Sally Rooney contra o Reino Unido

Sally Rooney contra o Reino Unido

A questão com Sally Rooney é muito boa pra se pensar. Ela não se calou, não fingiu que “não toma partido”. Disse que, se apoiar a Palestine Action faz dela uma “apoiante do terrorismo”, então que seja. Como consequência, seus livros foram retirados do mercado britânico.

É uma excelente escritora e, conhecendo seus personagens, sei que ela é uma pessoa de enorme inteligência e, intuo, duríssima de roer. Gosto dela. Não por ser corajosa, mas por ser séria.

É irlandesa. A Palestine Action foi proibida no Reino Unido, mas não na Irlanda. Ela podia perfeitamente ter escrito algo ambíguo, do tipo “apoio o povo palestino, mas não a violência”, e continuado a vender livros, a receber prêmios, a aparecer na BBC. Ninguém a obrigava a tomar posição.

Ela escreveu um artigo para o The Irish Times, dizendo: “Tenciono continuar a usar os rendimentos do meu trabalho para apoiar a Palestine Action, é o meu modo de apoiar a ação direta contra o genocídio. Por vezes é difícil para os artistas verem-se como parte de algo maior. Ver-nos como uma parte pequena mas importante de uma luta mais ampla liberta-nos do individualismo tóxico.”

Agora os seus livros estão fora do mercado britânico. O formato digital já desapareceu. Nas livrarias, quando o estoque acabar, acabou. Sua editora, a Faber, foi clara: vender os livros dela sem poder repassar os royalties é uma situação inaceitável. Ela não se queixou, não se vitimizou. Disse apenas: “Estou totalmente preparada para assumir as consequências.”

Não a considero uma “escritora ativista”, basta ler seus livros para se convencer disso. É uma escritora jovem e talentosa, uma pessoa que escreve romances e que, por acaso, é do tipo que não mente sobre aquilo que importa. Seus livros falam precisamente de relações humanas desajeitadas, sinceras, impossíveis de fingir.

Aliás, uma escritora desapareceu de um país “democrático” por ter dito a verdade. Isto dá um bom romance.

Não estamos diante de uma divergência entre uma autora e sua editora, nem de um boicote espontâneo promovido por leitores. Estamos diante de uma situação em que a legislação antiterrorista produz consequências sobre a circulação de obras literárias, porque a autora destina seus royalties a uma organização proibida no país. O efeito ultrapassa a autora: alcança leitores, livrarias, editoras e a própria liberdade de circulação de ideias.

A questão não é se um Estado pode combater atos criminosos. Evidentemente, pode e deve. Tampouco se trata de conceder imunidade a qualquer organização que se apresente como defensora de uma causa justa. A questão é outra: classificar uma organização como terrorista deve significar que toda forma de apoio a ela se torna criminalmente suspeita, mesmo quando esse apoio é público, declarado e motivado por uma posição política? E que tipo de democracia se constrói quando uma escritora precisa aceitar que seus livros desapareçam do mercado de um país porque não pode destinar livremente os rendimentos de seu trabalho?

O debate jurídico britânico torna a situação ainda mais preocupante. Em fevereiro de 2026, o Tribunal Superior considerou ilegal a proscrição da Palestine Action, apontando, entre outros problemas, a interferência desproporcional na liberdade de expressão e de reunião. Em junho, porém, o Tribunal de Apelação reverteu essa decisão. O caso deve ser examinado pela Suprema Corte. Portanto, a controvérsia não está encerrada: a própria legalidade da medida continua sendo objeto de disputa judicial.

É nesse contexto que devemos pensar na fragilidade das democracias. Elas não deixam de existir de um dia para o outro. Podem continuar realizando eleições, mantendo tribunais e preservando suas instituições enquanto estreitam, gradualmente, o espaço em que os cidadãos podem expressar discordância. Conhecemos isso. Basta examinar as eleições que vivemos. A fragilidade aparece quando leis concebidas para enfrentar ameaças graves passam a produzir efeitos que atingem também a manifestação de convicções políticas, a liberdade de associação e a circulação de ideias.

Enquanto palestinos continuam sofrendo as consequências de uma guerra devastadora, uma escritora decide que não quer tratar essa realidade como um assunto distante. Ela compromete parte de seus próprios rendimentos com uma causa em que acredita. Podemos discutir se escolheu a organização adequada. Não podemos, porém, fingir que a disposição de assumir custos pessoais por uma convicção seja, em si, uma ameaça à democracia.

A pergunta que fica é simples: um cidadão que emprega o próprio dinheiro para apoiar uma causa política, por mais controversa que seja a organização escolhida, merece ver seu trabalho excluído do mercado de um país?

Sally Rooney não precisa ter razão em tudo para ter o direito de se manifestar. Não precisa ser uma heroína, tampouco uma escritora infalível. Basta reconhecer que uma democracia saudável deve tolerar posições que incomodam o governo, desafiam consensos e obrigam a sociedade a confrontar as consequências de suas próprias decisões.

O verdadeiro teste da liberdade não está em permitir que todos repitam o que já é aceitável. Está em garantir que as pessoas possam defender aquilo em que acreditam sem que o Estado transforme a discordância em crime. Não era para ser assim?

Quando uma democracia começa a tratar o compromisso político de uma escritora como um problema de segurança nacional, talvez seja hora de perguntar não apenas o que Sally Rooney está defendendo, mas também o que o Reino Unido está disposto a sacrificar para impedir que ela o defenda.

Sally Rooney (1991)

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O Capote e outras histórias, de Nikolai Gógol

O Capote e outras histórias, de Nikolai Gógol

Nikolai Gógol é um cara perturbador, é todo um mundo de cabeça pra baixo. Ele é o mestre do extraordinário e do absurdo que acaba parecendo muito parece muito familiar. Em suas histórias, funcionários públicos perdem e ganham dignidade por causa de um capote, narizes adquirem vida própria, negociantes compram e vendem até mesmo almas de mortos, homens mergulham na loucura e forças sobrenaturais irrompem no cotidiano. Tudo parece disparatado. Mas, quanto mais disparatado se torna o universo de Gógol, mais reconhecemos nele alguma coisa.

Este volume reúne O Capote, Diário de um Louco, O Nariz, Noite de Natal e Viy. À primeira vista, são histórias muito diferentes: a tragédia disfarçada de comédia de um funcionário insignificante, o mergulho numa consciência enlouquecida, a fantasia surreal, a celebração do folclore ucraniano e uma narrativa de terror. Mas todas parecem nascer da suspeita de que a realidade não é tão sólida e as convenções que organizam nossa vida podem ser tão absurdas quanto os acontecimentos mais fantásticos.

Em O Capote, Akáki Akákievitch é um funcionário público tão insignificante que parece existir apenas para copiar documentos. A necessidade de um capote novo, fundamental para se proteger do frio, torna-se o grande objetivo de sua vida de escriturário. Gógol parte de uma situação banal para revelar um mundo em que a dignidade humana depende de aparências, posses e reconhecimento social. O riso, aqui, traz consigo uma tristeza profunda. O que é mais ridículo? O personagem ou a sociedade que o reduz à insignificância?

Em Diário de um Louco, a mesma sociedade hierárquica e sufocante aparece sob outra perspectiva. Um homem que procura uma posição no mundo constrói para si uma realidade delirante, na qual sua identidade adquire proporções grandiosas. Escrito na forma de um diário, podemos acompanhar o processo de enlouquecimento. Em O Nariz, Gógol leva essa lógica ao delírio: um nariz separa-se de seu dono e passa a circular pela cidade em posição social superior à dele. A identidade humana, o prestígio e a autoridade tornam-se uma farsa. Se em O Capote um objeto parece conferir existência ao homem, em O Nariz uma parte do corpo conquista uma existência social independente. Nos dois casos, Gógol, com humor implacável, põe a ridículo as hierarquias.

A unidade dessas histórias não depende, portanto, de personagens ou enredos semelhantes, mas de uma maneira muito particular de olhar o mundo. Gógol percebe o absurdo no cotidiano: basta deslocar um pouco suas regras, exagerar suas convenções ou levar sua lógica às últimas consequências para que o mundo revele seu caráter grotesco. A burocracia pode ser mais fantástica que a magia; a hierarquia social, mais delirante que a loucura; a necessidade de reconhecimento, mais assustadora que qualquer criatura sobrenatural. (Viram, ainda sei usar o ;).

