Uma semana, um texto: Cristóvão Tezza: O filho eterno, de Idelber Avelar

Esse foi fácil. O melhor post que li esta semana foi lá de terça-feira passada e o copio a seguir.

Cristovão Tezza: O filho eterno

Por Idelber Avelar

Vencedor dos prêmios Jabuti e Portugal-Telecom, entre outros, e aclamado pela crítica, O filho eterno (2007), de Cristovão Tezza, leva a representação da experiência pessoal na ficção a um nível de auto-reflexividade raramente visto na literatura contemporânea. O protagonista do romance recebe a notícia de que será pai em meio a uma profusão de golpes à sua auto-estima. Sustentado pela mulher, seu trabalho é a escrita, mas nela fracassa, acumulando cartas de recusa das editoras e notas de eliminações em concursos literários. Na profissão, por outro lado, ele também experiencia a derrota: relojoeiro, seu ofício é, por excelência, anacrônico. Como escritor, ele ainda não é, além de não dar indicação de que poderá vir a ser; como relojoeiro, já não tem razão de existir. Esse intervalo termina se desdobrando numa temporalidade suspensa entre o fantasma da paralisia que espreita, de perto, e o resquício de atividade e iniciativa que lhe resta. Assim se encontra ele quando recebe a notícia de que será pai.

A abordagem desse inominado personagem à vida é um exame hipercrítico e cínico da natureza arbitrária, absurda, lotérica, errática dos fatos (p. 49). Trata-se da história de como o protagonista lidará com a paternidade em meio um colapso de outras zonas de sua masculinidade – história que é narrada numa terceira pessoa singular, original, caracterizada pelo uso do discurso indireto livre em quase a totalidade do volume. O efeito é de proximidade ao pensamento do personagem, já que o narrador fala como se estivesse “dentro” da sua cabeça. Essa vizinhança, no entanto, se inverte na relação do protagonista com o mundo, que é marcada pela distância. Revise-se os grandes mestres do indireto livre, de Jane Austen em adiante, e se encontrará poucos exemplos de exploração tão hábil da tensão entre a hiper-proximidade entre voz narrativa e personagem e, ao mesmo tempo, o hiper-distanciamento entre personagem e mundo. Vemos de perto um homem que só sabe ver de longe. O efeito é o de uma empatia impossível, agônica, entre protagonista e leitor.

No corredor do hospital, esperando a mulher dar à luz, ele fuma, marcha descompassadamente, se angustia. Marcado pelo destempo, ele chega atrasado à cena que o constitui. Só no dia seguinte ao parto, junto aos indefectíveis parentes, ele inteira-se: a criança nascera com Síndrome de Down. O filho eterno é a meticulosa mas sucinta narração desse encontro da paternidade “fracassada” com uma masculinidade já em frangalhos, num mundo em que a Síndrome de Down vai progressivamente adquirindo o caráter de emblema, alegoria de uma outra relação com o tempo, que poderíamos chamar de presente perpétuo.

Estamos no Brasil de 1980, onde “Síndrome de Down” ainda é termo exclusivamente médico. No léxico possível de seu tempo, o seu filho era um mongolóide, vocábulo que carrega essa curiosa herança do colonialismo inglês, que batizou descapacitações com o nome de etnias. A natureza arbitrária, absurda, lotérica, errática dos fatos dera o veredito de trissomia daquele vigésimo-primeiro cromossomo, daquele em particular. A partir daí o protagonista, um pequeno burguês que solta a franga, como bem disse Ney Reis em sua resenha, está condenado ao contato com uma classe que despreza – a dos médicos – e ao mesmo tempo a viver a medicina como desdemonização do mundo por excelência, antídoto definitivo contra as explicações mágicas. A medicina entra no relato de Tezza como confirmação da natureza lotérica da existência.

Um dos primeiros devaneios que visita o personagem é o de que, por tudo o que lera, as crianças com Síndrome de Down morrem mais facilmente e, em geral, mais cedo. O pesadelo talvez não dure tanto, afinal. O leitor tem acesso a essas fantasias monstruosas através de uma voz narrativa que esvazia, de antemão, todo julgamento moral. Só uma gigantesca viseira poderia levar a uma leitura d’ O filho eterno como parábola moralizante. O texto, claramente, se recusa a submeter o personagem à prova moral, e opta pela observação da sua labuta de ir compreendendo a amoralidade essencial de todas as coisas. Ele não é, claramente, um “além-homem” nietzscheano. Não vive no mundo afirmativo da alegria. Trata-se, ao contrário, do espécime ressentido e hiper-interpretativo que em língua nietzscheana chamaríamos de “último homem.”

As matérias-primas do romance de Tezza são, portanto, uma masculinidade em frangalhos, a paternidade “fracassada” e depois lentamente reaprendida, e um tempo repartido entre o presente-intervalo (do pai) e o presente-perpétuo (do filho). Nas 220 enxutas páginas, com freqüência se alternam parágrafos que descrevem o período anterior ao nascimento de Felipe — os anos do pai em Portugal e na Alemanha, como trabalhador ilegal — e o presente em que vai crescendo o garoto, entre 1980 e 2005. Em algumas ocasiões, o deslocamento temporal se produz, habilmente, no interior do mesmo parágrafo. Os saltos ao presente retratam o aprendizado descontínuo, quebrado, capenga de Felipe, que um dia, acidentalmente descobre o futebol como imagem da contigência, da natureza pendente e inacabada do mundo.

