Os cagões das letras

Fico feliz cada vez que leio um escritor se manifestando politicamente. Compreendo a necessidade de receber a grana das feiras que ocorrem em várias cidades e que são fundamentais para a sobrevivência, sei que os secretários “de cultura” são em maioria bolsonaristas ou evangélicos, mas saúdo a coragem dos poucos que vão de encontro à vulgaridade da extrema direita — para dizer o mínimo. Hoje li alguns falando sobre o início do julgamento, mas a maioria fica quieta com medinho, fazendo gracinhas com platitudes.

Gente, quem lê livros não é bolsonarista. Por exemplo, aqui na Livraria Bamboletras, até hoje, ninguém se identificou como tal.

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Infinita, de Camila Maccari

Infinita, de Camila Maccari

Numa de suas entrevistas, sempre interessantes, Ingmar Bergman disse que às vezes obrigava seus personagens a fazerem coisas que ele mesmo não queria fazer. Esta é a impressão que tive ao terminar a leitura do ótimo Infinita, de Camila Maccari. Mas vou adiante sem spoilers, tá?

A personagem principal deste excelente romance decide que — atendendo a sugestões — precisa mesmo de um tempo para si. Sai cansada do trabalho e vai tomar uma cerveja num bar. O que seria relaxante acaba numa cena de triste comicidade. A cadeira onde está sentada quebra devido ao alto peso da usuária, que cai estatelada no chão. Ela levanta, tentando manter a dignidade, mas imaginando a qualidade de cena que protagonizou. O fato atinge algo essencial nela: o tamanho de seu corpo, exatamente aquilo que deveria passar despercebido. Este é o estopim de uma série de decisões que acontecem misturadas a memórias de fracassos pessoais, sucesso profissional, violências. É um corpo que, não adianta, sempre entrará no espaço social de forma inversamente proporcional a seu tamanho. Tanto maior, quanto mais exíguo.

Depois disso, a protagonista sem nome faz um levantamento emocional da gordofobia, do julgamento das pessoas, dos regimes que a levaram a perder e recuperar metade de seu peso, da falta do direito de existir — fato que ela até parece admitir, pois trabalha com eficiência e como uma condenada para que os colegas a amem e não vejam sua gordura… A narrativa vem em duas camadas: a primeira é a do quase gentil narrador onisciente, em terceira pessoa, e outra em itálico, muito mais acusatória e que trata a mulher por “você”. Claro que esta é uma voz interna, muito mais terrível.

Maccari é minuciosa. Detalha cuidadosamente os sentimentos para mostrar como tudo aquilo é cansativo.  Até as pessoas que a amam estão de olho. A voz em itálico responde às acusações gritando pai, se não fosse por isso, eu seria perfeita. Seu corpo é tema público, seja pelo emagrecimento (elogios), seja pelo aumento (silêncio, exame). Ainda sobre os pais: “Quando surgia cada vez mais gorda na frente deles, era como se o rosto dos dois se transformasse em um espelho e a única maneira de fugir de sua imagem refletida era não se colocando diante dela”.

A escrita está perfeitamente adequada ao tema. Sem grande poesia, a narradora fala sobre a gordofobia e sobre aquelas raras pessoas que não dão importância a seus processos e tentativas. Pouco a pouco, a narrativa torna-se mais cínica e feroz, o que é lindo de ler, pois este leitor não gosta da vida cor-de-rosa e sim da vida interessante… À moda Calligaris. O final do livro é extremamente elegante e simbólico.

Sem ilusões, Infinita não resolverá o problema de ninguém, mas fala de como os magros se apropriam e batem nos gordos. De como os “em forma” impedem o amor-próprio deles impingindo-lhes a rejeição e a autorrejeição. Claro que não é um livro confortável, mas há uma boa dose de consolo e reconhecimento nele. Calma, também não é uma aula de empatia, é uma narrativa realista e dura, que dá valor ao silêncio.

Recomendo.

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Para iniciar o mês

Para iniciar o mês

Leio Tchékhov não porque ele seja um revolucionário ou porque ofereça uma visão em que a vida brilhe especialmente, mas porque ele acompanha seus personagens (e a nós) ao lugar do estreitamento da vida, onde somos pressionados por todos os lados. Entrar nos túneis de uma história de Tchékhov é sentir esse estreitamento que nos confunde e nos aflige — seja pela pobreza, pelo desespero, pela indolência ou pelas ilusões — e, ao mesmo tempo, compará-lo com a imensidão de nossas esperanças.

Depois, muitas vezes tomamos consciência de alguma bondade que nos acompanha àquele lugar estreito, em meio a toda a nossa aflição. Leia quase qualquer história de Tchékhov e você sentirá simultaneamente a pobreza da vida, as vaidades do ser humano e o poder da empatia.

Acho sua obra encorajadora precisamente porque cada personagem está humanamente contrário a seus destinos sufocantes. E Deus não existe, claro, permanecendo em silêncio, sem aquela algaravia toda de Dostoiévski. No entanto, o testemunho atento e observador de Tchékhov dessas pessoas em luta soa como uma espécie de amor muito profundo.

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O amor é um monstro de Deus, de Luciana De Luca

O amor é um monstro de Deus, de Luciana De Luca

Muito bom livro. Lírico, cheio de ritmo e sensualidade, este romance argentino, muito bem traduzido por Sérgio Karam, constrói um cenário desolador em uma pequena vila do interior do país. Sob o olhar autoritário da mãe, a filha e narradora vive em uma casa sufocante. O pai nunca esteve verdadeiramente presente, o irmão vive com os porcos — parece ter problemas mentais. A mãe administra o destino da família com mão de ferro e crueldade. Ela não espera nada dos filhos, afastando-os por não corresponderem às suas expectativas. Além deste ambiente opressivo, há uma infestação de moscas, uma greve de coveiros e o calor sufocante e insalubre. Sim, parece que a nova e excelente literatura argentina não usa meias palavras. Ou usa? Usa sim. Pois há muita poesia e beleza na prosa de De Luca. Seu expressionismo não detalha muitas coisas e nem desenvolve grandemente personagens, antes torna a narrativa uma fonte de possíveis metáforas. A filha  é uma mulher gigante — sofre de acromegalia. –, o que dá mais um passo em direção ao expressionismo.

O amor é um monstro de Deus é um romance curto e de grande impacto. O texto de De Luca nos lembra outras vozes femininas intensas, também vindas da Argentina, como a de Mariana Enríquez. Os personagens, todos mais ou menos anômalos, compõem um cenário e tanto que é amplificado por uma prosa poética e perturbadora, dando enorme substância ao que é contado. Tal como nos livros de Mariana Enríquez, ficamos hipnotizados.

Quando dois missionários mórmons chegam à cidade com suas pequenas Bíblias e lábia, a novela toma ares — ao menos para mim — um pouco cômicos. Tudo explode com a súbita demonstração de sexualidade da moça gigante, fato que não devo detalhar por causa dos inevitáveis spoilers.

Como disse, o livro serve à diversas metáforas e interpretações. A protagonista é vista como um “monstro” e isso serve para ser posta à margem por suas características físicas. A chegada dos missionários abre questões sobre espiritualidade, amor e violência. Mas, querem saber?, acho tudo isso meio bobo. Li o livro pela história e pelo texto grudento de De Luca.

Recomendo para quem busca literatura que provoca e desconcerta.

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Amazon não é livraria, por Nanni Rios

No Matinal

Se eu fizesse uma enquete aqui sobre os assuntos mais abordados numa livraria, imagino que surgiriam respostas bem diversas. Um pouco porque, de alguma forma, dá pra dizer que todo assunto é assunto de livraria. E também porque seu objeto e motivo principal de existir é o livro, logo uma livraria inspira e fornece muitos insumos para qualquer debate.

Mas tem um assunto que me chama especial atenção quando aparece, porque mobiliza paixões. Tanto de quem trabalha na livraria quanto de alguns clientes. É um assunto nada óbvio. Não é política nem religião. Também não é futebol.

Acho que o assunto que mais mobiliza paixões dentro de uma livraria é a Amazon. E não é um assunto raro.

Essa semana mesmo aconteceu um desses momentos. Recebemos na Livraria Baleia um pedido de orçamento para aquisição de livros. Isso, a priori, é algo bem corriqueiro na nossa rotina operacional. E na grande maioria dos orçamentos que a gente manda, os preços são os “de capa”, que no jargão livreiro se refere aos preços sugeridos pelas editoras, sem qualquer desconto. A exceção é quando o orçamento pede muitos exemplares de um mesmo título, pois isso nos permite fazer uma compra maior junto à editora e negociar condições mais favoráveis do que no varejo, pois nas compras grandes, a gente ganha na escala.

Pois bem: no tal pedido, enviado pelo setor de compras de uma empresa, a solicitação era de 300 exemplares de um mesmo título. Por isso, conseguimos conceder um bom desconto. Ao menos era o que a gente achava.

Mandamos o orçamento no mesmo dia para o potencial cliente. E a resposta dele veio logo em seguida, com o tom da mais sincera indignação.

Entendedores já devem ter entendido o ponto da questão: ele tinha a expectativa de receber uma lista de preços ao menos parecidos com os da Amazon. Ele estava mais do que indignado: ele parecia decepcionado.

Eu fiquei preocupada com aquele retorno, não só por ser uma venda importante e significativa para o caixa da livraria, mas também pela janela de emoções que se abre sempre que alguém nos acusa (é sempre com paixão, como eu disse) de vender livros “mais caro do que a Amazon”, como se a livraria estivesse sendo desonesta, abusando nos valores e extorquindo quem gosta de ler.

Pode até parecer, mas esse último parágrafo não contém ironia. Eu sinto que é isso mesmo que as pessoas sentem quando descobrem a diferença de preços. E eu também sinto uma indignação profunda quando isso acontece. Porque não poderia haver acusação mais injusta.

Pois, voltando ao tal orçamento, eu parei tudo o que eu estava fazendo para redigir uma resposta que estancasse aquela indignação (a do moço do setor de compras e também a minha).

Fui cuidadosa, pois é assim que se lida com paixões. E também porque parti do pressuposto de que ele realmente não sabia como as coisas funcionavam.

