BamboFilmes: todo o apresentado e o próximo

BamboFilmes: todo o apresentado e o próximo

Todos adoraram “Infâmia”! Realmente, é um filme surpreendente sobre a homossexualidade e suas repercussões. É de 1961, mas vale ainda hoje. A lista dos filmes apresentados nos orgulha demais.

1. Sunset Boulevard (Crepúsculos dos Deuses), de Billy Wilder (1950)
2. As Vinhas da Ira, de John Ford (1940)
3. Pacto Sinistro, de Alfred Hitchcock (1951)
4. Prisão, de Ingmar Bergman (1949)
5. Rebecca, de Alfred Hitchcock (1940)
6. Amarcord, de Federico Fellini (1973)
7. Delírio de Loucura, de Nicholas Ray (1956)
8. O Sétimo Selo, de Ingmar Bergman (1957)
9. O Criado, de Joseph Losey (1963)
10. Vá e Veja, de Elem Klímov (1985)
11. O Espírito da Colmeia, de Victor Erice (1973)
12. A Infância de Ivan, de Andrei Tarkovski (1962)
13. Oito e Meio, de Federico Fellini (1963)
14. Profissão: Repórter, de Michelangelo Antonioni (1975)
15. O Desaparecimento (The Vanishing, Spoorloos), de George Sluizer (1988)
16. Zabriskie Point, de Michelangelo Antonioni (1970)
17. Morte em Veneza, de Luchino Visconti (1971)
18. Inverno de Sangue em Veneza (Don´t Look Now), de Nicolas Roeg (1973)
19. A Conversação, de Francis Ford Coppola (1974)
20. O Desprezo, de Jean-Luc Godard (1963)
21. Expresso para o Inferno, de Andrey Konchalovsky (1985)
22. Dersu Uzala, de Akira Kurosawa (1975)
23. Infiel, de Liv Ullmann (2000)
24. Infâmia (The Children’s Hour), de William Wyler (1961)

O próximo será o megaclássico “Morangos Silvestres” de Ingmar Bergman (1957), na próxima segunda-feira, às 19h30, na Livraria Bamboletras.

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Níver da Elena

Níver da Elena

Hoje os planetas estão girando com mais leveza porque é o aniversário da Elena. Quando ela sorri, tenho a sensação de que o universo deu certo. Desde a primeira vez que a vi, pensei “Como é linda!”. Tenho muita sorte pela inacreditável sucessão de eventos que fez com que nos conhecêssemos e etc. Poucas pessoas conseguem reunir beleza, sensibilidade, inteligência e cultura com tão desconcertante naturalidade — como se a elegância fosse apenas uma forma muito normal de existir. Talvez o amor verdadeiro seja isto: continuar admirando. E eu continuo. Esses quase 13 anos não diminuíram meu amor e admiração: apenas os refinaram.

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Traços em comum de James Joyce e Guimarães Rosa

Há muitos pontos de contato entre James Joyce e João Guimarães Rosa. Apesar de terem surgido em mundos distantes — a Dublin urbana e o sertão mineiro –, ambos reinventaram a língua literária para tentar capturar algo que a linguagem comum não alcançava.

Alguns traços comuns são particularmente fortes:

1. A língua como invenção

Nenhum dos dois se contentava com o idioma “normal”. Joyce distorce o inglês, mistura registros, cria trocadilhos, neologismos e ritmos musicais — sobretudo em Ulysses e radicalmente em Finnegans Wake.

Rosa faz algo semelhante com o português: funde fala sertaneja, arcaísmos, termos eruditos, invenções próprias e ecos de várias línguas. Em Grande Sertão: Veredas, o idioma parece nascer diante do leitor.

Ambos tratam a língua não como instrumento, mas como matéria viva.

2. A tentativa de dizer o indizível

Os dois perseguem experiências difíceis de formular:

— o fluxo da consciência,
— o mistério do mal,
— a memória,
— o tempo,
— a espiritualidade,
— a identidade.

Joyce mergulha na interioridade urbana moderna; Rosa, numa metafísica sertaneja.

3. Musicalidade extrema

Os textos dos dois pedem leitura em voz alta.

Joyce compõe frases quase como partituras. Rosa também trabalha com:

— aliterações,
— ritmos orais,
— repetições,
— sonoridades hipnóticas.

Há páginas de Rosa que lembram encantamentos; páginas de Joyce que parecem peças vocais.

4. Universalizar o local

Isso é fascinante nos dois.

