Os 50 maiores livros (uma antologia pessoal): XXXIII — Jane Eyre, de Charlotte Brontë

Os 50 maiores livros (uma antologia pessoal): XXXIII — Jane Eyre, de Charlotte Brontë

Eu li todo Jane Eyre (1847) para minha mulher. Fiquei com um carinho todo especial pelo livro. É um daqueles romances que sobrevivem porque, além de ser uma história apaixonante, é uma conjetura — avaliei muito este termo — sobre a liberdade das mulheres. Jane Eyre é o romance de uma mulher que não quis abrir mão de si mesma. Mesmo pobre, primeiro negou-se a ficar com um homem casado, depois recusou o casamento com um sujeito bem estranho, na verdade um gay que desejava um casamento de conveniência, ao menos eu interpretei assim. Aliás, o hétero e o gay eram ambos bem estranhos.

Vale lembrar que Charlotte Brontë seria um caso atípico em qualquer época. Ela era uma escritora de inteligência e alta percepção estilística. Mas também era uma figura excêntrica: era antiquada — com suas apropriações do terror gótico e seu protagonista byroniano-assustador-sedutor –, porém era excepcionalmente progressista em sua representação da situação das governantas e em sua insistência de que o trabalho de mulheres tinha valor. Era também uma forasteira isolada dos principais circuitos literários ingleses, longe da grande metrópole onde gente como Thackeray e Dickens pontificavam. Ela achava Londres um lugar de perigos e vícios inimagináveis. Quando uma amiga visitou a cidade em 1834, Charlotte chegou a escrever uma carta para ela depois, expressando seu espanto por ela ter retornado “inalterada”.

É reveladora é a relação de Brontë com Thackeray. Ela era perspicaz o suficiente para compreender seu gênio, chegando a dedicar-lhe a segunda edição de Jane Eyre devido à sua profunda admiração por A Feira das Vaidades. Felizmente, ela também era distante o suficiente das fofocas literárias para não saber que Thackeray havia escondido sua esposa em um hospício (o fato de um personagem de Jane Eyre ter feito quase o mesmo foi pura coincidência). Seus encontros também foram marcados por confusão: diz-se que Charlotte ficou inicialmente estupefata ao conhecer seu ídolo — e confusa quando ele começou a falar sobre o aroma de charutos, sem perceber que ele estava fazendo uma referência lisonjeira à cena de um capítulo de Jane Eyre em que o cheiro do charuto do Sr. Rochester deixa Jane encantada. Charlotte pareceu não entender…

Mal-entendidos semelhantes ocorreram quando ele organizou uma festa em homenagem a Brontë, em 1849. O problema desta vez foi que ela se recusou a reconhecer que era Currer Bell (o pseudônimo que usara na publicação inicial de Jane Eyre) e só dava respostas curtas e ríspidas. Thackeray ficou puto e acabou saindo de sua própria festa para ir ao clube. Very english.

Quando Jane Eyre foi publicado, sob o pseudônimo masculino de Currer Bell, muitos leitores ficaram impressionados com a intensidade daquela voz narrativa em primeira pessoa. Havia ali uma mulher pobre, órfã e considerada feia que ousava afirmar, com absoluta convicção, sua igualdade diante dos homens. Entre os muitos talentos de Brontë, está a capacidade de nos fazer sentir como se estivéssemos vendo o mundo exatamente como sua narradora o vê. Há a maneira acolhedora como ela nos envolve na história com esse discurso direto a “você”, ao “leitor”, a quem ela convida constantemente a ver o que ela vê. Imaginamos “a luz de uma lamparina a óleo pendurada no teto”, esforçando-nos para ver exatamente a mesma cena sob a mesma luz bruxuleante que Jane. Mas não é apenas o que Jane vê que importa: Brontë também nos leva para o fundo de sua mente e, aparentemente, de sua alma. Mesmo quando ela diz: “Caro leitor, talvez você nunca sinta o que eu senti!”.

Às vezes, Jane Eyre parece um romance gótico. Há a infância quase sob tortura, a mansão isolada, o patrão enigmático, os corredores escuros, os segredos do andar de cima e uma atmosfera de permanente expectativa. Mas Charlotte Brontë utiliza todos esses elementos apenas como cenário. O verdadeiro mistério do romance é o de como preservar a própria dignidade num mundo que tenta, a todo momento, dizer como você deve agir e pensar.