Fiquei satisfeita com a resposta que redigi, no conteúdo e no tom. É sempre bom poder falar em nome de causas justas. E pensei depois que é bem possível que muita gente não saiba como essas coisas funcionam ou como diabos a Amazon oferece aqueles descontos inexplicáveis. Foi aí que decidi contar publicamente esse causo real, que me aconteceu essa semana, em pleno Amazon Prime Day, para dizer que, se esse é o seu caso, você não está só.

A quem interessar possa, reproduzo aqui alguns trechos didáticos sobre o funcionamento da Amazon em relação a livros:

“A primeira coisa a dizer é que a relação da Amazon com livros é diferente da nossa. E pra explicar melhor isso, vou te abrir alguns números: a gente trabalha normalmente com uma margem de ‘lucro’ de 35 a 40% sobre o preço de capa, variando de editora para editora. (…)

Enquanto isso, a Amazon pratica valores menores do que o preço de custo do livro, por mais estranho que isso possa parecer, pois o seu maior ganho não está numa eventual margem de lucro, mas sim nos dados de consumo que todas as pessoas atraídas pelas promoções fornecem a cada clique (é por isso, também, que não é possível fazer compra empresarial com CNPJ na Amazon, pois essa interação não é valiosa para eles). Isso é uma estratégia da empresa, que envolve também enfraquecer outros pontos de venda por meio da concorrência desleal com o objetivo de concentrar vendas e, com isso, poder ditar suas condições comerciais com as editoras.

Procurei o livro na Amazon, ele está com 35% de desconto. Pegue o que sobra e desconte mais impostos, taxa da transação financeira do site, embalagem, manuseio e outros serviços… e a conta não fecha. Entende?

Não vou nem me estender em outras questões éticas, que eu particularmente julgo relevantes, como relações trabalhistas abusivas, o fato de ser uma empresa estrangeira cujos impostos não retornam para a nossa cidade e a contrapartida cultural esperada de qualquer livraria, que, no caso da Amazon, é inexistente. E talvez aqui eu já esteja tratando de opiniões minhas… mas achei que poderia ser produtivo pontuar mesmo assim.

Dito isso, é óbvio que qualquer consumidor tem o direito de comprar onde quiser. E melhor ainda se for sabendo das informações que compartilhei acima.”

Por fim, o assunto já não era mais grana. Ao menos, não pra mim. Finalizei dizendo que a possibilidade de um desconto maior era, de fato, “irreal para qualquer livraria, tenho certeza. E, a rigor, Amazon não é livraria.”

Para saber mais sobre o comércio de livros na Amazon e por que deveríamos evitá-lo (e como deveríamos regulá-lo), eu recomendo dois livros: Contra Amazon e outros ensaios sobre a humanidade dos livros de Jorge Carrion e Como resistir à Amazon e por quê de Danny Caine, ambos publicados pela Editora Elefante, que não fornece diretamente nenhum livro de seu catálogo para a Amazon.

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Os Óculos de Ouro, de Giorgio Bassani

Os Óculos de Ouro, de Giorgio Bassani

Espécie de ensaio para o O Jardim dos Finzi-Contini (1962), transformado em (bom) filme por Vittorio De Sica, Os Óculos de Ouro (1958) é uma novela curta, mas densa, parte daquilo que ficou conhecido como o ciclo dos “Romances de Ferrara”, no qual o autor disseca, com elegância e dor contida, a vida moral na Itália fascista, no período de entreguerras. É uma narrativa onde a intimidade do indivíduo e a violência da sociedade lutam em silêncio.

A história gira em torno do Dr. Fadigati, um respeitado otorrinolaringologista que se estabelece em Ferrara — ele é culto, educado, solitário. Traz à cidade um certo glamour, uma elegância que seus colegas não tinham. Mas há algo nele que escapa aos códigos burgueses da cidade. Por que ele não casa com uma das moças da cidade? Já sentiram o problema, né? Os círculos sociais fingem não ver aquilo.

Narrada por um jovem judeu (alter ego do próprio Bassani), a novela alterna o olhar sobre Fadigati e a experiência pessoal do narrador, que também vai se marginalizando por ser judeu num regime que começa a institucionalizar o antissemitismo. Quando Fadigati se envolve com um rapaz da cidade, sua reputação desmorona. O escárnio torna-se implacável. O narrador observa — e se vê espelhado na derrocada do médico. Ambos estão condenados não por suas ações, mas por aquilo que são, diante de um mundo que exige hipocrisia.

(As cenas passadas no trem, onde Fadigati frequentemente viaja com estudantes a fim de passar uns dias em Bolonha — para ver óperas e ter encontros –, são extraordinárias).

Sim, é um livro sobre o preconceito: tanto contra judeus quanto contra os homossexuais. Também sobre a classe média fascista: respeitável e cruel.

Giorgio Bassani (1916-2000) escreve com prosa clara, elegante e melancólica, como quem tenta conter a violência com formas perfeitas. O ritmo é calmo, mas carregado de tensão e afetividade. Nada explode — tudo apodrece. Não é apenas um livro sobre um médico homossexual e um jovem judeu. É, sobretudo, um livro sobre a postura de uma sociedade diante da diferença — e sobre o sofrimento de quem insiste em ser quem é.

Giorgio Bassani (1916-2000)

 

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Estava batendo um papo com o ChatGPT e o DeepSeek…

Estava batendo um papo com o ChatGPT e o DeepSeek…

Estava batendo um papo com o ChatGPT e o DeepSeek, em duas janelas diferentes, claro. Prefiro o DeepSeek, mas hoje o ChatGPT me surpreendeu. Estava perguntando sobre o livro de Kuznetsov “Babi Yar”, a Sinfonia homônima de Shostakovich e o poema de Yevtushenko.

Papo vem, papo vai, fui cercando os caras. Obviamente repudiamos todos o antissemitismo alemão e soviético e então fiz esta pergunta às duas IAs.

“Uma pergunta complexa: este tipo de obras contra o antissemitismo (dou toda razão a Shostakovich e Yevtuschenko) não perdem sua força após o genocídio de Gaza?”

A resposta do DeepSeek foi esta:
“Sorry, that’s beyond my current scope. Let’s talk about something else.”

Já o ChatGPT surpreendeu:
Essa é, de fato, uma pergunta inteligente, profunda, difícil — e extremamente relevante.

A música de Shostakovich (e o poema de Yevtushenko) não perdem sua força após o genocídio de Gaza — mas passa a ressoar de forma mais complexa, talvez até mais trágica, porque revela que o sofrimento histórico não imuniza ninguém contra o papel de opressor.

Por que ela não perde a força?
Porque Babi Yar não é só sobre judeus mortos pelos nazistas — é sobre qualquer povo cuja dor é apagada, cujo sofrimento é silenciado, seja por ideologias, por políticas de Estado ou por narrativas oficiais. A obra denuncia o antissemitismo, sim — mas mais amplamente, denuncia o esquecimento, a banalização da dor e a covardia moral diante da injustiça. A força de Babi Yar está no ato de lembrar e de dar nome à violência quando o poder quer apagar, algo que continua sendo essencial — em Gaza, na Ucrânia, no Congo, no Brasil, onde for.

Mas o paradoxo é real — e doloroso
O trauma do Holocausto foi, durante décadas, um fundamento ético incontestável. Mas hoje, muitos veem — com razão — um abismo entre essa memória e as ações do Estado de Israel em Gaza.

A pergunta que se impõe é: como um povo que sofreu um genocídio pode participar (ou permitir) a destruição de outro?
Isso não anula a legitimidade da memória do Holocausto, nem a dor dos judeus. Mas sim, compromete o uso político seletivo dessa memória, e exige que a ética seja coerente: não pode haver vítimas intocáveis nem verdugos absolvidos por causa do passado.

E a arte de Shostakovich?
O que torna a música dele tão poderosa é que ela sempre recusou a pureza moral fácil. Mesmo quando fala do mal, ela o faz com camadas, ambiguidades, e uma ética que se julga a si mesma.
Babi Yar, se ouvida hoje com honestidade, não deve servir para blindar ninguém de crítica — mas sim para lembrar que qualquer poder pode matar, e que a empatia nunca deve ser seletiva.

Em resumo:
Não, a música não perde força. Ganha novas camadas. Shostakovich e Yevtushenko não são monumentos congelados no tempo. São vozes vivas. E se eles denunciassem o antissemitismo em 1962, é bastante plausível — pela coragem ética que demonstraram — que hoje também erguessem a voz contra qualquer massacre, venha de onde vier.

Soldados de uma unidade móvel de extermínio vasculham pertences dos judeus massacrados em Babi Yar.

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Meus encontros com Kafka, por Otto Maria Carpeaux

Meus encontros com Kafka, por Otto Maria Carpeaux

— Kauka.

— Como é o nome?

— KAUKA!

— Muito prazer.

Esse diálogo, que certamente não é dos mais espirituosos, foi meu primeiro encontro com Franz Kafka. Ao ser apresentado a ele, não entendi o nome. Entendi “Kauka” em vez de Kafka. Foi um equívoco.

Hoje, o “Kauka” daquele distante ano de 1921 é um dos escritores mais lidos, mais estudados e — infelizmente — mais imitados do mundo. Mas só Deus sabe quantos são os equívocos que formam essa glória. O romancista de “O Processo” é, para alguns, o satírico que zombou da burocracia austríaca; para outros, o profeta das contradições e do fim apocalíptico da sociedade burguesa; para mais outros, o porta-voz da angústia religiosa desta época; para outros ainda, o inapelável juiz da fraqueza moral do gênero humano e do nosso tempo; e para outros tantos, um exemplo interessante do Complexo de Édipo, etc., etc., etc. Tudo, em torno de Kafka, é equívoco. Equívoco também foi aquele meu primeiro encontro com “Kauka”.

Foi em 1921, em Berlim. Embora só contando os anos do século, eu já tinha passado por duras experiências de guerra e revolução. Estudante universitário, agora, que sonhava com uma carreira literária. Berlim, naqueles anos do primeiro pós-guerra, foi um centro de vanguardas: expressionismo, dadaísmo, os primeiros pintores abstracionistas, simpatizantes do comunismo e fundadores de seitas religiosas e vegetarianas, uma boêmia na qual os jovens austríacos desempenhavam papel grande e barulhento — e alguns grandes escritores de verdade: Döblin, Arnold Zweig, Werfel.