Joyce praticamente nunca saiu literariamente de Dublin. Rosa quase nunca saiu do sertão. Mas ambos transformaram um espaço regional em universo humano total.

Dublin, em Joyce, vira um microcosmo da civilização ocidental. O sertão rosiano vira uma paisagem metafísica do homem.

A famosa frase de Joyce sobre Dublin — “se a cidade desaparecesse, poderia ser reconstruída por meus livros” — combina muito com GR.

5. Erudição escondida sob oralidade

Os dois parecem espontâneos, mas são profundamente arquitetados.

Joyce usa:

Homero, Tomás de Aquino, Shakespeare, liturgia católica, filosofia e todo um mundo.

Rosa mobiliza:

Línguas antigas, mitologia, Bíblia, filosofia, tradição oral, filologia e todo um mundo.

Em ambos, o popular e o erudito convivem o tempo inteiro.

6. O herói errante

Bloom e Riobaldo são viajantes interiores.

Leopold Bloom atravessa um dia comum transformado em epopeia. Riobaldo atravessa o sertão tentando entender o demônio, o amor e o destino. Os dois romances são jornadas tanto geográficas quanto mentais.

7. A ambição de reinventar o romance

Nem Joyce nem Rosa queriam apenas contar histórias. Queriam ampliar as possibilidades da literatura.

Depois deles, escrever do mesmo modo anterior parece… insuficiente.

Por isso ambos são vistos não apenas como grandes escritores nacionais, mas como criadores de linguagem comparáveis aos grandes renovadores do século XX.

Há inclusive leitores que sentem que Rosa é “o Joyce do português” — embora isso simplifique demais os dois. Rosa tem uma dimensão mística e oral muito mais intensa; Joyce é mais urbano, irônico e estruturalmente experimental.

Mas os dois compartilham uma convicção rara: a de que a realidade só pode ser alcançada quando a própria língua entra em estado de aventura.

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Sobre “Infâmia”, de William Wyler

Sobre “Infâmia”, de William Wyler

Vimos ontem, no BamboFilmes aqui da Livraria Bamboletras, o filme “Infâmia”, de William Wyler. Não sabia que era tão extraordinário, tão bom. Conversamos após a sessão e, estranhamente, não falei daquela cena que, para mim, era o coração do filme — um daqueles raros momentos em que o cinema parece parar. Reconstruindo parte de contexto: as personagens de Audrey Hepburn e Shirley MacLaine acabaram de perder uma ação de difamação. A comunidade as condenou por homossexualidade. O colégio fechou. A vida que construíram com esforço foi reduzida a cinzas.

É nesse cenário que a personagem de Audrey Hepburn diz mais ou menos estas palavras: “É curioso. As palavras mudaram de significado. Palavras que antes usávamos com naturalidade, como ‘querida’, ‘amada’, ‘amor’… Agora não posso mais usar. Elas se tornaram obscenas. Pecaminosas”. Ela estava falando da interiorização da culpa.

Dali em diante, qualquer gesto de afeto entre duas mulheres, mesmo o mais casto, carregará a sombra da suspeita. A palavra “amiga” já não significa “amiga”. A palavra “carinho” já não significa “carinho”. E Audrey percebe que não há como lutar contra isso. Audrey Hepburn — tão frequentemente reduzida a ícone de graça e leveza — faz essa cena com uma frieza que arrepia. Não há lágrima. Não há desespero. Há apenas um espanto contido, uma espécie de estupefação racional diante do absurdo.

Dentro do filme, antes desta cena, William Wyler demonstrara uma grande capacidade de filmar o que não se via ou dizia. Ele simplesmente muda nesta cena. Wyler consegue o impossível em 1961: contornar o Código Hays (que exigia que a “perversão” fosse punida e mostrada como tragédia) e, ainda assim, criar um filme que não condena suas personagens — condena a sociedade que as condena.

Valeu muito a pena enfrentar o frio. Um BAITA FILME.

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Esta semana na história da literatura: o livro Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf, foi publicado em 14 de maio de 1925

Esta semana na história da literatura: o livro Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf, foi publicado em 14 de maio de 1925

A Origem de uma Obra-Prima

Em agosto de 1922, Virginia Woolf abriu uma página em branco de um de seus cadernos a fim de fazer algumas anotações sobre “um livro que talvez se chamasse ‘Em Casa’ ou ‘A Festa’”. Um trecho:

“Este será um livro curto, composto por seis ou sete capítulos, cada um completo em si mesmo, mas que deverá apresentar algum tipo de fusão entre si. Todos devem convergir para a festa no final. Minha ideia é ter alguns personagens, como Mrs. Dalloway, muito em relevo: então ter interlúdios de pensamento, ou reflexão, ou breves digressões (que devem estar relacionadas, logicamente, ao resto), tudo compacto, mas não abrupto.”

