PGO

Desde março deste ano, rola o PGO (Pequenas Grandes Obras), que é um Clube de Leituras da Livraria Bamboletras. O foco são os clássicos curtos, livros sempre muito bons ou representativos e que deixam tempo livre para os participantes lerem outras coisas. Há vagas.

Livros do PGO:

Março: O primeiro amor, de Ivan Turguêniev
Abril: A casa das Belas Adormecidas, de Yasunari Kawabata
Maio: Vidas Secas, de Graciliano Ramos
Junho: Bartleby, de Herman Melville
Julho: Ao Farol, de Virginia Woolf
Agosto: A Hora da Estrela, de Clarice Lispector
Setembro: Ratos e Homens, de John Steinbeck

 

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Flanar III: Roteiro para a moderação de grupos de leitura: A Promessa, de Damon Galgut

O PGO V foi sobre “Passeio ao Farol”, de Virginia Woolf. Mas perdi o arquivo…

A Promessa, de Damon Galgut é um livro sobre uma família, mas também sobre a África do Sul, sobre uma promessa nunca cumprida, mas também sobre a dificuldade humana de agir moralmente. O romance evita julgamentos explícitos e confia na inteligência do leitor.

Abertura

“Quando vocês fecharam o livro, qual foi a sensação predominante? Gostaram do livro ou não?”

  • melancolia
  • frustração
  • admiração
  • tristeza
  • beleza
  • indignação

Essa diversidade já vai mostrar a riqueza do romance.

A promessa

Aparentemente o livro gira em torno de uma promessa simples. Rachel, antes de morrer, pede que Salome receba a casa onde vive.

“O título do livro é ‘A Promessa’. Qual é, literalmente, a promessa que dá nome ao romance? E, para além disso, que outras promessas — do país, da história, dos personagens — estão em jogo?”

 Há aqui uma camada histórica importante. O romance começa em 1986, pouco antes do fim do apartheid, e termina já no governo de Jacob Zuma. As promessas da nova África do Sul — a reconciliação, a redistribuição de terras, a justiça — também ficam por cumprir . Pergunta ao grupo: “A promessa da casa à Salomé e a promessa da nova África do Sul são a mesma coisa?”

“O narrador diz-nos, num certo momento, que não ouvimos muito sobre Salomé ‘porque não nos importamos em perguntar’. Como é que este gesto narrativo — o autor a apontar o dedo ao leitor — te afetou? Foi uma acusação?”

“No final do livro, Amor finalmente dá a Salomé a escritura da casa. Mas Salomé já é muito velha. Esta resolução chega tarde demais? É uma reparação genuína ou apenas um gesto simbólico?” 

 Mas… A promessa realmente é o centro do romance?

Ou ela funciona como símbolo?

Questões:

  • O que exatamente impede que a promessa seja cumprida?
  • Falta de dinheiro?
  • Burocracia?
  • Racismo?
  • Covardia?
  • Autoengano?

Talvez todos.

A família Swart

Vale discutir cada integrante.

– Manie

É realmente religioso ou usa a religião para aliviar sua consciência? O patriarca que promete e não cumpre. Como descreveriam a sua relação com a promessa? É má-fé ou simples esquecimento?

– Anton

Talvez o personagem mais frustrado do livro. o filho, outrora cheio de promessas, que se torna um homem deprimido e amargo. Acaba por se suicidar. Como é que a desilusão com a promessa da família se reflete nele?

  • Ele possui consciência moral?
  • Ou apenas consciência da própria mediocridade?

Como interpretar o assassinato que cometeu?

– Astrid

É a personagem mais adaptada ao novo mundo ou a mais superficial? a filha mais velha, obcecada com status e aparências. Morre num assalto. O que a sua morte nos diz sobre a violência na África do Sul pós-apartheid?

A indiferença (Manie), a superficialidade (Astrid)e a autodestruição (Anton).

– Amor

O próprio nome já sugere uma leitura simbólica.

Pergunta interessante:

Por que justamente Amor demora tanto para cumprir aquilo que considera certo?

Ela é uma heroína?

Ou apenas alguém menos hipócrita que os outros?

– Salome

Curiosamente, é uma personagem central que quase não fala.

Perguntas:

Por que Galgut escolhe esse silêncio? Por ela ser uma representação?

Ela simboliza toda uma população invisibilizada?

Vale notar que ela permanece presente enquanto quase todos os demais desaparecem.

A África do Sul

É impossível separar o romance da história sul-africana.

Sem transformar a conversa numa aula de História, vale lembrar rapidamente:

  • apartheid
  • fim do apartheid
  • eleição de Mandela
  • mudanças sociais
  • permanências

Pergunta importante:

A família muda tanto quanto o país?

Ou ambos mudam apenas na aparência?

A estrutura do romance

Talvez seja o aspecto mais inovador. O narrador faz algo incomum. Ele muda constantemente de foco. Entra na mente de personagens secundários. Às vezes conversa diretamente com o leitor.

“O romance está dividido em quatro partes, cada uma dedicada a um funeral — Mãe, Pai, Astrid e, finalmente, Anton. Apenas Amor sobrevive. O que é que esta estrutura de ‘quatro mortes em quatro décadas’ sugere? Porque é que Galgut terá escolhido organizar o livro assim?”

“O narrador — ou a voz narrativa — deste livro é muito peculiar. Galgut usa aquilo a que alguns chamaram ‘uma câmara de cinema’, com perspectivas que se alternam e se sobrepõem, por vezes no meio de uma frase. O narrador dirige-se ao leitor, faz apartes, comenta. O que acharam desta escolha? Funciona? Ou atrapalha?” Ele critica personagens, tira sarro deles. 

Pergunte:

Isso aproximou vocês do romance? Vocês aceitaram a cumplicidade?

Ou dificultou a leitura?

Outra pergunta:

O narrador parece improvisar enquanto conta a história?

  1. O tempo

O romance é dividido por quatro funerais.

Interessante perguntar:

Por que Galgut escolhe mortes como pontos de organização? Aprendemos mais sobre uma família durante um funeral?

Existe alguma cena de felicidade duradoura?

  1. Humor

Embora seja um livro triste, há muito humor. Um humor às vezes cruel.

Pergunte:

Vocês riram? Em quais momentos? Por que rir em um romance tão melancólico?

  1. O título

“A Promessa”. No singular.

Qual promessa?

A da mãe? A da nova África do Sul? A promessa de justiça? A promessa que fazemos a nós mesmos? Todas?

  1. O final

Experimente:

O cumprimento da promessa representa uma vitória ou chega tarde demais? É possível reparar décadas de injustiça com um único gesto?

O romance termina oferecendo esperança? Ou apenas resignação?

Algumas perguntas que costumam render boa conversa

  • Existe algum personagem verdadeiramente bom?
  • Quem desperta mais compaixão?
  • Quem desperta mais irritação?
  • O livro é político ou profundamente humano ou as duas coisas?
  • Vocês enxergam Amor como protagonista ou apenas como fio condutor?
  • O silêncio de Salome é uma escolha literária ou uma denúncia?
  • O que mais permanece na memória: os acontecimentos ou a forma como Galgut escreve?
  1. Encerramento

“No início parece que lemos a história de uma promessa não cumprida. Ao terminar, talvez percebamos que lemos algo maior: um romance sobre tudo aquilo que uma sociedade adia enfrentar — até que o tempo torna qualquer reparação insuficiente.”

“Se vocês tivessem que resumir A Promessa em uma única palavra, qual seria?”

As respostas normalmente convergem para termos como culpa, espera, memória, justiça, tempo, herança ou silêncio.

“Depois de tudo o que falamos, acham que a promessa foi cumprida, no final? E se foi cumprida, que significado tem esse cumprimento — tardio, simbólico e talvez insuficiente?”

“O livro termina com Amor a encontrar, entre os pertences de Anton, um romance inacabado com a nota: ‘Uma saga familiar ou um romance familiar?’ . O que acham que esta pergunta diz sobre o próprio livro que acabámos de ler?”

Na minha opinião, a força de A Promessa não está apenas na história da família Swart, mas na maneira como Galgut transforma um drama íntimo em uma reflexão sobre responsabilidade moral, privilégio, passagem do tempo e a dificuldade — individual e coletiva — de fazer o que sabemos ser justo.

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Por que eu compro livros?