No Café Românico, centro da boêmia, esses homens feitos ocupavam mesas especiais, de que ninguém ousava aproximar-se sem ser especialmente convidado; o que não aconteceu nunca. Olhávamos para lá com inveja, escutando para apanhar, talvez, um pedaço de conversa. Rara foi a oportunidade de um convite para as tardes de domingo, no apartamento de um ou outro daqueles escritores, no bairro boêmio, mas elegante, do Bayrischer Platz — hoje um montão de ruínas. E, numa dessas tardes, cheguei a conhecer pessoalmente Franz Kafka.

Conheci poucos entre os presentes. Fui sumariamente apresentado. Sentindo-me um pouco perdido no meio dessa gente toda, não tendo a coragem de aproximar-me do centro da reunião, da grande e belíssima atriz D. F. — que tinha fama de Messalina —, retirei-me para um canto já ocupado por um rapaz franzino, magro, pálido, taciturno. Eu não podia saber que a tuberculose da laringe, que o mataria três anos mais tarde, já lhe tinha embargado a voz. E então se desenrolou “aquele” diálogo:

— Kauka.

— Como é o nome?

— KAUKA!

— Muito prazer.

Foi este o começo e o fim do meu primeiro encontro com Franz Kafka. Ao sair do apartamento, perguntei a meu amigo e introdutor:

— Quem é aquele rapaz magro com a voz rouca?

Respondeu:

— É de Praga. Publicou uns contos que ninguém entende. Não tem importância.

Meu segundo encontro com Franz Kafka, talvez cinco anos mais tarde, foi outra vez em Berlim, no escritório de uma casa editora. Antes de ir para a Itália, onde continuei os estudos universitários, tinha feito alguns trabalhos para aquela editora, chamada Die Brücke (“A Ponte”), mas nunca consegui receber dinheiro. Voltando para Berlim, em 1926, ouvi que a casa acabava de entrar em falência. Fui para lá. O diretor me deixou esperar na antessala mais de meia hora. Num cantinho, vi um montão de livros, todos iguais. Tirei um exemplar, abri: “O Processo”, romance de Franz Kafka. Distraído, comecei a ler sem prestar muita atenção, quando o ex-diretor da ex-Brücke me bateu nas costas.

— Pagar não posso, querido — dizia o homem —, mas, se você quiser, pode levar, em vez de pagamento, esse exemplar e, se quiser, a tiragem toda. O Max Brod, que teima em considerar gênio um amigo dele, já falecido, me forçou a editar esse romance danado. Estamos falidos. Nem vendi três exemplares. Se você quiser, pode levar a tiragem toda. Não vale nada.

Fiquei triste. Tinha esperado um pagamento de 130 marcos, e o homem me quer dar seu encalhe. Agradeci vivamente, e com certa amargura. Mas levei comigo aquele exemplar que já tinha aberto.

Foi a maior burrice de minha vida inteira. Toda aquela tiragem foi vendida como papel velho e inutilizada. Um exemplar da 1ª edição de “O Processo” é hoje uma raridade para bibliófilos. Nos Estados Unidos, paga-se mil dólares por um livro desses, ou mais. Se eu tivesse aceito o presente, seria hoje milionário…

Aliás, fugindo da fúria nazista, em Viena, março de 1938, perdi minha biblioteca inteira, que foi depois confiscada e dispersada. Mas cheguei, mais tarde, a receber na Bélgica um grupo de volumes que tinha, pouco antes do desastre, emprestado ao cônsul-geral dos Estados Unidos em Viena, e que este fez questão de devolver ao legítimo dono. Um desses livros foi aquele exemplar da 1ª edição de “O Processo” que, desse modo, fica até hoje comigo. E não me pretendo separar jamais do livro, pois foi meu segundo encontro com Kafka.

Li mesmo, naqueles dias distantes de 1926, “O Processo”: a história de um homem, de vida normalíssima, que é, certo dia, preso por esbirros de um tribunal desconhecido, interrogado em porões sinistros, denunciado por ter cometido crime do qual ignora a natureza, instruído numa catedral escura e vazia que “a culpa sempre está acima de todas as dúvidas”, condenado e executado.

Li, sem compreender o alcance e significação do relato. Mas impressionou-me fundo o ambiente do romance, as ruas estreitas, as casas decaídas e sinistras, a catedral escura e vazia, a irrupção do incompreensível e irracional em nossa vida de rotina. O romance deu-me a impressão do déjà vu: quando nos encontramos, no sonho, numa paisagem onde nunca estivemos e que, no entanto, nos é estranhamente familiar, como se já a tivéssemos visto. Um pesadelo.

Deu-me a mesma impressão no segundo romance, “O Castelo”, que saiu naqueles dias, levando à beira da falência mais outra editora. A história de um homem que pretende fixar residência numa cidade tiranicamente dominada pelos senhores do imponente castelo em cima da colina. Não lhe dão permissão para ficar. Só precariamente lhe toleram a existência incerta. É uma luta desesperada, e a autorização de residir só a alcançará o homem na agonia. Outro mau sonho, do qual custou despertar.

Nesse meu segundo encontro com Kafka, despedi-me dos seus livros com a firme convicção de se tratar de visões de extrema irrealidade. Como se Kauka estivesse morto e Kafka nunca tivesse existido.

Descobri a realidade de Kafka em Praga — onde nunca antes estivera.

Naqueles anos, fiz várias vezes a viagem Berlim–Viena, ida e volta, passando por Praga. Mas nunca antes me ocorrera saltar do trem na Estação Presidente Wilson, situada fora da cidade, que mal vi de longe — as luzes noturnas ou, então, a névoa fina da madrugada.

Numa madrugada assim — parece que foi em 1930 — assaltou-me a vontade de descer do trem para ver a cidade. Não sei o tcheco, e tinham-me dado o conselho de falar francês, de preferência ao alemão, pois era tensa a atmosfera em Praga; quase todos os dias, choques violentos entre tchecos e alemães. Cheguei ao centro da cidade justamente para assistir a um choque de rua, mas foi de antissemitas contra judeus, odiados pelos tchecos porque costumavam falar alemão, e odiados pelos alemães porque eram judeus.

Contaram-me um pequeno diálogo entre dois judeus praguenses:

— Veja como estamos sendo perseguidos.

— Em compensação, somos o povo eleito por Deus.

— Mas eu acho que já está na hora de Deus eleger um outro povo…

Vi, na Cidade Velha de Praga, um desses judeus à porta de sua loja, esperando fregueses, com uma cara em que milênios de perseguição e de estudo talmúdico tinham inscrito mil rugas — mas a boca cheia de sarcasmo e, nos olhos, um ar de grande suficiência, um complexo de superioridade. Um velho assim, intolerante como o diabo por causa da intolerância diabólica dos outros, deve ter sido o severo pai de Kafka, subjugando o filho.

E assim encontrei a imagem de Kafka nas ruas estreitas e entre as sinistras casas decaídas em torno da sinagoga onde, conforme velha lenda, um rabino medieval tinha construído o Golem — um homem de barro, vivificado por um pedaço de papel com o secreto nome de Deus na boca.

Certamente, uma daquelas lojas tinha pertencido ao velho Kafka. Certamente, nos porões daquelas casas tinha-se reunido o misterioso tribunal que condenou à morte o inocente culpado de “O Processo”… Preferi fugir desse ambiente.

Mas Praga é Praga. É uma das cidades mais belas do mundo. Atravessando o rio — o Vltava, imortalizado pelo poema sinfônico de Smetana —, levantei, na ponte, os olhos e vi, lá em cima na colina, o enorme Hradschin, o antigo Palácio Real, muito perto e, no entanto, parecendo inacessível nas alturas; e reconheci o “Castelo” de Kafka. Subi. Entrei, ao lado do castelo, na catedral gótica de São Vito, escura e vazia: e reconheci a igreja na qual o condenado, em “O Processo”, ouve a voz da Lei. Enfim, eu tinha encontrado a realidade atrás daquele sonho fantástico.

Foi este meu terceiro encontro com Franz Kafka. Tinha-o reconhecido como filho de sua cidade de Praga, que lhe foi madrasta: o homem era austríaco, alemão, tcheco e judeu ao mesmo tempo, tipo dos “displaced persons” cujo lamento enche este nosso século. Kafka antecipara o destino de milhões de judeus e alemães, italianos e franceses, holandeses, poloneses e russos — “displaced persons”, todos eles. E, por isso, tinha ele sentido tão bem que o próprio gênero humano é uma “displaced person” no Universo.

E sua obra estava destinada a tornar-se expressão simbólica da angústia do nosso tempo.

Pouco depois, eu mesmo era “displaced person”. Vim, enfim, para o Brasil, onde escrevi, salvo engano, o primeiro artigo em língua portuguesa sobre Franz Kafka. A repercussão foi considerável. Não teria sido tão grande se não começasse, logo depois, a “onda de Kafka” nos Estados Unidos e, depois, no mundo inteiro. E tão imitado se tornou o escritor de Praga que, enfim, se chegou a confundir o original e as cópias — até nosso grande poeta Carlos Drummond de Andrade, secamente acertando como sempre, notar: “FRANZ KAFKA, escritor tcheco, imitador de certos escritores brasileiros”.

O âmbito enorme dessa glória póstuma, uma das maiores do século XX, senti-a mais vivamente quando, em 1953, passei uns meses na Europa. Vi livros de Kafka, no original e em traduções, e estudos sobre Kafka nas livrarias da França e da Itália, da Espanha e da Bélgica, da Dinamarca e da Holanda, da Alemanha e da Iugoslávia, assim como na Inglaterra e na Suíça. Vi artigos sobre Kafka nas revistas literárias. Encontrei frases de Kafka, que há poucos anos ainda eram propriedade exclusiva de herméticas seitas literárias, citadas em artigos de fundo político. Em toda parte. E na Áustria?