Depois de O Capote, Diário e do Nariz há uma quebra. Saímos de St. Petersburgo e vamos para a vida rural e folclórica do interior da Ucrânia. Em Noite de Natal e Viy, esse universo se abre explicitamente não somente ao folclore, mastambém ao sobrenatural. Diabos, feitiços, crenças populares e forças inexplicáveis convivem com a vida cotidiana. Mas a mudança de registro não significa que estejamos em ruptura. O fantástico já estava presente no nariz que passeia pela cidade, assim como o grotesco já habitava a existência de Akáki Akákievitch. O que muda é a forma. Em Noite de Natal, ele aparece revestido de humor, desejo, exuberância e encanto popular; em Viy, transforma-se numa experiência de terror, de confronto com o desconhecido. É essa continuidade entre o cotidiano e o sobrenatural que dá unidade ao livro. Todos tentam encontrar alguma ordem, alguma dignidade, algum sentido nas coisas, mas acabam enredados em situações que escapam ao controle.

Escritor da primeira metade do século XIX, Gógol permanece bem vivo. Afinal, seguimos correndo entre burocracias difíceis de explicar, hierarquias ridículas, obsessões com prestígio e identidades que dependem apenas do olhar alheio. Continuamos tentando encontrar lógica em situações que não a possuem e dignidade dentro de sistemas que frequentemente nos tratam como peças substituíveis. O cenário mudou, mas o mecanismo gogoliano continua funcionando: basta olhar de perto para que o respeitável se torne grotesco e o cotidiano revele sua face absurda.

Este volume vale não apenas por reunir algumas das narrativas mais fascinantes de Gógol, mas por permitir que percebamos a coerência de sua imaginação.

O Monty Python, grande parente espiritual e herdeiro de Gógol, também nos ensinou que o absurdo é uma maneira de enxergar a realidade. Rimos de seus disparates, mas o riso nunca é inteiramente tranquilo: depois dele, fica a impressão de que o mundo lá fora não é tão diferente assim, né?

Nikolai Gógol (1809-1852)

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Em um quarto estranho, de Damon Galgut

Em um quarto estranho, de Damon Galgut

Puxa vida, o sul-africano Galgut é realmente um mestre. Em um quarto estranho não são relatos autobiográficos tradicionais, mas sim um romance de características autobiográficas. O livro é classificado como um “romance”, no entanto, seu material e protagonista estão diretamente relacionados à experiência pessoal de Damon Galgut. Não é autoficção porque, bem, não é ficção. Sua particularidade reside no fato de que ele utiliza técnicas ficcionais para processar e reconstruir materiais reais de sua vida. São três viagens bem pouco turísticas em três tempos diferentes. O autor confirmou em entrevista que as três viagens narradas no livro (Grécia, África, Índia) são baseadas em experiências suas. Curiosamente, a narrativa alterna entre “ele” e “eu” para se referir ao protagonista. Na mesma entrevista, ele explicou: “Em parte ele sou eu completamente, em parte ele é um estranho que observo.” O The Guardian — sim, pesquisei após ler o livro — fala que, embora seja “claramente baseado em eventos autobiográficos”, ele oferece a “verdade de um escritor”, estando, deste modo, na fronteira entre a vida real e a ficção, podendo ser considerada uma autoficção ou romance autobiográfico, mas não uma autobiografia em sentido estrito.

Em um quarto estranho tem algo que eu poderia chamar de delicadeza inquietante. Damon, o protagonista, viaja, cruza paisagens e fronteiras, encontra desconhecidos e se deixa levar por relações que começam com boas promessas e terminam, não raro, em desconforto, exaustão ou desamparo. Há nele uma inquietação que não se resolve com o deslocamento geográfico.

O livro se organiza em três movimentos, três experiências de viagem e de aproximação com outras pessoas. Em cada uma delas, Galgut investiga a incapacidade de assumir compromissos, entre a solidariedade e o incômodo, entre a vontade de ajudar alguém e a necessidade de preservar a própria integridade. Seus personagens se aproximam, apenas isso. Às vezes, parece intimidade, mas são pessoas dividindo o mesmo espaço.

Uma das grandes virtudes do romance está na forma. Como disse, Galgut alterna a narração entre primeira e terceira pessoa. Assim, cria uma distância curiosa entre o escritor e seu personagem, para depois dissolver subitamente o espaço. Essa escolha produz um efeito interessante: nos instalamos no personagem mas jamais inteiramente. O próprio eu parece ser uma espécie de quarto estranho. Outro fato é que as frases interrogativas não vêm com ponto de interrogação e, como li este livro em voz alta para minha mulher, às vezes tinha que repetir a frase para cantar a música da pergunta.

Como sempre, a prosa é fluida e sem sentimentalismos. Ainda bem que Galgut não transforma a inquietação de seus personagens em declarações existenciais tipo Mia Couto. Seu talento está justamente em deixar que os gestos, os silêncios, os desconfortos e as pequenas ambiguidades revelem aquilo que as pessoas não sabem ou preferem não dizer. O que realmente devemos aos outros? Até onde vai nossa responsabilidade? Em que momento a liberdade se converte em abandono?

Damon Galgut, que demonstrara sua extraordinária capacidade de observar as fraturas íntimas e sociais da África do Sul em livros como O Bom Médico e nos sensacionais O Impostor e A Promessa, tem uma qualidade essencial: a compreensão de que os dramas humanos raramente se apresentam de maneira organizada, com causas evidentes e conclusões definitivas. Vivemos por aproximações, equívocos, impulsos e recuos. Talvez a maior estranheza não esteja nos quartos em que entramos durante uma viagem, mas no fato de que, mesmo quando encontramos abrigo, alguma coisa em nós segue do lado de fora.

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As mais absurdas premiações do Nobel de Literatura

As mais absurdas premiações do Nobel de Literatura

Sou muito agradecido ao Nobel de Literatura, ao Jabuti e ao Booker Prize. Conheci vários grandes autores através destes prêmios, principalmente o Nobel, mas quando os caras erram, eles mergulham com vontade na lama. No próximo dia 8, quinta-feira, saberemos quem é o novo Nobel de Literatura. Agora, vou me divertir — talvez sozinho — dando uma passada pelas premiações mais absurdas do Nobel.

Peter Handke (2019)

Francamente, li três de seus livros… Eram de médios para fracos. Serviram para alguns bons filmes de Wim Wenders e só. Ele escreveu um romance que eu achei que era de brincadeira, mas não era: “O medo do goleiro diante do pênalti”. Ora, tudo o que o goleito não sente diante do pênalti é medo. Tomar o gol é normal, defender é virar herói e a vergonha fica para o batedor. O pênalti é a única execução onde o algoz pode virar vítima. Além do principal, que é ser um escritor apenas médio, é um fascista que apoiou o falecido líder sérvio Slobodan Milošević, condenado por crimes de guerra. OK, A Academia Sueca justificou que o prêmio era para a obra literária, não para as opiniões políticas do autor. Eles não encontraram em seus textos uma defesa explícita de genocídio. Eu também não. Só achei tudo bem rotineiro.

Bob Dylan (2016)

Piada. A vitória do cantor e compositor estadunidense é uma das grandes campeãs do absurdo. Premiar Dylan pareceu uma tentativa de “quebrar regras por quebrar”, sem aplicar o mesmo rigor literário usado com poetas mais… literários, digamos. Mario Vargas Llosa e Orhan Pamuk ficaram putos, dizendo que o prêmio deveria ir para um escritor. Subscrevo-os.

Patrick Modiano (2014)

Mais uma brincadeira da Academia Sueca. O equivalente francês de Le Clézio, do qual logo falarei: um escritor respeitado na França. Comecei a ler dois de seus livros, mas não suportei. E é raro eu abandonar um romance.

J. M. G. Le Clézio (2008)

Outro caso de “não é ruim, mas… fala sério!”.

Dario Fo (1997)

Ninguém entendeu. Virou piada até na Itália, seu país natal, que devia se orgulhar dele.

Eyvind Johnson e Harry Martinson (1974)

Esta premiação é frequentemente lembrada por um detalhe constrangedor: ambos os vencedores eram membros da Academia Sueca. Detalhe: eles concorriam com nomes como Graham Greene, Saul Bellow e Vladimir Nabokov. Eu me dou o Nobel, pronto!