Para mim, a melhor parte da história é o começo, quando Jane está na Escola Lowood, definindo-se como pessoa. O livro poderia ter terminado ali, mas então Jane foi morar com o estranho Rochester a fim de ensinar sua filha. Jane atravessa a infância de forma bem dickensiana, marcada pela humilhação e a severidade da escola. Depois vem o amor por Rochester e as imposições de St. John Rivers. Em cada etapa, ela poderia escolher um caminho mais fácil: submeter-se, aceitando a dependência e os “deveres”. Ela se recusa, mas não é uma rebelde, é apenas íntegra. Jane ama profundamente, porém nunca aceita que o amor custe sua liberdade.

É justamente essa tensão que faz de Rochester e St. John figuras complementares. Rochester representa a paixão hétero que ignora os limites da moral. St. John representa a moral torta que sufoca qualquer possibilidade de paixão. Jane rejeita ambos. Ela busca uma vida em que amor, respeito e autonomia possam coexistir.

Mas Jane Eyre também é um extraordinário romance psicológico. Charlotte Brontë escreve como se acompanhasse o movimento mais íntimo da consciência. Muito antes de Virginia Woolf, ela compreendia que os acontecimentos decisivos da vida não ocorrem apenas no mundo exterior, mas na lenta transformação interior das pessoas. Ao mesmo tempo, o livro é um retrato mordaz da sociedade inglesa vitoriana. A condição feminina, as diferenças de classe, a educação, a religião e a hipocrisia moral aparecem constantemente, mas nunca transformam o romance em panfleto. Charlotte Brontë discute essas questões através de personagens vivos e contraditórios.

E há as perguntas, inúmeras, que nos fazemos durante a leitura. O ponto mais óbvio é a religião. É difícil para nós avaliarmos a sinceridade de Jane em relação à sua fé cristã, particularmente sua atitude em relação ao zelo missionário de seu primo St. John. Será que ainda existe nela a orgulhosa “pagã” e rebelde que ela declara ser nas primeiras páginas? Ela diz uma coisa e quer dizer outra quando professa seu desejo de se submeter aos ideais cristãos? Seu amor inabalável por Rochester é algo que ela mantém apesar (e em oposição) aos ensinamentos da Igreja sobre o casamento — ou existe um conjunto mais complexo de conflitos internos em jogo? O mesquinho e religioso St. John expressa a verdade profunda sobre os homens de fé? Ou ele é simplesmente uma maçã podre? É possível para nós, que tivemos a sorte de crescer em uma sociedade predominantemente secular, sentir a profunda fé que influencia Jane?

Talvez seja essa a razão da permanência do livro. Poucos romances conseguem unir, com tamanha naturalidade, suspense, paixão, crítica social e reflexão moral. Quase dois séculos depois, Jane segue falando a nós porque a busca de uma vida em que seja possível amar sem deixar de ser quem se é universal.

Há um aspecto que me emocionou especialmente nesse romance. Diferentemente de tantas heroínas do século XIX, Jane não vence porque é bela, rica ou socialmente privilegiada. Ela vence porque possui algo muito mais raro: uma consciência independente. Charlotte Brontë parece nos dizer que a verdadeira nobreza não vem do nascimento nem da fortuna, mas da capacidade de permanecer fiel a si mesmo mesmo quando isso exige renúncia. Talvez seja essa a razão de Jane Eyre continuar tão moderno.

Charlotte com filtro, certamente

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Sobre Jane Eyre, de Charlotte Brontë

Sobre Jane Eyre, de Charlotte Brontë

Cada época relê seus clássicos à sua maneira. Estou finalizando a leitura do tremendo romance Jane Eyre e, na minha opinião, St. John Rivers é claramente gay. Isso não interessa? Ah, interessa, sim. Leia o romence! Ele é um gay muito religioso e chato, chato, chato. Acho que, sem poder dizê-lo, Charlotte Brontë faz enorme esforço para exprimir que ele não quer nada com Jane por ser gay, não por ser um ato pecaminoso — claro, o livro é de 1847 e foi originalmente publicado sob o pseudônimo masculino de Currer Bell. Na Inglaterra vitoriana não havia gays (…) e, mais, havia um forte preconceito contra mulheres escritoras, sobretudo quando escreviam obras de grande ambição intelectual ou que abordavam temas considerados impróprios, como desejo feminino, independência ou crítica social. O melhor romance inglês de todos os tempos — Middlemarch — foi escrito por George Eliot, na verdade Mary Ann Evans.

