Brahms: Concerto Duplo para Violino e Violoncelo / Prokofiev: Sinfonia Nº 5

No próximo dia 25, às 16h, estarei apresentando o Notas de Concerto da Ospa. O Concerto será às 17h. Abaixo, algumas anotações sobre as obras do programa. 

Concerto Duplo para Violino e Violoncelo em lá menor, Op. 102, de Johannes Brahms (1887)

Johannes Brahms (1833-1897)

O belíssimo Concerto Duplo para Violino e Violoncelo de Brahms tem origem curiosa. Será verdade que “em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher”? Pois este polêmico ditado não foi seguido por Brahms. Em 1884, o célebre violinista Joseph Joachim e sua mulher se separaram depois que ele se convenceu de que ela mantinha uma relação com o editor de Brahms, Fritz Simrock. Brahms, certo de que as suposições do violinista eram infundadas, escreveu uma carta de apoio à Amalie, a esposa, que mais adiante seria utilizada como prova no processo de divórcio que Joseph moveu contra ela. Este fato motivou um resfriamento das relações de amizade entre Joachim e Brahms, que depois foram restabelecidas quando Brahms escreveu o Concerto para Violino e Violoncelo e o enviou a Joachim para fazer as pazes. Acontece. Mas por que o violoncelo? Ora, a combinação inusitada — este é o primeiro concerto escrito para esta dupla de instrumentos — surgiu porque o violoncelista Robert Hausmann, amigo comum de Brahms e Joachim, pedira um concerto ao compositor. Então, o compositor encontrou uma forma de satisfazer ao violoncelista , ao mesmo tempo que reconquistava a amizade do violinista. Clara Schumann escreveu em seu diário: “O Concerto é uma obra de reconciliação. Joachim e Brahms falaram um com o outro novamente.”

Joseph Joachim (1831-1907) e Amalie Weiss (1839-1899)
Fritz Simrock (1837-1901)

Após completar sua Sinfonia Nº 4 em 1885 e embora tenha vivido mais doze anos depois de completá-la, Brahms produziu apenas mais uma obra orquestral, e esta não foi uma sinfonia, mas este concerto. E não era um concerto solo comum, mas sim uma composição que uniu pela primeira vez a forma de violino e violoncelo. Mozart fez os não tão díspares solistas de violino e viola quase se enfrentarem em sua Sinfonia Concertante. Beethoven fez o mesmo em seu Concerto Triplo Concerto, juntando piano, violino e violoncelo. Mas aqui nós temos realmente um casamento. O violoncelo introduz a maioria dos temas, mas há muitos trechos onde um acompanha o outro. Há menos exploração de contrastes  violino-violoncelo de Brahms, que se baseia menos na exploração das individualidades contrastantes do casal solista, mas em sua capacidade de viverem felizes juntos. O Concerto possui uma enorme riqueza de ideias que são trabalhadas com a extrema habilidade.

Robert Hausmann (1852-1909)

Brahms fez o violoncelo e o violino se fundirem em vez de projetar identidades separadas e talvez conflitantes. Há muitos uníssonos e trechos onde um instrumento acompanha o outro.  Exigências artísticas como essas são feitas ao longo do Concerto Duplo. Durante o período de testes do Concerto, tanto Joachim quanto Hausmann aconselharam o compositor sobre algumas questões técnicas de seus respectivos instrumentos.

Sinfonia Nº 5 em si bemol maior, Op. 100, de Serguei Prokofiev (1944)

Prokofiev tinha 26 anos quando da Revolução de 1917. Na época, estava resolvido a deixar a Rússia temporariamente. A decisão era pré-revolução: sua música era considerada demasiadamente experimental e ele já fora muito hostilizado quando da estreia de seu Concerto Nº 1 para Piano e Orquestra em 1912. Em maio de 1918, o compositor mudou-se para os Estados Unidos, onde teve contato com alguns bolcheviques como Anatoly Lunacharsky. Para não ter problemas no país natal, Anatoly convenceu-o a sempre divulgar que o motivo da emigração era estritamente musical, e não uma oposição ao novo regime instalado. E era verdade, Prokofiev não era um opositor, ao menos naquela época.

Seu retorno à União Soviética foi extremamente curioso e lento. Quando Prokofiev foi morar nos Estados Unidos, fixou primeiramente residência em São Francisco. Depois, foi indo pouco a pouco para o leste, atravessou o oceano, morou em Paris, fez diversas viagens aos EUA, fixou-se nos Alpes e seguiu seu caminho para a URSS onde chegou apenas em 1935. Mas não adiantemos os fatos.

Em 1927, realizou diversas e bem sucedidas turnês pela União Soviética. No início da década de 1930, Prokofiev deu mais um passo na direção da União Soviética. Já permanecia mais em Moscou do que em Paris.

Em Londres, ele também gravou alguns de seus trabalhos para piano solo em fevereiro de 1935.

No mesmo ano, Prokofiev voltou à União Soviética para ficar. Sua família voltou somente no ano seguinte. Só foi bem recebido no aeroporto, pois, na época, a política musical soviética havia mudado; uma agência havia sido criada para vigiar os artistas e suas criações. Ela era chefiada pelo temido Andrei Alexandrovitch Jdanov, parceiro de Stálin. Ele era um ferrenho defensor do Realismo Socialista nas artes e sufocou toda uma brilhante geração de artistas através de parâmetros políticos e estéticos rígidos, principalmente a partir da década de 1940. E por que Prokofiev decidiu ficar? Por saudades.

A URSS ia se fechando. Limitando a influência externa, o país gradualmente isolou seus compositores e escritores do resto do mundo. Tentando se adaptar às novas circunstâncias, Prokofiev escreveu uma série de canções usando letras de poetas aprovados oficialmente pelo governo, além do oratório Zdravitsa (Op. 85). Na mesma época, compôs para crianças. É o período de Pedro e o Lobo, para narrador e orquestra, uma obra pedagógica e bem comportada, feita para agradar Josef Stálin e o regime. É famosíssima e até hoje é montada no mundo inteiro.

Em 1938, Prokofiev colaborou com o cineasta Sergei Eisenstein no épico Alexander Nevsky.

A Quinta de Prokofiev simplesmente não tem momentos fracos. O ritmo de relógio, tão caro ao compositor, recebe seu melhor momento ao final do segundo movimento, quando quase emperra…

A Sinfonia Nº 5 de Prokofiev tornou-se tão popular no mundo inteiro que, poucos meses após sua estreia nos EUA, um retrato do compositor apareceu na capa da revista Time. Era o ano de 1945. A Guerra Fria ainda não se instalara e os EUA e a União Soviética eram aliados contra o fascismo. A Sinfonia foi um sucesso total em todo o mundo, era a celebração musical da conclusão da guerra. Mas foi isso mesmo? Quando pesquisamos sobre esse trabalho, lemos repetidas vezes os mesmos adjetivos – “heroico” ou “alegre”. E sempre no contexto da vitória de uma nação, da vitória de um povo. Prokofiev escreveu que ela era “uma sinfonia da grandeza do espírito humano, uma canção de louvor à humanidade livre e feliz”, mas a vida do compositor não estava fácil sob os ditames do realismo socialista e talvez a obra seja mais a luta do espírito artístico individual para não ser sufocado. Porém, a grandeza desta Sinfonia supera qualquer ambiguidade. Ela pode suportar uma série de interpretações e nenhuma pode confiná-la. Uma obra-prima.

Sabemos que esta Sinfonia em quatro movimentos foi composta no verão de 1944, logo após o desembarque das tropas aliadas nas praias da Normandia e durante as investidas das forças russas em direção a Berlim. Na época de sua estreia em Moscou, em janeiro de 1945, sob a direção do compositor, disparos de artilharia comemorativos distantes fariam Prokofiev parar, braços erguidos, enquanto se preparava para começar a apresentação.

Certamente a Sinfonia abre com um tom inconfundivelmente otimista, e o clímax esmagador no final do movimento é uma crise vencida. O segundo movimento é um scherzo nervoso, um forte contraste com o triste terceiro movimento. Mas a vitória descrita no movimento final é uma conquista pessoal ou pública?

Milton Ribeiro está preso! E não está…

Milton Ribeiro está preso! E não está…

Por Flávia Cunha

Milton Ribeiro, ex-ministro da Educação, está preso desde a manhã desta quarta-feira por suspeita de corrupção. Mas um homônimo da área da Literatura encara com muito bom humor a infeliz coincidência de compartilhar o nome com uma figura tão emblemática dos defeitos do governo Bolsonaro. Nesta quarta-feira, não foi diferente e ele resolveu publicar no Twitter uma “nota oficial” sobre não estar preso.

