Thomas Mann: 20 mil euros de seguro

Thomas Mann: 20 mil euros de seguro

Em 1900, Thomas Mann enviou pelo correio a única cópia manuscrita de “Os Buddenbrook” — pagando um seguro de mil marcos, valor que fez o funcionário rir. Segundo o ChatGPT, seria algo como 20 mil euros hoje.

O romance, que narra a ascensão e queda de uma dinastia de comerciantes, revela mais do que a decadência de uma família: é um retrato afiado da burguesia alemã, onde laços de sangue e negócios se confundem, e a tradição sucumbe à modernidade.

Mann teceu sua narrativa com documentos reais da própria família, provocando escândalo em Lübeck. Tios e tias reconheceram-se nos personagens, acusando-o de expor seus segredos. O escritor, porém, defendia que a arte não inventa. O autor tinha 25 anos em 1900 e este livro talvez seja o melhor que um autor tenha escrito nesta idade.

Thomas Mann (1875-1955) ergueu-se da condição de péssimo aluno, sem formação profissional, e de herdeiro decadente dos frutos da atividade comercial exercida pelas gerações anteriores de sua família em Lübeck. Os negócios se encerraram porque ele e o irmão mais velho, Heinrich Mann (1871-1951), foram considerados inaptos pelo próprio pai a sucedê-lo. Antes de morrer, o pai, condenado pelo câncer, liquidou a própria empresa e deixou a fortuna sob tutela de um administrador financeiro.

Foto: Thomas Mann em 1906.

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O Testamento Maldito (O Testamento Donadieu), de Georges Simenon

O Testamento Maldito (O Testamento Donadieu), de Georges Simenon

Há os livros do detetive Maigret, mas convenhamos, Simenon ficou célebre sobretudo por seus romances curtos, intensos e econômicos, os chamados romans durs, em que a pesada densidade psicológica não depende da extensão. Por isso, quando ele escreve um romance mais longo — como O Testamento Maldito (ou a tradução literal, O Testamento Donadieu) — isso não é um acidente de percurso, mas uma escolha. Este livro tem 392 páginas, muitos personagens e traz estruturas mais amplas do que as dos dramas individuais. Aqui nós temos um painel de uma família decadente da pequena cidade portuária de La Rochelle, no oeste da França, de frente para o Atlântico Norte. Logo no primeiro capítulo, morre o patriarca dos Donadieu, que viviam — mulher, quatro filhos casados, netos e empregados — numa respeitável mansão na mui digna Rue Réaumur.

Depois de conhecido mundialmente, Simenon sempre foi cobrado para escrever uma grande romance… Como se já não os tivesse. Sua resposta era inteligente: “Meu grande romance é o mosaico formado por meus pequenos livros”. Porém, O Testamento Maldito parece mirar um patamar que raramente aparece em sua obra. Ele não chega a buscar o épico, mas cria um painel e assume uma ambição muito comum na literatura dos séculos XIX e XX: a exploração do peso da herança, da ordem familiar como destino, dos mecanismos silenciosos do poder burguês. Nesse sentido, dialoga com tradições comuns, mas filtradas por sua típica dureza e secura. É a história de uma decadência mais moral do que financeira.

Ele não acompanha apenas uma crise íntima, mas várias — descreve um organismo social inteiro que está em crise: a família, a empresa, o nome Donadieu como instituição. Ele são armadores, isto é, donos de embarcações mercantis que realizam transporte de cargas, dessas que Trump gosta de roubar. Ou seja, equipam, mantêm e exploram comercialmente navios, visando lucro. O romance narra o modo lento e natural com que a família produz o próprio sufocamento. O testamento que desencadeia o enredo não cria o conflito — ele apenas expõe o que já existia: ressentimentos e pactos que se sustentam pela conveniência.

Com sua prosa limpa, Simenon constrói um drama psicológico em que o peso da tradição vale mais do que os sentimentos individuais. Quase todos os personagens parecem condenados ao papel que herdaram: obedecer, proteger a reputação, preservar o patrimônio — ainda que isso custe a autonomia ou o afeto. E há os que desejam entrar para o clã.

