Os cafés de Porto Alegre que não abrem pela manhã…

Não sei como é no resto do Brasil, mas os cafés de Porto Alegre não abrem de manhã cedo. Agora mesmo passei por um na Lima e Silva. Uma placa avisava que abriria às 12h.

Sábado, por volta das 8h30, ao caminhar pela Osvaldo Aranha, olhei para dentro da Lancheria do Parque. Estava lotada de pessoas tomando café. Até parei na calçada para olhar as torradas, o leite e o colorido dos sucos.

Não entendo.

AmaOspa x Amigo Ospa

Um dia, eu, uma de minhas ex — doravante referida como X. — e o Francisco Marshall fundamos a AmaOspa. A ideia era a de reativar a Associação de Amigos da orquestra.

Mas então nós nos separamos e… Não, eu não me separei do Marshall, me separei da ex. E bem, como eu ia dizendo, rapidinho minha ex casou com um músico da orquestra e eu com minha Elena, violinista da Ospa e meu primeiro amor.

Um dia, ela e o tal músico estavam conversando num intervalo e a Elena comentou:

— Eles fundaram a AmaOspa, mas cá pra nós, o Milton e a X. se puxaram demais, né?

.oOo.

E agora, pasmem, a ideia ressurgiu. Vejam o vídeo acima. Espero que não acabe em separação, mas em muitos amigos!

A história do Viaduto Otávio Rocha, o viaduto da Borges, com belas fotos

A história do Viaduto Otávio Rocha, o viaduto da Borges, com belas fotos

Bernardo Jardim Ribeiro (fotos)
Nubia Silveira e Milton Ribeiro (texto)
Flavia Boni Licht (consultora técnica)

Um dos cartões-postais de Porto Alegre, localizado no cruzamento da Borges de Medeiros com a Duque de Caxias, o exuberante Viaduto Otávio Rocha abriga lojas de discos, lancherias, sebos, ourives, sapataria, barbearia, lanchonetes, floras e artesanato sob seus arcos e escadarias. Não é um simples viaduto para a passagem de carros e pedestres, pois ele possui, em ambos os lados da avenida Borges de Medeiros, amplas escadarias de acesso até o nível do viaduto, sustentadas por grandes arcadas, sob as estão os pequenos estabelecimentos comerciais e instalações sanitárias que citamos.

É um local de visitação obrigatória para quem procura discos raros em nossa cidade. Ainda no âmbito cultural e ao lado das escadarias, há o lendário Teatro de Arena e teve o Tutti até pouco tempo.

2014.07.04 – Porto Alegre/RS/Brasil – Viaduto Otávio Rocha. Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21

Vitor Murari, do Movimento Amigos do Viaduto, relatou a preocupação do movimento em manter a identidade do local como um ponto de cultura. “Há sempre boatos de que a sistemática que regra a relação dos permissionários com a prefeitura vai mudar, mas atualmente nossa preocupação é mesmo com as infiltrações de umidade”, disse.

“Nós cobramos a manutenção da prefeitura, que é a responsável, mas isso muitas vezes demora”. Vitor trabalha no Espaço Cultural Qorpo Santo, sala 1 do Viaduto, onde comercializa CDs, discos, livros e gibis.

Em 19 de setembro de 2008, uma lei municipal determinou que o espaço público superior do Viaduto Otávio Rocha passasse a ser chamado de “Passeio das Quatro Estações”. Cada uma das quatro escadarias passou a ser identificada por placas com o nome das estações do ano:

— Passeio Verão – com início na Rua Jerônimo Coelho e fim na Rua Duque de Caxias, lado direito do Viaduto, no sentido norte-sul,

— Passeio Outono – com início na Rua Jerônimo Coelho e fim na Rua Duque de Caxias, lado esquerdo do Viaduto, no sentido norte-sul,

— Passeio Inverno – com início na Rua Duque de Caxias e fim na Rua Coronel Fernando Machado, lado direito do Viaduto, no sentido norte-sul,

— Passeio Primavera – com início na Rua Duque de Caxias e fim na Rua Coronel Fernando Machado, lado esquerdo do Viaduto, no sentido norte-sul.

2014.07.04 – Porto Alegre/RS/Brasil – Viaduto Otávio Rocha. Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21

História

O Viaduto Otávio Rocha foi inaugurado em 1932. As obras começaram em 1926, durante o mandato do intendente Otávio Rocha (1924-1928), apesar de já estarem previstas no Plano Diretor de 1914. A decisão de abrir a Avenida Borges de Medeiros, ligando o Centro à Zona Sul da cidade, e construir o Viaduto foi de Otávio Rocha e do presidente do Estado, Borges de Medeiros. Naquela época, o número de porto-alegrenses não ultrapassava os 200 mil.

O projeto é dos engenheiros Manoel Itaquy e Duílio Bernardi. Os elementos ornamentais foram criados pelo escultor Alfredo Adloff. A estrutura do Viaduto é de concreto armado, sendo que o vão central mede 19,20 m. “Por suas marcantes características arquitetônicas e urbanas, bem como pela sua relevância sócio-cultural, o Viaduto foi tombado como patrimônio de Porto Alegre em 1988”, afirma Flavia.

O ator Paulo José, que ajudou a criar o Teatro de Equipe e em 1961 trocou o Rio Grande do Sul pelos palcos paulistas, lembrou do Viaduto Otávio Rocha, no discurso feito em 1999, ao receber da Câmara Municipal o título de Cidadão Porto-Alegrense:

“A família vinha de Bagé, de carro, era noite, eu cochilava no banco traseiro. Acordei quando entrávamos na Avenida Borges de Medeiros, ao lado da Avenida Praia de Belas, e aí eu vi imponente, monumental, maior do que a Igreja Nossa Senhora Auxiliadora e a de São Sebastião juntas, mais alto do que a Ponte Seca, mais bonito do que a casa do meu avô, o Viaduto Otávio Rocha. Depois, pela vida afora, vi outros espaços monumentais impressionantes: a Piazza San Marco, Veneza, o Arco do Triunfo, o Coliseu de Roma, o Palácio de Westminster, mas nenhum deles me fez o coração disparar como aquela visão dos meus oito anos. O Viaduto Otávio Rocha foi o meu primeiro alumbramento.”

2014.07.04 – Porto Alegre/RS/Brasil – Viaduto Otávio Rocha. Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21

Lei do patrimônio

O presidente Getúlio Vargas e o ministro da Educação Gustavo Capanema assinaram em 25 de novembro de 1937 o Decreto Lei número 25, que organiza o patrimônio histórico nacional. A legislação define como patrimônio histórico e artístico nacional “o conjunto dos bens móveis e imóveis existentes no País e cuja conservação seja de interesse público, quer por sua vinculação a fatos memoráveis da história do Brasil, quer por seu excepcional valor arqueológico ou etnográfico, bibliográfico ou artístico”. Hoje, o tombamento de bens materiais imóveis (prédios) e móveis (mobiliário, obras de arte e elementos de uma construção como um lustre, por exemplo) e o registro de bens imateriais (festas, processos de criação, como o de rendas) ocorrem em quatro níveis: municipal, estadual, nacional e internacional, por meio da Unesco. Alguns bens têm sua importância reconhecida em todos ou quase todos os níveis. O Theatro São Pedro, de Porto Alegre, é um dos bens imóveis que estão tombados pela EPAHC – Equipe do Patrimônio Histórico e Cultural de Porto Alegre, IPHAE – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado do Rio Grande do Sul e IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

2014.07.04 – Porto Alegre/RS/Brasil – Viaduto Otávio Rocha. Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21

Débora Magalhães da Costa, diretora da EPAHC, lembra que “muito antigamente só bens excepcionais, grandes monumentos, eram considerados patrimônio histórico”. Hoje, diz ela, são enquadrados nesta categoria “bens que fazem parte da vida de uma comunidade, que representam uma comunidade, uma etnia”. Para reforçar esta ideia, tanto Débora quanto Ana Beltrani, coordenadora técnica do IPHAN, citam o tombamento de 48 casas de madeira da cidade de Antônio Prado, na Serra Gaúcha, que contam a história da imigração italiana, feito pelo Estado e a União.

O bem tombado, ressalta Eduardo Hahn, diretor do IPHAE, não “pode ser destruído ou descaracterizado”. Isso não significa que não possa sofrer algumas intervenções, quando necessário, desde que aprovadas pelo órgão responsável pelo tombamento. Débora dá um exemplo: a Casa Torelly, reconhecida como patrimônio histórico pela Prefeitura, em 1987, hoje sede da Secretaria Municipal de Cultura, precisou passar por algumas adaptações para o seu uso atual. “Tombamento – ressalta Eduardo – não é desapropriação. É reconhecimento”.

Responsabilidades e vantagens

O proprietário particular de um bem tombado ou registrado é responsável pela sua conservação, manutenção e recuperação. O Estado, porém, é corresponsável. E, segundo a lei, se o proprietário não tem condições de cuidar do patrimônio, ele deve abrir um processo, provando a sua situação financeira. Neste caso, os cuidados ficarão a cargo do governo municipal, estadual ou nacional.

2014.07.04 – Porto Alegre/RS/Brasil – Viaduto Otávio Rocha. Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21

No caso de ter um imóvel tombado pelo município de Porto Alegre, o proprietário pode escolher entre dois benefícios: solicitar o não pagamento do IPTU ou a transferência do índice potencial construtivo, o que lhe dá o direito de construir em outra parte da cidade o equivalente em metros quadrados que poderia ter construído no local tombado. Neste caso, o imóvel passa para a Prefeitura. Mas, como o município não tem interesse em ficar com os imóveis tombados, a Prefeitura retransmite o prédio para o proprietário por meio de um Termo de Cessão, afirma Débora.

Para as edificações privadas que estão na área de preservação do Programa Monumenta – em Porto Alegre, os arredores das praças da Alfândega e da Matriz — são oferecidos empréstimos a juros baixos para a conservação ou recuperação do local. Eduardo Hahn diz que no caso dos bens tombados pelo Estado, o que os proprietários podem ganhar é a isenção do IPTU, se a prefeitura do município concordar. É o caso dos proprietários das casas de Antônio Prado. O Estado também se propõe a investir por meio de renúncia fiscal, através da LIC – Lei de Incentivo à Cultura. Aí, é preciso ter paciência para fazer um projeto, apresentá-lo à Secretaria da Cultura e esperar pela aprovação.

2014.07.04 – Porto Alegre/RS/Brasil – Viaduto Otávio Rocha. Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21

Fiscalização

Este é um ponto sensível nos órgãos de patrimônio histórico. Todos se queixam de falta de estrutura para fazer uma fiscalização correta. Falta pessoal, faltam recursos, falta transporte. “A fiscalização é feita dentro do possível”, afirma Eduardo. “A equipe do Patrimônio Histórico é muito reduzida”. Ana Beltrani reconhece que nem sempre conseguem fiscalizar os bens tombados no interior do Estado. “Muitas vezes, por falta de carro”, diz.

Apesar da Lei de 1937 prever sanções e multas em réis, a moeda da época, Eduardo declara que atualmente “não há legislação que imponha multa ao proprietário que não cuidar do bem tombado”. Pode ser aberto um processo administrativo e, depois de muito tempo, ele ser condenado a fazer obras. Se provar que não tem recursos para isso, o Estado terá de fazê-las.