Segue-se uma lista de capítulos potenciais, começando com “Mrs. Dalloway in Bond Street”, um conto que ela havia terminado recentemente (e na primeira linha do qual Clarissa Dalloway decide comprar luvas para si mesma), e então esta nota: “Capítulos para serem feitos em um mês, aproximadamente. Deve haver alguma diversão —”.

“Mas se os escritores modernistas nos ensinaram alguma coisa, é que nossa experiência do tempo raramente é linear, que sob a superfície de cada momento presente correm profundas correntes de memória”, escreveu Mark Hussey em seu livro ‘Mrs. Dalloway: Biografia de um Romance’:

“Portanto, embora aquele esboço em seu caderno represente Woolf começando a planejar seu próximo romance, reunindo ideias que vinham amadurecendo há algum tempo, não seria correto considerá-lo como ‘o’ início de Mrs. Dalloway… Podemos identificar muitas fontes para o mundo criado por Woolf em seu quarto romance, mas nenhuma inspiração original específica.”

Ainda assim, em agosto de 1923, um ano depois, ela estava no meio do processo. “Tenho lutado há muito tempo com ‘As Horas’ [título provisório de Woolf para Mrs. Dalloway], que está se revelando um dos meus livros mais tentadores e resistentes”, escreveu ela em seu diário.

“Algumas partes são tão ruins, outras tão boas! Ainda não consigo parar de inventar — ainda. Qual é o problema? Mas quero me revigorar, não me anestesiar, então não direi mais nada. Só preciso observar este sintoma peculiar: a convicção de que continuarei, levarei isso até o fim, porque me interessa escrever sobre isso.”

No dia seguinte, ela acrescentou:

“Sabe, estou pensando freneticamente sobre leitura e escrita. Não tenho tempo para descrever meus planos. Devo falar bastante sobre ‘As Horas’ e minha descoberta: como escavo belas cavernas por trás dos meus personagens; acho que isso me dá exatamente o que quero: humanidade, humor, profundidade. A ideia é que as cavernas se conectem e que cada uma venha à luz do dia”.

As belas cavernas deram frutos. Mrs. Dalloway foi publicado em 14 de maio de 1925 pela Hogarth Press, a editora que Woolf dirigia com seu marido, Leonard Woolf, com uma capa que se tornaria icônica, criada pela irmã de Woolf, Vanessa Bell. Vendeu modestamente, mas desde então se tornou uma das obras mais celebradas — e influentes — do cânone literário inglês.

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Sonho com Caju

Sonho com Caju

Por alguma razão, eu queria ir ao Bairro, um local úmido na Zona Sul de Porto Alegre, que era habitado em sua esmagadora maioria por reacionários. Pedi um Uber e o cara me disse que me levaria até a entrada do Bairro, mas que jamais entraria naquele antro bolsonarista. Concordei.

Chegando no limite determinado pelo motorista, desci do carro e penetrei no Bairro. Era tudo sombrio, escuro mesmo, logo veio um ônibus. Entrei e perguntei ao motorista onde ele ia. Ele me respondeu que todos os ônibus do Bairro eram circulares, que nenhum me levaria para outro lugar que não o próprio Bairro.

— Dou voltas o dia inteiro. Trabalho 24/7. Não tenho folga. Só paro quando morrer.
— E se tu bater com o ônibus?
— Se bater, não sei o que acontece.
— OK — respondi.

Então o ônibus começou a andar pelo Bairro. Era lindo. A arquitetura era gótica, com edifícios enormes. O ônibus entrava nos corredores dos edifícios, belíssimos e úmidos, com água vertendo das paredes cravejadas de pingos. Tudo era grande, imenso e lindo, apesar de lembrar filmes de terror. Tinha muitas esculturas ameaçadoras. Vi alguns monstros de Goya transformados em pedra.

Desci do ônibus, pois avistei um local iluminado. Só podia ser um bar. Era e a placa da porta anunciava em giz branco:

HOJE, ÀS 23h,
SHOW COM O POWER TRIO
“LIBERTÉ, ÉGALITÉ & VAI SE FUDÊ”

Gostei da coisa e entrei. Pouca gente. Pedi uma garrafa inteira de cachaça Weber Haus amburana e esperei pelo show. O trio, somadas as idades, tinha mais de 210 anos. Liberté era baixista e vocalista, Égalité, guitarrista, e Vai se fudê era o baterista. Liberté era até razoável, Égalité era uma merda; quem salvava o grupo era o excepcional Vai se fudê. Parecia o baterista do Angine de Poitrine. Um sujeito exato, se me compreendem. No conjunto, eram bem ruins.