O grande personagem do romance é Philippe, que chega para chacoalhar a família estabelecida, demonstrando que os filhos do patriarca eram, na verdade, uns inúteis. O modo como ele conquista Martine e passa mandar em todos é muito surpreendente. Outra grande criação é Michel, o filho conquistador de mulheres pobres. A ruptura dele com Eva é um grande momento do livro.

O romance avança em diálogos reservados e ambientes carregados, revelando aos poucos a lógica interna deste clã que transforma lealdade em prisão. Não há julgamentos: Simenon observa, com frieza, como o dinheiro, o nome e a continuidade familiar se sobrepõem à vida concreta das pessoas. O “maldito” do título brasileiro não se justifica. Não é o documento — é o destino compartilhado que ninguém consegue romper.

O Testamento Maldito se impõe como um dos grandes “romances duros” de Simenon: não é um policial, mais uma radiografia de uma família em que o que realmente assusta não é o crime, mas a normalidade que o ampara.

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Atrás do balcão da Bamboletras (LXXV)

Um grupo de baianos de Salvador acaba de entrar na Livraria Bamboletras. Todos pegaram livros e pediram desconto na hora de pagar. Eu perguntava pra cada um deles:

— Você conhece o Embaixador da Bahia no RS, Sr. Franciel Cruz, o Butragueño de Amaralina, amigo de Wagner Moura?

Se o indigitado respondesse que não, perdia na hora o desconto que eu não ia dar. Até que apareceu um esperto que disse que conhecia. Eu olhei bem sério pra ele. O desinfeliz sustentou o olhar. Então eu perguntei se ele conhecia a Embaixatriz da Bahia em SP.

— Diga o nome dela para que eu possa confirmar.

— Não, diga você! Ela se apresenta como “XXXX em São Paulo”, só para demonstrar desconformidade com a situação. Mora em São Paulo, imagine.

— Trocar Salvador por aquela bosta? Não é baiana! Podemos desconsiderá-la.

Ninguém ganhou desconto, mas todos pediram parcelamento, ô Grória!

Engraçado, na livraria eles pedem desconto, no caixa do supermercado, não. Manda gente melhor pra cá, Franciel.

P.S. : Eles ficarão aqui em Porto Alegre até o dia 5 e fizeram uma baita encomenda de livros bons. Acho que a obra inteira de Lima Barreto está na lista. O único problema é que pedem desconto, Franciel, isso tem que acabar.

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Trens Rigorosamente Vigiados 7 x 1 Trens Estreitamente Vigiados

Trens Rigorosamente Vigiados 7 x 1 Trens Estreitamente Vigiados

O filme ‘Trens Estreitamente Vigiados’ (1966) ficou célebre. Ele é a lendária adaptação de uma moderna, linda e delicada e novela de 1965 de Bohumil Hrabal. Ela conta a história de amadurecimento do jovem e inexperiente Miloš Hrma, que está servindo como guarda de estação no centro da Tchecoslováquia no final da Segunda Guerra Mundial. O foco é o amadurecimento sexual do rapaz, que sofre de ‘ejaculatio praecox’. Apesar do final um tanto trágico, é um dos filmes mais queridos da década de 60, ganhador do Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira em 1968. Um marco do cinema e um dos principais filmes da chamada Nouvelle Vague tcheca.

Ontem o revi, após finalizar a leitura do livro de Hrabal, lançado no Brasil pela 34 e chamado de ‘Trens Rigorosamente Vigiados’. Tinha quase esquecido do filme. É chocante a diferença. Foi um sofrimento assistir até o final a imensa simplificação que o diretor Menzel e o próprio Hrabal fizeram no roteiro. Eu realmente pensava que o filme não seria massacrado pelo livro, mas foi.