Winston Churchill (1953)

Junto com Bob Dylan, talvez seja o caso mais “o que diabos está acontecendo?”. Churchill recebeu o Nobel de Literatura, não o da Paz, “por seu domínio da descrição histórica e biográfica, bem como pela brilhante oratória na defesa dos valores humanos elevados”. Ele realmente escrevia muito bem — mas a escolha parece uma mistura de literatura, prestígio político e circunstância histórica.

Pearl S. Buck (1938)

Pearl Buck vence fácil o campeonato de pior escritor(a) a receber o prêmio. Une-se constrangidamente a Prudhomme e Dylan como as piores escolhas. A Academia premiou-a “por suas descrições ricas e verdadeiramente épicas da vida camponesa na China”. Hoje, ela é muito menos prestigiada no cânone literário do que vários autores que ficaram de fora. E o fato de ter vencido enquanto Virginia Woolf e James Joyce estavam vivos…

Erik Axel Karlfeldt (1931)

Um dos casos mais estranhos. Nenhum presunto recebe o prêmio, mas este recebeu já morto.Era poeta sueco e, pior, era membro da própria Academia Sueca. Recusou o prêmio em vida em 1919, mas recebeu-o postumamente em 1931. Está morto também do ponto de vista literário.

Grazia Deledda (1926)

Muito difícil de justificar diante dos gigantes disponíveis. A Academia premiou sua obra de inspiração regional e pastoral, enquanto Joyce, Woolf e outros continuavam de fora.

Frédéric Mistral e José Echegaray (1904)

Um empate entre dois escritores que nem se conheciam. O prêmio de 1904 foi dividido entre o poeta francês Frédéric Mistral e o dramaturgo espanhol José Echegaray. A divisão foi tão estranha que gerou protestos: ninguém entendia por que Mistral, um poeta de língua provençal, não poderia ter ganhado sozinho. Ou Echegaray, né?

Bjørnstjerne Bjørnson (1903)

Em 1903, o prêmio foi para o norueguês Bjørnstjerne Bjørnson. O problema? Ele concorria com Henrik Ibsen, seu compatriota e considerado o “pai do teatro moderno”. Ninguém monta Bjørnson fora da Noruega.

Sully Prudhomme (1901)

A primeira premiação foi linda. O prêmio foi para o poeta francês Sully Prudhomme, um autor que hoje está bem morto. Enquanto isso, Tolstói estava vivo e já era bem conhecido. 42 escritores e artistas suecos assinaram uma carta de protesto, manifestando sua admiração por Tolstói e sugerindo que ele deveria ter sido o escolhido.

.oOo.

Os Nobéis que deveriam ter sido:

1901 — Tolstói, em vez de Sully Prudhomme
Começar o Nobel sem Tolstói é uma pilhéria de mau gosto.

1908 — Henry James, em vez de Rudolf Eucken
A própria Academia confessou o crime depois.

1910 — Thomas Hardy, em vez de Paul Heyse

1926 — Franz Kafka, em vez de Grazia Deledda
Aqui começa a ficar doloroso. Kafka tinha morrido apenas dois anos antes, mas em 1931 o Nobel foi concedido a um mortinho.

1932 — James Joyce, em vez de John Galsworthy

1938 — Virginia Woolf, em vez de Pearl S. Buck
Aqui está ela, Pearl Buck.

1953 — Graham Greene, em vez de Winston Churchill

1964 — Carlos Drummond de Andrade ou Guimarães Rosa, em vez de Jean-Paul Sartre, por que não?

1974 — Vladimir Nabokov, em vez de Eyvind Johnson e Harry Martinson

1984 — Jorge Luis Borges, em vez de Jaroslav Seifert
Agora já estamos diante de uma espécie de emergência literária. Borges tinha 85 anos. A Academia ainda tinha tempo.

1997 — Thomas Pynchon, em vez de Dario Fo

2008 — Philip Roth, em vez de J. M. G. Le Clézio

2009 — Amos Oz, em vez de Herta Müller

2014 — Milan Kundera, em vez de Patrick Modiano

2016 — Don DeLillo em vez de Bob Dylan

2019 — Margaret Atwood, em vez de Peter Handke

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A Nobel de 2026 (um chute)

A Nobel de 2026 (um chute)

No ano passado, acertei o Nobel de Literatura. Todos sabiam que seria um homem — a alternância está definida — e que os votantes estavam liberados para votarem em quem quisessem. Apostei no melhor que conhecia, László Krasznahorkai. E acertei.

Neste ano, dizem que o Nobel vai para uma mulher. Minha favorita é Lídia Jorge. Dentre as citadas nas casas de apostas é a que acho melhor. Mas não conheço a maioria delas, claro.

Lidia Jorge

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O impostor, de Damon Galgut

O impostor, de Damon Galgut

Eu estou apaixonado pelos livros do sul-africano Damon Galgut, dos quais já li A Promessa, O Bom Médico e agora este. Aqui, Galgut vem com a história de Adam Napier um “poeta” que vai ao interior para escrever e acaba envolvendo-se nos negócios de um amigo de infância. O tema do livro parece ser… Posso ser ousado? Como a realidade às vezes desliza sob nossos pés sem que possamos fazê-la parar.

Damon Galgut sabe incomodar. Em seus romances, o essencial não é dito, fica ligeiramente fora de foco, naquela pequena fissura por onde começa a entrar a dúvida. Há no romance uma atmosfera de inquietação permanente. O leitor nunca está inteiramente seguro de onde pisa, não porque Galgut recorra a truques ou mistérios artificiais, mas porque seus personagens carregam consigo uma espécie de moralidade opaca. Como em A Promessa, a África do Sul não aparece apenas como cenário. O país, com sua história de violência, está dentro dos personagens, contaminando relações, ambições e medos. Não há teses, a política e a história estão presentes justamente porque fazem parte da vida.

Adam Napier é um poeta branco de quarenta e poucos anos. Perdeu o emprego — substituído por um jovem negro que ele mesmo treinou, numa ironia do pós-apartheid — e perdeu sua casa. Com poucas opções, aceita a oferta do irmão: mudar-se para uma casa em ruínas no interior a fim de “reencontrar a poesia”. Ele diz a si mesmo que é um retorno à vocação. Mas todos ao redor — e o próprio leitor — sabem que é um gênero de fuga.

É então que ele conhece Canning. Um homem estranho, agradão, que afirma ter sido seu colega de escola, dono de uma enorme propriedade de caça e casado com uma bela mulher negra, Baby. Adam não lembra dele, mas é obviamente um ex-colega, pois sabe tudo do passado de Adam. E este aceita o convite. Aceita o jantar. Aceita a bebida. Aceita a amizade. E, sem perceber, aceita entrar num mundo que ele acreditava poder apenas observar de fora.

E há o título, O Impostor. A palavra parece simples, mas vai adquirindo sentidos. O “impostor” é todo mundo. Adam finge ser um poeta. Finge lembrar de Canning. Finge ser um observador neutro, um homem sensível e moralmente superior ao irmão que se vendeu ao mercado. Canning finge ser um amigo, um homem de negócios respeitável, um marido amoroso. E a própria África do Sul pós-apartheid finge ser uma nação recuperada, uma nação que resolveu seus vergonhosos problemas com uma constituição e um sorriso. E Baby? Baby não finge nada. Ela simplesmente não corresponde ao que Adam e Canning projetam nela.

Galgut escreve com uma prosa sem nenhum excesso. Não levanta a voz. Uma mudança de perspectiva, uma frase aparentemente casual, um gesto mínimo são suficientes para alterar aquilo que pensávamos compreender. É uma literatura que nos puxa para dentro dela, que nos torna seus cúmplices nas incertezas.

Depois de O Bom Médico e A Promessa, eu tinha a impressão de conhecer um pouco o território de Galgut. O Impostor mostrou-me que não. E talvez esse seja um dos maiores elogios que se possa fazer a ele: quando terminamos um livro seu, não apenas queremos ler o próximo — queremos também ler os anteriores.

Galgut acertou novamente. O Impostor é Galgut antes dos Booker Prize, mas já em plena forma.

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Ainda existem aveleiras, de Georges Simenon

Ainda existem aveleiras, de Georges Simenon

Este é um daqueles Simenon que merecem ser mais conhecidos por quem pensa que Simenon é apenas Maigret ou romances policiais ou “duros”. Nada disso, este é essencialmente um romance psicológico e familiar.

