Bach, 341 anos

Bach, 341 anos

Meu pai ouvia muita música em casa e, no final dos anos 60, quando eu tinha uns 12 anos, iniciou-se uma luta: eu queria ouvir Beatles, Rolling Stones, Led Zeppelin, The Who e Mutantes e ele seus sambas e compositores eruditos românticos. Tínhamos poucos pontos de concordância: Chico Buarque, Paulinho da Viola e a bossa nova em geral. Até hoje tenho dificuldades em ouvir Chopin, Rachmaninov, Schumann, Berlioz e outros. Não consigo realmente entender os românticos, à exceção de Brahms e dos tardios.

Naquela época, num fim de tarde que jamais esqueci, eu estava dentro do banheiro, me secando após um banho, quando fui obrigado a sair correndo para a sala, pois estava ouvindo algo absolutamente espetacular, lindo, inteligente, de força rítmica e pensamentos musicais profundos, algo nunca ouvido. Perguntei a meu pai o que era aquilo e ele me disse que era o Concerto Nº 3 de Brandenburgo, da autoria de um sujeito que se localizava como o campeão na mitologia dos compositores e que eu nunca tinha ouvido: Johann Sebastian Bach, o aniversariante de hoje.

Desde aquele dia, Bach se transformou numa espécie de companheiro de vida. Nunca me foi hostil, sempre me trouxe alegria e beleza. Celebrar seu aniversário de 341 anos é, de certo modo, celebrar nossa amizade — um pobre diabo apaixonado por um monumento — e a própria ideia de ordem no mundo — uma ordem que não exclui a emoção, mas a organiza, a eleva e a torna compreensível. Ninguém conseguiu unir com tamanha perfeição o rigor da arquitetura e a liberdade da expressão. Nele, tudo tem sentido, cada linha carrega uma intenção, e no entrelaçamento das diversas vozes surge algo que ultrapassa o humano — não por negar a experiência humana e suas grandezas e fraquezas, mas por levá-la ao seu grau mais alto de transparência e beleza.

Há em Bach uma espécie de confiança radical na inteligência e na lógica. Obras como o Cravo Bem Temperado, a Missa em Si Menor ou a Paixão Segundo Mateus (retirem o “São”, Bach não pôs “Sankt” no título) não são apenas composições: são sistemas vivos, universos autônomos onde emoção, fé e razão existem sem conflito. Seus contrapontos não são exercícios intelectuais estéreis, masturbatórios, mas uma forma de dar voz à complexidade do mundo — como se múltiplas verdades pudessem soar ao mesmo tempo, sem se anularem.

Porém, é claro que o que mais me impressiona é a humanidade dessa grandeza. Bach jamais escreveu para a posteridade, mas para circunstâncias concretas — igrejas, cortes, alunos, ocasiões específicas. Ainda assim, dessa prática cotidiana nasceu uma música transcende qualquer ocasião e que nos fala de perto ainda hoje. Ouvi-lo é perceber que o tempo não diminui certas obras — ao contrário, torna-as mais necessárias. Porque em Bach encontramos uma forma de equilíbrio — uma promessa de que, mesmo no caos, a harmonia é possível.

Bach não precisa de defesa (quem precisa é o Inter) — ele se impõe por si mesmo. Mas hoje é o dia de você ouvir uma de suas Paixões, um de seus prelúdios, uma de suas fugas ou beber uma cerveja — como as que ele produzia. Que a música de Bach continue a nos ensinar que o rigor pode ser apaixonado, que a fé pode ser artesanal (e pessoal, por favor), que o tempo — esse mesmo tempo que hoje nos faz lembrar de sua data de nascimento — pode ser, por alguns instantes, suspenso. Bach foi um presente que recebemos. O mais duradouro, o mais profundo, o mais sublime dos presentes.

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O vídeo que o Eduardo Bueno (Peninha) acaba de soltar no YouTube…

O vídeo que o Eduardo Bueno (Peninha) acaba de soltar no YouTube, chamado “Banqueiro preso, banqueiro Souto” é muito notável, principalmente na metade final. Havia um Banco Souto na época do Império que dominava o mercado. Esse banco quebrou como o Master. Foi um choque tal que a quebra do banco foi citada em “Quincas Borba” e no “Triste Fim de Policarpo Quaresma”.

