Morre J. D. Salinger aos 91 anos

O escritor J.D. Salinger morreu aos 91 anos em sua casa em New Hampshire, nos EUA. Recluso há muitos anos, o escritor não dava entrevistas desde 1980 nem se deixava fotografar. O seu livro mais conhecido é O Apanhador no Campo de Centeio (1951). Salinger tinha 32 anos quando da publicação. O personagem principal do livro, o adolescente Holden Caulfield se tornou símbolo da geração de jovens do pós-guerra. A obra foi um sucesso mundial, mas não só este romance é conhecido. Meus filhos leram toda a sua obra para o colégio (Leonardo da Vinci, Porto Alegre).

O anúncio da morte foi feito pelo filho do autor, a partir de um comunicado emitido pelo representante literário de Salinger, nesta quinta-feira. Salinger completou 91 anos no último dia 1º. Ele estava sem publicar um trabalho havia mais de 40 anos. Paradoxalmente, ele declarou em 1974, numa de suas poucas entrevistas:

Amo escrever, mas só escrevo para mim mesmo e para meu prazer.

Na minha opinião, Salinger foi um gênio e foi uma alegria revisitar toda sua curta obra com meus filhos. Dia desses, estávamos discutindo o conto Um dia perfeito para os peixes-banana. Fico triste com sua morte, mesmo sendo ele uma vítima da Síndrome de Bartleby. Muitíssimos escritores sucumbiram na tentativa de imitá-lo. Normal.

R.I.P., Jerome and See More Glass.

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    1. Augusto, eu não acho que este processo diminui ou aumenta o valor da obra do Salinger, mas este outro livro não era só uma apropriação de um personagem, mas sim uma continuação do seu maior livro. Para mim há uma grande diferença entre uma citação ou uma homenagem, ou mesmo um empréstimo de uma idéia, a isto que este outro escritor se propôs fazer. O que mais me parece é que o cara quis pegar carona na fama do Salinger.

      1. É claro que o processo em nada afeta o valor da obra de Salinger, e também que a carona provavelmente não leve o oportunista a lugar algum. Já quanto ao valor da ação judicial em si, penso que se constitua num instigante subsídio para a palpitante polêmica que se trava sobre direitos de copyright e propriedade intelectual em tempos de commons. Neste sentido, vejo o gesto de Salinger antes como um derradeiro e, de certo modo, inútil esforço no sentido de blindar sua obra contra prováveis e inevitáveis remixes, inspirados ou medíocres, oriundos da própria celebridade do original.

    2. Eu também vou discordar do Augusto (isso é raro!). O cara ultrapassou as medidas. Guardadas as proporções (bem guardadas!) é como eu fazer uma continuação da Casa das Sete Mulheres sem consultar a autora.

      1. Correção: invertidas, ao invés de guardadas, as proporções, pois o que se teria, neste caso, é uma enorme vantagem do remix sobre o original.

        Guardam, outrossim, ambas as disputas a grande semelhança de se travarem pelo direito à propriedade de um nome. Da personagem num caso e da autora no outro. Ironicamente, enquanto Salinger reivindica o uso exclusivo, vedado a autores menores, do nome que inventou, forças tribais enfurecidas cobram à autora menor uma reparação pelo rebaixamento pelo riso a que tiveram o nome submetido em decorrência de tê-lo compartilhado com a mesma.

        Embates quixotescos à parte, muito ainda se há de falar sobre a ermitice daquele que talvez tivesse preferido viver em tempos de maior controle sobre a integridade das obras. Por grande parte de sua vida, não se permitiu retratar, e até o fim dela não só não permitiu que lhe filmassem a obra, como tampouco consentiu que lhe remixassem os signos.

        Ótima a especulação, abaixo, sobre originais reclusos de JD virem à tona. Interessante, também, especular sobre quantos remixes não autorizados, low profile, como HQ, vídeos amadores e outros formatos caseiros caseiros ou colaborativos, até que o Catcher in the Rye caia em domínio público ou, antes disso, duas gerações de herdeiros na resistam a tendadoras ofertas e possamos, com isto, assistir, em vida, à onerosa transposição do clássico à telona.

