Conheci a LJ no segundo semestre de 1978. Ela tinha 18 anos e frequentava algumas cadeiras de Cálculo comigo. Era linda. Cabelos castanhos, olhos cor de chá ou verdes (sou daltônico), altura mediana, pouca coisa acima do peso. Tinha um rosto maravilhoso que os óculos não conseguiam esconder. O que atraía era seu charme. Sabia se mexer, sabia fundamentalmente rir e o fazia muito. Era uma riponga, como todos nós naquele final dos anos 70. Eu tinha 21 anos, éramos muito jovens.
Não lembro como ou porque conversamos pela primeira vez. Eu era muito tímido e só tivera uma namorada, a MC. Eu e MC fomos namorados durante pouco tempo. Tínhamos interesses muito diversos. Eu só queria ler e ouvir música, ela só queria ficar junto. E olha que eu sou grudento, mas aquilo era demais. Me perguntava o que eu fazia em casa, me cobrava. Mas foi com ela que tive minha primeira relação. Foi a primeira minha e dela. Estávamos aprendendo juntos, dizíamos. A primeira vez foi no chão, atrás do sofá da casa de seus pais na Rua Santana. Muita vontade.
Eu queria que LJ fosse minha segunda namorada. Ela era muito diferente. Era inteligente, na dela, de cultura sofisticada, conhecia livros e pintores, conversava sobre tudo. Era também imprevisível, às vezes muito gentil, outras vezes menos. E tinha aquela cara e risada irresistíveis, que me faziam pensar na Irene do Caetano Veloso. Quero ver LJ rir! Eu literalmente fiz tudo para que ela gostasse de mim. Fazia-a dar risadas, principalmente.
No início, eu tinha certeza de que um dia eu e LJ namoraríamos, depois, tive certeza que não. No verão de 79 para 80, logo após as aulas acabarem, chamei-a para uma conversa particular. Não lembro bem das circunstâncias, sei que fomos conversar num começo de tarde. Caminhamos e acabamos em um banco da Praça da Matriz. Queria ouvir um NÃO bem grande, para ter certeza.
Lembro de dizer que estava falando de forma calma e razoável, mas que internamente não estava me sentindo nem calmo nem razoável, que estava apaixonado por ela. (Não lembro se ela já estava com o P, um cara que morava longe, em Curitiba). Ela derramou algumas lágrimas e disse que não estava “a fim de mim”. Depois do momento-emoção, seguimos o papo. Há uma curiosidade nesta conversa: eu disse que tinha conseguido comprar A Montanha Mágica, de Thomas Mann, em um sebo e ela ficou bastante contrariada, puta mesmo. Ela me prometera que conseguiria emprestado o livro de sua irmã. Pra que sair correndo atrás se eu ia te conseguir, pô! Levantamos e caminhamos em direção ao Bom Fim. Assistimos a um filme no Bristol ou no Baltimore e depois voltamos a caminhar em direção ao centro. Então, ela disse bem baixinho que poderíamos ir a um motel. Eu conhecia um na Santo Antônio, que as pessoas chamavam de Elefante Branco. E lá fomos nós. A coisa se repetiu algumas vezes até que ela começou a fazer campanha para que eu namorasse uma de suas amigas, a H, coisa que efetivamente aconteceu. Ordens são ordens…
Logo comecei a sair com ela e seus amigos. Ela parecia agregar pessoas e… Conclusão óbvia: vi que ela agregava apaixonados, apesar de algumas amigas também. Eu tinha certeza que ela tinha algo com CG, não lembro se tinha mesmo. E assim foi passando o tempo, eu sempre saindo com LJ, sua irmã, H e seu séquito. Dentro do grupo, eu e ela éramos os mais moleques ou corajosos. Lembro de casos cômicos, como aquele no qual ela estava manobrando seu carro num estacionamento de supermercado quando um Opala — sim, anos 80, estávamos num Fusca — entrou em linha reta na nossa vaga. O cara chegou a abanar pra nós, a mulher dele ria. Irritante, muito irritante. Ela começou a dizer palavrões e eu disse calma, vou esvaziar dois pneus dele. E esvaziei. Ela cuidava da área enquanto eu enfiava os palitos no ventil. Depois, na saída, vimos o casal dando voltas no carro, examinando os pneus. Ríamos tanto, tivemos um tal ataque de riso, que ela teve que parar o carro.
Sabem, alguma coisa em mim faz com que as pessoas passem a me contar segredos. E eu não sou nada discreto, muitas vezes traí a confiança que depositaram em mim. Porém, mesmo bêbado, só contei parcialmente as fofocas, apenas contei o que, na minha opinião, era contável. Sim, traía, mas pouquinho e nunca tive problemas. Claro que isto é um problema de caráter.
E me tornei confidente da LJ. É óbvio que eu não desejava este cargo de segunda linha, queria era namorá-la e ela sabia disso, não era trouxa. Era uma época bem diferente da atual. Era complicado transar — as gurias simplesmente não cediam. A exceção foi a MC. De resto, eram só amassos. E com a LJ nem mais isso. Quando namorei a H, foram só amassos. Inacreditável.
LJ começou a fazer algumas estrepolias nas quais eu não entrava. Ela e P começaram a sair com MP, uma mulher, e a fazerem ménage à trois. Quando P voltou para Curitiba, a coisa seguiu entre as duas. Hoje, MP é uma mulher casada com um cara que lhe foi apresentado pela da LJ. Ordens são ordens. MP obedeceu e está cheia de filhos.
Fomos nos afastando lentamente. Os telefonemas diminuíram quando comecei a namorar a IT em 81. Quando se formou, LJ foi para Curitiba e casou com B. Uma surpresa, porque B era um cara bem convencional. E, de certa forma, tudo acaba aqui. Não falávamos mais. Apenas tomamos um café juntos antes da formatura de minha filha. Ela foi à formatura, pois, afinal, era tia da minha filha. Sim, minha filha é filha de sua irmã… Chegando no local vi-a sentada no café. Ela me chamou. Por incrível que pareça, fiquei nervoso na presença de LJ, cheguei a gaguejar aqui e ali e ela ali, na maior calma e beleza. Isto faz uns 6 ou 7 anos.
Voltei a vê-la no início deste ano, creio. Ou foi no fim de 2024? Foi quando da morte de seu pai ou mãe, no velório. Estava magérrima, ainda bonita, mas inacreditavelmente magra. Tipo menos de 40 Kg numa pessoa de 1,64m. Todo mundo podia ver que estava doente ou louca. Aquilo não parecia um regime severo. Só ficaram a beleza e os cabelos esvoaçantes. Morreu faz duas semanas, de câncer. Meu psiquiatra disse que ela certamente negou a doença até o fim. Contou que tem gente que faz seus exames, vê o resultado, rasga e segue a vida, não admitindo discutir o assunto. A LJ era de ficar irritada, fechava a cara quando reprovava o tema da conversa. Era bem capaz de estar negando o problema e acho que poucas pessoas teriam coragem de dizer vai te tratar, mulher. E o pessoal de Curitiba não parecia ser muito hábil, digamos assim.
O que sei é que minha amiga está morta. Nesses dias, vários de nossos diálogos voltaram à minha cabeça. Algumas piadas também. Estou naquela situação de fazer uma coisa qualquer e perguntar se a LJ concorda ou não. E ela sempre tem uma opinião ou dá mais uma risada, falando tolinho, tsc, tsc, tsc.

































