Os 50 maiores livros (uma antologia pessoal): XXXII – Os Buddenbrook, de Thomas Mann

Os 50 maiores livros (uma antologia pessoal): XXXII – Os Buddenbrook, de Thomas Mann
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Em 1900, Thomas Mann enviou pelo correio a única cópia manuscrita de Os Buddenbrook — pagando um seguro de mil marcos, valor que fez o funcionário rir. Segundo o ChatGPT, seria algo como 20 mil euros hoje. O romance, que narra o auge e a queda de uma dinastia de comerciantes, revela mais do que a decadência de uma família: é um belo retrato — afiado, crítico e interessante — da burguesia alemã, onde laços de sangue e negócios se confundem e a tradição sucumbe à modernidade. Mann teceu sua narrativa com documentos reais da sua própria família, provocando escândalo em Lübeck. Tios e tias reconheceram-se nos personagens, acusando-o de expor seus segredos. O escritor, porém, defendia que a arte não inventa. O autor tinha 26 anos em 1901, ano de do lançamento do livro, e talvez este seja o melhor romance longo que qualquer autor tenha escrito nesta idade.

Thomas Mann (1875-1955) veio da condição de péssimo aluno, sem formação profissional, e de herdeiro decadente dos frutos da atividade comercial exercida pelas gerações anteriores de sua família em Lübeck. Os negócios se encerraram porque ele e o irmão mais velho, Heinrich Mann (1871-1951), foram considerados inaptos pelo próprio pai a sucedê-lo. Antes de morrer, o pai, condenado pelo câncer, fechou a própria empresa e deixou a fortuna sob tutela de um administrador financeiro.

O que o funcionário do correio jamais imaginaria é que aquele romance de formação – escrito entre 1897 e 1900 – se tornaria um dos marcos definitivos da literatura europeia. A história do auge e da queda de uma família de comerciantes de Lübeck, ao longo de quatro gerações (1835-1877), é muito mais que uma simples crônica de costumes: é curiosa uma dissecação da alma burguesa. Digo isto, porque é um livro paradoxal — sofrido, monumental e leve de ser lido. Publicado em 1901, já tinha a marca de uma maturidade estética impressionante para um autor tão jovem.

Tratava-se de traçar a decadência de uma família de burgueses de Lübeck ao longo de quatro gerações, mas não apenas como uma sequência de fatos documentais, e sim como uma parábola complexa sobre a tensão entre valores éticos, pressões sociais, responsabilidades econômicas e pulsões íntimas. A ambição de respeito, conforto e continuidade social, que inicialmente impulsiona os Buddenbrook ao sucesso, converte-se, aos poucos, em peso incômodo: a busca por estabilidade econômica e reputação civil começa a dar errado, abrindo fissuras que o leitor acompanha com uma mistura de fascínio e desconforto.

O romance abre com uma cena emblemática: a família reunida para um almoço dominical na nova casa da Mengstrasse, em Lübeck. Todos os burgueses da cidade, empresários, advogados e representantes da igreja, comparecem. O velho Johann Buddenbrook, ainda vigoroso e pragmático, representa o espírito fundador – aquele que construiu a fortuna com trabalho árduo e confiança inabalável nos valores mercantis. Seu filho, o cônsul Jean Buddenbrook, já traz os primeiros sinais de fragilidade: é muito religioso, sentimental, um tanto inepto para os negócios, preocupado em preservar a respeitabilidade social.

Com a terceira geração, encarnada por Thomas Buddenbrook, a decadência torna-se palpável. Thomas é um homem dividido: dedica-se com esforço sobre-humano a manter a aparência de solidez da firma, mas sente-se consumido pela representação social que precisa sustentar. O narrador descreve com precisão cirúrgica como o cuidado obsessivo com a imagem exterior – o bigode sempre frisado, as casacas impecáveis, a postura irrepreensível – que esconde um esgotamento interior que prenuncia a ruína. A ironia trágica atinge seu clímax quando Thomas morre de forma quase grotesca: após uma extração dentária mal feita, cai na rua, coberto de lama e sangue, ele que jamais permitira uma mancha em suas roupas.

