Hífen, de Patrícia Portela

Hífen, de Patrícia Portela

Eu gostei muitíssimo deste livro recém lançado pela Dublinense e que está disponível na melhor das livrarias, a Bamboletras.

Hífen é um romance muito conectado com o que vivemos agora. É sobre uma epidemia, sobre maternidade, sobre deportados, sobre tecnologia. É também uma distopia, mas não é aquela distopia que desconsidera aspectos psicológicos e humanos para se apoiar apenas em tecnologia, autoridade e opressão. Não, é uma distopia a ser espreitada aos poucos, através dos depoimentos pessoais de suas narradoras e, mesmo que uma delas seja uma androide, tudo está encharcado em humanidade.

De um modo geral, há quatro classes de capítulos. Os escritos por Ofélia, uma mãe imigrante numa Europa que não tem espaço para ela; os por Maria do Carmo, uma enfermeira androide que deseja ser imperfeita e humana; e há também as notícias de jornal e as receitas gastronômicas.

A ação se passa em Flândia, uma espécie de sucedâneo da Europa. Seus habitantes são os flans, pessoas que sofrem de solidão crônica, usam óculos (como eu) e são daltônicos (como eu). A região ”não é bem um país, nem um Estado, e seu prato mais tradicional é o Pudim Flan”. Fora de Flândia há outro país muito mais pobre, Olival, cujos habitantes querem entrar em Flan e que às vezes são deportados.

Acontece que as crianças da Flândia, naquela idade em que recém foram alfabetizadas, entre os 8 e os 12 anos, começam súbita e estranhamente a dormir. Todas elas caem numa espécie de coma, como o descrito nesta notícia real, só que as de Flândia caem num sono sem fim.

A princípio, o formato fragmentário esconde a seriedade do romance. São reflexões sobre o mundo e divagações aparentemente casuais mas que acabam por revelar uma, duas ou três histórias trágicas. A certa altura, a androide Maria do Carmo escreve que “… uma história linear é apenas um tabefe muito eficaz num mar de possibilidades que cada segundo de uma vida orgânica pode oferecer”.

A principal personagem humana chama-se Ofélia, mãe de uma menina identificada como Z. A outra é Maria do Carmo, a androide que deseja ser humana e até a escrever manualmente. É um livro triste que não aponta saídas — não é para isso que os romances existem, certo? –, mas não é catastrófico. É antes de tudo poético. Os textos de Ofélia para sua filha são belíssimos, assim como os de Maria do Carmo sobre o humano.

E o hífen? O hífen é uma conexão. O que junta duas coisas para muitas vezes formarem não uma soma, mas outra coisa. Como um guarda-chuva, um arco-íris, a boa-fé, uma segunda-feira, uma mesa-redonda. Pode ser como uma flor que é comida por um animal que depois morre e se desintegra para deixar germinar a semente que carrega em outro lugar. Pode ser a conexão entre leitor e autor. Como escreve Ofélia: “Ler é o hífen entre o leitor e o autor, o que nos permite compreender o que estamos a ler. Entre a novidade que lemos e o que já sabemos”.

RECOMENDO MUITO.

Dias úteis, de Patrícia Portela

Dias úteis, de Patrícia Portela

— Pai, quando é que tudo melhora?
— Quando te habituares a isto, filho.
Patrícia Portela, Dias Úteis (segunda-feira)

Dias úteis é um pequeno livro formado por um prefácio e seis contos, um para cada dia da semana, e mais um epitáfio para o domingo. Não há continuidade entre eles, são mais monólogos onde o poético, o lírico e o humor estão bem presentes. É excelente e intrigante. A escrita ou os temas abordados não parecem possuir um plano, são mais improvisações sem um tema-base, como o free jazz. A ideologia artística de Portela parece ser a de deixar-se assombrar-se com o que aparece de surpresa, com aquilo que se deixa mostrar sob os bons modos e a compostura, com a intimidade mais minudente. Adorei a terça-feira, onde uma mulher diz precisar de férias e passa a planejá-las. Ela primeiro fala em um fim de semana fora de casa e depois passa a fazer planos que incluem cada vez mais dias e viagens mais longas — chegando a algo como um “paroxismo” de férias, independência e liberdade.  Ela planeja uma mudança de vida em outro continente, aprendendo outras línguas. Tudo acaba na China. mas ela logo volta à razão (ou ao comum) e acaba desistindo de tudo. O final é muito engraçado. O altamente poético sábado, chamado aqui “Porque hoje é sábado” talvez seja o melhor conto do livro. Ele fala da memória que temos da pessoa amada que morreu — “a memória é um inimigo poderoso, mantém o cérebro a funcionar contra a sua vontade.”

Curiosamente, temos muito Brasil neste livro. Além do “Porque hoje é sábado” — título arrancado a Dia da Criação, de Vinícius de Moraes –, há epígrafes de Drummond, João Gilberto Noll, Machado de Assis, Adélia Prado, de uma carta de Erico Verissimo para Clarice Lispector, e ainda cita o Carnaval do Rio no prefácio que estabelece um jogo sem regras que pode ser recebido diferentemente por cada leitor.