Vamos lá: há uma idade em que já não se espera que aconteça muita coisa. É desse território — o da velhice, da memória e da sensação de que o essencial já passou — que Georges Simenon extrai Ainda Existem Aveleiras, um de seus romances mais discretamente comoventes.

François Perret-Latour tem 75 anos e construiu uma vida de dinheiro, prestígio e hábitos rigorosos. Banqueiro aposentado, mora cercado por empregados e por uma existência perfeitamente organizada. Tudo parece sob controle até que notícias vindas dos Estados Unidos — a doença de sua primeira mulher e o suicídio de um filho que mal conheceu — fazem o passado retornar. Aos poucos, um desfile de outras questões familiares começam a perturbar aquela vida tão cuidadosamente ordenada.

Mas Simenon não está interessado em produzir grande tumulto. Perret-Latour vai alinhavando os panos quentes que utilizará. O que lhe interessa é observar as movimentações interiores causado por fatos da vida, alguns deles banais. Um telefonema, uma lembrança, uma conversa com a governanta, uma visita, uma notícia desagradável: são esses acontecimentos modestos que fazem Perret-Latour voltar a sentir-se vivo. É uma das grandes qualidades de Simenon: ele sabe que uma existência humana não precisa de acontecimentos extraordinários para conter um romance completo.

O título concentra essa ideia. Num passeio pelo campo, o velho banqueiro vê, numa sebe, algumas aveleiras que ainda dão frutos. A descoberta o surpreende: apesar dos aviões, das estradas, da transformação do mundo, ainda existem aveleiras. Ele próprio percebe que a conclusão é quase ingênua, mas não consegue deixar de se emocionar. As aveleiras tornam-se então uma pequena imagem daquilo que permanece quando quase tudo parece ter mudado: há ainda alguma coisa viva e simples.

E talvez seja justamente aí que o romance se distancia do Simenon mais sombrio. Não há aqui o pessimismo radical de alguns de seus romances duros. Há melancolia, certamente, mas também uma espécie de reconciliação com a vida. Perret-Latour descobre que envelhecer não significa necessariamente retirar-se do mundo. Pode significar, ao contrário, o encontro com coisas que a pressa, o dinheiro e o trabalho haviam impedido de enxergar.

Perret-Latour pode ter sido egoísta e distante, até mesmo responsável por algumas infelicidades, mas Simenon não o transforma em réu. Há uma curiosidade compassiva pelo ser humano, uma disposição para compreender suas pequenas covardias, seus arrependimentos e suas tentativas de reparar aquilo que ainda pode ser reparado. Também chama atenção a simplicidade da escrita. Simenon parece não fazer esforço algum para produzir literatura — e talvez justamente por isso produza tanta. Os diálogos são naturais, nada forçados, e as emoções não são anunciadas. Aparecem apenas nos gestos, nos silêncios.

Vocês sabem, Simenon é o anti-piegas. Mas Ainda Existem Aveleiras é um livro sobre a possibilidade de recomeçar quando já não esperávamos recomeço algum. E há uma delicadeza especial nisso: Simenon não promete uma redenção. Oferece algo muito mais modesto — e talvez mais verdadeiro. Uma pessoa pode ter desperdiçado anos, cometido erros, afastado pessoas e envelhecido. Ainda assim, alguma coisa permanece.

Afinal, ainda existem aveleiras.

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O bom médico, de Damon Galgut

O bom médico, de Damon Galgut

Damon Galgut tem uma premiadíssima obra-prima em seu currículo: A promessa — livro vencedor do Booker Prize de 2021, entre outros vários prêmios. Por isso, fui procurar outros livros dele. Em O bom médico, ele conta a história do encontro entre dois médicos num hospital miserável do interior da África do Sul. Pouco depois do fim do apartheid ninguém sabe muito bem como será o novo país e Galgut bota sua lente no conflito entre duas pessoas: uma que desistiu de agir e outra que acredita, talvez ingenuamente, que ainda é possível mudar o mundo. Publicado em 2003 e finalista do Booker Prize daquele ano, o romance se passa no interior da África do Sul. O hospital, abandonado e decadente, torna-se uma espécie de miniatura da própria África do Sul: o regime mudou, mas o passado (e a pasmaceira) continua instalado nas paredes.

O narrador, Frank Eloff, é um médico que já perdeu a fé em quase tudo. Profissional competente, mas acomodado, carrega uma espécie de culpa histórica e pessoal: seu passado inclui uma hesitante experiência no Exército durante o apartheid. Ele não espera mais nada daquele lugar e, sobretudo, não acredita em grandes gestos. É justamente por isso que a chegada de Laurence Waters, jovem médico idealista, o incomoda tanto. Laurence acredita que a medicina pode transformar a realidade e se empenha em levar atendimento às comunidades pobres. O conflito entre os dois é rico porque Galgut não transforma Laurence no “bom médico” do título de maneira simples. Seu idealismo contém generosidade, mas também vaidade, imprudência e uma espécie de desejo de se sentir moralmente superior.

E aqui está, para mim, a grande inteligência do romance: Galgut não adere nem ao cinismo, nem ao idealismo. Frank sabe que o mundo é complicado e, por isso, não faz quase nada… Laurence acredita que sabe como o mundo deve ser e, justamente por isso, acaba produzindo coisas que carregarão consequências que não consegue controlar… O primeiro peca pela omissão; o segundo, pela ação irrefletida. Entre ambos fica uma pergunta terrível: é melhor não fazer nada diante da injustiça ou agir, mesmo correndo o risco de fazer mal?

A África do Sul pós-apartheid é mais do que cenário. O hospital situa-se num antigo território criado para a população negra, e sua decadência material parece representar a dificuldade de simplesmente decretar que o passado acabou. A democracia chegou, mas as estruturas, os ressentimentos, a desigualdade e a violência continuam presentes. O apartheid está muitas vezes nas margens, nas relações entre as pessoas e na sensação de que todos carregam alguma coisa que prefeririam esquecer. Li algumas críticas que chamam a atenção precisamente para essa tensão entre passado e presente e para a persistência das divisões sociais e raciais.

Também é importante a forma como Galgut conta a história. Frank é um narrador pouco confiável, não necessariamente porque mente deliberadamente, mas porque enxerga o mundo a partir de suas próprias feridas, ressentimentos e limitações. Ele interpreta Laurence, sua amante Maria, os colegas e os acontecimentos — e a gente não acredita muito nele. Eu, pelo menos. Essa ambiguidade é uma das razões pelas quais o romance é tão interessante.

Há ainda uma questão que acho particularmente bonita: o que significa ser “bom”? Um bom médico é aquele que cura? Aquele que tenta ajudar? Aquele que respeita os limites de uma situação? Aquele que assume responsabilidades? Ou aquele que simplesmente não consegue assistir passivamente ao sofrimento? (Como comuna, sempre desconfiei de quem faz caridade, mas isso não vem ao caso). Galgut parece sugerir que a bondade, quando se transforma em certeza sobre o próprio papel no mundo, pode se tornar perigosa. (Nota: não gosto muito dos pró-ativos). E, ao mesmo tempo, o cinismo de Frank não é uma forma superior de lucidez: é também uma maneira de fugir.

Por isso, O Bom Médico é interessante não apenas pela questão do apartheid — que já renderia uma longa conversa —, mas porque permite discutir coisas muito próximas de nós: idealismo, culpa, responsabilidade, omissão, desejo de ser uma pessoa boa e, sobretudo, a dificuldade de distinguir uma boa intenção de uma boa ação. Sim, é na zona desconfortável entre esperança e fracasso que este romance realmente vive.

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O Duelo, de Anton Tchékhov

O Duelo, de Anton Tchékhov

Nesta rara novela de Tchékhov — como todos sabem, ele se dedicava mais aos contos e às peças de teatro –, a gente fica imaginando que outras novelas e romances maravilhosos ele também poderia ter escrito. Aqui, neste O Duelo, a ideologia encontra o abismo humano. O Duelo vai muito além do confronto físico que lhe dá título, transformando-se num palco para algumas das grandes questões existenciais que assombravam a intelligentsia russa do século XIX.

