Noites Florentinas, de Heinrich Heine

Noites Florentinas HeineNoites Florentinas, de Heinrich Heine (1797-1856), é um livro surpreendente. Publicação póstuma, é de notável contemporaneidade, antecipando procedimentos que teríamos de volta somente 70 anos depois, com Isak Dinesen. Refiro-me especificamente à intromissão a todo momento de uma poesia muito pouco comedida, às histórias que surgem dentro das histórias, à simbologia e à aparente livre associação dos fatos. Quanto às duas últimas, talvez seja melhor acolher um conselho da própria Dinesen e aceitar que, numa história, não é adequado compreender tudo.

Achei que o livro estivesse mais para o cômico, pois o excelente tradutor Marcelo Backes salienta bastante este aspecto na introdução. Na verdade, as Noites Florentinas devem ter sido um divertissement para Heine e são lúdicas, muito lúdicas para o leitor de hoje. Por exemplo, é muito prazerosa a troca de papéis que Heine faz em relação ao modelo das 1001 Noites. Se nas 1001 Noites, Sherazade – uma mulher – contava histórias e mais histórias a fim de não morrer, nas NF Maximilian – um homem -, faz o mesmo para que Maria sobreviva. Sei lá se o Rei das 1001 Noites dormiu durante alguma história; mas posso dizer que fiquei quase escandalizado ao descobrir que, ao final da primeira noite, Maria dormia. Eu estava acordadíssimo. Outra surpresa é o clima erótico sugerido por Heine. Além da história se passar ao pé do leito, o escritor eleva a temperatura diversas vezes. Relembremos a passagem na qual os amigos “…olharam-se em silêncio por longo tempo. Em ambas as almas surgiam pensamentos que cada qual tratava de dissimular ao outro. Mas a mulher segurou de súbito a mão do homem e a cobriu de beijos ardentes”, seguido pelo toque dos lábios de Max nos pés de Maria, e ainda pelo “Sorrindo cheio de afeto ao olhar afirmativo de Maria…”. Se tais trechos não servem àquilo a que a Playboy se propõe, pelo menos faz sonhar. Alguns capítulos depois, a história de Mademoiselle Laurence também vai fundo neste sentido, apesar do onírico da situação.

O trabalho do tradutor Backes é impecável. O desafio de traduzir uma obra do século XIX, tendo que dar ao texto uma feição antiga, foi cumprido com naturalidade. Usando uma expressão da música erudita, diria que ele possui perfeito senso de estilo. Para comprovar, basta ver a diferença entre o Backes da introdução e o Heine-Backes do texto de Noites Florentinas. A edição é da gaúcha Mercado Aberto. Vale a pena ler!

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Berkeley em Bellagio, de João Gilberto Noll

BerkeleyOs livros de Noll quase sempre tratam do mesmo personagem: o próprio Noll. As características biográficas, físicas, étnicas e profissionais do tal personagem coincidem inteiramente com as do autor. No começo do livro, é impossível não sermos tomados de simpatia pelo personagem quando o mesmo declara sua extrema pobreza – vive apenas de literatura e de pequenos trabalhos correlatos – e com todos os fatos que o levam a aceitar dar um curso sobre “Cultura Brasileira” em Berkeley. Os fatos são descritos sumariamente. Estava envergonhado de “filar” inumeráveis almoços na casa dos outros, de pedir dinheiro emprestado, etc. Ao mesmo tempo, parece sentir alguma culpa por estar prestes a mamar na teta de uma universidade americana.

Então, ele aceita o convite para o curso e chega à California com menos de 100 dólares no bolso e sem saber falar inglês. Suas aventuras, primeiramente em Berkeley (para dar aulas) e depois em Bellagio (onde fica em uma “oficina criativa” em frente ao Lago de Como), poderiam ser bastante interessantes do ponto de vista humano, porém nosso autor está mais a fim é de descrever as aventuras sexuais. Tudo bem, o sexo faz parte da vida, mas não é, digamos, mais que 88% dela. Apesar de conviver com ensaístas, músicos, pintores e ficcionistas, nada de intelectual acontece. Já de sexual…. é do caralho. As lavanderias de Bellagio devem ter se surpreendido com os sucrilhos deixados nas cortinas de seus salões, pois o autor declara ter limpado seu pênis nelas.

Intermezzo: o personagem principal é homossexual, talvez o Noll também o seja, sei lá. Nada tenho contra a opção dele, mas sou totalmente contra as descrições pós-sexo que o autor nos impinge. Ora, depois de cada relação, a narrativa é atacada daquela indireção poética ao estilo de Clarice Lispector. A narração pós-ragazzo em Belaggio é longuíssima para o tamanho do livro e… é chata, chata, chata, como Clarice NÃO o faria.

O final do livro, quando o narrador retorna à casa em Porto Alegre é muito emocionante. O fato inesperado de estarem lá um ex-namorado pai-solteiro com sua filha é surpreendente e é também uma brisa depois do prolongado claustro. Tá bom, não é nada original aparecer uma criança ou uma jovem para dar uma refrescada e mudar o contexto da história, mas com o Noll a coisa funcionou. A vida também é assim, não?

Não sei porque voltei a ler o Noll. Não tinha gostado de outros livros lidos anos atrás. Acontece que o vi em uma entrevista na TV e gostei dele. Mas valeu a pena retomar o contato com sua literatura. Uma curiosidade: toda a vez que abria o livro vinha aquela baita saudade de ler Thomas Bernhardt, pois, quando via seu parágrafo único, lembrava-me de como aquilo poderia ser bom, se tivesse mais solidez, racionalidade e raiva. E um pouco mais de arte narrativa, é claro.

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

O Conselheiro

Passei boa parte de minha vida em Salvador. Ou, sendo franco, uma má parte dela. Salvador não é para mim, sabe? Nada tenho contra negros, mas detesto trepar com negras. Tudo bem, atualmente quase todas são limpinhas e algumas podem até ler razoavelmente, o que não suporto são aqueles beições aproximando-se de meus lábios caucasianos. Dá-me arrepios.

Uma vez, logo ao chegar, saí à noite com um amigo a fim de arranjar mulher. Meu atraso naquela cidade era monumental, estava a ponto de comer qualquer uma, sabe? Coisa inteiramente contra meus princípios. Meu amigo chamava-se Rudá e apareceu com um carro enorme, luxuoso mesmo, dizendo que seu pai era produtor de Gilberto Gil e de Jorge Amado — talvez ele pensasse que Amado estivesse vivo e fosse cantor — e, enfim, entramos na geringonça. Claro, o que nos apareceu foram negras, mas eu estava tão a fim que toparia até a Aracy de Almeida. A moça era bonita para quem gosta de samba e fez de tudo comigo. Porém, apesar de meu pau estar em riste, meu sangue caucasiano negava-se a doar esperma para aquela mulher. Ela, inteligentemente, pensou que eu quisesse outra coisa e resolveu oferecer-me o traseiro, que foi aceito de bom grado. “Assim, ela fica de costas”, pensei. Não vou entrar em detalhes a respeito, mas o ato provocou-lhe um efeito de supositório e, meus amigos, o fecaloma desceu com espetacular pressão. O filho do dono do carro ficou absolutamente possesso com aquilo. Eu também, claro; afinal, o desarranjo ocorrera no meu colo. Só que eu não tinha nada a ver com o resto. Os bancos eram de couro, mas grande parte da cabine ficou suja por aquela explosão inesperada. Havia salpicos por todo lado, pois eu tentara escapar de qualquer jeito. O que fazer? A menina pediu desculpas, ficou mesmo penalizada com a involuntária lavagem intestinal que fizera sobre mim e quis ir embora. Meu amigo berrou que ela tinha que lavar tudo, mas eu fui contra, pois como ela poderia limpar o carro no estado em que se encontrava? Fomos até o MacDonald`s mais próximo, onde entramos no banheiro. Os clientes nos olharam admirados, pensando que talvez fosse barro, mas logo sentiam em suas narinas a inequívoca verdade. Empestamos todo o banheiro. Estava tão maluco que pensei ter visto vermes subindo em minhas calças. O segurança da casa queria nos tocar para fora, mas eu lhe respondi que só sairia dali abraçado com ele e o cara foi embora tapando o nariz.

