De uma entrevista do romancista húngaro László Krasznahorkai

(…) Nunca saberemos quantos dos livros que hoje vou autografar serão efectivamente lidos além da página em que fica a dedicatória. Alguém chegará ao fim desses livros? A literatura sofreu uma transformação enorme.

Tenho a impressão de que a literatura contemporânea esqueceu praticamente tudo o que aconteceu durante o século XX. Desde Marcel Proust até James Joyce, Samuel Beckett, Thomas Bernhard​ ou Fernando Pessoa a literatura percorreu um caminho extraordinário. No entanto, hoje parece ter regressado à linguagem e às estruturas narrativas do século XIX: quanto mais acessível e fácil de consumir for um livro, maior é o seu sucesso.

No início isso surpreendia-me. Depois percebi a razão: esses livros podem ser lidos sem grande esforço e praticamente sem bagagem cultural. A literatura mais exigente requer prática de leitura e formação cultural. Hoje a formação mudou profundamente. O conhecimento dos clássicos e das humanidades perdeu espaço. No seu lugar surgiu outra aptidão: conseguir obter depressa a maior quantidade possível de informação sobre qualquer assunto. As questões de que a literatura sempre tratou passaram para segundo plano.

É com enorme tristeza que digo que pertenço à geração dos escritores que se está a despedir de uma determinada ideia de literatura, da sua forma de criação, da sua influência na sociedade e do percurso em que um livro saía das mãos do escritor, chegava ao leitor e acabava por exercer algum efeito duradouro sobre a vida humana. Creio que esse ciclo chegou ao fim. (…)

László Krasznahorkai em entrevista a Isabel Lucas, no Ípsilon (publico.pt)

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Os 50 maiores livros (uma antologia pessoal): XXXIV — Ao Farol (ou Passeio ao Farol), de Virginia Woolf

Os 50 maiores livros (uma antologia pessoal): XXXIV — Ao Farol (ou Passeio ao Farol), de Virginia Woolf

Em diferentes fases da vida, eu li três vezes este livro. E sempre o li como se comesse chocolate, sempre com a intenção de me deliciar mais um pouquinho. Isso não acontece devido a alguma reviravolta na trama, nem a réplicas espirituosas, nem a envolvimentos românticos. Na verdade, Virginia Woolf frequentemente ignora a trama em favor do exame das minúcias, colocando sob seu microscópio as emoções humanas ou, como na seção central deste livro, a maneira como uma casa se decompõe, como se a casa fosse humana. Eu sou um sujeito, acho, que exijo consistência e profundidade naquilo que leio, mas com VW esqueço de tudo. Está frio em Porto Alegre e fiquei mais do que contente em afundar de novo no banho quente deste livro e isso, creio, foi devido aos personagens.

A história acompanha a família Ramsay e suas visitas à Ilha de Skye, na Escócia, de 1910 a 1920. Lá, há enormes ondas, há um céu sempre mudando de humor e, claro, há o brilho do farol. Quando você entra no fluxo da prosa, é difícil escapar. O estilo de escrita de Woolf é propositalmente inovador. Ela cria frases gigantescas seguidas por linhas abruptas e mais curtas. É quase um poema disfarçado de romance. Normalmente não sou fã de poesia. Sempre preferi uma experiência de leitura mais tangível, uma que não seja movida por imagens.

A proximidade com os personagens, a compreensão que VW tem deles é o que os tornou tão envolventes. Eles não são extraordinários — na verdade, até pelo contrário. São tipos intelectuais de classe média, do tipo que você encontra em muitos livros. Pode-se até dizer que eles não oferecem nada de novo, nada para surpreender ou excitar um leitor. No entanto, para mim, a familiaridade com eles era uma prova da habilidade com que foram descritos – porque todo mundo conhece alguém como eles. Virginia Woolf, em algumas centenas de páginas, pareceu capturar exatamente a essência de certas pessoas — certos traços, peculiaridades e maneirismos que posso reconhecer da minha vida, do meu mundo, apesar de estar a cem anos de distância.

Se a Sra. Ramsay é a baseada na figura da mãe de VW, o que dizer de Lily Briscoe? Sua posição fora da família Ramsay torna sua perspectiva uma das mais interessantes e importantes do romance. Sempre senti uma conexão emocional com Lily enquanto ela anseia pelo apoio e amor dos outros. Ela vê a família Ramsay como um símbolo idealizado de amor e união perfeita; no entanto, as outras perspectivas revelam uma realidade muito diferente. Lily é uma constante em todo o romance, assim como o próprio farol. Mesmo quando o tempo passa e certos personagens vêm e vão, Lily está sempre lá com sua pintura, otimismo e introspecção fascinante. Ela é feminina e independente, uma figura contrastante com a Sra. Ramsay. Ou melhor, a feminilidade convencional, representada pela Sra. Ramsay na forma de casamento e família, confunde Lily, e ela, bem, ela talvez seja VW x sua mãe.

Ah, o farol. É o fio condutor que atravessa todo o romance, aquele destino tão desejado pelos filhos da Sra. Ramsay e tão persistentemente evitado pelo Sr. Ramsay. A ênfase contínua em visitar o farol… Ele parece representar uma espécie de objetivo final inatingível. Quando James finalmente chega ao farol depois de anos querendo visitá-lo, ele percebe que ele não se compara ao farol que ele imaginou quando criança. É interessante ver o relacionamento de todos com o farol conforme o romance avança, especialmente na sua seção final.

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Compre o livro na Livraria Bamboletras, na Av. Venâncio Aires, 113. Ah, não mora em Porto Alegre? Use o WhatsApp 51 99255 6885. A gente manda!

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Os 50 maiores livros (uma antologia pessoal): XXXIII — Jane Eyre, de Charlotte Brontë

Os 50 maiores livros (uma antologia pessoal): XXXIII — Jane Eyre, de Charlotte Brontë

Eu li todo Jane Eyre (1847) para minha mulher. Fiquei com um carinho todo especial pelo livro. É um daqueles romances que sobrevivem porque, além de ser uma história apaixonante, é uma conjetura — avaliei muito este termo — sobre a liberdade das mulheres. Jane Eyre é o romance de uma mulher que não quis abrir mão de si mesma. Mesmo pobre, primeiro negou-se a ficar com um homem casado, depois recusou o casamento com um sujeito bem estranho, na verdade um gay que desejava um casamento de conveniência, ao menos eu interpretei assim. Aliás, o hétero e o gay eram ambos bem estranhos.

Vale lembrar que Charlotte Brontë seria um caso atípico em qualquer época. Ela era uma escritora de inteligência e alta percepção estilística. Mas também era uma figura excêntrica: era antiquada — com suas apropriações do terror gótico e seu protagonista byroniano-assustador-sedutor –, porém era excepcionalmente progressista em sua representação da situação das governantas e em sua insistência de que o trabalho de mulheres tinha valor. Era também uma forasteira isolada dos principais circuitos literários ingleses, longe da grande metrópole onde gente como Thackeray e Dickens pontificavam. Ela achava Londres um lugar de perigos e vícios inimagináveis. Quando uma amiga visitou a cidade em 1834, Charlotte chegou a escrever uma carta para ela depois, expressando seu espanto por ela ter retornado “inalterada”.

É reveladora é a relação de Brontë com Thackeray. Ela era perspicaz o suficiente para compreender seu gênio, chegando a dedicar-lhe a segunda edição de Jane Eyre devido à sua profunda admiração por A Feira das Vaidades. Felizmente, ela também era distante o suficiente das fofocas literárias para não saber que Thackeray havia escondido sua esposa em um hospício (o fato de um personagem de Jane Eyre ter feito quase o mesmo foi pura coincidência). Seus encontros também foram marcados por confusão: diz-se que Charlotte ficou inicialmente estupefata ao conhecer seu ídolo — e confusa quando ele começou a falar sobre o aroma de charutos, sem perceber que ele estava fazendo uma referência lisonjeira à cena de um capítulo de Jane Eyre em que o cheiro do charuto do Sr. Rochester deixa Jane encantada. Charlotte pareceu não entender…

Mal-entendidos semelhantes ocorreram quando ele organizou uma festa em homenagem a Brontë, em 1849. O problema desta vez foi que ela se recusou a reconhecer que era Currer Bell (o pseudônimo que usara na publicação inicial de Jane Eyre) e só dava respostas curtas e ríspidas. Thackeray ficou puto e acabou saindo de sua própria festa para ir ao clube. Very english.

Quando Jane Eyre foi publicado, sob o pseudônimo masculino de Currer Bell, muitos leitores ficaram impressionados com a intensidade daquela voz narrativa em primeira pessoa. Havia ali uma mulher pobre, órfã e considerada feia que ousava afirmar, com absoluta convicção, sua igualdade diante dos homens. Entre os muitos talentos de Brontë, está a capacidade de nos fazer sentir como se estivéssemos vendo o mundo exatamente como sua narradora o vê. Há a maneira acolhedora como ela nos envolve na história com esse discurso direto a “você”, ao “leitor”, a quem ela convida constantemente a ver o que ela vê. Imaginamos “a luz de uma lamparina a óleo pendurada no teto”, esforçando-nos para ver exatamente a mesma cena sob a mesma luz bruxuleante que Jane. Mas não é apenas o que Jane vê que importa: Brontë também nos leva para o fundo de sua mente e, aparentemente, de sua alma. Mesmo quando ela diz: “Caro leitor, talvez você nunca sinta o que eu senti!”.

