Em 1900, Thomas Mann enviou pelo correio a única cópia manuscrita de “Os Buddenbrook” — pagando um seguro de mil marcos, valor que fez o funcionário rir. Segundo o ChatGPT, seria algo como 20 mil euros hoje.
O romance, que narra a ascensão e queda de uma dinastia de comerciantes, revela mais do que a decadência de uma família: é um retrato afiado da burguesia alemã, onde laços de sangue e negócios se confundem, e a tradição sucumbe à modernidade.
Mann teceu sua narrativa com documentos reais da própria família, provocando escândalo em Lübeck. Tios e tias reconheceram-se nos personagens, acusando-o de expor seus segredos. O escritor, porém, defendia que a arte não inventa. O autor tinha 25 anos em 1900 e este livro talvez seja o melhor que um autor tenha escrito nesta idade.
Thomas Mann (1875-1955) ergueu-se da condição de péssimo aluno, sem formação profissional, e de herdeiro decadente dos frutos da atividade comercial exercida pelas gerações anteriores de sua família em Lübeck. Os negócios se encerraram porque ele e o irmão mais velho, Heinrich Mann (1871-1951), foram considerados inaptos pelo próprio pai a sucedê-lo. Antes de morrer, o pai, condenado pelo câncer, liquidou a própria empresa e deixou a fortuna sob tutela de um administrador financeiro.
Há os livros do detetive Maigret, mas convenhamos, Simenon ficou célebre sobretudo por seus romances curtos, intensos e econômicos, os chamados romans durs, em que a pesada densidade psicológica não depende da extensão. Por isso, quando ele escreve um romance mais longo — como O Testamento Maldito (ou a tradução literal, O Testamento Donadieu) — isso não é um acidente de percurso, mas uma escolha. Este livro tem 392 páginas, muitos personagens e traz estruturas mais amplas do que as dos dramas individuais. Aqui nós temos um painel de uma família decadente da pequena cidade portuária de La Rochelle, no oeste da França, de frente para o Atlântico Norte. Logo no primeiro capítulo, morre o patriarca dos Donadieu, que viviam — mulher, quatro filhos casados, netos e empregados — numa respeitável mansão na mui digna Rue Réaumur.
Depois de conhecido mundialmente, Simenon sempre foi cobrado para escrever uma grande romance… Como se já não os tivesse. Sua resposta era inteligente: “Meu grande romance é o mosaico formado por meus pequenos livros”. Porém, O Testamento Maldito parece mirar um patamar que raramente aparece em sua obra. Ele não chega a buscar o épico, mas cria um painel e assume uma ambição muito comum na literatura dos séculos XIX e XX: a exploração do peso da herança, da ordem familiar como destino, dos mecanismos silenciosos do poder burguês. Nesse sentido, dialoga com tradições comuns, mas filtradas por sua típica dureza e secura. É a história de uma decadência mais moral do que financeira.
Ele não acompanha apenas uma crise íntima, mas várias — descreve um organismo social inteiro que está em crise: a família, a empresa, o nome Donadieu como instituição. Ele são armadores, isto é, donos de embarcações mercantis que realizam transporte de cargas, dessas que Trump gosta de roubar. Ou seja, equipam, mantêm e exploram comercialmente navios, visando lucro. O romance narra o modo lento e natural com que a família produz o próprio sufocamento. O testamento que desencadeia o enredo não cria o conflito — ele apenas expõe o que já existia: ressentimentos e pactos que se sustentam pela conveniência.
Com sua prosa limpa, Simenon constrói um drama psicológico em que o peso da tradição vale mais do que os sentimentos individuais. Quase todos os personagens parecem condenados ao papel que herdaram: obedecer, proteger a reputação, preservar o patrimônio — ainda que isso custe a autonomia ou o afeto. E há os que desejam entrar para o clã.
O grande personagem do romance é Philippe, que chega para chacoalhar a família estabelecida, demonstrando que os filhos do patriarca eram, na verdade, uns inúteis. O modo como ele conquista Martine e passa mandar em todos é muito surpreendente. Outra grande criação é Michel, o filho conquistador de mulheres pobres. A ruptura dele com Eva é um grande momento do livro.
O romance avança em diálogos reservados e ambientes carregados, revelando aos poucos a lógica interna deste clã que transforma lealdade em prisão. Não há julgamentos: Simenon observa, com frieza, como o dinheiro, o nome e a continuidade familiar se sobrepõem à vida concreta das pessoas. O “maldito” do título brasileiro não se justifica. Não é o documento — é o destino compartilhado que ninguém consegue romper.