Mais fotos atuais:

2014.07.04 – Porto Alegre/RS/Brasil – Viaduto Otávio Rocha. Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21
2014.07.04 – Porto Alegre/RS/Brasil – Viaduto Otávio Rocha. Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21
2014.07.04 – Porto Alegre/RS/Brasil – Viaduto Otávio Rocha. Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21
2014.07.04 – Porto Alegre/RS/Brasil – Viaduto Otávio Rocha. Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21
2014.07.04 – Porto Alegre/RS/Brasil – Viaduto Otávio Rocha. Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21
2014.07.04 – Porto Alegre/RS/Brasil – Viaduto Otávio Rocha. Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21
2014.07.04 – Porto Alegre/RS/Brasil – Viaduto Otávio Rocha. Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21

Fotos históricas:

Otávio Rocha e Borges de Medeiros tomaram a decisão de abrir uma nova avenida l Foto: Fototeca Sioma Breitman, Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo
Em 1928, começava a nascer o Viaduto da Borges l Foto: Fototeca Sioma Breitman, Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo
A construção foi prevista pelo Plano Diretor de 1914 l Foto: Fototeca Sioma Breitman, Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo
O escultor Alfredo Adloff criou os ornamentos l Foto: Fototeca Sioma Breitman, Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo
Obra foi concluída em seis anos l Foto: Fototeca Sioma Breitman, Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo
Quando da construção do Viaduto, a população de Porto Alegre era de aproximadamente 200 mil habitantes l Foto: Fototeca Sioma Breitman, Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo
Foto: Fototeca Sioma Breitman, Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo
Foto: Fototeca Sioma Breitman, Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo
As obras começaram durante o mandato do intendente Otávio Rocha l Foto: Fototeca Sioma Breitman, Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo
Em 1932, a obra foi inaugurada l Foto: Fototeca Sioma Breitman, Museu de Porto Alegre Joaquim Felizard

Nega Lu – Uma Dama de Barba Malfeita ergue um brinde a uma das grandes figuras de Porto Alegre

Nega Lu – Uma Dama de Barba Malfeita ergue um brinde a uma das grandes figuras de Porto Alegre
A capa da edição da Libretos

Nega Lu – Uma Dama de Barba Malfeita é um livro de Paulo César Teixeira que reconstitui a trajetória de Luiz Airton Farias Bastos (1950/2005), homossexual negro que ganhou notoriedade na cena cultural e boêmia da capital gaúcha entre os anos 1970 e 90 como personagem irreverente e inovadora, capaz de antecipar algumas das conquistas sociais e comportamentais que só viriam a se consolidar na segunda década do século XXI.

A Nega Lu surgiu nos bancos escolares do Colégio Infante Dom Henrique, por volta de 1970, época em que Luiz Airton adota o codinome e assume publicamente sua homossexualidade. A despeito da condição de “preto, pobre e puto” (como se autodefinia, com amarga ironia), logo acha lugar na paisagem urbana ao frequentar com estilo espalhafatoso bares, vernissages, shows e concertos no Salão de Atos da UFRGS. “Aonde a gente ia, lá estava a Nega Lu”, escreveu a jornalista Tânia Carvalho. Nega Lu estudou na Aliança Francesa, aprendeu balé clássico com a russa Marina Fedossejeva, ex-bailarina do Kirov (atual Marinski, de São Petersburgo), radicada na capital gaúcha após fugir da Segunda Guerra Mundial.

Cada vez mais integrada à cena cultural, a Nega Lu se destacou nos anos 1970 como solista dos Corais da Ufrgs  e da Ospa. “Com essa voz, pode desmunhecar à vontade”, sentenciou o regente Nestor Wenholz ao aprová-la no teste vocal. O timbre grave e retumbante irá pontuar também, na década seguinte, suas performances desbocadas e dilacerantes como crooner da banda de blues Rabo de Galo.

Foto: Reprodução

Apesar disso, o palco mais apropriado ao estilo da Nega Lu sempre foi o balcão de fórmica do bar Copa 70, de onde ela puxava um coro de bêbados, marcando o ritmo com o estalar dos dedos, entoando clássicos do jazz, como Summertime, de George Gershwin, até o dia clarear. Nos anos 1990, participou das primeiras Paradas Livres promovidas pela militância gay na capital gaúcha, ao mesmo tempo em que trabalhava como garçonete do bar Doce Vício, um dos pontos mais concorridos do circuito LGBT da cidade.

Escrito a partir do depoimento de cerca de 70 pessoas, o livro aborda ainda as paixões platônicas, os romances arrebatadores e a ciranda de amores casuais da Nega Lu, além de recompor os hábitos e costumes das famílias do núcleo negro do Menino Deus, bairro em que Luiz Airton nasceu e sempre viveu. A obra agrega imagens do acervo pessoal do biografado e de ambientes artísticos e boêmios de seu tempo para oferecer ao leitor um panorama completo da trajetória desta personalidade alegre e anticonvencional, que se transformou em ícone afetivo de sucessivas gerações da capital gaúcha.

Conversei com Paulo César Teixeira, autor de Nega Lu – Uma Dama de Barba Malfeita. Paulo César é um especialista em reconstituir ambientes urbanos a partir de personagens que refletem as transformações globais e delas são protagonistas em âmbito local. Antes, Esquina Maldita, sobre o gueto boêmio de artistas, hippies e ativistas políticos de Porto Alegre nos anos 1960 e 1970, lançado pela Libretos em 2012. Publicou também Darcy Alves – Vida nas Cordas do Violão, biografia do violonista Darcy Alves (falecido em 2015), parceiro de Lupicínio Rodrigues.

Foto: Reprodução

Sul21 – Como é que surgiu a ideia de fazer o livro sobre a Nega Lu?

Paulo César Teixeira – Bom, primeiro eu a conhecia e, quando divulgava o Esquina Maldita e falava na Nega Lu era um frenesi, provocava uma reação muito grande. Ela era muito carismática, muito popular.

Sul21 – E onde tu a conheceste?

Paulo César Teixeira – Eu a conheci no apartamento de um amigo ali na Duque de Caxias no final dos anos 70. Ele estudava história na UFRGS, eu fazia jornalismo e em seu apartamento se reuniam muitos estudantes da UFRGS e o pessoal da esquina. Para mim, que tinha 17, 18 anos aquilo foi uma pós-graduação em contracultura. Uma dessas personagens, é claro, era a Nega Lu, que era amiga de infância dele. Mas nunca fui muito próximo dela, até porque havia uma diferença de idade.

INFÂNCIA Pg. 24

Nas tardes quentes de carnaval, as famílias abastadas do Menino Deus levantavam poeira das ruas com os filhos aboletados nos capôs dos automóveis. Até 1955 sem calçamento, a Rua Almirante Gonçalves fazia parte do roteiro seguido de perto pelos moradores das casas humildes. Estes, porém, faziam sua própria festa. Da Rua Barão de Teffé, desciam blocos humorísticos e tribos carnavalescas. Airton de Souza Bastos – pai da Nega Lu –, a quem os amigos apelidaram de Mondongo, por causa do beiço grande, empunhava a bandeira da tribo Os Bororós. “Dançava muito bem, não tinha pra ninguém!”, elogia Iracema. Excitado com a agitação, o menino preto – com sandálias de couro, camiseta e fralda plástica, tudo na cor branca – pulava de alegria na calçada ao ver o pai como um dos protagonistas da folia. Do portão, atenta, a mãe vigiava os passos agitados da criança junto aos dois pés de cinamomo que enfeitavam a frente da casa. Lá pelas tantas, animava-se a enroscar serpentinas junto à cintura e em torno da cabecinha do pequeno. Pronto: estava completa a primeira fantasia da Nega Lu!

Sul21 – Ela morava no Menino Deus, não? A fama da Nega Lu começou no bairro?

Paulo César Teixeira – Ela nasceu e morreu na mesma casa, numa rua atrás do supermercado Nacional. Tudo começou lá. Então o livro não é apenas sobre a figura folclórica da bicha louca dos anos 70. Ela encarnava isso, incorporava isso e até alimentava isso. Mas eu queria ver a pessoa por trás. Por exemplo, ninguém conhecia a família dela. Sabiam que ela morava com a avó, que, aliás, passou sua vida morando com a avó, mas ninguém sabia quem era o pai, a mãe, os irmãos. Ela teve uma irmã de leite, que era vizinha de porta e que era filha de um cara importante do Carnaval de Porto Alegre, o Rubem Santos. E essa senhora, a irmã de leite, gosta de escrever, escreve poesia. E a filha dela, Marguerite, que é cantora, me mandou um e-mail uma vez: “Olha, se tu quiser fazer um livro da Nega Lu, fala com a minha mãe, ela pode te ajudar”. Essa foi minha pista.

Foto: Reprodução

Sul21 — Foi tua principal fonte para os anos de formação da Nega Lu?

Paulo César Teixeira – Sim. Essa senhora me escreveu um depoimento numa folha de almaço, escrita a mão, uma coisa linda, onda contava um monte de histórias de infância da Nega Lu. Quem era o pai, a mãe, onde morava, o que fazia quando era criança, na adolescência, nas reuniões dançantes, quando assumiu a homossexualidade. E essa senhora… irmã de leite por quê? Porque a mãe da Nega Lu, que morreu jovem de tuberculose, era uma pessoa doente, não tinha leite. Aí eu entrevistei essa senhora, a mãe de leite da Nega Lu. O livro começa contextualizando o núcleo negro do Menino Deus. Hoje, se a gente fala no bairro Menino Deus, tem uma ideia de um bairro de classe média. E lá existiu e ainda existe um núcleo de famílias negras de descendentes de escravos que se estabeleceram ali. Tem muita macumba, muito carnaval de rua, tudo isso da influência negra. Através dessa senhora, puxo a primeira parte do livro sobre os hábitos e costumes das famílias negras do Menino Deus e de onde surgiu a Nega Lu.

NA ESCOLA Pg. 41

Embora os relatos deem conta de que Luiz Airton não parecia se ofender com as brincadeiras dos colegas a respeito de seu jeito afeminado – “Ele sabia levar as situações com inteligência e respondia sempre com bom humor”, afirma, por exemplo, a professora Beatriz Figueiredo, de Biologia –, é provável que, intimamente, não fosse assim. Ao Jornal do Nuances, ele deixa evidente que, embora não reagisse, sentia-se incomodado:

Na escola, era muita repressão. A gurizada me chamava de marreca, margarida, mulherzinha e por aí afora. Eu não gostava nada, mas no meu tempo de infância não reagia às provocações.

Sul21 – Onde é que ela estudou?

Paulo César Teixeira – Ela estudou num grupo escolar, o Emílio Massot, e aí foi para o Presidente Roosevelt. Depois estudou no Infante Dom Henrique, que era nos fundos do Presidente Roosevelt. A maioria das pessoas fazia o primário no Roosevelt e o ginásio no Infante. Conheci vários colegas da Nega Lu, gente que conviveu com ela. Foi deste modo que eu consegui o perfil dela como estudante.

Sul21 – E ela já era estigmatizada?

Paulo César Teixeira – Eu entrevistei colegas, professores e a diretora. Todos dizem que ele dava a volta por cima. Tenho certeza que era uma figura querida. Então, quando foi para o curso clássico [correspondente ao Ensino Médio, só que voltado às Ciências Humanas], ele assumiu a homossexualidade e mais, assumiu o codinome de Nega Lu. Há uma entrevista dele, para o jornal Nuances nos anos 90, onde ele conta um pouco do colégio.