St. John só mostra como Charlotte foi genial. Há muita sexualidade no romance. Vejamos: eJane Eyre, Charlotte Brontë cria dois pólos opostos de masculinidade que cortejam a heroína: de um lado, o fogoso e apaixonado Sr. Rochester; de outro, o frio, austero e devoto St. John Rivers. Enquanto Rochester representa o desejo e a paixão avassaladora, St. John simboliza o dever, a razão e a completa negação do afeto. É exatamente essa repressão extrema que leva muitos leitores a questionar a verdadeira natureza da sexualidade do clérigo. Jane diz que abraçá-lo é como abraçar mármore. Ele tem um profundo incômodo em relação às mulheres. Ele não demonstra qualquer interesse romântico ou atração genuína por Jane, deixando claro que seu pedido de casamento é um ato de dever, não de amor. Para ele, Jane não é uma parceira desejada, mas uma ferramenta útil para seu trabalho missionário. Sua rigidez e frieza são tão marcantes que chegam a ser descritas como uma forma de “insanidade” — uma insanidade fria e controlada que contrasta com a paixão avassaladora de Rochester. A insistência de St. John para que Jane se case com ele e o acompanhe à Índia é vista por alguns não como um ato de amor, mas como uma forma de “predação sexual”, onde ele não deseja seu corpo, mas busca controlar e possuir sua alma. 

A interpretação mais recorrente é que St. John Rivers é um homem que reprime seus próprios desejos, possivelmente homossexuais, ao ponto de se tornar uma figura assexuada. Ele canaliza toda a sua energia para a religião e o trabalho missionário como uma fuga das tentações “pecaminosas” que ele teme e odeia. Essa leitura o transforma em um espelho invertido de Jane: ele representa o caminho que ela poderia ter seguido caso tivesse se fechado completamente para a vida e para o amor, sufocando sua própria natureza apaixonada. A rejeição de Jane a seu pedido de casamento é, sob essa ótica, uma rejeição não apenas de uma vida sem amor, mas também de uma existência marcada pela repressão sexual e espiritual.

Harold Bloom, por exemplo, citou a “ambiguidade do personagem de St. John Rivers”. O próprio nome do personagem, “St. John”, carrega um peso religioso que sugere abstração e frieza sexual, mas sua descrição física é paradoxalmente sexy — rosto grego, nariz clássico, boca ateniense — que contrasta com sua personalidade gelada, criando uma figura de atraente, mas distorcida em algo perigoso e prejudicial, na visão da autora.

Penso que a discussão sobre a sexualidade de St. John Rivers é uma discussão sobre os limites da repressão vitoriana. Mais do que uma afirmação categórica, a teoria de que o personagem é gay serve como uma ferramenta para explorar as profundezas da psiquê do personagem, revelando um homem cuja devoção a Deus e ao dever pode ser, na verdade, uma fuga desesperada de sua própria humanidade.

Um leitor vitoriano enxergava nele um asceta protestante, leitor freudiano veria nele um homem reprimido, um leitor contemporâneo pode identificar traços que remetem à homossexualidade ou à dissociação oculta entre desejo e vocação. Essas interpretações dizem menos de St. John quanto sobre as mudanças nas formas de compreender a sexualidade. Claro, não vou “resolver” a identidade de St. John, estou mais interessado em mostrar como um personagem de 1847 pode seguir provocando novas leituras quase dois séculos depois.

Para finalizar, o texto de Jane Eyre é muito ambíguo. Quando Rosamond Oliver sente-se atraída por St. John, este parece muito mais incomodado por ser objeto de desejo do que por perder Rosamond. Essa diferença é sutil, mas importante. Em Rochester, o super-hétero, o desejo é explosivo e incontido. Em St. John, o desejo parece sempre uma obrigação. Jane não sente que ele a ama, descrevendo esse amor de uma maneira extraordinariamente gelada. É justamente aí que entra a leitura queer. E se Jane estiver interpretando mal? E se St. John nunca tivesse amado Rosamond da maneira convencional? E se sua “luta” fosse de outra natureza?

Bah, que romance genial!

Óbvio que a Livraria Bamboletras tem o livro.