Às vezes, Jane Eyre parece um romance gótico. Há a infância quase sob tortura, a mansão isolada, o patrão enigmático, os corredores escuros, os segredos do andar de cima e uma atmosfera de permanente expectativa. Mas Charlotte Brontë utiliza todos esses elementos apenas como cenário. O verdadeiro mistério do romance é o de como preservar a própria dignidade num mundo que tenta, a todo momento, dizer como você deve agir e pensar.

Para mim, a melhor parte da história é o começo, quando Jane está na Escola Lowood, definindo-se como pessoa. O livro poderia ter terminado ali, mas então Jane foi morar com o estranho Rochester a fim de ensinar sua filha. Jane atravessa a infância de forma bem dickensiana, marcada pela humilhação e a severidade da escola. Depois vem o amor por Rochester e as imposições de St. John Rivers. Em cada etapa, ela poderia escolher um caminho mais fácil: submeter-se, aceitando a dependência e os “deveres”. Ela se recusa, mas não é uma rebelde, é apenas íntegra. Jane ama profundamente, porém nunca aceita que o amor custe sua liberdade.

É justamente essa tensão que faz de Rochester e St. John figuras complementares. Rochester representa a paixão hétero que ignora os limites da moral. St. John representa a moral torta que sufoca qualquer possibilidade de paixão. Jane rejeita ambos. Ela busca uma vida em que amor, respeito e autonomia possam coexistir.

Mas Jane Eyre também é um extraordinário romance psicológico. Charlotte Brontë escreve como se acompanhasse o movimento mais íntimo da consciência. Muito antes de Virginia Woolf, ela compreendia que os acontecimentos decisivos da vida não ocorrem apenas no mundo exterior, mas na lenta transformação interior das pessoas. Ao mesmo tempo, o livro é um retrato mordaz da sociedade inglesa vitoriana. A condição feminina, as diferenças de classe, a educação, a religião e a hipocrisia moral aparecem constantemente, mas nunca transformam o romance em panfleto. Charlotte Brontë discute essas questões através de personagens vivos e contraditórios.

E há as perguntas, inúmeras, que nos fazemos durante a leitura. O ponto mais óbvio é a religião. É difícil para nós avaliarmos a sinceridade de Jane em relação à sua fé cristã, particularmente sua atitude em relação ao zelo missionário de seu primo St. John. Será que ainda existe nela a orgulhosa “pagã” e rebelde que ela declara ser nas primeiras páginas? Ela diz uma coisa e quer dizer outra quando professa seu desejo de se submeter aos ideais cristãos? Seu amor inabalável por Rochester é algo que ela mantém apesar (e em oposição) aos ensinamentos da Igreja sobre o casamento — ou existe um conjunto mais complexo de conflitos internos em jogo? O mesquinho e religioso St. John expressa a verdade profunda sobre os homens de fé? Ou ele é simplesmente uma maçã podre? É possível para nós, que tivemos a sorte de crescer em uma sociedade predominantemente secular, sentir a profunda fé que influencia Jane?

Talvez seja essa a razão da permanência do livro. Poucos romances conseguem unir, com tamanha naturalidade, suspense, paixão, crítica social e reflexão moral. Quase dois séculos depois, Jane segue falando a nós porque a busca de uma vida em que seja possível amar sem deixar de ser quem se é universal.

Há um aspecto que me emocionou especialmente nesse romance. Diferentemente de tantas heroínas do século XIX, Jane não vence porque é bela, rica ou socialmente privilegiada. Ela vence porque possui algo muito mais raro: uma consciência independente. Charlotte Brontë parece nos dizer que a verdadeira nobreza não vem do nascimento nem da fortuna, mas da capacidade de permanecer fiel a si mesmo mesmo quando isso exige renúncia. Talvez seja essa a razão de Jane Eyre continuar tão moderno.

Charlotte com filtro, certamente

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Sobre Jane Eyre, de Charlotte Brontë

Sobre Jane Eyre, de Charlotte Brontë

Cada época relê seus clássicos à sua maneira. Estou finalizando a leitura do tremendo romance Jane Eyre e, na minha opinião, St. John Rivers é claramente gay. Isso não interessa? Ah, interessa, sim. Leia o romence! Ele é um gay muito religioso e chato, chato, chato. Acho que, sem poder dizê-lo, Charlotte Brontë faz enorme esforço para exprimir que ele não quer nada com Jane por ser gay, não por ser um ato pecaminoso — claro, o livro é de 1847 e foi originalmente publicado sob o pseudônimo masculino de Currer Bell. Na Inglaterra vitoriana não havia gays (…) e, mais, havia um forte preconceito contra mulheres escritoras, sobretudo quando escreviam obras de grande ambição intelectual ou que abordavam temas considerados impróprios, como desejo feminino, independência ou crítica social. O melhor romance inglês de todos os tempos — Middlemarch — foi escrito por George Eliot, na verdade Mary Ann Evans.

St. John só mostra como Charlotte foi genial. Há muita sexualidade no romance. Vejamos: eJane Eyre, Charlotte Brontë cria dois pólos opostos de masculinidade que cortejam a heroína: de um lado, o fogoso e apaixonado Sr. Rochester; de outro, o frio, austero e devoto St. John Rivers. Enquanto Rochester representa o desejo e a paixão avassaladora, St. John simboliza o dever, a razão e a completa negação do afeto. É exatamente essa repressão extrema que leva muitos leitores a questionar a verdadeira natureza da sexualidade do clérigo. Jane diz que abraçá-lo é como abraçar mármore. Ele tem um profundo incômodo em relação às mulheres. Ele não demonstra qualquer interesse romântico ou atração genuína por Jane, deixando claro que seu pedido de casamento é um ato de dever, não de amor. Para ele, Jane não é uma parceira desejada, mas uma ferramenta útil para seu trabalho missionário. Sua rigidez e frieza são tão marcantes que chegam a ser descritas como uma forma de “insanidade” — uma insanidade fria e controlada que contrasta com a paixão avassaladora de Rochester. A insistência de St. John para que Jane se case com ele e o acompanhe à Índia é vista por alguns não como um ato de amor, mas como uma forma de “predação sexual”, onde ele não deseja seu corpo, mas busca controlar e possuir sua alma. 

A interpretação mais recorrente é que St. John Rivers é um homem que reprime seus próprios desejos, possivelmente homossexuais, ao ponto de se tornar uma figura assexuada. Ele canaliza toda a sua energia para a religião e o trabalho missionário como uma fuga das tentações “pecaminosas” que ele teme e odeia. Essa leitura o transforma em um espelho invertido de Jane: ele representa o caminho que ela poderia ter seguido caso tivesse se fechado completamente para a vida e para o amor, sufocando sua própria natureza apaixonada. A rejeição de Jane a seu pedido de casamento é, sob essa ótica, uma rejeição não apenas de uma vida sem amor, mas também de uma existência marcada pela repressão sexual e espiritual.

Harold Bloom, por exemplo, citou a “ambiguidade do personagem de St. John Rivers”. O próprio nome do personagem, “St. John”, carrega um peso religioso que sugere abstração e frieza sexual, mas sua descrição física é paradoxalmente sexy — rosto grego, nariz clássico, boca ateniense — que contrasta com sua personalidade gelada, criando uma figura de atraente, mas distorcida em algo perigoso e prejudicial, na visão da autora.

Penso que a discussão sobre a sexualidade de St. John Rivers é uma discussão sobre os limites da repressão vitoriana. Mais do que uma afirmação categórica, a teoria de que o personagem é gay serve como uma ferramenta para explorar as profundezas da psiquê do personagem, revelando um homem cuja devoção a Deus e ao dever pode ser, na verdade, uma fuga desesperada de sua própria humanidade.

Um leitor vitoriano enxergava nele um asceta protestante, leitor freudiano veria nele um homem reprimido, um leitor contemporâneo pode identificar traços que remetem à homossexualidade ou à dissociação oculta entre desejo e vocação. Essas interpretações dizem menos de St. John quanto sobre as mudanças nas formas de compreender a sexualidade. Claro, não vou “resolver” a identidade de St. John, estou mais interessado em mostrar como um personagem de 1847 pode seguir provocando novas leituras quase dois séculos depois.

Para finalizar, o texto de Jane Eyre é muito ambíguo. Quando Rosamond Oliver sente-se atraída por St. John, este parece muito mais incomodado por ser objeto de desejo do que por perder Rosamond. Essa diferença é sutil, mas importante. Em Rochester, o super-hétero, o desejo é explosivo e incontido. Em St. John, o desejo parece sempre uma obrigação. Jane não sente que ele a ama, descrevendo esse amor de uma maneira extraordinariamente gelada. É justamente aí que entra a leitura queer. E se Jane estiver interpretando mal? E se St. John nunca tivesse amado Rosamond da maneira convencional? E se sua “luta” fosse de outra natureza?

Bah, que romance genial!

