Atrás do balcão da Bamboletras (XLIV)

Atrás do balcão da Bamboletras (XLIV)

Estava voltando do almoço, me arrastando no calor de Porto Alegre. Quando entrei todo suado no ar condicionado da livraria, ouvi uma moça dizer que queria porque queria um Tudo é rio, de Carla Madeira, o livro que eu estava lendo e que carregava sob meu sovaco. Na Bamboletras, tínhamos vendido o último exemplar dele no findi. Sabia que não tínhamos o livro.

Ela viu meu livro e perguntou:

— Me vende o teu?

Respondi que minha mulher já tinha lido aquele exemplar e que eu estava na página 160 de 212. Estava usadinho.

— Ah, me vende… Vou viajar amanhã e preciso! Tu busca outro exemplar pra ti na distribuidora!

— Mas eu anoto meus livros, sublinho, coloco um U quando dou risada e um ∩ quando discordo. E estrago a lombada.

— Tô nem aí. Quero!

— Mas ele estava na minha axila.

— Me vende. Nem precisa me dar o desconto-axila.

Vendi, né? Amanhã chega o meu.

No caminho para a Bamboletras

Bah, tenho até vergonha de contar, mas hoje eu dei susto num cara que nem lhes conto. Ou conto?
Eu estava caminhando de fones, ouvindo o início de uma das muitas obras que amo: a Cantata BWV 198, Trauerode, de J. S. Bach.

Ela inicia com uma breve introdução instrumental, depois entra o coral e diz: “Laß, Fürstin, laß noch einen Strahl”. Laß é pronunciado como Lass. E eu entrei junto com o coral, sem desafinar, cantando “Lass!”.

Só que o coral entrou quando eu estava chegando na sinaleira para atravessar a Osvaldo Aranha. Eu devo ter quase gritado em meu puro entusiasmo e o cara que estava na minha frente deu um pulo, erguendo os braços. Lass!

Eu? Eu olhei pro outro lado. Será que ele pensou que fosse um assalto? Lass!

.oOo.

Cantata BWV 198 é uma Ode Fúnebre, severa e sombria. Ele compôs esta cantata a pedido da Universidade como uma ode fúnebre para Christiane Eberhardine , esposa de Augusto II o Forte , o Eleitor da Saxônia e Rei da Polônia . A cantata foi apresentada pela primeira vez em 17 de outubro de 1727 na Igreja da Universidade de Leipzig. O próprio Bach dirigiu do cravo. O texto foi escrito por Johann Christoph Gottsched , professor de filosofia e poesia. O texto é puramente secular, proclamando como o reino está em choque com a morte da princesa, quão magnífica ela era e quão triste será sua falta. Elementos sacros relativos à salvação e vida após a morte estão ausentes.

.oOo.

Para quem quiser ver e ouvir a Trauerode, aqui está um bom link.

Debaixo do boné do Falero

Debaixo do boné do Falero

Ler para o outro é um ato de puro amor. Eu acho. E ler para a pessoa amada é mais ainda, claro.

Não sei se leio bem ou se a Elena é boa ouvinte, mas a coisa funciona e hoje eu estava terminando o livro do José Falero com a Elena deitada a meu lado quando vi que, em uma das crônicas finais de “Mas em que mundo tu vive?”, ele cita a Livraria Bamboletras.

Fiquei muito comovido por duas razões: pela livraria que tento fazer sobreviver e por Falero falar de seu pai, morto há 20 anos, tal como o meu. Sim, esta crônica foi uma das que me atingiram com força.

E a Elena acaba de perguntar:

— O Falero é aquele cara que a gente encontrou com a mãe dele no Café Cantante?

— Sim.

— Quanto talento debaixo daquele boné, hein?

Sobre a Bamboletras, Cidade Baixa, Nova Olaria, Guion e outros que tais

Não (por Luiz Hall)

De degrau em degrau, vamos descendo até o grunhido.
José Saramago

Não pude deixar de pensar no velho portuga e sua implicância com o twitter quando li as últimas notícias envolvendo o fim das atividades do Guion e da mudança proposta para o Nova Olaria que ganhará três torres de apartamentos e passará a se chamar ‘NO’.