Foto: Reprodução

Sul21 — Ele participava de festivais de música, não?

Paulo César Teixeira – Sim, ele começou a participar dos festivais de música, porque cantava bem e estávamos bem naquela época dos festivais da Record. Os festivais estavam na moda, cada colégio tinha o seu e os vencedores disputavam uma final no Araújo Vianna. Ele se destacava. O Zé Flávio, dos Almondegas, por exemplo, conheceu a Nega Lu como cantor. Ele cantava mesmo, dava recitais à capela no pátio do colégio, durante o recreio. E vai para a noite, para a esquina maldita e transforma-se numa pessoa conhecida da cidade.

Sul21 – E ele vivia como? Como se sustentava?

Paulo César Teixeira – Bom, ele sempre viveu de biscates. A avó dele sempre segurou tudo. Segurou sempre. Eles não eram miseráveis, mas eram de uma classe média baixa. Os homens da família faziam serviços hidráulicos, o ofício passava de pai para filho. Mas ele era diferenciado. Não sei como, ele estudou francês na Aliança Francesa. Pesquisei na instituição e não existe nenhum registro dele, mas várias pessoas confirmam que ele estudou lá e falava francês muito bem. Uma hipótese é que ele teria estudado como aluno ouvinte. Outra possibilidade, é que o Tatata Pimentel o tenha auxiliado. Tatata era professor do Infante e grande amigo da Nega Lu. Ele (ou ela) tinha a noção de que, por ser negro e pobre, precisava ter cultura, conhecimento, bagagem para poder ser alguém na vida. Ele ensinou isso aos sobrinhos, filhos da irmã dele. Um deles me disse que ele ensinava que ‘’a gente mora num bairro de playboy, então, pra tu não ser rebaixado por eles, tem que aprender política, tu tem que saber música, tu tem que saber o que responder”. Ele aplicava isso para ele mesmo, tanto é que aprende francês.

PROFESSOR TATATA Pg. 41

A Nega Lu não era a única figura que escapava furtivamente ao padrão convencional de masculinidade no Infante Dom Henrique. O professor de francês e inglês Roberto Valfredo Bicca Pimentel, o Tatata Pimentel (falecido em 2012), desfilava no areal do pátio com casacos de cor lilás, antecipando o estilo irreverente com que logo se tornaria conhecido do público como apresentador de televisão. Quem sabe encorajado pelo exemplo de Tatata – nos anos seguintes, eles se tornariam amigos, frequentando juntos redutos da comunidade gay como a boate Flower’s –, Luiz Airton decidiu assumir publicamente sua homossexualidade na escola.

Sul21 — E os biscates?

Paulo César Teixeira – Ela só teve dois empregos com carteira em toda vida. O primeiro deles como cantora de coral. Ela ficou uns oito anos no coral, até o final dos anos 70, e aquilo era uma grana importante para ela, de pouco mais que um salário mínimo. Ao mesmo tempo, ela foi estudar balé clássico com a Marina Fedossejeva. Tem até fotos com ele bem esbelto, dançando. A Marina não cobrava o curso de homens que fossem dançar com ela. Naquela época, o preconceito era muito grande, então ela não cobrava porque precisava deles. As escolas de dança de Porto Alegre disputavam a tapa os homens, porque havia poucos. A turma da Marina fazia espetáculos todo final de ano no Salão de Atos da UFRGS e a Nega Lu participou de alguns deles, mas alguns alunos e ex-colegas me disseram que a russa era racista e tinha uma má vontade muito grande com a Nega. Só o aguentava porque precisava. Outros dizem que não, que ela não era assim. Mas por que a Nega Lu não seguiu carreira no balé clássico se dizem que ela era maravilhosa, que dançava muito bem? Bem, nesta questão ela se dizia uma vítima do racismo.

Foto: Reprodução

TESTE VOCAL Pg. 83

Em março de 1971, Luiz Airton compareceu ao Instituto de Artes, local de testes e ensaios do Coral da UFRGS. Quando o viram chegar, alguns rapazes se dirigiram ao regente Nestor Wennholz:

Maestro, tem um sujeito aí que deseja cantar com a gente, mas é muito desmunhecado, vai ser um desastre, disse o porta-voz dos incomodados.

Deixa comigo, vou fazer um teste bem difícil, respondeu Nestor, achando graça da situação.

Inesperadamente, o rapaz afeminado saiu-se muito bem ao repetir os sons mais graves do piano. Em seguida, o maestro acelerou a melodia para que ele reprisasse as frases musicais, o que o candidato fez com precisão e desenvoltura. “Agora, vou fazer o teste final”, anunciou Nestor. E largou a nota mais aguda de tenor, que a Nega Lu ricocheteou com naturalidade. O regente virou-se para os moços que antes haviam feito troça e agora, boquiabertos, espiavam pela porta entreaberta da sala:

Aprovado. Com essa voz, pode desmunhecar à vontade.

Foto: Reprodução

Sul21 — E tinha a bebida.

Paulo César Teixeira – Certamente, quem conhecia a Nega Lu sabia que ela bebia muito, não tinha cuidado com o corpo. Ela ficava bebendo até 5 da manhã. Como é que ia ter físico para dançar balé? Então, nos anos, 70 é isso. Ela era bailarina, cantora de coral e frequenta a Esquina Maldita. Nos anos 80, quando acaba o coral, ela vai ser cantora de blues numa banda chamada O Rabo de Galo. E, durante três anos, foi a estrela da banda e fez horrores. Brigava, apaixonou-se por um músico e queria casar com ele. Se ela não gostava de alguém na plateia, xingava. Era uma pessoa difícil e adorável, que não se ajudava. Depois do Rabo de Galo, ela vai dar aulas de dança e etiqueta na escola do Carlos La Porta, que é outro capítulo do livro. Ele se diz o primeiro manequim masculino no Rio Grande do Sul. Desfilou com a Yeda Maria Vargas, foi galã de rádio teatro na Farroupilha. Depois foi pra São Paulo, trabalhou numas novelas da TV Tupi e voltou pra Porto Alegre a fim de fundar uma escola de modelos aqui na Rua da Praia.

BALCÃO DE FÓRMICA Pg. 50

Certa vez, a Nega Lu beijou a boca de um namorado dentro do Alaska, o que enfureceu o dono do bar, Alfredo Ribeiro, habitualmente um sujeito calmo, que mal saía de trás do caixa, mas que naquela noite apanhou a garrafa de cerveja mais próxima com a intenção de estourá-la na cabeça de Luiz Airton. Foi impedido pela esposa Diaci: “Tu vais estragar a tua vida por causa deste louco?”. Após o incidente, a Nega Lu evitou botar os pés no Alaska durante algum tempo. Em contrapartida, no Copa 70, ela se sentia em casa, principalmente depois que o proprietário Carlos Rocha abaixava a cortina de metal, por volta de três horas da madrugada. Ela, então, subia no balcão de fórmica para cantar Summertime, clássico de George Gershwin, carro-chefe do repertório que improvisava para fãs e clientes retardatários até quase o nascer do sol.

Sul21 — Aulas de etiqueta?

Paulo César Teixeira – Sim, o La Porta convidou a Nega Lu para ser professora de dança e boas maneiras. Eu entrevistei uma aluna dele e ela me disse que ele ensinava como comer, como cruzar as pernas, etc. Ele ficou lá de 80 a 98, até fechar a escola. Mas sem carteira assinada. Sobrevivia desta forma. Depois que ele sai do La Porta, vem a última fase profissional dele, que é como garçonete do Doce Vício, um bar GLS que tinha ali perto do Colégio Militar, na Vieira de Castro, onde hoje tem um pub. Ela era garçonete, atendia no balcão, era barman, e porteira… É o segundo emprego dela com carteira assinada. Mas aí começam os problemas de saúde.

Foto: Reprodução

A DANÇA DA DEGOLA Pg. 152

Habituada a exibir seus dotes artísticos, a Nega Lu protagonizou uma das cenas mais hilárias do Doce Vício ao subir numa mesa para oferecer à plateia um show particular de dança. Ela própria contou depois aos amigos o que se sucedeu:

Gente, as pessoas gritavam “Lu! Lu! Lu!”. Eu achei que estava arrasando. Lá pelas tantas, me dei conta de que gritavam para me avisar que a pá do ventilador de teto estava quase me degolando.

Sul21 – Como é que ela se vestia?

Paulo César Teixeira – Ela se vestia como homem. Bem, na banda da Saldanha se vestia de mulher. Mas normalmente se vestia como homem. No Doce Vício, ela começa a dormir sentada. É demitida. O final é triste. A avó morre e ela passa a pedir dinheiro emprestado para comprar remédios. Vira batuqueira. Muito dizem que era uma forma de ganhar um dinheiro. Era cardíaca e obesa. Outros dizem que morreu de aids. Sua irmã me deu o telefone do médico dela. Fui falar com o cara, um infectologista, especialista em aids. Recebi toda a ficha médica. A causa mortis foi um edema agudo do pulmão, mas o médico afirmou que foi por consequência de problemas cardíacos. Ela mal conseguia andar. Porém, quando foi internada por causa do coração, fizeram o exame de HIV e deu negativo. E ela andava pelo corredor da Santa Casa dizendo aos conhecidos que ‘’Quem dá por amor não pega aids’’.

Foto: Reprodução

Sul21 — E os amores?

Paulo César Teixeira — Ele era um cara extremamente volúvel, um caçador noturno. Teve amores platônicos. Ele era apaixonadíssimo pelo Leo Ferlauto, depois pelo Careca da Silva. Mas nunca chegou a morar junto com ninguém, sempre morou com a avó. Ele namorava um alemão que era um agrônomo. Ele queria levar a Nega Lu para a Alemanha e ela não quis por causa da vó, que já estava velha. Também foi convidada a morar no Rio de Janeiro nos anos 80, tinha acertado um teste numa escola de balé, mas também desistiu por causa da avó.

PÚBERES RAPAZES Pg. 125

Nunca pairou dúvida de que Luiz Airton fosse um homossexual absolutamente convicto – “Você nasceu no corpo errado”, disse-lhe uma amiga de infância, e ele acreditou piamente –, mas essa constatação não diminui a complexidade da questão. Mary Mezzari assegura que a Nega Lu também se relacionou com mulheres: “Apesar de ser bicha mesmo, não bissexual, a Nega iniciou sexualmente muita gente, inclusive algumas garotas. Mas, naquela época, na hora do pega pra capar, rolava qualquer negócio”. Outro mito a ser desfeito é o de que, nas relações sexuais com homens, exercia um papel exclusivamente passivo. “As pessoas se enganavam com ela. Na hora do sexo, era muito ativa”, comenta Lucrécia. Uma das lendas que a cercam – citada por Lineu Cotrim – dá conta de que, imediatamente após desvirginar púberes rapazes, ela ritualisticamente soltava o bordão:

Vai, agora és mulher!

A Biblioteca Pública volta ao lar: “Vamos resgatar o público que perdemos e muito mais”, diz diretora

A Biblioteca Pública volta ao lar: “Vamos resgatar o público que perdemos e muito mais”, diz diretora

Publicado em 20 de dezembro de 2015 no Sul21

Na tarde da última segunda-feira (14), a Biblioteca Pública do Estado do Rio Grande do Sul foi devolvida à população. Antes, pela manhã, conversamos longamente com sua diretora Morganah Marcon. O clima era de entusiasmo. Afinal, os funcionários e os livros estavam finalmente voltando para a bela casa cuja construção começou em 1912 e aberta ao público no formato atual em 1922. Há 93 anos, portanto. Ela ainda não está 100% pronta, mas já é perfeitamente habitável para eles e mais 250 mil volumes.