Óbvio que a Livraria Bamboletras tem o livro.

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Sonhando com o Pequenas Grandes Obras (PGO)

Hoje acordei pensando/ainda sonhando na Livraria Bamboletras, seu grupos de leitura e no tipo de mediação que costumo fazer com livros que:

  1. tenham até 250 páginas,
  2. sejam notáveis do ponto de vista literário ,
  3. gerem discussão, não apenas admiração.

Aqui vai uma seleção pensada na cama, ao acordar hoje, ainda com vontade de mijar:

Literatura brasileira

  • A Hora da Estrela (90 p.)
    • Uma leitura inesgotável. Linguagem, pobreza, metaficção, compaixão.
  • São Bernardo (190 p.)
    • Um dos maiores narradores em primeira pessoa da literatura brasileira.
  • O Alienista (80 p.)
    • Sempre atual. Humor, ciência, poder e loucura.
  • Campo Geral (160 p.)
    • Mais acessível que Grande Sertão e de enorme beleza.
  • Lavoura Arcaica (190 p.)
    • Exige mais do leitor, mas deve provocar um belo encontro.
  • Uma vida em segredo
    • Lindo livro de Autran Dourado, mas fora de catálogo.

Literatura inglesa

  • A Volta do Parafuso (150 p.)
    • Fantasmas? Loucura? Excelente debate.
  • O Estranho Caso do Dr. Jekyll e Mr. Hyde (100 p.)
    • Muito mais complexo do que a fama sugere.
  • Mrs. Dalloway (240 p.)
    • Claro.

Literatura francesa

  • A Queda (150 p.)
    • Perfeito para discussão filosófica.
  • O Baile (90 p.)
    • Cruel, elegante e irresistível.

Literatura russa

  • A morte de Ivan Illich (120 p.)
    • Existe novelinha melhor?
  • Memórias do Subsolo (170 p.)
    • Provoca discussões intensas.
  • Primeiro Amor (120 p.)
    • Delicadeza psicológica extraordinária, mas este já foi, animal.
  • A Sonata a Kreutzer (140 p.)
    • Casamento, ciúme, moralidade.

Literatura latino-americana

  • Aura (70 p.)
    • Estranhíssimo e belíssimo.
  • Pedro Páramo (130 p.)
    • Baita livro mexicano. Influenciou García Márquez.
  • O Túnel (170 p.)
    • Suspense psicológico.
  • Crônica de uma Morte Anunciada (120 p.)
    • Talvez o melhor livro para um clube de leitura.

Literatura japonesa

  • A Casa das Belas Adormecidas (130 p.)
    • Desconcertante, mas já foi em abril, debilóide.
  • A Chave (160 p.)
    • Ótimo debate

Literatura alemã

  • Michael Kohlhaas (130 p.)
    • Justiça, vingança e fanatismo.
  • A Metamorfose (80 p.)
    • Nunca decepciona.

Literatura estadunidense

  • Ratos e homens (160 p.)
    • Um Steinbeck tão bom quanto o de “A Vinhas da Ira”.

Meus campeões para a Bamboletras…

  1. A Morte de Ivan Ilitch
  2. Crônica de uma Morte Anunciada
  3. São Bernardo
  4. A Queda
  5. Campo Geral
  6. A Metamorfose
  7. Pedro Páramo
  8. Primeiro Amor (já foi)
  9. A Hora da Estrela
  10. Michael Kohlhaas

Como costumo escolher livros que mudam a ideia do que um romance pode ser: Ao Farol, Vidas Secas, Mata Doce. Acho que valeria a pena manter essa linha e montar um ciclo chamado “Romances que reinventaram a coisa”. Então, além dos citados:

  • A Morte de Ivan Ilitch
  • Pedro Páramo
  • A Hora da Estrela
  • A Queda
  • São Bernardo

Seria um percurso extraordinário: cinco livros relativamente curtos, muito diferentes entre si, mas todos decisivos para a história do romance. Acho que esse ciclo teria muito a ver com a identidade que estamos construindo.

Sim, mediar Ao Farol é loucura. Será terrível mediar um livro quase sem enredo. Se der certo, eu apostaria, sem medo, em Pedro Páramo. É curto, profundamente inovador e costuma provocar discussão. Como Ao Farol, parece confundir o leitor nas primeiras páginas, mas depois revelam uma arquitetura impressionante. Acho que teria tudo a ver com o perfil criado.

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Sobre “Ao Farol”, de Virginia Woolf

Sobre “Ao Farol”, de Virginia Woolf

A mãe de Virginia Woolf, Julia Stephen (1846-1895) era considerada uma das mulheres mais belas da Inglaterra. Ela casou duas vezes, tendo 3 filhos do primeiro casamento e 4 com Leslie Stephen. Virginia, em solteira, era Stephen. Deste modo, Virginia teve 7 irmãos no total: 3 por parte de seus pai e mãe (os Stephen) e 4 meios-irmãos (dos primeiros casamentos dos pais, pois Leslie teve uma filha de seu primeiro casamento).

Julia morreu quando Virginia tinha 13 anos. Virginia era obcecada pela mãe e criou seu retrato perfeito em Ao Farol. Uma de suas irmãs, Vanessa, dizia que sentia a presença de Julia enquanto lia o romance. Virginia escreveu que não lembrava de ter ficado alguma vez sozinha com a mãe, tantos eram os irmãos e as pessoas que circulavam pela casa. Julia serviu de modelo a fotógrafos e aos pré-rafaelitas ingleses. Acho que nosso gosto mudou, mas Ao Farol é um dos maiores romances de todos os tempos, sem dúvida. Que livro!

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Bloomsday 2026

Bloomsday 2026

No último sábado, tive uma tarde muito especial no Instituto Ling, dedicada a dois gigantes da literatura do século XX: James Joyce e Guimarães Rosa.

Minha função foi apenas conduzir a conversa. A riqueza veio dos participantes da mesa: Donaldo Schüller, Kathrin Rosenfield e Sergius Gonzaga. Discutimos linguagem, música, sertão, Dublin, Riobaldo, Leopold Bloom, sexualidade, metafísica e tudo o mais que foi surgindo.

Agradeço ao Instituto Ling pelo risco corrido ao me convidar e aos debatedores por sua sensibilidade, generosidade e inteligência. E também aos músicos e ao público, pela escuta atenta e pela disposição de nos acompanhar por caminhos inesperados.

Há encontros que ocupam uma tarde. Outros ocupam uma tarde e seguem reverberando por dias. Este foi um deles.

Saí de lá novamente convencido de que os mistérios da criação literária são um daqueles privilégios que justificam a nossa passagem por este mundo.

P.S. — A foto “diferente” é do autógrafo do Prof. Donaldo em seu livro sobre Joyce.

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Roteirão para um Bloomsday que analisa Ulysses x Grande Sertão: Veredas

Boa tarde a todas e a todos.

Há comparações literárias que parecem artificiais e há outras que, de tão sugestivas, acabam se impondo. James Joyce e Guimarães Rosa pertencem a mundos muito diferentes: um escreveu sobre Dublin, o outro sobre o sertão; um em inglês, o outro em português; um nasceu na Irlanda, o outro em Minas Gerais. (Aliás, Rosa nasceu em 1908 — enquanto Machado de Assis morria, ele nascia). Porém, voltando a nosso tema, leitores atentos têm frequentemente a sensação de que eles estão dialogando de alguma forma.

Ambos reinventaram a língua. Ambos seguiram a lição de Tolstói: “Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia”. Transformaram territórios locais em universos humanos.

Mas até que ponto essa aproximação é legítima? O que eles realmente têm em comum? E onde terminam as semelhanças e começam as diferenças?

Ah, tenho que apresentar a banda, a cervejaria, o escambau?

Eu sou Milton Ribeiro, livreiro, escritor e jornalista. Como jornalista, preparei várias perguntas para torturar nosso trio convidado.

Abertura: a comparação faz sentido?

  1. James Joyce e Guimarães Rosa tem realmente pontos em comum ou isto é apenas um clichê crítico?
  2. O que se ganha — e o que se perde — ao chamar GR de “Joyce brasileiro”?
  3. Se tivéssemos que apresentar GR a um leitor de Joyce, o que diríamos? E o contrário, apresentando Joyce a um leitor de GR?

A língua como invenção

  1. Em que medida Joyce e Rosa ampliaram os limites de suas respectivas línguas?
  2. Há uma diferença essencial entre os neologismos de Joyce e os de Rosa?
  3. Os dois reinventam a língua pelo mesmo motivo?
  4. O que acontece com a experiência do leitor quando a linguagem deixa de ser transparente — mero meio de referir-se a algo — e passa a chamar atenção para si mesma?
  5. Joyce e Rosa tornam a leitura mais difícil ou mais rica?
  6. É possível traduzir adequadamente escritores que reinventam a própria língua?

Universalizar o local

  1. Como Dublin e o sertão conseguem se tornar universais?
  2. Por que escritores tão profundamente regionais acabam alcançando leitores do mundo inteiro?
  3. O sertão de Rosa desempenha papel semelhante ao de Dublin em Joyce?
  4. Onde nasce a universalidade de ambos?
  5. Há algo especificamente irlandês e especificamente brasileiro que se perde quando falamos do aspecto universal dessas obras?

