70 anos da Bomba de Hiroxima: retornando ao mais horrível ‘Porque hoje é sábado’ de todos os tempos

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Hoje, faz 70 anos que esta bomba foi jogada. No dia 3 de novembro de 2007, publiquei excepcionalmente um furibundo obituário em lugar do tradicional PHES (Porque hoje é sábado). O motivo era simples: naquela semana tinha falecido no maior conforto um dos homens cuja existência mais me abalavam — Paul Tibbets.

Quando criança, lá pelos 8, 9 anos, perguntei a meu pai sobre o homem que fizera “aquilo em Hiroxima” ao final da Segunda Guerra. Não sobre quem ordenara — lá ia eu me preocupar com isso! –, eu queria saber sobre quem fizera. Parecia-me impossível alguém viver sabendo o efeito de sua ação. Não conhecia a palavra CULPA no sentido que hoje conheço, mas tinha ideia de que existiam atos impossíveis de se carregar por aí. Meu pai fez uma pesquisa para me responder e, dias depois, me disse: “Ele não se arrependeu”. Naquele dia, entendi um pouco menos o mundo.

Volto a este post porque esta semana morreu o último tripulante do avião que bombardeou Hiroshima: Theodore van Kirk. Suas declarações sobre a bomba e as guerras eram bem diferentes das de Tibbets: “Gostaria de ver as guerras e as armas definitivamente abolidas”.

Abaixo, minha homenagem de 2007 a Paul Tibbets.

.oOo.

Ontem morreu Paul Tibbets, resultado da cruza entre Enola Gay e Paul Warfield Tibbets.

Viveu 92 anos, foi feliz e parece não ter sofrido dores

Nem físicas, nem morais, nem as da fome ou do desprezo.

Deus, em sua insistente não existência, deixou-lhe dizer que

“Não se arrependeu de ter ‘deixado cair'” em Hiroxima,

a bomba de 6 de agosto de 1945, que matou instantaneamente

78.000 e depois mais 62.000 japoneses.

O extremado amor de Paul por sua mãezinha ficou bem claro

quando ele batizou o B-29 com seu nome, hoje imortalizado.

Paul Tibbets era filho de Enola Gay e um grandíssimo filho da puta,

e partiu deste mundo para o inferno que existe, mas apenas sob o(a) Enola Gay.

Pensem nas crianças mudas telepáticas
Pensem nas meninas cegas inexatas,
Pensem nas mulheres rotas alteradas,
Pensem nas feridas como rosas cálidas,
Mas não se esqueçam da rosa da rosa,
Da rosa de Hiroxima a rosa hereditária,
A rosa radioativa estúpida e inválida,
A rosa com cirrose a anti-rosa atômica,
Sem cor nem perfume sem rosa sem nada

A Rosa de Hiroxima – Vinícius de Moraes

A bomba
é uma flor de pânico apavorando os floricultores
A bomba
é o produto quintessente de um laboratório falido
A bomba
é estúpida é ferotriste é cheia de rocamboles
A bomba
é grotesca de tão metuenda e coça a perna
A bomba
dorme no domingo até que os morcegos esvoacem
A bomba
não tem preço não tem lugar não tem domicílio
A bomba
amanhã promete ser melhorzinha mas esquece
A bomba
não está no fundo do cofre, está principalmente onde não está
A bomba
mente e sorri sem dente
A bomba
vai a todas as conferências e senta-se de todos os lados
A bomba
é redonda que nem mesa redonda, e quadrada
A bomba
tem horas que sente falta de outra para cruzar
A bomba
multiplica-se em ações ao portador e portadores sem ação
A bomba
chora nas noites de chuva, enrodilha-se nas chaminés
A bomba
faz week-end na Semana Santa
A bomba
tem 50 megatons de algidez por 85 de ignomínia
A bomba
industrializou as térmites convertendo-as em balísticos interplanetários
A bomba
sofre de hérnia estranguladora, de amnésia, de mononucleose, de verborréia
A bomba
não é séria, é conspicuamente tediosa
A bomba
envenena as crianças antes que comece a nascer
A bomba
continnua a envenená-las no curso da vida
A bomba
respeita os poderes espirituais, os temporais e os tais
A bomba
pula de um lado para outro gritando: eu sou a bomba
A bomba
é um cisco no olho da vida, e não sai
A bomba
é uma inflamação no ventre da primavera
A bomba
tem a seu serviço música estereofônica e mil valetes de ouro, cobalto e ferro além da comparsaria
A bomba
tem supermercado circo biblioteca esquadrilha de mísseis, etc.
A bomba
não admite que ninguém acorde sem motivo grave
A bomba
quer é manter acordados nervosos e sãos, atletas e paralíticos
A bomba
mata só de pensarem que vem aí para matar
A bomba
dobra todas as línguas à sua turva sintaxe
A bomba
saboreia a morte com marshmallow
A bomba
arrota impostura e prosopéia política
A bomba
cria leopardos no quintal, eventualmente no living
A bomba
é podre
A bomba
gostaria de ter remorso para justificar-se mas isso lhe é vedado
A bomba
pediu ao Diabo que a batizasse e a Deus que lhe validasse o batismo
A bomba
declare-se balança de justiça arca de amor arcanjo de fraternidade
A bomba
tem um clube fechadíssimo
A bomba
pondera com olho neocrítico o Prêmio Nobel
A bomba
é russamenricanenglish mas agradam-lhe eflúvios de Paris
A bomba
oferece de bandeja de urânio puro, a título de bonificação, átomos de paz
A bomba
não terá trabalho com as artes visuais, concretas ou tachistas
A bomba
desenha sinais de trânsito ultreletrônicos para proteger velhos e criancinhas
A bomba
não admite que ninguém se dê ao luxo de morrer de câncer
A bomba
é câncer
A bomba
vai à Lua, assovia e volta
A bomba
reduz neutros e neutrinos, e abana-se com o leque da reação em cadeia
A bomba
está abusando da glória de ser bomba
A bomba
não sabe quando, onde e porque vai explodir, mas preliba o instante inefável
A bomba
fede
A bomba
é vigiada por sentinelas pávidas em torreões de cartolina
A bomba
com ser uma besta confusa dá tempo ao homem para que se salve
A bomba
não destruirá a vida
O homem
(tenho esperança) liquidará a bomba.