O Testamento Maldito se impõe como um dos grandes “romances duros” de Simenon: não é um policial, mais uma radiografia de uma família em que o que realmente assusta não é o crime, mas a normalidade que o ampara.
Um grupo de baianos de Salvador acaba de entrar na Livraria Bamboletras. Todos pegaram livros e pediram desconto na hora de pagar. Eu perguntava pra cada um deles:
— Você conhece o Embaixador da Bahia no RS, Sr. Franciel Cruz, o Butragueño de Amaralina, amigo de Wagner Moura?
Se o indigitado respondesse que não, perdia na hora o desconto que eu não ia dar. Até que apareceu um esperto que disse que conhecia. Eu olhei bem sério pra ele. O desinfeliz sustentou o olhar. Então eu perguntei se ele conhecia a Embaixatriz da Bahia em SP.
— Diga o nome dela para que eu possa confirmar.
— Não, diga você! Ela se apresenta como “XXXX em São Paulo”, só para demonstrar desconformidade com a situação. Mora em São Paulo, imagine.
— Trocar Salvador por aquela bosta? Não é baiana! Podemos desconsiderá-la.
Ninguém ganhou desconto, mas todos pediram parcelamento, ô Grória!
Engraçado, na livraria eles pedem desconto, no caixa do supermercado, não. Manda gente melhor pra cá, Franciel.
P.S. : Eles ficarão aqui em Porto Alegre até o dia 5 e fizeram uma baita encomenda de livros bons. Acho que a obra inteira de Lima Barreto está na lista. O único problema é que pedem desconto, Franciel, isso tem que acabar.
O filme ‘Trens Estreitamente Vigiados’ (1966) ficou célebre. Ele é a lendária adaptação de uma moderna, linda e delicada e novela de 1965 de Bohumil Hrabal. Ela conta a história de amadurecimento do jovem e inexperiente Miloš Hrma, que está servindo como guarda de estação no centro da Tchecoslováquia no final da Segunda Guerra Mundial. O foco é o amadurecimento sexual do rapaz, que sofre de ‘ejaculatio praecox’. Apesar do final um tanto trágico, é um dos filmes mais queridos da década de 60, ganhador do Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira em 1968. Um marco do cinema e um dos principais filmes da chamada Nouvelle Vague tcheca.
Ontem o revi, após finalizar a leitura do livro de Hrabal, lançado no Brasil pela 34 e chamado de ‘Trens Rigorosamente Vigiados’. Tinha quase esquecido do filme. É chocante a diferença. Foi um sofrimento assistir até o final a imensa simplificação que o diretor Menzel e o próprio Hrabal fizeram no roteiro. Eu realmente pensava que o filme não seria massacrado pelo livro, mas foi.
É curioso pensar nas manias que nós, leitores, desenvolvemos — esses pequenos rituais e peculiaridades que se tornam parte da identidade de quem lê. Por exemplo, uma das minhas manias é a de carregar livros mesmo sem a certeza de ler, às vezes com a certeza de que não vou ler, podendo levar livros até em aniversários… Mas há muitas outras. O DataBamboletras fez uma pesquisa entre seus clientes e detectou grande variedade de hábitos peculiares. Aqui estão alguns bem comuns, divididos por categorias:
1. Relacionados ao objeto livro
· Cheirar livros. (Essa eu não tenho).
· Aversão a dobrar o canto das páginas em vez de usar marcadores de páginas, bilhetes, recibos, notas fiscais ou até um lápis. (Essa eu tenho. Coleciono marcadores bonitos).
· Organização obsessiva da biblioteca pessoal. (Essa eu já tive).
· Sublinhar com lápis, marcador ou caneta. Alguns fazem anotações nas margens. Já outros têm pavor de marcar qualquer coisa no livro. (Eu sublinho com caneta e anoto coisas nas margens, para horror de alguns).
· Cuidado com a lombada. Evitar abrir demais para não estragar, ou o oposto, “quebrá-la” de propósito para deixar o livro mais confortável. (Eu quebro quando o livro é maior do que 200 páginas, aproximadamente).
2. Hábitos de leitura
· Ler várias livros ao mesmo tempo. (Raramente faço isso).
· Leitura conforme a situação. Ter um livro específico para cada momento — um na bolsa, um na mesa de cabeceira, um para viagens. (Jamais).
· Terminar um livro, mesmo que não esteja gostando, Aquela coisa de chegar até o fim por compromisso. (Já fiz muito, hoje largo com nojo).
· Reler passagens favoritas antes de dormir ou em momentos de nostalgia. (Sim, para isto sublinho os meus).