É um dos prédios mais bonitos do RS. Há mármores, parquês e mobiliário requintado, além de pinturas e esculturas. O revestimento das paredes internas tem pinturas decorativas. Quando foi inaugurada em 1922, a imprensa da época saudou o prédio como “do mais alto gabarito e elegância”. Quem entrar hoje na renovada Biblioteca não terá dúvidas disso.

A Biblioteca nunca deixou de funcionar, mas o prédio principal, na esquina da Riachuelo com a Ladeira, estava fechado ao público desde 2008.

Morganah Marcon falou-nos sobre a história, as várias funções e os problemas da instituição que começou sua vida em 1871, através da Lei Provincial nº 724, que autorizou o gasto de até oito contos de réis para aquisição de livros, ao mesmo tempo que criou um cargo de bibliotecário e outro de contínuo.

A querida Biblioteca já teve 40 funcionários, hoje conta com apenas 18.  Mas não pensem que eles não têm grandes planos. “Somos um lugar de formação de memória, de disseminação do que é produzido”. 

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14/12/2015 – PORTO ALEGRE, RS, BRASIL – Coordenadora da Biblioteca Pública, Morgana Marcon, fala sobre a e reabertura ao público novamente | Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Sul21 – Tu és diretora da Biblioteca Pública desde 2003. Quando entraste, trabalhavas neste prédio. Quais eram as condições?

Morganah – Sim, eu assumi por convite de Roque Jacoby, Secretário de Cultura na época. O prédio tinha as aberturas, os pisos e os entrepisos bastante comprometidos. Havia também muitos vidros quebrados, outros estavam fora do padrão, enfim, tinha coisas inaceitáveis em um prédio histórico. Também os ornamentos da fachada corriam o risco de cair na calçada. Era um prédio de 1912 que exigia uma grande reforma, um restauro e os recursos disponíveis eram muito pequenos, em torno de R$ 465 mil reais, viabilizado pelo Projeto Monumenta. Não dava para fazer grande coisa, só o mais urgente. Isso foi entre 2006 e 2007, até nem houve a necessidade de sairmos do prédio. Porém, nesse meio tempo, nós montamos um projeto da Lei Rouanet, um projeto na época orçado em R$ 14 milhões e que incluía tudo, inclusive o restauro das pinturas murais. Deste projeto, nós conseguimos captar, em 2008, com o BNDES, R$ 2 milhões e 556 mil. E fizemos algo fundamental, que era a substituição dos entrepisos de madeira. Sob o piso de parquê tinham tábuas e estas estavam comprometidas. Elas pesavam como papel, cheia de cupins. O entrepiso foi substituído por um painel wall, que é um material que não pega cupim e que deve durar o resto da vida. Os parquês originais foram restaurados com um aproveitamento de 99%. Isso foi feito em todo o prédio, com exceção de duas salas.

Sul21 – Vocês ficaram quanto tempo fora daqui?

Morganah – Sete anos, desde 2008. No final de 2007, nós tivemos que sair, lá por outubro ou novembro, porque iam ter que mexer num dos pisos lá embaixo. Então nós saímos para a Casa de Cultura Mario Quintana.

Sul21 – E como é que sobrevive uma biblioteca fora da biblioteca?

Morganah – Foi difícil, foi muito difícil, porque tu perdes um pouco tua identidade, tu perdes a referência. É uma instituição dentro de outra instituição e esse monte de prédios públicos estaduais não tem condições de abrigar uma biblioteca. Ou requer um reforço estrutural muito grande, com investimento de vulto, ou é muito pequeno. Eu vasculhei todos os prédios do estado disponíveis. Todos os setores, mas não todo o acervo, foi para a CCMQ. Na época, ela tinha alguns espaços pouco utilizados. Ao longo desse tempo, nós fizemos outros projetos também, fizemos a higienização do acervo de obras raras, por exemplo. Enfim, a biblioteca sobrevive assim, porque entra governo e sai governo, as verbas para cultura sempre são escassas. Quando abre edital, a gente manda projeto.

14/12/2015 – PORTO ALEGRE, RS, BRASIL – Coordenadora da Biblioteca Pública, Morgana Marcon, fala sobre a e reabertura ao público novamente | Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Sul21 – Para muita gente, a Biblioteca Pública tinha fechado para sempre.

Morganah – Pois é, mas nós nunca estivemos fechados. Esses dias eu quase dei um beijo num rapaz ali na ferragem… É uma empresa familiar. Eu fui comprar umas lâmpadas e estavam presentes o pai, a mãe e o filho. Eu falei que era diretora da biblioteca, que a gente estava reabrindo e a mãe disse: ‘Ah, a biblioteca estava fechada’’, aí o filho disse ‘Não, a biblioteca nunca esteve fechada’. Aí eu pensei: meu Deus, é a primeira pessoa que eu falo e que tem essa interpretação, que é a correta. Nós nunca fechamos. Nós levamos os serviços todos, o setor de empréstimo de livros, toda a parte de pesquisa no acervo geral, no setor do Rio Grande do Sul, levamos o setor Braille, o acesso à internet gratuito, levamos tudo para a CCMQ.

Sul21 – Já disponibilizavam internet antes de sair?

Morganah – Sim, antes de sair. É algo bastante procurado. Temos Wi-Fi agora, que é uma novidade. Nós levamos todos os setores para a CCMQ. O que nós não levamos foi todo o acervo. Do acervo do RS levamos uma pequena parte, porque ele é muito grande, e deixamos o restante nas estantes aqui, organizados. Então, quando havia a necessidade de um livro que estava aqui, a gente vinha buscar para o pesquisador examinar na CCMQ. Por todo este período, nós nunca deixamos nossos leitores desatendidos. Mas a maioria ficou com essa impressão: a de que a biblioteca estava fechada esse tempo todo. Eu perdi a conta de quantas entrevistas eu dei para rádios, TVs e jornais avisando que nós estávamos na Casa de Cultura Mario Quintana. Eu chego à conclusão que as pessoas não leem, ou só leem o que querem, porque não houve falta de informação. Claro, a biblioteca perdeu visibilidade, é diferente de estar nesse prédio belíssimo, com menos lugares para pesquisar. O público com deficiência visual caiu bastante. Eles talvez não enxerguem a beleza do prédio, mas eles sabem, têm o tato e viviam perguntando: ‘Quando é que vai voltar a biblioteca pra lá?’. Para tu veres a sensação de pertencimento que as pessoas têm por este prédio, por este espaço. Hoje, está tudo aqui novamente.

Sul21 – Quais são os serviços da biblioteca?

Morganah – Além do empréstimo de livros para pesquisa no local, a gente tem também o acervo de pesquisa de documentação do Rio Grande do Sul. A Biblioteca Pública do estado tem a função de ser a guardiã, de preservar e disseminar a memória de tudo o que é produzido no estado do Rio Grande do Sul. A literatura gaúcha, a história, a geografia, tudo deve ficar aqui. Nós temos, por exemplo, documentos de governo, temos a função de preservar e muitos pesquisadores, historiadores e escritores utilizam nossa documentação pra compor suas teses e seus romances históricos. É um acervo de grande porte e com bastante valor sobre o estado do Rio Grande do Sul.

14/12/2015 – PORTO ALEGRE, RS, BRASIL – Coordenadora da Biblioteca Pública, Morgana Marcon, fala sobre a e reabertura ao público novamente | Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Sul21 – A produção literária atual vem para cá de alguma forma?

Morganah – Nem tudo. Nós temos a Lei Estadual do Livro, que foi regulamentada em 2003, que obriga as editoras gaúchas a mandarem pelo menos um exemplar do que é publicado, mas quem cumpre realmente são as editoras universitárias e as pequenas editoras. Nós temos também um serviço que a gente oferece e que é cobrado via associação de amigos: a elaboração da ficha catalográfica dos livros. Para algumas editoras, a gente faz de graça e em troca ela nos dá os livros, dois exemplares. Nós também assessoramos a questão do direito autoral, pois não temos escritório de direitos autorais aqui no RS, mas damos toda a orientação sobre como registrar o direito autoral de uma obra. A equipe é pequena, mas a gente se vira.

Sul21 – E as doações?

Morganah – Sim, a gente recebe muitas doações. Claro, no meio dessas doações vem aquilo que não serve… Alguns acham que qualquer coisa dá pra mandar para a Biblioteca. Às vezes é uma Enciclopédia Barsa que o pai tinha na década de 80. Bem, sinto muito, mas o material está desatualizado, então a gente agradece… Mas nas doações vêm muito material precioso, raro. Só com doações, já conseguimos triplicar o número de obras raras. Visitamos as bibliotecas particulares que as pessoas desejam doar e avaliamos. A gente conseguiu muita coisa boa para o setor de obras raras, principalmente de autores gaúchos, primeiras edições fantásticas.

Sul21 – Qual é o tamanho do acervo aqui na Biblioteca?

Morganah – Juntando todas as obras, temos 250 mil livros. De obras raras temos 1.100 títulos já catalogados, mas já vai virar 3.000, contando com o que está sendo catalogado. As obras raras não saem daqui, as pesquisas são locais e usa-se luvas. A parte do Rio Grande do Sul também não sai, porque pode se perder algo. Agora, o público e os pesquisadores poderão entrar e usar o acervo geral para pesquisar com orientação de um funcionário. Antes, quando a gente saiu, o acervo ficava no segundo andar, então o usuário pedia o livro lá embaixo, o funcionário encontrava no catálogo, manualmente, e o livro descia pelo elevador. Ou seja, o usuário não circulava nas estantes e isso é ruim, porque tem muito livro que nunca foi aberto por ninguém. Caminhando pelas estantes, tu podes ver outros títulos que te interessam. No meu entendimento, a biblioteca não serve se não chegar ao seu leitor, então a ideia é abrir o acervo, ao mesmo tempo que o preservamos.

Sul21 – Um acervo que é sempre crescente.

Morganah – O acervo cresceu muito. São muitas doações. A gente tem um público com grande carinho pela biblioteca. Há um pessoal fantástico que compra os livros, lê e traz pra biblioteca, então nós temos obras recentíssimas, que o estado não compra. A última vez que compramos foi em 2006 e dentro daquele limite que não exige licitação. Na época, o estado não pagava os fornecedores em dia e chegamos a fazer um pregão, só que ninguém se apresentou… Aí eu fui me queixar com o presidente da Câmara Rio-grandense do Livro e com o clube dos editores. Eles me disseram que o problema era o estado estava demorando mais de um ano para pagar e ninguém queria esperar todo esse tempo. Eu já passei por vários governos e nunca a cultura foi prioridade. Então sobrevivemos de doações particulares. A Associação de Amigos também compra alguma coisa, principalmente os livros de leitura obrigatória para o Vestibular.

14/12/2015 – PORTO ALEGRE, RS, BRASIL – Coordenadora da Biblioteca Pública, Morgana Marcon, fala sobre a e reabertura ao público novamente | Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Sul21 – Algum autor vem aqui entregar?