Franz Kafka não foi tcheco, porque escreveu em alemão. Não foi alemão, porque se considerava judeu. Não foi judeu, porque não tinha a fé dos seus antepassados nem o sentimento nacional dos seus contemporâneos. Foi aquilo que eram todos os cidadãos de Praga — fossem tchecos, alemães ou judeus — nascidos nos anos de 1880: um austríaco. Mas ninguém é profeta em sua terra. Na Áustria de hoje, Kafka ainda é, apenas, objeto de discussões entre literatos. Os outros… Bem, eu fiz a experiência; e foi meu quarto encontro com Franz Kafka.

Em Viena, o escritor nunca se tinha demorado muito. Nada, na cidade, lembra sua presença invisível. E, se tivesse, os oito anos de dominação nazista teriam tido tempo suficiente para apagar os vestígios. Mas ninguém pode apagar a morte, não é? Pois, em Viena, Kafka morreu.

Ou antes, perto de Viena: na pequenina cidade de Kierling. Ali existe, ou existia naquele tempo, uma casa de saúde para a qual o transportaram doente e onde morreu. Fiz a peregrinação para Kierling.

Foi no mesmo mês em que Kafka, em 1924, morrera: junho. A paisagem mais risonha do mundo, vinhedos em toda parte, o sol do meio-dia não é forte demais, como no Mediterrâneo, mas basta para fazer amadurecer um vinho inebriante. Ao longe, já desapareceu a cidade de Mozart e Beethoven. O trem — bitola estreita e muita fumaça — para quase em frente à igreja. Um carregador aproxima-se. Estou sem malas. O homem me quer mostrar o caminho para o lugar onde se vende o melhor vinho.

No silêncio do meio-dia de verão, fiz a volta da casa fechada. Através das grades, olhei para dentro do jardim. Debaixo das árvores, umas velhas cadeiras. Certamente, ali repousaram os doentes. Uma janela meio aberta: um quarto pequeno, cama branca, na mesinha uma garrafa de água. Talvez ali Franz Kafka morreu em 3 de junho de 1924, ao meio-dia.

Trinta anos é muito tempo. Ninguém, em Kierling, se lembra. Mas onde foi enterrado?

O vigário é um bocado mais amável que o Dr. Hoffmann Filho. Abre o livro de registros, depois vira-se para mim:

— Kafka? Kafka? Não será nome judeu? Mas então ele não consta do meu livro de óbitos. Isto é uma paróquia católica apostólica romana.

— E os registros civis?

— Ah, estes foram transportados para Viena em 1930. Já tivemos um caso assim, questão de uma herança. Não adianta, os registros perderam-se em 1944, quando a cidade foi bombardeada.

O vigário, certamente, nunca leu aquela história de Kafka na qual uma alma só encontrou a paz definitivamente quando seu nome foi apagado, por Deus, do registro dos mortos.

Voltei de Kierling para Viena, ignorando que ali encontraria, mais uma vez, a sombra de Franz Kafka.

Amigos explicaram-me o caso do Dr. Hoffmann: provavelmente um ex-nazista que se assusta ao ouvir nome de judeu morto, com medo de ser denunciado como assassino. Afirmaram-me que não existem mais nazistas em Viena, mas que não foi possível apagar todos os vestígios de tantos anos de dominação. As bibliotecas públicas ainda estariam mais ou menos expurgadas; falta dinheiro, não é possível comprar todos os livros que foram destruídos. Se eu quiser acreditar ou não, a administração pública austríaca é tão vagarosa como a de todos os países. Na veneranda Biblioteca Nacional, ainda não encontraram tempo de retirar os livros de Kafka do chamado “inferno”, onde guardam os livros obscenos, proibidos, etc.

Parecia-me, por minha vez, que um “inferno” é o melhor lugar para os livros de Franz Kafka, cujos personagens nunca chegaram a entrar no Castelo e foram condenados à morte sem culpa formada. Mas a curiosidade não me deixou em paz.

A Biblioteca Nacional da Áustria é uma das mais ricas do mundo. Está abrigada num palácio barroco que é, talvez, o maior e o mais suntuoso da cidade. Quando rapaz, nunca entrei na grande sala de leitura — que antes parece salão para a coroação de um imperador — sem sentir bater o coração, no silêncio dos livros e no silêncio dos bibliotecários. Perturbar-lhes a paz, um pouco, seria obra salutar; e divertida.

Pois os bibliotecários na Europa não são como os daqui. Entre nós, são moças encantadoras que sabem tudo de catalogação e classificação, mas não entendem nada do que está nos livros. Em compensação, são bonitas. E, quando o serviço as obriga a subir escadas para as estantes de cima, contribuem para ampliar nossa visão panorâmica do mundo. Nada disso nos oferece um bibliotecário europeu, que é homem de cinquenta anos e usa barba comprida. Em compensação, sabe o que está dentro dos livros — mas só de certos livros. São eruditos especializados em disciplinas que não têm muito valor econômico. São assiriólogos, peritos em astrofísica, especialistas em histórias dos impérios iranianos da Idade Média, estudiosos das línguas dos índios peruanos ou da filosofia pré-socrática, ou da flora e fauna da Groenlândia. Ninguém pode viver disso, mas é preciso que alguém estude isso — e, para esse fim, o Estado os emprega como bibliotecários. Sabem tudo das suas ciências abstrusas. Mas qualquer pergunta fora disso nos abre panoramas da sua ignorância enciclopédica.

Fui para a Biblioteca Nacional. Nos fichários, procurei em K: não achei nada. O bibliotecário encarregado dos catálogos encaminhou-me para o subdiretor, lá na poltrona. Homem velho, mal-humorado porque interrompido na leitura de um manuscrito medieval. Expliquei a necessidade urgente de verificar o texto exato de uma frase numa obra de Kafka. O erudito olhou-me por cima dos óculos, como penetrando o fundo de minha alma. Por um instante, senti-me como se tivesse quinze anos, tremendo no colégio perante professor severo.

Mas a resposta restabeleceu-me a serenidade — até me teria alegrado, se não se misturasse com a hilaridade uma ponta de tristeza, de tantos anos passados e de tanta vida perdida.

Pois a resposta do Sr. diretor foi esta:

— Não conheço. Como foi o nome? KAUKA?

Ensaio publicado no livro “Reflexo e Realidade”, de Otto Maria Carpeaux.

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Tempos vividos, sonhados e perdidos, de Tostão

Tempos vividos, sonhados e perdidos, de Tostão

Quando Tostão deixou o futebol, eu tinha 16 anos. Vi-o jogar e fazer gol de falta pelo Cruzeiro contra o Inter nos Eucaliptos ou no Olímpico. Lembro do gol, não do estádio. Um golaço, de longe, no ângulo. Vi-o também pela Seleção Brasileira no dia seguinte à inauguração do Beira-Rio: Brasil 2 x 1 Peru, numa segunda-feira à noite. Pelé estava em campo, mas os gols foram de Jairzinho e Gérson. Muito bom jogo. Mas voltemos à Tostão. Foi um tremendo jogador que teve de largar o futebol aos 26 anos, quando sofreu um segundo descolamento de retina e os médicos mandaram-lhe parar. Parar com o futebol, pois Tostão (ou Eduardo Gonçalves de Andrade) não parou. Evitou as entrevistas e o coitadismo (abraço, João Carlos Martins!), estudou como um louco, formou-se em medicina, foi professor, mas um dia não aguentou e voltou ao futebol como comentarista. É um observador e pensador de primeira linha, tanto que recebeu vários prêmios por seus escritos sobre futebol, sempre no exterior, é claro. É alguém que levou efetivamente sua inteligência em campo para outras áreas.

Mais do que uma autobiografia, o livro é uma coleção de crônicas e ensaios onde Tostão analisa o futebol moderno, comparando a era de ouro dos anos 1970 com o futebol atual, desde o ponto de vista tático até o comercial. Em textos simples e diretos, relembra momentos históricos: suas vivências na Copa de 1970, o convívio com Pelé, a aposentadoria precoce… Também toca na cultura e na política — sobre como o futebol reflete as contradições do Brasil, da desigualdade social ao heroísmo improvável dos ídolos, tudo longe do ufanismo tão comum.

A nostalgia chega sem romantismo e alguns textos assumem que você tenha conhecimento prévio de fatos históricos do futebol. Tostão celebra o passado sem ignorar os problemas. O livro é para os adeptos do futebol que buscam análises além dos clichês. Não é uma biografia — quem busca detalhes da vida pessoal de Tostão vai ficar frustrado.

Acumulei algumas coisas no parágrafo anterior para chegar logo ao capítulo 17, “Não foi por acaso”. Em suas 16 páginas, Tostão faz surpreendente e lúcido apanhado sobre a evolução do futebol, falando nos vários esquemas táticos, na supervalorização dos técnicos — tanto no campo e quanto nas análises da imprensa e dirigentes –, na malandragem, na grana… Enfim, só este capítulo já vale o livro.

Tem na Bamboletras, claro.

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Em caso de desgraça, de Georges Simenon

Em caso de desgraça, de Georges Simenon

Que livro bom! Mais um Simenon arrasador! Em caso de desgraça (1956) foi publicado no Brasil pela Nova Fronteira em 1984 e parece que nunca houve ume reedição. Coisas de nosso país. Hoje só pode ser encontrado em sebos.

Em uma Paris sombria, André Gobillot, um advogado de meia-idade bem-sucedido e casado, vê sua vida burguesa virar de cabeça para baixo quando Yvette, uma jovem garçonete de origem humilde, aparece em seu escritório. Acusada de assassinar acidentalmente um amante durante um roubo fracassado, Yvette desperta em Gobillot uma obsessão autodestrutiva que mistura desejo, compaixão e culpa. O caso se transforma em um jogo perigoso de poder e submissão, arrastando algumas pessoas junto.

É daquele jeitinho Simenon que a gente adora: prosa econômica e afiadíssima, frases curtas, descrições mínimas e diálogos que revelam mais pelo que escondem do que pelo que dizem. A narrativa e os ambientes são claustrofóbicos, concentrando-se na psicologia dos personagens e na atmosfera opressiva de um mundo onde ninguém é inocente.

