Bloomsday

Bloomsday

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Escrevi tanto sobre Ulysses neste blog e em outros locais, dei palestras a respeito, li e reli, admirei e readmirei tanto o livro que me sinto liberado de escrever mais longamente. Nada de textão. Hoje é o dia que dá vontade de abrir Ulysses a fim de notar mais um detalhe das centenas que ficaram para trás.

Nunca fui a uma “festa de Bloomsday”. Acho que a festa é mais uma celebração interna que pode acontecer em qualquer lugar, como fiz agora há pouco, ao voltar a pé para casa.

Fico sempre feliz de lembrar que Joyce escolheu o dia 16 de junho para ser imortalizado porque foi este o dia em que fez sexo pela primeira vez com sua futura mulher, Nora, à época uma jovem virgem de vinte anos. Na verdade, Nora teve medo de completar o coito e o masturbou “com os olhos de uma santa”, como Joyce relatou em uma carta em que relembrava o acontecido.

É um livro quase sem enredo. É pura vivacidade e energia verbal. As pessoas não são sutis ou elegantes. Não há nada mais lindo do que Bloom se masturbando e Molly explodindo em sua insônia, nada mais frágil do que o não-machista Bloom — o homem que menstruava, segundo seus amigos — comprando fraldas. Nada literariamente mais brilhante do que Joyce fazendo pouco dos padres. Não há pose, pompa, grandiosidade, apenas um enorme amor pelo humano. É uma alegria que tal livro seja o único que mereceu um feriado. Diz bem da humanidade.

Joyce com o filho Giorgio
Joyce com o filho Giorgio

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14 de junho de 2017: A Noite da Maldade em Estado Puro

14 de junho de 2017: A Noite da Maldade em Estado Puro

O RS é um estado triste administrado por um merda. Porto Alegre — local onde nasci e onde vivo — é uma cidade truculenta, capaz de desalojar crianças numa noite como a de ontem. Somos um estado hipócrita e sujo, que tem Campanha do Agasalho para que a primeira dama apareça e que depois, em noite gelada, pede para a Brigada tirar o teto de 200 pessoas que não têm para onde ir. Foi uma noite horrorosa, de guerra contra desarmados e desamados, patrocinada por Sartori, pelo PMDB gaúcho e seus aliados. Espero que ninguém esqueça da noite desumana de 14 de junho de 2017 na hora de votar em outubro de 2018. Noite gelada, famílias postas no olho da rua, silêncio de parte da imprensa e prisão de deputado — fato apenas importante em relação às famílias por não ter ocorrido desde a ditadura. Meu pequeno consolo é não ter votado em nenhum deles. Nem de perto. Isso não me dá nenhum mérito. Gauchada burra, vá tomar no cu!

Foto de Guilherme Santos / Sul21
Foto de Guilherme Santos / Sul21
Foto de Guilherme Santos / Sul21
Foto de Guilherme Santos / Sul21
Foto de Guilherme Santos / Sul21
Foto de Guilherme Santos / Sul21
Foto de Guilherme Santos / Sul21
Foto de Guilherme Santos / Sul21

Aline S. G. (não pretendo sujar meu blog com seu nome completo, nem receber eventuais visitas deste tipo de gente) é o nome da juíza que autorizou a reintegração de posse de um prédio que ficou mais de dez anos abandonado e que nos últimos dois anos abrigava 70 famílias (homens, mulheres, crianças, idosos, etc.). Preocupada com o trânsito de veículos na região, determinou que a desocupação ocorresse à noite, autorizando o uso de força contra crianças, idosos, mulheres e homens. Esta senhora recebe um salário de milhares de reais. Além de outros tantos benefícios, percebe também R$ 4.300,00 de auxílio moradia, pagos com dinheiro público.

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Bom dia, Guto (com os melhores lances de América-MG 1 x 1 Inter)

Bom dia, Guto (com os melhores lances de América-MG 1 x 1 Inter)

Não devo comentar o jogo de ontem por uma razão muito simples: não o vi. Escolhi ver a Ospa tocando o Concerto Nº 2 de Prokofiev com a maravilhosa Helena Berg. Fiz bem.

Mas soube da lesão de William Pottker — sua lesão e a de Cuesta são subprodutos de má condição física do grupo — e da loucura de não escalar Nico López. Nico entrou no lugar de Pottker e acabou marcando nosso gol, um golaço. É natural e é o que ele quase sempre faz. Ele trabalha muito, está em todas as jogadas de ataque, perde e faz muitos gols. É de seu ofício. Se não perdesse, seria um Romário e estaria na Europa ou na China.

Nico López ouvindo os críticos | Foto: Ricardo Duarte
Nico López ouvindo os críticos | Foto: Ricardo Duarte

Vi bem do gol do América-MG. Acho que Moledo é uma palavra muito poética.

Outra bobagem é o terceiro cartão de D`Alessandro. Nosso craque maior não se dá conta que não consegue controlar as arbitragens e segue falando e falando. E vou colocar na conta da coincidência o fato de ele NUNCA IR ao Nordeste, tá?

De resto, foi um alívio a multa de 720 mil reais pelos e-mails fraudados. Acho que Vitório Piffero e Fernando Carvalho deveriam dividir a conta, não? O Inter deveria pagar imediatamente a CBF e cobrar judicialmente a dupla de débeis. De resto, fiquemos quietinhos, pois o resultado foi bom (no Tribunal).

O próximo jogo do desfalcado Inter é contra o Santa Cruz, sábado, em Recife, às 16h30. Aguardamos mais lesões musculares.

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Poemas, de Wisława Szymborska

Poemas, de Wisława Szymborska
A edição da Cia. das Letras
A edição da Cia. das Letras

Na semana passada, minutos após comprar este livro na Ladeira Livros, fui almoçar com meu amigo Norberto Flach no Tuim. Cheguei à mesa onde ele estava sentado e lembrei que tinha esquecido o celular. Estamos passando pela tortura de reformas em casa e é sempre bom estar com o aparelho por perto. Antes de voltar rapidamente ao Sul21 ali pertinho para pegá-lo, disse para o Norberto meio de brincadeira: “Fica lendo isso aqui que eu já volto”. Quando voltei, ele falou que parecia que a poetisa falava em seu ouvido. Boa observação. A sensação de profunda, inteligente e simpática empatia, além da beleza, talvez sejam mesmo as características mais fortes da grande Wisława Szymborska, Nobel de 1996, escritora vinda do mais poético dos países onde as consoantes mandam recados assustadores aos ignorantes como eu.

