Dois invernos

O inverno do nosso descontentamento
Shakespeare, Ricardo III

O inverno de meu descontentamento começou uns dias antes de 21 de junho e logo transformou-se em inferno.

Tive nas minhas mãos cada um dos ingredientes para iniciar uma das épocas mais podres de minha vida, com direito a ser testemunha da organização de uma espécie de fracasso público bastante injusto. Fiz bem em me recolher e então comecei a ter um dos maiores delírios de imodéstia de minha vida. Decidi que, desta vez, eu quereria o que efetivamente desejava, que eu tinha o direito de tentar converter em atingível o inatingível, de tornar a aventura ventura. Passei a olhar para o alto. E caminhei ao encontro daquela mulher cheia de modos, que parecia sempre chegar pelo ar; aquela muito linda, de belas expressões e frases cheias de reticências; aquela que me causava espanto ao explicar sempre melhor o que eu dizia, a que me ensinava a não imaginar tanto e considerar que dois e dois podiam resultar em, simplesmente, quatro; aquela que me disse que eu sabia ouvir e fazer-me ouvir e que narrava histórias tristes a seu respeito.

É preciso ter paciência para conhecer qualquer história, senão bastaria contar o início e o fim delas, sempre muito parecidos. Estamos nas preliminares de uma. Hoje, o que tenho a dizer é que a primavera de meu contentamento começou uns dias antes de 22 de setembro.

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De Sophia de Mello Breyner Andresen:

De Sophia de Mello Breyner Andresen:

Mundo nomeado ou A descobertas das ilhas

Iam de cabo em cabo nomeando
Baías promontórios enseadas:
Encostas e praias surgiam
Como sendo chamadas

E as coisas mergulhadas no sem-nome
Da sua própria ausência regressadas
Uma por uma ao seu nome respondiam
Como sendo criadas

Ilha-Grande

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Um pequeno documentário sobre a expedição de Shackleton e seu Endurance

Um pequeno documentário sobre a expedição de Shackleton e seu Endurance

ENDURANCEParece uma história inventada por Jack London, só que é verídica. Sabendo de minha admiração, o Augusto Maurer me passou o link do filme abaixo a respeito do Endurance. Há também o livro de Caroline Alexander que, para lá de ser uma excelente narrativa, traz as fotos de Frank Hurley em todo o seu esplendor, como pode ser visto em parte no link acima. O irlandês Shackleton perdeu a corrida ao local do Polo Sul para Amundsen, mas sua jornada e competência em salvar todos os seus homens é fascinante. Certo, toda esta admiração pode ser “coisa de menino”, mas como e para que matá-lo em nós?

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