Se Thomas Buddenbrook é o herói trágico da decadência, seu filho Hanno é o germe da dissolução definitiva. Desde a infância, Hanno mostra aversão aos negócios e inclinação para a música, herdada da mãe, Gerda, uma talentosa violinista, mas fria e distante. Hanno é descrito como frágil, doentio, alheio às exigências práticas da vida.

A crítica literária contemporânea vê em Hanno o primeiro de uma linhagem de “artistas desviados” na obra de Mann – personagens que, por sua sensibilidade exacerbada, sua introspecção e sua incapacidade de se adaptar ao mundo burguês, estão fadados à doença, à loucura ou à morte. Hanno não é apenas o último Buddenbrook; é o símbolo da vitória da arte sobre a vida prática – ainda que essa vitória signifique a extinção da família.

Nas palavras do próprio Thomas: “Sempre haverá homens que têm direito àquele interesse pelo próprio eu e a essa observação minuciosa dos seus sentimentos: poetas que sabem dar forma segura e bela à sua vida interior privilegiada, enriquecendo assim o mundo de outras pessoas. Mas nós nada mais somos do que simples comerciantes; as nossas auto-observações são desesperadamente insignificantes”. A ironia, claro, é que quem pronuncia estas palavras é um comerciante – e quem as escreve é o poeta que venceu.

Como já disse, um aspecto fascinante de Os Buddenbrook é sua dimensão autobiográfica, que Mann nunca escondeu. A cidade de Lübeck é claramente identificável; as personagens tinham correspondentes reais na família do autor – e alguns parentes, como um tio que se reconheceu no desajeitado Christian Buddenbrook, reagiram com indignação, acusando-o de “sujar o próprio ninho”.

Mas o elemento mais intrigante é a origem materna de Mann. Sua mãe, Julia da Silva-Bruhns, era brasileira, nascida em Angra dos Reis, filha de um comerciante alemão e uma brasileira. Julia era bela e musicalmente dotada – características que Mann transferiu para diversas personagens femininas, incluindo Gerda, a mãe de Hanno.

Estudos recentes mostram como Thomas Mann via sua própria “mestiçagem” – entre a seriedade paterna alemã e a sensibilidade artística materna “latina” – como a fonte de seu talento, mas também como uma marca de degenerescência aos olhos da sociedade alemã da época, obcecada por pureza racial. Os artistas em sua obra são quase sempre “mestiços” – e é justamente essa condição híbrida que os torna artistas, mas também os condena.

As figuras femininas em Os Buddenbrook merecem grande atenção. Em contraste com a idealização da mãe nos escritos autobiográficos de Mann, o romance apresenta uma galeria de mulheres problemáticas. A avó Antoinette ama o luxo; a mãe Elisabeth é piegas e facilmente enganada por pastores hipócritas; Clothilde, uma parente pobre, é descrita como eternamente magra apesar de devorar quantidades enormes de comida; Clara, a irmã doentiamente religiosa, morre jovem.

A mais complexa é Gerda, esposa de Thomas e mãe de Hanno. Retratada como bela, fria, distante, ela só se anima ao tocar violino – e sua intimidade musical com o tenente von Throta, visita habitual da casa, é descrita com sutileza que mal disfarça o adultério espiritual (e talvez físico). É dela que Hanno herda “o sangue ruim, venenoso” que o desvia dos negócios para a arte.

A exceção parcial é Tony Buddenbrook, irmã de Thomas, que alguns críticos (e eu também) consideram a personagem mais cativante do romance. Tony é repetidamente sacrificada em casamentos de conveniência que fracassam, mas mostra uma resiliência notável, sobrevivendo a todos os outros membros da família e mantendo, mesmo na adversidade, uma lealdade obstinada ao nome Buddenbrook. É ela quem, nas cenas finais, ainda tenta preservar a dignidade do clã extinto.