O personagem japonês de Paterson — no final do filme, lembram? —  diz que ler poesia traduzida é como tomar banho de capa de chuva, mas a única forma de tomar conhecimento com a maravilhosa obra da polonesa Szymborska é a tradução e eu achei lindos, verdadeiramente inesquecíveis, os poemas traduzidos por Regina Przybycien. Não sei o quanto perdi usando capa de chuva, mas o que sobrou foi muito.

Alguns chamam Szymborska de o Mozart da Poesia e creio que a comparação não é nada absurda. A irresistível de combinação de ousadia e leveza é Mozart, mas a de sinceridade e intimidade são Tchékhov. Quando a comparo alguém a Tchékhov, estou fazendo comparações com o escritor que mais valorizo, com aquele que, como disse Konchalovsky, a gente fala quando escreve alguma coisa duvidosa. “O que você acharia disso, Anton?” e só prossegue após o consentimento do russo.

Em 60 anos de vida literária, Szymborska publicou apenas uns vinte livros curtos. Ela explica: “Escrevo os poemas à noite, mas releio-os à luz do dia, e nem todos sobrevivem”. Aprendam, meninos.

Szymborska tem humor de Drummond, boa filosofia, amor pelo humano, fluência, fabulação, ou seja, tudo o que gosto. É uma poesia coloquial, anti-sentimental e despojada de efeitos fáceis, de sofisticada simplicidade. Faz perguntas “inocentes”, terrivelmente inocentes. A clareza é absoluta. Fico imaginando o que são seus famosos artigos em revistas, onde dava mais vazão à veia humorística.

É difícil falar sobre um livro tão delicado e do qual se gostou tanto sem a indelicadeza da adjetivação. Talvez seja melhor dizer logo que — agora que o li e vou pegar outro — tenho vontade de morder o livro para seguir sentindo seu gosto.

Ah, os poemas dela, mesmo em português, estão por toda a internet. Então só vou deixar um com vocês. Um dos mais famosos. E super recomendo o livro.

Alguns gostam de poesia

Alguns —
ou seja nem todos.
Nem mesmo a maioria de todos, mas a minoria.
Sem contar a escola onde é obrigatório
e os próprios poetas
seriam talvez uns dois em mil.

Gostam —
mas também se gosta de canja de galinha,
gosta-se de galanteios e da cor azul,
gosta-se de um xale velho,
gosta-se de fazer o que se tem vontade
gosta-se de afagar um cão.

De poesia —
mas o que é isso, poesia.
Muita resposta vaga
já foi dada a essa pergunta.
Pois eu não sei e não sei e me agarro a isso
como a uma tábua de salvação.

(Livro comprado na Ladeira Livros).

Wisława Szymborska (1923-2012)
Wisława Szymborska (1923-2012)

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As Quatro Estações, de Antonio Vivaldi

As Quatro Estações, de Antonio Vivaldi

Antonio Lucio Vivaldi nasceu em Veneza em 1678. Era o mais velho de sete irmãos. Seu pai era barbeiro e também um talentoso violinista — alguns chegaram a considerá-lo como um virtuose do instrumento. Foi ele quem iniciou o primogênito na música, matriculando-o, ainda pequeno, na Capela Ducal de São Marcos afim de aperfeiçoar seus conhecimentos musicais e induzindo-o a estudar Teologia.

O Palácio Ducal em Veneza
O Palácio Ducal em Veneza

Em 1703, aos 25 anos, Vivaldi foi ordenado padre. Mas um ano depois abandonou as missas para dedicar-se apenas à música. Permaneceu padre, trabalhava para a igreja, apenas não rezava missas. O motivo alegado foi sua saúde. Falemos um pouco dela.

Vivaldi viveu 63 anos, até 1741, e dizia sofrer terrivelmente de asma. Há controvérsias. Alguns inimigos o acusavam de fingir ser doente para não perder tempo preparando e conduzindo missas, dedicando-se apenas à música. Vivaldi afirmava que muitas vezes tinha que se retirar também de concertos em razão das frequentes crises. Mas, como ninguém viu tais fatos acontecerem, ele acabou sendo denunciado pelo compositor Benedetto Marcello, seu inimigo, que chegou ao ponto de escrever um panfleto contra Vivaldi, alegando ser ele um fingido que não apenas não era doente como tinha amantes — o que realmente era um fato público. Toda Veneza sabia que ele não era nada adepto do voto de castidade. Novamente, em 1737, um sacerdote atacou-o pelo fato de não oficiar missas e por seu, digamos, estilo de vida. Vivaldi respondeu por escrito:

Benedetto Marcello
Benedetto Marcello

Há 25 anos que não dou missas e não pretendo fazê-lo novamente, não por causa de alguma proibição ou qualquer ordenança, mas por minha própria vontade, por causa de uma doença que sofro desde a infância e que ainda me assombra.

Depois de ser ordenado sacerdote, disse Missas por um ano, mas depois decidi parar porque em três dias consecutivos tive que deixar o altar antes da celebração final por causa da minha doença.

Por esta razão eu vivo principalmente dentro de casa e nunca saio a não ser de gôndola ou de carruagem, já que não posso andar sem dor ou aperto no peito.

Nenhum cavalheiro convida-me para ir a sua casa, mesmo o nosso príncipe, porque todos sabem de minha fraqueza.

Eu passeio após o jantar, mas nunca vou caminhando. Esta é a razão pela qual nunca rezo missas.

O fato é que não se conhece muito da biografia de Vivaldi. Sabemos que ele era um grande virtuose do violino, que era um notável professor de música e, dizem os contemporâneos, não costumava abandonar um solo para tossir. Além disso, como dissemos, Il Prete Rosso — o Padre Vermelho, como era conhecido por ser ruivo — tinha saúde suficiente para vários casos amorosos, um dos quais com uma de suas alunas mais famosas, o contralto Anna Giraud (ou Anna Girò). O caso era escandaloso e público. Anna foi a inspiradora de muitas de suas óperas e, dizem alguns biógrafos, motivo de grandes tormentos. Sabia-se que Vivaldi fazia tudo o que ela pedia, chegando a adaptar várias árias de óperas, escolhidas por ela, para sua voz. Ele também viajava com ela em turnês.

Bem, não vamos ofender a memória de nosso biografado. Não somos moralistas e, como vocês verão a seguir, Vivaldi era um ser humano dotado de enorme compaixão.

E criou uma grande obra. Escreveu 770 composições, dentre os quais 477 concertos e 46 óperas, aproximadamente. Sua obra ficou esquecida por cerca duzentos anos após sua morte. Sua redescoberta ocorreu apenas por volta de 1940, através de musicólogos, quando sua música voltou a ser divulgada. Na verdade, nos anos 40 e 50, houve um boom vivaldiano.