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Pergunte ao Pó, de John Fante

Pergunte ao Pó, de John Fante

Pergunte ao Pó (1939), de John Fante (1909-1983) é excelente, certamente um dos grandes romances estadunidenses do século XX. Tem a energia da juventude, o humor de quem sabe rir de si mesmo e uma melancolia que só se revela plenamente depois da última página. É um livro sobre o fracasso e a esperança, sobre a esperança teimosa de continuar escrevendo, amando e vivendo. Nada da típica ascensão ou queda de um herói. Pergunte ao Pó faz algo mais raro: acompanha um jovem que ainda não sabe quem é, mas que acredita, com uma mistura de arrogância e desespero, que nasceu para ser escritor.

O carcamano Arturo Bandini chega a Los Angeles trazendo quase nada, mora de aluguel num quarto miserável, com poucos dólares no bolso e uma confiança quase insuportável em seu próprio talento. Pobre e faminto, ele escreve, sonha, passa fome comendo apenas laranjas, apaixona-se, mente para si mesmo e tenta desesperadamente um caminho.

A grande invenção Fante está na criação de Bandini. Ele é vaidoso, impulsivo, preconceituoso, ridículo em muitos momentos, mas também vulnerável e profundamente humano. Não pede a simpatia do leitor; conquista-a justamente porque nunca esconde suas contradições e as merdas que diz e faz. Sua voz oscila entre a grandiloquência e o desamparo, entre a ambição desmedida e a consciência de sua própria insignificância.

No centro do romance está a relação entre Bandini e Camilla Lopez, garçonete mexicana de temperamento forte. O amor entre os dois não encontra repouso. É uma dança feita de atração, ressentimento, orgulho e desencontros. Camilla desafia Bandini porque não cabe na fantasia que ele constrói sobre ela. Mas Pergunte ao Pó é também um romance sobre literatura. Bandini acredita que escrever o tornará imortal, que bastará publicar um conto para escapar da pobreza, do anonimato e da mediocridade. Aos poucos, descobre que a literatura não salva ninguém da vida. Escrever não elimina a fome, não cura a solidão nem torna o amor menos difícil. Ainda assim, continua sendo a única forma de dar sentido ao caos.

Fante escreve com uma prosa seca e veloz. Não há ornamentações. Cada frase parece nascer da urgência de quem conhece a precariedade. Sob essa aparente simplicidade esconde-se o orgulho dos derrotados, a dignidade dos esquecidos e a beleza dos pequenos instantes. Não é por acaso que escritores como Charles Bukowski reconheceram em John Fante um mestre. Muito antes da chamada literatura “suja”, Fante já escrevia sobre personagens comuns, derrotados e imperfeitos, mas o fazia com uma ternura que impede qualquer cinismo. Seus fracassados continuam sonhando.

Ao terminar Pergunte ao Pó, compreendemos que Arturo Bandini talvez nunca alcance a grandeza que imagina merecer. Mas também percebemos que sua obstinação em escrever, possui algo de profundamente comovente. É a história de alguém que insiste em transformar a vida em literatura, mesmo quando a vida parece responder apenas com pó.

A poeira do título? Não sei. Ele aparece nas ruas, no peitoril das janelas, no deserto que cerca a cidade. John Fante nos lembra que, se um dia quisermos saber quem fomos, talvez seja preciso perguntar ao pó.

.oOo.

Obs. final: faltou dizer que Fante criou vários livros tendo Arturo Bandini como personagem principal. A coisa é bem bagunçada, pois alguns narram a vida pregressa de Bandini e outros o que virá depois e não foram publicados em ordem. Pergunte ao Pó é o mais famoso deles:

O Caminho de Los Angeles (The Road to Los Angeles, escrito em 1936, mas publicado postumamente em 1985)
Espere a Primavera, Bandini (Wait Until Spring, Bandini, publicado em 1938)
Pergunte ao Pó (Ask the Dust, publicado em 1939)
Sonhos de Bunker Hill (Dreams from Bunker Hill, publicado em 1982)

John Fante

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De uma entrevista do romancista húngaro László Krasznahorkai

(…) Nunca saberemos quantos dos livros que hoje vou autografar serão efectivamente lidos além da página em que fica a dedicatória. Alguém chegará ao fim desses livros? A literatura sofreu uma transformação enorme.

Tenho a impressão de que a literatura contemporânea esqueceu praticamente tudo o que aconteceu durante o século XX. Desde Marcel Proust até James Joyce, Samuel Beckett, Thomas Bernhard​ ou Fernando Pessoa a literatura percorreu um caminho extraordinário. No entanto, hoje parece ter regressado à linguagem e às estruturas narrativas do século XIX: quanto mais acessível e fácil de consumir for um livro, maior é o seu sucesso.

No início isso surpreendia-me. Depois percebi a razão: esses livros podem ser lidos sem grande esforço e praticamente sem bagagem cultural. A literatura mais exigente requer prática de leitura e formação cultural. Hoje a formação mudou profundamente. O conhecimento dos clássicos e das humanidades perdeu espaço. No seu lugar surgiu outra aptidão: conseguir obter depressa a maior quantidade possível de informação sobre qualquer assunto. As questões de que a literatura sempre tratou passaram para segundo plano.

É com enorme tristeza que digo que pertenço à geração dos escritores que se está a despedir de uma determinada ideia de literatura, da sua forma de criação, da sua influência na sociedade e do percurso em que um livro saía das mãos do escritor, chegava ao leitor e acabava por exercer algum efeito duradouro sobre a vida humana. Creio que esse ciclo chegou ao fim. (…)

László Krasznahorkai em entrevista a Isabel Lucas, no Ípsilon (publico.pt)

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Os 50 maiores livros (uma antologia pessoal): XXXIV — Ao Farol (ou Passeio ao Farol), de Virginia Woolf

Os 50 maiores livros (uma antologia pessoal): XXXIV — Ao Farol (ou Passeio ao Farol), de Virginia Woolf

Em diferentes fases da vida, eu li três vezes este livro. E sempre o li como se comesse chocolate, sempre com a intenção de me deliciar mais um pouquinho. Isso não acontece devido a alguma reviravolta na trama, nem a réplicas espirituosas, nem a envolvimentos românticos. Na verdade, Virginia Woolf frequentemente ignora a trama em favor do exame das minúcias, colocando sob seu microscópio as emoções humanas ou, como na seção central deste livro, a maneira como uma casa se decompõe, como se a casa fosse humana. Eu sou um sujeito, acho, que exijo consistência e profundidade naquilo que leio, mas com VW esqueço de tudo. Está frio em Porto Alegre e fiquei mais do que contente em afundar de novo no banho quente deste livro e isso, creio, foi devido aos personagens.

A história acompanha a família Ramsay e suas visitas à Ilha de Skye, na Escócia, de 1910 a 1920. Lá, há enormes ondas, há um céu sempre mudando de humor e, claro, há o brilho do farol. Quando você entra no fluxo da prosa, é difícil escapar. O estilo de escrita de Woolf é propositalmente inovador. Ela cria frases gigantescas seguidas por linhas abruptas e mais curtas. É quase um poema disfarçado de romance. Normalmente não sou fã de poesia. Sempre preferi uma experiência de leitura mais tangível, uma que não seja movida por imagens.

A proximidade com os personagens, a compreensão que VW tem deles é o que os tornou tão envolventes. Eles não são extraordinários — na verdade, até pelo contrário. São tipos intelectuais de classe média, do tipo que você encontra em muitos livros. Pode-se até dizer que eles não oferecem nada de novo, nada para surpreender ou excitar um leitor. No entanto, para mim, a familiaridade com eles era uma prova da habilidade com que foram descritos – porque todo mundo conhece alguém como eles. Virginia Woolf, em algumas centenas de páginas, pareceu capturar exatamente a essência de certas pessoas — certos traços, peculiaridades e maneirismos que posso reconhecer da minha vida, do meu mundo, apesar de estar a cem anos de distância.

Se a Sra. Ramsay é a baseada na figura da mãe de VW, o que dizer de Lily Briscoe? Sua posição fora da família Ramsay torna sua perspectiva uma das mais interessantes e importantes do romance. Sempre senti uma conexão emocional com Lily enquanto ela anseia pelo apoio e amor dos outros. Ela vê a família Ramsay como um símbolo idealizado de amor e união perfeita; no entanto, as outras perspectivas revelam uma realidade muito diferente. Lily é uma constante em todo o romance, assim como o próprio farol. Mesmo quando o tempo passa e certos personagens vêm e vão, Lily está sempre lá com sua pintura, otimismo e introspecção fascinante. Ela é feminina e independente, uma figura contrastante com a Sra. Ramsay. Ou melhor, a feminilidade convencional, representada pela Sra. Ramsay na forma de casamento e família, confunde Lily, e ela, bem, ela talvez seja VW x sua mãe.

