, para a ação de Ulysses. Já Virginia Woolf marcou Mrs. Dalloway, um romance que também se passa em um dia, para uma quarta-feira também de junho, mas não nos disse dia nem ano. Talvez seja 8 dias antes ou depois do dia 16, mas já estaríamos forçando um pouco, até porque ela falou em meados do mês.

Ulysses foi publicado em 1922, Mrs. Dalloway em 1925, o que quebra de vez nossa numerologia.

Enquanto o Bloomsday é comemorado há décadas, o Dalloway`s Day é bem mais recente, o que talvez seja uma prova de tudo o que Virginia sempre disse: há a ausência da voz das mulheres.

Em fevereiro de 1922, logo após o lançamento de Ulysses, Virginia Woolf escreveu para sua irmã Vanessa, então em Paris: “Pelo amor de Deus, faça amizade com Joyce. Quero saber como ele é”. Ao que tudo indica, Vanessa fracassou em sua missão, porém, em abril, Virginia adquiriu um exemplar de Ulysses por caríssimas – na época – 4 libras. Quando fez a compra, trabalhava em um romance chamado Mrs. Dalloway em Bond Street.

Sim, Virginia leu Ulysses e escreveu em seu diário uma série de considerações que ficavam entre um decidido não gostei e o respeito. Após ler as primeiras 200 páginas, sentenciou: E Tom (T. S. Eliot), o grande Tom, acha que isso se equipara a Guerra e Paz! Parece-me um livro analfabeto e malcriado. (…) É claro que o gênio pode explodir na página 652, mas tenho minhas dúvidas.

Porém, ainda parada na página 200, ela elogiou publicamente o capítulo 6…

Após finalizar a leitura, novas críticas: Terminei Ulysses e acho que foi um erro. É genial, mas difuso e pretensioso. (…) Um escritor de primeira linha, (…) surpreendente; fazendo acrobacias. Lembrou-me o tempo todo algum colegial imaturo, cheio de inteligência e poderes, mas tão autoconsciente e egoísta que perde a cabeça, torna-se extravagante, barulhento, pouco à vontade, faz com que as pessoas gentis sintam pena dele, e as severas apenas se irritem. (…) mas como Joyce tem 40 anos, não amadurece mais. Não o li com atenção; & apenas uma vez; & é muito obscuro.

Enquanto isso, o amigo T. S. Eliot rebatia: Considero Ulysses a expressão mais importante que a era atual encontrou; é um livro ao qual todos devemos e do qual nenhum de nós poderá escapar. As palavras de Eliot se aplicam também a Virginia Woolf – não importa o quanto ela tentasse escapar de Ulysses ela nunca conseguiu parar de pensar no romance de Joyce. Como observa Suzette Henke, Joyce era uma espécie de “duplo artístico, um aliado masculino na batalha modernista pelo realismo psicológico”.

Já Joyce não parece ter lido Virginia.

Há muitas coisas em comum entre Ulysses e Mrs. Dalloway. Ambos utilizam fluxo de consciência, referências ao passado, epifanias e histórias que se cruzam. Leopold Bloom sai de casa, trabalha, vai a um enterro, caminha pela praia, discute com um antissemita, vai a um bordel, pensa na mulher, volta, etc. Já Clarissa Dalloway flana por Londres a fim de comprar flores para um jantar que dará naquela noite, atravessa um parque, olha vitrines, volta. Notem que os verbos que cabem à Bloom são trabalhar e caminhar, já para Mrs. Dalloway são flanar e passear. Sim, há uma leveza que perpassa o livro de Woolf que é rara em Ulysses. Mas voltemos às semelhanças: ambos os livros dão espaço aos personagens que cruzam com os protagonistas e tocam em fatos bastante rotineiros assim como em outros nem tanto – a guerra no caso de Woolf e o papel da igreja na Irlanda, no caso de Joyce.

Woolf nasceu em berço de ouro e convivia com a nobreza e com os grandes personagens de sua época. Joyce foi um exilado sem recursos que teve lutar duramente pela sobrevivência e para ter sua obra reconhecida. Há outra curiosidade: o casal Leonard e Virginia Woolf tinha uma pequena editora, a Hogarth Press, e um dia eles escreveram a James Joyce a fim de rejeitar o manuscrito de Ulysses. Era muito longo, além da capacidade de sua editora, declararam os Woolf em carta. Era exatamente o tipo de declaração da qual eles teriam se ressentido e desconfiado como escritores.

Lendo Mrs. Dalloway, temos a impressão de que Woolf absorveu muito do livro de Joyce, por mais que o desgostasse.