Igor Stravinsky
Igor Stravinsky

Na época, Stravinsky criou uma frase muito famosa: “Vivaldi não escreveu 477 concertos, ele escreveu o mesmo concerto 477 vezes”. Mas é somente uma frase de efeito, não podemos concordar com o russo. A frase de Stravinsky é genial porque contém ofensa e explicação. Isso porque Vivaldi é inconfundível e original apesar de seus concertos terem sempre a mesma estrutura. Então, de um ponto de vista moderno, talvez seja razoável dizer que ele fez sempre o mesmo concerto de forma diferente. 477 vezes.

Bem, quando deixou de rezar missas, sempre em Veneza e compondo, Vivaldi assumiu o cobiçado cargo de professor de violino no Ospedale della Pietà, uma instituição religiosa que fornecia abrigo e formação musical para meninos carentes. Foi nesse respeitado conservatório que compôs e apresentou o melhor de sua obra para reis e rainhas. Foi lá o local onde obteve prestígio e fama internacionais.

O Ospedale della Pietà
O Ospedale della Pietà

No orfanato, desempenhou diversas atividades. Chegou lá em 1704 como professor. Em 1713, tornou-se responsável por todo o ensino musical do Ospedale e, em 1716, tornou-se regente da orquestra. Apenas se desligou do Ospedale em 1740, 36 anos depois de entrar e um antes de falecer. Mesmo quando em viagem, enviava pelo menos dois novos concertos mensais para serem interpretados pelas meninas. Trabalhava muito além da encomenda.

Mas quem eram estas meninas? O Ospedale della Pietà é uma casa fundada em 1346 pelo governo de Veneza a fim de receber meninas órfãs ou abandonadas, que muitas vezes lá permaneciam por toda a vida, caso não fossem adotadas. Meninos eram aceitos apenas temporariamente, devendo partir aos 16 anos após aprenderem ofícios simples como carpintaria.

A Roda dos Expostos
A Roda dos Expostos

O Ospedale tinha a chamada Roda dos Expostos ou Roda dos Enjeitados. Tais mecanismos ficavam nas fachadas de instituições religiosas, embutidas na parede, dando para a rua. Consistiam em mecanismos utilizados para abandonar os recém-nascidos indesejados, que assim ficavam ao cuidado da instituição. O mecanismo era uma caixa cilíndrica que girava sobre um eixo vertical com uma portinhola ou apenas uma abertura. Quem desejava abandonar um recém-nascido, colocava ali seu filho e girava o cilindro, dando meia volta. Desta forma, quem abandonava a criança não era visto por quem a recebia. As rodas também serviam para que pessoas piedosas oferecessem anonimamente alimentos e medicamentos a tais casas. As crianças eram normalmente filhas de pessoas pobres, para quem seria um peso receber mais uma boca para alimentar, ou filhas de mães solteiras, nobres ou burguesas, que não desejavam ver descoberta sua gravidez.

A imagem clássica de Vivaldi
A imagem clássica de Vivaldi

Muitas mães que entregavam seus filhos a tais instituições ofereciam-se depois como amas-de-leite e talvez amamentassem a própria filha ou filho.

As meninas eram abandonadas em maior número do que os meninos. A causa é bastante óbvia. Os meninos representariam uma força futura de trabalho produtivo e possibilidade de lucro, enquanto a ideia do sexo feminino como investimento ou lucro não existia. Tais instituições eram planejadas como moradias temporárias, mas frequentemente tornavam-se lugar definitivo. No orfanato, havia a garantia de alimentação, educação e cama.

Como o Ospedale della Pietà era um convento, orfanato e escola musical para mulheres, lá havia uma orquestra. A fama da orquestra de meninas era imensa e os concorridos concertos eram assistidos pela aristocracia veneziana e estrangeira. Havia todo um mistério, pois os concertos eram realizados atrás de um biombo que impedia que a plateia visse as intérpretes. Jean-Jacques Rousseau, de passagem por Veneza, assim descreveu sua impressão dos concertos e das intérpretes. Peço-vos que perdoem a falta de correção política do parágrafo de Rousseau.

Concerto no Ospedale
Concerto no Ospedale

“Não posso conceber nada mais voluptuoso, nada mais emocionante do que esta música. Desejava ver quem eram estas meninas exiladas, de quem apenas sua música atravessava as grades, as quais certamente ocultavam anjos adoráveis. Um dia comentei o fato na casa de um rico senhor veneziano. ‘Se estais tão curioso para ver estas mocinhas, posso facilmente satisfazer-vos a vontade. Sou um dos administradores da casa, e vos convido a lanchar com elas’, disse-me. Quando me dirigia com ele à sala que abrigava as desejadas beldades, senti tamanha agitação de amor como jamais experimentara. Meu guia apresentou-me uma após outra àquelas afamadas cantoras e instrumentistas, cujas vozes, sons e nomes já me eram todos conhecidos. ‘Vem, Sofia’… Ela era horrenda. ‘Vem, Cattina’…. Ela era cega de um olho. ‘Vem, Bettina’… A varíola a havia desfigurado. Mal haveria uma ou outra sem qualquer defeito considerável. Duas ou três eram apresentáveis. Fiquei desolado. Durante o encontro, elas se alegraram. Encontrei charme em algumas delas. Finalmente minha maneira de as considerar mudou tanto que quase me enamorei daquelas meninas disformes.”

Sim, é claro que as famílias também colocavam na Roda dos Expostos alguns de seus filhos que tivessem nascido com alguma deformidade física, mas o mais importante é acentuar o fato de que Vivaldi, nosso biografado, projetava e providenciava instrumentos especiais para que estas meninas pudessem tocar.

Aliás, Vivaldi tinha grande cuidado na educação das suas discípulas, muitas vezes ordenando grandes quantias para compra de bons instrumentos para elas, alguns deles de fabricantes ilustres como Antonio Stradivari, Nicolò Amati e Andrea Guarneri.

Muitas, é claro, não tinham nome de família, sendo conhecidas pelo instrumento que tocavam, como Anna Maria dal Violin e Meneghina dalla Viola. Pelo menos duas delas se tornaram compositoras de algum prestígio: Anna Bon e Vincenta Da Ponte.

.oOo.

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Mas abordemos As Quatro Estações. Afinal, Vivaldi ficou conhecido do grande público principalmente por estes quatro concertos para violino e orquestra compostos em 1723. Ao contrário da maioria de seus concertos, esses quatro têm um programa claro: descrevem as quatro estações do ano e vêm acompanhados por sonetos ilustrativos impressos na parte do primeiro violino, cada um sobre o tema da respectiva estação. Não se sabe a origem ou autoria desses poemas, mas especula-se que o próprio Vivaldi os tenha escrito.