A Bomba – Carlos Drummond de Andrade

hiroxima

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39 comments / Add your comment below

  1. Comentários feitos no blog anterior

    Emocionante, Milton.

    Lucia Malla Porque Hoje é Sábado – Vo… Dec 12 2007

    Ele estava “apenas cumprindo ordens”. Mero meio para fins que “não lhe cabiam” decidir, imagine só. O que dá mais medo do que a bomba é a persistência dessa possibilidade, ainda incrivelmente aberta com os ‘avanços’ de nossa cultura.

    Catatau Porque Hoje é Sábado – Vo… Nov 21 2007

    Não, Tarsis. Eu, se fosse do exército, provavelmente obedeceria a ordem e explodiria a cidade. Sou obediente e poucos sabiam das conseqüências naquela época. O que acho desumano é a manutenção da convicção do piloto ao dizer que faria tudo novamente e que foi bem feito. Meu problema é com ele. Sei que quem mandou a bomba foram os EUA e que, na época, deve ter sido até correto do ponto de vista estratégico por um fim à guerra daquela forma. Marco, você faz sempre bem em me obedecer… Abraço.

    Milton Ribeiro Porque Hoje é Sábado – Vo… Nov 7 2007

    Fico pensando.. será que só o piloto é culpado? Quem fez a bomba, que assinou a ordem, quem começou a guerra.. pra mim tanta gente burra é culpada.. E infelizmente alguns milhões sempre pagam pela burrice de uns poucos. Abs T§

    Társis Porque Hoje é Sábado – Vo… Nov 6 2007

    Super Milton, também gostei desse surpreendente “porque hoje é sábado”. Só não sou tão otimista quanto o Eduardo aí em cima, que acredita que isso nunca será esquecido. Acho que o ser humano tem uma memória seletiva doentia, posts como esse ajudam a postergar o esquecimento. Mudando de assunto, obedeci tua ordem e mandei o meu Top 5 momentos felizes futebolisticamente, confira lá. Hugs.

    Marco Aurelio Brasil Porque Hoje é Sábado – Vo… Nov 6 2007

    Milton, em relação à questão religiosa que comentaste para a Denise, lí, um dia desses uma frase do grande físico Richard Feynman (não particpou da bomba), mais ou menos assim: “Os homens bons sempre farão o bem, os maus sempre farão o mal, mas só a religião permite que o bons façam o mal”. Branco

    Ricardo Branco Porque Hoje é Sábado – Vo… Nov 5 2007

    Milton, justamente. Foi um dos momentos de maior asco que senti num filme. Talvez a frase não seja extamente ” assim é fácil”, mas talvez: “o crime é tão grande que não ver permite-me negá-lo”. Não seria a continuãção do “cumpri ordens nazista”? Será que não é também por isso que os americanos fazem estes bombardeios antes de invadir um país? Branco

    Ricardo Branco Porque Hoje é Sábado – Vo… Nov 5 2007

    Milton, aliado a voce na indignação. E ele teve uma vida longa e feliz, eu suponho. Von Braun também, até o final da vida nunca se mostrou arrependido. Não nos esqueçamos que tem um Bush ainda dando ordens semelhantes. Forte abraço, rapaz! ps: mande-me um e.mail com endereço de envio do livro, ok?

    valter ferraz Porque Hoje é Sábado – Vo… Nov 5 2007

    Milton, você transformou o sábado em reflexão e o costumeiro colírio em lágrimas. Mas era necessário. Abraços.