Iguais apenas no nome

Porém, é bom explicar aos desavisados: o Milton Ribeiro livreiro e escritor em nada se assemelha ao seu xará, envolvido em suspeita de liberação irregular de verbas, em um esquema que envolveria dois pastores e até propina em ouro.

Desde que o Milton pastor assumiu o cargo, em julho de 2020, o Milton dos livros ganhou junto a carga de ser hostilizado nas redes sociais por quem é de esquerda. Uma ironia do destino, já que o homônimo do ministro é contrário a Bolsonaro desde 2018 e não esconde isso nas redes sociais.

Falando com o homônimo que interessa

Em entrevista à coluna Voos Literários, Milton Ribeiro comentou que logo que o ministro assumiu o governo, sua reação foi de incômodo. Mas, com o tempo, foi aprendendo a lidar com a situação.

“Depois que o xará entrou no governo, todos os dias no twitter @miltonribeiro recebia aplausos e críticas. Em um primeiro momento, eu sempre negava ser o ministro. Depois, comecei a me divertir.”

Entre os momentos cômicos, Ribeiro cita que respondia a apoiadores do governo com comentários como “Fora, Bolsonaro”, o que provocava perplexidade. A confusão era tão recorrente que seu perfil no twitter chegou a ser marcado em publicações do Ministério da Educação. Então, o Milton que não é pastor aproveitava para fazer críticas ao governo, o que gerava espanto por parte dos seguidores.

A ressalva aos militantes de esquerda também era continuamente necessária, já que muitos não compreendiam que aquele perfil não era do integrante do primeiro escalão do governo.

“Em determinadas situações, aproveitei a visibilidade para abordar temas que achava importantes, como a descriminalização do aborto. Também aproveitei para fazer publicidade da Bamboletras e dos livros que vendemos lá. No final, consegui enxergar como cômica essa coincidência”, explicou. 

Tempos cinzentos em busca de esperança

E convenhamos que só recorrendo mesmo a um pouco de humor e à Arte para a gente suportar tantas e tantas desgraças nesse Brasil bolsonarista. Um país com uma população cada vez mais sofrida, que precisa lidar com a dor de assassinatos de quem defende causas nobres. Suportar crianças coagidas a manterem a gravidez decorrentes de estupros. Se compadecer com pessoas LGBTs atacadas diariamente por simplesmente existirem, entre outras barbáries.

Por isso, aproveitamos a dica de leitura do Milton Ribeiro que realmente nos interessa, o que ama os livros, e não o que exalta armas e conservadorismo (hipócrita). Sendo assim, também recomendamos Carcereiros, de Drauzio Varela. A obra trata do cotidiano dos agentes penitenciários a partir do olhar sensível de quem também vivenciou o cotidiano do sistema prisional brasileiro.

O livro tem na Bamboletras, claro. Porém, vale a ressalva: aqui na coluna Voos Literários não ganhamos propina para divulgar boas iniciativas literárias, ao contrário de algumas pessoas meio suspeitas por aí. Pois acreditamos em conceitos utópicos como redes colaborativas e amor aos livros para que, um dia, o mundo seja mais agradável para quem defende os direitos humanos e a cultura. Entretanto, estes são tempos difíceis para os sonhadores, como disseram a Amélie Poulain. Porém, seguimos em frente, com esperança de que o futuro seja melhor.

Antiga igreja vai virar livraria no bairro Cidade Baixa em Porto Alegre

Antiga igreja vai virar livraria no bairro Cidade Baixa em Porto Alegre

A Bamboletras, que opera na Nova Olaria, está de mudança para novo ponto na Venâncio Aires

Por Mauro Belo Schneider – editor do GeraçãoE, Jornal do Comércio

INSPIRAÇÃO Milton Ribeiro conta que em outros países é comum encontrar livrarias em igrejas | Foto: Luiza Prado/JC

O capítulo que a tradicional livraria porto-alegrense Bamboletras se encontra tinha tudo para ter um final triste. Mas o proprietário do estabelecimento que opera na galeria Nova Olaria, da rua Lima e Silva, no bairro Cidade Baixa, deu uma reviravolta no enredo.

Amante de histórias que é, o jornalista Milton Ribeiro transformou o fim de um ciclo em um começo que tem tudo para dar certo, embora seja um pessimista nato. O seu negócio funcionará, a partir de julho, dentro de uma antiga igreja apostólica, na avenida Venâncio Aires, nº 113.

O encerramento das operações da Bamboletras na Nova Olaria se deve à construção de três torres que ocuparão o terreno, administrado pela Dallasanta. A ideia é que a loja permaneça no centro dos prédios e que a empresa possa retornar à Lima e Silva quando tudo estiver pronto. Mas, primeiro, Milton verá como ficará o complexo. “Se for legal, eu volto”, revela.

Foto: Luiza Prado/JC

Sua atenção, agora, está voltada para o desafio de tornar o local que recebia cultos, na Venâncio, em um destino turístico. “Na Europa, é muito comum livrarias ocuparem igrejas”, conta ele. “Aqui, nunca vi isso. Espero que seja um atrativo”, emenda.

Desocupada há quatro anos, a igreja receberá as estantes da atual loja e passará por reformas. Há um pátio nos fundos, que abrigará o público, e a possibilidade de incluir uma cafeteria. Além disso, a estrutura conta com uma sala para lançamentos e um palco. “Vamos ver o que dá”, expõe o jornalista.

Foto: Luiza Prado/JC

Milton, que mora no Bom Fim, comprou a Bamboletras em 2018. Ele diz que seu negócio tinha o perfil de atender a clientela no balcão, mas a pandemia gerou uma crise. As pessoas sumiram e entraram os motoboys, os ciclistas e as entregas por correio.

Quando o pior do surto sanitário havia passado, uma nova dificuldade: o fechamento da Nova Olaria e das lojas vizinhas. Não havia mais gente que se surpreendia com a presença de uma livraria ao ir jantar ou beber no centro comercial. Apesar de tudo isso, ele celebra o fato da marca permanecer viva. “Se estivéssemos em outro bairro, estaríamos mortos”, considera.

Isto porque, para ele, a Cidade Baixa é destino de pessoas de vários estados, que estão em Porto Alegre a passeio ou a negócios. A boemia, os casarios antigos e as ruas tranquilas são características que atraem os curiosos, segundo Milton. “O bairro se organiza em torno da Rua da República e da Lima e Silva, mas há muitas outras coisas peculiares”, aponta.

Em breve, uma dessas coisas será sua livraria na igreja. Uma história que colocará, novamente, a Cidade Baixa na rota até de quem já conhece a região.

Foto: Luiza Prado/JC

Bamboletras recomenda rabinos, esculturas de Porto Alegre e o fim da trilogia Escravidão

Bamboletras recomenda rabinos, esculturas de Porto Alegre e o fim da trilogia Escravidão

A newsletter desta quarta-feira da Bamboletras.

Nurit Bensusan

Olá!

Três importantes livros. A ‘Escultura Pública de Porto Alegre’ mostra os 250 anos da cidade através das obras que são instaladas em praças, viadutos, fachadas, cemitérios, trazendo 1900 fotos, além da história de cada trabalho. Já o Volume III de ‘Escravidão’ finaliza a grande obra de Laurentino Gomes sobre esta definidora chaga de nosso país. E ‘Com quanto rabinos se faz um Raimundo’ é um grande livro de ficção sobre nosso preconceito de classe. Confiram!

Uma excelente semana com boas leituras!

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A Escultura Pública de Porto Alegre, de José Francisco Alves (Edição do autor, 412 páginas, R$ 220,00)

Um livraço incrível! Focando-se especificamente nas obras de arte pública da capital, mas tendo por fundo a história da cidade, são abordados centenas de trabalhos, dos primeiros exemplares instalados em 1865 (chafarizes franceses) às peças instaladas em logradouros públicos, em 2022. Com 412 páginas e cerca de 1900 imagens a cores, atuais e históricas, o volume não é meramente um álbum fotográfico. Trata-se do fruto de mais de 25 anos de pesquisa do historiador de arte José Francisco Alves. Como obra comemorativa do 250 anos de Porto Alegre, o livro demonstra a evolução da escultura pública de Porto Alegre; aspectos teóricos da arte pública e políticas da arte pública de Porto Alegre, do Brasil e do Mundo. Também traz verbetes com históricos resumidos (ou estendidos, dependendo do caso) sobre centenas de exemplos de escultura pública, organizados conforme a tipologia. Grande dica para quem ainda ama esta cidade e seu patrimônio artístico em praças, parques, ruas, avenidas, viadutos, fachadas, cemitérios e outros locais.