Também não se sabe o que surgiu primeiro, se a música ou os sonetos. O fato é que, desde que As Quatro Estações foram publicadas em 1725, em Amsterdam, os concertos vieram acompanhados de quatro sonetos que descrevem muito bem a música de cada uma das estações.

A partitura na edição de 1725
A partitura na edição de 1725

Examinando a dedicatória do Op. 8, chamado O diálogo entre a harmonia e a criatividade (Il Cimento dell’Armonia e dell’Invenzione), em que os quatro primeiros concertos são As Quatro Estações, entende-se duas coisas: (1) os concertos já eram conhecidos antes de serem publicados, e (2) os sonetos vieram depois. O que não se sabe é quem os escreveu.

As partituras dos quatro concertos trazem aqui e ali indicações do que a música estaria retratando, para que os próprios músicos pudessem saber que tal trecho retratava “pássaros”, “cachorro”, um “vento horripilante” e assim por diante.

Antes de Vivaldi não havia um modelo para o concerto solista, e cada compositor escrevia de acordo com seu próprio estilo. Os mais comuns recaíam no formato da sonata da chiesa (movimentos lentos e rápidos alternados, às vezes incluindo uma fuga) ou na sonata da camera (prelúdio e sequência de danças). Vivaldi seguiu o modelo de Albinoni com um movimento lento central e dois agitados nos extremos, e esse esquema rápido-lento-rápido acabou “pegando” e ficando como definitivo em concertos.

Mais do que uma simples sucessão de concertos, As Quatro Estações é uma viagem completa pela natureza e — por que não? — pela própria alma humana. Vivaldi não apenas descreve a paisagem, mas convida nossa imaginação a ouvir o canto dos pássaros na primavera, sentir o calor opressivo do verão, dançar na colheita do outono e tremer diante do gelo do inverno. É essa genialidade narrativa, esse poder de transformar notas em vivência, que mantém a obra, séculos depois, não como uma relíquia, mas como um espelho sempre novo das mudanças e ciclos que todos nós percorremos. No fim das contas, este grupo de Concertos é aquela música que nos faz lembrar que a vida, assim como as estações, é feita de ciclos sempre belos e em constante transformação. O grande trunfo de Vivaldi foi transformar o óbvio – a passagem do tempo – numa experiência sonora vívida e emocionante.

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Minha primeira lembrança do mundo

Minha primeira lembrança do mundo

Minha primeira lembrança do mundo foi de um pós-operatório, aos 5 anos de idade. Eu era estrábico divergente e a operação fora para corrigir a coisa. Acordei no meu quarto do hospital e a primeira pessoa que vi foi o Maneco, ex-marido da minha prima Vera Luiza Cunha, que por algum motivo estava na minha frente. E começaram as delícias. Eu não sentia dor e era tratado como um deus, só porque tinha um curativo tapando um olho. Tudo o que pedia era atendido imediatamente. Quando voltei para casa, ainda com o tapa-olho, todos me faziam carinho, era uma maravilha ser o coitadinho-bonitinho-fofinho-operadinho. Os parentes e amigos estavam na minha mão. Então o desgraçado do oftalmo tirou o curativo e, em três dias, o encanto se desfez e tudo voltou ao normal.

Milton Ribeiro Iracema Ribeiro Gonçalves

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Dia dos Namorados 2017

Dia dos Namorados 2017

Abraçar, beijar, dormir, abraçar, desejar bom dia, beijar, sair, chegar, conferir, conversar, ouvir, ficar, abraçar, beijar, telefonar, comer, caminhar, abraçar, conversar, admirar… Assim, o verbo amar vai adquirindo muitos outros verbos durante os dias, confundindo-se com respirar e outros que devem ser fundamentais, mas que não me ocorrem agora. Nossa, este será um Dia dos Namorados nada glamuroso! Tu vais ensaiar à noite e eu vou revisar o que devo falar num evento amanhã. Mas não adianta, Elena: o Dia é nosso também. É super ultra hiper nosso.

Elena Romanov e Milton Ribeiro

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Bom dia, Guto (com os melhores lances de Inter 4 x 2 Náutico)

Bom dia, Guto (com os melhores lances de Inter 4 x 2 Náutico)

Guto, sábado, em Inter 4 x 2 Náutico, aconteceu algo que nunca vi. 4 pênaltis a favor do Inter, todos assinalados pelo juiz, todos no segundo tempo, todos legítimos. Só que o Inter errou 2 e converteu 2. Acho que já podemos fazer um DVD! Mas temos muito a melhorar para chegarmos a uma vida tranquila na B.

Léo Ortiz chega atrasado até em comemoração de gol | Foto: Ricardo Duarte
Léo Ortiz chega atrasado até em comemoração de gol | Foto: Ricardo Duarte

O Inter venceu e irritou seu torcedor. Foi um jogo daqueles bem porcaria, né Guto? O Inter deu um baile até os 30 minutos, depois teve o tradicional apagão, tomou o empate e acabou o primeiro tempo vaiado. Entrou no segundo tempo arrasador e fez 3 x 1 em dois pênaltis convertidos por Pottker e D`Alessandro. Aí o juiz marcou mais um e Cirino errou.

Isso merece um comentário. Cirino faz poucos gols, não tem tesão para marcar, chuta mal, não é bom jogador. Mas seus companheiros, tão legais, resolveram dar-lhe um prêmio. Ele errou. Parabéns pela seriedade com que as coisas são tratadas no Beira-Rio, Guto. No dia 19 de agosto estarei de aniversário e gostaria de bater um pênalti com o Beira-Rio lotado. Pode ser, Guto? Ah, deixa.

Perdido o pênalti, com os jogadores decepcionados e tristinhos, houve novo apagão, o Náutico descontou para 3 x 2 e um conhecidíssmo filme trash de terror começou a passar no Beira-Rio. Fomos salvos por um cruzamento de Pottker para um gol do inacreditável Cirino. Ah, houve ainda mais um pênalti, desperdiçado por Pottker, certamente em solidariedade a Cirino.

Como a maioria dos times da Série B, o Náutico não existe. É o mais legítimo e acabado candidato a cair para a C. Mas a gente conseguiu se atrapalhar com ele. Chato.

Tivemos volume de jogo, tivemos D`Alessandro jogando mal, um ataque mais ou menos bom e uma defesa que vou te contar. Léo Ortiz e Danilo Silva formaram uma dupla de zaga ridícula. A intenção deles não parece ser a de evitar gols dos adversários, mas matar o Danilo Fernandes do coração. E Edenílson na lateral é tua primeira piada. Acho melhor parar logo. Não teve graça.

