Vai escrever bem assim no raio que o parta!

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“Mas o pequeno Johann via mais do que devia ver; os seus olhos, esses olhos tímidos, castanhos e orlados de sombras azuladas, observavam demasiado bem. Não somente via a amabilidade certeira que o pai irradiava para todos, via também — via-o com perspicácia estranha e atormentadora — o quanto era difícil fazê-la; via como o pai, após cada visita, se tornava mais taciturno e pálido, como, de olhos cerrados e pálpebras avermelhadas, se recostava contra o canto da carruagem; com o coração horrorizado notava como, no limiar da casa seguinte, deslizava uma máscara por sobre esse mesmo rosto, e como, sempre de novo, uma elasticidade repentina se apoderava desse corpo fatigado… Ao ver tudo isso: mímica, fala, porte, atividade e comércio com outras pessoas, o pequeno Johann não tinha a impressão de que se tratava da realização ingênua, natural e semiconsciente de interesses práticos que o pai tivesse em comum com os demais e quisesse defender contra eles, mas sim um fim em si mesmo; parecia-lhe um esforço voluntário e artificial, onde, em vez do sentimento sincero e simples, tinha de trabalhar uma virtuosidade extremamente difícil e cansativa, para garantir a atitude impecável. Diante da ideia de que esperavam dele próprio que, também, um dia, se exibisse em reuniões públicas e agisse, falando e gesticulando, sob a pressão de todos esses olhares, Johann fechava os olhos, num arrepio de relutância medrosa…”

Thomas Mann, Os Buddenbrook, Décima parte, Capítulo 3, Pág. 551 — Tradução de Herbert Caro

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