Foto: publico.pt

Bamboletras recomenda duas geniais mulheres negras e um mestre

Bamboletras recomenda duas geniais mulheres negras e um mestre

A newsletter desta quarta-feira da Bamboletras.

Olá!

Nesta semana, estamos felizes de recomendar livros tão bons e relevantes. Não é todo dia que a gente pode reunir Alice Walker, Elisa Lucinda e Thomas Bernhard na mesma recomendação. Confira abaixo nossas justificativas!

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Em busca dos jardins de nossas mães, de Alice Walker (Bazar do Tempo, 376 páginas, R$ 69,90)

Primeira mulher afro-americana a receber o Pulitzer de ficção, Alice Walker também foi pioneira ao tratar de vários temas da cultura negra dos Estados Unidos. Ainda nos anos 1970, abordou pela primeira vez questões raciais como o colorismo, e passou a defender um ponto de vista mulherista, termo reivindicado pelo feminismo negro para expressar as particularidades de suas lutas. Filha de trabalhadores rurais, Alice Walker experimentou a violência da segregação racial e as dificuldades de ser uma mulher negra no Sul do país, contexto que incorporou em seu romance A cor púrpura e que está presente em vários ensaios deste livro. Entre perspectivas pessoais e políticas, a autora nos convida a acompanhá-la na busca da própria identidade e das referências afro-americanas, muitas delas apagadas pela história. Seguindo-a nesse caminho, nos deparamos com Zora Neale Hurston, Martin Luther King, Phillis Weathley, e chegamos ao jardim de uma casa modesta na Geórgia. Lá, em meio a uma rotina sem descanso, sua mãe encontrou a porção diária de vida cultivando dedicadamente suas flores -– e Alice Walker, o sentido desse legado materno.

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Mestres Antigos, de Thomas Bernhard (Cia. das Letras, 184 páginas, R$ 64,90)

Podemos dizer que há algo de errado em quem não conhece Thomas Bernhard, autor de diversas obras-primas… Vejam só este Mestres Antigos. Por mais de trinta anos, Reger, um crítico musical octogenário, sentou-se no mesmo banco diante da pintura Homem de barba branca, de Tintoretto, no Museu de História da Arte de Viena. Ali ele reflete, dia sim, dia não, sobre a sociedade contemporânea, seus pares, a arte e os artistas, sobre o clima e até o estado dos banheiros públicos. O amigo Atzbacher, um filósofo bem mais jovem, é convocado a encontrá-lo no museu num sábado, dia sempre evitado pelo crítico. É através do seu olhar que passamos a conhecer mais sobre Reger – a morte trágica de sua mulher, seus temidos pensamentos suicidas, a relação difícil com seu país e, por fim, qual o verdadeiro propósito daquele encontro. Tão pessimista como exuberante, rancoroso e ao mesmo tempo hilário – no melhor estilo de Thomas Bernhard –, o romance é composto de um único parágrafo que se estende por 182 páginas e remonta uma série de conversas entre os dois amigos. Mestres Antigos foi publicado originalmente em 1985 e é um retrato satírico da cultura e da nação austríaca, discutindo questões como genialidade, classe e as aspirações da humanidade.

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Vozes Guardadas, de Elisa Lucinda (Record, 518 páginas, R$ 69,90)

Após a notável participação de Lucinda nos Diálogos Contemporâneos na última quarta-feira, escolhemos lembrar deste tremendo livro de 2016. Com a delicadeza, a sensualidade, a inteligência e o humor que marcam a sua criação artística, os versos deste Vozes guardadas revelam amores contidos e outros obscenos, num mundo vasto de espantos, lágrimas, risos e paixões. Ao entregar ao público mais uma leva das “multidões de vozes” que a habitam, a poeta se despede dessas vozes guardadas para dividi-las com todos, fazendo delas nossas próprias vozes. Penetrar no universo dos poemas de Elisa Lucinda exige estancar o tempo e a correria da vida: um delicioso e irrecusável convite.

Homem com Barba Branca (circa 1570), de Tintoretto (Jacopo Robusti)

A Coleção Privada de Acácio Nobre, de Patrícia Portela

A Coleção Privada de Acácio Nobre, de Patrícia Portela

Este é um romance nada convencional. É para quem gosta de vanguarda. A história parte de um baú encontrado pela autora na casa de seus avós. Dentro dele, ela encontra o espólio de um certo Acácio Nobre, já falecido. Ali estão objetos, correspondências, desenhos e documentos do mesmo. Acácio Nobre é uma figura que existiu, mas da qual não se encontram os rastros… O Google, por exemplo, o desconhece. Mas ele foi conhecido de importantes figuras de sua época, além de inventor e visionário. Imagina-se que ele teria nascido em 1868 e vivido até 1969. O livro é o conjunto, um a um, dos itens encontrados no baú, ou seja, é uma colagem do que foi sua vida. Em minha opinião, ele é uma realidade ficcional, mas nada disso interessa.

Acácio tinha a convicção de que as obras de arte deveriam permanecer anônimas, para poderem sobreviver ao artista e isto contribuiu para a quase inexistente documentação sobre ele. “Quero estar morto quando estiver morto! Que viva por si só a obra! A verdadeira imortalidade só se atinge quando nos apagamos definitivamente deste mundo”. Claro que ele não gostava de ser fotografado, embora o boato de ter sido registrado por Man Ray.