Mas estamos subindo na tabela e, mesmo com as flagrantes deficiências, devemos ascender sem aflições, se me entendem.

Com o resultado, o Inter soma 11 pontos e ocupa a terceira posição na B. A próxima rodada nos trará o terrível América-MG. O embate será nesta terça-feira, às 21h30, no Independência, em Belo Horizonte. É jogo para pontuar, Guto. Nem vem.

E os quatro pênaltis, para quem tem dúvidas:

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Eu e o mítico Batman de Adam West

Eu e o mítico Batman de Adam West

Eu nunca gostei de super-heróis, só do Batman de minha infância e daquele desenho da Warner dos anos 90, também do Batman, que achava sofisticado. Hoje, Adam West se foi. Ele não era tão fortão, nem vestia-se de preto como os Batmen (ou Batmans) de hoje, mas eu me divertia com ele, principalmente quando subia num prédio e uma “pessoa comum” (que sempre era um ator/atriz conhecido) abria a janela para perguntar o que estava ocorrendo. Ele e Robin respondiam educadamente, com calma. Aquilo era uma boa definição de bizarrice. Eu adorava.

Batman e Robin

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Porque hoje é sábado, Golshifteh Farahani

Porque hoje é sábado, Golshifteh Farahani

Farahani (poema de Marcos Nunes)

Golshifteh Farahani 01

Você está proibida de me olhar,

Golshifteh Farahani 02

eu estou proibido de olhar para você:

Golshifteh Farahani 03

a lei é a distância

Golshifteh Farahani 04

são as circunstâncias

Golshifteh Farahani 05

os chamados das profissões

Golshifteh Farahani 06

as línguas desconectadas.

Golshifteh Farahani 07

Nós estamos proibidos de nos conhecer

Golshifteh Farahani 08

restando o cantinho miúdo das celebridades

Golshifteh Farahani 09

para acessá-la, como o Aleph de Borges

Golshifteh Farahani 10

praticando um sacrilégio, uma heresia

Golshifteh Farahani 11

rendição à Pérsia dos ancestrais

Golshifteh Farahani 12

ao Irã do cinema, contra a censura

Golshifteh Farahani 13

da ilusão de seu olhar desviando-se

 

para me ver aqui, dedilhando

Golshifteh Farahani 15

meu prazer em te sonhar.

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TSE demonstra que a ética e a dignidade não podem prejudicar os negócios

TSE demonstra que a ética e a dignidade não podem prejudicar os negócios

Os financiadores de campanha mandam no país. Tanto faz se o presidente chama-se Michel Temer, Rodrigo Maia, Carmen Lúcia, Fernando Henrique, Nelson Jobim, Henrique Meirelles ou Gilmar Mendes. Os políticos têm que entregar o trabalho pelo qual já foram pagos. O importante é a continuidade das reformas (ou contrarreformas).

Hoje à noite, o TSE ignorou uma enorme quantidade de provas e evidências que demonstravam como o Dilma e Temer beneficiaram-se de caixa 2 na eleição de 2014. Amigo de Temer de tantas viagens e convescotes, Gilmar Mendes, presidente de uma corte de opereta, construiu a absolvição.

A opinião pública pouco importa no universo paralelo da maioria dos políticos e juristas de Brasilia. Nada os assusta, tanto que Temer devolveu em branco as 82 perguntas que a Polícia Federal fez a ele sobre sobre suspeitas de seu envolvimento em corrupção, organização criminosa e obstrução de Justiça. Eram “invasivas”, disse. Completou dizendo era “vítima de abusos e agressões”. Tadinho.

No último balanço realizado pelo Congresso em Foco, com base nos registros do Supremo Tribunal Federal, havia 148 deputados federais suspeitos ou acusados formalmente de crimes. Os delitos são variados: crimes de responsabilidade, contra a lei de licitações, corrupção, lavagem de dinheiro, sonegação de impostos e crimes eleitorais e ambientais, entre outros. A maioria dos restantes são apenas lobistas, meros representantes de corporações.

Eles, os 148 e os só lobistas, votarão as tuas reformas.

TSE

Vejam se o juiz, nesta cena de Boleiros, de Ugo Giorgetti, não parece Gilmar Mendes (cena trazida por Idelber Avelar em seu perfil do Facebook):

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Dois macacos de Brueghel

É assim meu grande sonho sobre os exames finais:
sentados no parapeito dois macacos acorrentados,
atrás da janela flutua o céu
e se banha o mar.

A prova é de história da humanidade.
Gaguejo e tropeço.

Um macaco, olhos fixos em mim, ouve com ironia,
o outro parece cochilar —
mas quando à pergunta se segue o silêncio,
me sopra
com um suave tilintar de correntes.

[Wisława Szymborska]

Dois Macacos (1562), de Pieter Brueghel, O Velho.
Dois Macacos (1562), de Pieter Brueghel, O Velho.

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O Ruído do Tempo, de Julian Barnes

O Ruído do Tempo, de Julian Barnes

O Ruído do Tempo Julian BarnesO Ruído do Tempo usa o enorme drama que foi a vida de Dmitri Shostakovich como material ficcional. É um livro dividido em três seções maiores que contêm, cada uma delas, capítulos curtos e fora de ordem cronológica, muitas vezes de apenas um parágrafo. Tais capítulos vão adicionando informações curiosas ou estarrecedoras sobre o compositor, tudo com bastante invenção, mas sobre um esqueleto rigorosamente biográfico, verdadeiro.  As três seções mostram os três traumáticos encontros de Shosta com o poder, em 1936, em 1948 e em 1960. Todos em anos bissextos, todos separados por 12 anos. A ideia é boa, mas…

O livro é pouco sofisticado, extraordinariamente conservador e chega a ser “matado” em vários trechos, não fazendo jus às nem à arte de Shostakovich, nem a seus dramas. As críticas ao regime soviético são naturais e inteiramente razoáveis, não fosse a profusão de clichês bobos ao estilo da CIA. O pior é que a ficção de Barnes não faz a biografia ou os dramas vividos pelo compositor avançarem em qualquer direção.

FaulknerPara quem, como eu, acredita que só a ficção arranha a realidade, o livro foi uma decepção. Espécie de jornalista gonzo imaginário, Barnes vai ficando cada vez mais afastado da obra de seu biografado, perdido em detalhes triviais. Não há complexidade ou verdadeira tensão, apenas contradições — verdadeiras — e medo mal descrito. O livro de Barnes toma um baile das poucas páginas dedicadas a Shosta no clássico de Alex Ross O resto é ruído, de quem parece ter roubado o título.