· Contar páginas ou calcular a porcentagem de progresso. (Faço. Louco total. Faço a regra de três mentalmente).
[ Persona (Ingmar Bergman) ] 1966
3. Comportamentos sociais/emocionais
· Esconder a capa do livro em público para não revelar o que está lendo. (Jamais fiz).
· Ficar ansioso perto do fim de um livro bom — alegria pela conclusão, mas tristeza pelo fim. (Sempre).
· Travar em livrarias ou sebos por horas, mesmo sem intenção de comprar. (Sempre).
· Sentir atração física por livros bonitos, mesmo que o conteúdo não interesse tanto. (Não).
· Emprestar livros com regras rígidas (“devolva como pegou”) ou, ao contrário, recusar-se a emprestar por apego. (Regras rígidas, com ameaças).
4. Manias práticas
· Sempre ter um livro à mão em filas, salas de espera ou no transporte — a ideia de tempo “perdido” sem ler é angustiante. (Sim, óbvio).
· Ler a biografia do autor antes ou depois do livro, para contextualizar. (Depois).
· Evitar ver o filme/série antes de ler o livro. Ou o contrário: ler o livro depois. (Sou indiferente).
· Colecionar edições específicas de um autor, mesmo em idiomas que não domina. (Sim, de Virginia Woolf…).
5. Superstições e pequenos rituais
· Escolher o próximo livro por “intuição” ou pelo clima do momento. (Não, sei os que vou ler semanas antes).
· Ter um livro de cabeceira fixo para ler aleatoriamente. (Nunca).
· Pular o prefácio / introdução (Depende do autor e do tamanho da introdução).
· Ler notas de rodapé apenas em ensaios, nunca em ficção. (Eu).
· Associar livros a momentos da vida (Sim, claro).
6. O Kama Sutra da leitura
Eu leio deitado, em várias posições, ou sentado numa cadeira, com o livro na mesa. Ou em filas, no banheiro, na sala de espera, no ônibus, etc.
No fundo, essas manias revelam algo bonito — a relação íntima física que se cria com a leitura. O livro deixa de ser só um objeto e vira amuleto, objeto de amor e refúgio. Cada leitor desenvolve sua própria maneira de conviver com ele.
E tu aí que tá lendo? Tem alguma mania particular que não listei?
Em 2025, tivemos “Ainda estou aqui” e Fernanda Torres sendo reconhecidos (e não validados) internacionalmente.
Este ano iniciou com “O Agente Secreto” e Wagner Moura fazendo o mesmo.
Ambos são combatidos pela direita. Mas “O Agente Secreto” ainda é pior — traz consigo um monte de nordestinos financiados pelo Bolsa Família, sendo que um dos principais reside na América Comunista, ou seja, na Califórnia, recebendo polpuda mesada de empresários comunistas que desviam seus impostos de renda para financiar a revolução através da Rouanet.
Esperamos que, ano que vem ou ainda em 2026, “Dark Horse” tome de assalto os cinemas do mundo a fim de restaurar a verdade. Passemos uma borracha no passado. Queremos Anistia e “Dark Horse”.
Mas, falando sério, que orgulho que dá ver filmes tão bons feitos em nosso país por gente parecidinha com a gente. E como é cinematograficamente culto o Kleber, né? Mas este já é outro assunto.
Alejandro Fabbri, jornalista e historiador do futebol argentino, constrói em Historias Negras del Fútbol Argentino um livro que foge deliberadamente da narrativa heroica e romântica do esporte. Em vez de gols decisivos, ídolos e conquistas, ele reúne episódios sombrios, desconfortáveis e, muitas vezes, esquecidos — desde arbitragens viciadas e jogos suspeitos até pressões políticas, violências de arquibancada e decisões de bastidores que alteraram destinos de clubes e jogadores.
O mérito do livro está menos no impacto das revelações isoladas e mais no modo como Fabbri organiza a memória do futebol como território de poder, onde interesses econômicos, pressões políticas, rivalidades regionais e vaidades institucionais se entrelaçam. Sua escrita é clara, direta e jornalística, mas nunca fria: há indignação, ironia e, sobretudo, a convicção de que contar essas histórias é uma forma de restaurar a complexidade do jogo.
Fabbri evita o sensacionalismo. Ele vai aos arquivos, cita jornais, testemunhos e documentos, e mostra que o futebol argentino não foi apenas palco de glória coletiva — foi também cenário de injustiças, manipulações e tragédias silenciosas. Ao detalhar partidas anuladas ou manipuladas, campeonatos distorcidos e carreiras destruídas, o autor revela como a mística esportiva convive, desde sempre, com a sombra do amadorismo institucional e da corrupção.