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As mil manias de quem lê

As mil manias de quem lê

É curioso pensar nas manias que nós, leitores, desenvolvemos — esses pequenos rituais e peculiaridades que se tornam parte da identidade de quem lê. Por exemplo, uma das minhas manias é a de carregar livros mesmo sem a certeza de ler, às vezes com a certeza de que não vou ler, podendo levar livros até em aniversários… Mas há muitas outras. O DataBamboletras fez uma pesquisa entre seus clientes e detectou grande variedade de hábitos peculiares. Aqui estão alguns bem comuns, divididos por categorias:

1. Relacionados ao objeto livro

· Cheirar livros. (Essa eu não tenho).
· Aversão a dobrar o canto das páginas em vez de usar marcadores de páginas, bilhetes, recibos, notas fiscais ou até um lápis. (Essa eu tenho. Coleciono marcadores bonitos).
· Organização obsessiva da biblioteca pessoal. (Essa eu já tive).
· Sublinhar com lápis, marcador ou caneta. Alguns fazem anotações nas margens. Já outros têm pavor de marcar qualquer coisa no livro. (Eu sublinho com caneta e anoto coisas nas margens, para horror de alguns).
· Cuidado com a lombada. Evitar abrir demais para não estragar, ou o oposto, “quebrá-la” de propósito para deixar o livro mais confortável. (Eu quebro quando o livro é maior do que 200 páginas, aproximadamente).

2. Hábitos de leitura

· Ler várias livros ao mesmo tempo. (Raramente faço isso).
· Leitura conforme a situação. Ter um livro específico para cada momento — um na bolsa, um na mesa de cabeceira, um para viagens. (Jamais).
· Terminar um livro, mesmo que não esteja gostando, Aquela coisa de chegar até o fim por compromisso. (Já fiz muito, hoje largo com nojo).
· Reler passagens favoritas antes de dormir ou em momentos de nostalgia. (Sim, para isto sublinho os meus).
· Contar páginas ou calcular a porcentagem de progresso. (Faço. Louco total. Faço a regra de três mentalmente).

[ Persona (Ingmar Bergman) ] 1966

3. Comportamentos sociais/emocionais

· Esconder a capa do livro em público para não revelar o que está lendo. (Jamais fiz).
· Ficar ansioso perto do fim de um livro bom — alegria pela conclusão, mas tristeza pelo fim. (Sempre).
· Travar em livrarias ou sebos por horas, mesmo sem intenção de comprar. (Sempre).
· Sentir atração física por livros bonitos, mesmo que o conteúdo não interesse tanto. (Não).
· Emprestar livros com regras rígidas (“devolva como pegou”) ou, ao contrário, recusar-se a emprestar por apego. (Regras rígidas, com ameaças).

4. Manias práticas

· Sempre ter um livro à mão em filas, salas de espera ou no transporte — a ideia de tempo “perdido” sem ler é angustiante. (Sim, óbvio).
· Ler a biografia do autor antes ou depois do livro, para contextualizar. (Depois).
· Evitar ver o filme/série antes de ler o livro. Ou o contrário: ler o livro depois. (Sou indiferente).
· Colecionar edições específicas de um autor, mesmo em idiomas que não domina. (Sim, de Virginia Woolf…).

5. Superstições e pequenos rituais

· Escolher o próximo livro por “intuição” ou pelo clima do momento. (Não, sei os que vou ler semanas antes).
· Ter um livro de cabeceira fixo para ler aleatoriamente. (Nunca).
· Pular o prefácio / introdução (Depende do autor e do tamanho da introdução).
· Ler notas de rodapé apenas em ensaios, nunca em ficção. (Eu).
· Associar livros a momentos da vida (Sim, claro).

6. O Kama Sutra da leitura

Eu leio deitado, em várias posições, ou sentado numa cadeira, com o livro na mesa. Ou em filas, no banheiro, na sala de espera, no ônibus, etc.

No fundo, essas manias revelam algo bonito — a relação íntima física que se cria com a leitura. O livro deixa de ser só um objeto e vira amuleto, objeto de amor e refúgio. Cada leitor desenvolve sua própria maneira de conviver com ele.

E tu aí que tá lendo? Tem alguma mania particular que não listei?

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“Ainda estou aqui”, “O Agente Secreto” e?

Em 2025, tivemos “Ainda estou aqui” e Fernanda Torres sendo reconhecidos (e não validados) internacionalmente.

Este ano iniciou com “O Agente Secreto” e Wagner Moura fazendo o mesmo.

