O impostor, de Damon Galgut

O impostor, de Damon Galgut

Eu estou apaixonado pelos livros do sul-africano Damon Galgut, dos quais já li A Promessa, O Bom Médico e agora este. Aqui, Galgut vem com a história de Adam Napier um “poeta” que vai ao interior para escrever e acaba envolvendo-se nos negócios de um amigo de infância. O tema do livro parece ser… Posso ser ousado? Como a realidade às vezes desliza sob nossos pés sem que possamos fazê-la parar.

Damon Galgut sabe incomodar. Em seus romances, o essencial não é dito, fica ligeiramente fora de foco, naquela pequena fissura por onde começa a entrar a dúvida. Há no romance uma atmosfera de inquietação permanente. O leitor nunca está inteiramente seguro de onde pisa, não porque Galgut recorra a truques ou mistérios artificiais, mas porque seus personagens carregam consigo uma espécie de moralidade opaca. Como em A Promessa, a África do Sul não aparece apenas como cenário. O país, com sua história de violência, está dentro dos personagens, contaminando relações, ambições e medos. Não há teses, a política e a história estão presentes justamente porque fazem parte da vida.

Adam Napier é um poeta branco de quarenta e poucos anos. Perdeu o emprego — substituído por um jovem negro que ele mesmo treinou, numa ironia do pós-apartheid — e perdeu sua casa. Com poucas opções, aceita a oferta do irmão: mudar-se para uma casa em ruínas no interior a fim de “reencontrar a poesia”. Ele diz a si mesmo que é um retorno à vocação. Mas todos ao redor — e o próprio leitor — sabem que é um gênero de fuga.

É então que ele conhece Canning. Um homem estranho, agradão, que afirma ter sido seu colega de escola, dono de uma enorme propriedade de caça e casado com uma bela mulher negra, Baby. Adam não lembra dele, mas é obviamente um ex-colega, pois sabe tudo do passado de Adam. E este aceita o convite. Aceita o jantar. Aceita a bebida. Aceita a amizade. E, sem perceber, aceita entrar num mundo que ele acreditava poder apenas observar de fora.

E há o título, O Impostor. A palavra parece simples, mas vai adquirindo sentidos. O “impostor” é todo mundo. Adam finge ser um poeta. Finge lembrar de Canning. Finge ser um observador neutro, um homem sensível e moralmente superior ao irmão que se vendeu ao mercado. Canning finge ser um amigo, um homem de negócios respeitável, um marido amoroso. E a própria África do Sul pós-apartheid finge ser uma nação recuperada, uma nação que resolveu seus vergonhosos problemas com uma constituição e um sorriso. E Baby? Baby não finge nada. Ela simplesmente não corresponde ao que Adam e Canning projetam nela.

Galgut escreve com uma prosa sem nenhum excesso. Não levanta a voz. Uma mudança de perspectiva, uma frase aparentemente casual, um gesto mínimo são suficientes para alterar aquilo que pensávamos compreender. É uma literatura que nos puxa para dentro dela, que nos torna seus cúmplices nas incertezas.

Depois de O Bom Médico e A Promessa, eu tinha a impressão de conhecer um pouco o território de Galgut. O Impostor mostrou-me que não. E talvez esse seja um dos maiores elogios que se possa fazer a ele: quando terminamos um livro seu, não apenas queremos ler o próximo — queremos também ler os anteriores.

Galgut acertou novamente. O Impostor é Galgut antes dos Booker Prize, mas já em plena forma.

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O Impostor, de Javier Cercas

O Impostor, de Javier Cercas

O Impostor narra o escandaloso caso de Enric Marco. Marco era uma espécie de “testemunha viva” da história da Espanha recente, tendo participado da Guerra Civil Espanhola, sido deportado para a Alemanha, sobrevivido ao campo de concentração nazista de Flossenbürg, e — de volta à Espanha — participado da luta antifranquista por quase quatro décadas… Só que não.