    Ery Porque Hoje é Sábado – Vo… Nov 4 2007

    …uma vez eu li uma entevista dele, e ele admitia que não tinha noção do que ia jogar em Hiroshima. e que mesmo instantes depois, não fazia idéia da destruição que causou, e retornou à base. mais fdp ainda eram os responsáveis pelo programa nuclear. lembro de um documentário onde , nos testes em Alamogordo, os oficiais expuseram os recrutas do batalhão para que observassem, de longe, a detonação de uma das bombas. em seguida, fizeram um filme no local, e todo o elenco morreu de câncer – incluindo John Wayne e a Agnes Moorehead, a Endora de a Feiticeira.

    Serbão Porque Hoje é Sábado – Vo… Nov 4 2007

    nos teus sábados, milton, a gente sempre perde o fôlego: de uma maneira ou de outra. a crueza das fotos se faz necessária. a crueza dos homens (alguns deles) é que ultrapassa de longe o absurdo. um abraço.

    theo Porque Hoje é Sábado – Vo… Nov 4 2007

    Que triste, Milton! Incrível como o ser humano é capaz de tanta barbárie! Jamais nos esqueceremos desses horrores. Passei para dar um alô e deixar um beijo.

    Laura Porque Hoje é Sábado – Vo… Nov 3 2007

    Cláudio, muito obrigado pelo comentário. Com meu poder nenhum, resolvi acertar as contas pessoalmente com este Sr. Ramiro, não entendi o que teus poemas têm a ver com Mr. Tibbets… Branco, assim é fácil, não? Eu não vejo, então não existem! Para proteger-se da bomba, o Enola Gay voava altíssimo quando Tibbets “deixou-a cair”. Tibbets não viu nada também. Só um cogumelo, talvez. Sim, Eduardo, nunca se apagará. Fernando, infelizmente tens razão. Nosso jornalismo mal deu esta notícia. E olha que ela é uma verdadeira usina de analogias e metáforas. Denise, não tenho nenhuma fé, só combato os cristãos na medida em que as maiores barbáries são justificadas/perdoadas pela religião. Um beijo. Fernanda, obrigado.

    Milton Ribeiro Porque Hoje é Sábado – Vo… Nov 3 2007

    Que seríamos se não nos restasse a capacidade de nos indignar? Ao ver o que um semelhante faz com outros semelhantes (sim, somos todos semelhantes) ficamos horrizados, pois não é a barbárie nem a pulsão de morte que gostaríamos de experimentar. O “Porque hoje é Sábado” fez o contraponto terrível: sempre privilegia a ‘pulsão de vida’ -eros- e hoje ressalta o outro lado: tánatos, a pulsão de morte.

    Cláudio Costa Porque Hoje é Sábado – Vo… Nov 3 2007

    “Porque Hoje é Sábado” eis a “Bandeira de Esperança”. AÇUCENA by Ramiro Conceição Estaria Deus Ferido mortalmente da própria criação diante? Existiria tal seta envenenada que penetrou o Seu Coração? Será que Deus não sabia, dentre a Sua Sabedoria, do nome do podre poder passageiro do dinheiro na História do Homem? (TRAGÉDIA!) Por um instante (mesmo que não exista Deus), imagine-se Deus na Dor diante de tal erro colossal: “COMO REFAZER TUDO?!” Uma Lenda diz, entre Tantas, que Deus Se Fez “Filho do Homem”: Um Canto de Amor às mulheres, aos negros, aos índios, aos gays, aos passarinhos, aos meninos, às meninas e a todas as leis das estrelas sobre as marés… Diz ainda a Lenda, entre tantas tendas, que Deus, qual um Mendigo-Palhaço, Tornou-se um Crucificado Espantalho desprezado ― até pelos pássaros… Então, meu Amor, por favor, quando ensinaremos ao coração com Zelo, Inocência, Delicadeza, Afeto e Alegria que uma Açucena é mais bonita do que qualquer rei (Salomão)? BANDEIRA DA ESPERANÇA by Ramiro Conceição Na casa do poeta, há um quintal com um varal onde perdura a Bandeira da Esperança ― ao Sol…

    Ramiro Conceição Porque Hoje é Sábado – Vo… Nov 3 2007

    Post exemplar. Nada a acrescentar.

