Gabriel García Márquez, ao escrever Memórias de minhas putas tristes declarou ter-se inspirado neste livro de Kawabata, homenageando-o ao narrar uma história de amor não consumado com uma jovem adormecida. No livro de GGM, o velho protagonista não tem relações sexuais com a adolescente virgem. O encontro acontece de forma completamente diferente do que ele havia planejado. Ao chegar ao quarto, ele encontra a menina de 14 anos profundamente adormecida (dopada pela cafetina para acalmar seus medos). Diante da garota indefesa, o velho não tem coragem de acordá-la ou tocá-la. Em vez disso, ele apenas a contempla durante a noite, deita-se ao lado dela e também acaba dormindo. Na manhã seguinte, vai embora antes que ela acorde, sem nunca ter tido qualquer contato físico ou sexual com a jovem.
Não apenas GGM ficou fascinado pela obra. Mishima a considerava uma obra-prima, talvez a maior da literatura japonesa. E Vargas Llosa escreveu: “Breve, bela e profunda, A Casa das Belas Adormecidas deixa no ânimo do leitor a sensação de uma metáfora cujos termos não são fáceis de entender”.
As interpretações mais correntes são:
1. A Metáfora da Morte e da Velhice (a mais aceita)
A interpretação mais forte e recorrente é que a casa e as jovens adormecidas representam a relação do homem com a morte.
As jovens são a morte: belas, jovens e silenciosas, elas aguardam os velhos em um quarto que mais se assemelha a um túmulo. Eguchi, o protagonista, deita-se ao lado delas como quem se prepara para o último sono. A impossibilidade de acordá-las ou ter uma troca real é a impossibilidade de dialogar com a morte.
O sono é um ensaio: cada noite passada ao lado de uma “bela adormecida” é um ensaio para a morte definitiva. Eguchi busca, nas palavras de Mishima, “dormir um sono como a morte” ao lado da beleza pura, na esperança de que essa experiência seja menos solitária e aterrorizante.
A “vida após a morte”: o fato de as mulheres estarem vivas, mas inacessíveis, cria um estado liminar. É como se os velhos estivessem experimentando um além onde a beleza existe, mas a interação e a consciência, não.
2. A Metáfora do Desejo Puro e Irrealizável
Outra leitura fundamental é que o livro explora o desejo em seu estado mais radical e impossível.
O objeto sem sujeito: o desejo humano, especialmente na velhice, é frequentemente direcionado a um ideal. As jovens, ao estarem inconscientes, tornam-se o objeto perfeito do desejo: passivas, não rejeitam, não julgam, não têm vontade própria. São um receptáculo vazio onde o velho pode projetar todas as suas fantasias.
A ausência de relação: a grande ironia é que, para realizar seu desejo sem os entraves da realidade (a fala, a vontade da outra pessoa), Eguchi acaba por aniquilar a própria possibilidade de uma relação. Ele tem acesso ao corpo, mas não à pessoa. É o ápice do prazer solitário, uma fantasia que se torna real, mas que é vazia.
O desejo nostálgico: o que Eguchi realmente busca não é sexo, mas o contato com sua própria juventude perdida, suas memórias e vitalidade. As jovens são espelhos onde ele vê seu passado, um passado que não pode mais tocar.
3. A Metáfora do Japão Pós-Guerra e a Decadência Cultural
Numa chave sociológica e histórica, a casa pode ser lida como uma alegoria do Japão do pós-guerra sob ocupação norte-americana.
A casa como o Japão antigo: o espaço fechado, ritualístico, regido por códigos de silêncio e uma estética refinada, representaria o Japão tradicional, derrotado e envergonhado.
As jovens como a nação indefesa: as jovens virgens e drogadas seriam a própria nação japonesa, inconsciente, violada em sua soberania, mas mantida artificialmente “viva” e bela aos olhos dos estrangeiros (os velhos clientes).
A relação parasitária: os velhos (os EUA/ocidente) usufruem da beleza e da passividade do Japão, pagando por isso, mas sem jamais estabelecer uma troca genuína. O medo de Eguchi de que uma das jovens morra durante a noite reflete o medo de que o Japão “morresse” sob a ocupação.
4. A Metáfora do Olhar Masculino e da Objetificação da Mulher
Uma leitura feminista moderna vê o livro como uma alegoria radical do patriarcado.
A mulher como objeto: a casa é a materialização do “olhar masculino” levado ao extremo. A mulher é despojada de sua voz, de seu movimento, de sua consciência — ou seja, de sua humanidade — para se tornar um objeto de uso e descarte.
O velho como o poder: Eguchi não precisa seduzir, convencer ou pedir permissão. Ele simplesmente paga e consome. A anônima “mulher da casa” gerencia tudo, sendo uma cúmplice dessa estrutura de poder.
A violência estrutural: a violência do livro não está nos atos (que são, pelas regras, contidos), mas na própria premissa: criar um espaço onde a mulher é reduzida à sua função biológica de ser jovem, bela e virgem, enquanto o homem, mesmo decrépito e impotente, ainda detém todo o poder e o direito de consumir.
5. A Metáfora da Criação Artística
Uma interpretação mais metalinguística, adorada por alguns críticos, é que o livro é uma alegoria sobre o próprio ato de escrever.
O velho como o artista: Eguchi, imóvel, contemplando a beleza imóvel e tentando extrair sentido, memória e emoção dela, seria o artista diante de sua criação ou de sua musa.
As jovens como a obra de arte: a obra de arte (o romance, a pintura) está ali, bela, silenciosa e imóvel. Ela não responde, não dialoga. Cabe ao artista/leitor projetar nela seus significados, suas dores e suas memórias.
O ritual da criação: a ida à casa, o pagamento, a preparação do quarto, o deitar-se ao lado da beleza — tudo isso seria um ritual de criação artística, solitário e que acontece na fronteira entre a vigília e o sonho, a vida e a morte.
Em síntese:
A genialidade de Kawabata é que nenhuma dessas interpretações anula a outra. Elas coexistem. A casa é o corpo envelhecido que ainda deseja. As jovens são a juventude perdida e a morte que se aproxima. O sono é a impossibilidade de comunicação entre gerações, entre desejos, entre o eu e o outro. A transgressão está em desejar o que não se pode ter (a juventude, a vida, o outro). A beleza está em aceitar a derrota final e, ainda assim, contemplar o que é belo, ainda que esse belo seja uma ilusão fúnebre. O livro não oferece respostas fáceis. Ele oferece uma imagem perturbadora que cada leitor, como Eguchi diante da jovem, precisa contemplar e preencher com seu próprio significado.
(Elena, minha mulher, para quem eu li o livro em voz alta, disse que viu um enorme paralelo da obra com As intermitências da morte, indiscutível obra-prima de José Saramago. No livro de Saramago, a morte se afasta, aqui ela se aproxima. Muito).

Yasunari Kawabata em 1938