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

O feminismo do grande, imenso Um teto todo seu, de Virginia Woolf

downloadUm teto todo seu (A Room of One`s Own, 1929) é um dos mais surpreendentes livros da célebre ficcionista inglesa Virginia Woolf. A primeira surpresa é o fato de não ser ficção; a segunda é a absoluta ousadia no trato do assunto abordado: o feminismo. Mas há mais.

O livro nasceu a partir de duas palestras chamadas “As mulheres e a ficção”, proferidas por Virginia para a plateia essencialmente feminina da Sociedade das Artes, na Londres de outubro de 1928. O texto de Virginia tem a qualidade estupenda de seus livros da época. Mrs. Dalloway (1925), Passeio ao Farol (1927) e Orlando (1928) foram seus predecessores; As Ondas (1931) deu continuidade à série de obras-primas. Encrustado na sequência principal de romances de Virginia, o ensaio Um teto todo seu não decepciona de modo algum. O livro tem cerca de 140 páginas. Não pensem que ela o leu por inteiro em duas noites – algo como 70 páginas por dia – , na verdade o texto foi bastante ampliado para publicação logo após as palestras.

Intermezzo: é notável a sorte de Virginia Woolf no Brasil. Seus tradutores foram extraordinários: Orlando foi traduzido por Cecília Meireles; Mrs. Dalloway, por Mario Quintana; As Ondas e Entre os Atos, por Lya Luft em fase pré-Veja e pré-Yeda; Passeio ao Farol, por Luiza Lobo e Um teto todo seu, recebeu tratamento impecável de Vera Ribeiro. Muita, muita sorte. Fim do intermezzo.

Dotado da mesma prosa alegre e saltitante de Mrs. Dalloway e Orlando, Um teto todo seu trata do feminismo de forma levíssima, mesmo que afirme as coisas mais terríveis sobre a vida da mulher. Alegre, feliz e livre de todo rancor, como na foto abaixo, à esquerda, Virginia Woolf cria algumas imagens fortíssimas que ficaram célebres. A primeira é a da irmã de Shakespeare, Judith. Tão talentosa quanto o irmão, ela teria vivido subjugada por tarefas domésticas e todos os seus esforços para demonstrar seu talento teriam sido esmagados pela família. Então, desesperada, ela foge, apresenta-se num teatro de onde é sem mais nem menos enxotada, para depois prostituir-se e suicidar-se. A outra é da escritora fictícia Mary Carmichael. Ela não é muito boa, sua frase é dura e seu romance, que Virginia finge ler, é mais ou menos chato. Só que lá pelo meio há uma frase: “Chloe gosta de Olivia”. E então, finalmente, naquele livro bem ruinzinho, apareceu a Grande Mudança, pois às vezes mulheres gostam de mulheres, não?

Seu raciocínio, até desembocar na tese do Teto e das 500 libras anuais, é brilhante. Virginia Woolf parte das precursoras da literatura inglesa até chegar na grande explosão do século XIX, com o aparecimento de Jane Austen, das irmãs Brontë, Emily e Charlotte, além da grande George Eliot que, em verdade, chamava-se Mary Ann Evans. Suas obras-primas não nascem de gênios isolados, mas após anos e anos de labuta conjunta. A experiência apresentada por estas escritoras dá forma perfeita ao que veio antes, à tradição. Então, escreve Woolf, Jane Austen deveria ter depositado uma coroa de flores no túmulo de Fanny Burney e George Eliot deveria ter rendido homenagem à resoluta Eliza Carter, a bravíssima escritora que amarrava uma sineta na armação da cama de forma a não dormir muito e poder estudar grego. E todas elas deveriam derramar flores sobre o túmulo de Aphra Behn, que está enterrada – surpresa! – na Abadia de Westminster, pois foi ela quem começou a assegurar a todas o direito de dizerem o que pensam. Trata-se de parafrasear o velho e bom Newton, físico presente em quase todas as opiniões literárias da tradição inglesa que costuma sempre dizer que “Se vemos mais longe, é por estarmos em pé sobre ombros de gigantes”.

Woolf faz questão de deixar claro que, casualmente ou não, as escritoras que foram melhor sucedidas são aquelas que guardaram para si seu justo rancor. Se Austen ressentia-se contra sua sociedade e família – e ressentia-se, basta lê-la com profundidade – , tratou de passar ao largo das longas tardes em que escrevia seus livros na sala sob as constantes interrupções das “coisas que são tarefas de mulher”. (Pois as mulheres do século XIX nasciam e morriam trabalhando para os homens). De George Eliot nunca se ouviu nada, pois ela se fingia de homem… Porém, em Jane Eyre, Charlotte Brontë teve seu pior momento ao escrever claramente um trecho rancoroso, o que não fez Emily, de coração de poeta e maior talento. Ah, as questões seculares! García Márquez e Saramago e todos os que podem aspirar à imortalidade preteriram-nas em suas grandes obras em favor das parábolas.