    Fernanda Dutra Porque Hoje é Sábado – Vo… Nov 3 2007

    Milton: o uso — exemplar! — que, neste dia 3, você resolveu dar ao seu espaço “tradicional” de beleza etc, dos sábados, DEMONSTRA bem o que Milton Ribeiro poderia fazer, caso ele estivesse no lugar da grande maioria dos idiotas que ocupam as editorias dos jornais e das revistas brasileiras.

    fernando monteiro Porque Hoje é Sábado – Vo… Nov 3 2007

    Há muitas perguntas que também faço, tantos porquês, mas Deus sabe, sim, ele sabe o porquê de tudo isso. Não consigo deixar de crer nele, embora não compreenda seu modo de agir. Texto apropriado pra refletirmos sobre as açoes humanas. abraço, garoto

    denise Porque Hoje é Sábado – Vo… Nov 2 2007

    Mais um capitulo desta triste história, se vai. Ela nunca se apagará, da memória do homem, sobre a face da terra! Muito boa postagem.

    Eduardo Porque Hoje é Sábado – Vo… Nov 2 2007

    Milton, há um cena em Corações e Mentes em que o piloto é perguntado sobre como conseguia atirar as bombas NAPALM. Ele respondeu que não as via cair e não via os mortos, então era como se não existissem. Esta frase não descreve corretamente o episódio… Branco

    Ricardo Branco Porque Hoje é Sábado – Vo… Nov 2 2007

  2. Tá aí uma coisa que sempre discussões com minha mulher. Ela tem certeza que as pessoas pagam, aqui, nesta vida, o mal que fizeram. Eu digo que não e aponto como exemplos Mengele, Jack The Ripper e outros menos votados. A verdade é que nenhum deles, nem nos seus mais loucos delírios, poderia sonhar chegar a 10% das vítimas do piloto do Enola Gay. O incrível é que a capacidade militar do Japão já estava esgotada. As bombas foram só para mostrar ao mundo o que aconteceria com quem se atrevesse a desafiar Tio Sam.

    1. Sim, a capacidade militar estava esgotada, mas a estupidez sanguinolenta do fanatismo militarista nipônico, contudo, continuava lutando com vigor e ainda em plena matança! A bomba foi necessária, e se serviu para mostra para outros aventureiros irresponsáveis de que os EUA agora detinham esse poder avassalador, muito melhor… Assim, o crápula do Stalin enfiou a viola no saco!
      Continuar com esse discursinho anti-americano de esquerdista ginasiano dos anos sessenta, além do descabimento é algo que não se sustenta frente os tempos atuais ou quando o interlocutor tiver dois neurônios funcionando… Será que não conseguem enxergar dois milímitros além das nuvens obnubiladoras das ideologias anacrônicas? Que gente mais atrasada…

  3. Peraí, peraí. Para tudo. As drogas que tomei no hospital deixaram sequelas irreparáveis ou, depois de ter lido e relido os posts anteriores, eu entendi direito mesmo e essa moça da Casa tá pedindo R$ 1.003,50? R$ 1.003,50!!! Meu Deus, a Globo tá falindo! Pagou dois real pelos direitos do livro? Sacanagem, Milton Ribeiro. A moça morrendo de fome e você a sacaneando só porque ela não escreve bem. Consciência, jovem. Lelê, tenho dez real e três centavo. Passe aí um número da conta que a gente faz o depósito, na boa. Meus santos alazões brancos! Shame on you, Milton Ribeiro, shame on you.

    1. Ih cara… Não entendestes porra nenhuma! Deve ser repé das drogas que te deram no hospital. Os 1003,00 é apenas o valor da ação, uma referência para cálculos das custas judiciais e não o valor pretendido na indenização cobrado do Milton. Aliás, essa, se houver, será arbitrada pelo juiz… Que diabos, esses leitores são muito ignorantes, Milton…

        1. Gilberto, o mundo estaria salvo se fosse todo composto de trolls inteligentes que entendem ironia tão bem quanto o anônimo aí de cima, não achas?

    2. Que coisa Milton… Paul Tibbets foi apenas o instrumento que conduziu a bomba até Hiroshima. Quem a lançou foi a realidade da guerra e a estupidez do militarismo nipônico, que não queria desistir da matança que haviam iniciado ainda na década de 1930!
      A bomba foi, certamente, um horror. Contudo, um horror necessário para acabar com a guerra e com a arrogância criminosa do militarismo japonês! Os fanáticos sanguinolentos dos japonesês, apesar da bomba de Hiroshima, insitiram ainda em continuar a matança e só desistiram quando receberam a segunda bomba, desta vez em Nagasaqui três dias depois do ataque a Hiroshima. Culpar o piloto pela trajédia é uma tolice monumental. E também, tentar chamar os EUA de criminoso pelo lançamento é anti-americanismo primário que sómente os ignorantes da história ainda o fazem! Esse falso entendimento, també,, é coisa de esquerdistas ginasianos que não sabem porra nenhuma sobre nada! Fosse você Milton, não embarcava nessa… Voce pinta de intelectual e deve manter a postura, não se contaminando com coisas dignas dos estultos e dos ignorantes.

