PGO II: A Casa das Belas Adormecidas, de Yasunari Kawabata

PGO II: A Casa das Belas Adormecidas, de Yasunari Kawabata

Gabriel García Márquez, ao escrever Memórias de minhas putas tristes declarou ter-se inspirado neste livro de Kawabata, homenageando-o ao narrar uma história de amor não consumado com uma jovem adormecida. No livro de GGM, o velho protagonista não tem relações sexuais com a adolescente virgem. O encontro acontece de forma completamente diferente do que ele havia planejado. Ao chegar ao quarto, ele encontra a menina de 14 anos profundamente adormecida (dopada pela cafetina para acalmar seus medos). Diante da garota indefesa, o velho não tem coragem de acordá-la ou tocá-la. Em vez disso, ele apenas a contempla durante a noite, deita-se ao lado dela e também acaba dormindo. Na manhã seguinte, vai embora antes que ela acorde, sem nunca ter tido qualquer contato físico ou sexual com a jovem.

Não apenas GGM ficou fascinado pela obra. Mishima a considerava uma obra-prima, talvez a maior da literatura japonesa. E Vargas Llosa escreveu: “Breve, bela e profunda, A Casa das Belas Adormecidas deixa no ânimo do leitor a sensação de uma metáfora cujos termos não são fáceis de entender”.

As interpretações mais correntes são:

1. A Metáfora da Morte e da Velhice (a mais aceita)

A interpretação mais forte e recorrente é que a casa e as jovens adormecidas representam a relação do homem com a morte.

As jovens são a morte: belas, jovens e silenciosas, elas aguardam os velhos em um quarto que mais se assemelha a um túmulo. Eguchi, o protagonista, deita-se ao lado delas como quem se prepara para o último sono. A impossibilidade de acordá-las ou ter uma troca real é a impossibilidade de dialogar com a morte.

O sono é um ensaio: cada noite passada ao lado de uma “bela adormecida” é um ensaio para a morte definitiva. Eguchi busca, nas palavras de Mishima, “dormir um sono como a morte” ao lado da beleza pura, na esperança de que essa experiência seja menos solitária e aterrorizante.

A “vida após a morte”: o fato de as mulheres estarem vivas, mas inacessíveis, cria um estado liminar. É como se os velhos estivessem experimentando um além onde a beleza existe, mas a interação e a consciência, não.

2. A Metáfora do Desejo Puro e Irrealizável

Outra leitura fundamental é que o livro explora o desejo em seu estado mais radical e impossível.

O objeto sem sujeito: o desejo humano, especialmente na velhice, é frequentemente direcionado a um ideal. As jovens, ao estarem inconscientes, tornam-se o objeto perfeito do desejo: passivas, não rejeitam, não julgam, não têm vontade própria. São um receptáculo vazio onde o velho pode projetar todas as suas fantasias.

A ausência de relação: a grande ironia é que, para realizar seu desejo sem os entraves da realidade (a fala, a vontade da outra pessoa), Eguchi acaba por aniquilar a própria possibilidade de uma relação. Ele tem acesso ao corpo, mas não à pessoa. É o ápice do prazer solitário, uma fantasia que se torna real, mas que é vazia.

O desejo nostálgico: o que Eguchi realmente busca não é sexo, mas o contato com sua própria juventude perdida, suas memórias e vitalidade. As jovens são espelhos onde ele vê seu passado, um passado que não pode mais tocar.

3. A Metáfora do Japão Pós-Guerra e a Decadência Cultural

Numa chave sociológica e histórica, a casa pode ser lida como uma alegoria do Japão do pós-guerra sob ocupação norte-americana.

A casa como o Japão antigo: o espaço fechado, ritualístico, regido por códigos de silêncio e uma estética refinada, representaria o Japão tradicional, derrotado e envergonhado.

As jovens como a nação indefesa: as jovens virgens e drogadas seriam a própria nação japonesa, inconsciente, violada em sua soberania, mas mantida artificialmente “viva” e bela aos olhos dos estrangeiros (os velhos clientes).

A relação parasitária: os velhos (os EUA/ocidente) usufruem da beleza e da passividade do Japão, pagando por isso, mas sem jamais estabelecer uma troca genuína. O medo de Eguchi de que uma das jovens morra durante a noite reflete o medo de que o Japão “morresse” sob a ocupação.

4. A Metáfora do Olhar Masculino e da Objetificação da Mulher

Uma leitura feminista moderna vê o livro como uma alegoria radical do patriarcado.

A mulher como objeto: a casa é a materialização do “olhar masculino” levado ao extremo. A mulher é despojada de sua voz, de seu movimento, de sua consciência — ou seja, de sua humanidade — para se tornar um objeto de uso e descarte.

O velho como o poder: Eguchi não precisa seduzir, convencer ou pedir permissão. Ele simplesmente paga e consome. A anônima “mulher da casa” gerencia tudo, sendo uma cúmplice dessa estrutura de poder.

A violência estrutural: a violência do livro não está nos atos (que são, pelas regras, contidos), mas na própria premissa: criar um espaço onde a mulher é reduzida à sua função biológica de ser jovem, bela e virgem, enquanto o homem, mesmo decrépito e impotente, ainda detém todo o poder e o direito de consumir.

5. A Metáfora da Criação Artística

Uma interpretação mais metalinguística, adorada por alguns críticos, é que o livro é uma alegoria sobre o próprio ato de escrever.

O velho como o artista: Eguchi, imóvel, contemplando a beleza imóvel e tentando extrair sentido, memória e emoção dela, seria o artista diante de sua criação ou de sua musa.

As jovens como a obra de arte: a obra de arte (o romance, a pintura) está ali, bela, silenciosa e imóvel. Ela não responde, não dialoga. Cabe ao artista/leitor projetar nela seus significados, suas dores e suas memórias.

O ritual da criação: a ida à casa, o pagamento, a preparação do quarto, o deitar-se ao lado da beleza — tudo isso seria um ritual de criação artística, solitário e que acontece na fronteira entre a vigília e o sonho, a vida e a morte.

Em síntese:

A genialidade de Kawabata é que nenhuma dessas interpretações anula a outra. Elas coexistem. A casa é o corpo envelhecido que ainda deseja. As jovens são a juventude perdida e a morte que se aproxima. O sono é a impossibilidade de comunicação entre gerações, entre desejos, entre o eu e o outro. A transgressão está em desejar o que não se pode ter (a juventude, a vida, o outro). A beleza está em aceitar a derrota final e, ainda assim, contemplar o que é belo, ainda que esse belo seja uma ilusão fúnebre. O livro não oferece respostas fáceis. Ele oferece uma imagem perturbadora que cada leitor, como Eguchi diante da jovem, precisa contemplar e preencher com seu próprio significado.

(Elena, minha mulher, para quem eu li o livro em voz alta, disse que viu um enorme paralelo da obra com As intermitências da morte, indiscutível obra-prima de José Saramago. No livro de Saramago, a morte se afasta, aqui ela se aproxima. Muito).

Yasunari Kawabata em 1938

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PGO I: Primeiro amor, de Ivan Turguêniev

PGO I: Primeiro amor, de Ivan Turguêniev

Em março deste ano, começamos a reunir grupos de leitura na Livraria Bamboletras, grupos da própria livraria. O primeiro livro que escolhi foi Primeiro Amor, de Ivan Turguêniev. Eu tinha lido o livro há décadas numa edição portuguesa e gostara muito. Achei ainda melhor nesta releitura. Eu chamo estes grupos — os quais leem o mesmo livro a cada mês — de Pequenas Grandes Obras (PGO) ou Clube dos Clássicos Breves, mas os nomes não pegaram. A ideia é de ler livros grandes autores em pequenos formatos — não vamos solicitar a leitura de Moby Dick, mas por que não Bartleby? Ou A Morte de Ivan Ilitch em lugar de Guerra e Paz ou Anna Kariênina? Ou O Jogador em lugar de Crime e Castigo? Nada contra os livros longos — posso me considerar um dos Reis dos Calhamaços –, mas eu não gostaria que alguém me impusesse um livro enorme para ler em um mês. Todos nós temos nossas leituras e outras aspirações e não precisamos ser pautados de modo tão pesado, certo?  E também acho que a grandeza de um livro não se mede por sua espessura, mas pelo seu impacto e eco em nossa consciência, certo?

Porém… Como os 6 leitores deste blog sabem, tenho o vício de escrever resenhas. Parece que só finalizo a leitura de um livro após escrevê-la. Lá vai mais uma.