Escravidão — Volume III, de Laurentino Gomes (Globo, 592 páginas, R$ 69,90)

O último livro da trilogia Escravidão é dedicado ao século XIX; à Independência; ao Primeiro e ao Segundo Reinados; ao movimento abolicionista, que resultou na Lei Áurea de 13 de maio de 1888; e ao legado da escravidão, que ainda hoje emperra a caminhada dos brasileiros em direção ao futuro. A escravidão era, na definição de José Bonifácio de Andrada e Silva, o Patriarca da Independência, “um cancro que contaminava e roía as entranhas da sociedade brasileira”. Disseminado por todo o território, o escravismo perpassava todas as atividades e todas as classes sociais. Maior território escravista da América em 1822, o Brasil assim se manteria até o final do século XIX, com sua rotina pautada pelo chicote e pela violência contra homens e mulheres escravizados. Nenhum outro assunto é tão importante e tão definidor da nossa identidade nacional quanto a escravidão. Conhecê-lo ajuda a explicar o que fomos no passado, o que somos hoje e também o que seremos daqui para a frente. Em um texto impactante e ricamente ilustrado com imagens e gráficos, Laurentino Gomes lança o terceiro volume de sua obra, resultado de 6 anos de pesquisas, que incluíram viagens por 12 países e 3 continentes.

Com quantos rabinos se faz um Raimundo, de Nurit Bensusan (Confraria do Vento, 180 páginas, R$ 50)

Um livro estupendo! No Alto de Pinheiros — bairro da elite paulistana –, um sem-teto chamado Raimundo vive solitário numa praça próxima a uma sinagoga e a edifícios residenciais. Como não incomoda, mora na praça também sem ser importunado. Mas um dia ele pede para que o rabino distribua alimentos para os pobres. A proposta é aceita. É um estranho pedido de quem não fala com quase ninguém, parece viver de ar e que passa seus dias escrevendo em cadernos e mais cadernos. A aceitação por parte do rabino também é inesperada. A partir deste ponto, a ação bondosa vira problema, pois os habitantes do bairro nobre não veem aquilo com bons olhos. É esquisita aquela gente que vem pegar comida, eles sujam tudo e, mesmo que o rabino contrate pessoas para fazer a limpeza diária, não adianta, os moradores querem o fim daquilo. Ou seja, a fila de famintos tem que ser retirada dali. Mesmo as domésticas e diaristas acham que aquilo não é para aquela região. Ou seja, o preconceito de classe é algo mais complexo e enraizado do que parece. Puro suco de Brasil!

Preparando o Bloomsday de 2022

Preparando o Bloomsday de 2022

Neste próximo sábado (18), vou moderar o Bloomsday de 2022 no Instituto Ling. Abaixo, algumas anotações. 

A Casa de Cultura Mario Quintana e Instituto Ling apresentam esta edição especial do Bloomsday, comemorativa aos 100 anos da publicação de Ulysses, de James Joyce.

O Bloomsday é celebração do romance Ulysses, do irlandês James Joyce, e ocorre anualmente no dia 16 de junho, data em que ocorre a ação do romance. Há controvérsias sobre o ano em que começou a ser comemorado. Alguns indicam o ano de 1925 (três anos após o lançamento do livro); outros afirmam que foi na década de 1940, logo após a morte de Joyce. A hipótese mais aceita indica que foi em 1954, na data do quinquagésimo aniversário do dia retratado em Ulysses, o célebre 16 de junho de 1904. O que sabemos é que ele hoje é comemorado não apenas em Dublin, mas no mundo inteiro, onde haja admiradores do livro.

James Joyce

Como muitas das grandes obras de arte, o Ulysses de James Joyce tem existência além da página impressa. É um romance que deixa obcecadas muitas pessoas, que podem passar boa parte de suas vidas refletindo sobre suas páginas. No entanto, muitos leitores não iniciados veem o épico de Joyce com um medo paralisante, algo que o autor não amenizou nesta carta de meados da década de 1920: “Coloquei tantos enigmas e quebra-cabeças que vou manter os eruditos ocupados por séculos, discutindo sobre o que eu quis dizer. Essa é a única maneira de garantir a imortalidade.” A postura é claramente irreverente, mas o fato é que Ulysses não é fast-food. Ele desconcerta a sabedoria convencional, ignora crenças, ataca lugares-comuns, desafia padrões. Muitas das emoções e ações inseridas no romance são são contraditórias, multifacetadas e inquietantes.

A história do livro, aquilo que ocorre nas aproximadamente 18 horas do Bloomsday, é simples e humano. No dia 16 de junho de 1904, Stephen Dedalus, professor de escola secundária, conversa com seu amigo Buck Mulligan, dá uma aula e passeia nas margens do rio. Leopold Bloom, vendedor, atormentado por uma possível traição de Molly, sua mulher, toma café da manhã, recebe uma carta de amor endereçada ao seu alter ego, vai a um funeral, visita um editor de jornal, lancha num bar, olha um anúncio de jornal na biblioteca, responde a carta recebida, quase leva uma surra de um anti-semita, masturba-se na praia observando uma garota, encontra-se com Dedalus num hospital, leva-o a um bordel e convence-o a acompanhá-lo até a sua casa. Ambos urinam no jardim, Bloom entra e se deita ao lado de Molly, que fecha o romance com um monólogo cheio de pornografia. Fim.

Tudo isso em apenas um dia. São 18 capítulos que cobrem aproximadamente 18 horas. Cada capítulo é escrito tem estilo próprio, cada cena fazendo mil referências, principalmente à Odisseia de Homero. Não é uma epopeia do cotidiano, mas sim uma obra anti-épica. As frequentes transgressões linguísticas, a justaposição de frases ostensivamente poliglotas, a mistura de estilos — épico, lírico, drama, comédia — são os percursos seguidos por Joyce com a finalidade de quebrar os protocolos estabelecidos do gênero do romance para chegar à exploração do inconsciente, escondido pelas aparências.

Joyce era um criador incomparável de palavras e trocadilhos. Também foi um explorador aventureiro de como a mente funciona, de como pensamentos aleatórios podem provocar imagens por livre-associação, causando saltos ou recuos. Os pensamentos e sentimentos dos três personagens principais — Leopold Bloom, Molly Bloom e Stephen Dedalus — muitas vezes lutam com a natureza escorregadia e incontrolável da memória. Eles são indivíduos extremamente críveis. E é por isso, apesar dos obstáculos que o autor conscientemente estabelece para seu público, que o livro é tão atraente hoje quanto era há um século. Há uma clareza escondida em Ulysses, apesar de suas muitas complexidades.

O romance é principalmente sobre o fracasso do casamento dos Bloom, com Leopold e Molly finalmente reconhecendo suas responsabilidades no impasse. Molly, a substituta irônica da Penélope da Odisseia de Homero, fica em casa como sua contraparte clássica, tendo sido privada de relações sexuais com o marido por 10 anos, 5 meses e 18 dias. Por que essa abstinência épica? Porque, após a morte de seu filho de 11 dias, Rudy, Leopold não conseguiu ou não quis fazer o que geralmente é considerado amor convencional com sua esposa.

Foto tirada em Dublin em 1904

Dublin. Poucos romances estão tão ligados ao seu cenário quanto Ulysses está. Antes da publicação do romance em 1922, a cidade, que no início de 1900 tinha uma população de pouco mais de 400.000 habitantes, fora visitada por Joyce pela última vez em 1912. Ele se exilou de propósito, ciente de que nem sua vida nem seu trabalho poderiam florescer naquele mundo reprimido, empobrecido e culpado, dominado pela Igreja Católica Romana e pelo colonialismo inglês. No entanto, mentalmente, ele nunca se ausentou da cidade de seu nascimento. Suas principais obras – Dublinenses (1914), Retrato do artista quando jovem (1916), Ulysses (1922) e Finnegans Wake (1939) – são todas ambientados nesse local “tão amado e sujo”.

Leopold Bloom está constantemente em movimento pela cidade, durante todo o dia e metade da noite, está sempre alerta ao seu entorno, mas na verdade ele está ciente da presença de Blazes Boylan — o homem que se tornará amante de Molly naquela tarde. Ao longo do dia retratado pelo épico, Bloom é atormentado pelo candidato aos favores amorosos de sua esposa. Blazes Boylan parece estar em toda parte. Ele conta as horas para as quatro da tarde, horário programado por Molly.

Em parte devido ao seu conteúdo sexual, o épico de Joyce foi processado por imoralidade. Há um sentimento de desafio na decisão do autor de apresentar o prazer sexual em uma obra publicada em 1922. Mas o romance não é um tratado de sensualidade sobre as alegrias e as decepções de eros.