Usamos todos os papéis higiênicos e mais o conteúdo dos vidrinhos de sabão líquido. Meu amigo pediu mais:

— Ô Segurança! Acabou o sabão e o papel!

Veio o gerente da loja. Estava irritadíssimo e nos corrigiu dizendo que o MacDonald`s não tinha seguranças e sim Agentes de Prevenção à Perturbações e Interferências. Bem, acho que a caganeira entrava na segunda parte. E na primeira também. Mas ele foi buscar o que pedimos, sob a condição de que saíssemos imediatamente após a limpeza. Era um pobre de cabelo bem cortado, vestido de dândi, como o Mac gosta. Ele entrou com o material, entregou-nos e acendeu um cigarro. Fiquei puto com aquilo, sou pela saúde, mas o cara me respondeu que agüentaria melhor nossa presença com um cheiro conhecido. OK.

Explicou-nos que a segurança é satisfatória quando é capaz de retardar ao máximo uma possibilidade de agressão e é capaz de desencadear forças – no menor espaço de tempo possível – capazes de neutralizar a agressão verificada. Não sei bem onde entrávamos nós e o cigarro naquela bela falação, porém ele continuou dizendo que estava ali porque nada devia impedir o curso normal da empresa e devíamos sair dali com ar satisfeito, mesmo que tivéssemos entrado como entramos. Foi um interessante momento cultural com que Salvador me brindou.

Depois que saímos todos molhados do estabelecimento, Fred queria achar a mulher que causara aquilo a fim de que lhe limpasse o carro. Claro que ela havia sumido. Vi o estado do carro e declarei a Fred que aquilo não era trabalho para uma empregada doméstica, aquilo requeria uma limpeza profunda com higienização interna, lavagem e aplicação de bactericida em carpete. Ficou claro que a cidade de Salvador e as soteropolitanas não eram para mim.

Ademais, havia poucos leitores de Chesterton na cidade e, os que haviam, ficavam tresloucados ao primeiro rufar de um tambor. Não era possível levar nada à sério e sou um homem assim, sério, empenhado nas coisas e que tenta guardar alguma coerência perante a vida. Sou um neoliberal culto que não fica tantalizado por tambores, que não se alegra em ver gente pulando e que teve sua última grande alegria com a queda do muro de Berlim e a ascensão de Collor. Poderia dizer que sou um neoliberal da linha dura. Sou íntegro, pragmático, mas costumo dar minha rezadinha, e, se hoje dedico-me ao comércio, demonstro minha honestidade em cada ato, fazendo questão de pagar os impostos extorsivos que não resolvem os problemas de nosso país, servindo apenas a que ministros desta nova dita esquerda roubem e se locupletem em convescotes, muitas vezes regados a canções de nosso ministro-cantor.

É um absurdo fazer-nos pagar essas coisas, mas eu pago. Só soneguei quando não me restava mais nada a fazer. Coerência é algo importante, porém ela só poderia ser cobrada se as atitudes de nossos governantes formassem uma linha reta, uma estrada plana, não a cobra peçonhenta e tortuosa que vemos. Somos então obrigados a refletir sobre cada mudança e decidir, sempre segundo a ideologia que nos apóia. Olha, não é fácil, há que ter força mental e muitos caem pelo caminho, seduzidos pelo fácil.

Já lhes disse que o nome de meu amigo cujo pai era produtor de Gilberto Gil (e Jorge Amado) era Rudá. Seu pai deu-lhe este nome ridículo por causa do filho de Oswald de Andrade. Quando conheci seu pai, para tentar agradar, perguntei sua opinião sobre Memórias Sentimentais de João Miramar. Como resposta, obtive um “o que é isso, é um livro?”. Então, naquele momento, entendi que o produtor cultural gostava de uma fachadinha, de um polimento bonito, de uma citação e que só sabia da Semana de Arte Moderna e olhe lá. Esse pessoal é muito imbecil mesmo. Só que ele me arranjou emprego para auxiliá-lo. Não houve risco algum, não refutei as idéias que me movem. Minha função era arranjar belas mulheres para os artistas que se apresentassem na cidade. Era um trabalho fácil, ao qual dedicava-me com afinco. Tinha catálogos com características e fotos de muitas moças e, do outro lado, procurava descobrir o que cada artista gostava mais. Foi assim que descobri que os negros escolhiam sistematicamente as loiras; só que pele branca e o cabelo amarelado eram produtos raros naquela zona tropical.

Foi neste ínterim que conheci Isaura, mas creio que é chegada a hora de abrir novo capítulo.

(continua)

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Os Emigrantes, de W. G. Sebald

Os Emigrantes Wg SebaldSe, como escreveu Michel Laub, Austerlitz é o grande lançamento de 2008, W. G. Sebald já havia comparecido no Brasil com outro extraordinário livro: Os Emigrantes. Trata-se do relato de quatro expatriados numa obra que mistura gêneros habilmente. Cheios de fotografias de família, seus capítulos podem começar como um romance de ficção, tornar-se ensaio para depois virar relato de viagem e ainda autobiografia, tudo no tom de uma conversa outonal ao pé do ouvido. Este híbrido é absolutamente envolvente.

Vou falar sobre um episódio suscitado por Os Emigrantes. Estava lendo o livro na cama enquanto a Claudia via TV sem som a meu lado, certamente pensando em outra coisa, como sempre faz. Então, resolvi ler em voz alta um trecho para ela e, quando dei por mim, estava lendo há duas horas. A Claudia tinha passado a costurar e não queria que eu parasse. Minhas qualidades de locutor são apenas aceitáveis, minha voz não é nada boa, portanto acredito que esta cena ao estilo do século XIX foi gerada principalmente pelo crescente interesse dos dois nesse cara que morreu, jovem e estupidamente, num acidente de carro em dezembro de 2001. Sebald sofreu um enfarto enquanto dirigia. Não sei de detalhes, mas dizem que morreu do acidente, não do enfarto… OK.

As pessoas quase não lêem mais livros uns para os outros, este ato de amor e consideração ficou extraviado em alguma esquina do século XX, fora de nossas salas e quartos atuais; porém alguns textos nos permitem recuperar esta delicadeza. Qualquer hora destas vou pegar de novo um bom livro, com uma boa “conversa narrativa”, e entregarei a minha amiga todas as meias furadas, calças de bolsos rotos e camisas com botões caídos que tiver…

Bom, afastei-me do Sebald, mas acho que ficou claro: é um baita livro.