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Ao saber do argumento da novelinha Primeiro Amor, de Ivan Turguêniev, logo as pessoas pensam em algo batido, já lido em livro ou visto no cinema. Novamente um adolescente apaixonado por uma jovem mulher? Acho até que o filme georgiano 27 Beijos Roubados é um pequeno roubo a Turguêniev. No filme, a menina promete cem beijos ao garoto apaixonado durante as férias, mas algo que descobrimos no final do filme fez com que ela ficasse devendo 27. Uma decepção. Apesar de breve, o livrinho de Turguêniev tem notável densidade emocional, psicológica e social — é um daqueles livros em que a aparente simplicidade esconde complexidades. Narrado como memória, o texto acompanha Vladímir, que revisita sua adolescência e o impacto devastador de sua paixão por Zinaída. Esse ponto de vista retrospectivo é decisivo: não se trata apenas de uma história de amor juvenil, mas de uma releitura madura de uma experiência formadora, em que o passado já está filtrado pelo tempo e pela perda. A narrativa, portanto, nasce da distância — e essa distância é o que lhe dá melancolia e lucidez.

O primeiro aspecto que impressiona é a forma como Turguêniev captura o caráter absoluto e açambarcante do primeiro amor. Não há medida, não há ironia interna no jovem Vladímir: ele ama com intensidade total, como se sua vida dependesse disso. Ele se derrama, se desmancha. Esse amor, no entanto, é recebido de forma hesitante e assimétrica. Zinaída, figura central e enigmática, exerce um fascínio quase cruel — cercada de um séquito de admiradores, ela alterna charme, manipulação e vulnerabilidade. A relação entre os dois nunca se equilibra: ele vive a experiência como revelação, enquanto ela joga um jogo. Essa diferença é fundamental para o efeito do livro.

O que Turguêniev constrói é, sobretudo, um curto romance de formação — uma passagem brutal da inocência à realidade. O momento decisivo da narrativa (sim, não convém revelar detalhes) desloca completamente o sentido do amor vivido por Vladímir e o insere numa dimensão mais complexa, onde entram poder, desejo e autoridade. A figura do pai, nesse sentido, é crucial: ela introduz uma camada trágica que transforma a história íntima em algo mais amplo, social, estrutural. O amor deixa de ser apenas sentimento e passa a ser também revelação do mundo adulto em sua ambiguidade moral.

A linguagem de Turguêniev acompanha essa transformação com precisão. Sua prosa é lírica, mas contida; sensível, mas nunca excessiva. Ele trabalha com olhares, gestos, silêncios e evita qualquer dramatização excessiva. Esse estilo cria uma tensão muito particular: os acontecimentos são intensos, mas narrados com uma serenidade que sugere compreensão tardia. A memória, aqui, não é apenas lembrança, mas forma de elaboração. É o passado sendo reorganizado pelas emoções do narrador.

Não obstante a voz do narrador, nota-se que não é somente ele que está sofrendo o primeiro amor. Se analisarmos a fundo, vamos encontrar mais dois primeiros amores acontecendo e em choque. (Isso explicaria a tradução do título do livro, que é Primeiro Amor e não O Primeiro Amor). Talvez o aspecto mais duradouro de Primeiro Amor seja justamente essa coexistência de intensidade e desilusão. O livro não idealiza o amor — pelo contrário, mostra-o como experiência e ferida. Amar, aqui, é aprender algo essencial e irreversível: que o outro não nos pertence, que o mundo não corresponde às nossas expectativas.

Ao final, o que permanece não é apenas a história de Vladímir, mas a sensação de que todo primeiro amor carrega em si algo de definitivo — não porque dure, mas porque marca. É uma experiência que inaugura não só o sentimento amoroso, mas também a consciência da perda. E talvez seja isso que faz deste livro uma obra tão persistente: ele não fala apenas do primeiro amor, mas da primeira vez em que compreendemos que crescer é, talvez, perder alguma coisa.

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Bestas Encurraladas, de Magnus Mills

Bestas Encurraladas, de Magnus Mills

Você não vai gostar de nenhum dos personagens de Bestas Encurraladas, de Magnus Mills, creio eu. Este é um romance meio comédia, meio sério, que mostra as “maravilhas” do trabalho assalariado. A gente começa a ler e acha tudo muito simples, mas há por trás uma boa e sofisticada engrenagem literária. A história acompanha um narrador sem nome, promovido a chefe de dois operários escoceses — Tam e Richie — que fazem cercas no interior do país. Sim, cercas para fazendas, para impedir a fuga de animais. A rotina é repetitiva: estacas, arame, tensão da cerca, trabalho duro durante o dia, pub à noite, outras tensões com os clientes, a chefia e o dono da firma. Mas, pouco a pouco, a rotina se deforma: acidentes estranhos, mortes tratadas com naturalidade, situações que deslizam para o absurdo sem jamais abandonar o mesmo tom burocrático. O resultado é uma narrativa que se move entre o realismo operário marxista e uma espécie de pesadelo kafkiano.

O grande trunfo do romance está justamente no tom. Mills escreve com radical economia: frases curtas, repetição de situações, diálogos mecânicos. É um livro sobre pessoas burras, eu diria. O estilo despojado cria um efeito curioso — quanto mais neutra a narração, mais perturbadores se tornam os acontecimentos. Há uma recusa total de dramatização: eventos potencialmente chocantes são tratados como parte da rotina, o que gera um humor sombrio. Essa monotonia de estilo transforma o livro numa espécie de fábula moderna sobre o trabalho.

Por trás da história de três homens construindo cercas, esconde-se uma alegoria. As cercas — que deveriam conter animais — parecem também simbolizar os limites que os vão organizar — regras, rotinas, hierarquias. O título, aliás, sugere essa ambiguidade central: quem são, afinal, as “bestas” a serem contidas? Os animais ou os trabalhadores? Ao longo do romance, a repetição da vida laboral se transforma em algoz. Os trabalhadores tendem a serem máquinas submissas e silenciosas.

O final é inquietante, com um pé em O Conto da Aia. O romance não oferece catarse nem explicação clara — pelo contrário, sua força está na recusa de fechar sentidos. À medida que a narrativa avança, o leitor percebe que foi capturado pela mesma lógica que aprisiona os personagens: repetição, obediência, aceitação do absurdo. É um livro curto, mas que permanece ecoando, como uma espécie de piada sombria que, quanto mais se pensa nela, menos engraçada se torna.

Este livro foi muito reconhecido e premiado, Mills foi finalista do Booker Prize com este romance. O autor conhece bem o mundo do trabalho assalariado e da obediência. Ele é um ex-motorista de ônibus elogiado por Thomas Pynchon.

Magnus Mills

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Os 50 maiores livros (uma antologia pessoal): XXXII – Os Buddenbrook, de Thomas Mann

Os 50 maiores livros (uma antologia pessoal): XXXII – Os Buddenbrook, de Thomas Mann
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Em 1900, Thomas Mann enviou pelo correio a única cópia manuscrita de Os Buddenbrook — pagando um seguro de mil marcos, valor que fez o funcionário rir. Segundo o ChatGPT, seria algo como 20 mil euros hoje. O romance, que narra o auge e a queda de uma dinastia de comerciantes, revela mais do que a decadência de uma família: é um belo retrato — afiado, crítico e interessante — da burguesia alemã, onde laços de sangue e negócios se confundem e a tradição sucumbe à modernidade. Mann teceu sua narrativa com documentos reais da sua própria família, provocando escândalo em Lübeck. Tios e tias reconheceram-se nos personagens, acusando-o de expor seus segredos. O escritor, porém, defendia que a arte não inventa. O autor tinha 26 anos em 1901, ano de do lançamento do livro, e talvez este seja o melhor romance longo que qualquer autor tenha escrito nesta idade.

Thomas Mann (1875-1955) veio da condição de péssimo aluno, sem formação profissional, e de herdeiro decadente dos frutos da atividade comercial exercida pelas gerações anteriores de sua família em Lübeck. Os negócios se encerraram porque ele e o irmão mais velho, Heinrich Mann (1871-1951), foram considerados inaptos pelo próprio pai a sucedê-lo. Antes de morrer, o pai, condenado pelo câncer, fechou a própria empresa e deixou a fortuna sob tutela de um administrador financeiro.

