A pergunta que o repórter fez para Wim Wenders (sobre Gaza) foi muito lógica e pertinente. A política já estava pipocando na entrevista. Mesmo assim, Wenders ficou atônito e comeu mosca. Sinceramente, acho que ele quis proteger os organizadores — que são políticos, obviamente — e tratou de subir no muro. Foi, como se dizia no Julinho, uma “burrada” dele.
A arte sempre foi política e quero falar naquela que é considerada a mais neutra das artes: a música erudita. Dou risada quando dizem que ela é neutra. Até hoje, os nomes das salas de concerto mudam e o repertório obedece a quem tem dinheiro. Mesmo os mecenas têm seus lados. Até bem pouco tempo, a música erudita era controlada pela igreja, servida a reis e até hoje pode ser banida por ditadores.
Vamos lá: durante séculos, os compositores dependiam de nobres, reis e igreja para sobreviverem. A música encomendada servia para legitimar o poder: coroações, casamentos reais, celebrações de vitórias militares, etc. Mas então você diz que Mozart era apolítico. Ora, ele compôs “A Flauta Mágica” com simbolismo maçônico (sociedade secreta perseguida na época). O tranquilo Haydn passou 30 anos como “servo musical” da família Esterházy, só compondo by demand. Há os hinos nacionais (muitos de origem erudita), aberturas e sinfonias para celebrações cívicas. Beethoven inicialmente dedicou sua 3ª Sinfonia (“Eroica”) a Napoleão, mas rasgou a dedicatória quando Napoleão se autoproclamou imperador…
Mais: Beethoven escreveu sua ópera “Fidelio” sobre liberdade e resistência à tirania. As óperas de Verdi se tornaram hinos do movimento de unificação italiano. Shostakovich literalmente viveu sob Stalin. Suas sinfonias são cheias de críticas codificadas ao regime soviético. Antes de Stálin, “O Casamento”, de Stravinsky, foi censurada na Rússia czarista. Luigi Nono compôs obras explicitamente políticas, como “Il Canto Sospeso” (sobre vítimas do fascismo). John Cage usou o acaso como crítica ao controle e autoritarismo.
Ainda mais: “As Bodas de Fígaro” (Mozart) critica a aristocracia: um criado que enfrenta seu senhor feudal, “Wozzeck” (Berg) denuncia a exploração dos pobres e a desumanização militar, “Porgy and Bess” (Gershwin) trata dos negros e da pobreza nos EUA.
OK, Milton, mas o que me dizes da música instrumental, muito mais presente em nossas salas de concerto? Pois eu respondo que, quando a palavra é censurada, a música instrumental pode comunicar-se politicamente.
Primeiro, há os nacionalistas. Chopin: Mazurcas e polonaises (Polônia sob domínio russo). Smetana e Dvořák: os tchecos durante o império Austro-Húngaro. Grieg: Noruega invadida pela Suécia. Sibelius: Finlândia invadida pelos Rússia Imperial. (A famosa “Finlândia” foi escrita para a “Festa da Imprensa” de 1899, uma manifestação disfarçada para apoiar a imprensa finlandesa contra a censura russa).
Mas há os discordantes: Prokofiev e Shostakovich tiveram obras banidas na URSS por “formalismo” (música “difícil demais para o povo”). Messiaen compôs “Quarteto para o Fim dos Tempos” num campo de prisioneiros nazista (para compor, deram-lhe um espaço no banheiro).
Contemporaneamente, há muitas questões políticas. As orquestras, antes privilégio masculino, estão lotadas de mulheres e agora elas invadiram a regência. E por que o cânone tem tão poucas mulheres e pessoas não-brancas? Quem frequenta concertos? Quem pode estudar música erudita? O financiamento público da música é sempre uma decisão política. Iniciativas maravilhosas como El Sistema (Venezuela) usam orquestras para inclusão social.
Um dos maiores compositores atuais, o estadunidense John Adams (Composer) cria obras sobre natureza e crise climática, além de ter escrito a ópera “Nixon in China”, muito ouvida por meu filho…
A música erudita não é apenas “arte pela arte” — nela, esteve sempre misturado o poder, a resistência, a identidade e a transformação social. Cada nota carrega história, e cada execução é um ato político. E, para finalizar este texto desorganizado, digo-lhes que se ouve CLARAMENTE quando os músicos são incultos e ignoram o significado daquilo que tocam.
A música não existe sem sua circunstância histórica. Toda obra musical nasce de um contexto. O que acontecia no mundo quando aquilo foi composto? Para quem o compositor escrevia? Quem ouvia? O que o compositor vivia em sua época?
Leonard Bernstein e outros grandes músicos sempre disseram (aspas de LB): “Para comunicar, o músico precisa ter algo a dizer. E esse algo vem de dentro, de suas experiências, cultura, leituras, amores, dores.” Por exemplo, o intérprete A sabe tocar todas as notas perfeitamente, mas não dá a menor importância a quem compôs, nem quando, nem por quê. Ele vai tocar no máximo corretamente. Já o intérprete B leu cartas do compositor, estudou a época, conhece a forma, entende as referências e o contexto. Será AUDÍVEL que ele tocará com camadas de significado. Para quem têm vivência, é muito óbvio o grau de cultura de quem toca.
Bem, este foi meu destampatório de segunda de Carnaval. Nada contra o Carnaval.