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Futebol e identidade social, de Arlei Sander Damo

Futebol e identidade social, de Arlei Sander Damo

futebol_e_identidade_social_arlei_sander_damoEm primeiro lugar, preciso falar um pouco sobre como consegui este livro. Ele me foi enviado por Idelber Avelar, professor da Universidade de Tulane, em New Orleans. Em vão, tentei comprá-lo, apesar de ser um livro novo, de 2002. Em minhas tentativas, escrevi para a Editora da UFRGS, tendo recebido como resposta o mais completo silêncio. Procurei novo contato, pois queria dá-lo de presente aos criadores do Impedimento, mas nada, não parece haver ninguém por lá. Por que então existe um Fale Conosco bem aqui? Então, meu sobrinho conseguiu o e-mail do próprio autor. Foi atendido mui educadamente, obtendo a confirmação de Damo de que a obra era muito procurada, mas que só a editora podia resolver o caso. Bem, ao menos isto não é culpa da corrupção do futebol, nem de Ricardo Teixeira…

O livro de Arlei Sander Damo tem o subtítulo de “Uma leitura antropológica das rivalidades entre torcedores e clubes” e originou-se da dissertação de mestrado do autor, escrita entre 1996 e 1998, aproximadamente.

É obra interessantíssima para quem queira sair da mesmice das notícias diárias sobre futebol — aquelas mesmas que tanto deprimem nosso noturno cidadão de uma república enlutada — e adentrar de forma inteligente e bem conduzida na história da formação desta loucura que vemos. Damo nos explica o nascedouro da dupla Gre-nal e de sua rivalidade. “Se queres ser universal, canta tua aldeia”, dizia Tolstói de forma mais esperta que Wianey Carlet. Cantar sua aldeia é o que faz Damo, fazendo-nos descobrir claras analogias com outras cidades, estados e rivalidades clubísticas brasileiras. As explicações são do autor, as projeções são nossas; há leitura mais produtiva e agradável do que conjeturar junto com o autor? Não, né? A obra começa no início do século passado, descrevendo o início do associativismo esportivo em nossa Porto Alegre – empurrado pelos imigrantes alemães, “ficiados” em clubes – para chegar aos primórdios de uma paixão e de uma rivalidade que é boa para torcer, mas que também é boa para se pensar a respeito.

São absolutamente preciosas as argumentações sobre raça e classes sociais que faz o autor, sobre o crescimento do racismo no Grêmio à época do Dr. Py e a da salvação do clube através de seu maior presidente, Saturnino Vanzelotti, o qual resolveu enfrentar os “gremistas vigilantes”, que lhe escreviam mal-disfarçados apedidos em jornais, sempre zelosos de que a camisa tricolor não fosse maculada pelos negros. (Seus textos, sempre anônimos, parecem ter como autor um Joseph Goebbels com superego fraco.) Outros fatos significativos que são analisados são as infrutíferas tentativas do autor para descobrir a origem clara do poderio colorado dos anos 40: a célebre Liga das Canelas Pretas – o que vem comprovar a pouca documentação da história negra no Rio Grande do Sul –; a derrocada do amadorismo; um exame sobre a influência dos estádios na gangorra Gre-nal e um estudo sobre a formação das torcidas sob a ótica das raças e das classes sociais.

É apenas isto o que a Editora da UFRGS insiste em nos esconder. Ainda não devolvi o livro para o Idelber. Querem cópias…?

Observações finais:
1. Apenas o texto “Sobre o regional e o nacional no futebol brasileiro” é datado e mereceria uma recauchutagem geral.
2. Arlei Sander Damo daria um bom leitor do Impedimento.
3. Apesar de não confessar, Arlei Sander Damo é um gremista nojento.

Saudações coloradas e morte à progênie do racismo!

:¬)))

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Bloomsday

Agora, na volta da UTI (ver post abaixo) lembrei que hoje é o Bloomsday.

Desesperado para unir-me à comemoração, faço meio que uma transcrição — com muitíssimas alterações — do texto da Wikipedia.

O Bloomsday é um feriado comemorado em 16 de junho na Irlanda em homenagem ao livro Ulisses, de James Joyce. É o único feriado em todo o mundo que um país dedica a um livro de ficção, excetuando-se a Bíblia.

O Bloomsday é festejado pelos amantes da literatura em qualquer lugar ou língua. Trata-se de uma iniciativa dos leitores de Ulisses e admiradores da literatura de Joyce. Anualmente, eles relembram os acontecimentos vividos pelos personagens de Ulisses por dezenove ruas da cidade de Dublin.

James Joyce

Ulisses relata a “odisséia” do personagem Leopold Bloom durante 16 horas do dia 16 de junho de 1904. Há controvérsias sobre quando o Bloomsday começou a ser comemorado. Alguns especialistas indicam 1925, três anos após o lançamento do livro, a década de 1940, depois da morte de James Joyce, enquanto a hipótese mais aceita indica é que foi em 1954, na data do quinquagésimo aniversário do dia retratado em Ulisses.

Joyce escolheu o dia 16 de junho para ser imortalizado em sua obra porque foi nesse dia que manteve relações sexuais com sua futura companheira Nora Barnacle, à época uma jovem virgem de vinte anos, apesar de a imprensa irlandesa publicar que nesse dia eles apenas “caminharam juntos” pela primeira vez. Na verdade, Nora teve medo de completar o coito e o masturbou “com os olhos de uma santa”, como Joyce relatou em uma carta em que relembrou o acontecido.

James Joyce Piano

É sempre bom lembrar aos tementes a Joyce que Ulisses não é apenas aquele livro de erudição quase inalcançável que afasta algumas pessoas, o romance também é divertidíssimo e perfeitamente compreensível. As minúcias e a complexa teia de referências são importantes, mas podem permanecer semi-entendidas sem esfacelamento de sua essência. Prova de que o mais puro ludus nem sempre está associado à compreensão cabal.

Hoje é o dia de comemorar o duro, engraçado, divertido, pornográfico, sexual e erudito livro de Joyce. Lembremos de Leopold Bloom, de sua mulher Molly, de Stephen Dedalus e de Buck Mulligan. (Lembro agora do final absolutamente arrepiante de Ulisses.) Era isso.

P.S.- O Odisséia Literária, de Leandro Oliveira, faz, como sempre, a comemoração mais completa e adequada.

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Thanks, Mr. Roth

Philip Roth Douglashealeyap4601Michel Laub escreve e repete que Austerlitz, de W. G. Sebald (1944-2001) é o lançamento de ficção do ano, mas não sei não. No dia 20 de junho chega Fantasma sai de cena (Exit Ghost), romance de Philip Roth (1933) que marca a despedida de seu personagem e alter ego Nathan Zuckerman. Qualquer livro de Roth é um acontecimento pois trata-se de um dos romancistas mais importantes em atividade — talvez o mais importante –, só que este Fantasma adquire contornos especiais que vão além da despedida de um personagem que o acompanha desde 1979 ou nove romances.