O que o funcionário do correio jamais imaginaria é que aquele romance de formação – escrito entre 1897 e 1900 – se tornaria um dos marcos definitivos da literatura europeia. A história do auge e da queda de uma família de comerciantes de Lübeck, ao longo de quatro gerações (1835-1877), é muito mais que uma simples crônica de costumes: é curiosa uma dissecação da alma burguesa. Digo isto, porque é um livro paradoxal — sofrido, monumental e leve de ser lido. Publicado em 1901, já tinha a marca de uma maturidade estética impressionante para um autor tão jovem.

Tratava-se de traçar a decadência de uma família de burgueses de Lübeck ao longo de quatro gerações, mas não apenas como uma sequência de fatos documentais, e sim como uma parábola complexa sobre a tensão entre valores éticos, pressões sociais, responsabilidades econômicas e pulsões íntimas. A ambição de respeito, conforto e continuidade social, que inicialmente impulsiona os Buddenbrook ao sucesso, converte-se, aos poucos, em peso incômodo: a busca por estabilidade econômica e reputação civil começa a dar errado, abrindo fissuras que o leitor acompanha com uma mistura de fascínio e desconforto.

O romance abre com uma cena emblemática: a família reunida para um almoço dominical na nova casa da Mengstrasse, em Lübeck. Todos os burgueses da cidade, empresários, advogados e representantes da igreja, comparecem. O velho Johann Buddenbrook, ainda vigoroso e pragmático, representa o espírito fundador – aquele que construiu a fortuna com trabalho árduo e confiança inabalável nos valores mercantis. Seu filho, o cônsul Jean Buddenbrook, já traz os primeiros sinais de fragilidade: é muito religioso, sentimental, um tanto inepto para os negócios, preocupado em preservar a respeitabilidade social.

Com a terceira geração, encarnada por Thomas Buddenbrook, a decadência torna-se palpável. Thomas é um homem dividido: dedica-se com esforço sobre-humano a manter a aparência de solidez da firma, mas sente-se consumido pela representação social que precisa sustentar. O narrador descreve com precisão cirúrgica como o cuidado obsessivo com a imagem exterior – o bigode sempre frisado, as casacas impecáveis, a postura irrepreensível – que esconde um esgotamento interior que prenuncia a ruína. A ironia trágica atinge seu clímax quando Thomas morre de forma quase grotesca: após uma extração dentária mal feita, cai na rua, coberto de lama e sangue, ele que jamais permitira uma mancha em suas roupas.

Se Thomas Buddenbrook é o herói trágico da decadência, seu filho Hanno é o germe da dissolução definitiva. Desde a infância, Hanno mostra aversão aos negócios e inclinação para a música, herdada da mãe, Gerda, uma talentosa violinista, mas fria e distante. Hanno é descrito como frágil, doentio, alheio às exigências práticas da vida.

A crítica literária contemporânea vê em Hanno o primeiro de uma linhagem de “artistas desviados” na obra de Mann – personagens que, por sua sensibilidade exacerbada, sua introspecção e sua incapacidade de se adaptar ao mundo burguês, estão fadados à doença, à loucura ou à morte. Hanno não é apenas o último Buddenbrook; é o símbolo da vitória da arte sobre a vida prática – ainda que essa vitória signifique a extinção da família.

Nas palavras do próprio Thomas: “Sempre haverá homens que têm direito àquele interesse pelo próprio eu e a essa observação minuciosa dos seus sentimentos: poetas que sabem dar forma segura e bela à sua vida interior privilegiada, enriquecendo assim o mundo de outras pessoas. Mas nós nada mais somos do que simples comerciantes; as nossas auto-observações são desesperadamente insignificantes”. A ironia, claro, é que quem pronuncia estas palavras é um comerciante – e quem as escreve é o poeta que venceu.

Como já disse, um aspecto fascinante de Os Buddenbrook é sua dimensão autobiográfica, que Mann nunca escondeu. A cidade de Lübeck é claramente identificável; as personagens tinham correspondentes reais na família do autor – e alguns parentes, como um tio que se reconheceu no desajeitado Christian Buddenbrook, reagiram com indignação, acusando-o de “sujar o próprio ninho”.

Mas o elemento mais intrigante é a origem materna de Mann. Sua mãe, Julia da Silva-Bruhns, era brasileira, nascida em Angra dos Reis, filha de um comerciante alemão e uma brasileira. Julia era bela e musicalmente dotada – características que Mann transferiu para diversas personagens femininas, incluindo Gerda, a mãe de Hanno.

Estudos recentes mostram como Thomas Mann via sua própria “mestiçagem” – entre a seriedade paterna alemã e a sensibilidade artística materna “latina” – como a fonte de seu talento, mas também como uma marca de degenerescência aos olhos da sociedade alemã da época, obcecada por pureza racial. Os artistas em sua obra são quase sempre “mestiços” – e é justamente essa condição híbrida que os torna artistas, mas também os condena.

As figuras femininas em Os Buddenbrook merecem grande atenção. Em contraste com a idealização da mãe nos escritos autobiográficos de Mann, o romance apresenta uma galeria de mulheres problemáticas. A avó Antoinette ama o luxo; a mãe Elisabeth é piegas e facilmente enganada por pastores hipócritas; Clothilde, uma parente pobre, é descrita como eternamente magra apesar de devorar quantidades enormes de comida; Clara, a irmã doentiamente religiosa, morre jovem.

A mais complexa é Gerda, esposa de Thomas e mãe de Hanno. Retratada como bela, fria, distante, ela só se anima ao tocar violino – e sua intimidade musical com o tenente von Throta, visita habitual da casa, é descrita com sutileza que mal disfarça o adultério espiritual (e talvez físico). É dela que Hanno herda “o sangue ruim, venenoso” que o desvia dos negócios para a arte.

A exceção parcial é Tony Buddenbrook, irmã de Thomas, que alguns críticos (e eu também) consideram a personagem mais cativante do romance. Tony é repetidamente sacrificada em casamentos de conveniência que fracassam, mas mostra uma resiliência notável, sobrevivendo a todos os outros membros da família e mantendo, mesmo na adversidade, uma lealdade obstinada ao nome Buddenbrook. É ela quem, nas cenas finais, ainda tenta preservar a dignidade do clã extinto.

Um dos momentos mais extraordinários do romance ocorre quando Thomas Buddenbrook, já em decadência física e espiritual, descobre um exemplar de “O Mundo como Vontade e Representação”, de Schopenhauer. A leitura do capítulo “Da Morte e sua Relação com a Indestrutibilidade do nosso Ser-em-si” provoca nele uma experiência quase mística. Thomas experimenta uma breve iluminação, sente-se libertado do peso da individualidade – mas logo retorna à sua existência mundana de comerciante e político, incapaz de integrar essa visão à vida prática. A ironia é que ele morrerá pouco depois, de forma inglória, sem a transcendência que vislumbrara.

Os Buddenbrook é muitas vezes descrito como um romance naturalista, herdeiro da tradição realista do século XIX – e de fato Mann utiliza todos os recursos desse estilo: descrições minuciosas, atenção aos detalhes materiais, construção cuidadosa do ambiente social. Mas há algo mais. A prosa de Mann já ensaia aqui os mergulhos psicológicos que atingirão seu ápice em A Montanha Mágica. O narrador alterna habilmente entre o olhar externo – capaz de descrever com precisão quase fotográfica as roupas, os móveis, os gestos – e a sondagem dos abismos íntimos das personagens.

A estrutura, centrada na sucessão de pais e filhos, confere ao romance uma coerência quase musical: cada geração repete, em tom menor, os temas da anterior, até que a melodia se extingue. Reduzir Os Buddenbrook a uma simples “saga de família” seria ignorar sua verdadeira grandeza. O que Mann nos oferece é uma meditação sobre a incompatibilidade entre vida prática e vida espiritual, entre o mundo dos negócios e o mundo da arte, entre a afirmação da vontade e a aceitação da morte.

A família Buddenbrook decai não porque seus membros sejam incompetentes nos negócios, mas porque a própria forma de vida burguesa, baseada na acumulação, na aparência e na perpetuação do nome, traz em si o germe de sua dissolução. O triunfo final da arte é também a confirmação da derrota: a arte floresce apenas onde a vida já não pode prosperar.