Um dos momentos mais extraordinários do romance ocorre quando Thomas Buddenbrook, já em decadência física e espiritual, descobre um exemplar de “O Mundo como Vontade e Representação”, de Schopenhauer. A leitura do capítulo “Da Morte e sua Relação com a Indestrutibilidade do nosso Ser-em-si” provoca nele uma experiência quase mística. Thomas experimenta uma breve iluminação, sente-se libertado do peso da individualidade – mas logo retorna à sua existência mundana de comerciante e político, incapaz de integrar essa visão à vida prática. A ironia é que ele morrerá pouco depois, de forma inglória, sem a transcendência que vislumbrara.

Os Buddenbrook é muitas vezes descrito como um romance naturalista, herdeiro da tradição realista do século XIX – e de fato Mann utiliza todos os recursos desse estilo: descrições minuciosas, atenção aos detalhes materiais, construção cuidadosa do ambiente social. Mas há algo mais. A prosa de Mann já ensaia aqui os mergulhos psicológicos que atingirão seu ápice em A Montanha Mágica. O narrador alterna habilmente entre o olhar externo – capaz de descrever com precisão quase fotográfica as roupas, os móveis, os gestos – e a sondagem dos abismos íntimos das personagens.

A estrutura, centrada na sucessão de pais e filhos, confere ao romance uma coerência quase musical: cada geração repete, em tom menor, os temas da anterior, até que a melodia se extingue. Reduzir Os Buddenbrook a uma simples “saga de família” seria ignorar sua verdadeira grandeza. O que Mann nos oferece é uma meditação sobre a incompatibilidade entre vida prática e vida espiritual, entre o mundo dos negócios e o mundo da arte, entre a afirmação da vontade e a aceitação da morte.

A família Buddenbrook decai não porque seus membros sejam incompetentes nos negócios, mas porque a própria forma de vida burguesa, baseada na acumulação, na aparência e na perpetuação do nome, traz em si o germe de sua dissolução. O triunfo final da arte é também a confirmação da derrota: a arte floresce apenas onde a vida já não pode prosperar.

A decadência dos Buddenbrook é inevitável? Poderia ter sido evitada se as escolhas fossem outras? Hanno é vítima das circunstâncias ou herói trágico? O que Mann quer dizer ao fazer Thomas Buddenbrook ter uma experiência mística com Schopenhauer pouco antes de morrer de forma tão prosaica? Tony Buddenbrook é uma tola manipulada ou uma heroína resiliente? Até que ponto a figura de Gerda – a mãe musical e distante – reflete a visão ambivalente de Mann sobre sua própria mãe brasileira?

Bem, fui longe. Finalizando, Os Buddenbrook não é apenas o primeiro romance de Thomas Mann; é a pedra fundamental sobre a qual ele edificaria toda a sua obra. Nele já estão presentes todos os grandes temas que o acompanhariam pela vida: a relação conflituosa entre arte e burguesia, a doença como expressão da sensibilidade, a música, a sexualidade fluida que o próprio Thomas tinha, a morte como libertação, a ambiguidade da herança familiar.

Mas o pequeno Johann via mais do que devia ver; os seus olhos, esses olhos tímidos, castanhos e orlados de sombras azuladas, observavam demasiado bem. Não somente via a amabilidade certeira que o pai irradiava para todos, via também — via-o com perspicácia estranha e atormentadora — o quanto era difícil fazê-la; via como o pai, após cada visita, se tornava mais taciturno e pálido, como, de olhos cerrados e pálpebras avermelhadas, se recostava contra o canto da carruagem; com o coração horrorizado notava como, no limiar da casa seguinte, deslizava uma máscara por sobre esse mesmo rosto, e como, sempre de novo, uma elasticidade repentina se apoderava desse corpo fatigado… Ao ver tudo isso: mímica, fala, porte, atividade e comércio com outras pessoas, o pequeno Johann não tinha a impressão de que se tratava da realização ingênua, natural e semiconsciente de interesses práticos que o pai tivesse em comum com os demais e quisesse defender contra eles, mas sim um fim em si mesmo; parecia-lhe um esforço voluntário e artificial, onde, em vez do sentimento sincero e simples, tinha de trabalhar uma virtuosidade extremamente difícil e cansativa, para garantir a atitude impecável. Diante da ideia de que esperavam dele próprio que, também, um dia, se exibisse em reuniões públicas e agisse, falando e gesticulando, sob a pressão de todos esses olhares, Johann fechava os olhos, num arrepio de relutância medrosa…