É que a obra serve de epitáfio (expressão da Bravo) para a geração de escritores intelectuais cujos livros pautavam o debate cultural americano e que foram substituídos, como no mundo inteiro, por nenhuns. Esta geração possui ainda vivos Gore Vidal e John Updike e perdeu recentemente o imenso Saul Bellow e o nem tanto Norman Mailer. O romance vai direto ao ponto ao perguntar sobre quando houve a separação entre tais escritores e seu país. Roth apresenta um Zuckerman aos 71 anos, lutando contra uma incontinência urinária resultante da retirada da próstata e impotente, vivendo num mundo incompreensível, afastado de si e que dele prescinde. Amy Bellette, outra personagem de Roth que está em vários romances, diagnostica a cultura de fácil digestão e o culto à celebridade como culpados, mas parece que Roth não aceita apenas esta conclusão “simples” e avança sobre o jornalismo cultural e sobre a própria geração de grandes escritores, que não soube enfrentar a nova situação e que, de certa forma, tornou-se vítima dela ao manter-se deslocada e crítica.

Sabemos que os romances que analisam quaisquer decadências possuem indiscutível charme. Dei-me conta disso desde a leitura de Os Buddenbrook há mais de 30 anos. As grandes obras literárias raramente são otimistas ou felizes e até na vida pessoal há certo encanto quando vemos, por exemplo, os amigos de nossa ex esforçando-se para nos olhar bem e quem nos acompanha para depois irem embora como se não nos conhecessem. A decadência é um olhar de conhecimento, desconfiança e nostalgia ao passado e de rejeição ao presente que quase todo literato adora. E é tanto o retrato da decadência metafórica quanto da física (de Zuckerman) e cultural (dos EUA) que espero ler no novo romance de Philip Roth.

O título deste post justifica-se por outros dois que escrevi sob a categoria de “O Fracasso da Literatura” e que foram recebidos com agrado por alguns e com maior ou menor hostilidade, por outros. As acusações de que estaria ficando velho por referir-me repetidamente à decadência das artes em geral são respondidas melhor por jovens ratos de biblioteca, pelos adolescentes que têm discotecas semelhantes a que eu tinha há mais de 30 anos e pelas meninas freqüentadoras das estandes de clássicos das vídeolocadoras — tão lindas, efusivas e desfrutáveis –, que me perguntam se há alguém melhor do que Bergman e Antonioni, porque já viram e sabem de cor as obras destes. Elas às vezes me chamam de “tio”… Viram? Adoro a decadência. Inclusive a minha.

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Mahler e o Gordão da H8

Mahler e o Gordão da H8

Em 2003, a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre (OSPA) apresentou a Sinfonia Nº 2 de Mahler, “Ressurreição”. É uma obra para 200 músicos, entre instrumentistas e coral. O pequeno palco do Teatro da Ospa não comportava adequadamente toda esta gente mas… o que fazer? Além disto, a Ospa não dispunha de músicos suficientes para executar a obra — que exige 10 trompas, 8 contrabaixos, 8 trompetes, 6 trombones, 4 percussionistas, enorme coral, etc. — mas o que fazer senão ir buscar músicos nas orquestras de São Leopoldo, Caxias e Blumenau? O que não dava era ficar sem a Ressurreição! Todo este lindo e idealista esforço foi recompensado pela lotação completa do teatro — o que provava, pela undécima vez, que o público não quer ouvir somente musiquinhas ligeiras e indulgentes.

Mahler foi o maior regente de seu tempo e tudo o que ele não tinha era indulgência para com seus músicos e público. Compunha música belíssima e de complexidade acima da média. A orquestra ora é tratada convencionalmente (tocando em grupos de instrumentos), ora os músicos são pinçados individualmente ou em pequenos grupos para executar solos nada triviais. Este contraste entre orquestra normal e orquestra rarefeita é fundamental na música de Mahler e é um suplício para o músico despreparado, desatento ou nervoso. Numa palavra, Mahler é difícil, mas vale o esforço.

Chegamos ao Teatro e fomos para nossos lugares. Todos os amigos que encontrei estavam felizes com a perspectiva daquilo que aconteceria nos 90 minutos seguintes. Sentamos no mezanino: meu filho Bernardo no I10, eu no I12, Claudia no I14 e nossa amiga Daniela no I16. Quando a música começou, o Gordão que estava sentado à nossa frente, no H8, começou uma luta contra seu guarda-chuva. Não sabia onde colocá-lo, e ele e sua esposa Gordona, sentada no H6, começaram a conjeturar em voz alta qual era o melhor lugar para a geringonça, enquanto a mesma batia nas cadeiras, fazendo concorrência com a percussão mahleriana. O trabuco, após ser colocado entre duas cadeiras da fila em frente (!), repousou. Já a dupla, não. Acho admirável que um casal ainda tenha assunto depois de 30 anos de casados, mas não seria melhor procurar um restaurante para conversar? O Bernardo, que tinha 12 anos, começou a me cochichar:

— É a baleia falante…

E, depois de alguns minutos:

— Pai, tu sabias que as baleias podem cantar? Ainda bem que estas só conversam.

Algumas crianças têm um limiar de irritação bem alto, é o caso dele. O mesmo não se pode dizer da Claudia, que, à minha esquerda, lançava olhares furibundos para o Gordão. Já eu apenas suspirava audivelmente a cada reinício de conversa. Porém, a música era tão bela que nossa alegria foi retornando e o ódio ao Gordão foi se transformando em ironia. Numa das inúmeras pausas que Mahler impõe à orquestra, o Gordão perguntou intrigado à Gordona:

— Ué, parou?

A certamente impagável resposta da Gordona foi abafada pela orquestra. Uma pena!; mas, em determinado momento, aconteceram coisas que desestabilizaram o Gordão. Para que vocês entendam, é necessária uma explicação: os dois últimos movimentos da sinfonia propõem-se a fazer uma representação exterior (se bem que, como Mahler dizia, tudo era representação interior…) de nada menos que o Dia do Juízo Final e da Ressurreição dos mortos. Para tanto, o autor manda alguns instrumentistas (trompetes, trompas, percussão) para fora do palco. Enquanto saíam, o Gordão observava:

— Ué, não tão gostando? Já vão embora?

Mahler

Não, meu caro amigo. É que de lá, dos bastidores, eles iniciarão um conflito fantasmagórico com a orquestra que está no palco. Quando a orquestra do palco executar o suave tema da redenção, dos bastidores virá o som das trompas e da percussão executando o que Mahler disse representar “as vozes daqueles que clamam inutilmente no deserto”. Este trecho fez com que o Gordão levasse seu corpo para a frente, a fim de observar bem o fenômeno. Falou para sua mulher que não sabia quem estava tocando. OK. Só que logo depois começou a marcha dos ressuscitados no Juízo Final. Em meio a este tema, as trompas e os trompetes que estão lá atrás nos bastidores — representando agora a enorme multidão de almas penadas –, enchem o ar com seus apelos vindos de todos os lados do palco. Aquilo foi demais para o Gordão. Ele se virou indignado para a Gordona e afirmou:

— Não é possível! Tem gente ensaiando lá fora! No meio do concerto!

Não foi possível conter o Bernardo. Mesmo tapando a boca com a mão, todos os que estavam perto ouviram sua risada.