A decadência dos Buddenbrook é inevitável? Poderia ter sido evitada se as escolhas fossem outras? Hanno é vítima das circunstâncias ou herói trágico? O que Mann quer dizer ao fazer Thomas Buddenbrook ter uma experiência mística com Schopenhauer pouco antes de morrer de forma tão prosaica? Tony Buddenbrook é uma tola manipulada ou uma heroína resiliente? Até que ponto a figura de Gerda – a mãe musical e distante – reflete a visão ambivalente de Mann sobre sua própria mãe brasileira?

Bem, fui longe. Finalizando, Os Buddenbrook não é apenas o primeiro romance de Thomas Mann; é a pedra fundamental sobre a qual ele edificaria toda a sua obra. Nele já estão presentes todos os grandes temas que o acompanhariam pela vida: a relação conflituosa entre arte e burguesia, a doença como expressão da sensibilidade, a música, a sexualidade fluida que o próprio Thomas tinha, a morte como libertação, a ambiguidade da herança familiar.

Mas o pequeno Johann via mais do que devia ver; os seus olhos, esses olhos tímidos, castanhos e orlados de sombras azuladas, observavam demasiado bem. Não somente via a amabilidade certeira que o pai irradiava para todos, via também — via-o com perspicácia estranha e atormentadora — o quanto era difícil fazê-la; via como o pai, após cada visita, se tornava mais taciturno e pálido, como, de olhos cerrados e pálpebras avermelhadas, se recostava contra o canto da carruagem; com o coração horrorizado notava como, no limiar da casa seguinte, deslizava uma máscara por sobre esse mesmo rosto, e como, sempre de novo, uma elasticidade repentina se apoderava desse corpo fatigado… Ao ver tudo isso: mímica, fala, porte, atividade e comércio com outras pessoas, o pequeno Johann não tinha a impressão de que se tratava da realização ingênua, natural e semiconsciente de interesses práticos que o pai tivesse em comum com os demais e quisesse defender contra eles, mas sim um fim em si mesmo; parecia-lhe um esforço voluntário e artificial, onde, em vez do sentimento sincero e simples, tinha de trabalhar uma virtuosidade extremamente difícil e cansativa, para garantir a atitude impecável. Diante da ideia de que esperavam dele próprio que, também, um dia, se exibisse em reuniões públicas e agisse, falando e gesticulando, sob a pressão de todos esses olhares, Johann fechava os olhos, num arrepio de relutância medrosa…

Thomas Mann, Os Buddenbrook, Décima parte, Capítulo 3, Pág. 551 — Tradução de Herbert Caro

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Vai escrever bem assim no raio que o parta!

Vai escrever bem assim no raio que o parta!

“Mas o pequeno Johann via mais do que devia ver; os seus olhos, esses olhos tímidos, castanhos e orlados de sombras azuladas, observavam demasiado bem. Não somente via a amabilidade certeira que o pai irradiava para todos, via também — via-o com perspicácia estranha e atormentadora — o quanto era difícil fazê-la; via como o pai, após cada visita, se tornava mais taciturno e pálido, como, de olhos cerrados e pálpebras avermelhadas, se recostava contra o canto da carruagem; com o coração horrorizado notava como, no limiar da casa seguinte, deslizava uma máscara por sobre esse mesmo rosto, e como, sempre de novo, uma elasticidade repentina se apoderava desse corpo fatigado… Ao ver tudo isso: mímica, fala, porte, atividade e comércio com outras pessoas, o pequeno Johann não tinha a impressão de que se tratava da realização ingênua, natural e semiconsciente de interesses práticos que o pai tivesse em comum com os demais e quisesse defender contra eles, mas sim um fim em si mesmo; parecia-lhe um esforço voluntário e artificial, onde, em vez do sentimento sincero e simples, tinha de trabalhar uma virtuosidade extremamente difícil e cansativa, para garantir a atitude impecável. Diante da ideia de que esperavam dele próprio que, também, um dia, se exibisse em reuniões públicas e agisse, falando e gesticulando, sob a pressão de todos esses olhares, Johann fechava os olhos, num arrepio de relutância medrosa…”

Thomas Mann, Os Buddenbrook, Décima parte, Capítulo 3, Pág. 551 — Tradução de Herbert Caro

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Por que Lolita não morre?

Por que Lolita não morre?

Não morre porque é muito bom, pô! Mas, calma, vamos tratar de organizar os pensamentos. Mas, calma, vamos tratar de organizar os pensamentos. Afinal, li nas redes uma série de brigas, além de ofensas ao Nabokov (diz-se Nabôkav) e ele não merece isso. Vamos colocar o bola no chão e deter a correria adversária, pondo-os na roda. Lolita (1955) é um romance de Vladimir Nabokov narrado por Humbert Humbert, um intelectual europeu que desenvolve uma obsessão por Dolores, menina de 12 anos, a quem apelida de Lolita. Após se hospedar com a família dela, ele se casa com a mãe de Lolita, Charlotte, principalmente para ficar perto da menina. Humbert descreve Charlotte com um desdém visceral e cruel. Ele critica seu corpo — seios volumosos, idade, etc. –, seus gestos, seu sotaque norte-americano vulgar e seus modos provincianos e pretensiosos. Para ele, Charlotte representa tudo o que é banal e sexualmente indesejável — o oposto absoluto da ninfeta etérea e idealizada que ele busca em Lolita. Charlotte é, acima de tudo, o empecilho entre Humbert e Lolita. Ele a vê como uma guardiã irritante que deve ser tolerada, ludibriada ou afastada. O casamento com Charlotte é uma estratégia cínica para ficar próximo da menina.

Quando Charlotte morre em um acidente de carro, Humbert obtém a guarda exclusiva e embarca em uma longa viagem pelos Estados Unidos, durante a qual abusa e manipula Lolita repetidamente, apresentando o relacionamento como uma espécie de história de amor trágica. Conforme ela vai, digamos, crescendo, passa a resistir mais e mais a ele, acabando por fugir com outro homem ligado ao círculo literário de Humbert. Anos depois, Humbert a encontra casada, grávida e vivendo em condições modestas. Ela se recusa a voltar para ele, e ele reconhece tardiamente a enormidade do mal que causou antes de morrer na prisão enquanto aguardava julgamento pelo assassinato de Clare Quilty, o dramaturgo que sequestrou Lolita. Ele segue Quilty até sua mansão e o executa de forma premeditada.

Por que Lolita é relevante?

Simples, por ser um legítimo Nabokov, ou seja, uma obra-prima. O romance expõe como o charme, a eloquência e a autocomiseração podem disfarçar e racionalizar o abuso, tornando-se um texto fundamental para a compreensão da narrativa não confiável e do autoengano. Nabokov também utiliza o olhar obsessivo de Humbert para criticar a cultura estadunidense de meados do século XX — seus motéis, rodovias, publicidade e a mercantilização da juventude — de modo que o livro funciona também como um retrato satírico da tal Terra da Liberdade.

Nos debates contemporâneos sobre exploração sexual, consentimento e erotização de meninas na mídia, o romance permanece uma referência fundamental porque dramatiza a discrepância entre a narrativa do abusador sobre o amor e a realidade vivida pela vítima.

O que o livro tem de extraordinário?

A linguagem. A prosa de Nabokov é elaboradíssima e precisa — lúdica, ritmada — de modo que a narrativa pode parecer sedutoramente bela mesmo ao descrever atos horríveis.

O narrador. Humbert é um narrador não confiável, constantemente se justificando, minimizando o sofrimento de Lolita e apelando para a simpatia do leitor, o que torna o livro um poderoso estudo sobre manipulação.

A noção de estrutura. O falso prefácio e a confissão retrospectiva criam uma estrutura em camadas que constantemente chama a atenção para questões de culpa, testemunho e a diferença entre prazer estético e julgamento moral.

A divertida crítica cultural. A viagem através do país permite a Nabokov dissecar a cultura americana, o entretenimento de massa e o comercialismo vulgar, transformando o livro também em uma crônica de uma viagem sombria.

Pontos que podem ser alvos de críticas:

Risco de interpretação errônea por parte de gente burra ou louca. Como a narrativa é filtrada pela voz sofisticada e espirituosa de Humbert, alguns leitores se confundem, vendo-se meio seduzidos por ele, o que pode obscurecer a vítima que é Lolita.

A limitada interioridade de Lolita. Dolores raramente tem uma voz interior consistente. Para muitos críticos, isso sublinha a desumanização que Humbert lhe atribui, mas também pode dar a impressão de que o romance participa do apagamento que retrata.