A história se passa numa pequena cidade litorânea do Cáucaso, um microcosmo, onde Tchékhov reúne figuras que representam polos opostos da existência. De um lado, Laiévski, um burocrata de 28 anos, é a personificação do “homem supérfluo” da literatura russa. Trata-se um sujeito que se mudou para o campo com sua amante, Nadiéjda, com sonhos de uma vida simples, mas que se perdeu no jogo, na bebida e na inércia. Vive pedindo dinheiro para todo mundo. De outro, o zoólogo Von Koren, um darwinista social convicto, representa a razão fria e o pragmatismo mais extremo, vendo em Laiévski um ser inferior. Acharia melhor se este fosse eliminado para o bem da evolução da espécie.

Na verdade, há vários “duelos”. Não há apenas o duelo final entre os dois homens, mas também o duelo silencioso entre os amantes que já não sabem se se amam, o duelo ideológico entre o niilismo boêmio e a rigidez científica, o duelo individual entre sonho e realidade, que dilacera o protagonista por dentro e o duelo da própria forma, onde Tchékhov equilibra a concisão do conto com a amplitude do romance .

Von Koren é brilhante e tem razão em muitos dos seus diagnósticos sobre a inépcia de Laiévski, mas seu antídoto para o mal é um autoritarismo que beira o totalitarismo, tratando pessoas como “insetos e nulidades” em nome da humanidade, da evolução e da razão. Já Laiévski é patético e autodestrutivo, mas sua falência é profundamente humana.

Ao contrário do que se poderia esperar, O Duelo não se resolve na violência do combate. O clímax se desvia por um acaso, por uma intervenção casual. A novela termina numa nota de ateísmo, sugerindo que a redenção e a justiça não vêm de grandes gestos ideológicos, mas sim de pequenas correções éticas na vida cotidiana.

Esta é uma obra de realismo psicológico, uma boa análise de humanos em crise e um comentário atemporal sobre o perigo de se transformar pessoas em meros objetos de uma teoria. Para fãs de Tolstói, Dostoiévski ou Turguêniev, O Duelo é uma leitura essencial que, como bem disse um amigo aqui da livraria, nos lembra que, na maioria das vezes, “os duelos fazem parte da maneira como enxergamos o mundo”.

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Mediação de “Pequenas coisas como estas”, de Claire Keegan

Pequenas Coisas Como Estas, de Claire Keegan, é um livro curto, de linguagem econômica, mas moralmente muito perturbador. Eu faria a mediação de modo a não transformar a conversa apenas em “o que Bill deveria ter feito?”, porque o livro oferece questões muito mais interessantes sobre culpa, silêncio, conveniência e coragem.

Roteiro de mediação — Pequenas Coisas Como Estas

1. Comece pelo título

Pergunte:

“O que são, afinal, as ‘pequenas coisas’ do título?”

Deixe o grupo falar antes de explicar. A expressão pode parecer referir-se aos pequenos gestos cotidianos, mas vai ganhando um peso moral enorme. O livro pergunta, de certo modo, o que fazemos quando uma coisa aparentemente pequena exige de nós uma decisão enorme.

2. Bill Furlong: quem é esse homem?

Bill é um homem comum, trabalhador, pai de família, comerciante. Não é apresentado como herói.

Perguntas:

  • Vocês gostam de Bill?
  • Ele é um homem moralmente corajoso ou apenas alguém decente que se vê obrigado a agir?
  • Por que Keegan faz dele um personagem tão comum?
  • O que há de extraordinário em sua decisão?

Aqui eu insistiria numa questão interessante:

“Bill é um herói ou simplesmente fez aquilo que qualquer pessoa deveria fazer?”

Essa pergunta costuma dividir o grupo.

3. O passado de Bill

O passado dele é fundamental: a própria origem de Bill está ligada à generosidade de uma mulher que poderia ter escolhido abandoná-lo.

Pergunte:

“Bill ajuda porque é um homem bom ou porque sabe, por experiência própria, o que significa alguém decidir não abandoná-lo?”

Isso permite discutir memória e gratidão sem transformar o personagem numa espécie de santo.

4. O grande tema: o silêncio

Este talvez seja o eixo central da discussão.

Todos sabem — ou suspeitam — que há algo terrível acontecendo. Mas existe um silêncio coletivo.

Pergunte:

  • Por que as pessoas não falam?
  • Quem se beneficia desse silêncio?
  • O silêncio é covardia?
  • É medo?
  • É autopreservação?
  • Ou é simplesmente a maneira como uma sociedade inteira aprende a conviver com uma injustiça?

E uma pergunta que pode render muito:

“O que é mais assustador no livro: as pessoas que fazem o mal ou as pessoas decentes que conseguem viver ao lado dele?”

5. A Igreja e a sociedade

É importante não reduzir o livro à denúncia de uma instituição específica. Keegan mostra um sistema social inteiro.

Pergunte:

  • Por que ninguém quer saber demais?
  • Que papel desempenham o dinheiro, o emprego, a reputação e a dependência social?
  • O que significa desafiar uma instituição que organiza a vida da comunidade?
  • Bill coloca apenas a si mesmo em risco ou também sua família?

Aqui aparece uma das grandes sutilezas do livro: fazer o bem não é gratuito.

6. Eileen, a esposa

Eu dedicaria um bom tempo a ela, porque é fácil deixar Eileen em segundo plano.

Ela representa, de certa forma, a necessidade de proteger a estabilidade conquistada pela família.

Pergunte:

“Eileen está errada ao querer que Bill não se meta?”

E depois:

“Até onde podemos exigir coragem moral de alguém quando as consequências atingem também sua mulher e suas filhas?”

Essa é uma pergunta particularmente boa porque impede uma leitura simplista.

7. A cena do convento

Aqui vale perguntar primeiro sobre a experiência de leitura:

“Em que momento vocês perceberam que Bill não conseguiria simplesmente ir embora e esquecer o que viu?”

E depois:

  • O que muda dentro dele?
  • Ele toma uma decisão racional ou quase instintiva?
  • Por que a menina que ele encontra provoca nele uma reação tão forte?

8. A linguagem de Claire Keegan

Este é um ponto que eu exploraria bastante.

Keegan escreve sem melodrama. Ela não precisa descrever longamente a crueldade para que nós a sintamos.

Pergunte:

  • O que o livro ganha com essa contenção?
  • Teria sido mais fácil ou menos poderoso se Keegan tivesse explicado tudo?
  • Por que sentimos tanto justamente diante daquilo que não é dito?

Uma boa provocação:

“Keegan escreve um livro sobre silêncio usando uma linguagem que também é silenciosa?”

9. O final

Sem necessariamente procurar uma interpretação definitiva:

  • O final é esperançoso?
  • É corajoso ou irresponsável?
  • Bill mudou sua vida ou apenas deu o primeiro passo?
  • O que vocês imaginam que acontecerá depois?

E uma pergunta especialmente boa:

“O livro termina quando Bill resolve o problema — ou justamente quando começa o verdadeiro problema?”

Para fechar

Eu terminaria com uma pergunta mais ampla, que tira o grupo da Irlanda dos anos 1980 e traz o livro para nós:

“Quantas vezes na nossa própria vida percebemos que alguma coisa está errada, mas preferimos não olhar muito de perto porque olhar significaria ter de fazer alguma coisa?”

E talvez acrescentasse:

“Será que são realmente as grandes decisões que definem uma pessoa — ou são as pequenas coisas que ela faz quando ninguém está olhando?”

Essa última, para mim, é a pergunta que melhor resume o livro. Claire Keegan pega uma história aparentemente pequena e transforma-a numa espécie de teste moral para o leitor. E o mais incômodo é que, depois de terminar, não temos tanta certeza de que passaríamos nesse teste.

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Da Elena no meu aniversário

Um poema do pouco conhecido aqui, de Nikolay Gumilyov.

Bebê elefante

Meu amor por você agora é um bebê de elefante
Nascido em Berlim ou em Paris
Que anda, com pernas bambas
Pelos aposentos do dono do zoológico.

Não lhe ofereça baguetes
Não lhe ofereça grandes repolhos,
Ele só pode comer um gomo de tangerina
Um cubo de açúcar ou um bombom.

Não chore, minha doce, que em uma gaiola apertada
Ele se tornará o escárnio dos comuns,
Para que a fumaça dos charutos seja soprada em seu nariz
Por comerciantes ao som do riso de costureiras.