Uma das coisas que me chamou a atenção foram as crônicas da época lidas pelo Peninha. Eram escritas por mestres, OK, mas seus temas eram sobre o povo que tinha perdido sua grana e sobre a quebra. Hoje, só se fala na quebra, na suruba, parece que esta, a quebra, não afetou um monte de gente com pouca grana. Acho que falta humanidade às coberturas. Nelas, Vorcaro é um canalha, mas parece que não roubou ninguém. Não é dada voz aos prejudicados.

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Para surpresa geral, o Conselho de Curadores da Orquestra Sinfônica de Boston…

Para surpresa geral, o Conselho de Curadores da Orquestra Sinfônica de Boston subitamente demitiu Andris Nelsons. Disseram que seu contrato, que termina em 2027, não será renovado. É um fato incompreensível, dado o excelente trabalho de Nelsons como chefe da BSO. Vide suas gravações para a DG.

Hoje, ao chegar para trabalhar, Nelsons foi recebido na porta do teatro pelos músicos da orquestra. Lágrimas e lamentos foram derramados de ambos os lados.

Não há sinal do presidente da BSO, Chad Smith, nem da presidente do Conselho, Barbara Hostetter. Aqui de longe, posso imaginar o motivo. O tal Conselho de Curadores deve ser um bando de velhinhos endinheirados que querem um repertório mais conservador. Foi assim que tiraram Bernstein de NY décadas atrás. Tipo “só quero ouvir as mesmas coisas, não me venham com novidades”.

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O César Calejon tem toda a razão

O César Calejon tem toda a razão

O César Calejon tem toda a razão: o único homem que tem poder neste país e que é legitimamente de esquerda é o Flávio Dino. Ele estabeleceu, nesta segunda-feira (16/3), que a aposentadoria compulsória não pode mais ser aplicada como punição máxima para magistrados que cometem infrações disciplinares graves. A partir de agora, a sanção mais severa deve ser a perda do cargo, o que acarreta a interrupção imediata do pagamento de salários.

(Precisamos de uns dez Dinos).

Imagina você ser um juiz, cometer crimes e ser premiado com uma aposentadoria recebendo seu último salário. É como receber férias vitalícias. A decisão de Dino vai para votação do STF. Só falta, né?

(Enquanto isso, ninguém ajuda Cuba).

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O Agente Secreto deixou centenas de filmes…

1. O Agente Secreto deixou centenas de filmes atrás de si para chegar ao grupinho de pretendentes ao Oscar. É meio burro qualificá-lo como “perdedor”.

2. O Oscar pouco interessa para a sobrevivência de um filme. Basta ver a pífia lista dos últimos vencedores. Tudo esquecível. Basta ver que Hitchcock, Kubrick, Lynch, Altman, Welles, etc., nunca receberam um Oscar. E fiquei apenas dentre aqueles que trabalharam nos EUA. O Agente Secreto, com sua linguagem original e provocativa, ficará. Tenho certeza.

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Quinta-feira, ao errar uma jogada…

Quinta-feira, ao errar uma jogada…

Quinta-feira, ao errar uma jogada, a tenista n° 1 do mundo Aryna Sabalenka gritou bem alto um sonoro “Put@ que o pariu!”. O pessoal da transmissão caiu na risada, “Opa!”. Acontece que a bielorrussa é noiva de um brasileiro, um certo Georgius Frangulis, se não estou enganado.

É bom que ela saiba que há importantes precedentes de brasileiros com bielorrussas.

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Atrás do balcão da Bamboletras (LXXVI)

[09:28, 05/03/2026] X: Bom dia. Vcs ainda têm aqueles lindos banquinhos pintados?

[10:05, 05/03/2026] Livraria Bamboletras: Tu vais dar risada (ou ficar indignada) quando eu te disser que o cara deixou de nos mandar banquinhos porque não nós não éramos (e nem somos) bolsonaristas.

[10:09, 05/03/2026] X: Putz… Desisto de comprar então… Vai ver eram horrorosos!

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