Apesar disto, foi uma noite inesquecível. A OSPA, naquela noite com Isaac Karabitchevsky, esteve muito bem. Tanto que guardei os ingressos com um recadinho atrás: “Bela noite. Não esquecer do Gordão da H8 e de sua Gordinha da H6”.

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

De Jorge Luis Borges

(Em momento de injusta modéstia.)

Borges No Sena

Sou quase incapaz de pensamentos abstratos, vocês devem ter notado que estou continuamente me apoiando em citações e lembranças.

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Permanência

A Sérgio Gonçalves

Aos que permanecem sobram as culpas,
esquecem que
todas as decisões são solitárias.

Solitária é
a decisão de pousar as mãos
e não escrever.

Solitária é
a decisão de erguer-se todos os dias
e trabalhar.

Solitária é
a decisão do que ouve
de não ouvir.

(Solidária é
a decisão de ensinar
e aprender.)

Solitária é
a decisão de chegar ao clímax
e descansar.

Solitário é o fim.

Solitários,
decidimos que o formigueiro,
pisoteado e destruído,

seja reconstruído.
Por cada um de nós,
solitariamente.

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

O Tcheco

Era uma manhã ensolarada no centro antigo de Verona, na Itália. Estávamos, eu e algumas amigas, na parada de ônibus. Íamos para a estação pegar o trem com destino a Padova. Tinha 20 anos, havia chegado do Brasil há pouco tempo e não conhecia bem a língua. Fazia cursos durante a semana e aproveitava para viajar em fins de semana como aquele.

Foi quando um homem elegante de uns 40 anos, de óculos escuros como nós todas naquela manhã luminosa, me abordou. Estranhamente, segurou meu braço — será que é o costume daqui? — e me pediu para lhe informar quando chegasse o ônibus para Porta Vescovo. Pensei logo tratar-se de uma desajeitada abordagem galante; não gostei, fiquei um pouco irritada. Afinal, será que ele mesmo não poderia ler? Sabia que os europeus adoravam brasileiras e eu – mesmo sendo de origem italiana – tenho a tal pele olivastra, aquele tom moreno claro que eles amam. Era o Dia de Santo Antônio, o santo casamenteiro, e minha avó, devota do santo, tinha-me feito prometer que iria em seu santuário no dia da festa. Eu, diga-se de passagem, tinha ido para a Itália me recuperar de uma grande desilusão amorosa e estava arredia a qualquer contato com o sexo oposto. Mas por que aquele homem bonito iria me pedir logo aquilo? Por que não entabulou outro tipo de conversação? Tratei de me afastar.

Aproximei-me de uma de minhas colegas e disse:

— Que coisa estranha…
Lui è cieco (pronuncia-se tcheco) – respondeu-me Ornella.

E daí? Grande coisa, pensei comigo, ele é tcheco, eu sou brasileira. Será que os tchecos — mesmo os que falam um italiano perfeito — são idiotas? Que preconceito contra os europeus do leste…! O que dirão de mim, uma brasileira? Será que o fato do tcheco ter sido alfabetizado em cirílico o atrapalharia com o alfabeto ocidental? Porém, para ter aquele italiano sem sotaque, não teria ele antes aprendido a ler? Quando o ônibus aguardado chegou à parada, Ornella indicou-lhe delicadamente.

Fiquei pensando naquilo e questionei minhas amigas se elas achavam que uma pessoa que fala perfeitamente o italiano, mesmo sendo um tcheco, não poderia lê-lo. Elas me olharam desconcertadas e depois explodiram em risadas.

Só depois soube que Cieco era cego e não tcheco.

Esta história foi escrita a pedido da Tchela e publicada em 2003 no Repórter Saci, um site dedicado à inclusão social e digital de deficientes físicos. A história e as circunstâncias são reais.

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

O Poste de Vapor, de Ferenc Molnár

O escritor não sabe quando aprende.
FERENC MOLNÁR

É estranha a trajetória do húngaro Ferenc Molnár (1878-1952). Autor de crônicas em jornais húngaros, de livros infanto-juvenis — é dele o clássico Os Meninos da Rua Paulo –, de peças de teatro em sua maioria muito bem escritas mas sentimentalóides, acabou emigrando para os Estados Unidos onde tornou-se requisitado dramaturgo, principalmente para a Broadway. Várias de suas histórias cômicas foram passadas para o cinema em filmes de Henry King, Billy Wilder, Michael Curtiz e outros. Não era somente popular, mas um escritor respeitado. Imaginem que este autor da Broadway recebeu adaptações de Arthur Miller para rádio e o teatro e Tom Stoppard fez o mesmo modernamente. Molnár é um raro caso de sucesso popular e literário.

Mas isto ocorria separadamente, obra a obra: há um posfácio neste O Poste de Vapor que nos explica que Molnár produziu às vezes “para a literatura” e outras vezes “para o mercado” — expressões minhas. Concordo com o autor do posfácio: certamente, este livro pertence à parte literária de sua obra. O narrador é um jovem jornalista que descreve as loucuras de certo falso capitão, seu colega numa estação de águas termais, localizada na bela ilha Margarida, que fica entre Buda e Pest, no rio Danúbio.

As inverdades e loucuras do capitão dos hussardos, em si muito engraçadas, são apenas o primeiro plano de uma demonstração da inconseqüência de muitas atitudes — boas ou maldosas — e do oportunismo de outras. Não é um livro otimista ou que promova bons sentimentos ou de final feliz, mas é curiosamente sedutor e agradável. Vá entender.

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

A trégua, de Mario Benedetti

Eis um excelente escritor. Muito pouco lido no Brasil, o velhinho Mario Benedetti está às vésperas de completar 88 anos. É um poeta, romancista, cronista e ensaísta uruguaio. A trégua é o diário de Martín Santomé, um viúvo de quase cinquenta anos, pai de três filhos, que vive há mais de vinte entre a criação dos filhos, o trabalho de contabilista e casos de uma noite com mulheres quaisquer. É um sujeito apagado e deprimido, um bom funcionário que detesta seu trabalho, mas que o faz bem; um pai que, com os filhos crescidos, recebe deles a indiferença e o desejo de distância. Tudo muda lentamente com a entrada de Laura Avellaneda como sua funcionária no escritório. Jovem, tímida, contida e muito inteligente, ela proporcionará uma trégua à vida de Santomé.

Dito assim, parece uma história como tantas outras, mas não é, não da maneira como o faz Benedetti. Fino observador, ele conta a história com o exato grau de minúcia, explorando principalmente a insegurança do viúvo em sua relação com uma mulher vinte e dois anos mais nova. É quase um estudo da solidão, da felicidade e do passar do tempo em forma de ficção. Vale a pena ler este pequeno romance com mais de cem edições em espanhol.

Minha única estranheza foi a forma como Benedetti refere-se ao homossexualismo antes do episódio do politicamente correto. Não é agressivo, porém não é nada compassivo. Compreende-se, o romance é de 1960.

Soube que a editora Alfaguara traduziu mais dois livros de Benedetti: El Buzón del Tiempo, lançado como Correio do Tempo, e Primavera con una Esquina Rota (ainda sem título). Mas fiquemos antes com A trégua. Indico fortemente.

