Bestas Encurraladas, de Magnus Mills

Compartilhe este texto:

Você não vai gostar de nenhum dos personagens de Bestas Encurraladas, de Magnus Mills, creio eu. Este é um romance meio comédia, meio sério, que mostra as “maravilhas” do trabalho assalariado. A gente começa a ler e acha tudo muito simples, mas há por trás uma boa e sofisticada engrenagem literária. A história acompanha um narrador sem nome, promovido a chefe de dois operários escoceses — Tam e Richie — que fazem cercas no interior do país. Sim, cercas para fazendas, para impedir a fuga de animais. A rotina é repetitiva: estacas, arame, tensão da cerca, trabalho duro durante o dia, pub à noite, outras tensões com os clientes, a chefia e o dono da firma. Mas, pouco a pouco, a rotina se deforma: acidentes estranhos, mortes tratadas com naturalidade, situações que deslizam para o absurdo sem jamais abandonar o mesmo tom burocrático. O resultado é uma narrativa que se move entre o realismo operário marxista e uma espécie de pesadelo kafkiano.

O grande trunfo do romance está justamente no tom. Mills escreve com radical economia: frases curtas, repetição de situações, diálogos mecânicos. É um livro sobre pessoas burras, eu diria. O estilo despojado cria um efeito curioso — quanto mais neutra a narração, mais perturbadores se tornam os acontecimentos. Há uma recusa total de dramatização: eventos potencialmente chocantes são tratados como parte da rotina, o que gera um humor sombrio. Essa monotonia de estilo transforma o livro numa espécie de fábula moderna sobre o trabalho.

Por trás da história de três homens construindo cercas, esconde-se uma alegoria. As cercas — que deveriam conter animais — parecem também simbolizar os limites que os vão organizar — regras, rotinas, hierarquias. O título, aliás, sugere essa ambiguidade central: quem são, afinal, as “bestas” a serem contidas? Os animais ou os trabalhadores? Ao longo do romance, a repetição da vida laboral se transforma em algoz. Os trabalhadores tendem a serem máquinas submissas e silenciosas.

O final é inquietante, com um pé em O Conto da Aia. O romance não oferece catarse nem explicação clara — pelo contrário, sua força está na recusa de fechar sentidos. À medida que a narrativa avança, o leitor percebe que foi capturado pela mesma lógica que aprisiona os personagens: repetição, obediência, aceitação do absurdo. É um livro curto, mas que permanece ecoando, como uma espécie de piada sombria que, quanto mais se pensa nela, menos engraçada se torna.

Este livro foi muito reconhecido e premiado, Mills foi finalista do Booker Prize com este romance. O autor conhece bem o mundo do trabalho assalariado e da obediência. Ele é um ex-motorista de ônibus elogiado por Thomas Pynchon.

Magnus Mills

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Deixe um comentário