De fato, os enigmas do romance criaram debates contínuos. O que será de Molly e Blazes Boylan? Leopold, como seu progenitor épico Ulysses, colocará sua própria casa em ordem? Molly e Leopold conseguirão fazer reviver seu relacionamento sexual moribundo? Essas perguntas podem facilmente se tornar obsessões para toda a vida.

A primeira edição de Ulysses, de 1922

O Bloomsday do Institulo Ling 2022

O Bloomsday do Institulo Ling 2022

Neste sábado, dia 18, no Instituto Ling, serei o mais incapaz dos membros das mesas do Bloomsday. Imaginem que lá estarão Jeferson Tenório, Donaldo Schuler, Edson Luiz André de Sousa, Carlos Gerbase, Elida Tessler, além do ator João Petrillo, da Banda Irish Fellas e da Cervejaria FIL.

Sim, você não é trouxa e entendeu: haverá cerveja da boa em evento sobre o Ulysses de Joyce. Bebam com moderação, mas o bastante para esquecer tudo que eu disser. COMPAREÇAM!!!

Abaixo, a programação:

15h45 – Banda Irish Fellas mais Cervejaria Fil abrem a festa
16h – Leopold Bloom dá as boas-vindas aos presentes

16h10 – Painel Literatura
Ulysses 100 anos e o legado de Joyce: Jeferson Tenório e Donaldo Schuler, com mediação de Milton Ribeiro

16h40 – Banda Irish Fellas
16h50 – Performance Teatral, com Leopold Bloom

17h – Painel Arte e Psicanálise
James Joyce era louco? Divagações sobre Arte e Psicanálise: Edson Souza, Elida Tessler e Carlos Gerbase, com mediação de Milton Ribeiro

17h40 – Banda Irish Fellas
18h – Encerramento

A boa sorte, de Rosa Montero

A boa sorte, de Rosa Montero

Após os notáveis A ridícula ideia de nunca mais te ver, A louca da casa e Nós, mulheres, Rosa Montero reaparece com seu novo romance A Boa Sorte. É seu primeiro romance em que o personagem principal não é uma mulher. Mas isso talvez seja falso, porque quem ilumina e altera as feições da história para um discreto sorriso é uma personagem feminina.

Sem dar grandes spoilers: o romance começa em um trem para Mágala. Porém Pablo Hernando, em vez de continuar sua viagem até esta cidade, onde deveria dar uma palestra, desembarca antes, decidindo ficar em uma pequena cidade de La Mancha. É um viajante bastante estranho. Pela janela, ele vê uma pequena e feia cidadezinha quase abandonada e dá um jeito de voltar a ela. Sim, Pozonegro não era seu destino, seu destino era Málaga. A estranheza vai se acentuar. Assim que ele desce, à noite, resolve comprar um dos apartamentos que ficam em frente aos trilhos. O vendedor fica muito surpreso, pois Pablo Hernando, quer comprá-lo imediatamente, em dinheiro, sem visitar o imóvel, tipo agora ou nunca. Como o apartamento era uma ruína complicada de vender, seu dono consegue trazer o moço do cartório em plena noite para apressar coisas que poderiam ser melhor formalizadas durante o dia seguinte. E o negócio é fechado, com Pablo tomando posse do apartamento logo depois de chegar, sem malas.

Nós, leitores, ficamos sem saber de muita coisa. Quem é Pablo Hernando? A polícia está atrás dele? Por que Pozonegro? E por que um lugar onde ele não conhece ninguém? E então Raluca, uma mulher de origem romena, funcionária do supermercado local, entra em cena. Ela é sua vizinha e tenta integrá-lo à comunidade. Ela o ajuda a comprar as coisas de que precisava para sobreviver: um colchão, roupas, comida… E até consegue um emprego para ele no supermercado, sem saber que aquele maluco é um famoso arquiteto.

Se Raluca é o Bem, o Mal é representado pelo filho de Pablo, com quem nosso herói perdeu o contato e que, bem, deixemos em aberto porque aqui temos um item fundamental para a (grande) tensão da história.

Os dois polos do romance são Raluca e Marcos, o filho. Pablo parece não entender nenhum dos dois. Nem a luz dela, nem as sombras dele. A autora comanda com raro virtuosismo um mecanismo de intriga bem grudento, revelando aos poucos quem é Pablo, suas mentiras, seus medos e culpas.

Raluca também tem um passado nada tranquilo, mas é alguém que é capaz de irradiar felicidade por onde anda e que, mesmo morando num fim de mundo perigoso, é capaz de dizer que “tem uma vida incrível”. Quando falo em mundo perigoso, quero dizer que A Boa Sorte mostra a violência de muitas formas: de pais contra os filhos, contra os animais, contra quem é diferente, contra quem tem alguma coisa que se quer. Porque em Pozonegro há criminosos, líderes de gangues neonazistas e vizinhos extorsionários, mas, felizmente, lá também há quem se considere sortudo como Raluca.

Claro que uma escritora do nível de Montero não aponta soluções para o Mal, apenas mostra que devemos conviver com ele. A descida pessoal de Pablo Hernando ao inferno é muito bem descrita. Há medo, angústia, culpa, desejo e também amor, generosidade e inocência E uma boa notícia que não nos aliena, muito pelo contrário: nos faz querer viver e respirar.

Em A Boa Sorte, Montero realiza um belo romance, mesmo que se possa reclamar do estereótipo do homem rico e angustiado que se relaciona com uma moça pobre e sem instrução. Sim, é um livro otimista pero no mucho, onde, de certa forma, o Bem vence (ou contorna) o Mal. Não chega a ser proibido ser ao mesmo tempo feliz em ficção, certo?

Recomendo!

Que sorte! É que eu sempre tive muita sorte, sabe? E felizmente tenho essa sorte, porque, se não, com a vida que tive, não sei o que teria acontecido comigo.

Bamboletras recomenda hooks, Lula e afetos

Bamboletras recomenda hooks, Lula e afetos

A newsletter desta quarta-feira da Bamboletras.

bell hooks (1952-2021)

Olá!

Três importantes livros de não-ficção fazem nossa newsletter de hoje. Os temas são variados. bell hooks visita a masculinidade negra, o livro da Boitempo explora as cartas (25 mil!) que Lula recebeu na prisão e Emocional abre uma discussão a respeito da importância do afeto em nossas decisões.

Uma excelente semana com boas leituras!

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A gente é da hora — homens negros e masculinidade, de bell hooks (Elefante, 272 páginas, R$ 63,00)

“As mulheres negras não podem falar pelos homens negros. Nós podemos falar com eles.” Essa é uma das muitas razões que motivaram bell hooks a escrever A gente é da hora, em que tece duras críticas à adesão da maioria dos homens negros à masculinidade falocêntrica e patriarcal propagada pela sociedade capitalista imperialista supremacista branca. Segundo a autora, ao adotarem uma pose “legal” pautada pelo machismo e pela violência — em grande medida, veiculados pela cultura gangsta —, e não pela construção de formas de masculinidade nas quais o sentimentalismo e a vulnerabilidade são permitidos, os homens negros estão atentando contra si mesmos. Em dez ensaios e um prefácio, acompanhados por textos de Lázaro Ramos e Túlio Custódio, hooks pretende somar-se ao pequeno coro que fala em nome da libertação masculina negra. E o faz declarando todo o seu amor aos homens negros, partindo de experiências pessoais — com o pai, o irmão, o avô, amigos e amantes — para construir análises estruturais das forças que oprimem os homens negros e das maneiras pelas quais eles podem abandonar o vitimismo em busca de autenticidade e autodeterminação.ocorre em uma cultura de dominação é a confusão entre temor e amor.

Querido Lula: Cartas a um presidente na prisão, de Maud Chirio (org.) (Boitempo, 240 páginas, R$ 53,00)

De 7 de abril de 2018 a 8 de novembro de 2019, o ex-presidente Lula ficou encarcerado na Superintendência da Polícia Federal de Curitiba. Foram 580 dias de cárcere, que marcaram definitivamente o rumo da história pessoal de Lula e também do Brasil: enquanto o país elegia um representante da extrema direita, um acampamento em frente à prisão se formou, organizações nacionais e internacionais lutavam na arena jurídica para reverter as injustas condenações, e milhares de brasileiros e brasileiras se solidarizaram com a situação do ex-presidente, seja por manifestações via internet ou pelo meio de comunicação mais antigo entre nós, as cartas. Durante esse período, aproximadamente 25 mil cartas foram endereçadas a Lula. Um impressionante acervo, ao qual se soma o envio também de objetos variados como livros, revistas sobre futebol, poemas e cordéis, Bíblias, fotografias, desenhos, roupas e cobertores para evitar o frio (alguns tecidos pelas próprias remetentes), bordados e gravuras, estatuetas de divindades de todas as religiões, flores secas e outros materiais decorativos. Em Querido Lula: cartas a um presidente na prisão, é possível ter acesso a 46 missivas selecionadas pelos organizadores, bem como a um cuidadoso caderno de imagens com fotografias das cartas e dos objetos enviados.