Por mais de 25 anos, desenhou puzzles geométricos para a Richter & Co. Uma de suas principais criações foi o Ovo de Colombo, que se desfazia em muitas peças e com as quais era possível montar um enorme número de imagens de aves. Também por suas estranhas ideias, foi investigado pela PIDE, a Polícia Internacional e de Defesa do Estado, espécie de DOPS da ditadura portuguesa. No relatório da PIDE, que aparece no livro, é definido como um “louco, desenhista, alpinista e monge tibetano”. Não havia registros de sua identidade ou nascimento. Por todas essas características, ele tinha um potencial subversivo e perigoso e, mesmo que se desconhecessem ações concretas neste sentido, a PIDE estava de olho.

Além disso, ele adorava escrever cartas para políticos e importantes personalidades a fim de  solicitar auxílio na implementação de uma unidade do Instituto Fröbel em Portugal. A ideia do instituto era a de desenvolver o raciocínio lógico e a capacidade de desenhar, coisas que Acácio considerava imprescindíveis para todos os indivíduos. Sim, ele estava numa cruzada de alfabetização gráfica.

Dos seus contemporâneos, Patrícia traz um possível encontro com Fernando Pessoa (1888-1935) no café A Brazileira, ponto de encontro dos modernistas portugueses. Enquanto Patrícia nos entrega Acácio peça por peça, vamos fazendo nossa própria montagem do personagem. Ele, Acácio, fala em Pessoa, mas também em Lorca, Picasso, Maiakovski, Malevich, Marinetti…

Também afirma que sempre viaja sem mala porque nunca usa nada duas vezes, mantendo uma constante necessidade do novo e por isso troca de nome, de realidade, mundo, vida, linguagem, cultura. “A soma das partes não dá uma só pessoa”.

O livro é acompanhado de inúmeros fac-símiles de textos de Acácio, assim como de seus projetos. Eu imagino que apenas uma escritora transdisciplinar pudesse escrever / montar um livro como este. É o que Patrícia é. Seu currículo é impressionante e este sim pode ser conferido no Google. Ela é licenciada em realização plástica do espetáculo e leciona dramaturgia, entre outras mil coisas. “A soma das partes não dá uma só pessoa”.

Recomendo.

 

Joseph Brodsky, em entrevista com o jornal Observer, em 25 de outubro de 1981

Joseph Brodsky, em entrevista com o jornal Observer, em 25 de outubro de 1981

Todos nós somos levados a uma armadilha psicológica armada por nossa civilização. Nossa mãe, babá ou outra pessoa, desde a infância, nos diz que a vida é bela, que a pessoa é bela, que o bem triunfará sobre o mal, e que o lobo malvado jamais virá. E quando nos deparamos com algo nojento, nossa primeira reação é: não pode ser, houve um erro — que cometemos nós ou, melhor ainda, outra pessoa. As mães deveriam dizer aos filhos que, cinquenta por cento das vezes, um lobo cinzento furioso aparece na soleira da porta e se parece com a gente.

Joseph Brodsky (1940-1996)

Porque era ela, porque sou eu

Porque era ela, porque sou eu

Encontrei a Clara Corleone sábado, na Feira do Livro. Ela estava com o meu livro na mão e pediu um autógrafo. Lembrei da dedicatória que ela me escrevera em seu livro anterior e busquei no cérebro algo de qualidade semelhante — isto é, de alta qualidade — enquanto conversava com ela e sua irmã Joana Alencastro. Elas são duas agitadas beldades, para usar um termo antiquado, mas evidentemente real.

De meu combalido cérebro não chegou nada de bom. Mas ouvi que eu era um dos poucos héteros brancos da minha geração com o qual valia a pena conversar. Ou não foi isso que ouvi?

O fato é que, se este branco hétero fosse um sujeito decente, deveria ter comprado o último livro da Clara e feito com que ela o assinasse de volta. Mas fiquei ali, de papo, lembrando que ela, falando sobre seu novo romance num encontro casual na Fernandes Vieira, tinha me dito que ficara com receio de alguma confusão de direito autoral que envolvesse Chico Buarque. Afinal Porque era ela, porque era eu é uma canção de Chico. Só que alguém lhe assoprou que a expressão viera de Montaigne.

Chegando em casa, pesquisei e mandei um Whats pra ela:

‘Porque era ele, porque era eu’: foi assim que Montaigne explicou as razões de sua amizade com Étienne de La Boétie. A explicação de uma amizade, no fundo, envolve a recusa de qualquer explicação, né? Estaríamos no campo da pura afinidade eletiva, ou melhor, da paixão, do amor.

Logo depois que mandei, fiquei pensando que fizera um típico mansplaining e já fui ficando puto comigo e com minha geração que NÃO APRENDE a não dizer obviedades para as mulheres. Sim, acho que tenho medo da nova geração de feministas. Mas, agora que soube que sou um velhinho hétero branco até que aceitável, tô de boas.

E comecei a ler o livro dela. Calma, tô só na página 33, mas gostando muito.

A Bamboletras recomenda três ótimos livros muito diferentes entre si

A Bamboletras recomenda três ótimos livros muito diferentes entre si

A newsletter desta quarta-feira da Bamboletras.