Ah, o farol. É o fio condutor que atravessa todo o romance, aquele destino tão desejado pelos filhos da Sra. Ramsay e tão persistentemente evitado pelo Sr. Ramsay. A ênfase contínua em visitar o farol… Ele parece representar uma espécie de objetivo final inatingível. Quando James finalmente chega ao farol depois de anos querendo visitá-lo, ele percebe que ele não se compara ao farol que ele imaginou quando criança. É interessante ver o relacionamento de todos com o farol conforme o romance avança, especialmente na sua seção final.

.oOo.

Compre o livro na Livraria Bamboletras, na Av. Venâncio Aires, 113. Ah, não mora em Porto Alegre? Use o WhatsApp 51 99255 6885. A gente manda!

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Os 50 maiores livros (uma antologia pessoal): XXXIII — Jane Eyre, de Charlotte Brontë

Os 50 maiores livros (uma antologia pessoal): XXXIII — Jane Eyre, de Charlotte Brontë

Eu li todo Jane Eyre (1847) para minha mulher. Fiquei com um carinho todo especial pelo livro. É um daqueles romances que sobrevivem porque, além de ser uma história apaixonante, é uma conjetura — avaliei muito este termo — sobre a liberdade das mulheres. Jane Eyre é o romance de uma mulher que não quis abrir mão de si mesma. Mesmo pobre, primeiro negou-se a ficar com um homem casado, depois recusou o casamento com um sujeito bem estranho, na verdade um gay que desejava um casamento de conveniência, ao menos eu interpretei assim. Aliás, o hétero e o gay eram ambos bem estranhos.

Vale lembrar que Charlotte Brontë seria um caso atípico em qualquer época. Ela era uma escritora de inteligência e alta percepção estilística. Mas também era uma figura excêntrica: era antiquada — com suas apropriações do terror gótico e seu protagonista byroniano-assustador-sedutor –, porém era excepcionalmente progressista em sua representação da situação das governantas e em sua insistência de que o trabalho de mulheres tinha valor. Era também uma forasteira isolada dos principais circuitos literários ingleses, longe da grande metrópole onde gente como Thackeray e Dickens pontificavam. Ela achava Londres um lugar de perigos e vícios inimagináveis. Quando uma amiga visitou a cidade em 1834, Charlotte chegou a escrever uma carta para ela depois, expressando seu espanto por ela ter retornado “inalterada”.

É reveladora é a relação de Brontë com Thackeray. Ela era perspicaz o suficiente para compreender seu gênio, chegando a dedicar-lhe a segunda edição de Jane Eyre devido à sua profunda admiração por A Feira das Vaidades. Felizmente, ela também era distante o suficiente das fofocas literárias para não saber que Thackeray havia escondido sua esposa em um hospício (o fato de um personagem de Jane Eyre ter feito quase o mesmo foi pura coincidência). Seus encontros também foram marcados por confusão: diz-se que Charlotte ficou inicialmente estupefata ao conhecer seu ídolo — e confusa quando ele começou a falar sobre o aroma de charutos, sem perceber que ele estava fazendo uma referência lisonjeira à cena de um capítulo de Jane Eyre em que o cheiro do charuto do Sr. Rochester deixa Jane encantada. Charlotte pareceu não entender…

Mal-entendidos semelhantes ocorreram quando ele organizou uma festa em homenagem a Brontë, em 1849. O problema desta vez foi que ela se recusou a reconhecer que era Currer Bell (o pseudônimo que usara na publicação inicial de Jane Eyre) e só dava respostas curtas e ríspidas. Thackeray ficou puto e acabou saindo de sua própria festa para ir ao clube. Very english.

Quando Jane Eyre foi publicado, sob o pseudônimo masculino de Currer Bell, muitos leitores ficaram impressionados com a intensidade daquela voz narrativa em primeira pessoa. Havia ali uma mulher pobre, órfã e considerada feia que ousava afirmar, com absoluta convicção, sua igualdade diante dos homens. Entre os muitos talentos de Brontë, está a capacidade de nos fazer sentir como se estivéssemos vendo o mundo exatamente como sua narradora o vê. Há a maneira acolhedora como ela nos envolve na história com esse discurso direto a “você”, ao “leitor”, a quem ela convida constantemente a ver o que ela vê. Imaginamos “a luz de uma lamparina a óleo pendurada no teto”, esforçando-nos para ver exatamente a mesma cena sob a mesma luz bruxuleante que Jane. Mas não é apenas o que Jane vê que importa: Brontë também nos leva para o fundo de sua mente e, aparentemente, de sua alma. Mesmo quando ela diz: “Caro leitor, talvez você nunca sinta o que eu senti!”.

Às vezes, Jane Eyre parece um romance gótico. Há a infância quase sob tortura, a mansão isolada, o patrão enigmático, os corredores escuros, os segredos do andar de cima e uma atmosfera de permanente expectativa. Mas Charlotte Brontë utiliza todos esses elementos apenas como cenário. O verdadeiro mistério do romance é o de como preservar a própria dignidade num mundo que tenta, a todo momento, dizer como você deve agir e pensar.

Para mim, a melhor parte da história é o começo, quando Jane está na Escola Lowood, definindo-se como pessoa. O livro poderia ter terminado ali, mas então Jane foi morar com o estranho Rochester a fim de ensinar sua filha. Jane atravessa a infância de forma bem dickensiana, marcada pela humilhação e a severidade da escola. Depois vem o amor por Rochester e as imposições de St. John Rivers. Em cada etapa, ela poderia escolher um caminho mais fácil: submeter-se, aceitando a dependência e os “deveres”. Ela se recusa, mas não é uma rebelde, é apenas íntegra. Jane ama profundamente, porém nunca aceita que o amor custe sua liberdade.

É justamente essa tensão que faz de Rochester e St. John figuras complementares. Rochester representa a paixão hétero que ignora os limites da moral. St. John representa a moral torta que sufoca qualquer possibilidade de paixão. Jane rejeita ambos. Ela busca uma vida em que amor, respeito e autonomia possam coexistir.

Mas Jane Eyre também é um extraordinário romance psicológico. Charlotte Brontë escreve como se acompanhasse o movimento mais íntimo da consciência. Muito antes de Virginia Woolf, ela compreendia que os acontecimentos decisivos da vida não ocorrem apenas no mundo exterior, mas na lenta transformação interior das pessoas. Ao mesmo tempo, o livro é um retrato mordaz da sociedade inglesa vitoriana. A condição feminina, as diferenças de classe, a educação, a religião e a hipocrisia moral aparecem constantemente, mas nunca transformam o romance em panfleto. Charlotte Brontë discute essas questões através de personagens vivos e contraditórios.

E há as perguntas, inúmeras, que nos fazemos durante a leitura. O ponto mais óbvio é a religião. É difícil para nós avaliarmos a sinceridade de Jane em relação à sua fé cristã, particularmente sua atitude em relação ao zelo missionário de seu primo St. John. Será que ainda existe nela a orgulhosa “pagã” e rebelde que ela declara ser nas primeiras páginas? Ela diz uma coisa e quer dizer outra quando professa seu desejo de se submeter aos ideais cristãos? Seu amor inabalável por Rochester é algo que ela mantém apesar (e em oposição) aos ensinamentos da Igreja sobre o casamento — ou existe um conjunto mais complexo de conflitos internos em jogo? O mesquinho e religioso St. John expressa a verdade profunda sobre os homens de fé? Ou ele é simplesmente uma maçã podre? É possível para nós, que tivemos a sorte de crescer em uma sociedade predominantemente secular, sentir a profunda fé que influencia Jane?

Talvez seja essa a razão da permanência do livro. Poucos romances conseguem unir, com tamanha naturalidade, suspense, paixão, crítica social e reflexão moral. Quase dois séculos depois, Jane segue falando a nós porque a busca de uma vida em que seja possível amar sem deixar de ser quem se é universal.

Há um aspecto que me emocionou especialmente nesse romance. Diferentemente de tantas heroínas do século XIX, Jane não vence porque é bela, rica ou socialmente privilegiada. Ela vence porque possui algo muito mais raro: uma consciência independente. Charlotte Brontë parece nos dizer que a verdadeira nobreza não vem do nascimento nem da fortuna, mas da capacidade de permanecer fiel a si mesmo mesmo quando isso exige renúncia. Talvez seja essa a razão de Jane Eyre continuar tão moderno.