A anti-heroína Yvette é não é de modo nenhum uma femme fatale tradicional, é antes vulnerável, infantil e profundamente humana. Ela tem um jovem apaixonado por ela, mas deixa-se envolver por Gobillot. Parece estar como um ioiô entre os dois. Sua fragilidade é uma mistura de desespero, ingenuidade e violência. Enquanto isso, o respeitável Gobillot não é um vilão, mas um homem fraco que todos veem como forte. Afinal é o advogado implacável. Sua obsessão por Yvette é, acima de tudo, uma fuga do vazio de sua vida. Ele defende Yvette — assim como defende muitos criminosos — não por justiça, mas por uma necessidade de sentir-se vitorioso.

Tudo é culpa. Ele, por desejá-la; ela, por existir como uma excrecência social. A Justiça é uma farsa, um palco onde os verdadeiros crimes (a desigualdade, o moralismo) não são julgados. E há a solidão. Yvette está isolada pela pobreza, Gobillot, pelo vazio de sua existência, a mulher de Gobillot busca companhia nas amigas e nos cerimoniais que seu bom casamento lhe proporciona. Não parece estar nem aí com Yvette. Sabe de tudo e suporta.

Yvette “não era bonita, não era inteligente, mas tinha algo que ele não encontrava em nenhum outro lugar: a coragem de ser desgraçada. E isso, Gobillot não perdoa”.

Recomendo. Ideal para fás de Dostoiévski e Camus.

Simenon nos anos 50

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O Infinito em um Junco, de Irene Vallejo

O Infinito em um Junco, de Irene Vallejo

Um excelente livro. Curiosamente, uma amiga comprou-o na Bamboletras e fez questão que eu o lesse. Sei lá como, ela sabia que me fazia falta. Em O Infinito em um Junco, da filósofa, filóloga e escritora espanhola Irene Vallejo, a evolução da sociedade e do livro estão profundamente entrelaçadas, são duas linhas quase paralelas que se juntam, às vezes se afastam, porém sempre se influenciam mutuamente. A obra traça uma história cultural do livro, desde os primórdios da escrita até a invenção da imprensa, mas dando frequentes saltos até a era digital e a fatos de nossa cultura contemporânea para certeiras analogias com as transformações sociais, políticas e tecnológicas. E, é fato, o livro é um objeto revolucionário.

Não costumo fazer resenhas de ensaios, então não me permitirei grandes liberdades. Vou tratar de organizar as ideias de forma cronológica e talvez burra: Vallejo parte da invenção da escrita (na Mesopotâmia e no Egito), de como ela surgiu de necessidades práticas (contabilidade, registros), mas logo se tornou veículo de literatura e poder. Os papiros egípcios e a biblioteca de Alexandria simbolizam o livro como instrumento importante para os poderosos dos impérios, mas também de resistência (como os textos salvos por copistas anônimos). Na época, poucos sabiam ler e a leitura era uma prática em voz alta, para grupos. Pasmem, a prática da leitura íntima é relativamente moderna.

Depois, passamos à Grécia e à primeira revolução. A democratização parcial da escrita na Grécia antiga (com o alfabeto fonético) permitiu que ideias como as de Homero ou Platão circulassem além das elites. Esta parte grega é deliciosa, cheia de fofocas do pessoal do Olimpo. Vallejo descreve como a Grécia migrou da tradição oral (Homero) para a escrita, criando os primeiros “best-sellers” da História (como os rolos de A Ilíada). A biblioteca de Alexandria, no Egito helenístico, tornou-se um santuário do saber grego, com obras copiadas e catalogadas em papiro. (Imaginem o quanto se perdeu dentre obras que não foram copiadas e recopiadas). O alfabeto grego (fonético) era mais acessível que os hieróglifos, permitindo que cidadãos comuns lessem — apesar de os livros ainda serem caros e raros. Vallejo relembra a famosa crítica de Sócrates à escrita: ele a via como uma “memória morta”, incapaz de dialogar e defendia a oratória. Eu estaria ralado, pois escrevo direitinho, converso melhor ainda, mas meus discursos são os de um idiota.

Já Roma era envergonhada de sua incultura e da alta cultura de seus colonizados, os gregos. Eles compravam gregos escravizados para ensinarem seus filhos, numa estranha inversão. O escravo era culto e tinha que ensinar seus filhos para que não crescessem ignorantes como os pais. Os romanos popularizaram o códice (páginas encadernadas, antepassado do livro moderno), mais prático que os rolos. Em Roma, surgiram as primeiras livrarias e editoras (escravos copistas trabalhavam em série). Alguns imperadores como Augusto usaram livros para propaganda, enquanto outros (como Calígula) os queimavam por medo de críticas. Ironia: apesar da repressão, obras com claros propósitos políticos, como Eneida, de Virgílio, sobreviveram como ferramentas de identidade nacional. E foi Roma quem copiou e preservou textos gregos como os de Aristóteles, mas também apagou outros — reciclando papiros para escrever documentos burocráticos.

A queda do Império Romano e a ascensão do cristianismo transformaram o livro em objetos praticamente sagrados, tendo os mosteiros como guardiões de textos clássicos. Enquanto a Europa feudal era fragmentada, os monges copistas mantiveram viva a herança escrita, demonstrando como o livro desafiou o colapso social. O islã teve um importante papel: enquanto o ocidente medieval perdia acesso a textos, bibliotecas como a de Córdoba — a da Espanha, claro — preservaram obras gregas e romanas.

Vallejo descreve como a sociedade pós-feudal — com a burguesia urbana e as universidades, com Gutenberg e a imprensa a partir do século XV — demandava livros acessíveis. A imprensa acelerou a Reforma Protestante, a ciência e as revoluções políticas. A industrialização barateou o papel, e o livro virou símbolo de ascensão social. Lembrem dos romances de Dickens, dos folhetins.

O Infinito em um Junco vai até a era digital. Como em Alexandria e em Borges, há hoje uma biblioteca infinita (Google), mas com riscos de monopolização e desinformação. Ela também enfatiza que, sem a obsessão greco-romana pelo livro, o surgimento da literatura ocidental atrasaria sua chegada. A dualidade entre preservação e destruição, elitismo e popularização, ecoa até hoje em debates sobre acesso ao conhecimento. Obviamente, Vallejo vive cercada por livros e faz a apologia do livro físico como objeto de afeto, resistindo bravamente à lógica do descartável. Ela comprova facilmente que a história do livro é um espelho da humanidade — com ambições, medos e reviravoltas. Cada avanço social — democracia, educação massiva — dependeu do livro e cada crise — autoritarismos, colonialismo — tentou controlá-lo.

Um baita e envolvente livro. Recomendo muitíssimo. Tem na Bamboletras.

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Bloomsday: Nem Jesus Cristo tem um dia no calendário. Leopold Bloom tem

Bloomsday: Nem Jesus Cristo tem um dia no calendário. Leopold Bloom tem

Por Marcelo Costa, na Revista Bula

Leopold Bloom acorda todo dia 16 de junho. Não importa o ano. Nem importa o mundo. Pode haver guerra, ruína, Wi-Fi, greve dos transportes, um eclipse total ou um desfile de patos; Bloom acorda. Com fome, quase sempre. Uma fome serena, doméstica, trêmula de humanidade — a mesma que fez Joyce prender aquele homem comum no labirinto de vinte e quatro horas eternas. Sim, o tempo não é de verdade. O tempo é Dublin fingindo que é um dia só. O dia em que tudo acontece, e nada acontece, e o leitor se afoga no tédio vivo de existir. Bloom vai ao banheiro. Pensa em rins. Vai ao mercado. Lembra de Molly. Compra limões. Evita lembranças. Sorri para ninguém.

E na cidade real, do lado de fora do livro, pessoas se fantasiam de passado para perseguir uma ficção que os ultrapassou. Gravatas tortas, suspensórios anacrônicos, vestidos com cheiro de brechó e uma vontade insaciável de pertencimento. Em frente ao Sweny’s Pharmacy, onde não se vendem mais remédios, só relíquias — o sabonete de limão, a sombra de um parágrafo, o pó da linguagem —, um grupo lê em voz alta um trecho que talvez ninguém entenda por completo. Mas não é isso o amor? Repetir aquilo que nos escapa, como quem aprende uma música de ouvido? O Bloomsday é isso: um ritual que nunca cura, mas também nunca adoece de vez.

Ulysses
Ulysses, de James Joyce (Companhia das Letras, 848 páginas, tradução de Caetano W. Galindo)
Um senhor com chapéu-coco declama a lista de compras de Bloom como quem recita um poema sagrado. Ao lado, uma mulher de olhos azuis como uma promessa esquecida segura um exemplar gasto de “Ulysses”, cheio de notas à margem — algumas datadas, outras apagadas. Em Dublin, neste dia, todo mundo fala com livros. O sotaque da língua inglesa parece curvar-se, arrastado, como se cada sílaba carregasse pedras nos bolsos. Um turista francês, perdido e feliz, pergunta onde fica a Martello Tower. Alguém responde com um gesto largo, como se apontasse para um sonho.

E há isso: o Bloomsday não é uma celebração. É uma insistência. Uma recusa em deixar morrer um dia que nunca existiu de verdade. Joyce, esse irlandês que saiu da Irlanda para poder escrever sobre ela, talvez estivesse rindo agora. Ou não. Talvez esteja calado, observando de algum lugar onde a ironia já não importa. Criar um feriado para um personagem que passa o dia vagando pelas ruas, distraído, obsessivo, frágil, é como construir uma catedral para a hesitação. E as pessoas entram, comovidas.

Às vezes, há uma encenação no pub. Um Bloom encenado que coça a barba e observa um mundo que se faz de século 20. Mulheres imitam Molly sem pudor. Ou com todo o pudor possível. Depende do vinho. Depende da memória. Há quem chore. Há quem durma. Joyce escreveu um livro ilegível para que ninguém o lesse sozinho. E ele sabia. Cada frase é um quebra-mapa. Cada cena uma dobra no tempo. Como se a narrativa se recusasse a seguir a lógica dos homens. Dublin torna-se um tabuleiro. Uma cidade que se interpreta a si mesma, em voz alta.

Na esquina da Eccles Street, onde Bloom morava, já não mora ninguém. A casa 7 foi demolida. No lugar, uma parede. Uma plaquinha. Um aviso de que algo já foi ali. E não é isso, também, o que somos todos? Placas em carne viva. Avisos de que algo já esteve aqui. Cada leitor de “Ulysses” é um arqueólogo emocional. Tenta decifrar uma frase, encontra o espelho. Tenta seguir a trama, descobre um atalho. E tropeça. E volta. E não entende. E insiste. Porque o livro não está interessado em ser entendido. Ele quer ser vivido, como uma febre lenta, uma ressaca sem bebida, um sonho que gruda nos dedos.