Olá!

Sim, muito diferentes entre si. E ótimos! O livro de Clara Corleone é uma espécie de Sex and the City melhorado, atualizado e acontecendo no Bom Fim e Cidade Baixa. O de Felitti é a biografia de Elke Maravilha, livro que tem surpreendido e encantado seus primeiros leitores aqui na Bamboletras. E o do chileno Zambra é uma importante obra latino-americana, um livro que vai ficar. Quem viu Zambra no Fronteiras do Pensamento, sabe do que ele é capaz.

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Porque era ela, porque era eu, de Clara Corleone (L&PM, 168 páginas, R$ 39,90)

Após o excelente livro de crônicas O homem infelizmente tem que acabar, Clara Corleone reaparece com um seu primeiro romance. Em Porque era ela, porque era eu, a autora aborda as relações amorosas-sexuais do século XXI, com homens e mulheres ora buscando novas formas de estar junto, ora reencenando antigos papéis. O belo título do livro nos remete primeiro a Chico Buarque e depois a Montaigne, verdadeiro autor da frase. “Porque era ele, porque era eu”, foi assim que Montaigne explicou as razões de sua amizade com Étienne de La Boétie. A explicação de uma amizade, no fundo, envolve a recusa de qualquer explicação. Estaríamos no campo da pura afinidade eletiva, ou melhor, da paixão, do amor. E Clara, num estilo arejado, com diálogos certeiros e instigantes, celebra a amizade entre mulheres e o poder de se reinventar. Um romance pulsante e grudante.

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Elke – Mulher Maravilha, de Chico Felitti (Todavia, 200 páginas, R$ 69,90)

Elke Grünupp nasceu na Alemanha em 1945. Tinha quatro anos ao desembarcar no Brasil, onde sua família se fixou no interior de Minas Gerais, para depois morar em São Paulo e no Rio Grande do Sul. Altíssima e loira, ela destoava esplendorosamente das belezas locais. Elke começou vencendo muito jovem um concurso de misses em Belo Horizonte — de onde saiu para as passarelas das capitais da moda. A carreira meteórica de modelo, condimentada pela irreverência teatral com que vestia as peças de alta-costura, abriu-lhe as portas da TV, que acabava de ganhar cores. Trabalhou como atriz e jurada nos programas do Chacrinha e de Silvio Santos, tornando-se muito famosa. Mas até agora só dissemos coisas pouco importantes. Elke foi dionisíaca e livre como os personagens que encarnou. Estudou medicina, filosofia e letras. Nos anos 1970, revoltada com a ditadura militar, chegou a ser presa por rasgar um cartaz com fotos de procurados pelo regime. Colecionou casamentos e namoros nem sempre felizes, como a união com um fã que não tardou a se revelar violento. Este perfil biográfico reúne a agilidade da reportagem e a argúcia do ensaio para retratar a santa padroeira da alegria na TV nacional e musa eterna do glamour para seus admiradores.

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Poeta Chileno, de Alejandro Zambra (Cia. das Letras, 432 páginas, R$ 74,90)

Verdadeira declaração de amor à poesia e aos poetas e retorno de Alejandro Zambra ao romance, Poeta chileno é uma história encantadora sobre família, literatura e paternidade. O protagonista deste romance, Gonzalo, é um aspirante a poeta e padrasto de Vicente, um menino viciado em comida de gatos, que mais tarde vai se recusar a ir à faculdade porque seu sonho é seguir os passos do pai postiço e se tornar também poeta — apesar dos conselhos de sua mãe Carla, e de seu pai, León, um tipo duvidoso. O poderoso mito da poesia chilena – “somos bicampeões na Copa do Mundo de poesia”, diz um personagem, referindo-se aos Nobel conquistados por Mistral e Neruda – é revisitado por Zambra, um dos principais narradores do continente. O livro é sobre poesia, é sobre poetas que desprezam o romance, é sobre a América Latina, é sobre os labirintos da masculinidade contemporânea (as recalcitrantes, as novas, as que estão em transição), é sobre os trágicos vaivéns do amor, é sobre famílias modernas e fragmentadas, é sobre o desejo de pertencimento e, sobretudo, é sobre o sentido de ler e escrever no mundo atual.

Clara Corleone em um de seus tradicionais saraus no Von Teese Bar | Foto: Carolina Disegna

Os livros mais vendidos na Bamboletras em outubro

E começamos novembro a todo vapor! Mas, antes, segue a habitual e célebre lista dos mais vendidos da Bamboletras! Em outubro, os autores locais seguiram em destaque, representando o estado melhor do que ele merece… E há também outros ótimos livros nacionais e internacionais. Olha só:

1. Mas em que mundo tu vive?, de José Falero (Todavia)
2. Os Supridores, de José Falero (Todavia)
3. Os Anos de Chumbo e Outros Contos, de Chico Buarque (Companhia das Letras)
4. Abra e leia, de Milton Ribeiro (Zouk)
5. Torto Arado, de Itamar Vieira Junior (Todavia)
6. O Lugar, de Annie Ernaux (Fosfóro)
7. Meia Siza, de Marieta dos Santos da Silveira (Pradense)
8. O Mapeador de Ausências, de Mia Couto (Companhia das Letras)
9. Escaler, de Paulo César Teixeira (Ballejo)
10. Duas Formações, Uma História: Das ideias fora do lugar ao perspectivismo ameríndio, de Luís Augusto Fischer (Arquipélago)

Sim, muitas novidades na lista, né? Vem conferir!

