Eu era muito jovem quando li “O Morro dos Ventos Uivantes”. A leitura do livro despertou algo que jamais morreu em mim — o ódio ao romantismo descabelado. Até hoje tenho muita dificuldade não apenas de ler qualquer ultra romantismo como de ouvir algumas obras de Tchaikovsky. E não consigo engolir Rachmâninov nenhum, nem dourado pelos melhores pianistas.
Mas era pior, havia no “Morro” algo que eu não entendia, sei lá, com 12 anos: uma pulsão estranha de erotismo e autodestruição. Para a criança que eu fui, era surpreendente um romance não mostrar o amor e o desejo como força de entendimento e harmonia (ou da sacanagem que eu ainda não entendia), mas como energia excessiva e violenta. O vínculo entre Catherine e Heathcliff era um furacão e uma fusão absoluta, em que o outro é vivido como extensão de si mesmo. Em termos de sentimentos, eles eram como o ET e o Elliot, entendem? E Heathcliff passava a amar Catherine ainda com mais fúria depois de morta, e sua obsessão vai na direção da própria destruição.
Agora apareceu o filme “O Morro dos Ventos Uivantes”. A diretora Emerald Fennell quer que o título apareça sempre entre aspas porque ela não está filmando o livro, mas fazendo uma variação sobre ele. Um cliente da Livraria Bamboletras foi vê-lo e disse que não é uma variação, mas uma distorção, e que, além do mais, Heathcliff, o bastardo talvez filho de ciganos, que é descrito por Emily Brontë como sendo de pele escura, aparece branquinho branquinho. Ora, aí já é demais.
Li que o filme inclui cenas de “forte” tensão erótica. Só imagino… O cinema norte-americano briga bem, mas transa pouco e mal, então deve ser aquele erotismo coreografado, talvez até agressivo. Talvez mostre o desejo como força bruta frustrada e obsessiva — tipo dos clientes do Epstein –, fiel ao espírito do romance, mas achatado pelo pudor.
Não vou ver. Afinal, Brontë me interessa, claro. Fennell nem tanto.