O resultado é um livro que desromantiza o passado sem destruir o amor pelo jogo. Lê-lo é perceber que a história do futebol é mais rica e humana quando inclui seus fracassos, suas zonas cinzentas e seus bastidores incômodos. Para quem gosta de futebol como fenômeno cultural, e não apenas como espetáculo, este primeiro volume é instigante e… atual.
Um livro simples e direto, de alguém que vive a corrida. Alguns de vocês sabem que eu, aos 68 anos, ainda corro. Nestes dias de canícula extrema, tenho sofrido um pouco, apesar de que minha ideologia de corredor é totalmente diferente da de Murakami. Eu corro sempre confortavelmente, naquilo que chamo de “velocidade de cruzeiro”, isto é, velocidade constante e sem dor. Com o calor deste dezembro-janeiro, paro nos 4 Km, pois tudo começa a ficar complicado. Não sinto dor, não tenho dificuldades para respirar, só sinto muito calor; na verdade, parece que alguém me desliga remotamente. Segundos antes de parar, não pretendia fazê-lo e fico surpreso quando paro. Sim, estou tomando todos os remédios que me prescreveram.
Neste livro fora da curva, Haruki Murakami transforma a corrida em metáfora de escrita e disciplina. Longe de ser apenas um diário de treinamento, Do que eu falo quando falo de corrida é um ensaio autobiográfico em que o autor examina o corpo, o passar do tempo e o silêncio — aquilo que sustenta sua literatura quando ninguém está olhando. Eu escrevi silêncio? Bem, quando ele corre, costuma ouvir rock, jazz ou eruditos. Voltemos: ao narrar maratonas e dores musculares, Murakami fala, na verdade, sobre persistência, escolhas e a estranha solidão de quem decide enfrentar a si mesmo todos os dias. Escrever seria como correr.
A prosa é calma e transparente, como quem pensa enquanto caminha. Não há heroísmo; há cansaço, limites, fracassos e uma ética quase artesanal: correr e escrever exigem rotina, humildade e paciência. O autor reflete sobre a passagem dos anos, sobre a relação entre arte e resistência física. É um livro de introspecção discreta, sem alarde.
Ou seja, o ponto central do livro não é a corrida em si, mas o modo como Murakami articula disciplina, e rotina com o processo de escrita. Ele descreve o momento em que decide abandonar o bar que administrava para viver exclusivamente de literatura — e como a corrida surge em sua vida como uma prática que lhe dá método, fôlego e constância. O interesse do livro está na relação entre esses dois gestos paralelos: escrever todos os dias, correr todos os dias — ambos como tarefas pacientes e acumulativas.
Murakami evita grandes conclusões e nunca dramatiza suas experiências. Em vez disso, constrói um mosaico de pequenas cenas: treinos, viagens, competições, cansaços, fracassos discretos, satisfações modestas. A força do livro nasce justamente dessa contenção. Ele observa a si mesmo com distância, às vezes com humor, outras com leve melancolia. O resultado é um livro sobre tempo e trabalho — sobre aquilo que só se constrói lentamente, passo a passo, página a página. Murakami mostra que a escrita, como a corrida, não é feita de momentos épicos, mas de repetição, atenção e uma obstinada fidelidade ao ato de continuar.
Do que eu falo quando falo de corrida é, assim, um livro de memórias enxuto e elegante, que ilumina o cotidiano do escritor por dentro — e revela, sem didatismo, como a literatura também se articula com hábitos, insistência e, tá bem!, silêncio.
P.S. — Sim, sim, meus amigos, para dar este título a seu livro, Murakami pediu permissão para a viúva de Raymond Carver, autor de “De que falamos quando falamos de amor” (What We Talk About When We Talk About Love).
Publicado em 1965, Trens Rigorosamente Vigiados é um clássico. É um daqueles romances curtos que parecem conter um mundo inteiro. Cravado na ex-Tchecoslováquia ocupada pelos nazistas, o livro acompanha o menino / jovem Miloš Hrma, aprendiz de ferroviário, que vive à margem do conflito bélico, mas no centro de outro tipo de guerra: a do amadurecimento, do desejo, da vergonha e da fragilidade.
A narrativa de Hrabal tem um tom irresistível, ao mesmo tempo irônico e melancólico, combinando piadas — algumas delas muito inesperadas — com momentos abruptos de dor. O cotidiano da pequena estação ferroviária — seus funcionários, pequenas tragédias pessoais, manias e gestos ridículos — ganha relevo contra o pano de fundo da guerra, que nunca é o foco direto, mas que exerce uma pressão constante e silenciosa.