Estas duas letras carregam uma carga muito grande. Chega a ser simbólico o apócope como uma negação de uma história construída até então naquele local.

Desde o princípio, quando tudo ainda era mato, a Lu Vilella por ali aportou e tijolo por tijolo foi assentando com suas mãos decididas uma Livraria de Todos os Gêneros e construiu uma relação não com o Nova Olaria, nem com a Cidade Baixa, mas como uma referência de livraria para toda a cidade.

E muito mais. Lembro da história de uma fã mexicana que ouvia as transmissões da Rádio da Universidade pela internet e curiosa se perguntava que Livraria era aquela que patrocinava um programa que ela curtia ouvir.

Mas esta é uma história de mudanças. Quando assumiu a Livraria, o Milton Ribeiro trouxe seus próprios tijolinhos e com a força e a gana de criar coisas belas agregou à livraria outras características e novidades como os inúmeras sessões de autógrafos e debates que consolidaram a Bamboletras como a grande referência que é. Sorte nossa por supuesto.

Se for lembrar de todo este tempo frequentando aquele local, imagino o espaço como a nossa Troia. Camadas e camadas sobrepostas de histórias.

E que local! Representou como nenhum outro estabelecimento a antiga Rua da Olaria que celebrou a libertação dos escravos já sob a alcunha de Rua General Lima e Silva em 1884 em edição do jornal A Federação (Na Rua Lima e Silva todos são livres!).

O Guion também. Uma oásis para os cinéfilos que se esbaldaram na seleção dos filmes apresentados todos estes anos.

Se me pedissem a opinião sobre que filme poderia marcar a despedida do cinema eu indicaria aquele chileno dirigido pelo Pablo Larraín baseado na peça El Plebiscito do Antônio Skármeta.

Tenho curiosidade pelo que poderá vir no pós reforma. Se o cinema prometido terá a sorte de uma curadoria nos mesmos termos ou se será mais um exibidor de blockbusters. Se o espaço não se transformará em mais um centro comercial comum.

Torço pela quase balzaquiana Bamboletras, pelo Milton Ribeiro, pelos inestimáveis Gustavo Ventura, Eliane et alli… que precisarão passar por esta provação como torço por todas as livrarias de rua.

E concordo com o que o arquiteto e historiador Renato Menegotto disse para o Rua da Margem.

Não se quer congelar o tempo. A cidade pode evoluir sem perder a essência histórica, com sobreposições graduais, reveladoras da vida e do tempo. O problema são as intervenções abruptas, que quebram a escala do bairro.

Mas Milton, se tens que levantar âncora e partir, quem sabe não poderias vir para o Navegantes. Poderia ser como uma ilha aqui no bairro. Ou um porto seguro nesta cidade que ultimamente vem se mostrando mais aflita que alegre.

~ ESCLARECIMENTO SOBRE A BAMBOLETRAS E A REFORMA DO NOVA OLARIA ~

Ontem surgiram notícias sobre a “destruição” do Nova Olaria, onde localiza-se a Livraria Bamboletras. Como creio saber mais a respeito do que a maioria das pessoas e para que as narrativas apocalípticas recuem um pouco, aqui vão as informações que possuo.

Marquei uma reunião com os administradores há uns 20 dias. Fui recebido numa sala de reuniões com toda a pompa, vieram 2 pessoas falar comigo.

As notícias:

1. Eles vão construir 3 torres aqui. Duas de “studios” (apartamentos JK, bem entendido) e uma de apartamentos maiores. Um prédio será no atual estacionamento, outro na ex-FADERGS e outro naquela Academia que fica na Lima e Silva e que a gente passa na frente quando vai para o Zaffari, saindo da Bamboletras.

2. O Nova Olaria (a partir de agora NO) será inteiramente reformado. Ficará o muro formado pela frente de todas as lojas e a parte de trás das mesmas. Isto é, só ficarão a parte da frente e a de trás das lojas nos dois lados. O meio será derrubado, assim como o maior problema do prédio: o teto. Neste item, concordo com os caras, o teto daqui está pedindo manutenção. Também o piso do meio será refeito e ficará da altura do piso das lojas, pois, realmente, hoje nada está preparado para a acessibilidade.