  4. Milton, não sei se você leu “Hiroshima”, do John Hersey. Esse jornalista americano acompanha a vida de alguns sobreviventes de Hiroshima, um ano após a tragédia, e quarenta anos depois. Um momento estranho do livro (entre tantos outros momentos em que o terror contrapõe, de um lado, a ação de agentes de um país obliterado pela própria supremacia assassina; e de outro, um altruísmo grandioso de seres humanos que se ajudavam até as últimas consequências, reduzidos a um nível quase incorpóreo de mutilação pela bomba) é quando, convidado a atravessar o Atlântico para participar de um programa televisivo de debates pelo advento do aniversário do massacre, um dos sobreviventes _ se não me engano um pastor metodista_ se defronta, sem aviso, com o seu algoz, sentado em uma das poltronas dos debatedores, sob a luz dos refletores do estúdio. O pastor, tomado pelo pânico, fica num contrito silêncio até o término da gravação. Em nenhum momento o assassino o olha, incapacitado ele próprio de se manifestar por altos níveis de ingestão de álcool. Isso, quarenta anos depois. Quero pensar que, ao contrário do sobrevivente que desconhecia quais os outros componentes da mesa, o emissário da bomba havia recebido o cronograma com o nome dos participantes, e para poder se pôr de frente com um deles, ele tinha que iludir aquela voz que não o abandonou por quatro décadas ( e por quanto durou a sua longuíssima vida), que lhe bradava mesmo sob o pesado artifício das desculpas e justificativa oficiais. Ainda não tenho cultura suficiente para me decretar ateu, por isso penso que a longevidade, em casos específicos, é o verdadeiro inferno.

    1. Não li este livro, mas tua narração me deixou interessadíssimo.

      Curioso esta pequena frase sobre ateísmo que tu escreves. Sou ateu não por uma questão de ter pensado a respeito, sou ateu naturalmente. Nunca acreditei n(N)ele, sempre foi um Papai Noel. E, apesar de desnecessária hoje, penso que a religião seja inerradicável. Há pessoas que precisam (e aqui não vão cabem críticas) e outros que passam ao largo.

      Abraço.

      1. Muito bom o tal livro, da coleção Jornalismo Literário. Sobre Deus, quem sou eu para continuar num assunto tão espinhoso. Só sou reservado contra essa onda de ceticismo muitas vezes só estampado para o alarde da tal inteligência do nosso amigo secreto chinfrin. Nessa história, me faço com o Dostô, que dizia que Cristo existindo ou não, tô com ele. Não me confundir com católico ou pentecosta, por favor!

  5. Rapaz,
    eu havia prometido que não iria meter meu nariz nesta história, até porque não há como competir com o nariz do réu.
    POrém, ao começar a ler a tal inicial do advogado da acusada, foi impossível manter o silêncio.
    Seguinte é este.
    Milton Ribeiro, a Bahia quer saber: como é que o sujeito lhe acusa de jornalista e você não diz nada? Francamente..

  6. É evidente que jamais relativizarei a responsabilidade do Tibbets e dele (mesmo falecido) esperava também o sentimento de culpa pelo mostruoso crime por ele cometido. Faz-me lembrar o Julgamento dos Criminosos Nazistas (em Nuremberg), durante o qual inúmeros oficiais da SS e comandantes dos campos de concentração e extermínio alegaram: “apenas obedeci ordens”. A capacidade de se sentir culpa existe apenas naquelas pessoas cujo caráter foi forjado sob efeito da ‘castração’, ou seja, aquelas pessoas que reconhecem em si a possibilidade de cometer erros e o desejo de não cometê-los; caso errem, se arrependerão (culpa), declaram não querer repeti-los e se dispõem a repará-lo, se necessário com a própria vida. Ora, sem uma estrutura psíquica desse quilate, o que esperar dos psicopatas que se escondem sob o manto da obediência cega e irrestrita?. Em nome do direito, da ordem, da religião, da verdade, das convicções, dos dogmas, mata-se SEMPRE.

    1. São coisas diferentes , Claudio… Nuremberg é o justo momento em que a civilização leva aos bancos dos réus criminosos hediondos responsáveis por crimes contra a humanidade. O genocídio e os genocidas sentavam no banco dos réus. A alegação da ‘obdiência das ordens’ não se susentou e foram os réus condenados a penas pesadas, alguns até a morte… Já o ataque a Hiroshima não pode ser comparado aquilo que foi julgado em Nuremberg. O bombardeio a Hiroshima (por que será que ninguém comenta o bombardeio de Nagasaqui? Aliás, como era o nome do piloto do avião que jogou a bomba?) foi uma necessidade da guerra imposta pela insensatez do militarismo nipônico que insistia em continuar resistindo, e matando, mesmo que a guerra estivesse perdida. A bomba de Hiroshima foi uma exigência da sociedade americana que não aguentava mais ver seus filhos ser massacrados por uma luta, insensatamente mantida pelo fanatismo japonês. Pronto, assunto encerrado. Continuar acusando os Estados Unidos pelo bombardeio é anti-americanismo esquerdista idiota… E também é uma maneira estúpida de isentar o fanatismo japonês de seus crimes e de ter provocado a bomba… A bomba foi justa, por mais que isso possa desagradar os ginasianos esquerdistas e os safados oportunistas do anti-americanismo! Mas de rock eles gostam, né? De Sharon Stone, também? Inconsequentes aobstados…