Como disse, este romance abarca o mundo, sendo, sobretudo, um estudo da condição humana em situações-limite, mas sem recorrer ao heroísmo convencional. Miloš não é um herói de guerra — é um jovem inseguro, dividido entre o despertar sexual e um profundo sentimento de inadequação. É justamente dessa humanidade desajeitada que nasce a força do livro. Hrabal mostra como as grandes catástrofes históricas atravessam vidas pequenas, frágeis, “insignificantes” — e como essas vidas carregam beleza.
A prosa de Hrabal é enxuta, mas cheia de subtexto e poesia. Há passagens que oscilam entre o absurdo e o lirismo. No desfecho, o gesto de Miloš atinge toda a narrativa (e principalmente o leitor): é ao mesmo tempo ato de coragem, reparação íntima e tragédia incontornável. Hrabal sugere que, em meio ao caos histórico, os indivíduos continuam a buscar sentido — ainda que esse sentido possa custar caro demais.
Trens Rigorosamente Vigiados é uma pequena obra-prima inesquecível: um romance sobre a passagem à idade adulta, sobre a guerra e a delicada brutalidade de existir.
Minha cultura sobre livros policiais é mínima. Gosto muito de Simenon, um pouco de Rex Stout e li aquela maravilha chamada Edições Perigosas, de John Dunning. Nunca fui adiante. Soube pelo próprio Biajoni que o termo “giallo” (“amarelo” em italiano) refere-se a um tipo de romance policial publicado na Itália. O nome surgiu a partir de 1929, em razão das capas amarelas distintivas de uma popular série de livros de crime e mistério. Ficou bacana no nome do livro, né?
Bem, o título não engana e é claro que acontece um crime no tal edifício. Antes do crime, Biajoni constrói de forma muito bem feita o contexto da comunidade de moradores. Creio que ele se divertiu muito criando aquele microcosmo onde acontecerá um assassinato. Para mim, é o melhor do livro. Tava nem aí para quem seria o assassino, pois adorei o grupo de personagens… Tem a família que construiu o prédio e que ocupa dois apartamentos — um para o pai construtor, outro para família da filha, formada por esta, marido e filha –, o vizinho que namora uma policial fortona e o simpático vizinho recém chegado, que logo se revela um festeiro barulhento. A neta do construtor trata de conhecer as tais festas, enquanto o restante do prédio quer ver o vizinho, ainda por cima preto e gay, fora dali.
E o crime acontece. E aqui nesta resenha você não saberá quem mata e quem morre, claro. Mas saberá que O Crime no Edifício Giallo é delicioso. Luiz Biajoni, com sua prosa coloquial e debochada, cria um livro que é tão suspense quanto sátira da sociedade maluca que mora num edifício de alta classe em São Paulo. Como disse, em momento nenhum me preocupei sobre quem seria o assassino — esta é uma falha de caráter minha ao abordar livros e filmes policiais –, estava era me deliciando com as sutis críticas àquele grupo de pessoas privilegiadas e problemáticas.
O ritmo do livro é avassalador em suas acelerações e puxadas de freio. A gente acaba com a impressão que está no Giallo subindo e descendo nos dois elevadores.
Diferentemente de suas novelas iniciais, as ótimas e sacanas Sexo anal: uma novela marrom, Bucet@: uma novela cor-de-rosa e Boquete: uma novela vermelha, A Viagem de James Amaro é muito mais sombria e introspectiva. E interessante. Também há sexo nela, mas o cerne está na amizade entre dois personagens que, bem… não transam: James e Alex.
Tudo começa com um rompimento do mulherengo James Amaro, que decide sumir por uns tempos. Quando James prepara sua viagem comprando coisas num supermercado, dá de cara com um amigo de escola. Descobre que o amigo está em sérias dificuldades financeiras. Propõe-lhe resolver temporariamente a questão e o convida para viajarem juntos. Seria uma oportunidade de botarem o papo em dia… E Alex Viana acaba aceitando a proposta. O que parecia um projeto nostálgico e despretensioso logo se revela um percurso onde aparecerão identidades, culpas, amores e até um crime piedoso.
O texto é cru e realista, talvez mais provocativo do que o dos livros citados acima. Há uma cena — que não cabe contar em resenha — que abre um abismo entre os viajantes. É um momento surpreendente, no qual Biajoni lança uma ponte de cordas sobre o abismo. É algo que balança e dá medo, mas parece segura o suficiente.