3. Isso começará lá pelo meio do ano que vem.

4. É óbvio que teremos que sair. A reforma deve demorar uns dois anos.

5. Eles me informaram que as novas lojas terão tamanhos iguais às atuais e querem que a Bamboletras volte após a reforma. Mostraram um estudo que demonstra que somos a mais importante a loja do NO, mais importante até que o Guion. Seríamos a principal âncora. Somos quem traz mais gente pra dentro do Shopping. Eles disseram que o NO tem afinidade com a cultura e que o cinema será derrubado e reconstruído logo depois, com ou sem o Guion. Que isso aqui só pode dar certo com a Bamboletras e o cinema. Fico feliz com as palavras, mas saibam que ainda estamos em crise — precisamos levantar a âncora e navegar melhor.

6. Mas mudei de assunto. Voltemos…

7. Disseram também que podem facilitar nosso aluguel em um prédio deles na Cidade Baixa até o retorno.

8. Claro que achei tudo isso uma merda. Duas mudanças é pra matar. Talvez fosse melhor apenas sair no primeiro semestre do ano que vem. Ou estamos tão grudados ao NO que seria melhor retornar? — esta é uma questão em aberto.

9. Afinal, eles fizeram uma pesquisa em POA perguntando sobre as palavras que ocorrem às pessoas quando pensam na Cidade Baixa. Entre as palavras mais citadas estava “Bamboletras”. Pode ser puxassaquismo, mas só pensei nisso agora. Ah, se a gente pudesse transformar nosso prestígio em $… Ah, se prestígio e boa curadoria pagasse contas…

10. Bem, as informações são estas. Pretendemos seguir, não obstante as obras e dificuldades. Somos teimosos e acreditamos no que fazemos. Boas livrarias são importantes. Passamos pela pandemia sem demitir nenhum funcionário — não adianta ser ideológico só no discurso, né? — e queremos seguir vivos. Estamos na luta e vocês não imaginam como. Apareçam. Como diria Drummond, precisamos de todos.

P.S. — Se alguém tiver sugestões, palpites. bons locais disponíveis para 2022, por favor, manifeste-se.

Atrás do balcão da Bamboletras (XLI)

Entra um sujeito enorme na livraria perguntando sobre os livros que havia encomendado. Ele fala com voz de trovão. Recebe o aviso de que um livro de sua lista chegaria no máximo em 30 min e fica batendo papo, enquanto folheia os que já tinham chegado.

Por algum motivo, chegamos ao tema da diferença (enorme) que há entre semitismo e sionismo. Ele se exalta, falando cada vez mais alto e declara:

— Por exemplo, há aqueles insuportáveis do Bom Fim e, por outro lado, no mesmo bairro, tem o Flávio Koutzii.

Neste momento, um respeitável senhor de chapéu e máscara — perfeitamente camuflado — volta-se para o autor do discurso e diz:

— Muito prazer, Flávio Koutzii. Vou me apresentar antes que o senhor comece a falar mal de mim. Imagine que saí de casa hoje pela primeira vez em muitos meses…

O cara ficou pasmo, absolutamente pasmo, e a conversa seguiu entre risadas.

Atrás do balcão da Bamboletras (XL)

Hoje foi uma boa manhã de sábado na livraria. Estava ocorrendo tudo normalmente, com os clientes, os pedidos e as entregas indo e vindo.

De repente, recebo um Whats que dizia que a amiga de uma cliente tinha recebido um livro por ela e que ela, a amiga, tinha achado nosso ciclista, o R, muito “simpático”. E pedia o número dele.

Pensei no que fazer, mas hoje é Dia dos Namorados, vocês sabem, e eu repassei imediatamente o número.

Já estava me arrependendo do meu papel de cupido e então liguei para o R a fim de avisá-lo de minha façanha.

— O quê? Ela é MARAVILHOSA. Veio com um gato na mão receber o livro, uma visão do paraíso!