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Inter ensina a como entregar 3 pontos e entrar nervoso num Gre-Nal… Que vale 3 pontos

Inter ensina a como entregar 3 pontos e entrar nervoso num Gre-Nal… Que vale 3 pontos

Sim, sei da vontade colorada de ganhar um Gre-Nal e de afundar com o Grêmio. Sei também da mística e da simbologia que envolve o clássico, mas jamais esqueçam da matemática e do dito objetivo de alcançar uma vaga para a Libertadores 2022.

Pois poupando seus craques — ironic mode on –, o Inter entregou 3 pontos para o São Paulo. Ora, o atual São Paulo dói de ruim e poderíamos sair com um resultado melhor do Morumbi. Ontem, domingo, pouparam para um Gre-Nal que será sábado, seis dias depois… Yuri, Taison e outros estão com 2 cartões amarelos, mas sabemos que, bem orientados, atacantes podem jogar meses sem levar cartões.

Lembro de 2001, quando o Inter jogou com os reservas poupando jogadores para um clássico. Perdeu de 3 x 0 para a Portuguesa e depois, nervoso, perdeu também o Gre-Nal em casa. Eu estava no Olímpico e vi os descansados titulares perderem aquele jogo por 1 x 0. Também quero afundar o Grêmio, mas colocar isso acima do próprio clube é coisa de gente pequena, minúscula. E nosso comando têm sido repetidamente assim, diminuto.

Ao preservar jogadores no Morumbi, o Inter trouxe para si parte do peso que estava 100% com o Grêmio. Decretando a própria derrota para o São Paulo, assumiu risco alto na luta por vaga Libertadores. Já são quatro jogos sem vitória. Mas vamos lá.

Registros fotográficos familiares da época da construção do Beira-Rio

Registros fotográficos familiares da época da construção do Beira-Rio


Milton Nerd dentro do Beira-Rio em construção em setembro de 1968 (eu tinha 11 anos). A época era de ditadura, mas os óculos são do Realismo Socialista.


Eu e minha irmã …


E meu pai, falecido em 1993 e que infelizmente não pode ver Campeão do Mundo o clube que me inoculou com tanta competência.


Orgulho após impedir o octacampeonato do Grêmio (foto de janeiro de 1970, 12 anos)

A Bamboletras recomenda o último livro de Chico Buarque, o de Juremir e o de Mairal

A Bamboletras recomenda o último livro de Chico Buarque, o de Juremir e o de Mairal

A newsletter desta quarta-feira da Bamboletras.

Olá!

Acabamos de receber Anos de Chumbo, último romance de Chico Buarque, assim como também Memória no Esquecimento, romance de Juremir Machado da Silva, e Salvatierra, de Pedro Mairal. Talvez seja desnecessário apresentar estes 3 grandes autores de nuestro continente, mas, abaixo, deixamos algumas palavras sobre os livros.

Boa semana e boas leituras!

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Anos de Chumbo e Outros Contos, de Chico Buarque (Cia. das Letras, 168 páginas, R$ 59,90)

Após o excelente Essa Gente, Chico Buarque retorna com seu primeiro livro de contos. O Chico que emerge de deste livro imperdível é um autor amargurado, surrealista, irônico e perplexo diante deste país aflitivo. Uma jovem e seu tio. Um grande artista sabotado. Um desatino familiar, uma moradora de rua solitária, um passeio por Copacabana, um fã fervoroso de Clarice Lispector, um casal em sua primeira viagem, um lar em guerra. Imersos na atmosfera da ficção de Chico Buarque, caracterizada pela agudeza da observação e a oposição entre o lírico e o cômico, os oito contos que formam este volume conduzem o leitor pela sordidez e o patético da condição humana. Com alusões ocasionais à nossa presente barbárie, o autor ergue um labirinto de surpresas. Um livro arrebatador.

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Memória no Esquecimento, de Juremir Machado da Silva (Sulina, 310 páginas, R$ 54,90)

Nesse romance, Juremir Machado da Silva mergulha nas vacilantes memórias de seu protagonista. Em tempos nos quais o Alzheimer é tema cotidiano e atinge cada vez mais pessoas, tais situações, que criam dramas familiares e paixões que resistem ao desgaste, acabam por vencer o esquecimento. A narrativa é construída com detalhes ora poéticos, ora realistas, testemunhos de sutilezas do cotidiano de uma pessoa fragilizada. Fala também de vivências comuns, como o andar de bicicleta até perder o fôlego, o amor de um cachorro de estimação adotado quando filhote, os mistérios familiares e as ilusões que carregamos ao longo da vida. Impossível não querer descobrir as peças do quebra-cabeças desta história – assim como não se pegar pensando sobre o conjunto de suas próprias lembranças, identificando as paredes do próprio castelo.