Ambos são combatidos pela direita. Mas “O Agente Secreto” ainda é pior — traz consigo um monte de nordestinos financiados pelo Bolsa Família, sendo que um dos principais reside na América Comunista, ou seja, na Califórnia, recebendo polpuda mesada de empresários comunistas que desviam seus impostos de renda para financiar a revolução através da Rouanet.

Esperamos que, ano que vem ou ainda em 2026, “Dark Horse” tome de assalto os cinemas do mundo a fim de restaurar a verdade. Passemos uma borracha no passado. Queremos Anistia e “Dark Horse”.

Mas, falando sério, que orgulho que dá ver filmes tão bons feitos em nosso país por gente parecidinha com a gente. E como é cinematograficamente culto o Kleber, né? Mas este já é outro assunto.

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Historias Negras del Fútbol Argentino — Vol. 1, de Alejandro Fabbri

Historias Negras del Fútbol Argentino — Vol. 1, de Alejandro Fabbri

Alejandro Fabbri, jornalista e historiador do futebol argentino, constrói em Historias Negras del Fútbol Argentino um livro que foge deliberadamente da narrativa heroica e romântica do esporte. Em vez de gols decisivos, ídolos e conquistas, ele reúne episódios sombrios, desconfortáveis e, muitas vezes, esquecidos — desde arbitragens viciadas e jogos suspeitos até pressões políticas, violências de arquibancada e decisões de bastidores que alteraram destinos de clubes e jogadores.

O mérito do livro está menos no impacto das revelações isoladas e mais no modo como Fabbri organiza a memória do futebol como território de poder, onde interesses econômicos, pressões políticas, rivalidades regionais e vaidades institucionais se entrelaçam. Sua escrita é clara, direta e jornalística, mas nunca fria: há indignação, ironia e, sobretudo, a convicção de que contar essas histórias é uma forma de restaurar a complexidade do jogo.

Fabbri evita o sensacionalismo. Ele vai aos arquivos, cita jornais, testemunhos e documentos, e mostra que o futebol argentino não foi apenas palco de glória coletiva — foi também cenário de injustiças, manipulações e tragédias silenciosas. Ao detalhar partidas anuladas ou manipuladas, campeonatos distorcidos e carreiras destruídas, o autor revela como a mística esportiva convive, desde sempre, com a sombra do amadorismo institucional e da corrupção.

O resultado é um livro que desromantiza o passado sem destruir o amor pelo jogo. Lê-lo é perceber que a história do futebol é mais rica e humana quando inclui seus fracassos, suas zonas cinzentas e seus bastidores incômodos. Para quem gosta de futebol como fenômeno cultural, e não apenas como espetáculo, este primeiro volume é instigante e… atual.

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Do que eu falo quando falo de corrida, de Haruki Murakami

Do que eu falo quando falo de corrida, de Haruki Murakami

Um livro simples e direto, de alguém que vive a corrida. Alguns de vocês sabem que eu, aos 68 anos, ainda corro. Nestes dias de canícula extrema, tenho sofrido um pouco, apesar de que minha ideologia de corredor é totalmente diferente da de Murakami. Eu corro sempre confortavelmente, naquilo que chamo de “velocidade de cruzeiro”, isto é, velocidade constante e sem dor. Com o calor deste dezembro-janeiro, paro nos 4 Km, pois tudo começa a ficar complicado. Não sinto dor, não tenho dificuldades para respirar, só sinto muito calor; na verdade, parece que alguém me desliga remotamente. Segundos antes de parar, não pretendia fazê-lo e fico surpreso quando paro. Sim, estou tomando todos os remédios que me prescreveram.

Neste livro fora da curva, Haruki Murakami transforma a corrida em metáfora de escrita e disciplina. Longe de ser apenas um diário de treinamento, Do que eu falo quando falo de corrida é um ensaio autobiográfico em que o autor examina o corpo, o passar do tempo e o silêncio — aquilo que sustenta sua literatura quando ninguém está olhando. Eu escrevi silêncio? Bem, quando ele corre, costuma ouvir rock, jazz ou eruditos. Voltemos: ao narrar maratonas e dores musculares, Murakami fala, na verdade, sobre persistência, escolhas e a estranha solidão de quem decide enfrentar a si mesmo todos os dias. Escrever seria como correr.