No intervalo do espetáculo, vieram sentar-se comigo. Liberté só queria saber da minha cachaça, Vai se fudê estava quieto e Égalité não parava de falar. De repente, Égalité disse que Vai se fudê estava muito deprimido porque queria que um amigo especial viesse a seu casamento que seria dali um mês.

— O amigo negou-se a vir?
— Não, nem foi convidado.
— E quem é ele?

Égalité me disse que era Paulo Cézar Caju. Fiquei surpreso e perguntei porque Vai não tentava contato. É que Vai queria que uma pessoa culta fizesse o convite, não um borra-bostas como nós. E Égalité me propôs ligar para Caju, pois achou que eu era suficientemente fino para tanto. Fiquei envaidecido. Com a falicidade dos sonhos, peguei o celular e liguei para Caju, que hoje mora na França.

— Caju? Ça va? Tudo bem? Teu amigo Vai se fudê quer a tua presença em seu casamento.
— Pelo Rio Grande do Sul, por essa escumalha, eu não movo uma palha. Mas pelo meu amigo Vai, vou, sim.
— Por que detestas tanto nosso estado?
— Porque tudo aí é falso.
— Mas tu não foste Campeão do Mundo pelo Grêmio?

Ouvi uma risadinha de escárnio da voz grave de Caju.

— Falso Campeão do Mundo — ganhamos um torneio ridículo patrocinado pela Toyota. Falso Grêmio — contrataram eu e o Mário Sérgio só para jogar aquele jogo. Aquilo não era o Grêmio. E jamais me valorizaram, valorizaram só o Mário Sérgio. Ele era branco, claro.
— Tá, mas tu vens pro casamento?
— Vou.

Todos na mesa se animaram. Falamos de música. Égalité confessou que ele, como músico, não existia, que era como a Égalité mesmo!

Corta.

Caju está na minha casa se arrumando para ir ao Bairro. Ele e sua mulher, uma deslumbrante senegalesa, estão se aprontando. São padrinhos de Vai. Caju sai do quarto com um terno cor-de-rosa. Vou causar no Bairro, ele me diz. Pegamos o Uber. Quando chegamos ao bar — o casamento seria lá –, o rosto de Vai se fudê iluminou-se ao ver Caju e sua senagalesa. Eu e Elena entramos atrás. Vai se fudê chorava dizendo meu amigo, meu amigo… A mulher de Vai, uma velhinha magrinha de olhos azuis, tinha lágrimas até no queixo.

E então eu acordei. Estava realmente comovido. Elena, a meu lado, toda coberta, aquecia sua bochecha direita no travesseiro. Mal ela sabia que também chorara ao ver o reencontro dos amigos.

Rivelino e Caju em 1972

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Encontro com o Mar, de Pär Lagerkvist

Encontro com o Mar, de Pär Lagerkvist

Encontro com o Mar (1962) é mais uma obra breve e profunda de Pär Lagerkvist. Novamente, a religião está presente, como em tantos livros deste ateu. Este livro é a continuação de A Morte de Ahasverus. E é uma continuação pra lá de estranha. Estamos no tempo das Cruzadas — Tobias consegue um meio de ir para a Terra Santa. Paga o comandante de um barco pirata para levá-lo. No meio do caminho, após uma luta, temos um longo monólogo de um dos integrantes da tripulação. O livro termina após este monólogo. Lagerkvist não está nem aí para questões de simetria ou para fechar os parênteses que abriu. O livro existe para mostrar o motivo pelo qual um padre abandonou a batina: a luxúria. Tudo diante de uma enorme mar enigmático, mais velho que todos nós.

No navio estão o Capitão — homem minúsculo de voz frágil que governa a todos com mão de ferro –, o Gigante — especialista em pilhagens e ataques brutais –, Ferrante — movido por insaciável desejo de riquezas e pela pura maldade –, e Giusto — o pusilânime. Mas é com Giovanni que Tobias estabelece o vínculo mais profundo. Como o ex-padre acabou naquele antro de marginais? Criado pela mãe viúva para tornar-se sacerdote, vivendo na mais estrita observância dos dogmas, Giovanni sucumbe ao desejo sexual quando ouve a confissão de uma mulher casada atormentada por uma paixão adúltera. A voz e o hálito da mulher… O confessor, enredado pela voz, transforma-se em amante.