Não pense, minha querida, que o dia chegará
Quando, enfurecido, ele quebrará as correntes
E correrá pelas ruas
Como um ônibus, esmagando as pessoas aos gritos.

Não, deixe-se sonhar com ele pela alta madrugada
Em brocado e cobre, com penas de avestruz,
Como aquele Magnífico que outrora
Carregou para a trêmula Roma Aníbal.

(1920)

*******

Sabemos que ler poesia traduzida é como tomar banho de capa de chuva. (c)
Então, coloco o original no primeiro comentário.
Feliz aniversário, meu q u e r i d o!

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O que podemos saber, de Ian McEwan

O que podemos saber, de Ian McEwan

McEwan é um autor especialmente bom para resenhas que não contem demais do enredo, porque o que torna seus livros fascinantes — com as exceções de A Barata e Solar, livros que detestei — é justamente a forma como ele vai deslocando, aos poucos, aquilo que pensamos saber sobre as pessoas, o passado e até sobre nós mesmos. Há escritores que contam histórias para nos fazer esquecer o mundo, McEwan faz o contrário: conta histórias para nos lembrar de como é estranho, frágil e misterioso o que julgamos conhecer.

Em O que podemos saber, McEwan parte de uma pergunta que parece simples, mas que logo se torna importante e abissal: o que, afinal, podemos saber sobre uma pessoa que já viveu, sobre um tempo que já passou, sobre uma vida que não é a nossa? O romance se constrói nesse espaço entre memória e imaginação, entre aquilo que os documentos preservam e aquilo que inevitavelmente se perde. E é justamente aí que a literatura aparece — não como uma máquina de recuperar o passado, mas como um modo delicado e inteligente de conversar com aquilo que desapareceu.

Por falar em inteligência, McEwan tem uma bem particular. Ele é mestre em transformar grandes questões em experiências íntimas. O futuro, a memória, o amor, a morte, a passagem do tempo e a nossa relação com as gerações que virão não aparecem como temas filosóficos. Ganham corpo em personagens, desejos, segredos e descobertas. O resultado é um romance que pensa sem jamais deixar de contar uma história.

Neste livro, há também uma espécie de melancolia muito bonita. Não apenas a melancolia diante do que já aconteceu, mas diante daquilo que não poderá mais ser conhecido. Toda vida humana contém zonas inacessíveis. Pessoas que amamos guardam pensamentos que nunca nos revelaram. Acontecimentos importantes são esquecidos ou varridos minuciosamente para baixo do tapete, sentimentos mudam de significado com o passar dos anos. Mesmo quando temos documentos, fotografias, cartas e testemunhos, nunca possuímos inteiramente uma existência.

A história desenrola-se em dois tempos. Em 2119, o mundo foi devastado por alterações climáticas e guerras nucleares que reduziram a população global à metade, afundaram boa parte da Inglaterra (transformado num arquipélago) e tornaram a Nigéria a grande potência. Neste cenário, Thomas Metcalfe, um professor de literatura, dedica-se a estudar o período de 1990 a 2030, uma época que ele chama de “era de ouro”, de abundância e liberdade. E de irresponsabilidade, claro.

A sua obsessão é um poema perdido: Uma Coroa para Vivien, escrito em 2014 pelo poeta Francis Blundy para a sua esposa e lido uma única vez durante um jantar de aniversário e nunca mais encontrado. O poema, uma complexa sequência de 15 sonetos, tornou-se uma lenda, envolto em mistério e especulação. Tom, juntamente com a sua companheira e colega Rose, vasculha os registros digitais do século XXI — e-mails, mensagens, blogs — na esperança de encontrar uma pista que o leve ao poema perdido.

A primeira metade do livro é narrada por Tom, que nos guia pela sua desajeitada investigação a um passado que só conhece através de arquivos. McEwan utiliza esta estrutura para nos fazer olhar para o nosso presente com olhos de estranhamento: o nosso excesso de informação, as nossas redes sociais, as nossas certezas científicas e as nossas estupidezes cotidianas são dissecados com uma curiosa distância crítica que nos faz rir.

A segunda metade, porém, reserva uma reviravolta típica de McEwan (que lembra a estrutura de Reparação). A narradora passa a ser Vivien, a esposa do poeta, que revela uma teia de segredos, amores proibidos e um crime brutal que nenhum arquivo digital poderia conter. É aqui que o romance atinge a sua maior profundidade: o que podemos saber, mesmo com acesso a toda a informação do mundo, é apenas uma fração do que realmente aconteceu. O título, que parece uma pergunta, revela-se uma afirmação melancólica: aquilo que podemos saber é limitado, fragmentado e sujeito à interpretação.

A escrita de McEwan é, como sempre, precisa e elegante. Ele constrói um futuro distópico que funciona como um espelho do nosso presente, refletindo as nossas ansiedades sobre as alterações climáticas, as guerras e o colapso da ordem global. Contudo, o autor não fica preso pelo gênero apocalíptico, que é apenas pano de fundo. A história que é, essencialmente, sobre o amor, a memória e a traição.

A beleza do romance está na forma como McEwan, de 78 anos, transforma a busca por um poema num veículo para questões universais. O que fica de nós quando morremos? O que sobrevive para além dos “likes”? Como é que o futuro nos julgará? O que podemos saber também é um romance sobre a distância. A distância entre uma pessoa e outra, entre o presente e o passado, entre aquilo que aconteceu e aquilo que conseguimos contar sobre o que aconteceu. Mas é também um livro sobre o esforço humano de atravessar essas distâncias.

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A Montanha, de novo

A Montanha, de novo

Dentro da obra de Thomas Mann, sempre gostei mais de Doutor Fausto do que de A Montanha Mágica. Lá nos anos 80, eu dizia isto para o tradutor Herbert Caro, que, se bem lembro, não se posicionava, apesar de seu amor pela música.

Reli há pouco Os Buddenbrook, mas não abri nem A Montanha e nem o Fausto neste século. desde aquele época, a euforia pelo Fausto reduziu-se lentamente e ficou o afeto pela Montanha. É incrível como este romance permanece na minha memória. Nada do que é dito por Luisa Coquemala em suas ótimas aulas sobre A Montanha Mágica é totalmente estranho a mim. Às vezes me vêm expressões como “a luta pela alma de Hans Castorp”, “o filho enfermiço da vida” e ninguém pode bater a porta que já espero o consequente caminhar silencioso e sexy de uma russa. As expressões cômicas do livro — pois há, e muitas! — ainda estão tão presentes em minha memória quanto os capítulos “Neve” e “Politicamente Suspeita”. Qualquer hora dessas, a saudade de Settembrini vai apertar e volto ao livrão de Mann, certamente antes do Fausto.

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A favor dos livros, contra a nova modinha

A favor dos livros, contra a nova modinha

Como livreiro totalmente ralado financeiramente, acordei nesta manhã tão preocupado com as vendas como em bater nesse discurso de que o livro impresso é um “vilão ecológico”. Certo, admito, o livro é até um dos vilões, mas… está bem longe de ser o maior deles. Vejamos:

1. Um livro físico dura décadas, séculos. Qualquer e-reader tem bateria de lítio — obtido em mineração predatória — e vida útil de 5 a 7 anos, exigindo substituição.

2. O livro usa energia apenas na produção. O digital exige servidores (data centers) ligados 24h, que consomem água e energia elétrica constantemente para cada nuvem, cada download e cada sincronização.

3. O papel é 100% reciclável e biodegradável. Até a Macabéa o comia à noite com a finalidade de matar a fome. (Vá ler!). O plástico de capas de tablets e embalagens leva 500 anos para se decompor. Imagina a Macabéa comendo um celular!

4. Comércio local é igual a menos transporte: quando vendo livros presencialmente, evito o impacto de entregas individuais motorizados das compras online. Mais: dou preferência às bicicletas.

5. Se vendo usados, estou no topo da economia circular — prolongando a vida de um produto que já consumiu recursos, sem gerar novo gasto.

6. Livros encalhados não se tornam lixo tóxico.

7. Mais, o ganho ecológico é MAIOR: o livro transforma comportamentos.

8. Pessoas que leem são mais críticas, consomem com mais consciência e tendem a adotar hábitos mais verdes (se alguns não buscam os livros que reservam na Livraria Bamboletras não sou eu o culpado).