O R é um cara talentoso e muito, mas muito legal. A menina deve ser também. Hoje é Dia dos Namorados. E a Bamboletras abençoa e deseja sorte a todos os amores. Aos antigos e aos recentes.

Ah, estamos abertos até às 19h. Venha buscar seu amor aqui!

Atrás do balcão da Bamboletras (XXXIX)

Atrás do balcão da Bamboletras (XXXIX)

Chega uma moça e pergunta para quem estava no atendimento:

— Eu quero um livro para a minha avó que está fazendo 88 anos. Ela gosta de romances que tenham uma pegada sexual.

O atendente ri nervoso e me chama:

— Milton!!!

E eu desço as escadas com aquela postura inequívoca de especialista em literatura de pegada sexual.

— Milton, esta cliente pediu…

— Eu ouvi.

E eu começo a pensar… A pensar… E paro em A Gorda, extraordinário romance de Isabela Figueiredo. Conto a história do livro. Falo de seu realismo, da baixa autoestima, da profissão, da vida portuguesa, do namorado fpd, de tudo o que acontece e na linha reta utilizada pela autora cada vez que fala em sexo. A franqueza é absoluta.

A moça pede outras ideias e eu sugiro mais dois ou três livros, meio sem vontade.

Finalmente, ela abre A Gorda numa página aleatória. De repente, arregala os olhos e diz sim, vou levar este, minha avó vai adorar!

Atrás do balcão da Bamboletras (XXXVIII)

Entra um senhor de sandálias com um carregado sotaque alemão e pergunta se temos O Continente, de Erico Verissimo. Disse que tinha vindo à Bamboletras por recomendação de um amigo. Ele nos conta que encontrou o livro há muitos anos em seu país e que agora quer ler o original, de tanto que gostou. Abre a mochila, pega um paralelepípedo bem protegido por papel pardo, e nos mostra a edição alemã de 1955. Diz que jamais foi reeditado por lá. É impressionante, até porque a terceira parte de O Tempo e o Vento saiu só em 1962 — O Continente é de 49. O problema foi explicar a ele que as editoras transformaram o livro em dois volumes no Brasil. Examinei seu exemplar: uma coisa linda e, sim, tinha O Continente completo. Os dois volumes em português já estão na sua mochila, ao lado da relíquia.

O sorriso dele ao folhear os livros compensa tudo o que a livraria está passando nesta pandemia.

Olha quem compra na Bamboletras

Olha quem compra na Bamboletras

Não que queiramos nos gabar ou provocar inveja em ninguém — até porque não é do nosso feitio –, mas a Livraria Bamboletras é recheada de clientes ilustres. Um deles é o ex-Prefeito, ex-Governador e ex-Ministro de melhores governos Olívio Dutra, referência como homem público.

Olívio está em São Luiz Gonzaga e recém adquiriu este livro de autoria do historiador Luiz Roberto Targa, “Gaúchos e Paulistas na construção do Brasil Moderno”. Um belo estudo de economia e política e título disponível aqui nas prateleiras da Bambô.

Olha o nosso marcador de páginas ali!

Boa leitura, Galo Missioneiro! 😉

📝 Faz teu pedido na Bambô:
📍 De segunda à sábado, das 10h às 19h.
🚴🏾 Pede tua tele: (51) 99255 6885 ou 3221 8764.
🖥 Confere o nosso site: bamboletras.com.br
📱 Ou nos contate pelas nossas redes sociais, no Insta ou no Facebook!

#livraria #livros #bookstagram #apoielocal #leiaumlivro #bamboletras #oliviodutra #história #RS

 

֎ COMUNICADO DA LIVRARIA BAMBOLETRAS ֎

֎ COMUNICADO DA LIVRARIA BAMBOLETRAS ֎

A partir de desta segunda-feira (22), o comércio está liberado para abrir entre às 5h e às 20h.

É uma decisão polêmica. Por um lado, há a preocupação com os empregos, por outro, com a vida.

Nós, da Bamboletras, pretendemos permanecer como estávamos na semana passada, dando total força à telentrega e ao pegue e leve em nossa porta. Com maquininhas de cartão quase bêbadas de tantos banhos de álcool.

