Puro fingimento

Acho que tive febre hoje, estou gripadíssimo. Todos os anos tomo aquela vacina contra a gripe; sempre me dizem que nos primeiros dias podemos arranjar uma, depois é difícil. Nunca tinha me acontecido. Vacinei-me sábado e hoje estou uma ameba. Neste momento, por exemplo, finjo escrever este post. Sob esta janela do Windows em que lhes escrevo, há uma tese de uma amiga – de PHD, rapaz, te mete! – que estou fingindo corrigir. Faço isto por puro prazer (ela escreve muito bem, não há correções a fazer, só frases que talvez pudessem ser mais bonitas e que são reformadas, ou não, durante divertidos telefonemas); em outra janela, há um extrato bancário meio apavorante; ainda em outra há um trabalho que devo finalizar a fim de tornar melhor a janela citada anteriormente e há também o Outlook Express com várias mensagens a responder. Tudo meio parado, pois há uma beterraba operando o micro.

Fora do micro, outras janelas me acenam. Tenho que resolver algumas coisinhas chatas que empurro de um dia para o outro – esta é uma janela que está há dias minimizada. Permanecerá assim. Tenho que pegar um filme que mandei duplicar para um amigo de Recife. Faço amanhã sem falta. O OPS me pede atitude e meus filhos dizem-me mudamente que deveria dar-lhes atenção de maior qualidade. Ou não, não sei bem. São adolescentes, sabe? Que paranóia, dou-lhes sempre enorme atenção…

Ademais, devo estar vendo coisas. Não me parece real este chapéu visto no blog da Leila. Vocês também o vêem? Parece-lhes normal? Dizem que ela foi assim na estréia de Sex and the City, o filme, mas não pode ser verdade. Preciso de algo que baixe minha febre, devo estar convulsionando.

Sarah Jessica Parker

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Quando as pernas (todas) e os decotes (nem todos) desaparecem

Tom Jobim cantava as águas de março que fechariam nossos verões. Eu mentiria se as cantasse em Porto Alegre, pois março e abril foram quentes e parcos em chuvas. Foi uma seqüência de dias lindos, os tais dias lindos do mais puro azul que Drummond dizia acontecerem na segunda metade de abril.

São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração.

TOM JOBIM em Águas de Março – Grande autor, péssimo meteorologista.

Acontece em abril, nessa curva do mês que descamba para a segunda metade. Os boletins meteorológicos não se lembraram de anunciá-lo em linguagem especial. Nenhuma autoridade, munida de organismo publicitário, tirou partido do acontecimento. Discretos, silenciosos, chegaram os dias lindos. E aboliram, sem providências drásticas, o estatuto do calor.

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE em Os Dias Lindos – Grande autor, razoável meteorologista

Drummond tem razão, o estatuto do calor está abolido, mas no segundo dia de maio caiu o mundo em forma de chuva. Dirão vocês que não importa, que Drummond é um dos picos da evolução humana e que a culpa deve ser do aquecimento global. OK, sou simpático a qualquer argumentação que enalteça o itabirano, porém lamento dizer que minha contestação aos dias lindos vai além. Saúdo-os ao mesmo tempo que lamento as perdas.

Hoje fui ao centro da cidade. Acostumei-me a caminhar pelas ruas quentes vendo as pernas e decotes das gaúchas. Ficava feliz com a crescente e elegante ousadia daquelas que mostram sua boa forma, suas belas formas, seus bronzeados e seus seios remodelados ou originais. Também apreciava a classe das mulheres que exibiam o que tinham de melhor, escondendo sob panos coloridos o indesejável, o inevitável, o irremediável ou o inexorável. Sou um admirador das artes femininas. Só que hoje o panorama era outro. Os decotes estavam mais fechados, as pernas haviam quase sumido e o colorido das roupas tendiam à diluição. Viram? O dia lindo e seus dezoito graus matinais derrubaram a libido do caminhante.

Mas quem viverá seu qüinquagésimo inverno nesta cidade, sabe que este é um fenômeno sazonal e logo nós, os homens, estas criaturas tão visuais para com o outro sexo, iremos nos readaptar. Ficaremos excitados apenas com um belo rosto e pelo prenúncio de um tornozelo. Conheço alguns que enlouquecerão por um mero salto alto. Pior, há os que abraçarão suas mulheres e amigas apenas para sentirem o aroma do perfume que acompanhará o ar expulso de suas peles pelo abraço. Voltaremos a adivinhar as formas sob as roupas e teremos vontade de levar em nossos carros as mulheres encolhidas nas paradas de ônibus. (Tratar-se-á da mais desinteressada e solidária gentileza.)

Drummond esquece-se de dizer que os dias lindos são o prenúncio de uma época em que o espírito vencerá a observação, em que a cogitação precederá o fato, em que os cobertores serão os companheiros mais adequados a quaisquer primícias e que serão jogados longe apenas durante os clímax. Os dias lindos nos fazem lembrar que, daqui seis meses, haverá uma primavera onde as flores, os plátanos, os guapuruvus e as mulheres reapararecerão. Deslumbrantes.