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Incompletos, de Albano Martins Ribeiro (Branco Leone)

IncompletosEu acho mais simpático e engraçado Branco Leone, mas o outro nome também está adequado; afinal, meu avô chamava-se Manoel Martins Ribeiro, nascido em São João do Loure, Portugal.

De todos os autores que apareceram através dos blogs, Albano-Branco é o que mais gosto. E não li poucos. Vamos começar pelo título do livro. Fico na dúvida se Incompletos é uma referência aos personagens do livro — sempre em busca do outro (em alguns casos em fuga) –, ou se aponta para a estrutura voluntariamente fragmentária dos contos. É um belo título. E um belo livro. Os contos são curtos, parecem instantâneos de um fotógrafo muito indiscreto. São muito bem escritas “cristalizações do fugidio” amoroso, como diria Erico Verissimo, contadas na voz característica do autor, entre a bem-humorada indulgência e a absoluta crueza. A única coisa que me perturbou na coletânea foi a história da qual gostei mais. (sexta à noite, no purgatório) é a maior narrativa do volume – 28 páginas -, a mais fragmentária e a que me causou a estranha sensação de pertencer a algo maior, que não nos foi dado a conhecer… Queria mais, parece haver mais. Haverá? Talvez seja porque a mim, o sarcástico narrador deste conto fez lembrar o extraordinário narrador da obra-prima Homo Faber, de Max Frisch. Mas isso é problema meu. Tiago Casagrande, ao comentar o livro, escreveu que Incompletos era um livro rarefeito, daqueles que nos deixam com mais dúvidas que esclarecimentos. Perfeito. Quem quiser verdades estabelecidas que vá a outro quintal, quem quiser o prazer da leitura que venha aqui.

O excelente livro é da editora Os Viralata.

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Música perdida, de Luiz Antonio de Assis Brasil

Lv MusicapQuando Música perdida fez a final da Copa de Literatura Brasileira contra Um defeito de cor tive absoluta certeza de que o vencedor seria o elogiado livro de Ana Maria Gonçalves. Ora, Ana surgiu nos blogs, Um defeito de cor recebera críticas favoráveis de todo gênero e os julgadores, seus pares, acabariam por escolhê-la, mas não foi o que aconteceu. O vencedor foi Música perdida. Tive então outra certeza: a de que se tratava de um livro superior, de uma obra cuja premiação era inexorável. E, burro que sou, enganei-me novamente.

Assis Brasil adota seu habitual tom manso para contar a história do Maestro Mendanha. No início, tudo me interessava. O personagem principal e suas circunstâncias eram muito sedutoras, principalmente para alguém que, como eu, ama e convive diariamente com a música erudita. Tanto foi assim que foi um pouco complicado inferir o que estava me incomodando no romance. Só quando o autor apresentou Pilar é que ficou clara a planura e a débil construção dos personagens. Assis Brasil nega-se a invadir suas psicologias, preferindo sinalizar acontecimentos e transições com simbolos factuais que são tão claros, mas tão notórios, que funcionam como deselegantes semáforos. Três mortes casuais ocorridas num mesmo dia – recurso estranho para uma narrativa tão tradicional – e uma enorme culpa fazem o personagem fugir de Vila Rica para uma guerra no sul, mas ele, internamente, não parece padecer grande sofrimento simplesmente porque Assis Brasil não o descreve. O livro é todo feito de narrativas de fatos, parecendo mais um roteiro cinematográfico escrito em linguagem literária. Para acabar com meu humor, o autor dedicou-se a estragar o final de minha tarde de domingo – a hora do suicídio – adotando um tom grandiloqüente em seu gran finale, equívoco que ele já havia cometido no patético final feliz de Concerto Campestre.

Pretendo ler Um defeito de cor assim que o obtiver de volta. A empregada lá de casa o pegou para ler. Ela escolhe seus livros e costuma ter bom gosto: antes leu Lolita.

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Shostakovich – Vida, Música, Tempo (de Lauro Machado Coelho)

Foi uma surpresa descobrir a existência deste calhamaço de 502 páginas, uma biografia do enorme compositor russo-soviético Dmitri Shostakovich (1906-1975). O que não foi absolutamente surpreendente é o fato da biografia ter sido escrita por Lauro Machado Coelho, autor de alentadas obras sobre ópera que têm preenchido o deserto de publicações do gênero com alguns bem-equipados oásis.

Este livro sobre Shostakovich é imprescidível a quem se interessa pelo autor. O volume de informações é inacreditável e fiquei de tal forma envolvido pelo livro que seria quase uma injustiça criticar o trabalho de Lauro, porém, em meio a tanta novidade, consegui vislumbrar o guichê de reclamações e pretendo fazer uso dele. O texto é muitas vezes descuidado. Tenho a impressão de que Lauro necessitava finalizá-lo no ano de 2006 – ano dos cem anos de nascimento de Shosta – e deixou passar alguns parágrafos que são quase anotações esparsas. Pressa, certamente. A editora poderia tê-lo alertado. Deve haver leitores profissionais na Prespectiva, não? Outro fato é que o autor claramente arrepende-se de ter sido tão anticomunista durante o texto e escreve um inteligente e equilibrado último capítulo – talvez o melhor do livro – chamado “O Caso Shostakovich”. É um curioso e necessário recuo. Afinal, Shostakovich utilizou o mais abstrato dos meios para dar o depoimento mais realista da história da música sobre sua contemporaneidade e há controvérsias por todo lado. Shostakovich não nos legou testemunhos confiáveis. Há momentos de descontrole e outros em que já vemos o LMC do último capítulo. Ou seja, carece de revisão.

Agora, só um louco ousaria criticar o que realmente importa: a detalhada cronologia, a notável descrição das obras, a palavra de um indiscutível conhecedor, as valiosas opiniões de um excelente ouvinte. Também elogio a diagramação do livro, que nos deixa duas boas colunas para que façamos anotações e possamos discutir com o autor e suas fontes… Coisa que adoro fazer.

Vocês sabiam que L&PM lançou em pocket a tradução de Lauro Machado Coelho dos poemas de Anna Akhmátova – Poesia: 1912-1964? Pois é, é bom lê-los.

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Quando as pernas (todas) e os decotes (nem todos) desaparecem

Tom Jobim cantava as águas de março que fechariam nossos verões. Eu mentiria se as cantasse em Porto Alegre, pois março e abril foram quentes e parcos em chuvas. Foi uma seqüência de dias lindos, os tais dias lindos do mais puro azul que Drummond dizia acontecerem na segunda metade de abril.

São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração.

TOM JOBIM em Águas de Março – Grande autor, péssimo meteorologista.

Acontece em abril, nessa curva do mês que descamba para a segunda metade. Os boletins meteorológicos não se lembraram de anunciá-lo em linguagem especial. Nenhuma autoridade, munida de organismo publicitário, tirou partido do acontecimento. Discretos, silenciosos, chegaram os dias lindos. E aboliram, sem providências drásticas, o estatuto do calor.

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE em Os Dias Lindos – Grande autor, razoável meteorologista

Drummond tem razão, o estatuto do calor está abolido, mas no segundo dia de maio caiu o mundo em forma de chuva. Dirão vocês que não importa, que Drummond é um dos picos da evolução humana e que a culpa deve ser do aquecimento global. OK, sou simpático a qualquer argumentação que enalteça o itabirano, porém lamento dizer que minha contestação aos dias lindos vai além. Saúdo-os ao mesmo tempo que lamento as perdas.