Charlotte com filtro, certamente

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Sobre Jane Eyre, de Charlotte Brontë

Sobre Jane Eyre, de Charlotte Brontë

Cada época relê seus clássicos à sua maneira. Estou finalizando a leitura do tremendo romance Jane Eyre e, na minha opinião, St. John Rivers é claramente gay. Isso não interessa? Ah, interessa, sim. Leia o romence! Ele é um gay muito religioso e chato, chato, chato. Acho que, sem poder dizê-lo, Charlotte Brontë faz enorme esforço para exprimir que ele não quer nada com Jane por ser gay, não por ser um ato pecaminoso — claro, o livro é de 1847 e foi originalmente publicado sob o pseudônimo masculino de Currer Bell. Na Inglaterra vitoriana não havia gays (…) e, mais, havia um forte preconceito contra mulheres escritoras, sobretudo quando escreviam obras de grande ambição intelectual ou que abordavam temas considerados impróprios, como desejo feminino, independência ou crítica social. O melhor romance inglês de todos os tempos — Middlemarch — foi escrito por George Eliot, na verdade Mary Ann Evans.

St. John só mostra como Charlotte foi genial. Há muita sexualidade no romance. Vejamos: eJane Eyre, Charlotte Brontë cria dois pólos opostos de masculinidade que cortejam a heroína: de um lado, o fogoso e apaixonado Sr. Rochester; de outro, o frio, austero e devoto St. John Rivers. Enquanto Rochester representa o desejo e a paixão avassaladora, St. John simboliza o dever, a razão e a completa negação do afeto. É exatamente essa repressão extrema que leva muitos leitores a questionar a verdadeira natureza da sexualidade do clérigo. Jane diz que abraçá-lo é como abraçar mármore. Ele tem um profundo incômodo em relação às mulheres. Ele não demonstra qualquer interesse romântico ou atração genuína por Jane, deixando claro que seu pedido de casamento é um ato de dever, não de amor. Para ele, Jane não é uma parceira desejada, mas uma ferramenta útil para seu trabalho missionário. Sua rigidez e frieza são tão marcantes que chegam a ser descritas como uma forma de “insanidade” — uma insanidade fria e controlada que contrasta com a paixão avassaladora de Rochester. A insistência de St. John para que Jane se case com ele e o acompanhe à Índia é vista por alguns não como um ato de amor, mas como uma forma de “predação sexual”, onde ele não deseja seu corpo, mas busca controlar e possuir sua alma. 

A interpretação mais recorrente é que St. John Rivers é um homem que reprime seus próprios desejos, possivelmente homossexuais, ao ponto de se tornar uma figura assexuada. Ele canaliza toda a sua energia para a religião e o trabalho missionário como uma fuga das tentações “pecaminosas” que ele teme e odeia. Essa leitura o transforma em um espelho invertido de Jane: ele representa o caminho que ela poderia ter seguido caso tivesse se fechado completamente para a vida e para o amor, sufocando sua própria natureza apaixonada. A rejeição de Jane a seu pedido de casamento é, sob essa ótica, uma rejeição não apenas de uma vida sem amor, mas também de uma existência marcada pela repressão sexual e espiritual.

Harold Bloom, por exemplo, citou a “ambiguidade do personagem de St. John Rivers”. O próprio nome do personagem, “St. John”, carrega um peso religioso que sugere abstração e frieza sexual, mas sua descrição física é paradoxalmente sexy — rosto grego, nariz clássico, boca ateniense — que contrasta com sua personalidade gelada, criando uma figura de atraente, mas distorcida em algo perigoso e prejudicial, na visão da autora.

Penso que a discussão sobre a sexualidade de St. John Rivers é uma discussão sobre os limites da repressão vitoriana. Mais do que uma afirmação categórica, a teoria de que o personagem é gay serve como uma ferramenta para explorar as profundezas da psiquê do personagem, revelando um homem cuja devoção a Deus e ao dever pode ser, na verdade, uma fuga desesperada de sua própria humanidade.

Um leitor vitoriano enxergava nele um asceta protestante, leitor freudiano veria nele um homem reprimido, um leitor contemporâneo pode identificar traços que remetem à homossexualidade ou à dissociação oculta entre desejo e vocação. Essas interpretações dizem menos de St. John quanto sobre as mudanças nas formas de compreender a sexualidade. Claro, não vou “resolver” a identidade de St. John, estou mais interessado em mostrar como um personagem de 1847 pode seguir provocando novas leituras quase dois séculos depois.

Para finalizar, o texto de Jane Eyre é muito ambíguo. Quando Rosamond Oliver sente-se atraída por St. John, este parece muito mais incomodado por ser objeto de desejo do que por perder Rosamond. Essa diferença é sutil, mas importante. Em Rochester, o super-hétero, o desejo é explosivo e incontido. Em St. John, o desejo parece sempre uma obrigação. Jane não sente que ele a ama, descrevendo esse amor de uma maneira extraordinariamente gelada. É justamente aí que entra a leitura queer. E se Jane estiver interpretando mal? E se St. John nunca tivesse amado Rosamond da maneira convencional? E se sua “luta” fosse de outra natureza?

Bah, que romance genial!

Óbvio que a Livraria Bamboletras tem o livro.

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Sonhando com o Pequenas Grandes Obras (PGO)

Hoje acordei pensando/ainda sonhando na Livraria Bamboletras, seu grupos de leitura e no tipo de mediação que costumo fazer com livros que:

  1. tenham até 250 páginas,
  2. sejam notáveis do ponto de vista literário ,
  3. gerem discussão, não apenas admiração.

Aqui vai uma seleção pensada na cama, ao acordar hoje, ainda com vontade de mijar:

Literatura brasileira

  • A Hora da Estrela (90 p.)
    • Uma leitura inesgotável. Linguagem, pobreza, metaficção, compaixão.
  • São Bernardo (190 p.)
    • Um dos maiores narradores em primeira pessoa da literatura brasileira.
  • O Alienista (80 p.)
    • Sempre atual. Humor, ciência, poder e loucura.
  • Campo Geral (160 p.)
    • Mais acessível que Grande Sertão e de enorme beleza.
  • Lavoura Arcaica (190 p.)
    • Exige mais do leitor, mas deve provocar um belo encontro.
  • Uma vida em segredo
    • Lindo livro de Autran Dourado, mas fora de catálogo.

Literatura inglesa

  • A Volta do Parafuso (150 p.)
    • Fantasmas? Loucura? Excelente debate.
  • O Estranho Caso do Dr. Jekyll e Mr. Hyde (100 p.)
    • Muito mais complexo do que a fama sugere.
  • Mrs. Dalloway (240 p.)
    • Claro.

Literatura francesa

  • A Queda (150 p.)
    • Perfeito para discussão filosófica.
  • O Baile (90 p.)
    • Cruel, elegante e irresistível.

Literatura russa

  • A morte de Ivan Illich (120 p.)
    • Existe novelinha melhor?
  • Memórias do Subsolo (170 p.)
    • Provoca discussões intensas.
  • Primeiro Amor (120 p.)
    • Delicadeza psicológica extraordinária, mas este já foi, animal.
  • A Sonata a Kreutzer (140 p.)
    • Casamento, ciúme, moralidade.

Literatura latino-americana

  • Aura (70 p.)
    • Estranhíssimo e belíssimo.
  • Pedro Páramo (130 p.)
    • Baita livro mexicano. Influenciou García Márquez.
  • O Túnel (170 p.)
    • Suspense psicológico.
  • Crônica de uma Morte Anunciada (120 p.)
    • Talvez o melhor livro para um clube de leitura.

Literatura japonesa

  • A Casa das Belas Adormecidas (130 p.)
    • Desconcertante, mas já foi em abril, debilóide.
  • A Chave (160 p.)
    • Ótimo debate

Literatura alemã

  • Michael Kohlhaas (130 p.)
    • Justiça, vingança e fanatismo.
  • A Metamorfose (80 p.)
    • Nunca decepciona.

Literatura estadunidense

  • Ratos e homens (160 p.)
    • Um Steinbeck tão bom quanto o de “A Vinhas da Ira”.