A erudição ocultya sob a oralidade

  1. Como explicar a convivência entre alta erudição e fala popular nos dois autores?
  2. Até que ponto o leitor precisa conhecer as referências culturais para apreciar suas obras?
  3. Como GR e Joyce usam sua erudição? Como a transformam em matéria narrativa?
  4. A oralidade funciona como máscara para uma construção extremamente sofisticada?
  5. O que aproxima um narrador sertanejo de Rosa de um narrador popular de Joyce?
  6. Quem é o interlocutor de Riobaldo? O próprio Rosa? Uma pessoa urbana e instruída? Um juiz? O leitor?

Os heróis errantes (ou anti-heróis)

  1. O que aproxima Riobaldo e Leopold Bloom?
  2. Podemos chamá-los de heróis ou já pertencem a uma tradição antiheroica?
  3. Em ambos os casos, a viagem é mais interior do que exterior?
  4. Como Joyce e Rosa transformam experiências aparentemente comuns em epopeias?
  5. Em que sentido Bloom e Riobaldo representam o homem moderno?

A ambição de reinventar o romance

  1. Joyce e Rosa mudaram o romance ou apenas levaram tendências já existentes ao limite?
  2. O que havia de radicalmente novo em Ulysses e em Grande Sertão: Veredas?
  3. Quais escritores contemporâneos ainda dialogam com essas experiências?
  4. A ambição formal desses autores aproximou ou afastou (assustou) leitores?

A musicalidade

  1. Como a música opera na prosa de Joyce e Rosa?
  2. A musicalidade é apenas uma questão de sonoridade ou também de estrutura?
  3. Há passagens que deveriam ser lidas em voz alta para serem plenamente apreciadas? (Quando comecei a ler Rosa, senti necessidade de falar o que lia).
  4. Que papel desempenham ritmo, repetição e variação em suas obras?
  5. É possível aproximar certas páginas de Rosa e Joyce de formas musicais específicas?
  6. O ouvido do escritor é tão importante quanto sua imaginação verbal?

Dizendo o indizível

  1. Que experiências humanas os dois tentam expressar que parecem escapar à linguagem comum? Que seriam impossíveis de dizer usando formar convencionais.
  2. O mistério ocupa lugar semelhante em Joyce e Rosa?
  3. Em que medida ambos são escritores metafísicos?
  4. O que significa afirmar que certos trechos de Joyce e Rosa devem ser sentidos antes de serem compreendidos?

Perguntas finais

  1. Se Joyce pudesse ler Grande Sertão: Veredas, o que provavelmente reconheceria como familiar?
  2. Se Rosa pudesse comentar Ulysses, o que mais o impressionaria?
  3. Qual é a maior diferença entre os dois autores?
  4. Afinal, o que explica que dois escritores separados por oceanos, línguas e culturas tenham produzido obras que parecem conversar tão intensamente?
  5. Talvez que a melhor pergunta seja esta:

Joyce e Rosa reinventaram a língua porque eram gênios da linguagem ou porque havia certas experiências humanas que só poderiam ser alcançadas mediante a reinvenção da língua?”

Ela atravessa praticamente todos os temas e tende a gerar respostas muito diferentes, acho eu.

Coisas que lembrei agora (para pesquisar)

— GR leu Ulysses? Sabe-se o que ele pensava sobre Joyce?

— O metafísico em Rosa vem através da tentativa de Riobaldo de descobrir se o diabo existe, o que foi Diadorim e quem ele próprio se tornou. Existe o diabo?

O que é o bem? O que é o amor?

— Joyce pega um homem comum comprando rins para o café da manhã, andando pelas ruas, indo a um enterro, pensando na esposa, e o transforma num equivalente moderno de Ulysses. O romance sugere que o épico não desapareceu; ele está escondido dentro da vida comum. O que é uma consciência humana? O que significa existir dentro do tempo?

Riobaldo olha para o cosmos e pergunta pelo mistério.

Bloom olha para uma barra de sabão, para um anúncio de jornal, para um enterro, para uma lembrança qualquer — e Joyce sugere que o mistério está ali também.

Talvez por isso Rosa pareça um metafísico do sertão, enquanto Joyce é um metafísico do cotidiano.

Ai, que saco, pra que complicar, Milton?

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PGO IV: Roteiro para a moderação de grupos de leitura: Bartleby, de Herman Melville

Bartleby resiste a interpretações únicas. Quanto menos você explicar Bartleby, melhor a conversa costuma ficar. É como uma investigação coletiva de um enigma.

1.Abertura

“Há livros que nos impressionam por aquilo que revelam. Bartleby nos impressiona por aquilo que se recusa a revelar. Mais de 170 anos depois de sua publicação, ainda discutimos quem é Bartleby, o que ele quer e o que Melville pretendia dizer.”

“Qual foi o sentimento predominante ao terminar o livro?”

  • pena
  • irritação
  • perplexidade
  • humor
  • tristeza
  • admiração

A diversidade das respostas já introduz a riqueza do texto.

2. O narrador

Muitas leituras se concentram em Bartleby e esquecem que o narrador é igualmente fascinante.

  • O advogado é um homem bom?
  • Ele é generoso ou apenas deseja parecer generoso?
  • O que sabemos realmente sobre ele?
  • O conto é sobre Bartleby ou sobre o advogado?

Uma observação interessante: Sem o narrador, Bartleby seria apenas um excêntrico. O drama nasce da incapacidade do advogado de compreender o que tem diante de si.

“Quem é o personagem mais estranho deste conto: Bartleby ou o advogado?”

3. Chegue ao centro do livro:

“I would prefer not to”. “Prefiro não fazer” (LPM, Cassia Zanon), “Prefiro não” (Antofágica, Antônio Xerxenesky), “Prefiro não fazê-lo” (Cultrix, Olívia Kränenbühl), “Eu preferia não fazê-lo” (Record, A. B. Pinheiro de Lemos)

  • Bartleby está recusando?
  • Está protestando?
  • Está adoecido?
  • Está exercendo liberdade?

Mostre como a frase é estranha. Ele não diz:

  • “não quero”;
  • “não farei”;
  • “recuso”.

Ele apenas “prefiro não”, “

É uma linguagem sem confronto direto.

Pergunta para o grupo: Por que essa fórmula nos desconcerta tanto?

4. Bartleby como símbolo

Aqui você pode abrir várias possibilidades.

Bartleby seria:

  • um rebelde?
  • um santo?
  • um depressivo?
  • uma vítima do capitalismo? (insegurança, adoecimento e morte de um trabalhador)
  • um niilista?
  • um homem que simplesmente desistiu?

O mais interessante é que o texto sustenta todas essas hipóteses sem confirmar nenhuma.

Você pode perguntar: “Qual interpretação mais convence vocês?”

5. O humor do conto

Muitas pessoas esquecem que Bartleby é muito engraçado.

  • Turkey (bom de manhã, impossível à tarde);
  • Nippers (irritável de manhã, produtivo à tarde);
  • Ginger Nut;
  • as tentativas absurdas do advogado de resolver o problema.

Melville cria situações quase cômicas em torno de algo profundamente trágico.

6. O final

Sem tentar resolvê-lo.

Perguntas:

  • O final provoca tristeza?
  • Revolta?
  • Compaixão?
  • Culpa?

E principalmente: “O advogado falhou com Bartleby?”

Essa vai gerar ótima discussão.

7. O finalzinho

Eu terminaria com uma pergunta ampla:

“Por que um conto tão curto continua sendo lido no mundo inteiro?”

E talvez com uma observação:

“Existem personagens que parecem pessoas. Bartleby parece uma condição humana. Em algum momento da vida, todos nós já sentimos vontade de responder ao mundo: ‘Prefiro não’.”

Para um grupo da Bamboletras, que parece gostar de literatura mais reflexiva, eu apostaria menos na crítica social e mais no mistério existencial. O que torna Bartleby inesquecível não é a denúncia de um sistema? Ou o fato de que ele toca uma região da experiência humana que reconhecemos sem conseguir nomear completamente.

8. O finalzinhoínho

      “Ah, Bartleby! Ah, humanidade!” .

      O narrador está exclamando por Bartleby (o indivíduo) ou pela humanidade (o coletivo falho)? Ele aprendeu alguma coisa no final ou apenas se livrou de um incômodo?

9. Perguntas para fechar

Alegoria do Trabalho Moderno: “Bartleby seria o santo padroeiro do ‘quiet quitting’ (demissão silenciosa) ou alguém que sofre de burnout profundo?” .

Resistência Passiva: “A frase ‘Eu preferiria não’ é uma forma de resistência política válida ou um sintoma de depressão e isolamento?” .

Sobre o Incompreensível: “Devemos tentar explicar Bartleby (excesso de trabalho, luto, loucura) ou a força do conto está justamente na sua recusa em ser explicado?”

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Das traduções de Bartleby

Das traduções de Bartleby

A frase principal de Bartleby nas quatro edições que possuo do livro. Cada um traduz “I would prefer not to” de uma forma diferente.