Hoje fui ao centro da cidade. Acostumei-me a caminhar pelas ruas quentes vendo as pernas e decotes das gaúchas. Ficava feliz com a crescente e elegante ousadia daquelas que mostram sua boa forma, suas belas formas, seus bronzeados e seus seios remodelados ou originais. Também apreciava a classe das mulheres que exibiam o que tinham de melhor, escondendo sob panos coloridos o indesejável, o inevitável, o irremediável ou o inexorável. Sou um admirador das artes femininas. Só que hoje o panorama era outro. Os decotes estavam mais fechados, as pernas haviam quase sumido e o colorido das roupas tendiam à diluição. Viram? O dia lindo e seus dezoito graus matinais derrubaram a libido do caminhante.

Mas quem viverá seu qüinquagésimo inverno nesta cidade, sabe que este é um fenômeno sazonal e logo nós, os homens, estas criaturas tão visuais para com o outro sexo, iremos nos readaptar. Ficaremos excitados apenas com um belo rosto e pelo prenúncio de um tornozelo. Conheço alguns que enlouquecerão por um mero salto alto. Pior, há os que abraçarão suas mulheres e amigas apenas para sentirem o aroma do perfume que acompanhará o ar expulso de suas peles pelo abraço. Voltaremos a adivinhar as formas sob as roupas e teremos vontade de levar em nossos carros as mulheres encolhidas nas paradas de ônibus. (Tratar-se-á da mais desinteressada e solidária gentileza.)

Drummond esquece-se de dizer que os dias lindos são o prenúncio de uma época em que o espírito vencerá a observação, em que a cogitação precederá o fato, em que os cobertores serão os companheiros mais adequados a quaisquer primícias e que serão jogados longe apenas durante os clímax. Os dias lindos nos fazem lembrar que, daqui seis meses, haverá uma primavera onde as flores, os plátanos, os guapuruvus e as mulheres reapararecerão. Deslumbrantes.

Porém, o leitor atento que há dentro de mim bate em meu ombro a fim de chamar minha atenção. Diz ele que Drummond vivia no Rio de Janeiro, que lá as pernas e decotes nunca desaparecem, que este é um fenômeno gaúcho, subtropical e que não tenho razão em reclamar do poeta. Acabo esta crônica fazendo tamborilar os dedos da mão direita sobre a mesa. Um por um, repetidamente. É o movimento característico da contrariedade do vencido.

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Ássia, de Ivan Turguêniev

Assia Ivan TurguenievComparar Dostoiévski e Tolstói sempre me pareceu coisa de amador. Os dois são tão diferentes que parecem trabalhar em faixa própria. Tolstói tem melhor texto, se o encararmos do ponto de vista clássico, e, de certa forma, é um escritor que aspira à imortalidade. Ele a obteve com folgas… Já Dostoiévski é mais escabelado e moderno, fazendo com que sua prosa dobre-se aos personagens. Eu, que não sou bobo, não faço escolhas e gosto de ambos. Porém, havia outros enormes escritores circulando pela Rússia czarista e havia um que trabalhava na faixa de Tolstói. Era Ivan Turguêniev. Escritor de grandes recursos, criou algumas novelas perfeitas e um romance idem: Pais e Filhos.

Tenho especial consideração pelas novelas, estas narrativas que ficam entre o conto e o romance, seja em tamanho, seja em alargamento de intenções. Grandes escritores se dedicaram ao gênero. Kafka escreveu A Metamorfose, A Colônia Penal e outras; Henry James tem obras-primas como A Volta do Parafuso, Os Amigos dos Amigos, A Vida Privada, O Altar dos Mortos, a insuperável A Fera na Selva, etc.; Isak Dinesen tem Os Sonhadores e outras; Heinrich von Kleist escreveu uma inesquecível: Michael Kolhaas; Tolstói tem seu trio de ferro: Sonata a Kreutzer , A Morte de Ivan Illich e A Felicidade Conjugal; Goethe tem Werther. Estes exemplos foram os primeiros a me ocorrer, há muitíssimos mais.

Voltemos a Turguêniev ou Turguenev, como queiram. Quando vi que a Cosac & Naify tinha lançado a novela Ássia, animei-me imediatamente – seria ela um outro O Primeiro Amor, seria ela outra grande novela de Turguêniev? Não, não é tão boa, mas estão lá todas as características que fizeram deste russo um escritor tão singular. Lá está a prosa impecável do russo e lá estão os aristocratas inúteis de sempre, porém o narrador de Ássia é, além de inútil, um covarde emasculado. Ássia é uma jovem que se apaixona por ele. Só que o narrador fica confuso no momento decisivo e deixa a moça pensar que ele não a ama.

Este tema é um clássico em várias literaturas. Inclusive Machado de Assis constrói um de seus melhores e mais importantes contos sobre o tema do momento decisivo – o Missa do Galo (que é muito melhor que Ássia, bem entendido). Só que Turguêniev não deseja apenas mostrar um desencontro fortuito entre dois amantes, mas uma “história moral de sua geração”. Talvez por isto tenha criado um narrador tão inerte e irritante. Esta aristocracia russa, cuja psicologia é tão bem descrita neste livro e em grande parte da obra de Tchékov, mereceu plenamente a revolução que a sepultou.

Não ignoro que na literatura russa do século XIX havia eslavófilos e europeístas. Eu passei intencionalmente por cima desta esta classificação, OK?

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Confesso ser um privilegiado

Monica Salmaso 11. Ela é uma cantora musicista, se vocês entendem o que quero dizer: é que o termo cantora está tão perniciosamente ampliado por artistas performáticos, midiáticos e macaquéticos que talvez seja necessário explicar que ela é uma artista que singelamente entra no palco e canta. Só? Não, ela é a melhor. E é apaixonada (muito) pelo que faz e é simpática (muito) e é inteligente (muito) e é uma solidária antidiva (muito) que divide seus méritos com os músicos. Mônica Salmaso se apresentará hoje em Porto Alegre, fazendo soprar, pelo velho Teatro São Pedro, o melhor ar sonoro deste sábado. Eu, Carol e Bernardo – graças à Helen, que comprou os ingressos há quase vinte dias e ainda não recebeu ressarcimento… – estaremos lá. Um privilégio, sem dúvida. Na saída, um bar ou análogo com todos exibindo moralmente alguns centímetros a mais.

2. Ontem, participei como entrevistado de uma aula do Curso de Letras da PUC. Fui muito bem tratado pela turma do professor Charles Kiefer. Assuntos: literatura, blogs, internet e alguns temas inesperados — como o levantado por aquela bela moça sobre a vaidade de todo escritor-blogueiro, de todo escritor, de todo blogueiro… Falei por quase duas horas a 60 atentos alunos, mas minha vaidade despertada teria suportado outras três. Sou um privilegiado, n’est-ce pas? Resta-me agradecer à Simone Vey pelo convite.

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Entrevista (Literatura de Mercado)

Abordagem Nº 2 ao fracasso da literatura.