Meus campeões para a Bamboletras…

  1. A Morte de Ivan Ilitch
  2. Crônica de uma Morte Anunciada
  3. São Bernardo
  4. A Queda
  5. Campo Geral
  6. A Metamorfose
  7. Pedro Páramo
  8. Primeiro Amor (já foi)
  9. A Hora da Estrela
  10. Michael Kohlhaas

Como costumo escolher livros que mudam a ideia do que um romance pode ser: Ao Farol, Vidas Secas, Mata Doce. Acho que valeria a pena manter essa linha e montar um ciclo chamado “Romances que reinventaram a coisa”. Então, além dos citados:

  • A Morte de Ivan Ilitch
  • Pedro Páramo
  • A Hora da Estrela
  • A Queda
  • São Bernardo

Seria um percurso extraordinário: cinco livros relativamente curtos, muito diferentes entre si, mas todos decisivos para a história do romance. Acho que esse ciclo teria muito a ver com a identidade que estamos construindo.

Sim, mediar Ao Farol é loucura. Será terrível mediar um livro quase sem enredo. Se der certo, eu apostaria, sem medo, em Pedro Páramo. É curto, profundamente inovador e costuma provocar discussão. Como Ao Farol, parece confundir o leitor nas primeiras páginas, mas depois revelam uma arquitetura impressionante. Acho que teria tudo a ver com o perfil criado.

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Sobre “Ao Farol”, de Virginia Woolf

Sobre “Ao Farol”, de Virginia Woolf

A mãe de Virginia Woolf, Julia Stephen (1846-1895) era considerada uma das mulheres mais belas da Inglaterra. Ela casou duas vezes, tendo 3 filhos do primeiro casamento e 4 com Leslie Stephen. Virginia, em solteira, era Stephen. Deste modo, Virginia teve 7 irmãos no total: 3 por parte de seus pai e mãe (os Stephen) e 4 meios-irmãos (dos primeiros casamentos dos pais, pois Leslie teve uma filha de seu primeiro casamento).

Julia morreu quando Virginia tinha 13 anos. Virginia era obcecada pela mãe e criou seu retrato perfeito em Ao Farol. Uma de suas irmãs, Vanessa, dizia que sentia a presença de Julia enquanto lia o romance. Virginia escreveu que não lembrava de ter ficado alguma vez sozinha com a mãe, tantos eram os irmãos e as pessoas que circulavam pela casa. Julia serviu de modelo a fotógrafos e aos pré-rafaelitas ingleses. Acho que nosso gosto mudou, mas Ao Farol é um dos maiores romances de todos os tempos, sem dúvida. Que livro!

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Bloomsday 2026

Bloomsday 2026

No último sábado, tive uma tarde muito especial no Instituto Ling, dedicada a dois gigantes da literatura do século XX: James Joyce e Guimarães Rosa.

Minha função foi apenas conduzir a conversa. A riqueza veio dos participantes da mesa: Donaldo Schüller, Kathrin Rosenfield e Sergius Gonzaga. Discutimos linguagem, música, sertão, Dublin, Riobaldo, Leopold Bloom, sexualidade, metafísica e tudo o mais que foi surgindo.

Agradeço ao Instituto Ling pelo risco corrido ao me convidar e aos debatedores por sua sensibilidade, generosidade e inteligência. E também aos músicos e ao público, pela escuta atenta e pela disposição de nos acompanhar por caminhos inesperados.

Há encontros que ocupam uma tarde. Outros ocupam uma tarde e seguem reverberando por dias. Este foi um deles.

Saí de lá novamente convencido de que os mistérios da criação literária são um daqueles privilégios que justificam a nossa passagem por este mundo.

P.S. — A foto “diferente” é do autógrafo do Prof. Donaldo em seu livro sobre Joyce.

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Roteirão para um Bloomsday que analisa Ulysses x Grande Sertão: Veredas

Boa tarde a todas e a todos.

Há comparações literárias que parecem artificiais e há outras que, de tão sugestivas, acabam se impondo. James Joyce e Guimarães Rosa pertencem a mundos muito diferentes: um escreveu sobre Dublin, o outro sobre o sertão; um em inglês, o outro em português; um nasceu na Irlanda, o outro em Minas Gerais. (Aliás, Rosa nasceu em 1908 — enquanto Machado de Assis morria, ele nascia). Porém, voltando a nosso tema, leitores atentos têm frequentemente a sensação de que eles estão dialogando de alguma forma.

Ambos reinventaram a língua. Ambos seguiram a lição de Tolstói: “Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia”. Transformaram territórios locais em universos humanos.

Mas até que ponto essa aproximação é legítima? O que eles realmente têm em comum? E onde terminam as semelhanças e começam as diferenças?

Ah, tenho que apresentar a banda, a cervejaria, o escambau?

Eu sou Milton Ribeiro, livreiro, escritor e jornalista. Como jornalista, preparei várias perguntas para torturar nosso trio convidado.

Abertura: a comparação faz sentido?

  1. James Joyce e Guimarães Rosa tem realmente pontos em comum ou isto é apenas um clichê crítico?
  2. O que se ganha — e o que se perde — ao chamar GR de “Joyce brasileiro”?
  3. Se tivéssemos que apresentar GR a um leitor de Joyce, o que diríamos? E o contrário, apresentando Joyce a um leitor de GR?

A língua como invenção

  1. Em que medida Joyce e Rosa ampliaram os limites de suas respectivas línguas?
  2. Há uma diferença essencial entre os neologismos de Joyce e os de Rosa?
  3. Os dois reinventam a língua pelo mesmo motivo?
  4. O que acontece com a experiência do leitor quando a linguagem deixa de ser transparente — mero meio de referir-se a algo — e passa a chamar atenção para si mesma?
  5. Joyce e Rosa tornam a leitura mais difícil ou mais rica?
  6. É possível traduzir adequadamente escritores que reinventam a própria língua?

Universalizar o local

  1. Como Dublin e o sertão conseguem se tornar universais?
  2. Por que escritores tão profundamente regionais acabam alcançando leitores do mundo inteiro?
  3. O sertão de Rosa desempenha papel semelhante ao de Dublin em Joyce?
  4. Onde nasce a universalidade de ambos?
  5. Há algo especificamente irlandês e especificamente brasileiro que se perde quando falamos do aspecto universal dessas obras?

A erudição ocultya sob a oralidade

  1. Como explicar a convivência entre alta erudição e fala popular nos dois autores?
  2. Até que ponto o leitor precisa conhecer as referências culturais para apreciar suas obras?
  3. Como GR e Joyce usam sua erudição? Como a transformam em matéria narrativa?
  4. A oralidade funciona como máscara para uma construção extremamente sofisticada?
  5. O que aproxima um narrador sertanejo de Rosa de um narrador popular de Joyce?
  6. Quem é o interlocutor de Riobaldo? O próprio Rosa? Uma pessoa urbana e instruída? Um juiz? O leitor?

Os heróis errantes (ou anti-heróis)

  1. O que aproxima Riobaldo e Leopold Bloom?
  2. Podemos chamá-los de heróis ou já pertencem a uma tradição antiheroica?
  3. Em ambos os casos, a viagem é mais interior do que exterior?
  4. Como Joyce e Rosa transformam experiências aparentemente comuns em epopeias?
  5. Em que sentido Bloom e Riobaldo representam o homem moderno?

A ambição de reinventar o romance

  1. Joyce e Rosa mudaram o romance ou apenas levaram tendências já existentes ao limite?
  2. O que havia de radicalmente novo em Ulysses e em Grande Sertão: Veredas?
  3. Quais escritores contemporâneos ainda dialogam com essas experiências?
  4. A ambição formal desses autores aproximou ou afastou (assustou) leitores?

A musicalidade

  1. Como a música opera na prosa de Joyce e Rosa?
  2. A musicalidade é apenas uma questão de sonoridade ou também de estrutura?
  3. Há passagens que deveriam ser lidas em voz alta para serem plenamente apreciadas? (Quando comecei a ler Rosa, senti necessidade de falar o que lia).
  4. Que papel desempenham ritmo, repetição e variação em suas obras?
  5. É possível aproximar certas páginas de Rosa e Joyce de formas musicais específicas?
  6. O ouvido do escritor é tão importante quanto sua imaginação verbal?

Dizendo o indizível

  1. Que experiências humanas os dois tentam expressar que parecem escapar à linguagem comum? Que seriam impossíveis de dizer usando formar convencionais.
  2. O mistério ocupa lugar semelhante em Joyce e Rosa?
  3. Em que medida ambos são escritores metafísicos?
  4. O que significa afirmar que certos trechos de Joyce e Rosa devem ser sentidos antes de serem compreendidos?