Emocional — A Nova Neurociência dos Afetos, de Leonard Mlodinow (Zahar, 328 páginas, R$ 74,90)

Durante muito tempo acreditamos que o pensamento racional era a influência dominante em nossos comportamentos. As emoções, por sua vez, seriam prejudiciais nas tomadas de decisão. Agora, graças ao enorme progresso das pesquisas em neurociência e psicologia, sabemos que a emoção é tão importante quanto a razão para orientar nossas escolhas e atitudes. Mas o que é a emoção? Como nossas ideias sobre os sentimentos evoluíram? Como regular as emoções para utilizá-las a nosso favor? Estas são as grandes questões abordadas em Emocional, do brilhante físico Leonard Mlodinow, que nos orienta aqui por uma novíssima área de pesquisa: a neurociência afetiva. De laboratórios de cientistas pioneiros a cenários do mundo real em que o domínio sobre as emoções foi decisivo para evitar uma tragédia, Mlodinow mostra o quanto essa revolução científica tem implicações significativas também na vida cotidiana, no tratamento de doenças, na compreensão das relações pessoais e em nossa percepção a respeito de nós mesmos.

Os Mortos, de James Joyce

Os Mortos, de James Joyce

Este volume é uma coletânea de dois contos de James Joyce — Os Mortos e Arábias, ambos de Dublinenses — e do capítulo final de Ulysses, o monólogo de Molly Bloom. Comprei o livro em razão do monólogo — queria relê-lo, mas não queria carregar o pesado Ulysses completo por aí — só que também gostei muito de revisitar os dois contos, que são perfeitos em sua melancolia.

Os Mortos é ​​o último conto da coleção Dublinenses de 1914. É de longe a história mais longa da coleção, quase longa o suficiente para ser descrita como uma novela. A história lida com temas de amor e perda, além de levantar questões sobre a natureza da identidade irlandesa.

Arábias conta a paixão de um menino pela irmã de seu amigo. Narrado em primeira pessoa, o leitor mergulha na vida monótona da North Richmond Street, que parece ser iluminada apenas pela imaginação das crianças que, apesar da crescente escuridão do inverno, insistem em brincar “até que seus corpos brilhassem”. Esses meninos estão à beira da consciência sexual e, impressionados com o mistério de outro sexo, estão famintos por conhecimento.

Difícil imaginar duas histórias que sejam mais bem escritas. E estão dentro de um formato rigorosamente clássico.

Já o Monólogo de Molly Bloom traz o Joyce revolucionário de Ulysses. Aqui, temos mais uma torrente do que um fluxo de consciência. É um texto implacável e sem pontuação. No final do gigantesco romance experimental de 1921 de James Joyce, depois que seu herói finalizou suas andanças e voltou para casa, sua esposa, Molly, dá a última palavra. Ou melhor, dá muitas, muitas palavras. “Sim” é o primeira delas e também a última: “e sim eu disse sim eu quero Sim” – uma frase tão famosa que você pode conhecê-la mesmo que não seja familiarizado com o livro.

Molly Bloom é a esposa de Leopold Bloom, o personagem central do livro. Ela nasceu em Gibraltar em 1870, filha de um oficial militar irlandês e um gibraltino de ascendência espanhola. Em Dublin, onde o romance se passa, Molly é uma conhecida cantora de ópera. Molly e Leopold tem um casamento já sem sexo, mas Molly ainda está em seu auge sexual e dormiu com muitos homens — fato de que seu marido está bem ciente.

O solilóquio de Molly começa depois que Leopold se acomoda na cama, murmurando algo sobre ovos. Na cama, deitada ao lado do marido, Molly não consegue dormir. Sua mente começa a vagar dos ovos de Leopold para os eventos do dia anterior (16 de junho de 1904) e para memórias mais distantes. O solilóquio, de aproximadamente 22.000 palavras, consiste em oito “frases” extremamente longas. Os pensamentos de Molly vão da saúde de Leopold para a lembrança de suas tentativas bastante lamentáveis ​​de infidelidade e para as memórias de suas próprias aventuras sexuais muito mais gratificantes. Naquele mesmo dia, ela estava com seu amante mais recente, Blazes Boylan, um empresário de shows, para o que seu marido sabia não ser uma reunião de negócios. Molly descreve seus encontros sexuais em detalhes. (Suas palavras, especialmente as referências a funções excretoras e sexuais, encheram páginas de relatórios da censura de diversos países na primeira metade do século XX).

A mente de Molly também volta para sua infância em Gibraltar, ou avança para sua preparação para as músicas que ela cantará em uma próxima turnê. Quando ela finalmente adormece, seus últimos pensamentos voltam-se para seu primeiro encontro com Leopold, e no momento em que ela soube que estava apaixonada por ele.

Em uma carta de 1921, Joyce disse: “A última palavra (humana, humana demais) é deixada para Penélope”. descrita como “a palavra feminina” e que ele disse desejar indicar “aquiescência, abandono, relaxamento, o fim de toda resistência”.

Apocalipse, por favor, de Felipe Parucci

Apocalipse, por favor, de Felipe Parucci

Um baita livro, uma tremenda novela gráfica! Dei risadas pânicas por todo o tempo de leitura.

O tal meteoro está chegando e vai destruir o planeta. O que fazer? O livro se foca em quatro personagens principais. Arthur Miró é bem perturbado, trata-se de um esquizofrênico surtado que tem premonições com o fim do mundo. Tem também medo de mulher, feições de lobo — mas só apanha, só apanha — e toma o tarja preta Birutil. Só que… tem razão, afinal o fim está próximo. Há também o casal Anabela e Jorge. Ela tem transtorno de pânico causado por múltiplos problemas, passados e recentes. Não sai de casa, sofre de intensa ansiedade. Já Jorge é um cabeça de vento desempregado que vive da pensão de Anabela. E temos o presidente do país, Jesus Correia, um hilariante político corrupto que está se lixando para tudo que não seja sua grana.

O livro narra alternadamente estas quatro histórias que têm pontos de intersecção e alta tensão, pois o meteoro, repito, está vindo. São 280 páginas, dá tempo para muitas piadas e para desenvolver bem os personagens, assim como para descrever a situação de um mundo que talvez mereça mesmo acabar.

Apocalipse, por favor (Lote 42, R$ 85) foi lançado originalmente em 2015, mas se tornou muito mais atual tendo por cenário a situação de loucura absoluta de nosso país dirigido por um perturbado mental — talvez não louco, mas com certeza estúpido — e que deveria tomar várias pílulas diárias de Birutil.

O livro é engraçadíssimo. Trocadilho é uma coisa difícil de fazer, muitas vezes são considerados de mau gosto, mas os de Felipe são ótimos. O desenho é lindo, pura arte, o que faz a gente escolher entre apenas olhar ou seguir lendo. É para ser devorado. Empolga e vale cada centavo.

Felipe Parucci

Bamboletras recomenda “Abandonar um gato” de Murakami, CDs de Vitor Ramil e ainda Pilar Quintana

Bamboletras recomenda “Abandonar um gato” de Murakami, CDs de Vitor Ramil e ainda Pilar Quintana

A newsletter desta quarta-feira da Bamboletras.

Haruki Murakami (1949)

Olá!

Calma gente, o gato acaba bem. O novo Murakami, Abandonar um gato, é formado por cenas corriqueiras da infância e da juventude do autor. Ao longo da narrativa, Murakami também traz à tona traumas familiares e de guerra, além contar sobre sua relação com o pai, com quem passou anos sem contato. Um baita livro! Também recebemos vários CDs — saudades dos CDs, né, gente? — de Vitor Ramil e recomendamos Os Abismos, de Pilar Quintana.

Uma excelente semana com boas leituras!

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Abandonar um gato (o que falo quando falo do meu pai), de Haruki Murakami (Alfaguara, 112 páginas, R$ 64,90)

“Claro que tenho muitas lembranças do meu pai. É natural, considerando que vivemos sob o mesmo teto de nossa casa não exatamente espaçosa desde o momento em que nasci até sair de casa aos dezoito anos. E, como é o caso da maioria das crianças e pais, imagino, algumas das minhas lembranças do meu pai são felizes, outras nem tanto. Mas as memórias que permanecem mais vívidas em minha mente agora não se enquadram em nenhuma das categorias; envolvem eventos mais comuns. Quando morávamos em Shukugawa, um dia fomos à praia para nos livrar de um gato. Não um gatinho, mas uma gata mais velha. Por que precisávamos nos livrar disso, não me lembro. (…) Em casa, descemos da bicicleta – discutindo como sentimos pena do gato, mas o que poderíamos fazer? – e quando abrimos a porta da frente o gato que acabamos de abandonar estava lá, nos cumprimentando com um miado amigável.”