O livro é, em parte, um exercício de nostalgia da Guerra Fria. Coisa muito inglesa para descrever um soviético. Seus melhores trechos são aqueles que examinam a natureza da integridade pessoal. A ótima arte pode nos resgatar do “ruído do tempo”, superar tudo e, portanto, desculpar o comportamento ruim? E era possível comporta-se melhor? Acho que faltou a Barnes alguma vivência sob regimes ditatoriais. Sua descrições são de um tranquilo inglês que examina à distância um Shostakovich que é muito mais herói — e concordamos nisso, Mr. Barnes — do que Mephisto.

(Livro comprado na Ladeira Livros).

Julian Barnes
Julian Barnes

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Almoço Clio Musical vai para a segunda rodada

Almoço Clio Musical vai para a segunda rodada

Me disseram que foi bom o primeiro Almoço Clio Musical. Ainda estou rindo daquela senhora que disse que jogaria fora todos os Concertos de Brandenburgo que comprara em sua vida, após ouvir a Orquestra Barroca de Freiburg, que apresentei junto da contextualização da obra e de detalhes da vida de Bach e suas margens. O próximo será sobre As Quatro Estações de Vivaldi, uma obra lotada de histórias, desde o Ospedale della Pietà e sua orquestra de mulheres, passando pelas Rodas dos Expostos, pela provavelmente fingida asma do compositor, indo até o poema que acompanha a partitura do solista e que descreve cada trecho. A próxima edição será  no dia 13 de junho, às 12h20, no StudioClio e estou juntando material para a função. Digamos que este inábil palestrante está feliz com o novo projeto.

E, hoje, quando elaborava mentalmente meu discurso cheio de fofocas sobre Vivaldi, dei de cara com este artigo. É um desses artigos que leio sempre com algum ceticismo, mas e se for correto?

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Ouvir música alegre melhora capacidade cognitiva, afirma estudo

Da Revista Prosa Verso e Arte

O estudo britânico teve como base os concertos da série As Quatro Estações de Vivaldi e revelou benefícios ao nível da atenção e da memória.

A Universidade de Northumbria, no norte do Reino Unido, levou a cabo um estudo que concluiu que ouvir música alegre pode melhorar as capacidades cognitivas, aumentando o “estado de alerta” do cérebro.

O estudo britânico teve como base os concertos da série As Quatro Estações de Vivaldi e revelou benefícios ao nível da atenção e da memória. Desenvolvido por Leigh Riby e publicado este mês na publicação Experimental Psychology, a investigação envolveu 14 jovens adultos aos quais foi pedida a realização de uma tarefa de concentração. O objetivo era carregar na barra de espaço de um teclado quando aparecesse um quadrado verde no ecrã do computador, ignorando os círculos de várias cores e outros quadrados que surgiam de forma intermitente.

Arcimboldo, As Quatro Estações
Arcimboldo, As Quatro Estações

A tarefa teve duas fases, onde primeiro foi desempenhada em silêncio e depois enquanto se ouvia cada um dos quatro concertos do compositor italiano. Durante o processo, a atividade cerebral dos jovens foi medida através de eletroencefalografia (uso de elétrodos no couro cabeludo para analisar as correntes elétricas do encéfalo), segundo o comunicado da Universidade da cidade de Newcastle, no seu site.

O estudo mostrou que, em média os participantes responderam de forma correta e com mais rapidez enquanto ouviam a Primavera de Vivaldi. Durante a música, o tempo médio de resposta foi de 393,8 milissegundos, e em silêncio, levaram, em média, 408.1 milissegundos a completar a tarefa.

Já com a composição Outono, música mais lenta e sombria, o tempo de resposta aumentou para os 413.3 milissegundos quando, indicando uma diminuição da capacidade mental.

Após o estudo, Leigh Riby concluiu que a Primavera de Vivaldi pode ser usada como terapia pois “melhorou a atividade geral do cérebro e provocou um efeito exagerado na área cerebral que é responsável pelo processamento emocional”. Riby concluiu ainda que o estudo forneceu “evidências de que há um efeito indireto da música na cognição que é criado pelo estado de alerta, humor e emoção”.

As Quatro Estações

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Horror a intermediários

Horror a intermediários

No dia 7 de novembro de 2001, saí da Feira do Livro e fui direto para o Beira-Rio. Jogavam Inter x São Paulo. Pelo Inter, entravam em campo João Gabriel; Barão, Gilmar Lima, Fábio Luciano e Wederson; Leandro Guerreiro, Carlinhos, Silvinho e Jackson; Daniel Carvalho e Luís Cláudio. Pelo São Paulo vinham Rogério Ceni; Reginaldo Araújo, Émerson, Júlio Santos e Gustavo Nery; Maldonado, Fábio Simplício, Kaká e Júlio Baptista; Luís Fabiano e França. E eu estava confiante.

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Começa o jogo e o Inter, cheio de entusiasmo, parte para cima do São Paulo. Dava pena de ver. Era um banho de bola. Aí Kaká puxou um contra-ataque e cruzou para França fazer 1 x 0. Um detalhe, claro, ainda mais que no minuto seguinte Silvinho empatava o jogo e nós, os trouxas que assistíamos a partida, nos preparávamos para ver a virada. Empilhávamos chances de gol, nossos gols estavam maduros, podres até, vários deles. O primeiro tempo terminou empatado. 1 x 1.

Começou o segundo tempo e Luís Fabiano cruzou para França desempatar. Uma sacanagem, jogávamos muito melhor. Continuamos perdendo gols quando Gustavo Nery cruzou para Luís Fabiano fazer o terceiro. Mas reagimos e parecia que parte da injustiça seria sanada porque nossa pressão era irresistível. Sim, chegaríamos ao empate. Só que Gustavo Nery bateu uma falta do meio da rua e ficou 4 x 1. Meu deus, que bosta, que injustiça.