Perguntas finais

  1. Se Joyce pudesse ler Grande Sertão: Veredas, o que provavelmente reconheceria como familiar?
  2. Se Rosa pudesse comentar Ulysses, o que mais o impressionaria?
  3. Qual é a maior diferença entre os dois autores?
  4. Afinal, o que explica que dois escritores separados por oceanos, línguas e culturas tenham produzido obras que parecem conversar tão intensamente?
  5. Talvez que a melhor pergunta seja esta:

Joyce e Rosa reinventaram a língua porque eram gênios da linguagem ou porque havia certas experiências humanas que só poderiam ser alcançadas mediante a reinvenção da língua?”

Ela atravessa praticamente todos os temas e tende a gerar respostas muito diferentes, acho eu.

Coisas que lembrei agora (para pesquisar)

— GR leu Ulysses? Sabe-se o que ele pensava sobre Joyce?

— O metafísico em Rosa vem através da tentativa de Riobaldo de descobrir se o diabo existe, o que foi Diadorim e quem ele próprio se tornou. Existe o diabo?

O que é o bem? O que é o amor?

— Joyce pega um homem comum comprando rins para o café da manhã, andando pelas ruas, indo a um enterro, pensando na esposa, e o transforma num equivalente moderno de Ulysses. O romance sugere que o épico não desapareceu; ele está escondido dentro da vida comum. O que é uma consciência humana? O que significa existir dentro do tempo?

Riobaldo olha para o cosmos e pergunta pelo mistério.

Bloom olha para uma barra de sabão, para um anúncio de jornal, para um enterro, para uma lembrança qualquer — e Joyce sugere que o mistério está ali também.

Talvez por isso Rosa pareça um metafísico do sertão, enquanto Joyce é um metafísico do cotidiano.

Ai, que saco, pra que complicar, Milton?

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PGO IV: Roteiro para a moderação de grupos de leitura: Bartleby, de Herman Melville

Bartleby resiste a interpretações únicas. Quanto menos você explicar Bartleby, melhor a conversa costuma ficar. É como uma investigação coletiva de um enigma.

1.Abertura

“Há livros que nos impressionam por aquilo que revelam. Bartleby nos impressiona por aquilo que se recusa a revelar. Mais de 170 anos depois de sua publicação, ainda discutimos quem é Bartleby, o que ele quer e o que Melville pretendia dizer.”

“Qual foi o sentimento predominante ao terminar o livro?”

  • pena
  • irritação
  • perplexidade
  • humor
  • tristeza
  • admiração

A diversidade das respostas já introduz a riqueza do texto.

2. O narrador

Muitas leituras se concentram em Bartleby e esquecem que o narrador é igualmente fascinante.

  • O advogado é um homem bom?
  • Ele é generoso ou apenas deseja parecer generoso?
  • O que sabemos realmente sobre ele?
  • O conto é sobre Bartleby ou sobre o advogado?

Uma observação interessante: Sem o narrador, Bartleby seria apenas um excêntrico. O drama nasce da incapacidade do advogado de compreender o que tem diante de si.

“Quem é o personagem mais estranho deste conto: Bartleby ou o advogado?”

3. Chegue ao centro do livro:

“I would prefer not to”. “Prefiro não fazer” (LPM, Cassia Zanon), “Prefiro não” (Antofágica, Antônio Xerxenesky), “Prefiro não fazê-lo” (Cultrix, Olívia Kränenbühl), “Eu preferia não fazê-lo” (Record, A. B. Pinheiro de Lemos)

  • Bartleby está recusando?
  • Está protestando?
  • Está adoecido?
  • Está exercendo liberdade?

Mostre como a frase é estranha. Ele não diz:

  • “não quero”;
  • “não farei”;
  • “recuso”.

Ele apenas “prefiro não”, “

É uma linguagem sem confronto direto.

Pergunta para o grupo: Por que essa fórmula nos desconcerta tanto?

4. Bartleby como símbolo

Aqui você pode abrir várias possibilidades.

Bartleby seria:

  • um rebelde?
  • um santo?
  • um depressivo?
  • uma vítima do capitalismo? (insegurança, adoecimento e morte de um trabalhador)
  • um niilista?
  • um homem que simplesmente desistiu?

O mais interessante é que o texto sustenta todas essas hipóteses sem confirmar nenhuma.

Você pode perguntar: “Qual interpretação mais convence vocês?”

5. O humor do conto

Muitas pessoas esquecem que Bartleby é muito engraçado.

  • Turkey (bom de manhã, impossível à tarde);
  • Nippers (irritável de manhã, produtivo à tarde);
  • Ginger Nut;
  • as tentativas absurdas do advogado de resolver o problema.

Melville cria situações quase cômicas em torno de algo profundamente trágico.

6. O final

Sem tentar resolvê-lo.

Perguntas:

  • O final provoca tristeza?
  • Revolta?
  • Compaixão?
  • Culpa?

E principalmente: “O advogado falhou com Bartleby?”

Essa vai gerar ótima discussão.

7. O finalzinho

Eu terminaria com uma pergunta ampla:

“Por que um conto tão curto continua sendo lido no mundo inteiro?”

E talvez com uma observação:

“Existem personagens que parecem pessoas. Bartleby parece uma condição humana. Em algum momento da vida, todos nós já sentimos vontade de responder ao mundo: ‘Prefiro não’.”

Para um grupo da Bamboletras, que parece gostar de literatura mais reflexiva, eu apostaria menos na crítica social e mais no mistério existencial. O que torna Bartleby inesquecível não é a denúncia de um sistema? Ou o fato de que ele toca uma região da experiência humana que reconhecemos sem conseguir nomear completamente.

8. O finalzinhoínho

      “Ah, Bartleby! Ah, humanidade!” .

      O narrador está exclamando por Bartleby (o indivíduo) ou pela humanidade (o coletivo falho)? Ele aprendeu alguma coisa no final ou apenas se livrou de um incômodo?

9. Perguntas para fechar

Alegoria do Trabalho Moderno: “Bartleby seria o santo padroeiro do ‘quiet quitting’ (demissão silenciosa) ou alguém que sofre de burnout profundo?” .

Resistência Passiva: “A frase ‘Eu preferiria não’ é uma forma de resistência política válida ou um sintoma de depressão e isolamento?” .

Sobre o Incompreensível: “Devemos tentar explicar Bartleby (excesso de trabalho, luto, loucura) ou a força do conto está justamente na sua recusa em ser explicado?”

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Das traduções de Bartleby

Das traduções de Bartleby

A frase principal de Bartleby nas quatro edições que possuo do livro. Cada um traduz “I would prefer not to” de uma forma diferente.

“Prefiro não fazer” (LPM, Cássia Zanon, 2003),
“Prefiro não” (Antofágica, Antônio Xerxenesky, 2023),
“Prefiro não fazê-lo” (Cultrix, Olívia Kränenbühl, 1985),
“Eu preferia não fazê-lo” (Record, A. B. Pinheiro de Lemos, 1984).

Já que é um clássico do século XIX, eu escolheria uma outra forma, mais antiquada: “Preferiria não fazê-lo”.

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Dia dos Namorados

Dia dos Namorados

Eu vou demonstrar porque você deve dar um livro pro seu amor ou ficante no Dia dos Namorados. Algumas vezes, eu e Elena lemos o mesmo livro ao mesmo tempo ou um após o outro e é maravilhoso. Certa vez, em Bombinhas, a gente foi tomar banho lá longe — somos o terror dos salva-vidas — e, enquanto eles ficavam pensando que a gente ia sucumbir a qualquer momento — fomos advertidos muitas vezes –, nós estávamos era discutindo Os Irmãos Karamázov que ela lia em russo e eu em português. E passamos horas por lá. Sem os livros, claro.

Olha, fofocar ou xingar a família Bolsonaro e sua quadrilha é bom e necessário, mas aqui se trata de amor, gente, não de outra coisa. É Dia dos Namorados, não vá dar um par de meias ou uma camisa que ele vai mentir pra próxima namorada que comprou no Shopee. Dê um livro e escreva uma dedicatória.