Morganah – Sim, alguns sim, mas normalmente é a gente que tem de correr atrás. Muitos querem só vender, mas outros têm reconhecimento pela biblioteca e trazem suas obras.

Sul21 – O ex-secretário Assis Brasil me deu a informação de que a biblioteca teria sido o último prédio público construído para cultura no estado, mas acho que foi o Araújo Vianna em 1964. De qualquer maneira, se 1912 ou 1964, é muito tempo.

Morganah – É triste ver isso. Eu sou funcionária estadual há 23 anos, vou fazer 13 aqui na biblioteca, então já passei vários governos.

Sul21 – Como entraste no Estado?

Morganah – Como concursada. Fiz o concurso ainda sem me formar, porque não era exigida formação em Biblioteconomia, mas até que fui bem classificada. Então fui para uma biblioteca de bairro. Fiquei lá até 95, quando fui para a Biblioteca Pública.

Sul21 – Qual é o tamanho da equipe da BP?

Morganah – Hoje eu tenho umas 18 pessoas. Quando assumi a direção em 2003, éramos 40. As pessoas vão se aposentando e não são repostas. Tem gente que quer vir trabalhar de bibliotecário, mas só viriam se tivessem função gratificada e a secretaria não tem como disponibilizar.

Sul21 – Quais são as funções do pessoal que trabalha aqui?

Morganah – São cinco setores que atendem o público, dez horas por dia, das 9 às 19h, de segunda à sexta e no sábado das 14 às 18h. Então eu preciso de pelo menos duas pessoas por setor, todos os dias. Esses setores são o multimeios, o braille, a referência, que é a pesquisa no local, o setor do RS e o de empréstimo de livros. Esses atendem o público 10h por dia. Como o funcionário não tem carga de 10h por dia, eu tenho que revezar. Dividimos os horários. Alguns entram cedo e saem às 15h, outros entram às 12h e ficam até as 19h. O horário de 12h é complicado, porque há o almoço. É pouquíssima gente mesmo e bibliotecários então nem se fala: nós somos três. Eu na administração e cuidando de tudo, sistema e biblioteca, duas catalogando e uma voluntária, uma eterna voluntária bibliotecária que eu tenho, graças a Deus, e que é aposentada da UFRGS. Ela nos ajuda muito. Mas é uma equipe reduzida. O acervo cresceu muito, nós fomos para lá com 40 mil livros e voltamos com 60 mil. Conclusão: tenho um acervo de quase 20 mil livros encaixotados que estamos lutando para catalogar. Porque catalogar não é só botar o título, tem que analisar a obra, determinar o assunto. É um trabalho moroso, que tem que ser feito por técnicos e nós não temos técnicos em número suficiente. Eu tenho dois historiadores no setor do RS e duas estagiárias de história. Estagiários nós temos quatro: dois de história e dois de biblioteconomia. São poucos também.

14/12/2015 – PORTO ALEGRE, RS, BRASIL – Biblioteca Pública recebe restauração e abre ao público novamente | Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Sul21 – E há os eventos.

Morganah – Eventos e também parcerias. Eu trouxe para cá o Clube de Leitura, que é quinzenal, e os recitais da Escola da Ospa. O Clube de Leitura são encontros quinzenais onde se discute literatura. Por exemplo, a cada segundo semestre nós damos prioridade para as obras do vestibular, vem muito estudante que precisa saber delas. Há os saraus do braille, etc. Há também apresentações musicais e as palestras no Salão Mourisco. Tudo isso é serviço, ma nada disso traz dinheiro. O que traz um dinheirinho é uma locação através da Associação de Amigos para alguma filmagem, algum comercial. Até a reforma dos banheiros e o Wi-Fi quem pagou foi a Associação de Amigos, com recursos que conseguimos através da gravação de um comercial e de parte de um filme. Claro, sempre um ou dois funcionários acompanham, não se pode arrastar nada, não pode encostar nada na parede, não pode pendurar nada, não pode beber, não pode fazer refeição. Nós estamos num prédio que deve ser preservado.

Sul21 – A Associação de Amigos, como é que funciona?

Morganah – Ela não é tão forte como a do Theatro São Pedro ou a do Margs. O associado paga uma anuidade de R$ 60. Agora poderemos dar um retorno melhor para os associados, inclusive no uso do Salão Mourisco, que pode ser utilizado mediante agendamento. Nós temos uns 60 pagantes, menos até. No ano passado fizemos uma campanha, mas ainda são poucos, bem poucos. A gente fatura alguma coisa através das fichas catalográficas, pelas quais cobramos R$ 30, bem abaixo do preço de mercado. Temos também a taxa de empréstimo anual de R$ 5 de cada sócio, para retirar livros. No multimeios, se o usuário quiser imprimir alguma coisa, cobramos centavos pela impressão, não pelo uso. O uso é gratuito. São vários produtos que geram alguma entrada de dinheiro para a Associação e que reverte para a biblioteca. E as locações que eventualmente acontecem. Nós recebemos recentemente uma escola de música. Locamos o espaço por R$ 200, o que também não é uma fortuna.

Sul21 – O que não está pronto ainda?

Morganah – O restauro da pintura mural é um projeto à parte, é um projeto caro e demorado. Orçaremos com especialistas. Isso é um projeto à parte, é uma coisa que eu acredito que vá demorar uns quinze anos e que será feito com a Biblioteca em funcionamento. Isola uma parede, trabalha ali, depois vai para outra e assim por diante. Além disso, o que falta fazer ainda: o restauro da fachada interna, que não foi feito, e a climatização. As esperas estão prontas, mas temos que adquirir os equipamentos e esse prédio precisa ser climatizado, porque tem muita poeira, muita poluição dos veículos que trafegam ao redor, o que prejudica o acervo. E está pendente a acessibilidade. Nós temos um elevador que dá acesso às pessoas de idade, mas onde não cabe uma cadeira de rodas. Então precisamos de um elevador para cadeirantes. Tudo vai bater lá pelos 8 milhões, que é o que nos falta. Precisamos também de segurança para o acervo, do restauro dos ornamentos, das escadarias, das colunas de mármore e do mobiliário. Há partes do mobiliário que foram comprometidas pelos cupins. O mobiliário precisa ser restaurado. Mas os ornamentos das cadeiras estão todos recuperados, são detalhes caros. E a infraestrutura está toda OK, não há problema de umidade nem de infiltração, o cabeamento idem. A sustentação dos tetos também. Havia problemas graves neste aspecto, como disse antes.

Sul21 – Eu dei uma olhada no site de vocês e ele fala em anexo.

Morganah – Não, o anexo era uma proposta do governo anterior, que era esse prédio da Andrade Neves, onde os Lanceiros Negros estão. Eu tinha conseguido o prédio com recursos do governo federal, mais R$2 milhões e 600 mil de contrapartida do estado. Assim, criaríamos esse anexo. Era o nosso sonho, só que essas coisas de governo…

14/12/2015 – PORTO ALEGRE, RS, BRASIL – Biblioteca Pública recebe restauração e abre ao público novamente | Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Sul21 – Qual é a importância da Biblioteca Pública para o estado?

Morganah – Bom, em primeiro lugar não existe prédio mais belo aqui na cidade, com detalhamento de pinturas, de murais, de mobiliário. É também é um dos templos positivistas de Porto Alegre. Além disto, somos um lugar de formação de memória, de disseminação do que é produzido no estado. Mas eu acho que o mais importante é que as pessoas têm enorme carinho por esse prédio. Todo mundo diz ‘’Ah, que bom que a biblioteca voltou’’. Os funcionários estão radiantes. A gente carregava caixas pesadas neste calor de verão, suava e não se importava. Eu ouço o pessoal daqui dizer “Ah, eu não me importo, eu tô voltando pra casa’’. Aqui é um prédio que, além da história do RS, oferece o acesso à informação, o acesso ao livro gratuitamente. É a maior do estado, a mais representativa, então tínhamos que estar de volta para o nosso público. E eu tenho certeza que, agora, com o retorno, nós vamos resgatar todo aquele público que perdemos com nossa saída e muito mais. A gente espera que as pessoas se apropriem desse espaço, para que ele se torne pequeno. Quando este lindo edifício foi construído, no início do século XX, a população era outra e o acervo era de 8 mil livros. Nós precisamos de uma biblioteca moderna para que aqui fique só a parte histórica, mas isso eu me aposento e não vejo. Espero que a situação do estado melhore.

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Veja fotos internas e externas do prédio restaurado:

14/12/2015 – PORTO ALEGRE, RS, BRASIL – Biblioteca Pública recebe restauração e abre ao público novamente | Foto: Caroline Ferraz/Sul21
14/12/2015 – PORTO ALEGRE, RS, BRASIL – Biblioteca Pública recebe restauração e abre ao público novamente | Foto: Caroline Ferraz/Sul21
Foto: Caroline Ferraz/Sul21
Foto: Caroline Ferraz/Sul21
Foto: Caroline Ferraz/Sul21
Foto: Caroline Ferraz/Sul21
Foto: Caroline Ferraz/Sul21
Foto: Caroline Ferraz/Sul21
Foto: Caroline Ferraz/Sul21
Foto: Caroline Ferraz/Sul21
Foto: Caroline Ferraz/Sul21
Foto: Caroline Ferraz/Sul21
Foto: Caroline Ferraz/Sul21
Foto: Caroline Ferraz/Sul21
Foto: Caroline Ferraz/Sul21
Foto: Caroline Ferraz/Sul21
Foto: Caroline Ferraz/Sul21
Foto: Caroline Ferraz/Sul21
Foto: Caroline Ferraz/Sul21
Foto: Guilherme Santos/Sul21
Foto: Guilherme Santos/Sul21

Nagelstein, ontem

Ontem, Valter Nagelstein afirmou que os vereadores eleitos pelo PSOL para a Câmara Municipal na próxima legislatura são pessoas “sem nenhuma tradição política, sem nenhuma experiência, sem nenhum trabalho e com pouquíssima qualificação formal” e ainda disse que “muitos deles são jovens e negros, quer dizer, são eco àquele discurso que o PSOL foi incutindo na cabeça das pessoas”.

Estou aqui pensando sobre as qualificações que vejo em Nagelstein. Por enquanto, só encontrei qualificativos.

Meus melhores professores (nenhum da Universidade)

Meus melhores professores (nenhum da Universidade)

Hoje é Dia do Professor. Sei que é a mais importante das profissões e um dos ofícios mais mal pagos e desconsiderados de nosso país.

Este dia me afeta, fico sempre triste nos dias 15 de outubro. Sim, porque quase todo mundo que tem meu grau de escolaridade tem um professor universitário para homenagear e eu não. Nenhum ficou como modelo. A maioria ficava entre o insuportável e o indiferente.

Os meus grandes professores foram três do Ensino Médio — do Colégio Júlio de Castilhos — e vou tratar de lembrá-los, pois tenho boas lembranças deles, além de gratidão.

1. Moacyr Flores (que ainda anda por aí, ativo aos 85 anos): esse cara não ensinava apenas história como mostrava a formação das versões e dos mitos históricos. Foi um professor genial. Falava rindo, sempre com uma ironia que jamais atingia seus alunos. Quase 50 anos depois, ainda lembro de algumas aulas.

2. Sara: eu tinha 15 anos e só estudava, jogava futebol e me masturbava. A Sarinha enfiou a literatura de forma definitiva na minha cabeça. Ela indicava um livro para cada aluno, com frequência diferentes para cada um. A minha frequência era um livro por semana. Depois, ela comentava as obras com cada um.