      1. Jaco! Jaco! Jaco!
        Hiroshima, Nagasaqui(esqueceste de Dresden, na Alemanha) foram experiências militares a testar o poder de destruição à TERCEIRA GUERRA que os paranóicos militares, de então,imaginaram que aconteceria,logo a seguir, contra a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.

        Jaco, quando de Hiroshima,
        a SEGUNDA GUERRA JÁ ERA FAVAS CONTADAS.

        Hiroshima, Nagasaqui e Dresden são a prova cabal da existência do MALIGNO entre nós e, consequentemente, é uma da provas históricas da existência de Deus,para mim, por negação.
        Contudo, ainda sou um agnóstico-cético…

    1. Prezado Jaco Chinfrin, de acordo com Freud “qualquer chiste guarda em si uma profunda verdade”. Creio que tu te apresentas via um pseudônimo. Mas é engraçado: o seu prenome é Jaco (sem acento). Pergunta do CAPETA: quem entre nós dois não acredita em Deus? Pelo visto você é um ateu. Eu, um agnóstico-cético. Deixando bem claro: um ateu não acredita em Deus por princípio (tal palavra poderia ser denominada de FÉ). Eu, por outro lado, por ser um agnóstico-cético, espero a prova da existência DELE e, portanto, não tenho fé, mas um bilhão de dúvidas com esperança…

      Um fraternal abraço, Jaco.

  7. Jacó, seus comentários são levianos. “A bomba foi, certamente, um horror. Contudo, um horror necessário”. Com essa frase, pretende concluir o assunto, e pronto. No mesmo molde, pode-se aplicar esse raciocínio reducionista a todo conflito do século passado, sob a justificativa de que tudo compreender é tudo perdoar. Assim, a segunda guerra foi necessária para livrar a Alemanha da retalhação do tratado de Versalhes; a ditadura brasileira para salvar o país “dos ginasianos esquerdistas e dos safados oportunistas do anti-americanismo!”, como disse logo acima; e por aí vai… Sei que a tentação da impessoalidade da net nos açula à vaidade de vermos nossas palavras formalizadas na tela e reapartidas para um sem número de leitores desconhecidos_ o que antes eramos limitados pelo anonimato dos cadernos ou da máquina de escrever; mas essa exposição não nos torna necessariamente os gênios secretos que julgávamos ser no anonimato. Daí, que tal um pouco de humildade e autocrítica sob esse pseudônimo, e considerar a hipótese de que, talvez (veja: talvez!), você não seja o arauto da verdade?

  8. Jaco, por favor,
    escute com o teu coração este poema…

    ILHA DAS ÁGUIAS
    by Ramiro Conceição

    Cantam cantos antigos
    que o Mal é ardiloso
    e que, sedutor, ilude a platéia
    que, por ter os caninos escuros
    com sangue de assassinatos cometidos,
    não percebe  por medo  a insensatez.

    Cantam sonhos longínquos
    que o Mal é a raiz da culpa
    que impede esta monada,
    desde a tenra idade,
    à iluminação, à Humanidade,
    ao cuidado desta Terra única.
    Cantam que tudo em nós é fruto
    duma moral hipócrita e repressora
    e que tudo sempre termina
    num medíocre e terrível engano
    colossal de templos e religiões:
    uma manada de anões primatas,
    bambos, prontos pra assassinar
    quem ouse à alegria de duvidar.

    Cantam poemas modernos
    que a nossa civilização
    judaico-cristã-muçulmana,
    por ser estupidamente desumana,
    possui a face dum quadro de Picasso:
    o lado esquerdo em cisalhamento ao direito
    tal qual o desespero em gritos dos ciprestes,
    destorcidos, das telas de Van Gogh…

    Cabe aqui uma pergunta.
    Fomos, somos e seremos somente
    caretas, caricaturas e canalhas
    dum bando de micos amestrados?

    Cabe aqui uma resposta.
    Acreditem!,
    por herança da evolução,
    somos um milagre repleto
    de coragem.
    Mas coragem pra quê?!
    Para cantar e permitir
    a continuidade da Vida
    nesta Casa bendita.