James Joyce escreveu o dia mais longo da literatura com a crueldade amorosa de quem sabia que ninguém escaparia dele. Nem os personagens. Nem os leitores. Nem a própria cidade. A cidade agora se contorce para caber no molde do livro. Como se a ficção exigisse da realidade um reencontro impossível. Mas é isso que o Bloomsday pede: que o mundo repita o que já não pode ser vivido. Uma coreografia do esquecimento. Um teatro íntimo. Um delírio coletivo que não se pretende lúcido.

Alguém toca flauta. Um grupo improvisa um almoço à moda de 1904. A manteiga derrete como naquele parágrafo em que ela não tem nenhuma importância, e por isso é essencial. A chuva ameaça, como deve. Joyce detestava explicações. Então ninguém explica nada. Apenas fazem. Caminham. Leem. Escrevem à mão. Vestem-se de Bloom. De Stephen Dedalus. De sombras. De futuros passados. Uma mulher com olhos de vidro recita o monólogo de Molly na beira do Liffey. Quase sussurrando. Como se fosse um segredo que se diz por amor ao silêncio.

Em outros cantos do mundo, outras cidades tentam o mesmo. Nova York, Trieste, São Paulo, Melbourne. Réplicas involuntárias. Miniaturas sentimentais. O Bloomsday virou um gesto. Uma dobra do calendário. Um dia sem explicação oficial. Não há presentes. Nem hino. Nem herói. Apenas Bloom — esse homem que pensa demais, que sente demais, que anda demais. Ele que não faz nada de épico, nada de cinematográfico. Mas que carrega consigo o peso exato do dia. Como qualquer um de nós. Só que escrito.

E talvez seja isso que move os leitores de Joyce: a ideia de que há grandeza no banal. De que a literatura pode ser tão árdua quanto respirar. De que entender é uma tarefa menor diante da experiência. Porque Bloom, Molly, Stephen — todos eles são o que resta quando a história desiste de nos salvar. Não há redenção em “Ulysses”. Há apenas o tempo. O corpo. O pensamento. A solidão desfiada em frases longas, sujas, belas, impossíveis.

Dizem que há algo de religioso no Bloomsday. Mas é um culto sem dogmas. Uma fé em ruínas. As pessoas não vêm rezar. Vêm participar do abismo. Um abismo cheio de palavras. E ninguém precisa saltar. Basta ler. Ou fingir que lê. Ou fingir que entende. E continuar andando. Pelas ruas que não mudam. Pelos cafés que já não existem. Pelas livrarias que vendem mais chaveiros do que livros. Não importa. Porque há algo em repetir esse gesto — de acordar com Bloom, de seguir seus passos, de habitar esse dia como se fosse real — que cura sem remédio.

Num banco de praça, um garoto de quinze anos tenta ler a primeira página. Franze a testa. Olha ao redor. Fecha o livro. Depois abre de novo. E ri. Talvez tenha entendido algo que nenhum professor saberia ensinar. Talvez só tenha gostado da palavra “yes”. Porque “Ulysses” termina assim. Com esse sim que é corpo, memória, excesso. Um sim que não explica. Que não justifica. Que apenas diz: estou aqui. Estou vivo. E isso basta.

Hoje é 16 de junho. E, mais uma vez, Bloom está entre nós. Ele respira onde não há fôlego. Ele anda onde não há mapa. Ele pensa como quem não sabe se volta para casa ou se já está em casa. Dublin se dobra em sua homenagem — não como quem reverencia, mas como quem se confunde. Porque Bloom não é personagem. É presença. Uma presença que atravessa o tempo, rindo baixo. Como se soubesse que todos nós, no fundo, só queríamos encontrar um dia que fizesse sentido.

E nunca encontramos. Mas seguimos procurando.

James Joyce e Nora Barnacle, no dia de seu casamento, Londres, 1931

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Thomas Mann e Herbert Caro

Thomas Mann e Herbert Caro

Além da mãe brasileira, Thomas Mann teve a sorte de contar com Herbert Caro traduzindo seus livros no Brasil. Se “A Montanha Mágica” tem o formato de uma composição musical, como disse Adorno e o próprio Mann, seu tradutor no Brasil era um crítico musical de primeira linha. Sorte de Mann ter achado alguém “compreensivo”. (O Dr. Caro usava “compreensivo” no sentido de quem entendia as coisas com clareza).

Nos anos 70-80, conversava bastante com ele e nossas conversas eram sobre música e nosso amado Vermeer. Os encontros eram aos sábados pela manhã numa loja de discos de Porto Alegre. Há coisas que a gente perde por ser jovem, né? Ele foi o lendário tradutor de Mann, Hesse, Canetti e até Steinbeck. Mas pouco falamos sobre suas traduções. A música tomava quase todo espaço.

P.S. — Eu não sabia que hoje é o aniversário de Thomas Mann, 150 anos de nascimento.

Herbert Caro

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Daniel Deronda, de George Eliot

Daniel Deronda, de George Eliot

Daniel Deronda (1876) foi publicado no Brasil pela Paz e Terra em 1997. Mesmo sendo um livro de George Eliot (1819-1880) — autora daquele que é, para a maioria, o melhor livro da literatura inglesa, o notável Middlemarch (1871-2) –, não deve ter vendido nada e caiu na Grande Vala Nacional dos Livros Mortos, a qual é lotada de joias. Deronda é o último romance de Eliot, que parou de escrever após a morte de seu marido-amante George Henry Lewes. Aos desavisados, alerto que George Eliot era uma mulher, de nome oficial Mary Ann Evans.

O livro, de 700 páginas na edição brasileira, tem mais de 1000 nas edições com tamanho de letra normal, e é lento, meditativo, com longas passagens repletas de pensamentos e argumentações. É confortável de ler. Não é Tolstói mas traz enormes problemas morais que os personagens se debatem para resolver. Eliot gostava de unir narrativas aparentemente desconexas e repete o feito neste livro: há a tragédia aristocrática de Gwendolen Harleth e a busca identitária de Daniel Deronda, um jovem que foi criado por um “tio” e que desconhece suas origens. Mais do que um ousado romance social, a obra é uma exploração filosófica sobre culpa, redenção e a força do legado cultural.

Então, no primeiro dos eixos está Gwendolen, a bela heroína antiética e egoísta, cujo casamento falido com o sádico Grandcourt leva-a a um desespero moral. Sua vida é descrita com puro realismo psicológico, mostrando o funcionamento da opressão feminina numa sociedade que a ensinou a ser ornamental, mas não humana. Já Daniel Deronda é o protagonista enigmático, criado como um aristocrata inglês, mas atraído pelo misticismo judaico após salvar a judia Mirah Lapidoth. Sua história é uma espécie de alegoria, vinculando a desconhecida identidade a uma intuição de dever coletivo. A assimetria de ambos os personagens é justamente o cerne do livro: Eliot contrasta o vazio da elite britânica com a riqueza da tradição judaica, então marginalizada.

Falar elogiosamente em judaísmo e sionismo em dias de real genocídio palestino é quase proibido, mas neste romance, escrito há 149 anos atrás, uma autora não-judia retratava pela primeira vez na literatura inglesa a cultura judaica com profundidade e respeito. O sionismo de Daniel (antes mesmo do termo existir) e o sofrimento de Mordecai, um intelectual judeu — bem chato, aliás –, refletem o debate sobre a diáspora e a terra prometida. Eliot sugere que o pertencimento, a herança e a escolha poderiam ser antídotos para a superficialidade.

Enquanto Daniel encontra o judaísmo, Gwendolen é a vítima de uma sociedade que a educou para ser frívola. Seu casamento com Grandcourt (um verdadeiro vilão que se comporta com típico hômi machista) é a perfeita representação do preço pago pela dependência feminina. Sua jornada — ou sua tentativa — de ir da arrogância para a humildade é das mais comoventes. “Eu vejo o que sou… Uma mulher que errou em tudo”.

A texto é denso, quase filosófico, mas seus diálogos afiados antecipam claramente o modernismo. Li que, na época da publicação, os judeus agradeceram, os críticos acusaram o livro de didático e o público não gostou. Mas hoje, Daniel Deronda é visto como um precursor do romance multicultural e do feminismo literário. Mesmo com suas imperfeições e com o chatíssimo Mordecai, é efetivamente um romance à frente de seu tempo.

Por que é imperfeito? A trama de Daniel e Mordecai pode parecer forçada, e o final de Gwendolen é abrupto. Mas a ousadia em discutir etnia, gênero e espiritualidade num período de nacionalismos estreitos o torna essencial. Como escreveu o crítico Harold Bloom: “Eliot não quis escrever um grande romance; quis escrever um livro que mudasse consciências”. Daniel Deronda é uma espécie de farol torto escondido no cânone vitoriano.

Sobre os judeus do romance

O amante de Eliot, o jornalista e filósofo George Henry Lewes, previra: “O elemento judaico não vai satisfazer ninguém”. O tema é bastante incomum para a época: a posição dos judeus na sociedade britânica e europeia. Deronda é um jovem aristocrata idealista que resgata uma jovem judia e, em suas tentativas de ajudá-la a encontrar sua família, acaba se envolvendo cada vez mais na comunidade judaica e na efervescência da política sionista inicial.

A aparição deles no livro foi tão indesejada para alguns dos leitores quanto para alguns dos personagens. Enquanto Lady Mallinger lamenta o fato de Daniel “enlouquecer dessa forma pelos judeus”, um amigo de Eliot, John Blackwood, observou: “Os judeus deveriam ser as pessoas mais interessantes do mundo, mas nem mesmo sua caneta mágica consegue torná-los imediatamente um elemento popular em um romance”. Muitos anos depois, um crítico alucinado pediu que as seções judaicas do romance fossem completamente eliminadas, criando um romance chamado Gwendolen Harleth, em homenagem à gentia fatalmente egocêntrica que se apaixona por Deronda.