Poderíamos escancarar as portas ao público, mas escolhemos seguir com cuidado. Conosco e com nossos clientes.
Só não pense que isto significa que você deva nos abandonar.

Com o recrudescimento da pandemia, estamos em dificuldades cada vez maiores. Queremos continuar com vocês depois que tudo isso passar, mas precisamos que continuem conosco neste momento.

Comprando um livro aqui outro ali, mandando livros de presente para os amigos, fazendo encomendas… Esta troca em que ambos saem ganhando nos servirá para que estejamos juntos quando vacinados.

Não esqueçam de nós, por favor. E cuidem-se.

📝 Faz teu pedido na Bambô:
📍 De segunda à sábado, das 10h às 19h.
🚴🏾 Pede tua tele: (51) 99255 6885 ou 3221 8764.
🖥 Confere o nosso site: bamboletras.com.br
📱 Ou nos contate pelas nossas redes sociais, no Insta ou no Facebook!

#livraria #livros #bookstagram #apoielocal #leiaumlivro #bamboletras

Atrás do balcão da Bamboletras (XXXVII)

Atrás do balcão da Bamboletras (XXXVII)

A Todavia, sempre parceiríssima, está promovendo 15 livrarias de rua brasileiras em seu perfil do Instagram.

Para tanto, solicitaram a um artista que fizesse uma arte para cada uma das homenageadas.

Hoje foi o nosso dia! Nossa, ficou lindo!

Agradecemos à Todavia e à artista Aline Zouvi que captou com precisão algo de nós.

.oOo.

O texto do Insta está copiado abaixo:

Até sexta-feira, este perfil será ocupado por livrarias de rua, homenageadas no traço de 15 jovens artistas convidados a representar um pouco do clima desses espaços.

@bamboletras, Porto Alegre (RS)
Ilustração de @alinezouvi

A Bamboletras está localizada no bairro boêmio de Porto Alegre, a Cidade Baixa. É o local das festas, dos bares e da confusão noturna. A livraria tem tudo a ver com o bairro e está bem no centro dele, numa galeria chamada Nova Olaria (…). Durante a pandemia, descobrimos que, mesmo com o cinema fechado e com as limitações dos bares, nosso público vinha nos visitar. Modestamente, achávamos que éramos complementares, mas somos fundamentais.

No período em que estivemos fechados à visitação, as pessoas nos ligavam e verificavam se os livros podiam ser enviados. A comunidade local de leitores e livros é a comunidade de que precisávamos antes, é a comunidade que esteve conosco nos tempos difíceis, e é a comunidade com quem queremos estar quando tudo isso acabar”, diz Milton Ribeiro, que assumiu a livraria em 2018.

No último ano, eles criaram serviços de telentrega por WhatsApp, redes sociais e até um desvio de chamadas para que os telefones tocassem na casa dos funcionários. “Funcionou. Essa resistência veio da necessidade de seguir vivo e do respeito que temos pelos clientes e trabalhadores da casa. Sou um cara teimoso e que gosta não somente dos livros, mas também das pessoas. Então, conseguimos ultrapassar a crise trabalhando muito e sem demitir ninguém. Isso me orgulha muito. Somos seis pessoas aqui.

A Bamboletras sustenta seis famílias. Uma delas é a do livreiro mais antigo, Gustavo Ventura Gomes, o Gus. Milton o descreve como aquele com “memória espantosa”, que trabalha há 30 anos com livros. “Ele gosta principalmente de ficção, psicologia e política, mas poderia ter também um divã aqui na loja, pois é daqueles para quem as pessoas contam suas histórias. No dia em que Bolsonaro foi eleito, havia gente literalmente chorando na Bamboletras, perguntando pro Gus: ‘O que será de nós agora?’. Os clientes amam o Gustavo.”

#vivaasualivraria
#livrariasresistem
#tudocomeçanalivraria
#defendaolivro
#todavialivros
#livrarias

Atrás do Balcão da Bamboletras (XXXVI)

Atrás do Balcão da Bamboletras (XXXVI)

Acaba de acontecer algo muito inusitado. Ontem à tarde, fomos levar um “De cu pra Lua”, ótimo livro do Nelson Motta, ali no Menino Deus.