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Salvatierra, de Pedro Mairal (Todavia, 112 páginas, R$ 54,90)

Um novo livro do autor de A Uruguaia e Uma Noite com Sabrina Love! Novo? Publicado originalmente em 2008, Salvatierra é um dos romances mais admirados do argentino Pedro Mairal. Juan Salvatierra, um pintor mudo, humilde e autodidata, deixa aos filhos uma misteriosa obra de arte como herança: um imenso mural que ocupa quase quatro quilômetros de rolos de tecido, produzido em segredo até o dia de sua morte. Miguel, o filho mais novo, é o principal encarregado de tomar algumas providências em relação à inusitada obra: resgatá-la do armazém onde estava guardada (ou abandonada) e providenciar sua transferência para um museu holandês. Começa então o trabalho de decifrar a obra. Com precisão, sobriedade e lirismo, o autor explora sutilmente as ligações entre o passado e o presente, entre pais e filhos e entre vida e arte. Uma narrativa evocativa, cheia de ressonâncias, sobre a verdadeira aventura que envolve o acesso ao mais íntimo daqueles que nos são próximos.

Acho que todos conhecem esse cara, não?

Que pessoa de bom gosto é a Morgana Machado… Leiam o que ela escreveu sobre meu livrinho.

Que pessoa de bom gosto é a Morgana Machado… Leiam o que ela escreveu sobre meu livrinho.

Milton, finalizei teu livro hoje.

Não sou analista criteriosa de escrita, narração e de todo o blá blá blá literário. Minha área é outra. Eu só leio. Minha opinião se sujeita ao gostar ou não gostar. Como já feito por alguns amigos teus, gostaria de poder tecer maiores análises para te passar, porém não é minha praia e acho prudente respeitar meus limites.

Posso te dizer que gostei! Gostei muito. Que alegria te conhecer e ter tido a oportunidade de ler teu primeiro livro. Tenho dificuldade com contos, são poucos os livros de contos que li, acabo sendo mais adepta aos romances, questão de gosto. Mas roubando uma frase de um amigo teu “o livro vai num crescendo” e isso nos prende querendo logo ler a próxima narrativa. Eu li parecendo que estava lendo um romance, mesmo sabendo que as histórias não se relacionavam.

Parabéns Milton. Peço gentilmente que providencie o próximo para que eu possa me exibir para os meus amigos dizendo: “Eu conheço esse escritor, ele é da Bamboletras, conheço desde o início da sua obra”.

Há oito anos — like a rolling stone

No dia anterior, ela visitara o ex-marido que ainda habitava o apartamento onde moraram por quase uma década. No momento de sua chegada, a filha correra para o lado do pai, como era habitual há alguns meses. Afinal, a mulher passara a encontrar defeitos em tudo que a enteada dizia ou fazia e a menina apressava-se em ir para a cama cedo todas as noites, antes que a mulher chegasse da faculdade — ou das festas. Desde dezembro, quando Marcos anunciara sua intenção de não fazer mais tentativas de fertilização in vitro, ela tratava a filha com visível desdém.

Mas naquele dia ela viera cedo, por volta das 20h. Quando entrou na sala, sua face de ossos proeminentes estava vermelha, ainda mais inchada do que o normal. Disse que precisava da chave do carro.

— Por quanto tempo?

— Dois ou três dias.

— Tudo bem, estão aqui.

E ela foi embora, não sem antes deixar no ambiente algumas ofensas, as quais foram recebidas com risos pelo marido e apreensão por parte da filha. O casal estava separado há três meses, desde que o marido descobrira o adultério da mulher, concretizado com um amigo da família.

Desde então, Marcos não sabia se ela estava morando na casa da mãe ou no apartamento do novo namorado. Eles ainda não tinham conseguido conversar a respeito dos acertos necessários. Na única visita que a mulher fizera ao advogado que ele constituíra, ela saiu batendo a porta, chamando-o de desaforado.

No dia seguinte, Marcos trabalhava normalmente quando recebeu uma ligação. Era de sua ex-mulher e ele atendeu prontamente, pensando que ela lhe faria algum gênero de proposta de separação. Mas não. Ela lhe comunicou aos berros — e com um turbilhão de ofensas de baixo calão — que tinha trocado as chaves da porta do apartamento e que ele deveria morar, e só por apenas quinze dias, na casa dos fundos, bem conhecida dele, já que sua mãe passara os últimos dias de sua vida ali. Suas roupas e alguns poucos pertences estavam lá.

Marcos desligou o telefone no meio da ligação e telefonou para sua filha. Esta já sabia de tudo e falou que a mulher estava louca. Ligou então para sua irmã, que também já tinha sido informada. Ligou então para vários amigos. Estes não sabiam de nada e ofereceram quartos para que ele passasse alguns dias. Eram unânimes; ele não deveria voltar lá. Marcos não pensava assim, achava que podia ficar na ex-casa de sua mãe por alguns dias. Ligou então para sua recente namorada e ela reafirmou: voltar está fora de questão. É que depois da agressão moral gratuita, os amigos tinham receio de outros ataques, verbais ou até físicos. De qualquer modo, Marcos foi até lá com um amigo. Chegaram calmamente, analisando o caso. Discutiam principalmente o caráter adesista da vizinha de cima, que apoiava sua quase ex-mulher. Riam das transformações instadas pelo oportunismo dela.