Há muito jazz sofisticado no livro, mas que não consegue iluminar os personagens. Apesar de curto, o livro dá a Biajoni espaço suficiente para expor lentamente os dramas de cada um. Não sei se podemos chamar A Viagem de James Amaro de um romance de estrada. Afinal, a viagem de James acaba sendo uma descida e volta do inferno — ou àquilo que ele considerava ser o inferno.
Herbert Blomstedt retornará em março à Orquestra Sinfônica de Norrköping (Suécia), onde foi maestro principal de 1954 a 1962.
A orquestra publicou esta nota:
É com imensa satisfação que anunciamos o retorno do lendário maestro Herbert Blomstedt à Orquestra Sinfônica de Norrköping em março de 2026, mais de 70 anos após sua estreia como maestro titular. Em dois concertos, nos dias 25 e 26 de março de 2026, ele regerá a orquestra nas Sinfonias nº 3 e nº 4 de Brahms. Blomstedt, agora com 98 anos e um dos maestros mais importantes do mundo, possui uma relação única e duradoura com a orquestra onde sua carreira internacional teve início.
Quando iniciou sua carreira como maestro principal da Orquestra Sinfônica de Norrköping em 1954, aos 27 anos, ele lançou as bases para uma reputação internacional que mais tarde o levou a orquestras de destaque em Dresden, Leipzig, Nova York e muitas outras.
“Estamos muito felizes em receber de volta o maestro Blomstedt em Norrköping, onde tudo começou”, diz Sofia Winiarski, diretora artística.
Tem um amigo meu, artista plástico, gay — e, sei lá por que, mas quando o gay nasce engraçado é sempre MUITO ENGRAÇADO –, que gosta de fazer a crítica das postagens (fotos) dos escritores e concertistas gaúchos. E dos seus colegas artistas, claro. Basta que a pessoa publique nas redes e lá vem ele. Nelas, ele usa um nome aleatório do tipo João Silva, pois diz que “essa gente é muito rancorosa”. Mas não sei quem poderia exercer um profundo e minucioso rancor se ele jamais comenta e ainda usa nome falso.
O fato é que ele me liga quase todos os dias para fazer novos comentários, os quais chegam a um nível de detalhamento que eu jamais alcançaria. Ultimamente, ele manda os links para as imagens antes de ligar. Meu telefone apita várias vezes e depois ele liga, perguntando se eu já cliquei. Nunca dá tempo. Já lhe disse que seria melhor ele fazer um concurso para a PF, pois também faz delações.
Por exemplo, dia desses, entregou um escritor que fez uma referência — não nominal — a mim em uma crônica de um site obscuro. E uma referência totalmente equivocada, segundo ele, que também tinha lido o livro em questão. Mas o principal é a critica que ele faz às “indumentárias” (termo dele) e à decoração das “moradias dos artistas”. Olha essa roupa! Miraste a estampa do tapete que não combina com a parede? Olha o que tem em cima da cama! Atrás do gato! Não, do lado esquerdo!
Eu tenho ataques de riso com meu José Simão particular. Hoje, ele estava especial e falsamente (acho) sagaz, fazendo a análise psíquica das cores de algumas roupas. E tudo isso para um daltônico como eu! E não pensem que os homens estão livres, pelo contrário! Sou um privilegiado por receber estas análises que mereceriam divulgação, não fosse “o fraco que alguns têm por processos”.
Ele me mandou esta foto. Disse que era “fidedigna”.
Hoje é o dia dos 120 anos de Erico Verissimo. Ele foi o escritor me convenceu que este negócio de literatura era mesmo interessante. “O Continente”, primeiro volume de “O Tempo e o Vento”, me pegou de jeito. Tinha 15 anos e não era muito de ler, era só de jogar futebol da manhã à noite, para desespero de minha mãe e de minhas roupas.
Ele também demonstrou que a música era algo que ocuparia um grande espaço em minha vida. O tal “Solo de Clarineta” era o solo do Quinteto de Brahms para Clarinete e Cordas. Alguém em “O Senhor Embaixador” dizia que não conseguia mais ouvir Bartók, pois a primeira metade do século XX europeu estava ali. E está mesmo. Se lembro bem, o Eugênio de “Olhai os Lírios do Campo” toca Chopin ao piano, e peças de compositores como Beethoven e Schubert são citadas. Não lembro de nada do romence “Música ao Longe”, mas o título denuncia. A gênese de “O Tempo e o Vento” foi um tio de Erico sentando sobre (e quebrando) alguns de seus discos e simplesmente pedindo desculpas. Ops.