O livro, escrito nove anos após as mulheres obterem direito de voto na Inglaterra, é uma ampla análise da situação da mulher e de sua relação com o dinheiro. Virginia Woolf insiste em que as mulheres precisam de duas coisas para criarem uma nova literatura: um teto todo seu, ou seja, um quarto que pudesse ser trancado à chave para escrever, e uma renda de aproximadamente 500 libras anuais. Para tanto, a mulher deveria trabalhar (Virginia fazia parte da Liga do Trabalho Feminino) a fim de obter alguma independência.

Sim, as teses estão bem amarradas – por exemplo, Virginia demonstra que todos os bons poetas de sua época são abastados… – , mas o milagre do livro é o que subjaz às teses. É o tremendo talento da autora para fazer nascer seus argumentos e frases num texto vertiginoso, agradável e sem lugar para gritos ou deselegância. É um feminismo dócil? De modo nenhum. É um feminismo culto, fino, esclarecido, isso sim. E duríssimo e de resultados.

Mais aqui, por Cássia Fernandes.

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Orgulho e preconceito: os 200 anos de um livro arrebatador

Era a mais bela capa para o Sul21. Na época, o lay-out de nossa página tinha uma foto grande e a capa do jornal ficara assim por alguns minutos:

orgulho e preconceito caoa

Só que, justo naquele domingo, houve a tragédia na boate Kiss e tivemos que mudar tudo. Abaixo, o extraordinário artigo de Nikelen Witter sobre um dos melhores livros de todos os tempos.

.oOo.

A página inicial da primeira edição de 1813. Ironia desde o princípio: “É uma verdade universalmente conhecida que um homem solteiro, possuidor de uma boa fortuna, deve estar necessitado de esposa”. (Clique para ampliar).

Publicado no Sul21 em 27 de janeiro de 2013

Por Nikelen Witter (*)

No final do século XVIII, uma jovem inglesa escreveu um romance. Não era algo incomum em sua época, nem era seu primeiro texto de ficção. Como era de costume, ela fez leituras para sua família que, depois de alguns debates, parece tê-lo aprovado. Sua intenção, inicialmente, era a de fazer um romance epistolar, algo muito em voga no período, mas as cartas minguaram dentro do texto, mesclando-se com a narrativa. O pai da jovem, acreditando no talento da filha mais nova, levou o manuscrito a um editor, que recusou a história. Este poderia ter sido o fim de First Impressions, título do romance recusado, mas, como qualquer escritor sabe: a primeira versão de um livro nunca é sua versão final. A jovem aspirante voltou a trabalhar seu texto, ao mesmo tempo em que escrevia outros. Em 1811, ela publicou seu primeiro romance e, aproveitando o sucesso deste, no dia 28 de janeiro de 1813, há 200 anos atrás, finalmente o texto anteriormente recusado chegou ao público. Tinha um roteiro melhor trabalhado, um texto mais perspicaz e um novo título: Pride and prejudice ou, em nosso idioma, Orgulho e preconceito. Nascia, assim, o romance mais popular de Jane Austen – uma das mais brilhantes escritoras inglesas – e, com ele, uma notoriedade que já perdura por duzentos anos.

Jane Austen: uma moça simples e, curiosamente, muito letrada

A autora

Quem nunca leu nada de Jane Austen pode acabar tendo uma ideia errada de seus leitores-amantes, vendo-os como cegos seguidores de um certo tipo de culto, que elegeu a autora inglesa como musa e deusa. A quantidade (e o tipo) de menções na mídia à escritora, por outro lado, pode fazer com alguns venham a imaginá-la como uma espécie de Norah Efron (**) da virada do século XVIII para o XIX. De fato, já conheci leitores que interpretaram seus livros superficialmente, como quem lê um roteiro hollywoodiano, acreditando que seus romances não passam um conjunto bem amarrado dos clichês do tipo moça encontra rapaz e vice-versa. E, desde sempre, houve aqueles que a acreditaram como autora de livros tipicamente femininos, contos conservadores para “mulherzinhas” sonhadoras. Contudo, nada poderia ser mais enganoso. Primeiro, porque nenhum fã de Austen deixará de lhe fazer críticas na mesma medida em que reconhece sua genialidade. Segundo, porque se as comédias românticas beberam em Austen, fique-se certo que ela nunca bebeu delas. Por fim, dispensar um grande escritor com base num conceito duvidoso de literatura de meninos e meninas, diz mais sobre o leitor do que sobre o livro em questão, então, melhor deixar pra lá.