“Prefiro não fazer” (LPM, Cássia Zanon, 2003),
“Prefiro não” (Antofágica, Antônio Xerxenesky, 2023),
“Prefiro não fazê-lo” (Cultrix, Olívia Kränenbühl, 1985),
“Eu preferia não fazê-lo” (Record, A. B. Pinheiro de Lemos, 1984).

Já que é um clássico do século XIX, eu escolheria uma outra forma, mais antiquada: “Preferiria não fazê-lo”.

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Dia dos Namorados

Dia dos Namorados

Eu vou demonstrar porque você deve dar um livro pro seu amor ou ficante no Dia dos Namorados. Algumas vezes, eu e Elena lemos o mesmo livro ao mesmo tempo ou um após o outro e é maravilhoso. Certa vez, em Bombinhas, a gente foi tomar banho lá longe — somos o terror dos salva-vidas — e, enquanto eles ficavam pensando que a gente ia sucumbir a qualquer momento — fomos advertidos muitas vezes –, nós estávamos era discutindo Os Irmãos Karamázov que ela lia em russo e eu em português. E passamos horas por lá. Sem os livros, claro.

Olha, fofocar ou xingar a família Bolsonaro e sua quadrilha é bom e necessário, mas aqui se trata de amor, gente, não de outra coisa. É Dia dos Namorados, não vá dar um par de meias ou uma camisa que ele vai mentir pra próxima namorada que comprou no Shopee. Dê um livro e escreva uma dedicatória.

QED

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PGO III: Roteiro para a moderação de grupos de leitura: Vidas Secas, de Graciliano Ramos

Antes de começarmos a falar de Vidas Secas, talvez valha lembrar uma coisa importante: este não é um livro que tenta seduzir o leitor. Graciliano Ramos escreve de maneira seca porque o mundo que ele mostra também é seco — de água, de esperança, de linguagem. E talvez esteja aí uma das grandes forças do romance: ele nos coloca diante de personagens que mal conseguem explicar a própria vida, mas cuja humanidade aparece justamente nesses silêncios, nesses limites, nesses pequenos desejos quase invisíveis.

A pergunta que atravessa o livro talvez seja simples e brutal: o que sobra do ser humano quando quase tudo lhe foi tirado? Porém, Vidas Secas não é apenas um romance sobre pobreza ou sertão. É também um livro sobre linguagem, sobre dignidade, sobre a dificuldade de pensar e sonhar num mundo que parece feito apenas para sobreviver. E, talvez, sobre o quanto disso ainda permanece entre nós.

Linguagem
1. Estrutura fragmentada: capítulos quase autônomos: isso ajuda ou dificulta a leitura?
2. Linguagem enxuta: o que não é dito pesa mais que o dito?
3. A seca como mais que cenário: ela é quase uma personagem?
4. Desumanização: os personagens falam pouco… isso os empobrece ou os protege?
5. Estamos lendo uma história ou um tipo de documentário?

Personagens (especialmente Fabiano e Sinhá Vitória)
1. Fabiano: um bruto ou uma vítima de um sistema que o impede até de pensar?
2. Sinhá Vitória: o sonho da cama — pequeno ou imenso?
3. Relação entre os dois: há afeto? Ou apenas sobrevivência compartilhada?
4. As crianças: o que significa crescer sem linguagem?
5. Eles foram privados até da possibilidade de ser mais em razão da pobreza?

Baleia (o capítulo mais famoso)
1. Por que Baleia é tão bom personagem?
2. Quem chorou lendo o capítulo…?
3. O ponto de vista do animal: o que isso revela sobre os humanos?
4. A morte de Baleia: é o momento mais cruel — ou o mais compassivo do livro?
5. OK, por que sofremos mais por Baleia do que por Fabiano?

Sociedade, destino e sentido
1. O soldado amarelo: violência individual ou sistema?
2. Há crítica social ou apenas exposição?
3. O final: é circular? Há esperança ou é uma condenação eterna?
4. O livro é político, existencial… ou ambos?

Mais
1. A linguagem como limite: quem não tem palavras, tem menos mundo?
2. Animalização X humanidade: linha muito tênue
3. Repetição: a vida como ciclo sem progresso
4. Silêncio: o livro fala muito através dele

Lembrete
Evitar transformar o debate só em “denúncia social”. Claro, é importante, mas dar foco à humanidade é ainda mais importante. O livro é principalmente uma reflexão brutal sobre o que resta no humano quando quase tudo falta.

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Traços em comum de James Joyce e Guimarães Rosa

Há muitos pontos de contato entre James Joyce e João Guimarães Rosa. Apesar de terem surgido em mundos distantes — a Dublin urbana e o sertão mineiro –, ambos reinventaram a língua literária para tentar capturar algo que a linguagem comum não alcançava.

Alguns traços comuns são particularmente fortes:

1. A língua como invenção

Nenhum dos dois se contentava com o idioma “normal”. Joyce distorce o inglês, mistura registros, cria trocadilhos, neologismos e ritmos musicais — sobretudo em Ulysses e radicalmente em Finnegans Wake.

Rosa faz algo semelhante com o português: funde fala sertaneja, arcaísmos, termos eruditos, invenções próprias e ecos de várias línguas. Em Grande Sertão: Veredas, o idioma parece nascer diante do leitor.

Ambos tratam a língua não como instrumento, mas como matéria viva.

2. A tentativa de dizer o indizível

Os dois perseguem experiências difíceis de formular:

— o fluxo da consciência,
— o mistério do mal,
— a memória,
— o tempo,
— a espiritualidade,
— a identidade.

Joyce mergulha na interioridade urbana moderna; Rosa, numa metafísica sertaneja.

3. Musicalidade extrema

Os textos dos dois pedem leitura em voz alta.

Joyce compõe frases quase como partituras. Rosa também trabalha com:

— aliterações,
— ritmos orais,
— repetições,
— sonoridades hipnóticas.

Há páginas de Rosa que lembram encantamentos; páginas de Joyce que parecem peças vocais.

4. Universalizar o local

Isso é fascinante nos dois.

Joyce praticamente nunca saiu literariamente de Dublin. Rosa quase nunca saiu do sertão. Mas ambos transformaram um espaço regional em universo humano total.

Dublin, em Joyce, vira um microcosmo da civilização ocidental. O sertão rosiano vira uma paisagem metafísica do homem.

A famosa frase de Joyce sobre Dublin — “se a cidade desaparecesse, poderia ser reconstruída por meus livros” — combina muito com GR.

5. Erudição escondida sob oralidade

Os dois parecem espontâneos, mas são profundamente arquitetados.

Joyce usa:

Homero, Tomás de Aquino, Shakespeare, liturgia católica, filosofia e todo um mundo.

Rosa mobiliza:

Línguas antigas, mitologia, Bíblia, filosofia, tradição oral, filologia e todo um mundo.

Em ambos, o popular e o erudito convivem o tempo inteiro.

6. O herói errante

Bloom e Riobaldo são viajantes interiores.

Leopold Bloom atravessa um dia comum transformado em epopeia. Riobaldo atravessa o sertão tentando entender o demônio, o amor e o destino. Os dois romances são jornadas tanto geográficas quanto mentais.

7. A ambição de reinventar o romance

Nem Joyce nem Rosa queriam apenas contar histórias. Queriam ampliar as possibilidades da literatura.

Depois deles, escrever do mesmo modo anterior parece… insuficiente.

Por isso ambos são vistos não apenas como grandes escritores nacionais, mas como criadores de linguagem comparáveis aos grandes renovadores do século XX.

Há inclusive leitores que sentem que Rosa é “o Joyce do português” — embora isso simplifique demais os dois. Rosa tem uma dimensão mística e oral muito mais intensa; Joyce é mais urbano, irônico e estruturalmente experimental.

Mas os dois compartilham uma convicção rara: a de que a realidade só pode ser alcançada quando a própria língua entra em estado de aventura.

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Esta semana na história da literatura: o livro Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf, foi publicado em 14 de maio de 1925

Esta semana na história da literatura: o livro Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf, foi publicado em 14 de maio de 1925

A Origem de uma Obra-Prima

Em agosto de 1922, Virginia Woolf abriu uma página em branco de um de seus cadernos a fim de fazer algumas anotações sobre “um livro que talvez se chamasse ‘Em Casa’ ou ‘A Festa’”. Um trecho:

“Este será um livro curto, composto por seis ou sete capítulos, cada um completo em si mesmo, mas que deverá apresentar algum tipo de fusão entre si. Todos devem convergir para a festa no final. Minha ideia é ter alguns personagens, como Mrs. Dalloway, muito em relevo: então ter interlúdios de pensamento, ou reflexão, ou breves digressões (que devem estar relacionadas, logicamente, ao resto), tudo compacto, mas não abrupto.”

Segue-se uma lista de capítulos potenciais, começando com “Mrs. Dalloway in Bond Street”, um conto que ela havia terminado recentemente (e na primeira linha do qual Clarissa Dalloway decide comprar luvas para si mesma), e então esta nota: “Capítulos para serem feitos em um mês, aproximadamente. Deve haver alguma diversão —”.