Na próxima sexta-feira, se até lá não descobrirem que sou um embusteiro, uma turma do curso de Letras da PUC-RS fará uma entrevista comigo. Enviaram-me uma série de perguntas para me servir de roteiro e, acho, para que soubesse onde pisaria. Espero que sejam bonzinhos e não me retalhem. O assunto é a chamada “literatura de mercado” versus a “literatura artística”.

1) Qual a sua opinião sobre a literatura de mercado? Ela é literatura?

Antes de responder, acho que devo tentar definir o que é literatura. Na minha opinião, literatura é tudo que é lido como literatura por determinado grupo de pessoas. É aquilo que desperta a imaginação do leitor e lhe provoca emoções de índole literária, sentimental, matemática, lógica, de curiosidade, etc.

Eu, que adoro matemática e até fiz faculdade na área, acho alguns teoremas modelos de concisão e elegância. Para mim, são como poemas. Sei que o tipo de emoção causada por eles é semelhante à poética. Seria literatura? Sim, se forem lidos como tal.

Porém, de forma geral, literatura é a arte que usa a palavra como matéria-prima. Então, considero válida a literatura oral – afinal, foi início de tudo! – mas, para ser literatura, o texto tem que ser escrito com a intenção de provocar efeito estético. Talvez Paulo Coelho provoque efeito estético em seus leitores, certamente pessoas cujos modelos e exigências são muito limitados. Eu preferia dizer que não é literatura, mas, infelizmente, penso que seja, ao menos para aqueles a quem se destina. Mesmo Sidney Sheldon, que talvez escrevesse seus livros sob determinadas fórmulas comerciais, não preocupando-se com nenhum refinamento de forma ou conteúdo, talvez provoque emoção literária em gente idiotizada. A Bíblia também pode ser considerada literatura porque, para quem acredita ou vai acreditar, causa efeito estético, emoção… O que fazer? Tudo aqui, como aliás em qualquer campo do conhecimento, é complexo e depende da interação com o outro, com o receptor.

Mais: a literatura, em minha opinião, engloba tudo, de crônicas do dia-a-dia até a poesia mais diáfana, passando por obras de não-ficção cuja construção textual ultrapasse a simples função informativa. O raso ou o profundo dependem da qualidade do leitor.

2) Quais as razões do sucesso desse tipo de literatura?

Ora, o marketing estuda como chegar à boa vendagem e ao lucro. Eu não entendo de marketing, mas creio que o livro – capa, conteúdo, lançamento e divulgação – obedeça a um cuidadoso esquema pré-estabelecido. O marketing cria a ilusão de necessidade no consumidor. Confunde e funciona.

3) Por que Paulo Coelho é o escritor mais bem sucedido do país? Qual é o valor literário de sua obra? O que falta aos seus romances?

Eu não li Paul Rabbit, só trechos. O mundo me contra-indicou e sou um bom menino. Certa vez, vi o Prof. Cláudio Moreno lendo e indicando erros num trecho de um romance dele. Era uma prosa miserável, não preciso daquilo. Ah, enquanto cortava o cabelo, li numa Playboy que ele sabia como não sair numa fotografia, mesmo que tenha sido clicado. Ou seja, talvez o caso de Rabbit não seja literário, mas médico.

4) Acredita que a literatura de mercado tem como mérito a formação de novos leitores?

Apenas de forma casual. Eu e meus dois filhos, por exemplo, desde pequenos, sempre rejeitamos intuitivamente a literatura de má qualidade. As crianças logo identificaram o que não era bom. Então, não passamos por essa fase. Ao menos a nós, a literatura de mercado não formou.

5) A literatura menor pode ser uma forma de introduzir a população arredia à leitura a obras maiores?

Os livros conversam entre si. Um cita o outro. Talvez alguém chegue a algo maior através de Paulo Coelho, por exemplo, mas depende da sorte ou de si mesmo. Acho que nós temos a tendência a pensar que mandamos nos leitores, que ele tem que ser orientado, mas não é assim. É só mostrar ao leitores potenciais que existem coisas de todo tipo. Ele escolhe o que desejará ler e se desejará.

6) “A cada ano, morrem setenta leitores e apenas dois são substituídos. Eis um modo bem fácil de visualizar a questão”, Roth disse. Por “leitores” ele entende pessoas que lêem livros sérios regular e seriamente. A prova de que “a era literária chegou a seu final está por toda parte”, ele afirmou. “A prova é a cultura, a prova é a sociedade, a prova é a tela, a passagem da tela do cinema para a tela da televisão e para a do computador. Não temos muito tempo, nem muito espaço, e poucos hábitos mentais determinam o modo como as pessoas usam seu tempo livre. A literatura exige um hábito mental que desapareceu. Exige silêncio, algum tipo de isolamento e a concentração continuada na presença de um fator enigmático. É difícil apreender um romance maduro, inteligente, adulto. É difícil saber o que fazer da literatura. Por isso digo que dizem coisas estúpidas sobre ela, pois, a não ser que as pessoas sejam suficientemente educadas, elas não sabem o que fazer dela.”

REMNICK, David. Dentro da floresta: perfis e outros escritos da revista The New Yorker.
São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

Muito apocalíptico este Sr. Remnick. Discordo dele. A boa literatura irá sim recuar, recuar, e virará coisa de especialistas e de gente inteligente, que se diverte com coisas mais complexas e que pode ouvir a música de um texto misturada a múltiplos significados, nem sempre claros. A sensibilidade não irá morrer, mesmo que a educação seja uma porcaria. E, quem conseguir se destacar como autor desta rarefeira confraria, até ganhará dinheiro, penso. Cresci ouvindo falar na morte do romance e do rock n`roll. Mas eles vivem de suas crises e estão aí. O mesmo, penso, ocorrerá com a literatura de arte.

7) Qual é a sua opinião sobre o público leitor sério existente no Brasil: ele está crescendo ou diminuindo? A criação de literatura de qualidade está fadada ao desaparecimento?

Não sei se cresce ou não, mas não desaparecerá. Só se pessoas como nós desaparecerem. E a gente se reproduz…

8. Existe literatura de mercado direcionada a grupos especiais, como indivíduos de um determinado sexo ou nível cultural?

Não sei.

9) Você gostaria de apresentar outra discussão sobre o tema literatura artística versus literatura de mercado?

Sim. A decadência é geral. O cinema é menos do que uma sombra do que foi no passado e nesta área é ainda mais complicado, pois há a intervenção direta de muita grana, de investimento pesado. Pensem que nos anos 70 tínhamos Bergman, Buñuel, Fellini, Visconti, Antonioni, Kurosawa, todos ativos; quem são seus análogos atuais? O cinema foi infantilizado a fim de buscar mais espectadores. Grandes investimentos, grandes lucros – é do capitalismo. O cinema hoje, principalmente o americano, não significa nada em termos de arte. Outra crise? A música brasileira tinha Tom, Chico, Milton, Gil, Edu Lobo, Caetano em pleno auge, no mesmo período. Olhe a cena de hoje: Guinga é um compositor quase secreto, Mônica Salmaso é uma cantora desconhecida. Voltando ao cinema, onde estão Hal Hartley e Kusturica? Estes mal conseguem fazer filmes e, quando conseguem, talvez não tenham distribuição… Ou seja, não adianta a literatura achar que é a única desgraçada, pois o marasmo e a vulgaridade grassam.

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!