São duas obras-primas, livros fundamentais da ficção moderna.

Os dois escritores morreram em 1941. Joyce em 13 de janeiro em Zurique e Virginia 74 dias depois, no dia 28 de março, em Lewes, próximo de Londres.

Sinfonia dos Mil, de Almir Amarante

Sinfonia dos Mil, de Almir Amarante

Quase tudo está dito no booktrailer abaixo, mas vamos lá. Durante a pandemia, um contrabaixista de orquestra sinfônica é convidado para uma gravação da Sinfonia dos Mil, de Mahler. A assim chamada Sinfonia é a de Nº 8 do genial austríaco. Trata-se de uma enormidade musical. Inclui orquestra, coro, solistas, órgão, mais a torcida do Galo e a do Inter. Claro que é complicado colocar mil pessoas num palco e a Sinfonia é normalmente interpretada por muito menos gente — o próprio compositor não aprovou este apelido “dos mil”, mas este permaneceu, ainda mais que alguns maestros, como Stokowski, apertaram de verdade mais de mil músicos num palco.

O convite era assim: como o tempo era de pandemia, a captação de som e imagem seria remota. Ou seja, cada músico receberia instruções detalhadas e gravaria sua parte em casa. Tudo seria depois juntado, como muitos fizeram durante aquele período. Na gravação resultante, a Sinfonia seria realmente interpretada por mil músicos. A ideia geral da obra de Mahler é a da redenção através do amor, fato que tem eco na boa história contada por Amarante, ele mesmo contrabaixista da Osesp desde 1994.

Acontece que um determinado músico, um contrabaixista argentino também convidado para participar da empreitada, busca contato com o narrador, seu colega de instrumento no Brasil. E os dois passam a conversar com certa frequência, primeiro através de e-mails e depois por videochamadas. Bem, o único spoiler que hoje sairá de minha pena é para dizer que não se trata de história gay.

Mas direi que se trata de um livro excelente que narra uma interessante aproximação. Narra sobre a construção de um elo que resulta em mudanças no presente. Como músico, Amarante tem total conhecimento e vivência da matéria musical envolvida e, como escritor, não fica nem um pouco atrás. A vida numa sinfônica, as querelas entre os músicos, o nascimento de uma amizade e de conhecimento mútuo, as motivações envolvidas de cada contato, tudo é minuciosa e extremamente bem contado, de forma a que o leitor grude de vez, desejando saber logo tudo.

Amarante não apressa as coisas como fazem os maus músicos. O andamento e o senso de estilo estão sempre corrretos. Sinfonia dos Mil é um livro envolvente, tranquilo e inteligente como um segundo movimento de Haydn, sem tonitruantes tutti de mil pessoas.

Almir Amarante

Inveja

Inveja

Ah, os russos… A Elena Romanov está lendo um volume enorme — lindo, todo ilustrado — publicado em 1958 na URSS. Trata-se de O Precipício, de Gontcharóv, o mesmo autor da obra-prima Oblómov.

Ler Gontcharóv e Bulgákov agora, Tchékhov e Tolstói em todas as idades, Dostoiévski e Liêrmontov na juventude, mais Brodsky, Nabôkov, Turguêniev, é todo um mundo. Dentre todos, meu preferido é o melancólico e compassivo Tchékhov.

É difícil escapar dos russos. Das russas também.

Últimos pedidos, de Graham Swift

Últimos pedidos, de Graham Swift

Este livro, meu amigo, você apenas encontrará em sebos. Ele foi lançado em 1999 pela Cia. das Letras e, por ele, seu autor recebeu o Booker Prize de 1996. Merecido? Creio que sim. Mas é um livro bastante complicado, trabalhoso de ler. A história é semelhante a de Enquanto agonizo (As I lay dying), de Faulkner, mas, de resto, o livro de Swift é muito original.

Últimos pedidos (Last Orders) conta a viagem de quatro amigos londrinos que frequentemente se reuniam nos finais da tarde para beber e discutir as novidades num pub. Eles têm entre os 50 e os 60 anos — exceto o filho adotivo de um deles — e viajam até Margate para cumprir um último desejo de um ex-membro do grupo, recém falecido: o de espalhar suas cinzas no mar. É claro que todos conheciam as famílias de todos. E todos eles narram o romance, o que causa certa confusão no leitor mais desatento. Eu, por exemplo, li umas 150 páginas e estava adorando o livro, mas sabia que estava perdendo coisas por estar com a atenção meio vaga. Então, voltei ao início do livro com outra postura, a de me me dedicar seriamente a entender tudo, o que acabou sendo muito prazeroso.