3. Serjão: esse era sósia do Muhammad Ali. Fui primeiramente para as exatas por causa dele. Era o melhor professor de Física do mundo. No dia das provas, ele chegava de óculos escuros e sentava imóvel com seu corpanzil na mesa do professor. Ninguém sabia para onde ele olhava, ninguém colava.

Esses são os meus ídolos. Eles vêm lá de longe, da primeira metade dos anos 70.

O historiador Moacyr Flores

Feira do Livro sem praça: na pandemia, livreiros e editoras se preparam para edição online

Feira do Livro sem praça: na pandemia, livreiros e editoras se preparam para edição online

Por Bruna Paulin e Gustavo Foster, no Noite dos Museus

Mais do que os grandes lançamentos do ano ou os atrativos descontos oferecidos, o grande barato da Feira do Livro de Porto Alegre é a aglomeração na Praça da Alfândega, coração da cidade. O passeio no entorno das bancas, os bate-papos sem pressa entre livreiros e visitantes, a vida que toma conta de um espaço muitas vezes pouco frequentado pela população no resto do ano.

A Feira do Livro, tão tradicional no calendário cultural gaúcho, é espaço de formação de público – e sem dúvida grande parte de seu sucesso vem das trocas presenciais. Em 2020, devido à pandemia, a principal feira literária do Estado não poderá ser realizada fisicamente – como tantas outras em cidades espalhadas pelo Brasil. Por conta da impossibilidade de ocorrer em seu formato tradicional, os organizadores levaram-na para o mundo virtual, onde pretendem emular tudo aquilo que a feira tem de melhor, além de servir de inspiração para outros eventos do tipo. Não somente seu produto final, o livro, estará à venda pelos sites dos associados, mas também toda a programação da Feira, incluindo a transmissão ao vivo das atividades oferecidas.

Sob o slogan “Janelas abertas para a Praça”, o evento terá sua programação, totalmente gratuita, veiculada pelo portal www.feiradolivro-poa.com.br entre os dias 30 de outubro e 15 de novembro. Em 29 de setembro, a Câmara Rio-Grandense do Livro (CRL) divulgará os lançamentos, os autores participantes e o patrono desta edição, além de promover mais três eventos de aquecimento, nos dias 13, 20 e 27 de outubro. A escritora chileno-norte-americana Isabel Allende é a autora convidada e participará da abertura.

“Na nossa 66ª edição, estamos focando na qualidade dos eventos e no potencial que eles têm de debater, a partir do universo do livro, temas atuais relevantes. A programação geral terá quase 40 atividades, envolvendo cem convidados. Um universo que espelha também a nossa ideia de valorizar o que é diverso, de temas a perfis dos escritores”, explica Lu Thomé, uma das curadoras da feira.

“O ‘Janelas abertas para a Praça’ une estas duas coisas: a nossa comunicação atual por ‘janelas’ e telas de celulares, notebooks e computadores durante o período de isolamento social. Telas que, com a participação dos leitores na nossa programação, estarão voltadas para a Praça, que é o símbolo da Feira. A Praça estará na casa de todas as pessoas que desejarem. Nesse sentido, a programação precisa ser mais abrangente possível. Então, seguimos algumas linhas temáticas centrais: cultura (com valorização da cultura e liberdade de expressão), diversidade (com inclusão, feminismo, antirracismo e tolerância), ciência (pandemia, saúde) e sustentabilidade (relação com o mundo e o meio ambiente, economia verde)”, detalha Lu.

O momento atípico gerou inseguranças e apresenta desafios, mas a CRL garante que fez de tudo para preparar público e livreiros para as novidades.

“Em um evento tão tradicional como a Feira do Livro de Porto Alegre, é natural que exista alguma resistência à mudança por parte dos livreiros. Muitos deles participam há décadas da feira, que, diga-se, manteve um formato muito semelhante desde as primeiras edições. Ao mesmo tempo, percebo que há uma parcela cada vez maior de livreiros, distribuidores e editores em busca de informação sobre como vender pela internet”, avalia Tito Montenegro, editor da Arquipélago Editorial e diretor da CRL.

Livreiros receberam consultoria, sites novos e ajuda em transações para entrar no mundo novo

Para os associados que ainda não tinham comércio eletrônico, por exemplo, a entidade firmou parceria com uma empresa que desenvolve lojas virtuais, a GetCommerce, para que os expositores possam criar seus comércios eletrônicos em condições especiais. Firmou-se também um convênio com o Sebrae-RS, proporcionando uma consultoria para os livreiros qualificarem seus negócios para enfrentar os novos tempos, com ênfase na recuperação pós-pandemia e na crescente digitalização da divulgação e da venda de livros.

Para a tradicional livraria porto-alegrense Bamboletras, as inovações já começaram a surtir efeito. Se antes da pandemia o empreendimento se caracterizava como uma “livraria de balcão”, a quarentena forçou o proprietário Milton Ribeiro a criar um site da empresa. Se as vendas no início da pandemia caíram a 20%, Ribeiro espera que a feira ajude na retomada do crescimento, algo que já vem acontecendo nos últimos meses.

“A Feira do Livro vai ser uma continuidade dessa evolução. Nem tanto balcão, mais atendimento remoto. A Bamboletras se caracteriza por ter pessoas que conhecem livros e fazem uma curadoria. De certa forma, esse atendimento remoto vai continuar. A Câmara do Livro nos disponibilizou a possibilidade de ter um site – éramos tão de balcão que não tínhamos um. Teremos também a comunicação por redes sociais. Vai ser uma estreia, um mundo novo”, comemora o livreiro, antes de ponderar: – Minha perspectiva é otimista, porque vai ter muita divulgação, porém eu não sei muito bem qual vai ser a repercussão, porque é inédito.

Novos públicos e oportunidades infinitas

Se, por um lado, a impossibilidade de reunir pessoas é uma barreira, por outro, pode ser uma oportunidade para mudar. Gustavo Guertler, CEO da Editora Belas-Letras, conta que a empresa decidiu oficializar o home office, vai entregar a sala em que funciona sua sede em Caxias do Sul até dezembro e migrará o estoque para Osasco, em São Paulo. A partir dessa novidade, a editora pretende continuar inovando no ambiente digital – com a contribuição da Feira do Livro.

“Vamos tentar criar uma experiência mais próxima do que acontecia na feira física, no que se refere a curadoria e relacionamento com as pessoas, dentro do que é possível. Por outro lado, também tentamos criar ações que só o ambiente digital permite, então pensamos nisso como uma oportunidade. Há uma infinidade de ações que podemos fazer online, como garantir uma experiência da Feira para pessoas que não são da cidade”, acredita Guertler.

Lu Thomé concorda e vai além: para ela, as novidades devem se tornar padrão a partir de agora.

“Pela primeira vez, estaremos transmitindo para o Brasil e o mundo. É um ganho gigante. É provável que o formato online não seja mais abandonado, e as edições futuras passem a ser idealizadas num modelo híbrido de digital e presencial. Tudo ainda precisa ser confirmado e também precisaremos saber sobre os protocolos sanitários dos próximos anos. Todo o investimento e estrutura digital é um legado que fica para as próximas edições.”

Os hábitos de leitura também mudaram na pandemia?

Se tudo está mudando por conta da pandemia, as leituras de quem está em quarentena também ganharam outro perfil. Pelo menos é o que estimam Guertler e Ribeiro. O CEO da Belas-Letras diz que percebeu “uma pequena mudança nos títulos”:

“Por um lado, houve uma queda leve em títulos mais relacionados a negócios, empreendedorismo, mas houve também um aumento nas vendas de títulos que envolvem memória afetiva, entretenimento, autoconhecimento. As pessoas estão buscando olhar um pouco mais para dentro de si.”

Segundo ele, a editora teve crescimento de 16% nas vendas no primeiro semestre. Já Ribeiro afirma que “mudou muito a temática das vendas”:

“Em primeiro lugar, as pessoas começaram a atacar aqueles calhamaços, como Grande Sertão: Veredas, livros grandes de Tolstói, Dostoiévski, aqueles tijolos. Estão saindo todos. Nunca teve tanta procura. Leituras atrasadas, acho. Outra coisa, algo mais cômico, mas muita gente está procurando por gastronomia. Os livros da Rita Lobo, livros de receita, isso está saindo muito. As pessoas dizem ‘não aguento mais a comida da minha mãe, não aguento mais o que eu faço em casa’, e tentam mudar”, se diverte.

A Feira da gurizada para além de Porto Alegre

Nestes últimos 66 anos, é possível afirmar que grande parte da população infantojuvenil de Porto Alegre visitou pelo menos uma vez na vida a Praça da Alfândega com sua escola. O dedicado trabalho de formação de público desenvolvido pela organização da Feira tem como figura-chave Sônia Zanchetta, envolvida com a programação dos eventos infantis e juvenis desde 1998. Em 2020, os desafios deixam de ser os mesmos de 22 anos de experiência:

“É um desafio e tanto produzir as programações da Área Infantil e Juvenil em formato online. Mas estamos contentes porque, apesar de todas as dificuldades enfrentadas, a Feira do Livro está confirmada. Confiamos em que os professores, bibliotecários e outros mediadores da leitura que costumam nos visitar com alunos atuem com o mesmo entusiasmo de sempre, promovendo a leitura prévia de obras dos autores, para que os encontros digitais, que permitirão a interação entre o público e os convidados, sejam prazerosos e produtivos”, afirma Sônia.

As escolas e professores que estão conseguindo manter atividades com seus alunos já podem entrar em contato para saber mais detalhes sobre o funcionamento e as opções para direcionarem suas turmas em atividades online. Não é necessário agendamento prévio neste ano, pois não há limite físico para a participação simultânea de mais de uma turma. A equipe da programação infantil e juvenil e do ciclo A Hora do Educador atende pelo e-mail leitura@camaradolivro.com.br e sugere as atividades para a participação dos estudantes, de acordo com a idade e o ano escolar.

Serão 20 autores que promoverão 20 encontros, além de 20 contações de histórias, realizadas por Bárbara Catarina e Carmen Lima. Sônia destaca que o formato digital da Feira possibilitará a interação de mais estudantes, muitos deles que não conseguiam participar presencialmente:

“Muitas crianças e jovens de municípios que não eram atendidos pelo transporte escolar do evento terão a oportunidade de fazer parte da Feira em 2020.”

A Feira virtual também auxiliou a trazer nomes que a curadoria desejava há alguns anos, como Kiusam de Oliveira Eliane Potiguara. Da literatura indígena, além de Potiguara, Yaguaré Yamã integra a lista de autores participantes. Para se ter uma ideia da amplitude desse universo de alunos, só no Rio Grande do Sul existem 90 escolas indígenas.

Entre os escritores de literatura infantil afro-brasileira, além de Kiusam de Oliveira, está Rogério Andrade Barbosa, provavelmente o autor com mais livros publicados na área. O evento também contará com Otávio Júnior, conhecido por abrir a primeira biblioteca nas favelas do Complexo do Alemão e no Complexo da Penha, no Rio de Janeiro.

Para acompanhar as novidades e a programação completa da 66ª Feira do Livro, visite o site www.feiradolivro-poa.com.br.