QED

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⏰ Horário: Segunda a sábado, das 10h às 19h.
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PGO III: Roteiro para a moderação de grupos de leitura: Vidas Secas, de Graciliano Ramos

Antes de começarmos a falar de Vidas Secas, talvez valha lembrar uma coisa importante: este não é um livro que tenta seduzir o leitor. Graciliano Ramos escreve de maneira seca porque o mundo que ele mostra também é seco — de água, de esperança, de linguagem. E talvez esteja aí uma das grandes forças do romance: ele nos coloca diante de personagens que mal conseguem explicar a própria vida, mas cuja humanidade aparece justamente nesses silêncios, nesses limites, nesses pequenos desejos quase invisíveis.

A pergunta que atravessa o livro talvez seja simples e brutal: o que sobra do ser humano quando quase tudo lhe foi tirado? Porém, Vidas Secas não é apenas um romance sobre pobreza ou sertão. É também um livro sobre linguagem, sobre dignidade, sobre a dificuldade de pensar e sonhar num mundo que parece feito apenas para sobreviver. E, talvez, sobre o quanto disso ainda permanece entre nós.

Linguagem
1. Estrutura fragmentada: capítulos quase autônomos: isso ajuda ou dificulta a leitura?
2. Linguagem enxuta: o que não é dito pesa mais que o dito?
3. A seca como mais que cenário: ela é quase uma personagem?
4. Desumanização: os personagens falam pouco… isso os empobrece ou os protege?
5. Estamos lendo uma história ou um tipo de documentário?

Personagens (especialmente Fabiano e Sinhá Vitória)
1. Fabiano: um bruto ou uma vítima de um sistema que o impede até de pensar?
2. Sinhá Vitória: o sonho da cama — pequeno ou imenso?
3. Relação entre os dois: há afeto? Ou apenas sobrevivência compartilhada?
4. As crianças: o que significa crescer sem linguagem?
5. Eles foram privados até da possibilidade de ser mais em razão da pobreza?

Baleia (o capítulo mais famoso)
1. Por que Baleia é tão bom personagem?
2. Quem chorou lendo o capítulo…?
3. O ponto de vista do animal: o que isso revela sobre os humanos?
4. A morte de Baleia: é o momento mais cruel — ou o mais compassivo do livro?
5. OK, por que sofremos mais por Baleia do que por Fabiano?

Sociedade, destino e sentido
1. O soldado amarelo: violência individual ou sistema?
2. Há crítica social ou apenas exposição?
3. O final: é circular? Há esperança ou é uma condenação eterna?
4. O livro é político, existencial… ou ambos?

Mais
1. A linguagem como limite: quem não tem palavras, tem menos mundo?
2. Animalização X humanidade: linha muito tênue
3. Repetição: a vida como ciclo sem progresso
4. Silêncio: o livro fala muito através dele

Lembrete
Evitar transformar o debate só em “denúncia social”. Claro, é importante, mas dar foco à humanidade é ainda mais importante. O livro é principalmente uma reflexão brutal sobre o que resta no humano quando quase tudo falta.

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Traços em comum de James Joyce e Guimarães Rosa

Há muitos pontos de contato entre James Joyce e João Guimarães Rosa. Apesar de terem surgido em mundos distantes — a Dublin urbana e o sertão mineiro –, ambos reinventaram a língua literária para tentar capturar algo que a linguagem comum não alcançava.

Alguns traços comuns são particularmente fortes:

1. A língua como invenção

Nenhum dos dois se contentava com o idioma “normal”. Joyce distorce o inglês, mistura registros, cria trocadilhos, neologismos e ritmos musicais — sobretudo em Ulysses e radicalmente em Finnegans Wake.

Rosa faz algo semelhante com o português: funde fala sertaneja, arcaísmos, termos eruditos, invenções próprias e ecos de várias línguas. Em Grande Sertão: Veredas, o idioma parece nascer diante do leitor.

Ambos tratam a língua não como instrumento, mas como matéria viva.

2. A tentativa de dizer o indizível

Os dois perseguem experiências difíceis de formular:

— o fluxo da consciência,
— o mistério do mal,
— a memória,
— o tempo,
— a espiritualidade,
— a identidade.

Joyce mergulha na interioridade urbana moderna; Rosa, numa metafísica sertaneja.

3. Musicalidade extrema

Os textos dos dois pedem leitura em voz alta.

Joyce compõe frases quase como partituras. Rosa também trabalha com:

— aliterações,
— ritmos orais,
— repetições,
— sonoridades hipnóticas.

Há páginas de Rosa que lembram encantamentos; páginas de Joyce que parecem peças vocais.

4. Universalizar o local

Isso é fascinante nos dois.

Joyce praticamente nunca saiu literariamente de Dublin. Rosa quase nunca saiu do sertão. Mas ambos transformaram um espaço regional em universo humano total.

Dublin, em Joyce, vira um microcosmo da civilização ocidental. O sertão rosiano vira uma paisagem metafísica do homem.

A famosa frase de Joyce sobre Dublin — “se a cidade desaparecesse, poderia ser reconstruída por meus livros” — combina muito com GR.

5. Erudição escondida sob oralidade

Os dois parecem espontâneos, mas são profundamente arquitetados.

Joyce usa:

Homero, Tomás de Aquino, Shakespeare, liturgia católica, filosofia e todo um mundo.

Rosa mobiliza:

Línguas antigas, mitologia, Bíblia, filosofia, tradição oral, filologia e todo um mundo.

Em ambos, o popular e o erudito convivem o tempo inteiro.

6. O herói errante

Bloom e Riobaldo são viajantes interiores.

Leopold Bloom atravessa um dia comum transformado em epopeia. Riobaldo atravessa o sertão tentando entender o demônio, o amor e o destino. Os dois romances são jornadas tanto geográficas quanto mentais.

7. A ambição de reinventar o romance

Nem Joyce nem Rosa queriam apenas contar histórias. Queriam ampliar as possibilidades da literatura.

Depois deles, escrever do mesmo modo anterior parece… insuficiente.

Por isso ambos são vistos não apenas como grandes escritores nacionais, mas como criadores de linguagem comparáveis aos grandes renovadores do século XX.

Há inclusive leitores que sentem que Rosa é “o Joyce do português” — embora isso simplifique demais os dois. Rosa tem uma dimensão mística e oral muito mais intensa; Joyce é mais urbano, irônico e estruturalmente experimental.

Mas os dois compartilham uma convicção rara: a de que a realidade só pode ser alcançada quando a própria língua entra em estado de aventura.

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Esta semana na história da literatura: o livro Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf, foi publicado em 14 de maio de 1925

Esta semana na história da literatura: o livro Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf, foi publicado em 14 de maio de 1925

A Origem de uma Obra-Prima

Em agosto de 1922, Virginia Woolf abriu uma página em branco de um de seus cadernos a fim de fazer algumas anotações sobre “um livro que talvez se chamasse ‘Em Casa’ ou ‘A Festa’”. Um trecho:

“Este será um livro curto, composto por seis ou sete capítulos, cada um completo em si mesmo, mas que deverá apresentar algum tipo de fusão entre si. Todos devem convergir para a festa no final. Minha ideia é ter alguns personagens, como Mrs. Dalloway, muito em relevo: então ter interlúdios de pensamento, ou reflexão, ou breves digressões (que devem estar relacionadas, logicamente, ao resto), tudo compacto, mas não abrupto.”

Segue-se uma lista de capítulos potenciais, começando com “Mrs. Dalloway in Bond Street”, um conto que ela havia terminado recentemente (e na primeira linha do qual Clarissa Dalloway decide comprar luvas para si mesma), e então esta nota: “Capítulos para serem feitos em um mês, aproximadamente. Deve haver alguma diversão —”.

“Mas se os escritores modernistas nos ensinaram alguma coisa, é que nossa experiência do tempo raramente é linear, que sob a superfície de cada momento presente correm profundas correntes de memória”, escreveu Mark Hussey em seu livro ‘Mrs. Dalloway: Biografia de um Romance’:

“Portanto, embora aquele esboço em seu caderno represente Woolf começando a planejar seu próximo romance, reunindo ideias que vinham amadurecendo há algum tempo, não seria correto considerá-lo como ‘o’ início de Mrs. Dalloway… Podemos identificar muitas fontes para o mundo criado por Woolf em seu quarto romance, mas nenhuma inspiração original específica.”

Ainda assim, em agosto de 1923, um ano depois, ela estava no meio do processo. “Tenho lutado há muito tempo com ‘As Horas’ [título provisório de Woolf para Mrs. Dalloway], que está se revelando um dos meus livros mais tentadores e resistentes”, escreveu ela em seu diário.