Como curiosidade, digo que é um livro que não pode ser trasposto para a realidade brasileira. Um dos personagens é funcionário público, outro tem uma funerária e é muito bem sucedido, outro tem uma mecânica e também prospera, e ainda temos um feirante e um açougueiro (em cinzas). Não creio que os preconceitos de classe brasileiros pudessem juntar tal fauna. E são amigos de anos, todos conhecem quase todas as fofocas familiares uns dos outros. São como uma família, brigam e se ofendem, se acusam e se amam.

O livro é delicado, discretamente comovente e possui um belo erotismo em sua parte final. (Afinal, ficamos sabendo que o funcionário público tem educada e gentil fissura pela viúva). Tudo se dá durante a viagem — diálogos, risadas, brigas e lembranças individuais e coletivas. Por que fiz questão de relê-lo? Ora, porque me pareceu autêntico e parecido — em suas vidas confusas e emoções não expressas — com as histórias de amigos meus. Há pouca narração de fatos novos e muito fluxo de pensamento, o que torna o texto, como disse, difícil de seguir. A primeira pessoa do singular passa de um a outro alternadamente. Apesar de Swift colocar o nome do narrador como título de cada capítulo não é fácil de se achar. Então, fiz anotações de personagens e relacionamentos…

Na releitura, a história fluiu com suavidade, com cada um dos pontos de vista dos personagens principais girando, intercalados com a narração dos eventos atuais, feita por Ray (o funcionário público). E foi então que se revelou a enorme riqueza de Últimos Pedidos. Muitas referências e insinuações sutis se encaixaram como um quebra-cabeça. O estilo de Graham Swift é perfeito, esboçando imagens vívidas de personagens e ambientes sem descrições supérfluas. Os estratos da sociedade inglesa em que esses homens se enquadram são transmitidos sem esforço por meio do diálogo de seus pensamentos e conversas.

Um esplêndido livro sobre amizade e lealdade.

Graham Swift (1949)

O Leão da Calábria, de Nilson Luiz May

O Leão da Calábria, de Nilson Luiz May

É quase inacreditável, mas tudo o que é contado de forma romanceada em O Leão da Calábria aconteceu aqui, em Anta Gorda (RS) pertinho de nós, nos anos 20 do século passado. Não gostaria de entrar em polêmicas, só que… Será que os fatos narrados no livro explicam, alguma coisa de nosso estado e do Brasil? Falo dos dias atuais, claro. Bem, voltemos ao livro.

Nilson Luiz May narra a história do médico Michele De Patta, que há 100 anos emigrou da Calábria para chegar ao nosso estado. Recém formado e tendo trabalhado como médico na Primeira Guerra Mundial, Michele trouxe ao RS diversas técnicas desconhecidas ao povoado de Anta Gorda, atraindo a admiração dos clientes e o ódio dos curandeiros e de quem acreditava neles. A base da história é totalmente real — inclusive, no livro, há fotografias de De Patta, de sua família e de seu hospital. O autor romanceou a trama, claro, criando diálogos e alguns poucos personagens extras.

Imaginem que o médico italiano conseguiu erguer um hospital, a fim de ampliar e melhorar o atendimento à população local — afinal, muitos passavam por cirurgias e precisavam de tempo e de ambiente adequado para a recuperação. Porém, o ódio e a amizade do médico com um professor local, que era anarquista, complicou tudo. Aliados à ignorância, o poder público e o religioso — apesar do catolicismo da família De Patta — puseram tudo a perder.

Os fatos e a violência relatadas são quase uma antevisão do que ocorre em nossa época de negacionismos, alguns furiosos e de graves consequências. O livro é um thriller. May usa o suspense para contar sua desconcertante história. Logo no primeiro capítulo, sabemos que o hospital acabará incendiado. Durante a leitura, sabemos como e por quê. Sei que é um lugar comum dizer que a realidade supera a ficção e sou obrigado a repetir isso aqui.

Lemos o livro, levantamos os olhos e pensamos que aquilo só poderia ter sido inventado. Não foi. As certezas e a truculência da ignorância são, muitas vezes, imbatíveis. Não adiantou explicar, receitar, curar, operar e recuperar. A turba ficou ao lado dos negacionistas e do líder local, pouco preocupados com a ciência. E não me digam que 100 anos é muito tempo, não me digam. Afinal, a reação do governo brasileiro à gripezinha de 2020 estão bem próximos de nós.

May é médico e também um maestro seguro, controlando a narrativa de forma a que a gente leia tudo rapidamente. O livro gruda. Afinal, queremos saber até onde aqueles malucos vão.

Recomendo!

O autor Nilson Luiz May