CDs de Vitor Ramil — Campos Neutrais / Avenida Angélica / Ramilonga – A Estética do Frio / Foi no mês que vem (coletânea)

Com preços variando entre R$ 39,90 a R$ 59,90, recebemos boa parte da obra de Vitor. Ele precisa de apresentação? Compositor, letrista, cantor e escritor brasileiro, nascido em Pelotas, Ramil é autor de doze álbuns, um melhor do que o outro. “Avenida Angélica” é seu último trabalho, onde ele coloca música em poemas de Angélica Freitas. “Foi no mês que vem” é uma coletânea de trabalhos anteriores regravadas por convidados especiais como Fito Páez, Jorge Drexler, Milton Nascimento, Ney Matogrosso, Pedro Aznar, os manos Kleiton e Kledir, a cantora Kátia B, o percussionista Marcos Suzano, o violonista argentino Carlos Moscardini e, entre outros, as revelações da nova geração porto-alegrense Bella Stone e seu filho Ian Ramil. Smos apaixonados por “A Estética do Frio”. Nossa que CD bom!!! Explora nossas rapizes de um modo muito especial. Para completar “Campos Neutrais” foi indicado ao Grammy Latino na categoria de “Melhor Álbum de Música Popular Brasileira”. É mole?

Os Abismos, de Pilar Quintana (Intrínseca, 270 páginas, R$ 69,90)

A menina Claudia mora com os pais em Cáli, na Colômbia, em um apartamento tomado por plantas. O ambiente, exuberante e bem cuidado, é um contraste, uma oposição à mãe indiferente que está em conflito com os caminhos de sua própria vida. Como muitas famílias, a de Claudia passa por uma crise, e basta o casamento de seus pais estremecer para que ela comece a entender a fragilidade dos limites que mantêm seu cotidiano. A partir da expectativa e de seu olhar atento e ao mesmo tempo inocente de criança, é a menina que narra os acontecimentos que abriram as fendas por onde entraram seus piores medos, aqueles que são irreversíveis e podem levar à beira dos abismos.

Entrevista concedida à TV Assembleia Legislativa RS

Textinho de apresentação que a TV colocou no YouTube:

Quem transita pelo universo literário certamente conhece a livraria Bamboletras, que já está há 26 anos no mercado porto-alegrense. O apresentador Gustavo Machado conversou com Milton Ribeiro, proprietário da Bamboletras, e que está lançando Abra e leia, título bem sugestivo de seu primeiro livro.

Rubber Soul

Rubber Soul

Este é o melhor álbum dos Beatles? Não sei. Sei que é o que ouço com maior prazer. Há poucas alegrias maiores do que colocar o vinil de Rubber Soul no toca-discos e observar, na maior expectativa, o disco girar até ouvir os acordes iniciais de Drive My Car. É sempre uma pequena implosão de alegria. Faço isso há 50 anos com o mesmo vinil, ainda em perfeito estado.

Mais uma vez, é um álbum de turning point e, para mim, esses são quase sempre os melhores. A lente grande angular ‘olho de peixe’ da capa pressagia a psicodelia que se aproximava.

É esclarecedor que George Harrison, o guitarrista principal, tenha dito que Rubber Soul e Revolver eram um retrato de 1965/66. Isso foi na época em que os Beatles foram forçados a parar de fazer turnês devido à histeria incontrolável e ao caos dos fãs. Hesito em dizer isso, mas um problema para as equipes de limpeza daqueles shows era o de limpar a urina dos assentos, tal era a liberação frenética e descontrolada de emoção. Era 4 caras engraçados, carismáticos — quiçá bonitos — e musicalmente talentosos. O mundo inteiro estava fascinado. Naqueles dias, apenas visitar a América era um distintivo de honra para os britânicos e, quando os Beatles chegaram aos EUA, foi um vendaval de amor e loucura.

Rubber Soul é um álbum de 1965, uma continuação da trilha sonora de Help. Muitos críticos postulam que o álbum Help foi o álbum mais fraco dos Beatles. Eu concordo. E também concordo que ninguém estava preparado para a inventividade e musicalidade do Rubber Soul.

Grande parte da obra vem de Paul McCartney, o músico mais motivado e talentoso de todos. Mas ele não era o líder. A alma dos Beatles era John Lennon, seu contraponto perfeito — mas este é tanto um álbum de Lennon quanto de McCartney; provavelmente o último em que a musicalidade e inventividade melódica de Lennon realmente brilham.

Rubber Soul usa os gêneros musicais mais tradicionais no rock do que qualquer outro álbum. As pessoas apontam que os Beatles estavam imitando o som de guitarra que os Byrds deram a Mr. Tambourine Man de Dylan. Isso é verdade, mas, como sempre, os Beatles não apenas superaram a concorrência, eles a destruíram.

A abertura é Drive My Car. O solo de guitarra é fluido e fácil. George Harrison era um guitarrista de bom gosto que lutava para conseguir um lugar no grupo como compositor. Aqui, ele recebeu duas faixas do álbum… Só que tinha a (in)felicidade de ser o substituto da maior parceria de composição de todos os tempos. Para Rubber Soul, ele escreveu maravilhosa Think For Yourself. Harrison mais tarde comprovaria sua qualidade com Something, While My Guitar Gently Weeps, Here Comes The Sun, etc. e tem o álbum solo mais vendido após a dissolução dos Beatles, All Things Must Pass. No LP seguinte, ele escreveria Taxman com um extraordinário solo de guitarra, que abre Revolver.

Drive My Car é algo. Oasis, Blur e inúmeros outros artistas do britpop copiaram o modelo Taxman e Drive My Car. The Jam fez isso descaradamente em Start. Noel Gallagher foi ainda mais descarado em copiar motivos dos Beatles. Os Stone Roses foram uma das bandas musicalmente mais bem sucedidas e convincentes do final dos anos oitenta, e também fortemente influenciadas pelos Beatles. Eles pegaram essas ideias e as tornaram suas em seu debut. A canção é ótima e apenas compositores de vanguarda como Stockhausen, Cage e Boulez usaram loops de fita de trás para frente, mas George Martin e os Beatles os introduziram na música pop em Drive My Car. O solo de George em Tomorrow Never Knows do Revolver leva isso a um patamar ainda mais alto.

Depois vem Norwegian Wood e Nowhere Man, ambas de Lennon. Qualquer vocalista sabe como é difícil sustentar uma harmonia de três partes com dois outros ao longo de um minuto, quanto mais três. Mas Nowhere Man soa sem esforço. Norwegian Wood é lírica, inventiva e inesperada. Os Beatles estavam agora traduzindo suas aventuras e relacionamentos pessoais em experimentações iniciais de art-rock. Tipicamente Lennon. Suas letras começam a fazer monólogos.

Entre estas duas está um típico e bom McCartney. You Won´t See Me foi um merecido sucesso da época. Difícil não dançar ouvindo esta canção.

Think For Yourself é uma joia de Harrison com uma guitarra que faz, por todo o tempo, uma segunda melodia. Acho que se ouvirmos apenas a guitarra, a canção já será muito interessante. É um belo cartão apresentado por George a Paul e John. “George Harrison, compositor”.

The Word, de Paul, não chega a ser tudo aquilo, mas não compromete, só que é seguida pela obra-prima que é…

Michelle, também de Paul, vem da tradição da canção francesa. Era uma coisa absolutamente inédita, uma prova do esforço sem esforço de McCartney, pulando de gênero em gênero, bem como sua invenção melódica e harmônica.

What Goes On é um excelente rock escrito por Lennon, McCartney e, sim, Ringo Starr, que faz o vocal com grande competência. Todo mundo cantava bem nos Beatles. Era um assombro.

Girl é outro exemplo de harmonias de três partes. É uma bela melodia. Este álbum representa os períodos finais em que Lennon e McCartney escreveriam juntos. Na verdade, cerca de metade das músicas foram escritas por um ou outro por conta própria. No entanto, aqui, a fusão criativa cumulativa ainda brilha.

I’m Looking Through You é um golaço de Paul McCartney. Melodia grudenta de primeira linha.