“Mas se os escritores modernistas nos ensinaram alguma coisa, é que nossa experiência do tempo raramente é linear, que sob a superfície de cada momento presente correm profundas correntes de memória”, escreveu Mark Hussey em seu livro ‘Mrs. Dalloway: Biografia de um Romance’:

“Portanto, embora aquele esboço em seu caderno represente Woolf começando a planejar seu próximo romance, reunindo ideias que vinham amadurecendo há algum tempo, não seria correto considerá-lo como ‘o’ início de Mrs. Dalloway… Podemos identificar muitas fontes para o mundo criado por Woolf em seu quarto romance, mas nenhuma inspiração original específica.”

Ainda assim, em agosto de 1923, um ano depois, ela estava no meio do processo. “Tenho lutado há muito tempo com ‘As Horas’ [título provisório de Woolf para Mrs. Dalloway], que está se revelando um dos meus livros mais tentadores e resistentes”, escreveu ela em seu diário.

“Algumas partes são tão ruins, outras tão boas! Ainda não consigo parar de inventar — ainda. Qual é o problema? Mas quero me revigorar, não me anestesiar, então não direi mais nada. Só preciso observar este sintoma peculiar: a convicção de que continuarei, levarei isso até o fim, porque me interessa escrever sobre isso.”

No dia seguinte, ela acrescentou:

“Sabe, estou pensando freneticamente sobre leitura e escrita. Não tenho tempo para descrever meus planos. Devo falar bastante sobre ‘As Horas’ e minha descoberta: como escavo belas cavernas por trás dos meus personagens; acho que isso me dá exatamente o que quero: humanidade, humor, profundidade. A ideia é que as cavernas se conectem e que cada uma venha à luz do dia”.

As belas cavernas deram frutos. Mrs. Dalloway foi publicado em 14 de maio de 1925 pela Hogarth Press, a editora que Woolf dirigia com seu marido, Leonard Woolf, com uma capa que se tornaria icônica, criada pela irmã de Woolf, Vanessa Bell. Vendeu modestamente, mas desde então se tornou uma das obras mais celebradas — e influentes — do cânone literário inglês.

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Sonho com Caju

Sonho com Caju

Por alguma razão, eu queria ir ao Bairro, um local úmido na Zona Sul de Porto Alegre, que era habitado em sua esmagadora maioria por reacionários. Pedi um Uber e o cara me disse que me levaria até a entrada do Bairro, mas que jamais entraria naquele antro bolsonarista. Concordei.

Chegando no limite determinado pelo motorista, desci do carro e penetrei no Bairro. Era tudo sombrio, escuro mesmo, logo veio um ônibus. Entrei e perguntei ao motorista onde ele ia. Ele me respondeu que todos os ônibus do Bairro eram circulares, que nenhum me levaria para outro lugar que não o próprio Bairro.

— Dou voltas o dia inteiro. Trabalho 24/7. Não tenho folga. Só paro quando morrer.
— E se tu bater com o ônibus?
— Se bater, não sei o que acontece.
— OK — respondi.

Então o ônibus começou a andar pelo Bairro. Era lindo. A arquitetura era gótica, com edifícios enormes. O ônibus entrava nos corredores dos edifícios, belíssimos e úmidos, com água vertendo das paredes cravejadas de pingos. Tudo era grande, imenso e lindo, apesar de lembrar filmes de terror. Tinha muitas esculturas ameaçadoras. Vi alguns monstros de Goya transformados em pedra.

Desci do ônibus, pois avistei um local iluminado. Só podia ser um bar. Era e a placa da porta anunciava em giz branco:

HOJE, ÀS 23h,
SHOW COM O POWER TRIO
“LIBERTÉ, ÉGALITÉ & VAI SE FUDÊ”

Gostei da coisa e entrei. Pouca gente. Pedi uma garrafa inteira de cachaça Weber Haus amburana e esperei pelo show. O trio, somadas as idades, tinha mais de 210 anos. Liberté era baixista e vocalista, Égalité, guitarrista, e Vai se fudê era o baterista. Liberté era até razoável, Égalité era uma merda; quem salvava o grupo era o excepcional Vai se fudê. Parecia o baterista do Angine de Poitrine. Um sujeito exato, se me compreendem. No conjunto, eram bem ruins.

No intervalo do espetáculo, vieram sentar-se comigo. Liberté só queria saber da minha cachaça, Vai se fudê estava quieto e Égalité não parava de falar. De repente, Égalité disse que Vai se fudê estava muito deprimido porque queria que um amigo especial viesse a seu casamento que seria dali um mês.

— O amigo negou-se a vir?
— Não, nem foi convidado.
— E quem é ele?

Égalité me disse que era Paulo Cézar Caju. Fiquei surpreso e perguntei porque Vai não tentava contato. É que Vai queria que uma pessoa culta fizesse o convite, não um borra-bostas como nós. E Égalité me propôs ligar para Caju, pois achou que eu era suficientemente fino para tanto. Fiquei envaidecido. Com a falicidade dos sonhos, peguei o celular e liguei para Caju, que hoje mora na França.

— Caju? Ça va? Tudo bem? Teu amigo Vai se fudê quer a tua presença em seu casamento.
— Pelo Rio Grande do Sul, por essa escumalha, eu não movo uma palha. Mas pelo meu amigo Vai, vou, sim.
— Por que detestas tanto nosso estado?
— Porque tudo aí é falso.
— Mas tu não foste Campeão do Mundo pelo Grêmio?

Ouvi uma risadinha de escárnio da voz grave de Caju.

— Falso Campeão do Mundo — ganhamos um torneio ridículo patrocinado pela Toyota. Falso Grêmio — contrataram eu e o Mário Sérgio só para jogar aquele jogo. Aquilo não era o Grêmio. E jamais me valorizaram, valorizaram só o Mário Sérgio. Ele era branco, claro.
— Tá, mas tu vens pro casamento?
— Vou.

Todos na mesa se animaram. Falamos de música. Égalité confessou que ele, como músico, não existia, que era como a Égalité mesmo!

Corta.

Caju está na minha casa se arrumando para ir ao Bairro. Ele e sua mulher, uma deslumbrante senegalesa, estão se aprontando. São padrinhos de Vai. Caju sai do quarto com um terno cor-de-rosa. Vou causar no Bairro, ele me diz. Pegamos o Uber. Quando chegamos ao bar — o casamento seria lá –, o rosto de Vai se fudê iluminou-se ao ver Caju e sua senagalesa. Eu e Elena entramos atrás. Vai se fudê chorava dizendo meu amigo, meu amigo… A mulher de Vai, uma velhinha magrinha de olhos azuis, tinha lágrimas até no queixo.

E então eu acordei. Estava realmente comovido. Elena, a meu lado, toda coberta, aquecia sua bochecha direita no travesseiro. Mal ela sabia que também chorara ao ver o reencontro dos amigos.

Rivelino e Caju em 1972

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Encontro com o Mar, de Pär Lagerkvist

Encontro com o Mar, de Pär Lagerkvist

Encontro com o Mar (1962) é mais uma obra breve e profunda de Pär Lagerkvist. Novamente, a religião está presente, como em tantos livros deste ateu. Este livro é a continuação de A Morte de Ahasverus. E é uma continuação pra lá de estranha. Estamos no tempo das Cruzadas — Tobias consegue um meio de ir para a Terra Santa. Paga o comandante de um barco pirata para levá-lo. No meio do caminho, após uma luta, temos um longo monólogo de um dos integrantes da tripulação. O livro termina após este monólogo. Lagerkvist não está nem aí para questões de simetria ou para fechar os parênteses que abriu. O livro existe para mostrar o motivo pelo qual um padre abandonou a batina: a luxúria. Tudo diante de uma enorme mar enigmático, mais velho que todos nós.

No navio estão o Capitão — homem minúsculo de voz frágil que governa a todos com mão de ferro –, o Gigante — especialista em pilhagens e ataques brutais –, Ferrante — movido por insaciável desejo de riquezas e pela pura maldade –, e Giusto — o pusilânime. Mas é com Giovanni que Tobias estabelece o vínculo mais profundo. Como o ex-padre acabou naquele antro de marginais? Criado pela mãe viúva para tornar-se sacerdote, vivendo na mais estrita observância dos dogmas, Giovanni sucumbe ao desejo sexual quando ouve a confissão de uma mulher casada atormentada por uma paixão adúltera. A voz e o hálito da mulher… O confessor, enredado pela voz, transforma-se em amante.

A escrita é característica do autor: austera, precisa, despojada. Cada frase parece medida para dizer apenas o essencial, e justamente por isso ganha densidade. Não há excesso emocional, mas uma contenção que intensifica o efeito. O leitor é tão convidado a acompanhar a história, quanto a habitar um estado de espírito. Como em outras obras de Lagerkvist, a busca pela fé é a busca pelo sentido. Não há como ir adiante. O mar, nesse contexto, pode ser lido tanto como ausência de Deus quanto como sua manifestação mais enigmática.

Para leitores que apreciam a ficção escandinava de inquirição filosófica — algo na linhagem de Ingmar Bergman –, Encontro com o mar é uma joia breve, densa e inesquecível. Não se trata de um romance de ação, mas de um longo e sereno confronto com as perguntas que não se calam: o que separa um padre de um pirata? A fé resiste ao desejo? E, acima de tudo, há paz possível?