A prosa é calma e transparente, como quem pensa enquanto caminha. Não há heroísmo; há cansaço, limites, fracassos e uma ética quase artesanal: correr e escrever exigem rotina, humildade e paciência. O autor reflete sobre a passagem dos anos, sobre a relação entre arte e resistência física. É um livro de introspecção discreta, sem alarde.

Ou seja, o ponto central do livro não é a corrida em si, mas o modo como Murakami articula disciplina,  e rotina com o processo de escrita. Ele descreve o momento em que decide abandonar o bar que administrava para viver exclusivamente de literatura — e como a corrida surge em sua vida como uma prática que lhe dá método, fôlego e constância. O interesse do livro está na relação entre esses dois gestos paralelos: escrever todos os dias, correr todos os dias — ambos como tarefas pacientes e acumulativas.

Murakami evita grandes conclusões e nunca dramatiza suas experiências. Em vez disso, constrói um mosaico de pequenas cenas: treinos, viagens, competições, cansaços, fracassos discretos, satisfações modestas. A força do livro nasce justamente dessa contenção. Ele observa a si mesmo com distância, às vezes com humor, outras com leve melancolia. O resultado é um livro sobre tempo e trabalho — sobre aquilo que só se constrói lentamente, passo a passo, página a página. Murakami mostra que a escrita, como a corrida, não é feita de momentos épicos, mas de repetição, atenção e uma obstinada fidelidade ao ato de continuar.

Do que eu falo quando falo de corrida é, assim, um livro de memórias enxuto e elegante, que ilumina o cotidiano do escritor por dentro — e revela, sem didatismo, como a literatura também se articula com hábitos, insistência e, tá bem!, silêncio.

P.S. — Sim, sim, meus amigos, para dar este título a seu livro, Murakami pediu permissão para a viúva de Raymond Carver, autor de “De que falamos quando falamos de amor” (What We Talk About When We Talk About Love).

Hoje, Murakami tem 76 anos. Será que ainda corre?

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Trens Rigorosamente Vigiados, de Bohumil Hrabal

Trens Rigorosamente Vigiados, de Bohumil Hrabal

Publicado em 1965, Trens Rigorosamente Vigiados é um clássico. É um daqueles romances curtos que parecem conter um mundo inteiro. Cravado na ex-Tchecoslováquia ocupada pelos nazistas, o livro acompanha o menino / jovem Miloš Hrma, aprendiz de ferroviário, que vive à margem do conflito bélico, mas no centro de outro tipo de guerra: a do amadurecimento, do desejo, da vergonha e da fragilidade.

A narrativa de Hrabal tem um tom irresistível, ao mesmo tempo irônico e melancólico, combinando piadas — algumas delas muito inesperadas — com momentos abruptos de dor. O cotidiano da pequena estação ferroviária — seus funcionários, pequenas tragédias pessoais, manias e gestos ridículos — ganha relevo contra o pano de fundo da guerra, que nunca é o foco direto, mas que exerce uma pressão constante e silenciosa.

Como disse, este romance abarca o mundo, sendo, sobretudo, um estudo da condição humana em situações-limite, mas sem recorrer ao heroísmo convencional. Miloš não é um herói de guerra — é um jovem inseguro, dividido entre o despertar sexual e um profundo sentimento de inadequação. É justamente dessa humanidade desajeitada que nasce a força do livro. Hrabal mostra como as grandes catástrofes históricas atravessam vidas pequenas, frágeis, “insignificantes” — e como essas vidas carregam beleza.

A prosa de Hrabal é enxuta, mas cheia de subtexto e poesia. Há passagens que oscilam entre o absurdo e o lirismo. No desfecho, o gesto de Miloš atinge toda a narrativa (e principalmente o leitor): é ao mesmo tempo ato de coragem, reparação íntima e tragédia incontornável. Hrabal sugere que, em meio ao caos histórico, os indivíduos continuam a buscar sentido — ainda que esse sentido possa custar caro demais.

Trens Rigorosamente Vigiados é uma pequena obra-prima inesquecível: um romance sobre a passagem à idade adulta, sobre a guerra e a delicada brutalidade de existir.

Bohumil Hrabal

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