9. Um livro sobre sustentabilidade, natureza ou consumo consciente gera um efeito cascata positivo muito maior do que a mordida de carbono da sua produção. Até um livro Machado de Assis gera um efeito cascata, mas isso é conversa pra outro discurso.

10. Papel mata árvores? As árvores do papel são plantadas para isso. Se pararmos de comprar papel, essas florestas viram pasto ou soja, que emitem 10x mais CO2. Sim, nesse item parti pra ignorância!

11. Meu negócio não é anti-ecológico: é necessário. Cada livro que vendo é uma semente de pensamento crítico. E, ao contrário do que dizem, a indústria do papel é uma das poucas que colhe o que planta. O problema ecológico não está nos livros, está no consumo descartável — e livro não se descarta, a gente guarda, a gente empresta, a gente herda.

Então, venham à Bamboletras e salvem uma livraria.

Foto: minha biblioteca pessoal. O que tem de livro bom e biodegradável você não imagina.

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A Hora da Estrela, de Clarice Lispector (PGO VI)

A Hora da Estrela, de Clarice Lispector (PGO VI)

Não chegaria a dizer que A Hora da Estrela é dividido em duas partes, mas sim que o romance muda profundamente de ritmo. Na primeira metade, quem ocupa o centro da cena é o “autor” Rodrigo S. M. Ele hesita, interrompe a narrativa, filosofa, questiona seu direito de escrever sobre Macabéa. É um texto cheio de desvios, em que Clarice parece desmontar o próprio ato de narrar. Ouvi que vários leitores ficam impacientes, porque a história parece nunca começar. Então, algo muda ali pela metade.

A partir do momento em que Macabéa ganha mais espaço, a narrativa flui com surpreendente naturalidade. Os encontros com Olímpico, a amizade ambígua com Glória, a consulta à cartomante, tudo passa a ter uma cadência muito mais rápida, quase vertiginosa. Rodrigo continua presente, mas interfere menos. É como se, depois de tanta reflexão sobre a dificuldade de contar aquela vida, ele finalmente aceitasse deixar Macabéa existir diante de nós. Há uma ironia nisso: o narrador passa páginas dizendo que não sabe como contar a história e, quando enfim começa a contá-la, percebemos que sabia desde o início. O livro deixa de falar principalmente da escrita e passa a falar da personagem.

Eu acrescentaria ainda uma interpretação. Talvez essa mudança de ritmo tenha também um efeito emocional. Na primeira parte, Clarice nos mantém à distância, fazendo-nos pensar. Na segunda, ela nos desarma. Quando chegamos ao final, já não estamos analisando Macabéa; estamos profundamente envolvidos com ela. Bem, não foi uma interpretação. Foi quase.

Essa é uma das razões pelas quais A Hora da Estrela é tão bom. O romance não apenas conta uma história; ele dramatiza o nascimento da própria história, até que, de repente, percebemos que já não estamos lendo sobre um problema literário, mas sobre uma mulher cuja existência passou a nos importar profundamente. É uma transformação quase imperceptível — e de enorme poder artístico.

Clarice Lispector escolheu como protagonista alguém que passaria despercebido por quase todos. O livro recusa qualquer grandiosidade. Não há heróis, feitos memoráveis ou reviravoltas espetaculares. Há Macabéa, uma jovem nordestina pobre que vive no Rio de Janeiro quase sem deixar marcas no mundo. Ela trabalha, sonha pouco, deseja pouco e parece ocupar um lugar onde a sociedade acostumou-se a não enxergar ninguém.

Mas Clarice Lispector transforma essa vida aparentemente insignificante no centro absoluto da nossa atenção. Como disse, o romance é narrado por Rodrigo S. M., um escritor que hesita o tempo todo diante da tarefa de contar a história de Macabéa. Essa hesitação mais que mero artifício, é uma reflexão sobre a própria literatura. Como narrar a vida de alguém tão vulnerável sem reduzi-la a um objeto de piedade? Como encontrar palavras para quem nunca teve voz?

A escrita é ao mesmo tempo delicada e cortante, alterna momentos de ironia, compaixão, humor e espanto, Cada interrupção do narrador, cada dúvida, cada comentário sobre a escrita, reforça a sensação de que estamos diante de um(a) autor(a) que não aceita respostas fáceis.

O desfecho, tão conhecido quanto devastador, não encerra apenas a história de Macabéa. Ele nos obriga a perguntar que destino reservamos às pessoas invisíveis e qual é o papel da arte diante dessa realidade. Mais do que um livro sobre pobreza ou exclusão, A Hora da Estrela é uma reflexão sobre a dignidade humana. Clarice Lispector nos lembra que toda vida, por mais anônima que pareça, contém uma grandeza que merece ser reconhecida. E talvez seja essa a verdadeira hora da estrela: o instante em que alguém, finalmente, é visto.

Acho que essa é a obra em que Clarice mais claramente demonstra que a literatura não existe apenas para contar histórias, mas também para devolver humanidade àqueles que a realidade costuma deixar à margem. É um romance que termina, mas continua fazendo perguntas muito depois da última página.

.oOo.

O humor em A Hora da Estrela é uma das coisas mais sofisticadas do romance — e muitas vezes passa despercebido porque o final é tão devastador. Mas Clarice é frequentemente engraçada, só que de um jeito muito particular: um humor desajeitado, absurdo, melancólico. Macabéa é involuntariamente cômica. Suas frases, suas interpretações literais, seus desejos modestíssimos (um cachorro-quente, um creme de beleza, ouvir a Rádio Relógio) criam situações engraçadas. Mas o leitor ri e, imediatamente, sente um desconforto: estamos rindo da ingenuidade dela ou da pobreza do mundo que a cerca?

Também há muito humor no narrador Rodrigo S. M. Ele é exagerado, dramático, contraditório. Às vezes parece um escritor parodiando escritores. Quando faz declarações grandiosas sobre sua missão literária e logo em seguida se desmente, Clarice está brincando com a figura do intelectual atormentado. Eu diria até que existe um quê de Machado de Assis nesse aspecto: um narrador que conversa com o leitor, interrompe a narrativa, comenta suas próprias limitações e ironiza a si mesmo. Em A Hora da Estrela, o riso vem sempre acompanhado de um pequeno susto. Clarice nos faz rir para que percebamos, um segundo depois, que o objeto do riso é também uma pessoa profundamente vulnerável. Talvez seja por isso que o humor do livro permaneça na memória: ele não serve para aliviar a tragédia, mas para torná-la ainda mais humana.

É um riso triste o que nos ocorre quando ela não quer deixar a conversa com o namorado morrer e pergunta, ao passar em frente a uma ferragem:

Eu gosto tanto de parafuso e prego, e o senhor?

É uma pergunta engraçada, mas também devastadora. Ela revela o esforço desesperado de Macabéa para manter viva uma conversa, para estabelecer um vínculo, para existir diante do outro. Ela não sabe seduzir, não sabe flertar, não sabe conversar. Então recorre ao primeiro objeto que encontra na vitrine. Rimos da inadequação da pergunta e, um instante depois, sentimos uma enorme compaixão por aquela moça que simplesmente não aprendeu os códigos da convivência. Vejam bem, aqui o humor nunca é uma pausa da tragédia, ele é uma forma da tragédia.

Quando Macabéa diz

“Eu sou datilógrafa, virgem e gosto de Coca-Cola.”

nós sorrimos. Mas não porque ela seja ridícula. Sorrimos porque ela acredita que essas três informações bastem para definir uma vida. O humor nasce da pobreza das categorias disponíveis para ela, não de sua pobreza como pessoa.

Clarice constrói Macabéa de tal maneira que ela nunca se torna um símbolo abstrato da pobreza. Ela continua sendo uma pessoa singular, com pequenos gostos, pequenas obsessões, pequenas alegrias. Isso é decisivo, porque impede que o romance se transforme numa tese social. Macabéa não representa apenas “os pobres”, ela é Macabéa.

E, finalmente (já escrevi demais!), há uma observação muito pessoal que faço: costuma-se dizer que Clarice escreveu um romance sobre uma pessoa invisível. Eu iria um pouco além: ela escreveu um romance sobre o ato de observar. Rodrigo aprende a olhar Macabéa. O leitor aprende a olhar Macabéa. E, terminado o livro, talvez aprendamos a olhar de outro modo as pessoas que cruzam diariamente o nosso caminho.