Em romances como “Clarissa” e “Caminhos Cruzados”, a música surge como sinal de sensibilidade e refúgio íntimo. Personagens escutam rádio, tocam piano, comentam concertos ou canções populares. A música é desejo de transcendência e sinal de classe social.
Já em “Incidente em Antares”, a música ganha tons irônicos e críticos: bandas, hinos, músicas oficiais e populares contrastam com o absurdo da situação, reforçando a sátira. O som do poder entra em choque com o caos moral da cidade.
Erico escreve com o ouvido. Sua prosa tem ritmo, alternância de andamentos, pausas, crescendos. Ele alterna vozes, repete motivos, cria variações. Nesse sentido, sua literatura é musical não só no conteúdo, mas na forma.
Há dois livros de títulos um tanto incorretos (capas abaixo) e que são incríveis.
Neles, Alejandro Fabbri documenta uma outra face do glorioso futebol argentino, revelando subornos e manipulações — dirigentes e árbitros envolvidos em propinas e arranjos de resultados, especialmente para evitar rebaixamentos –, violência — revoltas de hinchas agressivos, tentativas de linchamento de árbitros e a pauleira generalizada nas arquibancadas e campos — e a cumplicidade política — as negociatas com o poder e o silêncio que manteve as irregularidades escondidas por décadas, demonstrando que esses problemas têm bem raízes profundas.
Olha, são livros deliciosos e inacreditáveis. Árbitros voltando para o estádio montados a cavalo nos anos 20 a fim de fazer a torcida voltar para a arquibancada, torcedores preparando uma forca para um juiz (que foi salvo no último momento sendo levado para o hospital com graves ferimentos e comoção cerebral), corrupção generalizada, uma beleza. Tchê, são histórias inauditas e que dão o que pensar sobre a importância do futebol para nossos vizinhos. Brasil, o país do futebol? Só na linda música do meu xará Nascimento.
(Se alguém quiser os livros, melhor ir à Argentina. Mesmo lá, custam uma fortuna. Aqui nem se fala. Tive a sorte de comprá-los quando não eram raros).
Penso que o título deste livro de Franciel Cruz não seja irônico ou casual. Claro, são crônicas sobre futebol, mas também sobre aquilo que gira em torno dele: a infância, o humor, a pobreza, a sociedade maluca de nosso país. Tá pensando que tudo é futebol? fala do futebol como raiz de identidade e contradição. A pergunta provocativa do título — que parece vinda de alguém que detesta o ludopédio — pode ser alterada para o futebol está em tudo ou tudo pode ser futebol. Mais do que um livro de curiosas crônicas sobre o esporte ganha densidade ao se tornar um mapa de esperanças, ilusões e decepções — como aqueles que existem fora das quatro linhas.
Escrevi acima “curiosas crônicas”, pois boa parte do interesse do livro repousa sobre sua forma. A linguagem barroca + coloquial + erudita de Franciel acaba quase sempre criando expressões inusitadas, que apontam tanto para a glória de alguns acontecimentos como para a mais áspera das autodepreciações. É sua voz. A leitura provoca muitas risadas, algumas tristes. Como na música de Gil, Franciel está sempre rindo e sempre cantando, com humor e ironias refinadas.
Tá pensando que tudo é futebol? é um livro que pega o futebol e o transforma em literatura de carne e osso. Tem humor, alguma raiva, ternura e poesia, mostrando que cada crônica é sobre o Brasil — com suas manias, suas feridas, suas esperanças improváveis. O futebol vira espelho da política, da amizade e da desilusão. Vira vida, enfim.
Relendo uma longa entrevista de László Krasznahorkai que até traduzi com a ajuda do Google (não sou tradutor, nem venham), notei não apenas a forte presença da música em sua vida — foi pianista de jazz, cantor de rock e é hoje um devoto do barroco, além de inimigo do romantismo –, como a influência da mesma em sua escrita.
Ele diz que escreve mentalmente muitas páginas até passá-las para o computador. Mas são muitas páginas mesmo, umas 30. Quando elas formam uma espécie de música, ele resolve se valem a pena. OK, é o jeito dele. A estrutura de Sátántangó é semelhante à do Cânon Caranguejo utilizado por Bach na Oferenda Musical. Isso sou eu quem está dizendo, não Lázsló.
Thomas Mann era um sujeito que poderia ter sido músico. Conhecia teoria musical como poucos e seus livros são como obras de Brahms ou Franck. Me parabenizei quando soube da admiração de Mann por ambos. Quem leu A Montanha Mágica deve lembrar de que alguém no sanatório chama a música de “politicamente suspeita”. Deve ter sido Settembrini, claro. O método de escrita de Mann era o de uma ou duas páginas por dia que eram relidas no dia seguinte antes de chegarem as uma ou duas do novo dia, jamais três.