In My Life é possivelmente uma das músicas mais tocantes e emocionantes dos Beatles de todas. É uma música de Lennon e você pode ouvi-la compartilhando abertamente seus sentimentos sobre um passado trágico. Sua mãe Julia sendo atropelada na frente de seus olhos, sua alma gêmea da escola de arte Stuart Sutcliffe morrendo aos vinte e poucos anos em Hamburgo, onde os Beatles aprimoraram seu ofício em bares decadentes de Reeperbahn.

Paul McCartney, como admitiu abertamente, teve muita sorte em muitos aspectos. Ele teve uma educação estável. Um pai músico e uma mãe amorosa, Mary, que morreu quando Paul tinha 14 anos, a Mother Mary de Let It Be.

John Lennon teve tudo menos uma adolescência fácil. Eu acredito que foi através de suas criações e circunstâncias radicalmente diferentes que eles se uniram.

Musicalmente, In My Life contém um solo de piano com ares barrocos e um acompanhamento de baixo solo executado com grande elegância. Grande parte disso se deve à sensibilidade clássica do produtor George Martin. Ele também traz isso à tona no acompanhamento do quarteto de cordas de Eleanor Rigby de Revolver.

Wait fica no nível de The Word.

If I Needed Someone é mais um pontapé de Harrison na porta de Lennon & McCartney. E que pontapé! Uma melodia longa e inventiva dentro de um arcabouço originalíssimo. As vozes do trio estão sensacionais nesta que é uma das melhores faixas do disco.

Run For Your Life é um rock sensacional de Lennon. Mas aqui temos problemas na letra machista que o próprio Lennon renegou depois. “Well, I’d rather see you dead, little girl / Than to be with another man” (“Bem, eu prefiro ver você morta, garota / a te ver com outro homem”). Isso é inaceitável há décadas, meu caros, mas em 1965 até passava. Que baita música!

Depois de Revolver, o público não conseguia entender o que havia acontecido com os Beatles. Por que a demora em lançar um novo disco? Por que mais de sete meses entre Revolver e Pepper? Hoje em dia, nomes como Coldplay são considerados prolíficos quando lançam um álbum a cada dois anos. Os Beatles se renovavam consistentemente a cada seis meses.

Este é o meu álbum favorito dos Beatles porque nunca uma banda compôs uma música tão atemporal de forma tão convincente. Nunca haverá outra banda para tocá-los. Nem no passado, nem no presente, nem no futuro. Centenas de anos depois, os ouvintes atestarão isso — disso não tenho dúvidas.

Bamboletras recomenda o novo livro de Rosa Montero, mais Haddad e Fuks

Bamboletras recomenda o novo livro de Rosa Montero, mais Haddad e Fuks

A newsletter desta quarta-feira da Bamboletras.

Olá!

Um novo romance da grande Rosa Montero, um ensaio político de Fernando Haddad e as reflexões e sentimentos de Julián Fuks durante a pandemia são as sugestões da Bamboletras para a semana. Não é pouca coisa. Três gêneros, três importantes livros.

Uma excelente semana com boas leituras!

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A Boa Sorte, de Rosa Montero (Todavia, 256 páginas, R$ 69,90)

Desde o lançamento de A ridícula ideia de nunca mais te ver, todo livro novo de Rosa Montero é um acontecimento. Agora, a inquieta espanhola chega pela primeira vez com um romance cujo personagem principal é masculino. O que leva um homem a saltar de um trem em uma cidade sem maiores atrativos, que não era seu destino original, e se esconder ali? S. eu objetivo é recomeçar a vida ou simplesmente acabar com ela? Seja qual for a resposta, o destino o trouxe para uma cidade que está lentamente definhando. A ruína parece mais perto a cada dia, porém… (Sem spoilers). Na cidade, todos parecem arrastar algum segredo, alguns sombrios, outros simplesmente ridículos. Também há humor naquela cidade triste, porque a vida tem muita comédia. E pessoas que fingem ser quem não são, ou que escondem o que planejam. É o grande jogo das falsidades enquanto uma intriga hipnotizante revela o mistério daquele homem.

O Terceiro Excluído, de Fernando Haddad (Zahar, 288 páginas, R$ 64,90)

Em outubro de 2018, o então candidato à presidência da República Fernando Haddad recebeu o professor do MIT Noam Chomsky em sua casa. O Brasil vivia seu momento mais dramático desde a redemocratização e a ameaça de uma guinada autoritária não era percebida por grande parte dos eleitores. Da conversa sobre política e linguística surgiu a provocação que originou O terceiro excluído. A teoria universalista de Chomsky afirma que é possível nos entendermos independentemente da cultura em que estejamos inseridos. O que explica então o atual surto de incomunicabilidade, em que não parece haver denominador comum para o debate público? O que nos impede de construir um futuro melhor para todos, com menos carências materiais e espirituais? Neste estudo denso e provocador, Haddad apresenta uma nova contribuição para as teorias da emancipação humana, a partir da qual pode emergir uma abrangente linha de ação política.

Lembremos do Futuro, de Julián Fuks (Cia. das Letras, 136 páginas, R$ 69,90)

Em trinta crônicas selecionadas, escritas nos períodos mais críticos da pandemia, Julián Fuks reflete sobre a perda e a solidão, a fragmentação do tempo e as incertezas futuras de um país. Mas nestas linhas há também esperança: pelo que podemos construir, ou reconstruir, a partir de nossas experiências. Suas incertezas e medos, a insegurança com a saúde da família e de amigos, se somaram ao que ocorria do lado de fora: as arbitrariedades do governo, a distância dos conhecidos, a contagem diária de mortes. Valendo-se de Virginia Woolf a Drummond, de Natalia Ginzburg a Clarice Lispector, Julián Fuks busca compreender as sensações conflitantes, a incerteza do tempo e os vazios na convivência com os outros. É nas frestas do horror que o autor procura as belezas menores, para com elas construir algo novo, a nova identidade do que queremos ser, no futuro que ainda não devemos esquecer. 

Galina, de Galina Vishnevskaya

Galina, de Galina Vishnevskaya

Eu já tinha adiantado a vocês, meus sete leitores, de que estava lendo uma obra-prima. Bem aqui, ó! Mas agora vamos a algo mais organizado sobre o livro. Galina Vishnevskaya (1926 – 2012) foi um soprano russa colocada em posição fundamental dentro da arte soviética. Ela foi casada com o grande violoncelista Mstislav Rostropovich e ambos eram amigos de gente como Dmitri Shostakovich e Aleksandr Soljenitsin. Foi a maior cantora de sua época e foi usada como propaganda do país no mundo inteiro. Só que não apenas isso. Era uma pessoa que não apenas tinha uma voz monumental e cantava notavelmente, ela tinha um enorme potencial como escritora. Seu texto é extremamente belo ao narrar fatos de sua juventude, aprendizado, ascensão e carreira. Eu realmente não sei como este livro — que foi traduzido em quase todas as línguas — não possui uma edição em português.

Não pense que você encontrará aqui um furibundo discurso anti-soviético como os de Soljenitsin, Quando Galina, começou a discordar, ela o faz com argumentos e fatos. Então, aqui você encontrará coisa muito melhor, você encontrará humanidade e vida, vindas de uma artista que começou recebendo mil honrarias — Legião de Honra, Artista do Povo da URSS, Ordem de Lenin, Oficial de Artes e Letras — até se ver praticamente impedida de trabalhar na URSS, assim como seu marido. Ela, a prima donna absoluta do Bolshoi, conta a história de sua vida no século XX tendo por cenário o cerco de Leningrado, o aparecimento do realismo socialista de Jdanov, as turbulências stalinistas e pós-Stalin, curiosidades várias sobre muita gente famosa — não esquecer de Benjamin Britten –, além de insights históricos e pessoais muito significativos, que é o que faz este livro ser tão fantástico. É um livro sobre arte e vida, ou sobre a vida artística de alguém que sabe narrar como poucos.

E Galina tem um incrível bom humor e o talento para contar piadas. Elas estão longe de serem maioria no livro, mas quando aparecem… As brigas hilariantes com Rostropovich… Há capítulos lindos, como o de sua relação com os pais, e de suas aulas de canto com Vera Nikolayevna Garina e o final.

Quando comecei a ler o livro não consegui mais largar. Galina Vishnevskaya não era apenas uma grande cantora de ópera, mas uma contadora de histórias cativante. Suas descrições da amarga pobreza de sua infância e depois das atrocidades testemunhadas durante a Segunda Guerra Mundial quando ela era adolescente, apenas aumentam o horror e aumentam a descrença e a admiração por ela ter sobrevivido, tanto física quanto moralmente.