Pär Lagerkvist

 

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O Inter, o Jornalismo e Nós, de Fabrício Falkowski

O Inter, o Jornalismo e Nós, de Fabrício Falkowski

Fabrício Falkowski é uma figura rara no jornalismo. Num mercado onde os profissionais estão sempre pulando de uma empresa para outra — seja por opção, seja pelos frequentes passaralhos (demissões) — Fabrício está há 27 anos no Correio do Povo, sempre cumprindo a função de setorista do SC Internacional. Ele começou lá em 1999 e permanece no posto até hoje. Neste livro cheio de detalhes deliciosos, ele conta os últimos 25 anos do Inter, de 2000 a 2024. Fabrício não é um repórter chapa branca. Pelo contrário, foi o cara que trouxe à tona a roubalheira que culminou na responsabilização e condenação do ex-presidente Vitorio Piffero e de seu factotum Pedro Affatato por desvio de valores para benefício próprio, entre 2015 e 2016 –, ano em que o Inter caiu para a segunda divisão pela primeira e única vez em sua história.

Um dos pontos mais interessantes do livro é o foco: Fabrício narra o dia a dia, mas também se volta para o processo jornalístico. Como se constrói uma notícia? Onde termina a informação e começa a opinião? E há o “Nós” do título — ou seja, o livro inclui tanto o autor como o torcedor que consome e se consome no clube e reage às informações. Pois é importante ter um olho na rede de expectativas, paixões e distorções.

O livro tem 412 páginas com fotos e muitos detalhes pouco conhecidos dos bastidores do clube. O texto é fluido, grudento, fácil de ler. Há pra todos os gostos. Há tragédia para quem é de tragédia, há a narrativa dos grandes feitos para quem quiser rememorar aqueles dias. Há também os períodos de pasmaceira. Fabrício viajava muito com o clube. Foi ao Mundial Fifa de 2006, por exemplo. A desgraça de 2016 está muito bem contada, assim como os bastidores dos já citados roubos de dirigentes. Apesar de ser escrito em primeira pessoa, cabem tanto observações pessoais do repórter como da evolução do jornalismo. Não se trata de jornalismo gonzo — ou seja, o repórter não é o protagonista, só se torna parte da história quando uma notícia sua muda os rumos do clube. 

Interessou-me muito a evolução ou involução do jornalismo esportivo. Fabrício fala no empobrecimento do jornalismo esportivo. É verdade. Antes, as entrevistas era frequentes e sabíamos mais dos profissionais. Os repórteres viam os treinos. Hoje, os treinos são fechados — precisa ser sempre assim? –, só os chatíssimos técnicos dão entrevistas e muitas vezes nem se conhece a voz dos jogadores que se ama ou detesta. É uma perda não sabermos quem é burro, quem é inteligente. Existem câmeras mostrando cada detalhe dos lances, mas não se sabe bem quem é o jogador, se ele é articulado ou se é um Jardel. Tudo ficou muito distante. Recentemente, Fabrício passou a perambular por assuntos também importantes — como o efeito da liberação das bets.

O Inter, o Jornalismo e Nós não oferece respostas fechadas, nem busca absolver ou condenar. Para mim, foi como ler um detalhado balanço de um tempo em que aconteceu literalmente de tudo. Um balanço que, de certa forma, é também a minha história como fanático do futebol.

Recomento fortemente aos colorados! Ah, o livro está quase de graça na Bamboletras: R$ 49,90.

Fabricio Falkowski

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A Morte de Ahasverus, de Pär Lagerkvist

A Morte de Ahasverus, de Pär Lagerkvist

Gosto demais dos artistas escandinavos. Bergman, Vinterberg, Strindberg, Ibsen, Sibelius, Berwald, Hamsun, Blixen, Knausgård — todos ótimos. Para completar, amo o frio, me sinto muito bem com ele. Meu termostato corporal parece ter sido regulado na Finlândia que não conheço. Então, vamos a mais um livro do sueco Largerkvist.

A Morte de Ahasverus (li na edição de 1964 ao lado, mas o livro foi relançado em 2023 e pode ser encontrado) é uma novelinha bem curta. Se passa na época das Cruzadas, com aquele monte de gente indo estupidamente à Terra Santa. Contrariamente a O Sétimo Selo, de Bergman, aqui as pessoas estão indo e não voltando da jornada. Assim como Bergman era um ateu nascido em uma família altamente religiosa, Lagerkvist descreve-se como “ateu religioso” ou um “crente sem fé”. Sim, só fazem ateus assim na Escadinávia. O livro move-se entre a parábola e a meditação metafísica. Inserido no ciclo de romances que orbitam o universo religioso (como Barrabás e Encontro com o Mar), o texto retoma a figura lendária do judeu errante, Ahasverus, condenado à imortalidade por ter rejeitado Cristo. Mas Lagerkvist não se interessa pela lenda em si: ele a transforma num instrumento para pensar o paradoxo fundamental da existência humana — querer viver sem fim e, ainda assim, desejar a morte.

A narrativa tem algo de arcaico. Começa numa estalagem medieval, onde diferentes personagens — peregrinos, marginalizados, figuras errantes — se cruzam. Nesse cenário quase teatral, Ahasverus surge menos como protagonista tradicional e mais como um coadjuvante que ouve histórias de desejos e destinos. Ao seu redor, personagens como Tobias e Diana (velhos amantes) parecem responder a um chamado silencioso. Não sabem porque estão indo para a Terra Santa, mas estão indo.

Ahasverus, condenado a vagar eternamente, encarna uma ideia: a de que viver sem fim não é uma bênção, mas uma condenação. A morte, em seu contexto, deixa de ser ameaça e passa a ser desejada — é quase como uma libertação. O título já anuncia o paradoxo: a morte daquele que não pode morrer. Lagerkvist mantém o estilo que o caracteriza: linguagem despojada, austera, mas carregada de simbolismo. Não há explicações psicológicas nem desenvolvimento tradicional de personagens. Em vez disso, o livro avança em encontros, monólogos, diálogos e situações que mostram muitas dúvidas sobre a jornada.

Essa economia intensifica o caráter filosófico da obra: cada cena funciona como uma variação sobre os mesmos temas — sofrimento, fé, destino — criando uma atmosfera quase religiosa. Todas as falas dos personagens que não acreditam em deus citam-no em minúsculas. Só Ahasverus usa Deus. Isto — o fato dos descrentes falarem deus — é explicado em nota. A crença aparece como um enigma. Como em outras obras de Lagerkvist, o leitor fica perplexo diante do mistério. E talvez seja essa a sua verdadeira força — a de transformar uma antiga lenda em uma meditação moderna sobre a condição humana, onde viver e morrer deixam de ser opostos claros e passam a habitar a mesma zona.

Pär Lagerkvist (1891-1974)

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O Anão, de Pär Lagerkvist

O Anão, de Pär Lagerkvist

Já ouvi várias pessoas me dizendo que iam roubar minha edição de O Anão. O livro foi publicado pela Civilização Brasileira em 1970, época em que a editora era sinônimo de bom livro e de resistência à ditadura. Mas O Anão nunca foi republicado e virou raridade. Houve tempo em que o livro estava custando R$ 1000 na Estante Virtual. Hoje, sua cotação está bem mais baixa, o que não se reflete em sua qualidade. Li as 150 páginas de meu cobiçado volume em voz alta para minha mulher — um hábito nosso — e podem crer que o livro não perdeu nada após tantos anos.

Pär Lagerkvist é um dos tantos Nobéis de Literatura escandinavos. Todos são suspeitos, como o medíocre Jon Fosse. Só que eu garanto: li alguns de seus livros e o cara é muitíssimo bom, genial mesmo. O Anão é um romance curto, mas de uma força perturbadora que poucos livros alcançam. É escrito em primeira pessoa pelo próprio — um anão que vive numa corte renascentista italiana. Mais do que observar, ele encarna o ódio, o desprezo e uma visão radicalmente negativa da humanidade. A escolha desse narrador é decisiva: Lagerkvist não descreve o mal de fora, mas o faz falar. E essa voz é tanto mais inquietante quanto mais lúcida e coerente se apresenta.

Desde as primeiras páginas, percebe-se que o anão não é apenas um personagem, mas uma espécie de catalisador, afinal, ele provoca acontecimentos com suas ações. Ele não faz momices, é sério, pretende-se um conselheiro e aspira a ter a grandeza de seu príncipe. Além disso, despreza o amor, a arte, a religião e qualquer forma de compaixão, vendo nelas meras fraquezas. Sua existência parece ser definida pela negação do humano — e, paradoxalmente, é justamente isso que o torna profundamente humano. A vida na corte — com suas políticas, intrigas, traições e violências — parece ser seu habitat.

O anão se percebe como alguém à parte, quase de outra espécie, superior aos homens que despreza. No entanto, à medida que a narrativa avança, torna-se claro que ele é menos uma exceção monstruosa e mais uma caricatura de toda a situação da corte. Como diz o próprio, o que assusta nos homens não é o anão em si, mas “o anão que se esconde neles” — uma dimensão sombria que preferimos ignorar.