No dia 30 de junho de 2002, entravam em campo Brasil e Alemanha. O Brasil trazia Marcos; Lúcio, Edmílson e Roque Júnior; Cafu, Gilberto Silva, Kléberson, Ronaldinho Gaúcho e Roberto Carlos; Rivaldo e Ronaldo. A Alemanha vinha com Kahn, Linke, Ramelow, Metzelder e Frings; Hamann, Jeremies, Schneider e Bode; Neuville e Klose. Eu estava em Bento Gonçalves, curiosamente com um grupo de alemães. O jogo foi igual: o que a gente fazia aqui, eles faziam lá. Era uma partida perigosíssima, mas vocês lembram muito bem como terminou. Rivaldo, Ronaldo e Kahn fizeram a toda a diferença e os alemães discutiam entre si, dizendo que seu time igual ao nosso, só que…

É por isso que gosto dos jogadores decisivos. Você pode empilhar dez Luís Cláudios no seu time que eles não farão um Luís Fabiano. Pior, o São Paulo poderia enfiar 18 Maldonados em seu meio campo que eles não chegariam à eficiência de um França. Exagero? Claro que sim, os gregos criaram a figura da hipérbole para intensificar um fato até o inconcebível e os lógicos adoram hipérboles. Por isso, digo que 23 Rivarolas não fazem um Jardel, 34 Ramelows não criam fenômeno nenhum, 52 Edmílsons não superam um Rivaldo e 61 Baideks não fariam o que um Renato fez em Tóquio.

É por isso que gosto dos jogadores decisivos. No próximo jogo, podem estar em campo 43 armadores, mas os importantes serão os caras terminais, os atacantes e goleiros. Os goleadores, com frieza de toureiro e sangue frio de assassino esquizofrênico, são sempre os mais valiosos jogadores em campo. É por saber o momento do tiro ou por aproveitarem a passagem burra do touro descontrolado a sua frente, que vimos Romário jogar e fazer gols até os 68 anos, que vimos Túlio goleador aos 84 anos e é por isso que são tolos aqueles que criticam Nico López quando ele tantas vezes erra. Não me façam rir: depois daquela mal direcionada troca de cabeçadas, quem deu um balaço no canto do goleiro do Juventude, hein?

Romário, né?
Romário, né?

E é por isso que gosto também de grandes goleiros. O cara que fica ali não pode falhar, ainda mais num jogo decisivo. O mundo não lembrará de Kahn pelos 112 campeonatos alemães que levantou, mas nunca esquecerá que, quando Rivaldo chutou aquela bola, ele a soltou e ficou nadando no ar enquanto o matador Ronaldo Fenômeno chutava a bola para as redes com a certeza do toureiro matador que sabe que ou é o touro ou é ele mesmo (então, que seja ele!). O são-paulino mais fanático sempre lembrará de Ceni no Japão, mas nunca esquecerá que ele facilitou as coisas para Fabiano Eller naquele segundo de auto-suficiência. O colorado mais fanático sabe de seus títulos, porém sempre lembrará de Clemer como um goleiro milagroso que podia ser muito nervoso e hesitante. E sabe que só um doido varrido — preciso dizer seu nome? — esquizo alucinado e viciado teria a coragem e calma de pegar um escanteio batido por Nelinho com uma mão só, pois a outra tinha, naquele dia, escondidos sob a luva, seus dedos retorcidos novamente quebrados.

Num time campeão, até o roupeiro vence, mas só alguns são decisivos. Decisiva para a vida da batata é a mão que a planta e os dentes de quem a come. O resto são contingências. Decisivo na vida da galinha é quem a choca e minha avó que, caminhando e sem deixar de conversar comigo, pegava o bicho e, para meu horror, torcia docemente o pescoço de nosso almoço. O resto é milho, cacarejos e carregadores de pianos.

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Aprendendo a lidar com os russos (ou com a russa)

Aprendendo a lidar com os russos (ou com a russa)

Certa vez, em Pelotas, eu ia dar uma palestra para um grupo de alunos junto com um professor da Unisinos. Ele fora dirigente do PCB, viajara para a URSS várias vezes, estudara lá, etc. Quando ele soube que minha mulher era bielorrussa e não viera “através da internet”, mas concursada e aprovada por sua competência como musicista, logo me disse: “Nossa, deve ser dureza”. Eu logo entendi que ele estava se referindo ao fato dos russos serem diretos diretíssimos, de dizerem o que acham na lata. Às vezes, no começo, a Elena me assustava. É incrível que nossa sociedade, tão violenta, tenha dificuldades para ouvir opiniões francas. As pessoas, eu incluído, parecem não reconhecer o bom espírito por trás da franqueza. Por exemplo, ela foi a única pessoa que criticou minha palestra no StudioClio, tão elogiada pelo restante das pessoas. Ela disse que o conteúdo fora ótimo, mas eu estava fora inteiramente do meu normal, sério demais, destituído de humor. E disse isso logo após a apresentação, sem preparação ou delongas. Agora já me acostumei. Aprendi a gostar disso e também de apreciar o pasmo dos outros quando ela emite uma opinião daquelas, dizendo BEM o que acha, sem políticas nem voltinhas.

É. Eu adoro ela.

Elena Romanov no Rijksmuseum de Amsterdam| Foto: Milton Ribeiro no
Elena Romanov no Rijksmuseum de Amsterdam| Foto: Milton Ribeiro

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Bom dia, Guto (com os melhores lances de Figueirense 1 x 2 Inter)

Bom dia, Guto (com os melhores lances de Figueirense 1 x 2 Inter)

Guto, apesar do futebol singelo, o Inter mostrou três boas novidades no jogo de ontem:

(1) os reservas — tínhamos 6 no time — correram todo o tempo;
(2) tivemos contra-ataque;
(3) Juan.

E apenas isso parece ter sido suficiente contra o fraco Figueirense. Pois novamente jogamos miseravelmente. Mas digo com sinceridade, Guto: Parabéns! Tua estratégia de colocar reservas em forma para jogar deu certo. O futebol exige igualdade física para que possa aparecer quem tem mais futebol, mesmo que daquele nosso jeito desajeitado.

Diego: após chocar-se violentamente contra a trave, o forte Diego comemora seu gol | Foto: Ricardo Duarte
Diego: após chocar-se violentamente contra a trave, o forte Diego comemora seu gol | Foto: Ricardo Duarte

A suada vitória deixou-nos na quinta posição, com oito pontos, a três de distância do líder Juventude. No sábado (10/6), o jogo será contra o quase lanterna e aflito Náutico, às 16h30, no Beira-Rio.

Na noite chuvosa de ontem, em Porto Alegre, éramos uns dez cães molhados assistindo o jogo no bar de meu eterno sofrimento. O gol de Cuesta quase não foi comemorado. Olhamos uns para os outros e um colorado nada delirante disse: “Logo eles empatam”. Não deu outra. Em falha de Carlinhos — que, aliás, falhou durante todo o jogo –, o Figueira empatou ainda no primeiro tempo. E quis nos pressionar. Só que desta vez tínhamos o contra-ataque, figura tão ausente nos últimos meses quanto o bom futebol.

Não preciso descrever a partida, vocês todos sabem e há os melhores lances abaixo, então vou direto para as conclusões.