Porém, o leitor atento que há dentro de mim bate em meu ombro a fim de chamar minha atenção. Diz ele que Drummond vivia no Rio de Janeiro, que lá as pernas e decotes nunca desaparecem, que este é um fenômeno gaúcho, subtropical e que não tenho razão em reclamar do poeta. Acabo esta crônica fazendo tamborilar os dedos da mão direita sobre a mesa. Um por um, repetidamente. É o movimento característico da contrariedade do vencido.

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O OPS complica a vida dos blogueiros

Obs.: Assunto de Interesse Geral, seja você blogueiro ou não.

O Pensador Selvagem, recentemente adquirido pela Google, criou um novo método de nos avisar quando recebemos comentários em nossos blogs. Nada daqueles contadores e e-mails mal formatados. O novo produto alerta imediatamente o blogueiro da chegada de um comentário, esteja onde ele estiver. É o OPS, a New Comment Arrived! Trata-se de um microrreceptor que é inserido sob nossa pele – Under Your Skin, diz a propaganda, obviamente tendo ao fundo a música de Cole Porter. Quando chega um comentário, o receptor avisa o blogueiro através de uma leve descarga elétrica. Isto na Versão Básica, porque na Versão Plus são oferecidos mais recursos. Além de um exclusivo friso lateral no receptor, podemos configurar o equipamento para interpretar o conteúdo das mensagens. Os primeiros testes foram realizados no Brasil e revelaram-se um sucesso técnico. Junto com a Lulu, o Marconi, o Grijó e o Felipe (o Biajoni queria pôr o aparelho noutra região do corpo e foi rejeitado pelo colegiado de psiquiatras), participei da equipe de testes e hoje possuo um destes aparelhos fixado na axila. No começo, tudo funcionou à perfeição, principalmente porque nós e nossos leitores tínhamos ciclo biológico semelhante. Afinal, morávamos dentro do mesmo fuso horário e normalmente dormíamos e acordávamos aproximadamente juntos. Toda a equipe recebeu a Versão Plus do OPS, a New Comment Arrived! e, quando percebíamos um pequeno choque no sovaco, corríamos ao primeiro local info-incluído e abraçávamos o carinho do comentário simpático ou elogioso. Passamos a denominar este aviso de “choque amigo”. Porém, quando o choque era mais forte e longo, íamos furibundos responder à discordância ou ofensa. Tais descargas eram raras, pois os blogueiros costumam ser de natureza lhana. Os problemas começaram quando os blogueiros portugueses, afetivos e educados mas com fuso horário diferenciado, começaram a nos acordar em circunstâncias extremamente matinais. Isto nos impedia de completar nosso sono adequadamente; porém, como a maioria da equipe de testes era insone por natureza, só o de vida mais rotineira, eu, ficou incomodado. A crise só estourou quando um blogueiro de Goa começou a fazer repetidas visitações, sempre acompanhadas de comentários maldosos. Com seu disparatado horário indiano e suas observações de hostilidade e violência inauditas, sempre escritas num terrível português arrevesado, ele começou a torturar repetidamente toda a equipe de testes. A cada intervenção do homem de Goa, o aparelho fixado sob minha axila aplicava-me contundentes choques, proporcionais ao grau das ofensas presentes no comentário, demonstrando o perfeito funcionamento do OPS, a New Comment Arrived! Creio que vocês possam imaginar o grau de perturbação e os paroxismos de ódio assassino a que cheguei. Mas houve algo pior que fez tudo degringolar: foi o momento em que, avisados pelo homem de Goa, blogueiros dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa, também conhecidos como PALOPs, descobriram o teste e começaram a nos dar choques em novos horários. Nosso desespero chegou a tal ponto que, transtornados, perdemos inteiramente a elegância e passamos a atacar os africanos com frases racistas. A combinação entre piadas de português e piadas de negros tornaram a experiência uma letal tour de force do politicamente incorreto. Se acrescentarmos a isto nosso cansaço, vocês podem imaginar o desvario geral. Apesar disto, o OPS confirmou o lançamento do produto e espera que um grande percentual de blogueiros o adote. Uma rede de hospitais psiquiátricos está fazendo a comercialização, instalação e manutenção dos receptores. Os mesmos oferecem, dentro do pacote promocional de lançamento, apoio médico baseado em Florais e Corais de Bach. Maiores detalhes aqui.

[Off Topic]: Meu ex-chefe e algoz, Tiago Casagrande me veio com essa brilhante citação de Thiago Gonçalves:

Os blogs são possibilidades incríveis de subversão da ordem posta. São ferramentas impressionantes na difusão de informações – e, preferencialmente, de conhecimento. Têm a chance de motivar mudanças estruturais em todo o aparato de produção dessas informações. E de fato têm feito isso; não são poucos os exemplos nesse sentido.

Se o que é anárquico, não-hierárquico, fluido, descentralizado, acessível, em suma, livre, ganhar correntes, deixa de ser o que é, e se transforma no que já existe – e não nos ajuda. O que põe as crises existenciais numa perspectiva tão profunda quanto um pires. Aqui, na blogosfera, tudo é possível.

Tem razão o moço.

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