O erotismo é a sombra que dança na parede. É o suspense no cinema, não a explosão na tela. É o toque que não se completa, a palavra que fica pairando no ar, o olhar que demora um segundo a mais do que o socialmente permitido. Ele habita o território fértil da imaginação, do quase, onde todos os sentidos são aguçados e a pele se torna um radar à procura de um sinal.
Ele nasce do espaço que vibra entre duas peles, do desejo que ainda não encontrou resposta e por isso cresce, tornando-se linguagem. É o território da imaginação, onde o corpo é menos geografia e mais promessa.
O sexo é a palavra dita em voz alta, é a realização do que o erotismo anuncia. É a poesia em ação, o verbo que se materializa. É quando o pensamento se curva diante da matéria, quando o imaginado se torna palpável e o corpo ganha voz. É o momento em que a dança das sombras se transforma no abraço dos corpos. O sexo, quando tocado pela mão do erotismo, não é mero ato mecânico; é uma conversa profunda sem palavras. É a pele que lê a pele, o ritmo que se encontra, o diálogo de respirações e batidas cardíacas aceleradas. (Acabo de lembrar do que disse Keith Richards sobre os orgasmos de idosos como nós: nunca se sabe, pode ser um infarto)
O erotismo sem corpo é a abstração; o sexo sem imaginação é burocrático. No encontro entre erotismo e sexo, o tempo é esquecido, o mundo se estreita, e duas existências — por um instante — se percebem. E, por isso mesmo, tudo torna-se profundamente humano.