Keira Knightley e Matthew MacFadyen: A adaptação mais famosa: a de Joe Wright, realizada em 2005

O fato é que Jane Austen continua, após dois séculos de existência de sua obra, um fenômeno tanto de crítica, quanto de público. O número impressionante de adaptações pelas quais seus livros são lembrados e recriados, porém, não é o suficiente para que se compreenda como inglesa de vida obscura tem conseguido manter tanta vitalidade. Arrisco a dizer que, para entender o fenômeno Jane Austen é preciso lê-la e, se me permitem, fazer isso mais de uma vez. O gênio de Austen é o de fazer muito com o mínimo. E tal talento exige um leitor capaz de divertir-se como quem observa pessoas pelos buracos das fechaduras, entendendo-as mais pelo que fazem e dizem, do que por longas apresentações retóricas sobre quem realmente são. Os livros da Jane Austen são como pinturas delicadas, dadas como um presente aos observadores atentos. Sem “efeitos bombásticos” (usando as palavras de Sir Walter Scott, seu grande admirador), Austen dominava como ninguém a arte de representar o cotidiano em suas grandezas e misérias, em sua beleza e mediocridade. O resultado é um espelho atemporal das relações humanas que ultrapassam em muito as relações amorosas entre homens e mulheres. Em Austen, o minúsculo da existência aparece como um caminho que, em qualquer época ou lugar, pode refletir o que somos e onde estamos. Sobretudo, o fato de que, na grande maioria das vezes, não conseguimos estar onde gostaríamos, apesar de nossas melhores intenções.

Elizabeth (Keira Knightley) e seu pai (Donald Sutherland): raro entendimento

Austen escrevia sobre pessoas e sobre gerações. Falava dos mais velhos acomodados a suas manias, controles, posições e fracassos. E escolhia como protagonistas jovens que precisavam abrir caminho ante tudo isso. Destes jovens, ela se ocupou mais das mulheres, criaturas sem qualquer poder ou destinação que não o casamento; muitas vezes, prisioneiras da ignorância, da vida sem perspectiva ou ilusões, assombradas pela decrepitude física (decretada antes dos 30 anos) e pela ruína econômica. Jane Austen colocava o amor como uma questão importante, mas o via por meio de um caleidoscópio, pois ninguém ama ou é amado solitariamente. O difícil relacionamento amoroso com a família na fase adulta é, para a autora, um tema tão forte quanto à busca de um amor companheiro para construir um novo núcleo familiar.

Porém, ledo engano dos que, sem a terem lido, imaginam-na como uma autora sentimental. Se bem que Mark Twain, que detestava seus livros – especialmente Orgulho e Preconceito –, talvez acreditasse nisso. Já Charlotte Brönte, autora de Jane Eyre, a acusava de ser fria, de não ter fogo ou paixão e classificava seus romances como insípidos. Minha leitura de Jane Austen a percebe como uma racionalista, até mesmo um tanto radical em seus termos. Isso é claro em Razão e sensibilidade e não menos em Orgulho e Preconceito. Os muito românticos podem ficar chocados, mas Jane Austen parece defender a ideia de que o amor é, antes de tudo, uma mistura de desejo, afeto e discernimento. A receita para o desastre está na falta de qualquer um destes. Claro que não se há de ler nenhuma declaração de amor em seus livros como a que Edward Rochester faz a Jane Eyre, porém, para Austen, o amor, mais que por palavras, é demonstrado por ações que nada exigem em troca. Numa sociedade tão apegada ao jogo de favores e cortesias, nada poderia ser maior que o desinteresse na retribuição, que a paz e felicidade do outro como único reconhecimento.

A casa dos Austen em Steventon: nada de herança para mulheres

Vida e morte

A biografia de Jane Austen é bem conhecida, quando não, esmiuçada para explicar a escritora e a impressionante longevidade e popularidade de sua obra. Houve críticos que, inclusive, se utilizaram de sua trajetória para opor-se a seus escritos. Ora, o que, afinal, uma solteirona provinciana poderia saber de amor, de casamentos e, especialmente, das universalidades do gênero humano?