A compra tinha sido feita por um homem. O ciclista chegou ao local, abriram-lhe a porta e ele disse para Beltrana que queria fazer uma entrega para Fulano do ap. 103. Beltrana perguntou o que era.

— Um livro que ele comprou.

— Ah, sim. Deixa eu ver. Está pago?

— Não, está escrito aqui que ele vai pagar em dinheiro.

Ela examinou com atenção o volume e perguntou o preço. Pagou e nosso ciclista retornou com o dinheiro.

Agora de manhã, Fulano nos liga indignado. Cadê o livro, pô? Me dá a maior mijada e eu tranquilo, pois o livro tinha sido entregue.

— Entregue pra quem?

Consulto o ciclista e respondo.

— Para uma moça. Não sabemos o nome.

— Mas eu não conheço ninguém no prédio! E todos os porteiros são homens!

— Bem, ela até pagou…

Fulano cai na risada.

— Acho que consegui uma venda pra vocês, mas, por favor, podem me trazer outro “De cu pra Lua”? Venham até a minha porta. Sou um cara alto, 1,90m, grisalho, uso óculos…

Já mandei. Espero que chegue.

Atrás do Balcão da Bamboletras (XXXV)

Atrás do Balcão da Bamboletras (XXXV)

A Elena, minha mulher, cuja língua materna é o russo e que é uma grande leitora, entra na livraria.

Eu gosto de vê-la entrando porque gosto dela e sei que ela se sente bem em meio aos livros.

Mas então Elena subitamente para e pergunta:

— Que livro de Tolstói é esse?

Olho para o livro. Trata-se de Ressurreição.

Então ela se dá conta. É que, em russo, a palavra Ressurreição é a mesma utilizada para Domingo. Sim, o dia da semana, e ela sempre dava ao livro a outra acepção da palavra.

Então, amanhã é Ressurreição. Do Inter, espero.

Lista dos livros mais vendidos na Livraria Bamboletras entre 01/dez/2020 e 10/jan/2021

1. E fomos ser gauche na vida, de Lelei Teixeira.
2. Os Supridores, de José Falero.
3. Torto Arado, de Itamar Vieira Junior.
4. Mulheres de Minha Alma, de Isabel Allende.
5. E foi assim que eu e a escuridão ficamos amigas, de Emicida.
6. O Avesso da Pele, de Jeferson Tenório.
7. Nós, mulheres, de Rosa Montero.
8. A Vida Mentirosa dos Adultos, de Elena Ferrante.
9. Máscaras da Tricolina (ok, não é livro, mas olha só, Cássia Zanon!).
10. O Beijo na Parede, de Jéferson Tenório.
11. 1935, de Rafael Guimaraens.
12. Pequeno Manual Antirracista, de Djamila Ribeiro.

Uma lista de respeito!

Atrás do Balcão da Bamboletras (XXXIII)

Atrás do Balcão da Bamboletras (XXXIII)

Liga uma senhora bem velhinha. Pela voz, é beeeem velhinha.

Eu faço minha impostação mais educada.

— O que a senhora deseja?

— Moço, eu estou sempre perdida no meio dos meus papéis. Graças aos céus hoje eu vi que tinha o IPTU com desconto para pagar. Último dia!

— Boa lembrança, a senhora me salvou. Tenho que pagar o meu também. Estou com o boleto, mas já ia me esquecendo dele — minto, pois já tinha pago o meu.

— O seguinte: o que me leva a lhe incomodar com este telefonema é que vi que tenho um cheque presente da Bamboletras. Ele deve ter uns 4 anos.

— 4 anos, Dona X ?

— Sim. E a minha pergunta é: o cheque presente de vocês CADUCA? — ela pergunta, colocando ênfase na último verbo.

— Não senhora, não caduca.

— Ai que alívio, moço! Quem terá me dado isto de presente?

Risadas.

— Escuta, vocês fazem entregas?

— Sim.

— Então me traz uma coisa boa como…

— Como quem?

— Como Philip Roth — ela me diz baixinho, como se fosse um segredo.

A Marca Humana já deve estar com ela neste momento.