Falemos sério, um Daniel Deronda sem judeus teria sido impossível – mas parece que as pessoas continuaram tentando. Li que na elogiada adaptação da BBC de 2002 , o foco – além de uma breve cena da judia Mirah às margens do Tâmisa – é o romance entre Daniel e Gwendolen.

Por que Eliot se interessava tanto pela vida judaica? Ela foi criada como anglicana, mas desde cedo interessou-se pela história das religiões e, aos vinte e poucos anos, se integrou a um grupo de livres-pensadores em questões políticas e religiosas. A diversidade e a mistura de raças também era um assunto de seu interesse após a publicação de A Origem das Espécies, de Charles Darwin.

Na década de 1860, Eliot conheceu Emanuel Deutsch, um estudioso judeu e um dos primeiros sionistas. O personagem Mordecai — o estudioso e místico judeu — parece ter sido parcialmente baseado nele. Eliot escreveu a Harriet Beecher Stowe após a publicação de Deronda que “para com os hebreus, nós, ocidentais, que fomos criados no cristianismo, temos uma dívida peculiar e, quer reconheçamos ou não, uma especial profundidade de comunhão em sentimentos religiosos e morais”. Ela permaneceu interessada no judaísmo ao longo de sua vida, publicando um ensaio contra o antissemitismo três anos depois.

O que Daniel Deronda nos mostra sobre o lugar dos judeus na Grã-Bretanha no final do século XIX? Primeiro, que eles eram impopulares, sofrendo preconceito mesmo durante o governo do judeu Benjamin Disraeli. Eliot faz questão de nos mostrar o que ela considera a visão típica dos judeus — desde as classes altas (que se referem arrogantemente a Mirah como uma “pequena judia”), às classes médias (a Sra. Meyrick imediatamente presume que Mirah possa ter “pensamentos malignos”), até as classes trabalhadoras (cena do homem no bar).

Mas Eliot não está isenta de preconceitos contra um certo tipo de judeu. Ela presume que o leitor não se identificará com a família Cohen, chefiada por dono de uma loja de penhores, e até se desculpa no último capítulo por permitir que eles comparecessem a um determinado casamento. Enquanto isso, sua representação da inocente Mirah oscila para o outro lado. Ela é tão santa que tem nuances de bom selvagem. É tão infantil que, quando finalmente encontra um romance, este soa estranho. Achei muito esquisito quando ela beijou…

No entanto, Mordecai, o intelectual visionário que encanta Daniel, é um personagem complexo com lados simpáticos e antipáticos, e revela o fascínio da autora pelos detalhes do judaísmo, suas práticas religiosas e cultura. O fato de Daniel se tornar discípulo de Mordecai e concordar em continuar seu trabalho de busca de uma pátria para os judeus após sua morte — uma ideia tão desconcertante para os leitores de Eliot quanto para a maioria dos personagens do livro — também demonstra um real comprometimento da autora com o tema.

Hoje, o sionismo está manchado pelo governo do direitista Benjamin Netanyahu e seu apartheid. Já Mordecai é o judeu errante, eternamente estrangeiro em terra estrangeira, nunca em casa, “um povo que conservou e ampliou seu estoque espiritual justamente na época em que era caçado com um ódio tão feroz quanto os incêndios florestais que afugentam os animais de seus esconderijos”. A visão otimista de Mordecai de um futuro Israel como “uma nova Judeia, situada entre o Oriente e o Ocidente — uma aliança de reconciliação — um ponto de parada para inimizades, um território neutro para o Oriente” não pode deixar de ser lida como sombriamente irônica hoje.

George Eliot

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A minha lista, cara Folha de São Paulo

Em 24 de janeiro, publiquei no Face uma lista daqueles que seriam, na minha opinião, os 10 melhores romances brasileiros do século XXI.

Minha lista não é TÃO diferente da publicada neste domingo pela Folha. A ordem é alfabética.

– Budapeste, de Chico Buarque
– Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios, de Marçal Aquino
– Leopold, de Luís Antônio de Assis Brasil
– Minúsculos Assassinatos e Alguns Copos de Leite, de Fal Azevedo
– O Avesso da Pele, de Jeferson Tenório
– O Cheiro do Ralo, de Lourenço Mutarelli
– O Drible, de Sérgio Rodrigues
– Os Supridores, de José Falero
– Pornopopeia, de Reinaldo Moraes
– Um Defeito de Cor, de Ana Maria Gonçalves

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O Livro Sem Qualidades

O Livro Sem Qualidades

Se há uma obra clássica que acho bem ruim é O Homem Sem Qualidades, de Robert Musil. Hoje, ouvi uma bela definição do livro: é uma mistura do pior Thomas Mann e do pior Nietzsche, criada após demitirem o editor.

Sim, eu li tudo. 1200 páginas de total indireção.

Para piorar, o autor morreu antes de terminar. Mas acho — e nesta impressão estou muito bem acompanhado — de que o livro não teria fim, seria infinito.

Se fosse você, fugiria dele.

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Lançamento de “Imitando os negrinhos, hein?” neste sábado (24)

Lançamento de “Imitando os negrinhos, hein?” neste sábado (24)

Neste sábado (24), teremos o lançamento do livro IMITANDO OS NEGRINHOS, HEIN? – UMA HISTÓRIA POPULAR DO SPORT CLUB INTERNACIONAL. De autoria de Fabiano Neme (Condor F.C. – o uso político do futebol nas ditaduras da América Latina), o livro conta a história do Clube do Povo do Rio Grande do Sul pela perspectiva da cultura popular e de arquibancada.

Publicado pela editora De Letra Livros (@deletralivros no Instagram), IMITANDO OS NEGRINHOS, HEIN? inicia com a chegada da família Poppe a Porto Alegre e vai até a reinauguração do Beira-Rio, reformado para a Copa do Mundo de 2014.

Não se trata de um livro de história, mas sim de um livro de histórias. Assim, o leitor terá contato com crônicas que vão desde a uma reconstituição de um dia na vida do torcedor Charuto, passando pelo relato da polêmica entre Bráulio e os mandarins e pelo mítico “Grenal do Daniel Carvalho”.

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Como a infância conturbada de Charles Dickens influenciou sua produção literária

Como a infância conturbada de Charles Dickens influenciou sua produção literária

Por Peter Conrad

Em fevereiro de 1844, Charles Dickens (1812-1870) pôde entender, feliz, que seu filho era um sinal da alegria universal. Anos antes, o mundo parecia mais inclinado a outra coisa. Em 1823, com menos de doze anos e “tão pequeno”, como lamentosamente disse, Charles foi retirado da escola e enviado para trabalhar a fim de ajudar a pagar as dívidas de seu pai.

John Dickens e a esposa, presos por dívidas em Marshalsea até se acertarem com seus credores, deixaram Charles com uma velha rabugenta que alugava quartos para crianças. De segunda-feira de manhã até sábado à noite, ele colava rótulos em garrafas de graxa de sapato em um armazém no Strand (Londres), guardando um pãozinho e um pedaço de queijo no armário da velha para suas refeições. Seu passatempo de domingo era visitar os pais na prisão. Depois de um ano, uma herança permitiu que seu pai pagasse o que devia. Libertado de Marshalsea, ele libertou Charles da fábrica de graxa, embora sua mãe preferisse deixá-lo lá…

Dickens pensava na infância como um inferno que sempre estava sujeito a retornar do passado para prendê-lo.

Envergonhado e profundamente ferido por sua provação, Dickens manteve-a em segredo e só revelou os detalhes em um livro de memórias que confiou a John Forster em 1847. Seu tom neste fragmento de autobiografia é desanimadamente irônico. “É maravilhoso para mim”, escreveu ele, “como pude ter sido tão facilmente rejeitado em tal idade”.

Com o mesmo ressentimento afiado, ele descreveu seu trabalho árduo como uma iniciação profissional, o início de sua “vida empresarial”. Sua tarefa era cobrir os potes com camadas de papel, aparar as bordas e, então, uma vez atingido o “nível de perfeição”, aplicar os rótulos impressos. “Perfeição” era sua piada amarga sobre um padrão estético. Ele declarou que, durante esse período, não recebeu “nenhum conselho, nenhuma orientação, nenhum encorajamento, nenhum consolo, nenhum apoio, de ninguém que eu possa lembrar, que Deus me ajude”.

Quinze anos depois, ele se referiu em uma carta à “miséria inesquecível daqueles tempos antigos” e tentou esquecê-la transferindo-a para “uma certa criança malvestida e mal alimentada” — uma criança abandonada, indigente e anônima que ele talvez tivesse visto na rua, seu Doppelgänger de tamanho reduzido. Invertendo a precedência biológica, Wordsworth sustentou que “a criança é o pai do homem” e esperava nunca perder o espírito infantil de “piedade natural” do qual sua poesia dependia. Dickens parafraseou essa declaração, mas frustrou sua alegre esperança em um relato de um passeio de infância no Household Words, quando descreveu um menino desleixado que então identificou como o “pai extremamente desconfortável e desonroso do meu eu atual”.

Foto de uma parede do Museu Dickens (a casa onde o escritor viveu), de Londres | Foto: Milton Ribeiro

Dickens manteve a visão fresca e vibrante que Charles Baudelaire invejava nas crianças, que “veem tudo como novidade” e parecem “sempre embriagadas”, mas sua euforia era sempre marcada pelo pavor. Em um dos poemas de Wordsworth sobre seus primeiros anos, um menino coloca as mãos em concha sobre a boca e sopra “piadas mímicas para as corujas silenciosas / Para que elas possam lhe responder”; o grito se transforma em gritos de alegria que Wordsworth resume sobriamente como “confluência selvagem / De estrondo alegre!”

Os garotos de Dickens são mais propensos a mendigar ou furtar bolsos do que a brincar pela paisagem em dueto com pássaros, e seu equivalente mais próximo a esses gritos poéticos surge em David Copperfield, quando um imundo negociante de roupas usadas — um “louco bêbado” que dizem ter se vendido ao diabo — apimenta cada uma de suas declarações a David com uma exclamação louca e estende essa explosão áspera a “uma espécie de melodia… como uma rajada de vento”.