Jane nasceu em 16 de dezembro de 1775, em Steventon, um vilarejo ainda hoje de aspectos rurais, ao norte do condado de Hampshire, no sul da Inglaterra. Originária da gentry, pequena nobreza rural, ela era oriunda de uma numerosa família, sendo a sétima filha do pastor George Austen e de sua esposa Cassandra, o mesmo nome de sua única irmã e confidente. O pai era também reitor e tutor de alunos, os quais recebia e educava em sua casa.

É difícil saber se por atenção às novas exigências da época quanto ao ensino das moças – nos últimos 50 anos do século XVIII, sob influência da burguesia ascendente, se passou a valorizar a educação feminina no mercado de casamentos – ou se por convicção professoral, o fato é que os Austen preocuparam-se em fornecer às duas filhas instrução de alto nível. Cassandra e Jane moraram com uma tutora em Southampton e, mais tarde, no internato de Reading. Sabe-se, porém, que o próprio pai foi um dos grandes educadores dos próprios filhos. Ele mantinha em sua casa uma ampla biblioteca e se orgulhava da família ser ávida na leitura de romances, além de outros tipos de literatura.

O manuscrito de Orgulho e Preconceito: leiloado por 5 milhões de reais em 2011. (Clique para ampliar).

É interessante notar que se as bibliotecas particulares já não eram nenhuma novidade por esta época, o estímulo à leitura, em especial de romances e pelas mulheres, estava ainda sob forte ataque. São bastante conhecidos os textos do período que criticam a chamada “fome por leitura”, a qual, no entanto, espalhava-se pelos alfabetizados num volume cada vez maior. Tais textos eram opositores à leitura feita “por qualquer um”, e acreditavam que nada poderia ser mais pernicioso para a vida de uma moça do que a leitura de romances. Os detratores do gênero acusavam-no de estar repleto de fantasias e aventuras absurdas, que só fariam adicionar à cabeça “fraca” das jovens desejos que nunca poderiam ser satisfeitos, mergulhando-as na melancolia. Pior, poderia fazê-las falhar com seus deveres de boas filhas, irmãs e esposas, tornando-as ávidas de sensações moralmente recrimináveis e passíveis de se lançarem nas mãos dos aproveitadores e inescrupulosos que rondavam as famílias. Em prol da segurança das jovens e das linhagens, devolveu-se grandemente uma literatura moralista, baseada em textos bíblicos, que tinha função de orientar as moças em direção à caridade e a conformação com a vida limitada, que todas tinham pela frente.

Alguns destes livros devem ter passado pela biblioteca do reverendo Austen e Jane os conhecia bem. Pode-se acreditar nisso porque determinadas ideias destes textos estão presentes em seus escritos. Afinal, Jane não se furtava em criticar romances com perspectivas irrealistas da vida ou das relações amorosas. Northanger Abbey, sua obra de juventude publicada postumamente, é justamente sobre as tolices das jovens que se deixam levar pelo imaginário dos romances. Por outro lado, Austen não era nenhuma entusiasta da longa e aplicada leitura dos moralistas. Em Orgulho e preconceito, este detalhe é inserido como parte da personalidade patética de pelo menos dois personagens: o infame Mr. Collins e Mary Bennet, a menos encantadora das cinco irmãs.

Cena de Becoming Jane, com Anne Hattaway.

Das leituras à escrita, Jane revelou precocemente o talento e o desejo de compor seus próprios textos. Pequenos esquetes representados pela família na reitoria, paródias da literatura da época em que ela exercitava seu humor e capacidade crítica, presentes igualmente nas longas cartas escritas para a irmã Cassandra, nos breves períodos em que ficavam separadas. Os biógrafos apontam que entre 1795 a 1799, Austen também teria desenvolvido o cerne de alguns de seus principais romances, os quais foram, depois, longamente retrabalhados. No início dos anos 1800, fala-se da existência de alguns pequenos interesses de cunho amoroso, porém, nenhum deles seguiu adiante. (Em 2007, esses quase enlaces de Jane Austen, foram costurados num único – Thomas Lefroy – pelo roteiro do filme Becoming Jane, que se utilizou de Orgulho e Preconceito para construir um argumento romântico, numa livre interpretação da vida da escritora).

Read More

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!