Porto Alegre e seus pobres que votam em ricos

Porto Alegre e seus pobres que votam em ricos

Tive que ir a um cartório na Marquês do Pombal e voltei caminhando pelo bairro Moinhos de Vento.

Vi que lá — Parcão e redondezas — só tem propaganda da direita mais extrema. Gente apadrinhada pelo Bibo Nunes, gente do Novo…

Quando chego na Bamboletras, leio no Matinal Jornalismo a confirmação daquilo que penso há anos: uma pesquisa feita em mapas eleitorais garantindo que são os bairros ricos quem comanda as viradas no poder em Porto Alegre.

E o pessoal dos bairros pobres — sem formação e noção política — apenas segue os ricos.

Enquanto isso, a senadora comunista Carolina Cosse ganhou as eleições para a prefeitura de Montevidéu. Eles terão uma intendenta bem vermelha. Só que lá, a direita raramente vence entre os mais pobres.

É outro grau de escolaridade, outro nível de informação.

Vote no PUM.

Porto Alegre tem coisas que só Porto Alegre mesmo

Hoje, com toda aquela chuva, a Feira da Vasco estava lotada. Lotadaça, uma coisa inacreditável. Guarda-chuvas se batiam ou eles caiam sobre frutas e legumes enquanto as pessoas guardavam suas moedas e carteiras. Um mascarado molhava o outro, a maior barafunda.

Mas os sábados são também os dias em que vou ao supermercado. E, aqui, a maior surpresa: o Zaffari da Fernandes estava absolutamente vazio. Peguei as coisas da semana e fui para um dos vários caixas que me esperavam sem fila.

Mas, sabem? Antes, quando fui pegar alho na Feira, o cara da banca me disse para levar um saquinho roxo com vários alhos empilhados. Um gracinha de produto, mas eu disse pra ele:

— Não. Prefiro escolher um por um porque minha mulher gosta bem durinho.

OK, foi uma frase infeliz, impensada e o cara gritou para toda a banca e fregueses:

— Ô, pessoal, a mulher deste cidadão gosta bem durinho!

Foi uma risada só. Todo mundo me olhou. Uma mulher da banca disse que também gostava assim e que não via problema.

OK, fiquei sem jeito, preferia uma piada mais classuda. Ele não perde por esperar.

Porto Alegre tem coisas que só Porto Alegre mesmo.

Ser pedestre em Porto Alegre

Ser pedestre em Porto Alegre

Tudo pelo carro nesta Porto Alegre de merda.

Tente atravessar a João Pessoa na altura da República. As sinaleiras para pedestre não são sincronizadas e há quatro pistas. Duas para carros e duas para ônibus. É complicado de atravessar e até de entender. Tem gente que vai e volta correndo… Um perigo.

Ah, é exceção? Então tente atravessar a Borges na altura do Centro Administrativo, no pé da elevada. São 3 pistas que se leva 5 minutos para atravessar. É claro que todo mundo faz a travessia correndo, quando dá uma folga.

E experimente caminhar pela perimetral vindo da ex-Medicina em direção à Procergs pelo lado direito da rua. Há a pista dos carros, que é laaaaarga, e a calçada, que é dividida entre uma pista para ciclovia e outra caminhantes formando uma trança sem fim. Parece feita para que os ciclistas nos atropelem.

Mas o carro… Ah, este tem metros e metros. São outras 4 lindas pistas.

Tudo pelo carro.

E há locais onde a gente atravessa é dá de cara com uma grade…

Foto: Youtube

.oOo.

Comentário de Eduardo Canto:

Difícil ser pedestre, difícil ser ciclista. Ainda na gestão do Fortunati, foram criadas calçadovias, como a da Restinga, que simplesmente transformou calçadas em ciclovias. Tiraram o pedestre pra botar o ciclista. E com isso se fomenta a guerra entre pedestre e ciclista, pois ai de quem mexer com os carros. O mesmo ocorre em frente ao Barra Shopping. Um pouquinho depois do Centro de Treinamento do Grêmio, termina a calçada e fica só ciclovia. Sobre as sinaleiras, eu já filmei mais de 8 minutos de espera da sinaleira para pedestres e ciclistas no cruzamento da Beira-Rio com Ipiranga, ali ao lado do Dilúvio e do Guaíba. Ou seja, são sistemas feitos para serem burlados. Quer mais? Ciclocoisa da Ipiranga: tem alguns semáforos com 3 tempos para conversão de carros da Ipiranga para pontes que levam ao norte. O ciclista chega, aperta o botão e tem que esperar o novo ciclo para que tenha 10 ou 12 segundos para atravessar. Se chegar e apertar o botão mesmo antes da hora em que o semáforo abriria para ele, ele tem que esperar o novo ciclo. Quando vendi o carro e comecei a pedalar, eu ficava de trouxa no sinal esperando, até me dar conta de que este SISTEMA PENALIZA QUEM NÃO USA CARRO. E agora, eu atravesso quando dá. Mas pior mesmo do que esse descaso dos gestores público-privados (prefeitos a serviço das empresas financiadoras de campanha) é o comportamento de boa parte dos motoristas: odeiam o ciclista, como se ele fosse apenas um pé de chinelo que não tem carro porque é pobre (e aí se fosse?!) e não conseguem enxergar a quantidade de gente que já não entope as ruas com carros para andar de bike. E mais ainda, a quantidade de gente que só não faz o mesmo porque tem medo de ser atropelada. Estamos muito atrasados. Assim como fomos o último país a abolir, pelo menos oficialmente, a escravidão, seremos o último a abandonar o conceito de que ter carro é imprescindível para a felicidade. E, claro, seremos os últimos a termos consciência de classe, que é a raiz de todos esses problemas. Logo nós, um dos países mais lindos desse planeta…

Ah, sim, e quem tem carro e berra é ouvido: a gritaria sobre a ameaça de não parcelamento do IPVA foi ouvida no dia seguinte e o Leitinho, o governador das empresas, já abriu as pernocas.

O resultado da mobilização da esquerda na eleição dos Conselhos Tutelares

O resultado da mobilização da esquerda na eleição dos Conselhos Tutelares

O maior castigo para aqueles que não se interessam por política, é que serão governados pelos que se interessam.
ARNOLD TOYNBEE

A famosa frase de Toynbee não vale para o Brasil. Há 40 anos que digo: aqui, quem não se interessa por política manda no país. Por quê? Porque temos esta excrescência chamada ‘voto obrigatório’, que traz para as eleições gente que passa 4 anos babando. E eles elegem seus representantes…

Sem obrigatoriedade, os grupos de esquerda se mobilizaram em Porto Alegre e levaram a metade dos conselheiros tutelares. Toma! Em São Paulo foi a mesma coisa.

Seguindo a lista que compartilhamos:
MICRORREGIÃO 1- eleitos 5 dos indicados;
MICRORREGIÃO 2- eleitos 5 dos indicados;
MICRORREGIÃO 3- eleitos 3 dos indicados;
MICRORREGIÃO 4 – 2 na suplência;
MICRORREGIÃO 5 – 2 na suplência;
MICRORREGIÃO 6 – 1 na suplência;
MICRORREGIÃO 7 – 1 eleito;
MICRORREGIÃO 8 – 5 eleitos;
MICRORREGIÃO 9 – 1 eleito e 1 na suplência;
MICRORREGIÃO 1O – 2 eleitos e 2 suplentes.

A história dos bares de esquerda de Porto Alegre: a Esquina Maldita (revisado)

A história dos bares de esquerda de Porto Alegre: a Esquina Maldita (revisado)

(Fanfarras. O programa começa. Adentra o palco um homem grisalho, não de todo acabado. É o Especialista. Ele senta ao lado do apresentador, que fala.)

— Nosso pogrom d`oje traz o Espesializta Milton Ribeiro para nos contar sobre a Esquina Maldita. Boa noite.

— Boa noite, é um praz…

— Claro que é um prazer! Milton, diga-nos: quais foram os bares que formaram a famosa Esquina das avenidas Osvaldo Aranha e Sarmento Leite?

— Ora, primeiro, em 1966, veio o Alaska, depois vieram o Estudantil, o Copa 70 e o Marius.

— Quanto tempo duraram?

— Sei lá. O que sei é que o Alaska fechou em 1985 e o Marius foi adiante.

— Quem ia ao Alaska?

— A militância d`esquerda.

(Fanfarras. O apresentador levanta-se e grita.)

— Ele acaba de ganhar uma caixa de nosso patrocinador, os cigarros d`Arrabalde, o cigarro d`oômem! Parabéns, Milton.

— Obrigado. Eu estava ligado.

— Bem, podemos continuar.

— O Alaska tinha um garçom que às vezes era acompanhado de um auxiliar meio idiota. O idiota sempre mudava, era de alta rotatividade. O garçom não era nada idiota, seu nome era Isake Plentis d`Oliveira.

(Fanfarras. Porém, o apresentador levanta-se e faz parar tudo.)

— Não, não valeu. Com nomes próprios não vale.

— OK, desculpe.

— Adiante!

— Então o garçom era Isake Plentis de Oliveira, conhecido por apenas por Isake. Quem ia lá era a intelectualidade da esquerda e muitas vezes éramos visitados pela polícia. Obviamente, o DOPS mantinha informantes lá.

— Sempre foi assim?

— Bem, nem sempre. No início era um bar em que as pessoas iam para conspirar ou falar de política, era também quase exclusivamente masculino. Depois, nos anos 70, as mulheres tomaram conta.

— Ninguém comia ninguém?

— É… pouco. Foi um bar de resistência à ditadura até a metade dos anos 70, depois virou o local da esquerda festiva. Derrubávamos o governo todas as noites.

— E o que você comia lá?

— Apesar do pessoal do teatro frequentar, não era um bar para conseguir mulher, a gente comia os pratos mesmo.

(O apresentador ri e aponta para o Especialista. Seu gesto denota quão irresistivelmente engraçado é ele.)

— Os pratos eram o Robertão, o Burguês, o Vietcong e se bebia trigo velho ou batidas de côco e maracujá. Tinha chope, mas eu não tomava chope lá.

— E os outros locais?

— O Estudantil era barato e bagaceiro. As pessoas morriam no Hospital São Francisco e os parentes iam lá se embebedar. Esses momentos eram tristes. Era também o bar dos lixeiros da madrugada. Eles paravam o caminhão e o Ataliba, o garçom, servia cerveja para eles. Esse pessoal não se misturava com os intelectuais do Alaska e vice-versa.

— E o que você comia lá?

— Mulheres, porque o bar tinha dois ambientes. O da frente, com mesas, e o de trás, que era escuro e destinado ao sexo. Do amasso ao coito, podia tudo. Com o tempo, deixei de ir porque eu não era suficientemente promíscuo.

— Trepava-se com estranhos?

— Quase sempre. E eu não queria, em hipótese alguma, colocar minhas namoradas na roda.

— Um machismo perfeitamente natural, compreeensível, adequado e correto. Mas e o Copa 70?

— Era um bar d`omossexuais!

(Fanfarras. O apresentador levanta-se e grita.)

— Ele acaba de ganhar mais uma caixa de nosso patrocinador, os cigarros d`Arrabalde, o cigarro d`oômem! Parabéns, Milton.

— Obrigado. Eu fiquei desligado por um tempo mas agora liguei de novo.

— Bem, podemos continuar.

— Era o bar onde a Nega Lu, que se chamava Luis Airton Bastos, fazia performances.

— Então, o que se comia lá?

— Bundas.