Distância estética. Em entrevistas, Nabokov deu ênfase na arte e sua própria afirmação de que o romance é “sobre” estilo e imaginação, e não sobre estupro ou pedofilia. Tais afirmativas foram criticadas como evasivas ou frias diante do tema.

Potencial de fetichização. O legado cultural do livro — a moda “Lolita”, o marketing sexualizado e as adaptações suavizadas — mostra como sua crítica pode ser facilmente cooptada pela própria mercantilização de meninas que ele implicitamente condena.

Relevância geral hoje

O romance continua importante porque força os leitores a confrontarem como a linguagem pode embelezar a crueldade e como narrativas de “desejo mútuo” podem mascarar desequilíbrios de poder gritantes.

Em termos literários, é fundamental para discussões sobre ficção modernista e pós-modernista, confiabilidade narrativa e ética da leitura. Em termos culturais, continua a repercutir em conversas sobre assédio, aliciamento e a representação de menores na arte e na mídia.

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Thomas Mann: 20 mil euros de seguro

Thomas Mann: 20 mil euros de seguro

Em 1900, Thomas Mann enviou pelo correio a única cópia manuscrita de “Os Buddenbrook” — pagando um seguro de mil marcos, valor que fez o funcionário rir. Segundo o ChatGPT, seria algo como 20 mil euros hoje.

O romance, que narra a ascensão e queda de uma dinastia de comerciantes, revela mais do que a decadência de uma família: é um retrato afiado da burguesia alemã, onde laços de sangue e negócios se confundem, e a tradição sucumbe à modernidade.

Mann teceu sua narrativa com documentos reais da própria família, provocando escândalo em Lübeck. Tios e tias reconheceram-se nos personagens, acusando-o de expor seus segredos. O escritor, porém, defendia que a arte não inventa. O autor tinha 25 anos em 1900 e este livro talvez seja o melhor que um autor tenha escrito nesta idade.

Thomas Mann (1875-1955) ergueu-se da condição de péssimo aluno, sem formação profissional, e de herdeiro decadente dos frutos da atividade comercial exercida pelas gerações anteriores de sua família em Lübeck. Os negócios se encerraram porque ele e o irmão mais velho, Heinrich Mann (1871-1951), foram considerados inaptos pelo próprio pai a sucedê-lo. Antes de morrer, o pai, condenado pelo câncer, liquidou a própria empresa e deixou a fortuna sob tutela de um administrador financeiro.

Foto: Thomas Mann em 1906.

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O Testamento Maldito (O Testamento Donadieu), de Georges Simenon

O Testamento Maldito (O Testamento Donadieu), de Georges Simenon

Há os livros do detetive Maigret, mas convenhamos, Simenon ficou célebre sobretudo por seus romances curtos, intensos e econômicos, os chamados romans durs, em que a pesada densidade psicológica não depende da extensão. Por isso, quando ele escreve um romance mais longo — como O Testamento Maldito (ou a tradução literal, O Testamento Donadieu) — isso não é um acidente de percurso, mas uma escolha. Este livro tem 392 páginas, muitos personagens e traz estruturas mais amplas do que as dos dramas individuais. Aqui nós temos um painel de uma família decadente da pequena cidade portuária de La Rochelle, no oeste da França, de frente para o Atlântico Norte. Logo no primeiro capítulo, morre o patriarca dos Donadieu, que viviam — mulher, quatro filhos casados, netos e empregados — numa respeitável mansão na mui digna Rue Réaumur.

Depois de conhecido mundialmente, Simenon sempre foi cobrado para escrever uma grande romance… Como se já não os tivesse. Sua resposta era inteligente: “Meu grande romance é o mosaico formado por meus pequenos livros”. Porém, O Testamento Maldito parece mirar um patamar que raramente aparece em sua obra. Ele não chega a buscar o épico, mas cria um painel e assume uma ambição muito comum na literatura dos séculos XIX e XX: a exploração do peso da herança, da ordem familiar como destino, dos mecanismos silenciosos do poder burguês. Nesse sentido, dialoga com tradições comuns, mas filtradas por sua típica dureza e secura. É a história de uma decadência mais moral do que financeira.

Ele não acompanha apenas uma crise íntima, mas várias — descreve um organismo social inteiro que está em crise: a família, a empresa, o nome Donadieu como instituição. Ele são armadores, isto é, donos de embarcações mercantis que realizam transporte de cargas, dessas que Trump gosta de roubar. Ou seja, equipam, mantêm e exploram comercialmente navios, visando lucro. O romance narra o modo lento e natural com que a família produz o próprio sufocamento. O testamento que desencadeia o enredo não cria o conflito — ele apenas expõe o que já existia: ressentimentos e pactos que se sustentam pela conveniência.

Com sua prosa limpa, Simenon constrói um drama psicológico em que o peso da tradição vale mais do que os sentimentos individuais. Quase todos os personagens parecem condenados ao papel que herdaram: obedecer, proteger a reputação, preservar o patrimônio — ainda que isso custe a autonomia ou o afeto. E há os que desejam entrar para o clã.

O grande personagem do romance é Philippe, que chega para chacoalhar a família estabelecida, demonstrando que os filhos do patriarca eram, na verdade, uns inúteis. O modo como ele conquista Martine e passa mandar em todos é muito surpreendente. Outra grande criação é Michel, o filho conquistador de mulheres pobres. A ruptura dele com Eva é um grande momento do livro.

O romance avança em diálogos reservados e ambientes carregados, revelando aos poucos a lógica interna deste clã que transforma lealdade em prisão. Não há julgamentos: Simenon observa, com frieza, como o dinheiro, o nome e a continuidade familiar se sobrepõem à vida concreta das pessoas. O “maldito” do título brasileiro não se justifica. Não é o documento — é o destino compartilhado que ninguém consegue romper.

O Testamento Maldito se impõe como um dos grandes “romances duros” de Simenon: não é um policial, mais uma radiografia de uma família em que o que realmente assusta não é o crime, mas a normalidade que o ampara.

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Trens Rigorosamente Vigiados 7 x 1 Trens Estreitamente Vigiados

Trens Rigorosamente Vigiados 7 x 1 Trens Estreitamente Vigiados

O filme ‘Trens Estreitamente Vigiados’ (1966) ficou célebre. Ele é a lendária adaptação de uma moderna, linda e delicada e novela de 1965 de Bohumil Hrabal. Ela conta a história de amadurecimento do jovem e inexperiente Miloš Hrma, que está servindo como guarda de estação no centro da Tchecoslováquia no final da Segunda Guerra Mundial. O foco é o amadurecimento sexual do rapaz, que sofre de ‘ejaculatio praecox’. Apesar do final um tanto trágico, é um dos filmes mais queridos da década de 60, ganhador do Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira em 1968. Um marco do cinema e um dos principais filmes da chamada Nouvelle Vague tcheca.

Ontem o revi, após finalizar a leitura do livro de Hrabal, lançado no Brasil pela 34 e chamado de ‘Trens Rigorosamente Vigiados’. Tinha quase esquecido do filme. É chocante a diferença. Foi um sofrimento assistir até o final a imensa simplificação que o diretor Menzel e o próprio Hrabal fizeram no roteiro. Eu realmente pensava que o filme não seria massacrado pelo livro, mas foi.

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As mil manias de quem lê

As mil manias de quem lê

É curioso pensar nas manias que nós, leitores, desenvolvemos — esses pequenos rituais e peculiaridades que se tornam parte da identidade de quem lê. Por exemplo, uma das minhas manias é a de carregar livros mesmo sem a certeza de ler, às vezes com a certeza de que não vou ler, podendo levar livros até em aniversários… Mas há muitas outras. O DataBamboletras fez uma pesquisa entre seus clientes e detectou grande variedade de hábitos peculiares. Aqui estão alguns bem comuns, divididos por categorias:

1. Relacionados ao objeto livro

· Cheirar livros. (Essa eu não tenho).
· Aversão a dobrar o canto das páginas em vez de usar marcadores de páginas, bilhetes, recibos, notas fiscais ou até um lápis. (Essa eu tenho. Coleciono marcadores bonitos).
· Organização obsessiva da biblioteca pessoal. (Essa eu já tive).
· Sublinhar com lápis, marcador ou caneta. Alguns fazem anotações nas margens. Já outros têm pavor de marcar qualquer coisa no livro. (Eu sublinho com caneta e anoto coisas nas margens, para horror de alguns).
· Cuidado com a lombada. Evitar abrir demais para não estragar, ou o oposto, “quebrá-la” de propósito para deixar o livro mais confortável. (Eu quebro quando o livro é maior do que 200 páginas, aproximadamente).