A ambientação renascentista funciona como cenário simbólico. Em meio à arte, à ciência e ao poder — elementos associados ao florescimento da época — Lagerkvist introduz uma presença que desmente qualquer idealização. O anão atravessa guerras, epidemias e conspirações, sempre revelando o quanto a civilização convive com a barbárie. Nesse sentido, o livro dialoga com o contexto em que foi escrito (em 1944), quando a Europa confrontava o horror — tema central na obra do autor.

A cidade-estado renascentista onde ocorre a ação não é clara, mas há um personagem chamado Bernardo, que é sem dúvida inspirado em Leonardo da Vinci, o que nos faz pensar no final do século XV. Também há referências a igrejas que se encontram na região de Florença. Ao mesmo tempo, o anão, narrador do romance, fala em criações como A Última Ceia, pintada em Milão… Além disso, o príncipe César Bórgia empregou Leonardo da Vinci como arquiteto militar… Desta forma, há muitas referências históricas dançando incontrolavelmente no contexto do romance.

Como disse, o anão é o narrador e tudo é contado alguns minutos ou horas após a ocorrência dos fatos e antes dos seguintes. Tal artifício faz com que todos os acontecimentos sejam quentes, contados de forma ofegante, e que O Anão planeje no papel seus próximos passos. Ou seja, a colocação do foco narrativo é muito inteligente, fazendo com que o leitor sinta a respiração do anão-monstro arquitetando suas vinganças, incorporando o mal e curtindo seu ódio de misantropo.

Ele obviamente ama a guerra, e quando lhe pedem para cometer um crime, ele o expande sob o pretexto de beneficiar o príncipe… Todos mudam durante o romance, todos mudam na cabeça do narrador, menos ele, que se mantém coerente da primeira à última página. Mesmo impressionado com a ciência de Bernardo, sente repulsa pela busca que este empreende para chegar à verdade e ao âmago das coisas.

A escrita é seca, direta, despojada — o que intensifica o impacto. Não há grandes explicações psicológicas nem tentativas de justificar o personagem. O mal não é analisado: é apresentado. E essa recusa de interpretação fácil é talvez o aspecto mais perturbador do romance. O leitor não encontra uma distância confortável. Ao contrário, é levado a reconhecer algo familiar. Afinal, convivemos com monstros como Netanyahu, certo?

Pär Lagerkvist (1891-1974)

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PGO II: A Casa das Belas Adormecidas, de Yasunari Kawabata

PGO II: A Casa das Belas Adormecidas, de Yasunari Kawabata

Gabriel García Márquez, ao escrever Memórias de minhas putas tristes declarou ter-se inspirado neste livro de Kawabata, homenageando-o ao narrar uma história de amor não consumado com uma jovem adormecida. No livro de GGM, o velho protagonista não tem relações sexuais com a adolescente virgem. O encontro acontece de forma completamente diferente do que ele havia planejado. Ao chegar ao quarto, ele encontra a menina de 14 anos profundamente adormecida (dopada pela cafetina para acalmar seus medos). Diante da garota indefesa, o velho não tem coragem de acordá-la ou tocá-la. Em vez disso, ele apenas a contempla durante a noite, deita-se ao lado dela e também acaba dormindo. Na manhã seguinte, vai embora antes que ela acorde, sem nunca ter tido qualquer contato físico ou sexual com a jovem.

Não apenas GGM ficou fascinado pela obra. Mishima a considerava uma obra-prima, talvez a maior da literatura japonesa. E Vargas Llosa escreveu: “Breve, bela e profunda, A Casa das Belas Adormecidas deixa no ânimo do leitor a sensação de uma metáfora cujos termos não são fáceis de entender”.

As interpretações mais correntes são:

1. A Metáfora da Morte e da Velhice (a mais aceita)

A interpretação mais forte e recorrente é que a casa e as jovens adormecidas representam a relação do homem com a morte.

As jovens são a morte: belas, jovens e silenciosas, elas aguardam os velhos em um quarto que mais se assemelha a um túmulo. Eguchi, o protagonista, deita-se ao lado delas como quem se prepara para o último sono. A impossibilidade de acordá-las ou ter uma troca real é a impossibilidade de dialogar com a morte.

O sono é um ensaio: cada noite passada ao lado de uma “bela adormecida” é um ensaio para a morte definitiva. Eguchi busca, nas palavras de Mishima, “dormir um sono como a morte” ao lado da beleza pura, na esperança de que essa experiência seja menos solitária e aterrorizante.

A “vida após a morte”: o fato de as mulheres estarem vivas, mas inacessíveis, cria um estado liminar. É como se os velhos estivessem experimentando um além onde a beleza existe, mas a interação e a consciência, não.

2. A Metáfora do Desejo Puro e Irrealizável

Outra leitura fundamental é que o livro explora o desejo em seu estado mais radical e impossível.

O objeto sem sujeito: o desejo humano, especialmente na velhice, é frequentemente direcionado a um ideal. As jovens, ao estarem inconscientes, tornam-se o objeto perfeito do desejo: passivas, não rejeitam, não julgam, não têm vontade própria. São um receptáculo vazio onde o velho pode projetar todas as suas fantasias.

A ausência de relação: a grande ironia é que, para realizar seu desejo sem os entraves da realidade (a fala, a vontade da outra pessoa), Eguchi acaba por aniquilar a própria possibilidade de uma relação. Ele tem acesso ao corpo, mas não à pessoa. É o ápice do prazer solitário, uma fantasia que se torna real, mas que é vazia.

O desejo nostálgico: o que Eguchi realmente busca não é sexo, mas o contato com sua própria juventude perdida, suas memórias e vitalidade. As jovens são espelhos onde ele vê seu passado, um passado que não pode mais tocar.

3. A Metáfora do Japão Pós-Guerra e a Decadência Cultural

Numa chave sociológica e histórica, a casa pode ser lida como uma alegoria do Japão do pós-guerra sob ocupação norte-americana.

A casa como o Japão antigo: o espaço fechado, ritualístico, regido por códigos de silêncio e uma estética refinada, representaria o Japão tradicional, derrotado e envergonhado.

As jovens como a nação indefesa: as jovens virgens e drogadas seriam a própria nação japonesa, inconsciente, violada em sua soberania, mas mantida artificialmente “viva” e bela aos olhos dos estrangeiros (os velhos clientes).

A relação parasitária: os velhos (os EUA/ocidente) usufruem da beleza e da passividade do Japão, pagando por isso, mas sem jamais estabelecer uma troca genuína. O medo de Eguchi de que uma das jovens morra durante a noite reflete o medo de que o Japão “morresse” sob a ocupação.

4. A Metáfora do Olhar Masculino e da Objetificação da Mulher

Uma leitura feminista moderna vê o livro como uma alegoria radical do patriarcado.

A mulher como objeto: a casa é a materialização do “olhar masculino” levado ao extremo. A mulher é despojada de sua voz, de seu movimento, de sua consciência — ou seja, de sua humanidade — para se tornar um objeto de uso e descarte.

O velho como o poder: Eguchi não precisa seduzir, convencer ou pedir permissão. Ele simplesmente paga e consome. A anônima “mulher da casa” gerencia tudo, sendo uma cúmplice dessa estrutura de poder.

A violência estrutural: a violência do livro não está nos atos (que são, pelas regras, contidos), mas na própria premissa: criar um espaço onde a mulher é reduzida à sua função biológica de ser jovem, bela e virgem, enquanto o homem, mesmo decrépito e impotente, ainda detém todo o poder e o direito de consumir.

5. A Metáfora da Criação Artística

Uma interpretação mais metalinguística, adorada por alguns críticos, é que o livro é uma alegoria sobre o próprio ato de escrever.

O velho como o artista: Eguchi, imóvel, contemplando a beleza imóvel e tentando extrair sentido, memória e emoção dela, seria o artista diante de sua criação ou de sua musa.

As jovens como a obra de arte: a obra de arte (o romance, a pintura) está ali, bela, silenciosa e imóvel. Ela não responde, não dialoga. Cabe ao artista/leitor projetar nela seus significados, suas dores e suas memórias.

O ritual da criação: a ida à casa, o pagamento, a preparação do quarto, o deitar-se ao lado da beleza — tudo isso seria um ritual de criação artística, solitário e que acontece na fronteira entre a vigília e o sonho, a vida e a morte.

Em síntese:

A genialidade de Kawabata é que nenhuma dessas interpretações anula a outra. Elas coexistem. A casa é o corpo envelhecido que ainda deseja. As jovens são a juventude perdida e a morte que se aproxima. O sono é a impossibilidade de comunicação entre gerações, entre desejos, entre o eu e o outro. A transgressão está em desejar o que não se pode ter (a juventude, a vida, o outro). A beleza está em aceitar a derrota final e, ainda assim, contemplar o que é belo, ainda que esse belo seja uma ilusão fúnebre. O livro não oferece respostas fáceis. Ele oferece uma imagem perturbadora que cada leitor, como Eguchi diante da jovem, precisa contemplar e preencher com seu próprio significado.

(Elena, minha mulher, para quem eu li o livro em voz alta, disse que viu um enorme paralelo da obra com As intermitências da morte, indiscutível obra-prima de José Saramago. No livro de Saramago, a morte se afasta, aqui ela se aproxima. Muito).

Yasunari Kawabata em 1938

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