Ele foi até a casa de trás. Lá, viu suas coisas atiradas, trocou de roupa e foi embora. Recebeu um telefonema. Era sua nova namorada pedindo para que ele fosse ao concerto daquela noite, pois Eugênia, a mulher, sempre comparecia, tinha ambições políticas e estava montando uma Associação de Amigos da orquestra que daria o concerto. Ele deveria aparecer bem vestido e tranquilo. Marcos concordou.

Quando desceu as escadas com o amigo, olhou para a sacada de seu apartamento e viu Eugênia falando ao telefone. Ela voltou o rosto para ele. Este estava ainda mais inchado e vermelho.

Marcos foi ao concerto. Depois, foi a um pequeno hotel da rua marechal Floriano, onde deitou-se numa boa cama para receber uma chuva de pó de cupim, que entrava na boca e nos olhos e que lhe fez dormir de bruços. Pela manhã, tomou banho e foi trabalhar. No dia seguinte, quando saiu do trabalho, fez pela primeira vez aquilo que se tornaria um hábito. Por motivos óbvios — afinal, era uma pessoa asseada –, foi até a loja Só Cueca da Sete de Setembro, depois foi até a loja da Hering da Rua da Praia para comprar uma nova camiseta e subiu até a Jerônimo Coelho comprar meias. Com o tempo, na Hering, tornou-se uma da diversões das atendentes. Ao final da tarde chegava e perguntava o que deveria vestir no dia seguinte. Tinha que combinar com sua única calça e sapato. Elas usavam toda a sua criatividade para que ele tivesse as melhores combinações para sua calça bege e sapato marrom. Só que naquele 23 de outubro de 2013, Porto Alegre recebeu uma das maiores chuvas de sua história e a coisa não estava engraçada. Os sapatos reclamavam em voz alta, as calças estavam sujas, sujíssimas, e ele teria que lavar, mas como?

Acima, em vídeo a chuva de 23 de outubro de 2013 em Porto Alegre

Já estava tirando par ou impar entre a casinha de sua mãe e o hotel dos cupins. Subiu a Mal. Floriano e viu-a transformada numa cachoeira. Mas não podia desobedecer à ordem dos amigos e da namorada, eles foram seus esteios. Havia vários oferecimentos de quartos, mas cadê a cara-de-pau? Marcos estava pegando o telefone para falar com alguém, ao mesmo tempo em que dirigia uma vaga prece aos cupins, quando ele tocou. Era sua namorada dando-lhe uma quase-ordem:

— Não te preocupa com a chuva, vem para cá. Meus filhos estão na casa do pai. Tenho lavadora e secadora. Amanhã, tudo estará limpo.

Eram namorados recentes e ele ainda não tinha dormido na casa dela. Os sapatos ficaram no corredor. Marcos entrou na ponta dos pés. Hoje, mora lá há mais de oito anos.

Sim, vamos, Eduardo Leite

Sim, vamos. Pois quem é que não sabia? Naquele domingo de eleição, houve gente literalmente chorando no balcão da Bamboletras. E tu estavas comemorando, Leite.

Tu fizeste campanha pro cara que matou desnecessariamente 450 mil brasileiros — o cálculo de mortos no país, se houvesse ação efetiva do governo, é de 150 mil. Inadvertidamente, mas por burrice, falta de visão e opção classista, foste parceiro em um genocídio, meu caro.

E agora tu pedes pra gente esquecer…

E Aline Passos completa:

Em todos os governo eleitos, existe uma relação óbvia: quem os elegeu carrega responsabilidade por isso.

Agora que estamos no pior governo da história, fascista, burro, corrupto, grosseiro, os eleitores não querem assumir a parte que lhes cabe no genocídio. E mais: querem atribuir justamente a quem não votou em Bolsonaro, o resultado dessa merda toda.

Ora, Sr. Eduardo Leite, se você cravou 17 na urna em 2018, esse voto é seu, somente seu. Talvez, como menino branco, rico, mimado, o Sr. não tenha sido ensinado a lavar a privada onde caga, mas isso não quer dizer que foi outra pessoa que cagou. Assumir a própria merda seria um bom sinal de que deixou de ser o filhinho de papai e se tornou, sei lá, adulto, que é requisito pra se candidatar, aliás.

Pergolesi, meus queridos, Giovanni Battista Pergolesi!

Pergolesi, meus queridos, Giovanni Battista Pergolesi!

Pergolesi morreu em 1736, aos 26 anos, de tuberculose. Tinha imenso talento e, é claro, jamais se saberá o que poderia ter feito se tivesse vivido mais.

Deste modo, a imagem de Pergolesi cristalizou-se com base em poucas obras — e algumas são obras-primas absolutas.

Suas melodias demonstram uma personalidade criativa extremamente sofisticada. As obras sacras são caracterizadas pela devoção e intimismo comovedor, onde o sagrado é entendido como fonte de experiência emocional.

Seus últimos meses de vida foram passados no mosteiro franciscano de Pozzuoli, para onde se retirou, aparentemente convencido de que a tuberculose não lhe permitiria regressar a Nápoles.

Foi no mosteiro e no ano de sua morte que escreveu o Stabat Mater. É uma peça sublime que a OSPA apresentará neste sábado, às 17h. (Aliás, a nova sede da orquestra está ficando linda, Evandro. E o novo logo ficou perfeito).