— Havia drogas?

— Eram disseminadas entre os bares. Mas o pessoal do Alaska não gostava daquilo. Elas alienavam.

— E o Marius?

— O Marius foi o último a abrir. Já era o tempo da decadência. A Universidade foi lá para o campus e o pessoal das drogas foi… foi… foi para… deixa eu fazer a frase… mais para o meio da Redenção.

— Hum, para que bar?

— O nome dele é… é. Bom, eles se tornaram o pessoal d`Ocidente.

(Fanfarras. O apresentador levanta-se e grita.)

— Ele acaba de ganhar mais uma caixa de nosso patrocinador, os cigarros d`Arrabalde, o cigarro d`oômem! Parabéns, Milton. A terceira caixa, hein?

— Obrigado. Agora tô ligado, tô ligado.

— E então?

— O grosso das pessoas foi para o Ocidente e os saudosos da Esquina Maldita acabaram no Marius.

— Bem, como já entregamos três caixas de nosso patrocinador e o Milton tem de trabalhar, encerramos aqui a entrevista. Milton, alguma coisa que queira acrescentar?

— Foi um`onra estar aqui.

(Fanfarras. O apresentador levanta-se e grita.)

— Não vale, não vale, tem que ser com “d”. Boa noite. Fim de programa.

Ontem, O Empresário, de Mozart

Ontem, O Empresário, de Mozart

Ontem à noite, assistimos a uma pocket ópera que talvez tenha sido o mais estimulante, bonito, eufônico e engraçado espetáculo que vimos em 2019 em Porto Alegre. Com quatro das melhores vozes da cidade — por ordem alfabética, Daniel GermanoElisa LopesFranciscco Amaral e Raquel Helen Fortes, com o pianista Daniel Benitz, todo mundo sob a direção de Flávio Leite –, vimos ‘O Empresário’, de Mozart. A opereta foi escrita para participar de uma competição musical, em 1786, no Palácio de Schönbrunn, em Viena. O tema era o mundo dos cantores líricos.

Deste modo, mini-ópera trata das confusões de um empresário às voltas com duas primadonas vaidosas, estressadas e enlouquecidas para obter papéis de destaque em uma produção musical. Ninguém mais apropriado do que Mozart para fazer um retrato fiel e pertinente do meio operístico. A ação, em sua parte falada, foi trazida para os dias de hoje em concepção do Flávio Leite. A música é de altíssima qualidade com árias muito difíceis que foram levadas com arrebatador virtuosismo por parte dos cantores. Uma delícia ver estes grandes cantores exercitarem um insuspeitado — e imenso — talento cômico. Divertimo-nos um monte!

Estive lá graças à Elena, que viu o anúncio e sentenciou: nisso aqui a gente tem que ir! Guardei lugar pra ela, que teve que sair correndo de uma aula que estava ministrando para chegar à tempo.

Rimos muito e estamos cantarolando as árias até agora.

Porto Alegre

Você trabalha com cultura e sai de casa otimista. No caminho, vê todo o tipo de lixo, lixo literal, sujeira, cheiro ruim, muita coisa seca e orgânica espalhada em torno das lixeiras da prefeitura. Isso sem contar os cocôs dos quais vai desviando na calçada. Depois, ao chegar ao trabalho, fica sabendo que houve uma Marcha para Jesus em São Paulo. Sim, com a presença de Jair Bolsonaro e milhares de pessoas. Um sucesso. Ou seja, o cheiro das ruas é de Idade Média e a religiosidade também. Haja ânimo. Ao menos aqui dentro da Livraria Bamboletras dá para respirar.

Um local da cidade: Bonobo, café com conceito

Um local da cidade: Bonobo, café com conceito

Acordei hoje e, por algum motivo, lembrei desta reportagem que fiz para o Sul21 em agosto de 2011. Apesar de não ser nada hostil e de eventualmente comer comida vegana, não faço parte da tribo. Porém, na época, mal sabia o que era aquilo, poucos sabiam o que era. Gostei muito do tratamento que recebi no Bonobo e vai ver que foi isto que me fez lembrar deste texto bem simples.

Um lugar incomum, o Café Bonobo | Ramiro Furquim/Sul21

Café Bonobo fica a dez minutos de caminhada do Parque da Redenção, exatamente na esquina da Castro Alves com a Felipe Camarão, em Porto Alegre. É uma bela casa de dois andares. No térreo fica o Café e no andar de cima moram os proprietários, o casal Valesca Sierakowski Kuhn e Marcelo Guidoux Kalil.

Se considerarmos a comida oferecida, a postura e o conceito que o apoia, o local não é nada tradicional. Para começar é um café vegano — os veganos se abstêm de utilizar quaisquer produtos que provenham de aninais ou da exploração destes. Então, além de não ingerir carnes, peixes, aves, ovos, leite, mel e seus subprodutos, como gelatina, soro, gordura, etc., os veganos não vestem tecidos de origem animal, como couro, seda, lã e peles, nem produtos testados em animais.

“O veganismo é um vegetarianismo puro e eminentemente ético”, explica Marcelo, sócio do Bonobo. “Com o tempo, a gente foi incorporando outros conceitos ao veganismo, coisas libertárias, algumas ideias anarquistas anti-hierarquia, que fomentam a horizontalidade.”

A estante do bookcrossing | Ramiro Furquim/Sul21

Tais opções estão presentes por todo o restaurante – chamamos de restaurante, pois frequentemente são servidos almoços aos sábados. Ao lado da mesa onde sentamos, por exemplo, há uma pequena estante de livros. Ao ser perguntado sobre o motivo da existência da pequena biblioteca, Marcelo esclareceu que era para fazer bookcrossing, que é a prática de deixar um livro num local público para que outros o encontrem, leiam e voltem a “libertá-lo”, seja devolvendo-o ao local onde foi encontrado, seja deixando-o por aí para que outros leiam. “Queremos divulgar as ideias que achamos boas. Recentemente, demos destaque à questão da mobilidade, do uso de bicicleta, que nós apoiamos. Então, quem chega de bicicleta aqui tem um espaço legal para estacioná-la”.

Os pratos oferecidos pelo Bonobo são produzidos a partir de alimentos comprados em feiras ecológicas, direto do produtor. “Acho que a única coisa que passa por processos industriais é o vinho. O resto fazemos tudo: o pão, os burgers, os molhos, os bolos, os sorvetes. A cerveja é um amigo nosso que faz. Até os produtos de limpeza são naturais.”

O menu do Café Bonobo | Ramiro Furquim/Sul21

Os burgers é uma das especialidade da casa. Tudo é vegetariano. O pão é branco ou integral, o “bife” pode ser ou de lentilha com curry e grão-de-bico ou de cenoura, amendoim e arroz integral. Os molhos são de catchup caseiro de tomate, pasta de grão-de-bico ou guacamole. Para quem quiser se aquecer no inverno, há o tradicional chocolate quente com leite de amêndoas. Os preços não são nada altos e ainda há promoções: por exemplo, há o bolo sem preço, pelo qual cada um paga o quanto pode ou quanto acha que vale. E hoje (10/08/2011) o almoço é sem preço, ou seja, você come e paga o que achar justo.

Val e Marcelo vivem modestamente do Bonobo. Não pretendem mais e seu café tem o slogan “compre menos, trabalhe menos e viva mais”.

O que é bonobo? Bonobo é uma espécie de primata que age de forma contrária a do chimpanzé. Este costuma resolver seus problemas – inclusive os do amor – pela força, enquanto os bonobos decidem suas questões através do amor. Por exemplo, se estão disputando comida, um faz carinho no outro e acabam compartilhando. É uma visão que seria mais harmoniosa do que a dos chimpanzés, que fazem guerras entre eles, com mortes, muitas vezes. “Aqui no café somos eu e a Val. Fazemos, dividimos e compartilhamos tudo, até a limpeza”.

“Vez ou outra nos damos o luxo de não abrir” | Ramiro Furquim/Sul21

O Bonobo abre geralmente de quartas a sábados, das 18 às 22h. Mas nem sempre este horário é cumprido. Às vezes abre para o almoços, às vezes em outros horários, às vezes não abre. Os clientes se informam pelo telefone, twitter, facebook ou pelo blog do café. “Geralmente funcionamos de quarta a sábado, mas uma vez e outra nos damos o luxo de não abrir… Quando fazemos isso, sempre avisamos. Por exemplo, hoje, depois de um monte de dias de chuva, abriu um sol e era o aniversário da Val, então escolhemos não ficar presos aqui dentro na cozinha.”

Além da estante do bookcrossing, há uma biblioteca que vende e empresta livros. Há outros produtos também: “Temos até absorventes femininos ecológicos para vender. São aqueles antigos que nossas avós usavam. São de usar e lavar para reaproveitar. A própria água com que é lavado pode ser usada para regar as plantas, é ótimo.”

O Bonobo mantém a política de compartilhamento também na cozinha. Nada é segredo. Então, se um cliente quiser saber como as pratos são preparados, é convidado a visitar a cozinha para auxiliar a fazer as coisas e aprender. “Estamos mais interessados em divulgar o veganismo do que em guardar segredos de cozinha.”

“Quem chega de bicicleta aqui tem um espaço legal para estacioná-la” | Ramiro Furquim/Sul21

Segundo o casal, são raros os casos de comensais que pedem uma picanha sangrenta. “A maioria do público sabe como é, já temos um público bem fiel. Às vezes, quando está cheio, as pessoas olham e vão embora. Nós nem aconselhamos as pessoas a esperarem, pois quando o pessoal senta aqui demora muito para sair.”

Val e Marcelo tentam plantar alguma coisa no próprio espaço do Bonobo. “A gente planta mas aqui têm muitos prédios ao redor, pouca luz e é muito úmido. Agora um amigo trouxe uma mudinha de juçara, que é como o açaí da mata atlântica. Ele acha que vai pegar. Temos pimenta, maracujá, guaco, amoreira… bastante coisa. Os móveis aqui do café nós achamos na rua ou em briques, arrumamos tudo. Viste como são bonitos?”.

Além da estante de bookcroosing, há uma pequena livraria que faz vendas ou empréstimos de livros |Ramiro Furquim/Sul21

Porto Alegre e o calor senegalesco

Porto Alegre e o calor senegalesco

Ainda bem que a temperatura caiu nos últimos dias em Porto Alegre. Na semana passada, quase todas as pessoas com as quais eu mantive contato estavam irritadas, muito irritadas e cansadas. Vivíamos sob 37 graus e sensação térmica de 46. Os antigos narradores de futebol falavam em “temperatura senegalesca”, o que revela que os narradores de antes eram tão desinformados quanto os de hoje, pois, se a temperatura do Senegal chegasse aqui, seria uma dádiva a ser saudada por qualquer porto-alegrense.

Saibam que o Senegal é um país de clima muito agradável. Tem, basicamente, duas estações. Uma estação seca de novembro a maio, quando nunca chove e as máximas ficam entre os 23 e 25 graus. A outra estação é úmida e mais quente: de junho a outubro há alguma chuva, principalmente no sul do país. A média das máximas fica em 29, 30 graus.

Então, meus filhos, quando a coisa estiver insuportável por aqui, não fale em temperatura senegalesca e pense em Dakar como um bom destino. Ah, prepare algumas frases em francês. Ou em uolofe.

O Monumento do Renascimento Africano em Dakar, Senegal | Foto: Black History Heroes