Escrevo isso para expor minha total admiração pelos escritores-músicos. Dificilmente deixo de gostar de alguém que ama a música. Ian McEwan é membro importante deste time. Ele sempre fala naquele que considero o melhor lugar do mundo, o Wigmore Hall. No site do Wigmore há um poema de McEwan falando da sala.
(Certa vez, eu estava na fila de entrada do Wigmore, quando as pessoas começaram a olhar discretamente para mim. Depois de passar a mão no rosto, tratei de revisar minha roupa para ver se não havia algo de muito errado nela. Durante a revisão, me virei pra trás e vi que McEwan estava bem atrás de mim. Eu disse apenas “Sorry”, a palavra que os ingleses mais falam).
Não esqueçam que Mário de Andrade era musicólogo, que Machado sempre falava em música e a família Verissimo pai, filho e neto eram/são tarados por música. Enfim, são muitos os exemplos que me ocorrem. Por que larguei de ler Boris Vian?
Claro que na minha posição de livreiro só falo mal de escritores bem mortos, dos vivos só falo bem ou me calo. A suscetibilidade da raça é algo tão veemente que me dá medo. Mas sabem, em quase todo escritor que gosto acabo descobrindo música. Isso se dá quando Gustavo Melo Czekster escreve um romance sobre a du Pré, quando vejo o José Falero com um cavaquinho, quando descubro que Thomas Bernhard poderia ter sido um grande cantor lírico mas que uma doença o impediu, etc.
Sabem o que me fez pensar em todas essas coisas acima, antes mesmo de revisar a entrevista do László? O livro “A música na obra de Erico Verissimo — polifonia, crítica social e humanismo”, de Gérson Werlang, que, dizem, receberá uma espécie de relançamento aqui na Livraria Bamboletras, no dia 17 de dezembro, dia dos 120 anos de nascimento do Erico.
Antes de abrir a livraria, respondendo a alguns contatos:
— Olá! Bom dia, tudo bem? 😊 Eu me chamo X., sou escritora/jornalista e estou à frente do projeto Mapa das Livrarias de Rua de Porto Alegre, junto com minha amiga, a artista visual X. Vocês aceitam responder a 2 perguntas para que eu possa incluir no Mapa? Obrigada!
— Boa tarde! Sim, claro!
— Obrigada por toparem:
Perguntas:
1 – Qual o tempo de existência da livraria?
2 – Se a Bambo fosse indicar um livro ao seus leitores, aquele que melhor lhe representa, qual seria?
— Respostas:
1. A livraria tem 30 anos.
2. Bem, os livros que nós mais vendemos nos últimos quatro anos foram “Os Supridores”, “O Infinito em um Junco”, “Manual da Faxineira”, “O Avesso da Pele”, “Pessoas Decentes”, “Mas em que mundo tu vive”, “O Mestre e Margarida” e “A Contagem dos Sonhos”. Talvez o somatório destes livros seja como os leitores nos veem. E somos orgulhosos desta lista.
Alguns de vocês sabem que leio livros em voz alta para a Elena Romanov. Faço-o sempre à noite, desde que não esteja alcoolizado — coisa raríssima atualmente — ou que o Inter não tenha perdido — fato cada vez mais rotineiro.
Mas o que interessa é que ontem terminei de ler o primeiro Machado de Assis da moça. Não li Helena, claro, fui direto a Dom Casmurro. De maneira geral, ela gostou dos capítulos curtos, reclamava quando eu decidia parar e hoje de manhã disse que era tudo muito triste. É mesmo. Pessoalmente, li o livro pela terceira vez e, também pela terceira vez, me surpreendi que uma coisa levada naquele tom de conversa possa esconder tamanha tristeza.
Mas acho que ela não se importou com isso. Afinal, os russos são os mestres da desgraça. Lembro que uma vez ela me mostrou uma camiseta russa onde havia um Dostoiévski ornamentado por uma frese mais ou menos assim: “Se a sua vida está uma m., se você não vê perspectivas, se não há um meio de sair do buraco, abra um romance russo: lá, tudo estará pior.”
Eu estava apenas ouvindo um vídeo no YouTube sobre literatura clássica. O tema era Dom Quixote. Foi quando olhei para a tela e vi que as legendas automáticas estavam não somente ligadas, mas escrevendo que o escudeiro chamava-se San Chupança.