A escrita é característica do autor: austera, precisa, despojada. Cada frase parece medida para dizer apenas o essencial, e justamente por isso ganha densidade. Não há excesso emocional, mas uma contenção que intensifica o efeito. O leitor é tão convidado a acompanhar a história, quanto a habitar um estado de espírito. Como em outras obras de Lagerkvist, a busca pela fé é a busca pelo sentido. Não há como ir adiante. O mar, nesse contexto, pode ser lido tanto como ausência de Deus quanto como sua manifestação mais enigmática.

Para leitores que apreciam a ficção escandinava de inquirição filosófica — algo na linhagem de Ingmar Bergman –, Encontro com o mar é uma joia breve, densa e inesquecível. Não se trata de um romance de ação, mas de um longo e sereno confronto com as perguntas que não se calam: o que separa um padre de um pirata? A fé resiste ao desejo? E, acima de tudo, há paz possível?

Pär Lagerkvist

 

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O Inter, o Jornalismo e Nós, de Fabrício Falkowski

O Inter, o Jornalismo e Nós, de Fabrício Falkowski

Fabrício Falkowski é uma figura rara no jornalismo. Num mercado onde os profissionais estão sempre pulando de uma empresa para outra — seja por opção, seja pelos frequentes passaralhos (demissões) — Fabrício está há 27 anos no Correio do Povo, sempre cumprindo a função de setorista do SC Internacional. Ele começou lá em 1999 e permanece no posto até hoje. Neste livro cheio de detalhes deliciosos, ele conta os últimos 25 anos do Inter, de 2000 a 2024. Fabrício não é um repórter chapa branca. Pelo contrário, foi o cara que trouxe à tona a roubalheira que culminou na responsabilização e condenação do ex-presidente Vitorio Piffero e de seu factotum Pedro Affatato por desvio de valores para benefício próprio, entre 2015 e 2016 –, ano em que o Inter caiu para a segunda divisão pela primeira e única vez em sua história.

Um dos pontos mais interessantes do livro é o foco: Fabrício narra o dia a dia, mas também se volta para o processo jornalístico. Como se constrói uma notícia? Onde termina a informação e começa a opinião? E há o “Nós” do título — ou seja, o livro inclui tanto o autor como o torcedor que consome e se consome no clube e reage às informações. Pois é importante ter um olho na rede de expectativas, paixões e distorções.

O livro tem 412 páginas com fotos e muitos detalhes pouco conhecidos dos bastidores do clube. O texto é fluido, grudento, fácil de ler. Há pra todos os gostos. Há tragédia para quem é de tragédia, há a narrativa dos grandes feitos para quem quiser rememorar aqueles dias. Há também os períodos de pasmaceira. Fabrício viajava muito com o clube. Foi ao Mundial Fifa de 2006, por exemplo. A desgraça de 2016 está muito bem contada, assim como os bastidores dos já citados roubos de dirigentes. Apesar de ser escrito em primeira pessoa, cabem tanto observações pessoais do repórter como da evolução do jornalismo. Não se trata de jornalismo gonzo — ou seja, o repórter não é o protagonista, só se torna parte da história quando uma notícia sua muda os rumos do clube. 

Interessou-me muito a evolução ou involução do jornalismo esportivo. Fabrício fala no empobrecimento do jornalismo esportivo. É verdade. Antes, as entrevistas era frequentes e sabíamos mais dos profissionais. Os repórteres viam os treinos. Hoje, os treinos são fechados — precisa ser sempre assim? –, só os chatíssimos técnicos dão entrevistas e muitas vezes nem se conhece a voz dos jogadores que se ama ou detesta. É uma perda não sabermos quem é burro, quem é inteligente. Existem câmeras mostrando cada detalhe dos lances, mas não se sabe bem quem é o jogador, se ele é articulado ou se é um Jardel. Tudo ficou muito distante. Recentemente, Fabrício passou a perambular por assuntos também importantes — como o efeito da liberação das bets.

O Inter, o Jornalismo e Nós não oferece respostas fechadas, nem busca absolver ou condenar. Para mim, foi como ler um detalhado balanço de um tempo em que aconteceu literalmente de tudo. Um balanço que, de certa forma, é também a minha história como fanático do futebol.

Recomento fortemente aos colorados! Ah, o livro está quase de graça na Bamboletras: R$ 49,90.

Fabricio Falkowski

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