Olha, vale muito a pena correr atrás deste livro. É difícil de encontrar, mas se você procurar encontra em espanhol ou inglês. Desculpem, mas é uma absoluta obrigação a leitura deste livro por qualquer pessoa ler e ter em sua biblioteca — especialmente se estiver ligada às artes e/ou política de qualquer forma.

Galina Vishnevskaya

Donal Og / Broken Vows (Votos Rompidos)

Donal Og / Broken Vows (Votos Rompidos)

Este é um belíssimo poema gaélico, anônimo, da Irlanda do século VIII, traduzido para o inglês pela irlandesa Lady Gregory (Isabella Augusta Gregory). Ele recebeu o título em Inglês de Broken Vows, mas também é conhecido pelo seu título original Donal Og (Jovem Donal).

Lady Augusta Gregory em 1911

Broken Vows

It is late last night the dog was speaking of you;
the snipe was speaking of you in her deep marsh.
It is you are the lonely bird through the woods;
and that you may be without a mate until you find me.

You promised me, and you said a lie to me,
that you would be before me where the sheep are flocked;
I gave a whistle and three hundred cries to you,
and I found nothing there but a bleating lamb.

You promised me a thing that was hard for you,
a ship of gold under a silver mast;
twelve towns with a market in all of them,
and a fine white court by the side of the sea.

You promised me a thing that is not possible,
that you would give me gloves of the skin of a fish;
that you would give me shoes of the skin of a bird;
and a suit of the dearest silk in Ireland.

(…)

My mother has said to me not to be talking with you today,
or tomorrow, or on the Sunday;
it was a bad time she took for telling me that;
it was shutting the door after the house was robbed.

My heart is as black as the blackness of the sloe,
or as the black coal that is on the smith’s forge;
or as the sole of a shoe left in white halls;
it was you put that darkness over my life.

You have taken the east from me, you have taken the west from me;
you have taken what is before me and what is behind me;
you have taken the moon, you have taken the sun from me;
and my fear is great that you have taken God from me!

Votos Rompidos

Era  tarde a noite passada, o cão falava de você.
O pássaro cantava no pântano, falava de você.
Você é o pássaro solitário das florestas;
Que você fique sem companhia até me encontrar

Você prometeu e me traiu.
Disse que estaria junto a mim quando os carneiros fossem arrebanhados.
Eu assobiei e gritei cem vezes.
E não achei nada lá, a não ser uma ovelha balindo.

Você prometeu uma coisa difícil.
Um navio de ouro sob um mastro prateado.
Doze cidades e um mercado alegre em todas elas.
E uma branca e bela praça à beira-mar.

Você prometeu algo impossível.
Que me daria luvas de pele de peixe.
E sapatos de asas de ave.
E roupa da melhor seda da Irlanda.

(…)

Minha mãe disse para eu não falar com você.
Nem hoje, nem amanhã. Nem domingo.
Foi um mau momento para dizer-me isso.
Como trancar a porta após ter a casa arrombada.

Você tirou o leste de mim, tirou o oeste de mim.
Tirou o que existe à minha frente, tirou o que há atrás.
Tirou a lua, tirou o sol de mim,
E meu medo é grande, você tirou Deus de mim.

O poema foi utilizado no filme Os Vivos e os Mortos, de John Huston. A cena:

Elena

Elena

Hoje é teu aniversário, Elena. Diz o Google que tu nasceste a 12.138 Km de onde nasci. Isso em linha reta porém curva, porque a terra é redonda, sabemos. Não sei o que mais admiro em ti. Tua boa conversa, tua beleza, teu companheirismo, tua inteligência, teu humor ácido — de que sou a vítima preferida –, tua elegância difícil de caracterizar. Mesmo quando vestes uma de minhas camisetas furadas de andar em casa, pareces perfeitamente composta. Tu vestes aquilo de um jeito que sei lá. Pareces uma nobre vítima de um naufrágio ou uma aristocrata que está camuflada em casa. Eu? Eu me sinto como a camiseta, ora. Aliás, perto de ti, sempre fui a camiseta puída que teve sorte. E que fica feliz.

Não vou colocar uma foto tua com uma de minhas camisetas porque podes provocar paixões, então vai uma tirada em 2020. Sabes onde estavas?

Bamboletras recomenda só livros sensacionais

Bamboletras recomenda só livros sensacionais

A newsletter desta quarta-feira da Bamboletras.

Silvina Ocampo (1903-1993)

Olá!

Ah, vocês pensam que a gente está exagerando? Pois não estamos não. Estamos indicando o início da Quadrilogia das Estação de Karl Ove Knausgård, o segundo livro lançado no Brasil da grande Silvina Ocampo e o delicado relado dos dias finais de García Márquez (com fotos). Viram? Não estávamos brincando! Veja abaixo!

Uma excelente semana com boas leituras!

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Outono, de Karl Ove Knausgård (Cia. da Letras, 208 páginas, R$ 69,90

Quem leu a série Minha Luta, sabe que Karl Ove Knausgård faz descrições como ninguém. E agora ele retorna com uma sensível e encantadora Quadrilogia das Estações. Outono, primeiro volume da nova série, é uma coletânea da aguçada observação do autor sobre a vida que o cerca. “28 de agosto. Agora, enquanto escrevo, você não sabe nada a respeito de nada – o que a espera, em que tipo de mundo você há de surgir.” Assim começa Outono: com uma carta de Karl Ove Knausgård para a filha que ainda não nasceu, contando-lhe o que deve esperar ao vir à luz. Com breves capítulos que tratam do mundo material e natural, ele descreve os mais diversos elementos com a precisão e a intensidade hipnotizantes que se tornaram sua marca. De forma sensível, relata também os dias ao lado de sua esposa e de seus filhos na zona rural da Suécia, baseando-se nas memórias de sua própria infância para dar uma perspectiva inigualável sobre a relação entre pais e filhos. Nada é pequeno ou grande demais para escapar de sua atenção.

As Convidadas, de Silvina Ocampo (Cia. das Letras, 264 páginas, R$ 79,90)

Segundo livro da autora argentina publicado no Brasil, As Convidadas reúne 44 contos breves em que fantasmas emergem de fotos, crianças surdas-mudas criam asas e o absurdo irrompe de fatos e objetos cotidianos para destroçar a monotonia das relações familiares. Uma das escritoras fundamentais do século XX, Silvina Ocampo vem sendo revalorizada com entusiasmo nos últimos anos. Seu nome é cada vez mais citado como referência por uma nova geração de autoras que tem alcançado protagonismo nas letras latino-americanas, e sua obra começa a sair da sombra de figuras como Adolfo Bioy Casares e Jorge Luis Borges, que faziam parte de seu grupo literário em Buenos Aires. As Convidadas, lançado originalmente em 1961, é considerado emblemático em sua maturidade estilística. As obsessões da escritora, como as crianças que agem de maneira enigmática e muitas vezes parecem mimetizar os adultos, chegam-nos já no primeiro conto, “Assim eram seus rostos”, até atingirem uma apoteose no texto que dá título ao livro. Nele, um garoto enfermo é deixado a sós com a empregada em seu aniversário de seis anos, quando recebe como convidadas meninas estranhíssimas, vindas sabe-se lá de onde. O desfecho é uma síntese do humor absurdo presente na prosa de Silvina, sempre atravessada por elementos insólitos e perturbadores.

Gabo & Mercedes: Uma despedida, de Rodrigo García (Record, 112 páginas, R$ 64,90)

O relato íntimo dos últimos dias de um dos maiores autores da literatura mundial, Gabriel García Márquez, e de sua esposa e musa inspiradora Mercedes Barcha, escrito pelo filho mais velho do casal, Rodrigo García. Em 2014, aos 86 anos, Gabriel García Márquez, um dos escritores de língua espanhola mais queridos do mundo e vencedor do Prêmio Nobel de Literatura, pegou um resfriado. “Desta, a gente não sai”, disse Mercedes Barcha, sua esposa havia mais de cinquenta anos, a Rodrigo, filho mais velho deles. Para tentar dar sentido ao período difícil que a família teria pela frente, Rodrigo começa a colocar em palavras detalhes daqueles dias que ficariam para sempre em sua lembrança. O resultado é uma crônica forte e emocionante dos últimos momentos do mestre latino-americano e de sua musa inspiradora, que nos deixou seis anos depois de perder seu amado Gabo. Com talento, respeito e delicadeza, Rodrigo García traça um retrato comovente e revelador de uma família que sofre com a perda de um ente querido e transforma uma das mentes mais brilhantes da literatura internacional em um memorável protagonista. Em um encarte com fotos, ele relembra os dias de glória do pai como escritor, momentos marcantes do casamento dele com Mercedes e da vida em família.