Felipe, 20 e poucos anos, não lê, não escreve, mas viaja na seqüência interminável de páginas da internet. Constrói pastas que nomeia como ATLTEICO ou ALTLETICO, sempre com uma letra trocada (p.217). Procura no Google o ônibus do Clube Atlético Paranaense. Começa a viver as partidas de futebol como experiências que, ao contrário do joguinho da FIFA que ele roda no computador, são imprevisíveis, nesse que é o mais fatalista e contingente dos esportes. A imprevisibilidade do futebol vai dando a Felipe uma idéia de “futuro” e através do conceito de campeonato ele entende o de calendário. O encadeamento de jogos funciona como metáfora inteligível do devir, da passagem do tempo, mesmo que continue uma tremenda confusão sobre o que é Campeonato Brasileiro, Copa do Brasil, Libertadores ou Campeonato Paranaense. Na medida em que Felipe vai vislumbrando algo para além do presente-perpétuo, o próprio protagonista passa a tecer outra relação – ainda precária, mas parcialmente efetiva – com sua existência no tempo e sua condição de homem e de pai.

Esse sutil deslocamento, modesto, limitado, nada triunfante, é o irredutível gesto afirmativo d’O filho eterno, sem dúvida um dos poucos romances realmente extraordinários publicados no Brasil no século que se inicia.

P.S.: Este post é parte de um trabalho bem mais longo, sobre a masculinidade na narrativa brasileira, de Fernando Gabeira – O que é isso, companheiro? (1979) e Crepúsculo do macho (1980) – a Caio Fernando Abreu – Morangos mofados — (1988) e Cristovão Tezza. Apresento-o (em inglês) nesta quarta-feira no meu ex-lar, a Universidade de Illinois, em Urbana-Champaign, a cujos professores — especialmente o compatriota Luciano Tosta — agradeço pelo convite. U of I é uma das melhores universidades públicas dos EUA e dona orgulhosa da terceira maior biblioteca universitária americana.

8 comments / Add your comment below

  1. Realmente, Milton: puta texto do Idelber! Esse menino vai longe! hehehehe
    Estão ambos de parabéns por este post!
    Já tinha lido alguma coisa sobre esse livro, mas não me despertou o interesse como este texto do Idelbert, que desvela grandes sacadas (dos autores do livro e da crítica). Deu vontade de ler, mas confesso que não sei se enfrento a parada pq de masculinidades avariadinhas tô até aqui!
    bj, querido!
    Flávia

  2. Extraordinário!
    Vou procurar comprar o livro, que adivinho interessantíssimo neste nosso mundo em constante mutação. “Mongolismo”! Era isso mesmo! E veja como a profissão de relojoeiro está voltando com força redobrada. Recebi há dois anos um Heuer pelos 10 anos de firma; A máquina é mecânica e custou US$2000,00! Sua manutenção é caríssima…

    Receba um abraço e minha admiração

  3. Interessante a resenha. Como sempre tem alguém para ser do contra, desta vez coube a mim o papel de não gostar do livro, talvez por estar com outro extremamente bom em minhas mãos, a comparação foi inevitável e talvez até injusta.

    Mas, mesmo assim, acho q cada um deve experimentar por si para depois dizer se o livro deixou ou não um gosto doce ou amargo na boca.

    Um abraço.

  4. Esse livro só confirma o quanto a escrita do Tezza carece de idéias. Seus textos costumam ter tramas insignificantes. Neste caso o enredo nem sequer é fictício (quanta falta de imaginação!). Muitos críticos elogiaram o estilo, mas este soa desagradavelmente artificial, parece até o do Trevisan.

  5. Aqui na Capital Brasília o Mula (des)governando a partir de incompetência completa, com todo gosto de baixo nível. Jamil Chade: puxa-saco do PT. O PT venera o mau gosto, principalmente a educação; a Cultura e a “””arte”””. Kitsch e baranguices do PT. O PT venera a Indústria Cultural (Theodor Adorno). O PT é cafona.
    Elevar o nível? Não faz parte. Desvirtuado é ser PeTralhista, a favor do breguismo petista, que nivela tudo por baixo, sobretudo a cultura e a educação e a dita “”arte”” do PT (veja o Ministério da (des)cultura atual).
    A indústria cultural, portanto, não mede esforços para lançar os indivíduos em estado de indigência estética, isto é, no mais completo empobrecimento da reflexão crítica e da sensibilidade artística. A padronização é o valor decisivo desta proposta cultural. Eis aí o PT. O PT é cafonérrimo. A grande religião profana do nosso tempo é a publicidade. O PT pratica lavagem-cerebral via publicidade.
    PT e o Mula em Brasília?…
    ¿Vamos ludibriar um bocadinho?
    Vamos! Vamos, sim!

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