Mais: Marco era uma das “reservas morais” do país, tinha concedido mais de 8 mil palestras, fora entrevistado por todos os meios de comunicação, detalhara suas histórias em minúcias — pois possuía enorme conhecimento de história e criara sua própria biografia sempre com um pé firme na verdade –, só que era tudo fantasia. Neste “romance sem ficção”, Cercas conta toda a lorota de Enric Marco, O Impostor mostra os mecanismos através dos quais Marco forjou uma nova biografia em vida.

Enric Marco é um grande personagem. Diz o Google que ele, aos 100 anos, ainda está vivo. Ele tem mil máscaras, sendo uma espécie Alonso Quijano, o homem que criou Dom Quixote para si mesmo. Porém, se o tema e o personagem são sensacionais, às vezes Cercas fica aquém do mesmo, dando voltas e mais voltas para sempre reencontrar a famosa citação de Faulkner que diz que “o passado nunca passa, não é sequer passado, mas apenas uma dimensão do presente”. Cercas fez muitas entrevistas com Marco e com quem o cercava, e foi pouco a pouco destruindo praticamente todas as afirmações sobre a biografia do mentiroso. O livro também comenta bastante a relação entre os dois e isto é um de seus pontos altos. O diálogo imaginário que ele tem com Marco é soberbo.

Marco tem uma relação de amor e de ódio com o autor. Primeiro quer que ele o salve, que o livro sirva para recuperá-lo frente à opinião pública. Depois, quando vê que o escritor desmonta cada uma de suas versões dos fatos, quase chora dizendo “deixe-me ao menos alguma coisa”. Também retrata o seu “escritor” como “um pequeno burguês neurótico e fraco, com a consciência sempre a incomodar”, mas que acaba por lucrar com seus personagens: “Você não suspeita de que vivi o que vivi e inventei o que havia inventado só para você contar?”.

Marco é um midiopata, um homem obcecado por aparecer e por tornar-se uma “autoridade”, que quer ser admirado de qualquer maneira. E era uma autoridade… Ante a qual a opinião pública espanhola quedou-se boquiaberta.

Quem descobriu a impostura de Marco foi o historiador Benito Bermejo, um daqueles caras que não se contenta com qualquer resposta. A falta de coincidência em alguns pontos das próprias falas do “herói cívico”, meteram um mosquito no ouvido de Bermejo, que partiu para uma investigação mais exaustiva. Tal investigação revelou a grande mentira de alguém que representava a Associação das Vítimas do Nazismo na Espanha, daquele que durante 20 anos foi uma figura emblemática na Federação das Associações de Pais de Estudantes da Catalunha, daquele que foi secretário da CNT (Confederação Nacional do Trabalho) no final dos anos setenta. E Marco jamais foi deportado, nunca pôs os pés num campo de concentração alemão, nem foi um ferrenho opositor do franquismo. Enric Marco era uma invenção, uma ficção.

Cercas escreve o livro sem a intenção de defender ou justificar o ato aberrante. Sua finalidade está mais próxima da necessidade de um confronto com o espelho. Dele e do próprio leitor. Quantos de nós somos impostores? Algumas mentiras são nobres como Platão consideraria, oficiosas como Montaigne colocaria, ou uma válvula de escape da realidade como Nietzsche afirmava? Pois Marco, depois dos 50 anos de idade, decidiu se levantar contra o anonimato de sua vida. E o fez mentindo, inventando uma história heroica que conseguiu manter por mais 30 anos, sabendo aproveitar-se do esquecimento histórico.

A realidade mata e a ficção salva. Essa premissa ressoa insistentemente à medida que as páginas passam. Talvez sim. A mentira de Marco é a Rainha das mentiras, é a Mentira das mentiras, é uma zombaria implacável contra a dor de quem realmente morreu ou sobreviveu no inferno. Porém, nela também fica clara a necessidade humana de sobreviver diante da realidade inóspita e avassaladora.

Recomendo.

Obs.: A edição brasileira, com a figura de Marco ocupando a parte vazada da capa, é um achado.

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Javier Cercas, em ‘O Impostor’

Javier Cercas, em ‘O Impostor’

Para mim, a autoironia é apenas o grau zero da decência, o mínimo de honestidade que alguém deve ter, principalmente se escreve nos jornais: afinal, a crítica começa pela autocrítica, e quem não é capaz de rir de si mesmo não tem o direito de rir de nada.

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