Carlos e Carlinhos… Olha, juntos, os nomes já indicam que talvez fizessem sucesso no sertanejo secundarista. Já como jogadores de futebol… Após perder aquele gol inacreditável contra o Juventude, Carlos mostrou-se rapidíssimo em estragar vários contra-ataques promissores com passes infantis. O bom Pottker do segundo tempo já estava puto com ele.

E Carlinhos é o clássico lateral que não marca, fato só aceitável se o cara atacar como um Júnior do Flamengo e da Seleção, um Marcelo do Real Madrid, um Roberto Carlos ou Marinho Chagas, porque estes exigiam serem marcados, o que inverte tudo.

Gostei da segurança de Danilo Silva na bola alta — acho que ele deve permanecer –, e da entrada de Juan, que fez um esplêndido lançamento para Pottker servir a Diego no segundo gol. Charles esteve mais ou menos bem e Brenner afundou de novo. O que houve com ele?

O resultado causa certo alívio, mas há que ter sequência. A Série B é uma barbada para quem joga futebol. O nível técnico é rasante. Só que, sem jogar futebol, até uma partida de Casados x Solteiros no Parque Saint-Hilaire é complicado, e nem falo dos assaltos. Então, Guto, o negócio é deixar o grupo no nível físico dos outros times e jogar um pouquinho. Ah!, e se esforçar como os adversários. Não é muito.

Mas é VITAL conseguir, entendeu?

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O Tempo e Ignacio Iturria: “Todos siempre corriendo como locos”

O Tempo e Ignacio Iturria: “Todos siempre corriendo como locos”

É mais ou menos como eu me sinto todos os dias, à exceção dos finais de semana. Um cara correndo como um louco contra um fundo escuro.

Ao meio-dia, almoço rapidamente para subir até a Biblioteca Pública a fim de ler por 30 min. É a salvadora “pausa de mil compassos”, mas sem ver a meninas e com um livro nos braços (Obrigado, Paulinho da Viola!). E sigo vivendo com a impressão de que, de certa forma, sou sempre ultrapassado por minha pressa, e que vou apenas existindo dentro dos dias.

Hoje pela manhã, vi o e-mail da Lu Vilella indicando a compra de “A Montanha Mágica”, relançado pela Companhia das Letras. Lembro vagamente das reflexões sobre o tempo que há no início do romance e de como este se move, estica e contrai-se. Atualmente, ele parece diminuto, mas agora, terça-feira ao meio-dia, parece que já estou há uns quatro dias nesta semana. E faltam horas. E sobra cansaço.

Foto: Milton Ribeiro, em julho de 2015 (Montevidéu).
Foto: Milton Ribeiro, em julho de 2015 (Montevidéu).

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Um parágrafo sobre o “Se nada mais der certo” da escola de Novo Hamburgo

Um parágrafo sobre o “Se nada mais der certo” da escola de Novo Hamburgo

Muita gente lamentando a “atividade” do Colégio Luterano de Novo Hamburgo (IENH) “Se nada mais der certo”. Tem gente reclamando até porque o Colégio é gaúcho e isto seria uma vergonha para o Estado… Olha, tem tanta coisa ruim no RS além do elitismo cafona… Tanto, mas tanto atraso — e me incluo nisso! E vejam bem: o ensino particular do IENH é tão ruim que os caras não vieram vestidos de professores ou jornalistas, só de lixeiros, atendentes do McDonalds, mecânicos, petistas, etc. Alguém diga a esses adolescentes que eles não precisam se preocupar, só os pobres se ralam no Brasil. Eles nasceram a salvo das profissões que consideram degradantes. Beijos nos corações de todas essas crianças!

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Bom dia, Guto (com os principais lances de Inter 1 x 1 Juventude)

Bom dia, Guto (com os principais lances de Inter 1 x 1 Juventude)

Bem, Guto, o Inter está uma bagunça, a começar fora do campo. A única coisa positiva da gestão Piffero foi a decisão de que a preparação física não mais seria uma atribuição da equipe do técnico contratado, mas algo de responsabilidade do clube. Não temos nenhum grande futebol para mostrar, mas também não temos preparo físico.

Ortiz e Dourado sempre vigilantes, de olhos bem fechados
Ortiz e Dourado sempre vigilantes, de olhos bem fechados

Deves ter visto que o jogo de sábado foi apenas a continuidade do Inter sob Zago. Abrimos o placar contra o ABC e , no final, tomamos um sufoco e cedemos o empate. Contra o Paysandu não corremos nada e perdemos. Abrimos o placar contra o Palmeiras e, no final, tomamos um sufoco e cedemos o gol que nos desclassificou. E, contigo, abrimos o placar contra o Juventude e, no final, tomamos um sufoco e cedemos o empate. Ou seja, com Zago, repetimos a tragédia que já tinha ocorrido na época de Aguirre: estamos muito atrás dos outros times em termos físicos. E todos os adversários sabem disso.

Mas este é apenas o primeiro problema, talvez o principal, mas… Tu viste que, quando estamos bem fisicamente, no primeiro tempo, também não jogamos quase nada. Não temos dinâmica de jogo, aproximação, nossos cruzamentos são inúteis, todos para o goleiro adversário se consagrar, e isto até é compreensível tendo em vista os recentes fracassos de nossos treinadores, mas nada explica a insistência com Léo Ortiz. Trata-se de um bom rapaz colorado, mas isso eu também sou e quero ser escalado como zagueiro. Aliás, esse moço me parece mais dotado para ser volante. A direção não contratou o experiente Danilo Silva? Não seria a hora de ele entrar para formar a zaga ao lado de Victor Cuesta? Será que Danilo sabe que, nos cruzamentos, marca-se o jogador e só depois a bola?

Te desejo boa sorte, Guto. Espero que tu voltes a olhar para a base. O Inter B fez 15 jogos esse ano. Ganhou 13 e empatou 2. Deve ter uns dois ou três jogadores aproveitáveis lá. A direção gosta de gastar dinheiro, mas eu olharia para as divisões inferiores. É claro que agora seria sacanagem trazer gente de lá. Seria como tirar os guris de uma sala confortável para colocá-los em uma casa incendiando. Só o Winck poderia vir agora. Aliás, ele tem jogado como meia e tu sabes que só temos Dale e o improvisado Uendel para jogar ali, né?

E a Série B é uma barbada. É só jogar um pouquinho, só que sem jogar não vai mesmo.

Não sei como tu vais fazer. Não há tempo para treinar e, pelo que noto, nenhum projeto sério a não ser contratar loucamente. Vais precisar de sorte, repito.

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