Thomas Mann, Os Buddenbrook, Décima parte, Capítulo 3, Pág. 551 — Tradução de Herbert Caro

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Partindo de Wim Wenders e indo para a política na música

A pergunta que o repórter fez para Wim Wenders (sobre Gaza) foi muito lógica e pertinente. A política já estava pipocando na entrevista. Mesmo assim, Wenders ficou atônito e comeu mosca. Sinceramente, acho que ele quis proteger os organizadores — que são políticos, obviamente — e tratou de subir no muro. Foi, como se dizia no Julinho, uma “burrada” dele.

A arte sempre foi política e quero falar naquela que é considerada a mais neutra das artes: a música erudita. Dou risada quando dizem que ela é neutra. Até hoje, os nomes das salas de concerto mudam e o repertório obedece a quem tem dinheiro. Mesmo os mecenas têm seus lados. Até bem pouco tempo, a música erudita era controlada pela igreja, servida a reis e até hoje pode ser banida por ditadores.

Vamos lá: durante séculos, os compositores dependiam de nobres, reis e igreja para sobreviverem. A música encomendada servia para legitimar o poder: coroações, casamentos reais, celebrações de vitórias militares, etc. Mas então você diz que Mozart era apolítico. Ora, ele compôs “A Flauta Mágica” com simbolismo maçônico (sociedade secreta perseguida na época). O tranquilo Haydn passou 30 anos como “servo musical” da família Esterházy, só compondo by demand. Há os hinos nacionais (muitos de origem erudita), aberturas e sinfonias para celebrações cívicas. Beethoven inicialmente dedicou sua 3ª Sinfonia (“Eroica”) a Napoleão, mas rasgou a dedicatória quando Napoleão se autoproclamou imperador…

Mais: Beethoven escreveu sua ópera “Fidelio” sobre liberdade e resistência à tirania. As óperas de Verdi se tornaram hinos do movimento de unificação italiano. Shostakovich literalmente viveu sob Stalin. Suas sinfonias são cheias de críticas codificadas ao regime soviético. Antes de Stálin, “O Casamento”, de Stravinsky, foi censurada na Rússia czarista. Luigi Nono compôs obras explicitamente políticas, como “Il Canto Sospeso” (sobre vítimas do fascismo). John Cage usou o acaso como crítica ao controle e autoritarismo.

Ainda mais: “As Bodas de Fígaro” (Mozart) critica a aristocracia: um criado que enfrenta seu senhor feudal, “Wozzeck” (Berg) denuncia a exploração dos pobres e a desumanização militar, “Porgy and Bess” (Gershwin) trata dos negros e da pobreza nos EUA.

OK, Milton, mas o que me dizes da música instrumental, muito mais presente em nossas salas de concerto? Pois eu respondo que, quando a palavra é censurada, a música instrumental pode comunicar-se politicamente.

Primeiro, há os nacionalistas. Chopin: Mazurcas e polonaises (Polônia sob domínio russo). Smetana e Dvořák: os tchecos durante o império Austro-Húngaro. Grieg: Noruega invadida pela Suécia. Sibelius: Finlândia invadida pelos Rússia Imperial. (A famosa “Finlândia” foi escrita para a “Festa da Imprensa” de 1899, uma manifestação disfarçada para apoiar a imprensa finlandesa contra a censura russa).

