Vidas Secas, de Graciliano Ramos

Vidas Secas, de Graciliano Ramos

Caiu-me nas mãos este clássico que li quando adolescente e lá se vão 50 anos. Por que não relê-lo? É um dos livros mais importantes de nossa literatura e, mesmo 50 anos depois, lembrava-me de todo o capítulo da morte da cachorra Baleia em detalhes, quase palavra por palavra, principalmente o final. Nesta segunda leitura, ficou clara a intenção inicial de que Vidas Secas (1938) fosse um livro de contos. Cada capítulo pode ser lido separadamente, mas o todo forma um estupendo romance. O que parecia um mosaico bem montado na primeira leitura, me apareceu mais avulso agora, como se fossem fatos jogados muito artisticamente pelo velho Graça. Ou como quadros de uma exposição.

Vidas Secas foi o único romance que Graciliano escreveu na terceira pessoa. Por motivos de ordem puramente financeira, ele enviava os capítulos para jornais e revistas. Dos 13 capítulos, oito saíram antes em periódicos. Baleia, que é o Capítulo 9, foi o primeiro a ser escrito e publicado. Era um conto sobre a morte de uma cachorra. O quarto, Sinhá Vitória foi o segundo a ser escrito. Mudança, o primeiro, foi o terceiro a ser escrito. Não havia um roteiro. O foco era dado em momentos-chave daquelas seis vidas sofridas — pai, mãe, 2 fihos, mais Baleia e o papagaio –, mas as algumas peças podem ser retiradas do romance e a ordem pode até ser alterada, desde que com cuidado. A unidade vem do tema. Rubem Braga chamou-o, com razão, de “romance desmontável”.

A história é de retirantes nordestinos fugindo da seca, passando fome e sendo enganados financeiramente pelo proprietário da fazenda, que se utiliza da ignorância e do medo de Fabiano, o pai e marido. O estilo é igualmente seco, minimalista, sem firulas. Mesmo aquilo que poderia ser patético ou ridículo, como a prisão e a ida à festa, é narrado com enorme economia, sem julgamentos ou teorizações. Foi assim e pronto. Não é um ensaio, é pura ficção cortante. O que interessa à Graciliano é o homem e seu sofrimento. o ser primitivo e (muito) limitado que tenta sobreviver a um ambiente hostil e injusto. Graciliano não era um sujeito apenas engajado politicamente, era um artista e escritor comunista. Creio que isto fique bem claro neste livro.

Vidas Secas é uma curta obra-prima que desde janeiro, quando a obra de Graça caiu em domínio público, está custando até R$ 19,90. Aproveitem!

Gracilano Ramos (1892-1953)

 

Vocês sabem quais são os cinco livros mais cobrados no Enem e vestibulares?

Vocês sabem quais são os cinco livros mais cobrados no Enem e vestibulares?

Um cursinho pré-vestibular paulista — esqueci o nome — fez uma revisão em todo o país e chegou à conclusão de que as questões de literatura costumam cair mais sobre estes livros do que em outras plagas. Não tive surpresa, mas lamento a presença de O Cortiço, livro que achei apenas bom. Mas não sei como o substituiria por outro(s). Guimarães Rosa talvez seja complicado demais para gente tão jovem, mas talvez haja vários Ericos e Amados que poderiam entrar no lugar do Azevedo, para não falar em modernos como Raduan Nassar, que, poxa, poderiam comparecer. Os outros quatro da lista são obras indiscutíveis e nem dá para polemizar. Vontade de largar o trabalho e reler os quatro últimos AGORA.

O Cortiço, de Aluísio Azevedo
Dom Casmurro, de Machado de Assis
Vidas Secas, de Graciliano Ramos
Laços de Família, de Clarice Lispector
A Rosa do Povo, de Carlos Drummond de Andrade

Clarice com um amigo.
Clarice com um amigo.

Há 120 anos, nascia um mestre: Graciliano Ramos

Os 120 anos de um dos maiores escritores brasileiros, Graciliano Ramos

Publicado em 28 de outubro de 2012 no Sul21

Graciliano Ramos viveu 60 anos e nasceu há 120, precisamente em 27 de outubro de 1892. Durante sua vida, publicou 10 livros. Tal simetria combina bem com o estilo do escritor – seco, elegante, de um regionalismo muito particular, discreto e onde estavam presentes mais a condição social e a psicologia do que as descrições de costumes e o ambiente. A política, aliás, apareceu em sua vida antes do escritor. Graciliano nascera em Alagoas, na cidade de Quebrângulo. Aos dezoito anos de idade, mudou-se para Palmeira dos Índios, onde o pai era comerciante. Em 1928, tornou-se prefeito. Um excelente prefeito. Permaneceu no cargo por dois anos, renunciando em 1930.

Durante sua gestão, tomava atitudes polêmicas como a de soltar os presos para que construíssem estradas. Outra curiosidade é que seu talento para a literatura foi descoberto a partir dos relatórios que escrevia como prefeito. Ao escrever um relatório ao governador Álvaro Paes, chamado “Um resumo dos trabalhos realizados pela Prefeitura de Palmeira dos Índios em 1928”, publicado pela Imprensa Oficial de Alagoas em 1929, o escritor se revela mesmo ao abordar assuntos de rotina da administração. Seus relatórios impecáveis, mas também irônicos e apresentados em forma livre, dificilmente seriam lidos sem estranheza e admiração. Após a renúncia, foi nomeado diretor da Imprensa Oficial de Alagoas. (Aqui, temos o relatório enviado pelo prefeito Graciliano ao governador de Alagoas em 1930). Read More