É aí que, para mim, reside a verdadeira dimensão ética de A Hora da Estrela. A literatura não salva Macabéa. Mas talvez salve alguma coisa no leitor: a capacidade de perceber que nenhuma vida é pequena demais para merecer atenção.

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PGO

Desde março deste ano, rola o PGO (Pequenas Grandes Obras), que é um Clube de Leituras da Livraria Bamboletras. O foco são os clássicos curtos, livros sempre muito bons ou representativos e que deixam tempo livre para os participantes lerem outras coisas. Há vagas.

Livros do PGO:

Março: O primeiro amor, de Ivan Turguêniev
Abril: A casa das belas adormecidas, de Yasunari Kawabata
Maio: Vidas secas, de Graciliano Ramos
Junho: Bartleby, de Herman Melville
Julho: Ao farol, de Virginia Woolf
Agosto: A hora da estrela, de Clarice Lispector
Setembro: Ratos e homens, de John Steinbeck

 

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Flanar III: Roteiro para a moderação de grupos de leitura: A Promessa, de Damon Galgut

A Promessa, de Damon Galgut é um livro sobre uma família, mas também sobre a África do Sul, sobre uma promessa nunca cumprida, mas também sobre a dificuldade humana de agir moralmente. O romance evita julgamentos explícitos e confia na inteligência do leitor.

Abertura

“Quando vocês fecharam o livro, qual foi a sensação predominante? Gostaram do livro ou não?”

  • melancolia
  • frustração
  • admiração
  • tristeza
  • beleza
  • indignação

Essa diversidade já vai mostrar a riqueza do romance.

A promessa

Aparentemente o livro gira em torno de uma promessa simples. Rachel, antes de morrer, pede que Salome receba a casa onde vive.

“O título do livro é ‘A Promessa’. Qual é, literalmente, a promessa que dá nome ao romance? E, para além disso, que outras promessas — do país, da história, dos personagens — estão em jogo?”

 Há aqui uma camada histórica importante. O romance começa em 1986, pouco antes do fim do apartheid, e termina já no governo de Jacob Zuma. As promessas da nova África do Sul — a reconciliação, a redistribuição de terras, a justiça — também ficam por cumprir . Pergunta ao grupo: “A promessa da casa à Salomé e a promessa da nova África do Sul são a mesma coisa?”

“O narrador diz-nos, num certo momento, que não ouvimos muito sobre Salomé ‘porque não nos importamos em perguntar’. Como é que este gesto narrativo — o autor a apontar o dedo ao leitor — te afetou? Foi uma acusação?”

“No final do livro, Amor finalmente dá a Salomé a escritura da casa. Mas Salomé já é muito velha. Esta resolução chega tarde demais? É uma reparação genuína ou apenas um gesto simbólico?” 

 Mas… A promessa realmente é o centro do romance?

Ou ela funciona como símbolo?

Questões:

  • O que exatamente impede que a promessa seja cumprida?
  • Falta de dinheiro?
  • Burocracia?
  • Racismo?
  • Covardia?
  • Autoengano?

Talvez todos.

A família Swart

Vale discutir cada integrante.

– Manie

É realmente religioso ou usa a religião para aliviar sua consciência? O patriarca que promete e não cumpre. Como descreveriam a sua relação com a promessa? É má-fé ou simples esquecimento?

– Anton

Talvez o personagem mais frustrado do livro. o filho, outrora cheio de promessas, que se torna um homem deprimido e amargo. Acaba por se suicidar. Como é que a desilusão com a promessa da família se reflete nele?

  • Ele possui consciência moral?
  • Ou apenas consciência da própria mediocridade?

Como interpretar o assassinato que cometeu?

– Astrid

É a personagem mais adaptada ao novo mundo ou a mais superficial? a filha mais velha, obcecada com status e aparências. Morre num assalto. O que a sua morte nos diz sobre a violência na África do Sul pós-apartheid?

A indiferença (Manie), a superficialidade (Astrid)e a autodestruição (Anton).

– Amor

O próprio nome já sugere uma leitura simbólica.

Pergunta interessante:

Por que justamente Amor demora tanto para cumprir aquilo que considera certo?

Ela é uma heroína?

Ou apenas alguém menos hipócrita que os outros?

– Salome

Curiosamente, é uma personagem central que quase não fala.

Perguntas:

Por que Galgut escolhe esse silêncio? Por ela ser uma representação?

Ela simboliza toda uma população invisibilizada?

Vale notar que ela permanece presente enquanto quase todos os demais desaparecem.

A África do Sul

É impossível separar o romance da história sul-africana.

Sem transformar a conversa numa aula de História, vale lembrar rapidamente:

  • apartheid
  • fim do apartheid
  • eleição de Mandela
  • mudanças sociais
  • permanências

Pergunta importante:

A família muda tanto quanto o país?

Ou ambos mudam apenas na aparência?

A estrutura do romance

Talvez seja o aspecto mais inovador. O narrador faz algo incomum. Ele muda constantemente de foco. Entra na mente de personagens secundários. Às vezes conversa diretamente com o leitor.

“O romance está dividido em quatro partes, cada uma dedicada a um funeral — Mãe, Pai, Astrid e, finalmente, Anton. Apenas Amor sobrevive. O que é que esta estrutura de ‘quatro mortes em quatro décadas’ sugere? Porque é que Galgut terá escolhido organizar o livro assim?”

“O narrador — ou a voz narrativa — deste livro é muito peculiar. Galgut usa aquilo a que alguns chamaram ‘uma câmara de cinema’, com perspectivas que se alternam e se sobrepõem, por vezes no meio de uma frase. O narrador dirige-se ao leitor, faz apartes, comenta. O que acharam desta escolha? Funciona? Ou atrapalha?” Ele critica personagens, tira sarro deles. 

Pergunte:

Isso aproximou vocês do romance? Vocês aceitaram a cumplicidade?

Ou dificultou a leitura?

Outra pergunta:

O narrador parece improvisar enquanto conta a história?

  1. O tempo

O romance é dividido por quatro funerais.

Interessante perguntar:

Por que Galgut escolhe mortes como pontos de organização? Aprendemos mais sobre uma família durante um funeral?

Existe alguma cena de felicidade duradoura?

  1. Humor

Embora seja um livro triste, há muito humor. Um humor às vezes cruel.

Pergunte:

Vocês riram? Em quais momentos? Por que rir em um romance tão melancólico?

  1. O título

“A Promessa”. No singular.

Qual promessa?

A da mãe? A da nova África do Sul? A promessa de justiça? A promessa que fazemos a nós mesmos? Todas?

  1. O final

Experimente:

O cumprimento da promessa representa uma vitória ou chega tarde demais? É possível reparar décadas de injustiça com um único gesto?

O romance termina oferecendo esperança? Ou apenas resignação?

Algumas perguntas que costumam render boa conversa

  • Existe algum personagem verdadeiramente bom?
  • Quem desperta mais compaixão?
  • Quem desperta mais irritação?
  • O livro é político ou profundamente humano ou as duas coisas?
  • Vocês enxergam Amor como protagonista ou apenas como fio condutor?
  • O silêncio de Salome é uma escolha literária ou uma denúncia?
  • O que mais permanece na memória: os acontecimentos ou a forma como Galgut escreve?
  1. Encerramento

“No início parece que lemos a história de uma promessa não cumprida. Ao terminar, talvez percebamos que lemos algo maior: um romance sobre tudo aquilo que uma sociedade adia enfrentar — até que o tempo torna qualquer reparação insuficiente.”

“Se vocês tivessem que resumir A Promessa em uma única palavra, qual seria?”

As respostas normalmente convergem para termos como culpa, espera, memória, justiça, tempo, herança ou silêncio.

“Depois de tudo o que falamos, acham que a promessa foi cumprida, no final? E se foi cumprida, que significado tem esse cumprimento — tardio, simbólico e talvez insuficiente?”

“O livro termina com Amor a encontrar, entre os pertences de Anton, um romance inacabado com a nota: ‘Uma saga familiar ou um romance familiar?’ . O que acham que esta pergunta diz sobre o próprio livro que acabámos de ler?”

Na minha opinião, a força de A Promessa não está apenas na história da família Swart, mas na maneira como Galgut transforma um drama íntimo em uma reflexão sobre responsabilidade moral, privilégio, passagem do tempo e a dificuldade — individual e coletiva — de fazer o que sabemos ser justo.

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