    Portanto canto
    e declaro claramente
    que somos parte
    das Consciências do Futuro,
    do Passado e do Presente
    em processos de passagem;
    canto e declaro
    claramente que a diferença
    entre um Bem-te-vi e Einstein
    é simplesmente a maneira
    diferente do bater de asas.

    O Amor é o senhor da Terra!
    E não há diferença qualquer
    entre a mulher, que nos braços
    seus filhos queridos abraça,
    e o Sol, que com nove braços
    seus filhos queridos entrelaça
    (Plutão não é um bastardo!).

    Dizem que sou de aquário
    pois ao sonhar às vezes rio,
    a crer que do nosso aguadeiro
    florescerá a sinfonia do Amor
    que será cantada e amada
    em estelares línguas claras.

    Porém, confesso: sou um contumaz
    devorador de astrólogos à milanesa
    regados — é claro— à muita cerveja.
    Contudo, lúcido, continuo a declarar
    que o Amor não necessita de templos
    e que nunca será de pouquíssimos:
    pois Beethoven canta no Uirapuru!

    À frente
    das minhas asas,
    dança com graça
    a Ilha das Águias…
    Lá,
    elas procriam…
    De lá,
    elas vigiam…
    De lá,
    vêm
    o início
    e o fim…

    Eu vim… de lá!
    Pra profetizar, instaurar e mediar
    toda a forma de amar que está, ali,
    na estelar sala de estar e, aí,
    dentro do teu Amor, caro Leitor.

  9. Milton,

    somos companheiros nesse clube de ateus! Eu por convicção!Só lastimo que o “caso” tenha te abalado emocionalmente a ponto de ter prejudicado sua semana e o nosso sábado! ELA não merece!

    Até o próximo, porque toda semana tem um sábado!

  10. Não me aventuro nessa arte maior que é a poesia; por isto, apenas reproduzo:

    “Assassino

    Então você vive no fundo do mar,
    E mata tudo o que se aproxima de você ….
    Mas você está muito sozinho, porque todos os outros peixes
    Temem você…
    E você implora por companhia e por alguém para chamar de seu;
    Porque pela sua vida inteira
    Você viveu solitário.
    Em um dia negro em um mês negro
    No fundo negro do mar,
    A sua mãe te deu a vida e morreu
    Imediatamente ….
    Porque não há como ter dois assassinos vivendo
    No mesmo lugar
    E quando sua mãe soube que sua hora chegou
    Ela ficou consideravelmente feliz.

    Morte no mar, morte no mar,
    Alguém por favor venha e me ajude,
    Venha e me ajude
    Peixes não podem voar, peixes não podem voar,
    Peixes não podem e eu também não, eu também não …

    Agora eu sou parecido com você,
    Pois eu matei todo o amor que já tive
    Ao não fazer nada que devia e deixar
    Minha mente se tornar má.
    E eu também sou um assassino,
    Pois a emoção rui profundamente a carne
    E eu também sou solitário, e eu gostaria de poder esquecer de que
    Nós precisamos de amor,
    Nós precisamos de amor,
    Nós precisamos de amor ……”

  11. SE OS TUBARÕES FOSSEM HOMENS
    by Bertold Brecht

    Se os tubarões fossem homens, construiriam no mar grandes gaiolas para os peixes pequenos, com todo tipo de alimento, tanto animal quanto vegetal. Cuidariam para que as gaiolas tivessem sempre água fresca e adoptariam todas as medidas sanitárias adequadas. Se, por exemplo, um peixinho ferisse a barbatana, ser-lhe-ia imediatamente aplicado um curativo para que não morresse antes do tempo.

    Para que os peixinhos não ficassem melancólicos haveria grandes festas aquáticas de vez em quando, pois os peixinhos alegres têm melhor sabor do que os tristes. Naturalmente haveria também escolas nas gaiolas. Nessas escolas os peixinhos aprenderiam como nadar alegremente em direcção à goela dos tubarões. Precisariam saber geografia, por exemplo, para localizar os grandes tubarões que vagueiam descansadamente pelo mar.

    O mais importante seria, naturalmente, a formação moral dos peixinhos. Eles seriam informados de que nada existe de mais belo e mais sublime do que um peixinho que se sacrifica contente, e que todos deveriam crer nos tubarões, sobretudo quando dissessem que cuidam de sua felicidade futura. Os peixinhos saberiam que este futuro só estaria assegurado se estudassem docilmente. Acima de tudo, os peixinhos deveriam rejeitar toda tendência baixa, materialista, egoísta e marxista, e denunciar imediatamente aos tubarões aqueles que apresentassem tais tendências.

    Se os tubarões fossem homens, naturalmente fariam guerras entre si, para conquistar gaiolas e peixinhos estrangeiros. Nessas guerras eles fariam lutar os seus peixinhos, e lhes ensinariam que há uma enorme diferença entre eles e os peixinhos dos outros tubarões. Os peixinhos, proclamariam, são notoriamente mudos, mas silenciam em línguas diferentes, e por isso não se podem entender entre si. Cada peixinho que matasse alguns outros na guerra, os inimigos que silenciam em outra língua, seria condecorado com uma pequena medalha de sargaço e receberia uma comenda de herói.