Mas há os discordantes: Prokofiev e Shostakovich tiveram obras banidas na URSS por “formalismo” (música “difícil demais para o povo”). Messiaen compôs “Quarteto para o Fim dos Tempos” num campo de prisioneiros nazista (para compor, deram-lhe um espaço no banheiro).

Contemporaneamente, há muitas questões políticas. As orquestras, antes privilégio masculino, estão lotadas de mulheres e agora elas invadiram a regência. E por que o cânone tem tão poucas mulheres e pessoas não-brancas? Quem frequenta concertos? Quem pode estudar música erudita? O financiamento público da música é sempre uma decisão política. Iniciativas maravilhosas como El Sistema (Venezuela) usam orquestras para inclusão social.

Um dos maiores compositores atuais, o estadunidense John Adams (Composer) cria obras sobre natureza e crise climática, além de ter escrito a ópera “Nixon in China”, muito ouvida por meu filho…

A música erudita não é apenas “arte pela arte” — nela, esteve sempre misturado o poder, a resistência, a identidade e a transformação social. Cada nota carrega história, e cada execução é um ato político. E, para finalizar este texto desorganizado, digo-lhes que se ouve CLARAMENTE quando os músicos são incultos e ignoram o significado daquilo que tocam.

A música não existe sem sua circunstância histórica. Toda obra musical nasce de um contexto. O que acontecia no mundo quando aquilo foi composto? Para quem o compositor escrevia? Quem ouvia? O que o compositor vivia em sua época?

Leonard Bernstein e outros grandes músicos sempre disseram (aspas de LB): “Para comunicar, o músico precisa ter algo a dizer. E esse algo vem de dentro, de suas experiências, cultura, leituras, amores, dores.” Por exemplo, o intérprete A sabe tocar todas as notas perfeitamente, mas não dá a menor importância a quem compôs, nem quando, nem por quê. Ele vai tocar no máximo corretamente. Já o intérprete B leu cartas do compositor, estudou a época, conhece a forma, entende as referências e o contexto. Será AUDÍVEL que ele tocará com camadas de significado. Para quem têm vivência, é muito óbvio o grau de cultura de quem toca.

Bem, este foi meu destampatório de segunda de Carnaval. Nada contra o Carnaval.

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Vai escrever bem assim no raio que o parta!

Vai escrever bem assim no raio que o parta!

“Mas o pequeno Johann via mais do que devia ver; os seus olhos, esses olhos tímidos, castanhos e orlados de sombras azuladas, observavam demasiado bem. Não somente via a amabilidade certeira que o pai irradiava para todos, via também — via-o com perspicácia estranha e atormentadora — o quanto era difícil fazê-la; via como o pai, após cada visita, se tornava mais taciturno e pálido, como, de olhos cerrados e pálpebras avermelhadas, se recostava contra o canto da carruagem; com o coração horrorizado notava como, no limiar da casa seguinte, deslizava uma máscara por sobre esse mesmo rosto, e como, sempre de novo, uma elasticidade repentina se apoderava desse corpo fatigado… Ao ver tudo isso: mímica, fala, porte, atividade e comércio com outras pessoas, o pequeno Johann não tinha a impressão de que se tratava da realização ingênua, natural e semiconsciente de interesses práticos que o pai tivesse em comum com os demais e quisesse defender contra eles, mas sim um fim em si mesmo; parecia-lhe um esforço voluntário e artificial, onde, em vez do sentimento sincero e simples, tinha de trabalhar uma virtuosidade extremamente difícil e cansativa, para garantir a atitude impecável. Diante da ideia de que esperavam dele próprio que, também, um dia, se exibisse em reuniões públicas e agisse, falando e gesticulando, sob a pressão de todos esses olhares, Johann fechava os olhos, num arrepio de relutância medrosa…”

Thomas Mann, Os Buddenbrook, Décima parte, Capítulo 3, Pág. 551 — Tradução de Herbert Caro

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Não vou ver o último “Morro”

Eu era muito jovem quando li “O Morro dos Ventos Uivantes”. A leitura do livro despertou algo que jamais morreu em mim — o ódio ao romantismo descabelado. Até hoje tenho muita dificuldade não apenas de ler qualquer ultra romantismo como de ouvir algumas obras de Tchaikovsky. E não consigo engolir Rachmâninov nenhum, nem dourado pelos melhores pianistas.

