Sobre “Infâmia”, de William Wyler

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Vimos ontem, no BamboFilmes aqui da Livraria Bamboletras, o filme “Infâmia”, de William Wyler. Não sabia que era tão extraordinário, tão bom. Conversamos após a sessão e, estranhamente, não falei daquela cena que, para mim, era o coração do filme — um daqueles raros momentos em que o cinema parece parar. Reconstruindo parte de contexto: as personagens de Audrey Hepburn e Shirley MacLaine acabaram de perder uma ação de difamação. A comunidade as condenou por homossexualidade. O colégio fechou. A vida que construíram com esforço foi reduzida a cinzas.

É nesse cenário que a personagem de Audrey Hepburn diz mais ou menos estas palavras: “É curioso. As palavras mudaram de significado. Palavras que antes usávamos com naturalidade, como ‘querida’, ‘amada’, ‘amor’… Agora não posso mais usar. Elas se tornaram obscenas. Pecaminosas”. Ela estava falando da interiorização da culpa.

Dali em diante, qualquer gesto de afeto entre duas mulheres, mesmo o mais casto, carregará a sombra da suspeita. A palavra “amiga” já não significa “amiga”. A palavra “carinho” já não significa “carinho”. E Audrey percebe que não há como lutar contra isso. Audrey Hepburn — tão frequentemente reduzida a ícone de graça e leveza — faz essa cena com uma frieza que arrepia. Não há lágrima. Não há desespero. Há apenas um espanto contido, uma espécie de estupefação racional diante do absurdo.

Dentro do filme, antes desta cena, William Wyler demonstrara uma grande capacidade de filmar o que não se via ou dizia. Ele simplesmente muda nesta cena. Wyler consegue o impossível em 1961: contornar o Código Hays (que exigia que a “perversão” fosse punida e mostrada como tragédia) e, ainda assim, criar um filme que não condena suas personagens — condena a sociedade que as condena.

Valeu muito a pena enfrentar o frio. Um BAITA FILME.

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