    Se os tubarões fossem homens também haveria arte entre eles, naturalmente. Haveria belos quadros, representando os dentes dos tubarões em cores magníficas, e as suas goelas como jardins onde se brinca deliciosamente. Os teatros do fundo do mar mostrariam valorosos peixinhos a nadarem com entusiasmo rumo às gargantas dos tubarões. E a música seria tão bela que, sob os seus acordes, todos os peixinhos, como orquestra afinada, a sonhar, embalados nos pensamentos mais sublimes, precipitar-se-iam nas goelas dos tubarões.

    Também não faltaria uma religião, se os tubarões fossem homens. Ela ensinaria que a verdadeira vida dos peixinhos começa no paraíso, ou seja, na barriga dos tubarões.

    Se os tubarões fossem homens também acabaria a ideia de que todos os peixinhos são iguais entre si. Alguns deles se tornariam funcionários e seriam colocados acima dos outros. Aqueles ligeiramente maiores até poderiam comer os menores. Isso seria agradável para os tubarões, pois eles, mais frequentemente, teriam bocados maiores para comer. E os peixinhos maiores detentores de cargos, cuidariam da ordem interna entre os peixinhos, tornando-se professores, oficiais, polícias, construtores de gaiolas, etc.

    Em suma, se os tubarões fossem homens haveria uma civilização no mar.

  12. Concordo que a bomba foi algo horrível, mas o horrível não está exatamente nela, mas sim em sua causa: a guerra. Que diferença existe entre destruir uma cidade instantaneamente, ou destruí-la aos poucos matando todos queimados vivos, como aconteceu na alemanha no final da 2ª guerra (não em berlim, em cidades marginais). A dor e a morte é inerente à guerra. É fruto de uma lógica que sempre existiu na humanidade, uma vez que somente 3 dias se passaram na história sem guerras em qualquer parte do mundo (sem fontes, provavelmente é boato,mas de impacto).

    Sob certo aspecto concordo com Jaco chinfrin, apesar de achar suas maneiras um pouco rudes. Certamente os americanos não são mocinhos nessa história, mas não são, também, arquivilões. O poderio total dos Estados Unidos certamente derrotaria o Japão, agora: a que custo? Semanas moribundas e milhares de mortes para conquistar cada ilhazinha. O Japão possui uma cultura muito militarista, e certamente lutariam até a morte, como ocorreu com os militares que foram para as ilhazinhas: todos morreram, ou por tiro inimigo, ou por suicídio. Acredito que se a guerra continuasse nesse sentido certamente muito mais militares e civis morreriam, mas aos poucos. Com as bombas houve um grande impacto e uma certeza da derrota, mas não aos poucos: de uma vez só, como uma mensagem impossível de não ser ouvida. Mensagem tão potente que até hoje ecoa. E porque? Porque o número de mortes foi muito superior ao de qualquer ataque militar anterior? Não. Porque a morte das pessoas foi muito mais cruel do que qualquer outra causada pelas guerras? Também não, apesar de ter sido muito dolorosa para os que estavam distantes, quantos não agonizam em campos de batalha todos os dias, muitas vezes passando por torturas em prisão inimiga?

    Portanto, o ataque à bomba, apesar de bem intencionado é, ao meu ver, mal direcionado. Devemos nos ater à paz, a não-guerra, e não a não-bomba. Sob certo aspecto a bomba foi até “positiva” em termos de paz. Porque não ocorreram conflitos de escala global durante o período da guerra fria? Porque ambos os lados sabiam muito bem o poder do outro lado, e tinham consciência que um conflito direto iria exterminar ambos os lados comcomitantemente, junto com o resto do mundo (algo que certamente não desejavam). A guerra fria foi uma guerra de ameaças: “-Não faça isso que senão… você não quer isso, quer?”.

    1. Olha avoado, você não é tão avoado assim… Quanto a minha rudeza, explico: sou um judeu feio e mal educado que não costuma perder tempo com rapapés… Nem com poesia!

  13. Há muitos seres humanos que não se arrependem de nada. Os nazistas e seguidores ainda hoje culpam os Judeus pelos males do mundo. Eu tenho primo que sempre diz que “um dia a humanidade vai agradecer Hitler”.
    Há grande número de “católicos” que tentam justificar os horrores da inquisição.
    Tentam justificar o grande morticínio e destruição com a cruzada aos Cártaros e, covardes, tentam culpar as vítimas.
    Paulo Francis escreveu que apesar do EUA ser o único pais que tinha a bomba, não intimidou a URSS que baixou a cortina de ferro.

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