Mas era pior, havia no “Morro” algo que eu não entendia, sei lá, com 12 anos: uma pulsão estranha de erotismo e autodestruição. Para a criança que eu fui, era surpreendente um romance não mostrar o amor e o desejo como força de entendimento e harmonia (ou da sacanagem que eu ainda não entendia), mas como energia excessiva e violenta. O vínculo entre Catherine e Heathcliff era um furacão e uma fusão absoluta, em que o outro é vivido como extensão de si mesmo. Em termos de sentimentos, eles eram como o ET e o Elliot, entendem? E Heathcliff passava a amar Catherine ainda com mais fúria depois de morta, e sua obsessão vai na direção da própria destruição.

Agora apareceu o filme “O Morro dos Ventos Uivantes”. A diretora Emerald Fennell quer que o título apareça sempre entre aspas porque ela não está filmando o livro, mas fazendo uma variação sobre ele. Um cliente da Livraria Bamboletras foi vê-lo e disse que não é uma variação, mas uma distorção, e que, além do mais, Heathcliff, o bastardo talvez filho de ciganos, que é descrito por Emily Brontë como sendo de pele escura, aparece branquinho branquinho. Ora, aí já é demais.

Li que o filme inclui cenas de “forte” tensão erótica. Só imagino… O cinema norte-americano briga bem, mas transa pouco e mal, então deve ser aquele erotismo coreografado, talvez até agressivo. Talvez mostre o desejo como força bruta frustrada e obsessiva — tipo dos clientes do Epstein –, fiel ao espírito do romance, mas achatado pelo pudor.

Não vou ver. Afinal, Brontë me interessa, claro. Fennell nem tanto.

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O sociólogo que me odeia

Eu tenho poucos inimigos, acho que poucas pessoas não me suportam, mas há uma que me persegue. Nosso caso ocorreu em 2010 e só o bloqueei no Facebook hoje. Claro que não éramos amigos aqui.

Em 2010, eu assumi um emprego entrando no lugar de uns amigos dele. Assumi aquele posto numa quarta-feira pela manhã, tendo sido convidado na terça à noite sem saber bem — ou conhecer — quem estaria substituindo. Foi o que bastou. Sim, ele é muito amigo de seus amigos e isso é bonito, só que ele não precisava ter ligado pro meu empregador a fim de falar mal de mim. E as acusações eram bem bobas. O empregador me chamou assim que desligou o telefone e me disse, rindo, que eu tinha um inimigo muito irritado e que este era o sociólogo X. Perguntei sobre o que seria de meu novo emprego. Ele respondeu:

— Tu acha que eu levei a sério?

No fim de semana, publiquei uma reportagem no meu novo emprego. Ele foi lá e fez comentários ácidos que foram recebidos com risadas na redação. A crítica era exagerada. Depois ele sumiu.

Fiquei 8 anos trabalhando naquele local e várias vezes cruzei na rua com o X. Ele nunca me cumprimentou, apesar de eu ter tentado fazê-lo. O que aquele estável funcionário público tinha contra mim? Seria ainda a fidelidade a seus amigos?

Por falar em amigos, a maioria dos meus é gremista. Hoje, resolvi brincar com o patrocínio da Havan na camiseta do Imortal e ele entrou nos comentários me atacando. O coitado é pijamista. Tive que bloquear, né? 16 anos se passaram e o cara não me esquece. Acho que só me resta propor um duelo.

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