2. Hábitos de leitura

· Ler várias livros ao mesmo tempo. (Raramente faço isso).
· Leitura conforme a situação. Ter um livro específico para cada momento — um na bolsa, um na mesa de cabeceira, um para viagens. (Jamais).
· Terminar um livro, mesmo que não esteja gostando, Aquela coisa de chegar até o fim por compromisso. (Já fiz muito, hoje largo com nojo).
· Reler passagens favoritas antes de dormir ou em momentos de nostalgia. (Sim, para isto sublinho os meus).
· Contar páginas ou calcular a porcentagem de progresso. (Faço. Louco total. Faço a regra de três mentalmente).

[ Persona (Ingmar Bergman) ] 1966

3. Comportamentos sociais/emocionais

· Esconder a capa do livro em público para não revelar o que está lendo. (Jamais fiz).
· Ficar ansioso perto do fim de um livro bom — alegria pela conclusão, mas tristeza pelo fim. (Sempre).
· Travar em livrarias ou sebos por horas, mesmo sem intenção de comprar. (Sempre).
· Sentir atração física por livros bonitos, mesmo que o conteúdo não interesse tanto. (Não).
· Emprestar livros com regras rígidas (“devolva como pegou”) ou, ao contrário, recusar-se a emprestar por apego. (Regras rígidas, com ameaças).

4. Manias práticas

· Sempre ter um livro à mão em filas, salas de espera ou no transporte — a ideia de tempo “perdido” sem ler é angustiante. (Sim, óbvio).
· Ler a biografia do autor antes ou depois do livro, para contextualizar. (Depois).
· Evitar ver o filme/série antes de ler o livro. Ou o contrário: ler o livro depois. (Sou indiferente).
· Colecionar edições específicas de um autor, mesmo em idiomas que não domina. (Sim, de Virginia Woolf…).

5. Superstições e pequenos rituais

· Escolher o próximo livro por “intuição” ou pelo clima do momento. (Não, sei os que vou ler semanas antes).
· Ter um livro de cabeceira fixo para ler aleatoriamente. (Nunca).
· Pular o prefácio / introdução (Depende do autor e do tamanho da introdução).
· Ler notas de rodapé apenas em ensaios, nunca em ficção. (Eu).
· Associar livros a momentos da vida (Sim, claro).

6. O Kama Sutra da leitura

Eu leio deitado, em várias posições, ou sentado numa cadeira, com o livro na mesa. Ou em filas, no banheiro, na sala de espera, no ônibus, etc.

No fundo, essas manias revelam algo bonito — a relação íntima física que se cria com a leitura. O livro deixa de ser só um objeto e vira amuleto, objeto de amor e refúgio. Cada leitor desenvolve sua própria maneira de conviver com ele.

E tu aí que tá lendo? Tem alguma mania particular que não listei?

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Pequenas Grandes Obras

Pequenas Grandes Obras

A grandeza de um livro não se mede por sua espessura, mas pelo seu impacto e eco em nossa consciência. Num mundo de distrações infinitas, propomos um refúgio: a experiência compartilhada de ler os maiores autores em suas formas mais concentradas.

A cada mês, escolheremos uma “pequena grande obra”. Nossos encontros serão aqui na livraria, e mesclaremos o debate com o prazer do convívio e da presença. O maior protagonista será o olhar do grupo.
Queremos criar um espaço onde a leveza do encontro e a profundidade da reflexão caminhem juntas. Onde se possa falar sobre o dilema existencial de um personagem de Tchékhov e, no minuto seguinte, rir de uma piada.

As vagas serão limitadas a fim de garantirmos a intimidade e a qualidade do diálogo. Claro que terá um descontinho na compra do livro na livraria. A gente tem certos problemas com a Amazon, sabem?

Se você estiver interessado, envie uma mensagem por WhatsApp para a livraria (51 99255 6885) ou um e-mail para [email protected] para garantir o seu lugar neste círculo de leitores. A primeira reunião deverá ocorrer em fevereiro, depois do Carnaval, que é quando o ano realmente começa. Estamos pensando nos sábados, às 10h30. O que acham?

De memória, rapidinho, listamos algumas possibilidades. Vejam quantas obras-primas:

O primeiro amor, de Turguêniev*
Ratos e homens, de Steinbeck
A hora da estrela, de Clarice
Um herói de nosso tempo, de Liérmontov
A morte de Ivan Ilitch, de Tolstói
O alienista, de Machado de Assis
Bartleby, de Melville
A casa das belas adormecidas, de Kawabata*
Carta ao pai, de Kafka
O horla, de Maupassant
Minha vida, de Tchékhov
Um artista da fome, de Kafka
O nariz, de Gógol
A história maravilhosa de Peter Schlemihl, de von Chamisso
Michael Kohlhaas, de Von Kleist
Bola de sebo, de Maupassant
O duelo, de Tchékhov
Ninguém escreve ao coronel, De García Márquez
Noturno do Chile, de Roberto Bolaño
Contos de Belkin, de Pushkin
O velho e o mar, de Hemingway
A felicidade conjugal, de Tolstói
Alves e Cia., de Eça
A morte e a morte de Quincas Berro Dágua, de Jorge Amado
Alice no país das maravilhas, De Lewis Carrol
Os mujiques, de Tchékhov
O papel de parede amarelo, de Gilman
O capote, de Gógol
O médico e o monstro, de Stevenson
O clube dos suicidas, de Stevenson
Lady Susan, de J. Austen
A aldeia de Stepántchikovo e seus habitantes, de Dostoiévski
A metamorfose, de Kafka
Lavoura arcaica, de Nassar
Um copo de cólera, de Nassar
Flush, de Virginia Woolf
Etc.

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Historias Negras del Fútbol Argentino — Vol. 1, de Alejandro Fabbri

Historias Negras del Fútbol Argentino — Vol. 1, de Alejandro Fabbri

Alejandro Fabbri, jornalista e historiador do futebol argentino, constrói em Historias Negras del Fútbol Argentino um livro que foge deliberadamente da narrativa heroica e romântica do esporte. Em vez de gols decisivos, ídolos e conquistas, ele reúne episódios sombrios, desconfortáveis e, muitas vezes, esquecidos — desde arbitragens viciadas e jogos suspeitos até pressões políticas, violências de arquibancada e decisões de bastidores que alteraram destinos de clubes e jogadores.

O mérito do livro está menos no impacto das revelações isoladas e mais no modo como Fabbri organiza a memória do futebol como território de poder, onde interesses econômicos, pressões políticas, rivalidades regionais e vaidades institucionais se entrelaçam. Sua escrita é clara, direta e jornalística, mas nunca fria: há indignação, ironia e, sobretudo, a convicção de que contar essas histórias é uma forma de restaurar a complexidade do jogo.

Fabbri evita o sensacionalismo. Ele vai aos arquivos, cita jornais, testemunhos e documentos, e mostra que o futebol argentino não foi apenas palco de glória coletiva — foi também cenário de injustiças, manipulações e tragédias silenciosas. Ao detalhar partidas anuladas ou manipuladas, campeonatos distorcidos e carreiras destruídas, o autor revela como a mística esportiva convive, desde sempre, com a sombra do amadorismo institucional e da corrupção.

O resultado é um livro que desromantiza o passado sem destruir o amor pelo jogo. Lê-lo é perceber que a história do futebol é mais rica e humana quando inclui seus fracassos, suas zonas cinzentas e seus bastidores incômodos. Para quem gosta de futebol como fenômeno cultural, e não apenas como espetáculo, este primeiro volume é instigante e… atual.

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Do que eu falo quando falo de corrida, de Haruki Murakami

Do que eu falo quando falo de corrida, de Haruki Murakami

Um livro simples e direto, de alguém que vive a corrida. Alguns de vocês sabem que eu, aos 68 anos, ainda corro. Nestes dias de canícula extrema, tenho sofrido um pouco, apesar de que minha ideologia de corredor é totalmente diferente da de Murakami. Eu corro sempre confortavelmente, naquilo que chamo de “velocidade de cruzeiro”, isto é, velocidade constante e sem dor. Com o calor deste dezembro-janeiro, paro nos 4 Km, pois tudo começa a ficar complicado. Não sinto dor, não tenho dificuldades para respirar, só sinto muito calor; na verdade, parece que alguém me desliga remotamente. Segundos antes de parar, não pretendia fazê-lo e fico surpreso quando paro. Sim, estou tomando todos os remédios que me prescreveram.