        Penso até que a glamorosa aura de inviolabilidade imposta por Salinger a sua obra mais conhecida se constitua num dos principais atrativos para lhe erguer a condição de um cult do remix.

        Será bom falarmos (e rirmos !) disto em dez ou vinte anos. Alguém me explica por que é tão mais fácil escrever do blog dos outros do que no próprio ?

        1. Errata (já que aqui não se pode reeditar os próprios comentários…):

          Correção: invertidas, ao invés de guardadas, as proporções, pois o que se teria, neste caso, é uma enorme vantagem do remix sobre o original.

          Guardam, outrossim, ambas as disputas a grande semelhança de se travarem pelo direito à propriedade de um nome. Da personagem num caso e da autora no outro. Ironicamente, enquanto Salinger reivindica o uso exclusivo, vedado a autores menores, do nome que inventou, forças tribais enfurecidas cobram à autora menor uma reparação pelo rebaixamento pelo riso a que tiveram o nome submetido em decorrência de tê-lo compartilhado com a mesma.

          Embates quixotescos à parte, muito ainda se há de falar sobre a ermitice daquele que talvez tivesse preferido viver em tempos de maior controle sobre a integridade das obras. Por grande parte de sua vida, não se permitiu retratar, e até o fim dela não só não permitiu que lhe filmassem a obra, como tampouco consentiu que lhe remixassem os signos.

          Ótima a especulação, abaixo, sobre originais reclusos de JD virem à tona. Interessante, também, especular sobre quantos remixes não autorizados, low profile, como HQ, vídeos amadores e outros formatos caseiros caseiros ou colaborativos, virão à tona até que o Catcher in the Rye caia em domínio público ou, antes disso, duas gerações de herdeiros na resistam a tendadoras ofertas e possamos, com isto, assistir, em vida, a uma necessariamente onerosa transposição autorizada do clássico à telona.

          Penso até que a glamorosa aura de inviolabilidade imposta por Salinger a sua obra mais conhecida se constitua num dos mais atrativos ingredientes para lhe alçar à condição de um cult do remix.

          De qualquer modo, será bom falarmos (e rirmos !) disto daqui a dez ou vinte anos.

          Alguém me explica por que é tão mais fácil escrever no blog dos outros do que no próprio ?

  1. toda morte entristece, mas morrer aos 91 anos de causas naturais e há 40 anos sem publicar nada… entristece menos.
    triste será a morte de um roth, por exemplo, ativo e escrevendo às pampas – ainda que também de causas naturais.
    :>)

  2. Biajoni,
    entendo teu caso, mas morrer por causas não naturais aos 91 anos pode ser motivo de regozijo.
    Eu, por exemplo, gostaria de morrer nesta idade, num guarda-roupa, assasinado por um jovem marido traído.

    Branco

    PS. guardarroupa?

  3. By the way…

    Me avisem, por favor, se JD decidir, contra todos os prognósticos, postar nos Blogs do Além – já que, em tempos de Twitter, sequer pelo semanário do Carta ando passando os olhos.

    Milton: já te passou pela cabeça entrevistá-lo (o JD, não o Mino) – agora que não mais pode te processar ? Diversão garantida. Só não me culpa por eventuais herdeiros coléricos ou oportunistas…

    Regards.

  4. O LEGADO DA ESPERANÇA
    by Ramiro Conceição

    Naquele dia fiz – feliz –
    um poema que ainda diz:

    “ Me dêem uma janela,
    uma simples janela,
    que redescubro o Universo.”

    Assim, para mim, caro ouvidor,
    maior valor tem uma janela
    que um império adjacente a ela.
    Ainda mais:

    descobri no tempo do ventre que
    uma janela pode ser maior do que
    um bilhão… – delas!;
    descobri que um livro-livre, um canto,
    nasce numa folha de papel em branco;
    com saudável ironia, descobri que
    a vida é uma viagem repleta
    de memórias que, inexoravelmente,
    serão esquecidas no fim da história.

    Logo, o único legado
    são as sombras deixadas
    em pegadas pela Esperança
    que voou em dias sob o Sol.

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