“Algumas partes são tão ruins, outras tão boas! Ainda não consigo parar de inventar — ainda. Qual é o problema? Mas quero me revigorar, não me anestesiar, então não direi mais nada. Só preciso observar este sintoma peculiar: a convicção de que continuarei, levarei isso até o fim, porque me interessa escrever sobre isso.”

No dia seguinte, ela acrescentou:

“Sabe, estou pensando freneticamente sobre leitura e escrita. Não tenho tempo para descrever meus planos. Devo falar bastante sobre ‘As Horas’ e minha descoberta: como escavo belas cavernas por trás dos meus personagens; acho que isso me dá exatamente o que quero: humanidade, humor, profundidade. A ideia é que as cavernas se conectem e que cada uma venha à luz do dia”.

As belas cavernas deram frutos. Mrs. Dalloway foi publicado em 14 de maio de 1925 pela Hogarth Press, a editora que Woolf dirigia com seu marido, Leonard Woolf, com uma capa que se tornaria icônica, criada pela irmã de Woolf, Vanessa Bell. Vendeu modestamente, mas desde então se tornou uma das obras mais celebradas — e influentes — do cânone literário inglês.

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Sonho com Caju

Sonho com Caju

Por alguma razão, eu queria ir ao Bairro, um local úmido na Zona Sul de Porto Alegre, que era habitado em sua esmagadora maioria por reacionários. Pedi um Uber e o cara me disse que me levaria até a entrada do Bairro, mas que jamais entraria naquele antro bolsonarista. Concordei.

Chegando no limite determinado pelo motorista, desci do carro e penetrei no Bairro. Era tudo sombrio, escuro mesmo, logo veio um ônibus. Entrei e perguntei ao motorista onde ele ia. Ele me respondeu que todos os ônibus do Bairro eram circulares, que nenhum me levaria para outro lugar que não o próprio Bairro.

— Dou voltas o dia inteiro. Trabalho 24/7. Não tenho folga. Só paro quando morrer.
— E se tu bater com o ônibus?
— Se bater, não sei o que acontece.
— OK — respondi.

Então o ônibus começou a andar pelo Bairro. Era lindo. A arquitetura era gótica, com edifícios enormes. O ônibus entrava nos corredores dos edifícios, belíssimos e úmidos, com água vertendo das paredes cravejadas de pingos. Tudo era grande, imenso e lindo, apesar de lembrar filmes de terror. Tinha muitas esculturas ameaçadoras. Vi alguns monstros de Goya transformados em pedra.

Desci do ônibus, pois avistei um local iluminado. Só podia ser um bar. Era e a placa da porta anunciava em giz branco:

HOJE, ÀS 23h,
SHOW COM O POWER TRIO
“LIBERTÉ, ÉGALITÉ & VAI SE FUDÊ”

Gostei da coisa e entrei. Pouca gente. Pedi uma garrafa inteira de cachaça Weber Haus amburana e esperei pelo show. O trio, somadas as idades, tinha mais de 210 anos. Liberté era baixista e vocalista, Égalité, guitarrista, e Vai se fudê era o baterista. Liberté era até razoável, Égalité era uma merda; quem salvava o grupo era o excepcional Vai se fudê. Parecia o baterista do Angine de Poitrine. Um sujeito exato, se me compreendem. No conjunto, eram bem ruins.

No intervalo do espetáculo, vieram sentar-se comigo. Liberté só queria saber da minha cachaça, Vai se fudê estava quieto e Égalité não parava de falar. De repente, Égalité disse que Vai se fudê estava muito deprimido porque queria que um amigo especial viesse a seu casamento que seria dali um mês.

— O amigo negou-se a vir?
— Não, nem foi convidado.
— E quem é ele?

Égalité me disse que era Paulo Cézar Caju. Fiquei surpreso e perguntei porque Vai não tentava contato. É que Vai queria que uma pessoa culta fizesse o convite, não um borra-bostas como nós. E Égalité me propôs ligar para Caju, pois achou que eu era suficientemente fino para tanto. Fiquei envaidecido. Com a falicidade dos sonhos, peguei o celular e liguei para Caju, que hoje mora na França.

— Caju? Ça va? Tudo bem? Teu amigo Vai se fudê quer a tua presença em seu casamento.
— Pelo Rio Grande do Sul, por essa escumalha, eu não movo uma palha. Mas pelo meu amigo Vai, vou, sim.
— Por que detestas tanto nosso estado?
— Porque tudo aí é falso.
— Mas tu não foste Campeão do Mundo pelo Grêmio?

Ouvi uma risadinha de escárnio da voz grave de Caju.

— Falso Campeão do Mundo — ganhamos um torneio ridículo patrocinado pela Toyota. Falso Grêmio — contrataram eu e o Mário Sérgio só para jogar aquele jogo. Aquilo não era o Grêmio. E jamais me valorizaram, valorizaram só o Mário Sérgio. Ele era branco, claro.
— Tá, mas tu vens pro casamento?
— Vou.

Todos na mesa se animaram. Falamos de música. Égalité confessou que ele, como músico, não existia, que era como a Égalité mesmo!

Corta.

Caju está na minha casa se arrumando para ir ao Bairro. Ele e sua mulher, uma deslumbrante senegalesa, estão se aprontando. São padrinhos de Vai. Caju sai do quarto com um terno cor-de-rosa. Vou causar no Bairro, ele me diz. Pegamos o Uber. Quando chegamos ao bar — o casamento seria lá –, o rosto de Vai se fudê iluminou-se ao ver Caju e sua senagalesa. Eu e Elena entramos atrás. Vai se fudê chorava dizendo meu amigo, meu amigo… A mulher de Vai, uma velhinha magrinha de olhos azuis, tinha lágrimas até no queixo.

E então eu acordei. Estava realmente comovido. Elena, a meu lado, toda coberta, aquecia sua bochecha direita no travesseiro. Mal ela sabia que também chorara ao ver o reencontro dos amigos.

Rivelino e Caju em 1972

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Encontro com o Mar, de Pär Lagerkvist

Encontro com o Mar, de Pär Lagerkvist

Encontro com o Mar (1962) é mais uma obra breve e profunda de Pär Lagerkvist. Novamente, a religião está presente, como em tantos livros deste ateu. Este livro é a continuação de A Morte de Ahasverus. E é uma continuação pra lá de estranha. Estamos no tempo das Cruzadas — Tobias consegue um meio de ir para a Terra Santa. Paga o comandante de um barco pirata para levá-lo. No meio do caminho, após uma luta, temos um longo monólogo de um dos integrantes da tripulação. O livro termina após este monólogo. Lagerkvist não está nem aí para questões de simetria ou para fechar os parênteses que abriu. O livro existe para mostrar o motivo pelo qual um padre abandonou a batina: a luxúria. Tudo diante de uma enorme mar enigmático, mais velho que todos nós.

No navio estão o Capitão — homem minúsculo de voz frágil que governa a todos com mão de ferro –, o Gigante — especialista em pilhagens e ataques brutais –, Ferrante — movido por insaciável desejo de riquezas e pela pura maldade –, e Giusto — o pusilânime. Mas é com Giovanni que Tobias estabelece o vínculo mais profundo. Como o ex-padre acabou naquele antro de marginais? Criado pela mãe viúva para tornar-se sacerdote, vivendo na mais estrita observância dos dogmas, Giovanni sucumbe ao desejo sexual quando ouve a confissão de uma mulher casada atormentada por uma paixão adúltera. A voz e o hálito da mulher… O confessor, enredado pela voz, transforma-se em amante.

A escrita é característica do autor: austera, precisa, despojada. Cada frase parece medida para dizer apenas o essencial, e justamente por isso ganha densidade. Não há excesso emocional, mas uma contenção que intensifica o efeito. O leitor é tão convidado a acompanhar a história, quanto a habitar um estado de espírito. Como em outras obras de Lagerkvist, a busca pela fé é a busca pelo sentido. Não há como ir adiante. O mar, nesse contexto, pode ser lido tanto como ausência de Deus quanto como sua manifestação mais enigmática.

Para leitores que apreciam a ficção escandinava de inquirição filosófica — algo na linhagem de Ingmar Bergman –, Encontro com o mar é uma joia breve, densa e inesquecível. Não se trata de um romance de ação, mas de um longo e sereno confronto com as perguntas que não se calam: o que separa um padre de um pirata? A fé resiste ao desejo? E, acima de tudo, há paz possível?

Pär Lagerkvist

 

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