Neste livro fora da curva, Haruki Murakami transforma a corrida em metáfora de escrita e disciplina. Longe de ser apenas um diário de treinamento, Do que eu falo quando falo de corrida é um ensaio autobiográfico em que o autor examina o corpo, o passar do tempo e o silêncio — aquilo que sustenta sua literatura quando ninguém está olhando. Eu escrevi silêncio? Bem, quando ele corre, costuma ouvir rock, jazz ou eruditos. Voltemos: ao narrar maratonas e dores musculares, Murakami fala, na verdade, sobre persistência, escolhas e a estranha solidão de quem decide enfrentar a si mesmo todos os dias. Escrever seria como correr.

A prosa é calma e transparente, como quem pensa enquanto caminha. Não há heroísmo; há cansaço, limites, fracassos e uma ética quase artesanal: correr e escrever exigem rotina, humildade e paciência. O autor reflete sobre a passagem dos anos, sobre a relação entre arte e resistência física. É um livro de introspecção discreta, sem alarde.

Ou seja, o ponto central do livro não é a corrida em si, mas o modo como Murakami articula disciplina,  e rotina com o processo de escrita. Ele descreve o momento em que decide abandonar o bar que administrava para viver exclusivamente de literatura — e como a corrida surge em sua vida como uma prática que lhe dá método, fôlego e constância. O interesse do livro está na relação entre esses dois gestos paralelos: escrever todos os dias, correr todos os dias — ambos como tarefas pacientes e acumulativas.

Murakami evita grandes conclusões e nunca dramatiza suas experiências. Em vez disso, constrói um mosaico de pequenas cenas: treinos, viagens, competições, cansaços, fracassos discretos, satisfações modestas. A força do livro nasce justamente dessa contenção. Ele observa a si mesmo com distância, às vezes com humor, outras com leve melancolia. O resultado é um livro sobre tempo e trabalho — sobre aquilo que só se constrói lentamente, passo a passo, página a página. Murakami mostra que a escrita, como a corrida, não é feita de momentos épicos, mas de repetição, atenção e uma obstinada fidelidade ao ato de continuar.

Do que eu falo quando falo de corrida é, assim, um livro de memórias enxuto e elegante, que ilumina o cotidiano do escritor por dentro — e revela, sem didatismo, como a literatura também se articula com hábitos, insistência e, tá bem!, silêncio.

P.S. — Sim, sim, meus amigos, para dar este título a seu livro, Murakami pediu permissão para a viúva de Raymond Carver, autor de “De que falamos quando falamos de amor” (What We Talk About When We Talk About Love).

Hoje, Murakami tem 76 anos. Será que ainda corre?

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Trens Rigorosamente Vigiados, de Bohumil Hrabal

Trens Rigorosamente Vigiados, de Bohumil Hrabal

Publicado em 1965, Trens Rigorosamente Vigiados é um clássico. É um daqueles romances curtos que parecem conter um mundo inteiro. Cravado na ex-Tchecoslováquia ocupada pelos nazistas, o livro acompanha o menino / jovem Miloš Hrma, aprendiz de ferroviário, que vive à margem do conflito bélico, mas no centro de outro tipo de guerra: a do amadurecimento, do desejo, da vergonha e da fragilidade.

A narrativa de Hrabal tem um tom irresistível, ao mesmo tempo irônico e melancólico, combinando piadas — algumas delas muito inesperadas — com momentos abruptos de dor. O cotidiano da pequena estação ferroviária — seus funcionários, pequenas tragédias pessoais, manias e gestos ridículos — ganha relevo contra o pano de fundo da guerra, que nunca é o foco direto, mas que exerce uma pressão constante e silenciosa.

Como disse, este romance abarca o mundo, sendo, sobretudo, um estudo da condição humana em situações-limite, mas sem recorrer ao heroísmo convencional. Miloš não é um herói de guerra — é um jovem inseguro, dividido entre o despertar sexual e um profundo sentimento de inadequação. É justamente dessa humanidade desajeitada que nasce a força do livro. Hrabal mostra como as grandes catástrofes históricas atravessam vidas pequenas, frágeis, “insignificantes” — e como essas vidas carregam beleza.

A prosa de Hrabal é enxuta, mas cheia de subtexto e poesia. Há passagens que oscilam entre o absurdo e o lirismo. No desfecho, o gesto de Miloš atinge toda a narrativa (e principalmente o leitor): é ao mesmo tempo ato de coragem, reparação íntima e tragédia incontornável. Hrabal sugere que, em meio ao caos histórico, os indivíduos continuam a buscar sentido — ainda que esse sentido possa custar caro demais.

Trens Rigorosamente Vigiados é uma pequena obra-prima inesquecível: um romance sobre a passagem à idade adulta, sobre a guerra e a delicada brutalidade de existir.

Bohumil Hrabal

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O Crime no Edifício Giallo, de Luiz Biajoni

O Crime no Edifício Giallo, de Luiz Biajoni

Minha cultura sobre livros policiais é mínima. Gosto muito de Simenon, um pouco de Rex Stout e li aquela maravilha chamada Edições Perigosas, de John Dunning. Nunca fui adiante. Soube pelo próprio Biajoni que o termo “giallo” (“amarelo” em italiano) refere-se a um tipo de romance policial publicado na Itália. O nome surgiu a partir de 1929, em razão das capas amarelas distintivas de uma popular série de livros de crime e mistério. Ficou bacana no nome do livro, né?

Bem, o título não engana e é claro que acontece um crime no tal edifício. Antes do crime, Biajoni constrói de forma muito bem feita o contexto da comunidade de moradores. Creio que ele se divertiu muito criando aquele microcosmo onde acontecerá um assassinato. Para mim, é o melhor do livro. Tava nem aí para quem seria o assassino, pois adorei o grupo de personagens… Tem a família que construiu o prédio e que ocupa dois apartamentos — um para o pai construtor, outro para família da filha, formada por esta, marido e filha –, o vizinho que namora uma policial fortona e o simpático vizinho recém chegado, que logo se revela um festeiro barulhento. A neta do construtor trata de conhecer as tais festas, enquanto o restante do prédio quer ver o vizinho, ainda por cima preto e gay, fora dali.

E o crime acontece. E aqui nesta resenha você não saberá quem mata e quem morre, claro. Mas saberá que O Crime no Edifício Giallo é delicioso. Luiz Biajoni, com sua prosa coloquial e debochada, cria um livro que é tão suspense quanto sátira da sociedade maluca que mora num edifício de alta classe em São Paulo.  Como disse, em momento nenhum me preocupei sobre quem seria o assassino — esta é uma falha de caráter minha ao abordar livros e filmes policiais –, estava era me deliciando com as sutis críticas àquele grupo de pessoas privilegiadas e problemáticas.

O ritmo do livro é avassalador em suas acelerações e puxadas de freio. A gente acaba com a impressão que está no Giallo subindo e descendo nos dois elevadores.

Recomendo.

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A Viagem de James Amaro, de Luiz Biajoni

A Viagem de James Amaro, de Luiz Biajoni

Diferentemente de suas novelas iniciais, as ótimas e sacanas Sexo anal: uma novela marrom, Bucet@: uma novela cor-de-rosa e Boquete: uma novela vermelha, A Viagem de James Amaro é muito mais sombria e introspectiva. E interessante. Também há sexo nela, mas o cerne está na amizade entre dois personagens que, bem… não transam: James e Alex.

Tudo começa com um rompimento do mulherengo James Amaro, que decide sumir por uns tempos. Quando James prepara sua viagem comprando coisas num supermercado, dá de cara com um amigo de escola. Descobre que o amigo está em sérias dificuldades financeiras. Propõe-lhe resolver temporariamente a questão e o convida para viajarem juntos. Seria uma oportunidade de botarem o papo em dia… E Alex Viana acaba aceitando a proposta. O que parecia um projeto nostálgico e despretensioso logo se revela um percurso onde aparecerão identidades, culpas, amores e até um crime piedoso.

O texto é cru e realista, talvez mais provocativo do que o dos livros citados acima. Há uma cena — que não cabe contar em resenha — que abre um abismo entre os viajantes. É um momento surpreendente, no qual Biajoni lança uma ponte de cordas sobre o abismo. É algo que balança e dá medo, mas parece segura o suficiente.