Para ficar ainda melhor, veremos Raquel Helen Fortes cantando, com a Elena no concertino e regência de César Bustamante.

Sábado, tá?

Dá para ir e dá para ver no YouTube, o que não dá é para não apoiar a Ospa.

P.S. — E ainda tem o Exsultate, Jubilate, de Mozart, no programa.

Raquel Fortes | Foto: Leandro Rodrigues
Elena Romanov

Minha sessão de autógrafos na Feira do Livro será no dia 30, às 19h

Minha sessão de autógrafos na Feira do Livro será no dia 30, às 19h

Ai… É com imenso receio e dor no coração que lhes aviso que estarei autografando meu livro “Abra e Leia” na Feira do Livro 2021. Será no dia 30 de outubro, sábado, às 19h, na Praça de Autógrafos.

Acho que vou contratar 4 pessoas para ficarem formando uma fila falsa, circular. Eu prometo fazer uma anotação no início de cada conto. Como são 22, darei 88 autógrafos.

(Quem leu o livro, deve lembrar do começo de “Os Velhinhos”. Por que fui escrever aquilo?).

Bem, gente, é isso. NÃO ME DEIXEM SÓ! Por favor, leve sua solidariedade! É bonito e digno. Eu juro que não vou escrever gratiluz na dedicatória, tá?

Gustavo Melo Czekster sobre Abra e Leia

Gustavo Melo Czekster sobre Abra e Leia

Não faz muito tempo li um comentário que alguém escreveu sobre o livro Abra e leia, do Milton Ribeiro, dizendo que, por conhecer e apreciar o autor, tinha receio de se decepcionar com o livro. De certa forma, era o mesmo que eu sentia e, agora que li a obra, posso garantir a vocês, potenciais leitores, que não, não há nenhum risco disso acontecer. Pelo contrário, aliás: a admiração de vocês pelo Milton só tende a crescer. Quer dizer que o cara, além de entender de música, ter uma livraria, fazer ótimas resenhas e ser colorado, ainda é escritor? Mas quantas vezes ele entrou na fila de distribuição de benesses e qualidades? Precisa de uma CPI isso aí, hein.

Abra e leia foi uma leitura que comecei um pouco receoso, mas que logo foi se tornando prazerosa e, com o passar do tempo, até esqueci que era o Milton quem tinha escrito o livro. Só lembrava disso às vezes, quando o Milton aparecia dentro das histórias quase como um fantasma assombrando suas criações. É um livro que faz algo inédito nos tempos atuais: ele conta histórias. Sejam insólitas, trágicas ou cômicas, os contos de Abra e leia resgatam aquele prazer quase indescritível que é ler uma história bem escrita e bem contada, do tipo que parece estar se desenrolando diante dos nossos olhos e que estamos testemunhando acontecer. Em suma, uma maravilha de leitura. E, se alguns contos parecem acabar de uma maneira abrupta ou sem nenhum tipo de epifania, é por que a vida também acontece assim: cheia de cortes, de questões não respondidas, de finais que a gente não sabe se existem mesmo ou se só inventamos para não pensar mais naquilo.

Um detalhe de ritmo que o Milton tirou da música e trouxe para o livro: ele vai em um crescendo. Começa com boas histórias que, aos poucos, vão cativando a atenção, e a consistência narrativa vai se aprofundando cada vez mais até chegar em uma sequência final de contos realmente extraordinários. Melhor ir lendo aos poucos para ter essa impressão de arrebatamento, que eu nem consegui ver quando começa de verdade (sinal de que foi bem feita a escolha da ordem dos contos), mas, em geral, uma seleção de contos vai alternando maus, bons e ótimos momentos, algo que não acontece em Abra e leia, em que aquilo que era bom no início fica excepcional no final.

Entre os contos, gostei muito da praticidade filosófica e engraçada presente em Luciana e o hedonismo, do insólito em Os velhinhos, da situação quase kafkiana em Enquanto os psicanalistas se divertem, da maravilhosa construção de personagem em O Violista (muito leria um romance inteiro com esse personagem, um Sancho Pança sem Quixote), da estranheza que chamamos de vida em As afinidades ininteligíveis – quem nunca se perguntou “como foi que já gostei dessa pessoa no passado?” -, da insuspeitada força de Abra e leia, que tem um final extremamente vigoroso, e da tragédia que vira comédia em Anita e Belle, que me fez dar uma gargalhada tão alta que possivelmente acordei meus vizinhos nessa última madrugada.

Eu sei que muitas pessoas hoje consideram a literatura como um exercício sociológico, outros tentam mudar o mundo através dos seus livros, tem aqueles que desejam expressar sua visão pessoal ou filosofias particulares usando uma moldura ficcional, e está tudo bem querer isso, cada um com a sua literatura. Eu, contudo, como sou um leitor antiquado, do tipo que gosta de ler boas histórias, daquelas que me enganem muito bem e me façam acreditar piamente no que foi narrado, posso garantir que gostei muito de Abra e leia, tanto que agora farei ao Milton a pergunta temida por qualquer escritor: tá, e daí, quando vem o próximo?