Há muito jazz sofisticado no livro, mas que não consegue iluminar os personagens. Apesar de curto, o livro dá a Biajoni espaço suficiente para expor lentamente os dramas de cada um. Não sei se podemos chamar A Viagem de James Amaro de um romance de estrada. Afinal, a viagem de James acaba sendo uma descida e volta do inferno — ou àquilo que ele considerava ser o inferno.

Recomendo.

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Uma faceta de Erico Verissimo no dia de seus 120 anos

Hoje é o dia dos 120 anos de Erico Verissimo. Ele foi o escritor me convenceu que este negócio de literatura era mesmo interessante. “O Continente”, primeiro volume de “O Tempo e o Vento”, me pegou de jeito. Tinha 15 anos e não era muito de ler, era só de jogar futebol da manhã à noite, para desespero de minha mãe e de minhas roupas.

Ele também demonstrou que a música era algo que ocuparia um grande espaço em minha vida. O tal “Solo de Clarineta” era o solo do Quinteto de Brahms para Clarinete e Cordas. Alguém em “O Senhor Embaixador” dizia que não conseguia mais ouvir Bartók, pois a primeira metade do século XX europeu estava ali. E está mesmo. Se lembro bem, o Eugênio de “Olhai os Lírios do Campo” toca Chopin ao piano, e peças de compositores como Beethoven e Schubert são citadas. Não lembro de nada do romence “Música ao Longe”, mas o título denuncia. A gênese de “O Tempo e o Vento” foi um tio de Erico sentando sobre (e quebrando) alguns de seus discos e simplesmente pedindo desculpas. Ops.

Em romances como “Clarissa” e “Caminhos Cruzados”, a música surge como sinal de sensibilidade e refúgio íntimo. Personagens escutam rádio, tocam piano, comentam concertos ou canções populares. A música é desejo de transcendência e sinal de classe social.

Já em “Incidente em Antares”, a música ganha tons irônicos e críticos: bandas, hinos, músicas oficiais e populares contrastam com o absurdo da situação, reforçando a sátira. O som do poder entra em choque com o caos moral da cidade.

Erico escreve com o ouvido. Sua prosa tem ritmo, alternância de andamentos, pausas, crescendos. Ele alterna vozes, repete motivos, cria variações. Nesse sentido, sua literatura é musical não só no conteúdo, mas na forma.

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Futebol argentino

Futebol argentino

Há dois livros de títulos um tanto incorretos (capas abaixo) e que são incríveis.

Neles, Alejandro Fabbri documenta uma outra face do glorioso futebol argentino, revelando subornos e manipulações — dirigentes e árbitros envolvidos em propinas e arranjos de resultados, especialmente para evitar rebaixamentos –, violência — revoltas de hinchas agressivos, tentativas de linchamento de árbitros e a pauleira generalizada nas arquibancadas e campos — e a cumplicidade política — as negociatas com o poder e o silêncio que manteve as irregularidades escondidas por décadas, demonstrando que esses problemas têm bem raízes profundas.

Olha, são livros deliciosos e inacreditáveis. Árbitros voltando para o estádio montados a cavalo nos anos 20 a fim de fazer a torcida voltar para a arquibancada, torcedores preparando uma forca para um juiz (que foi salvo no último momento sendo levado para o hospital com graves ferimentos e comoção cerebral), corrupção generalizada, uma beleza. Tchê, são histórias inauditas e que dão o que pensar sobre a importância do futebol para nossos vizinhos. Brasil, o país do futebol? Só na linda música do meu xará Nascimento.

(Se alguém quiser os livros, melhor ir à Argentina. Mesmo lá, custam uma fortuna. Aqui nem se fala. Tive a sorte de comprá-los quando não eram raros).

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Tá pensando que tudo é futebol?, de Franciel Cruz

Tá pensando que tudo é futebol?, de Franciel Cruz

Penso que o título deste livro de Franciel Cruz não seja irônico ou casual. Claro, são crônicas sobre futebol, mas também sobre aquilo que gira em torno dele: a infância, o humor, a pobreza, a sociedade maluca de nosso país. Tá pensando que tudo é futebol? fala do futebol como raiz de identidade e contradição. A pergunta provocativa do título — que parece vinda de alguém que detesta o ludopédio — pode ser alterada para o futebol está em tudo ou tudo pode ser futebol. Mais do que um livro de curiosas crônicas sobre o esporte ganha densidade ao se tornar um mapa de esperanças, ilusões e decepções — como aqueles que existem fora das quatro linhas.

Escrevi acima “curiosas crônicas”, pois boa parte do interesse do livro repousa sobre sua forma. A linguagem barroca + coloquial + erudita de Franciel acaba quase sempre criando expressões inusitadas, que apontam tanto para a glória de alguns acontecimentos como para a mais áspera das autodepreciações. É sua voz. A leitura provoca muitas risadas, algumas tristes. Como na música de Gil, Franciel está sempre rindo e sempre cantando, com humor e ironias refinadas.

Tá pensando que tudo é futebol? é um livro que pega o futebol e o transforma em literatura de carne e osso. Tem humor, alguma raiva, ternura e poesia, mostrando que cada crônica é sobre o Brasil — com suas manias, suas feridas, suas esperanças improváveis. O futebol vira espelho da política, da amizade e da desilusão. Vira vida, enfim.

Para conseguir o livro, só com o autor, parece.

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Música e literatura

Música e literatura

Relendo uma longa entrevista de László Krasznahorkai que até traduzi com a ajuda do Google (não sou tradutor, nem venham), notei não apenas a forte presença da música em sua vida — foi pianista de jazz, cantor de rock e é hoje um devoto do barroco, além de inimigo do romantismo –, como a influência da mesma em sua escrita.

Ele diz que escreve mentalmente muitas páginas até passá-las para o computador. Mas são muitas páginas mesmo, umas 30. Quando elas formam uma espécie de música, ele resolve se valem a pena. OK, é o jeito dele. A estrutura de Sátántangó é semelhante à do Cânon Caranguejo utilizado por Bach na Oferenda Musical. Isso sou eu quem está dizendo, não Lázsló.

Thomas Mann era um sujeito que poderia ter sido músico. Conhecia teoria musical como poucos e seus livros são como obras de Brahms ou Franck. Me parabenizei quando soube da admiração de Mann por ambos. Quem leu A Montanha Mágica deve lembrar de que alguém no sanatório chama a música de “politicamente suspeita”. Deve ter sido Settembrini, claro. O método de escrita de Mann era o de uma ou duas páginas por dia que eram relidas no dia seguinte antes de chegarem as uma ou duas do novo dia, jamais três.

Escrevo isso para expor minha total admiração pelos escritores-músicos. Dificilmente deixo de gostar de alguém que ama a música. Ian McEwan é membro importante deste time. Ele sempre fala naquele que considero o melhor lugar do mundo, o Wigmore Hall. No site do Wigmore há um poema de McEwan falando da sala.

(Certa vez, eu estava na fila de entrada do Wigmore, quando as pessoas começaram a olhar discretamente para mim. Depois de passar a mão no rosto, tratei de revisar minha roupa para ver se não havia algo de muito errado nela. Durante a revisão, me virei pra trás e vi que McEwan estava bem atrás de mim. Eu disse apenas “Sorry”, a palavra que os ingleses mais falam).

Não esqueçam que Mário de Andrade era musicólogo, que Machado sempre falava em música e a família Verissimo pai, filho e neto eram/são tarados por música. Enfim, são muitos os exemplos que me ocorrem. Por que larguei de ler Boris Vian?

Claro que na minha posição de livreiro só falo mal de escritores bem mortos, dos vivos só falo bem ou me calo. A suscetibilidade da raça é algo tão veemente que me dá medo. Mas sabem, em quase todo escritor que gosto acabo descobrindo música. Isso se dá quando Gustavo Melo Czekster escreve um romance sobre a du Pré, quando vejo o José Falero com um cavaquinho, quando descubro que Thomas Bernhard poderia ter sido um grande cantor lírico mas que uma doença o impediu, etc.

Sabem o que me fez pensar em todas essas coisas acima, antes mesmo de revisar a entrevista do László? O livro “A música na obra de Erico Verissimo — polifonia, crítica social e humanismo”, de Gérson Werlang, que, dizem, receberá uma espécie de relançamento aqui na Livraria Bamboletras, no dia 17 de dezembro, dia dos 120 anos de nascimento do Erico.

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