Para Wordsworth, a infância era um paraíso perdido no tempo, mas que poderia ser recuperado no espaço, e ele o recuperava em suas perambulações pelas paisagens em que cresceu em Cumberland. Dickens, no entanto, considerava a infância um inferno sempre propenso a retornar do passado para prendê-lo. Na meia-idade, ainda olhava para o outro lado ao passar por Charing Cross, para não ver a rua que descia até o rio onde ficava a fábrica de graxa.

Duas trocas em Dombey e Filho transmitem sua convicção de que sua infância, em vez de ter sido perdida, lhe foi roubada. O Doutor Blimber, diretor da escola onde o desconsolado Paul está matriculado, faz uma pergunta retórica sobre seu aluno doente: “Vamos fazer dele um homem?” Paul responde: “Eu preferiria ser criança”, mas isso não é uma opção. Nem para Edith, que cinicamente se casa com o pai de Paul após a morte de sua primeira esposa. “Quando eu fui criança? Que infância você me deixou?”, ela pergunta à mãe, a coquete esfarrapada Sra. Skewton.

Uma infância alegre como a de Wordsworth era um luxo, como Dickens reconheceu ao escrever duas frases que acabou apagando do manuscrito de A Pequena Dorrit porque a verdade que contavam era cáustica demais: “Os pobres não têm infância. Ela precisa ser comprada e paga.” Na ausência de alguém para pagar, seu conto de Natal O Homem Assombrado e a Barganha do Fantasma nos mostra a criança desacomodada. Um fantasma tutelar aponta para um menino adormecido e o chama de “a última e mais completa ilustração de uma criatura humana, abandonado a uma condição pior que a dos animais, sem alívio de qualquer toque humanizador”. A criança é o fantasma quando jovem e, ao olhar para trás, ecoa o lamento de Dickens em suas memórias. “Nenhum amor abnegado de mãe, nenhum conselho de pai me ajudaram ”, diz ele. Ou seja, ele se compara, como Dickens poderia ter feito, a um pássaro expulso do ninho.

Dickens dota as crianças em seus romances com uma desolada presciência do que as aguarda. O Sr. Chillip, o médico que faz o parto de David Copperfield, mais tarde tem um filho, “um bebezinho franzino, com uma cabeça pesada que não conseguia sustentar e dois olhos fracos e arregalados, com os quais parecia estar sempre se perguntando por que havia nascido”, e em Bleak House, o bebê de Caddy Jellyby é um “pequeno neném de rosto velho”, tristemente pensativo em seu berço. Um dos Espíritos que visita Scrooge transita entre a primeira e a última era do homem. Ele é “uma figura estranha — como uma criança; porém, não tanto como uma criança, mas como um velho, visto por algum meio sobrenatural, que lhe dava a aparência de ter desaparecido de vista e estar reduzido às proporções de uma criança”.

Dickens foi repreendido por não permitir que seus personagens crescessem e mudassem; ele dificilmente conseguia fazer isso, pois via a vida como circular, em vez de evolutiva. Começo e fim se unem para comprimir o meio. A Sra. Skewton, por exemplo, usa um manto de viagem “bordado e trançado como o de um bebê velho”, e o avô da Pequena Nell ingenuamente se torna vítima de jogadores por ser uma “criança de cabelos grisalhos”. A emocionalmente adormecida Sally Brass em The Old Curiosity Shop “passou a vida em uma espécie de infância”; ao longo do caminho, ela consegue gerar uma filha ilegítima, que é igualmente atrofiada — “uma criança antiquada”, ela aparentemente esteve “trabalhando desde o berço”. Uma segunda infância talvez seja mais feliz do que a primeira, já que pelo menos terá um término definitivo.

Em Um Conto de Duas Cidades, Sydney Carton pergunta ao velho banqueiro Lorry se, na velhice, a infância parece distante. Lorry responde, comovente, que quanto mais se aproxima do fim, mais próximo se sente do começo: é “um daqueles gentis aplainamentos e preparativos do caminho”. O sentimento é recorrente em O Mistério de Edwin Drood, onde as lembranças carinhosas da “época da creche” em Cloisterham têm uma segunda volta quando aqueles que cresceram lá chegam às suas “horas da morte”.

Em um ensaio sobre suas frequentes visitas ao necrotério parisiense, Dickens fala da infância como um “período impressionável”. “A observação de uma criança inteligente”, diz ele, é notável por sua “intensidade e precisão”, e — certamente desnecessariamente — ele alerta “alguns que cuidam de crianças” contra levar seus pequenos protegidos em passeios para ver os cadáveres inchados pescados no Sena. Já é ruim o suficiente, acrescenta, mandar crianças para o escuro ou enclausurá-las sozinhas em um quarto como presas do “grande medo”; se você trata uma criança dessa maneira, “é melhor assassiná-la”.

Quando Wordsworth disse em O Prelúdio que “cresceu / Criado tanto pela beleza quanto pelo medo”, ele estava pensando em uma “impressionante disciplina do medo” muito mais branda do que o horror incapacitante experimentado por Pip no cemitério em Grandes Esperanças, quando o condenado Magwitch se ergue atrás das lápides, ou por Oliver Twist quando é levado para visitar Fagin na cela dos condenados. A disciplina de Wordsworth não se estende aos açoites administrados a David Copperfield por seu padrasto Murdstone; na pior das hipóteses, o medo de Wordsworth é sua sensação de reverência de que a natureza o repreende silenciosamente quando ele devasta uma árvore para se banquetear com sua colheita de avelãs.

O relato de Wordsworth sobre sua “época de semeadura” presta homenagem grata à terra verde como “a ama, / A guia, a guardiã do meu coração e alma / De todo o meu ser moral”. Aos seis anos de idade, Dickens tinha um equivalente amoral em sua ama, Mary Weller, que tinha apenas treze anos quando foi contratada para cuidar dele. Ele a homenageava como uma “barda” e pensava que ela devia ser descendente “daqueles terríveis e velhos Skalds”, os Skalds que recitavam poemas sobre heróis nórdicos.

À noite, como ele afirma em The Uncommercial Traveller, ela lhe contava histórias que eram “completamente impossíveis… mas nem por isso menos alarmantemente reais” — sagas sobre um assassino em série aventureiro, ou um construtor naval que faz um pacto diabólico e, como resultado, é forçado a navegar em um navio infestado de ratos, que roem as tábuas e o afundam, afogando todos os tripulantes. A natureza cuidou de Wordsworth “com uma espécie de mente maternal”, mas em vez de acalmar Dickens maternalmente, Mary o enviou para “os cantos escuros para os quais somos forçados a retornar, contra a nossa vontade”. Ele se referia aos cantos mais obscuros de sua mente: o que pode soar como uma punição também era uma iniciação literária.

Caneca vendida no Museu Dickens. Ela se refere a uma frase de Oliver Twist que ainda estava com fome e desejava comer mais. Claro que a comida lhe foi negada. Em resposta, ele recebeu risadas sarcásticas | Foto: Milton Ribeiro

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Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf, completa 100 anos hoje

Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf, completa 100 anos hoje

Temos o livro na Livraria Bamboletras, claro.

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Elaborando a Sra. Dalloway : como Virginia Woolf começou sua obra-prima

Por Mark Hussey, em 14 de maio de 2025 (na Literary Hub)

Virginia Woolf era desorganizada. Seus rascunhos remanescentes costumam estar manchados de cinza de cigarro ou de pegadas de cachorro. As grandes mesas de madeira que ela preferia em seus escritórios estavam cobertas de manuscritos, tinteiros, cinzeiros transbordando e os cadernos que ela mesma fazia, contornando cada página com um lápis azul grosso. Ela não escrevia à mesa, porém, sentava-se todas as manhãs em uma poltrona baixa, com uma tábua na qual colava um tinteiro equilibrada sobre os joelhos para apoiar o caderno no qual escrevia seus rascunhos. Ela acompanhava seu progresso, datando o trabalho do dia, às vezes somando quantas palavras havia escrito e anotando onde estava quando rascunhou um trecho específico.

À tarde, ela digitava na máquina de escrever o que havia escrito, revisando-o à mão e, em seguida, redigitando as páginas até que estivessem prontas para serem enviadas a um datilógrafo profissional e, em seguida, à gráfica. Ela também continuava revisando a fase de provas — uma vantagem de ser sua própria editora.

A vida de Leonard e Virginia Woolf tinha um ritmo definido pelo trabalho e pelas viagens entre suas casas em Londres e sua casa de campo. A Sra. Dalloway foi escrita em três lugares: Monk’s House, na vila de Rodmell, em Sussex; Hogarth House, na Paradise Road, em Richmond; e Tavistock Square, 52, em Bloomsbury (Londres). Anos antes de ela ou sua irmã encontrarem as casas em Sussex onde se estabeleceriam, Virginia imaginou para Vanessa um refúgio no campo com “uma pequena casa de campo entre as árvores, no fundo do jardim”.

Naquela casa de sonho, Virginia esperava ter um quarto com uma mesa, livros, um espelho e “um armário curioso, cheio de pequenas gavetas”, onde os filhos de sua irmã procurariam segredos. Woolf nunca teve um quarto na casa de sua irmã, mas no verão de 1921, ela ficou emocionada ao relatar que ela e Leonard estavam convertendo um galpão de ferramentas na Casa de Monk em um quarto de jardim. Teria grandes janelas através das quais ela poderia ver os prados de South Downs até o Monte Caburn.

Naquele quarto de jardim na Monk’s House, em agosto de 1922, Woolf anotou em seu diário alguns planos para o trabalho que desejava realizar naquele verão antes de retornar a Richmond no outono. Ela e Leonard voltaram para Londres de trem de Lewes em 5 de outubro. No dia seguinte, ela abriu uma nova página em um dos cadernos em que havia rascunhado seu terceiro romance, “O Quarto de Jacob” , para registrar algumas ideias sobre “um livro que talvez se chamasse ‘Em Casa’ ou ‘A Festa’. “O Quarto de Jacob” estava prestes a ser publicado, mas a mente de Woolf estava cheia de ideias para seu próximo romance. Ela pretendia que fosse um livro curto que terminasse com uma festa. O primeiro capítulo se basearia em uma história que ela acabara de escrever, “A Sra. Dalloway em Bond Street”. Isso, ela pensou, poderia ser seguido por outra história em que ela estava trabalhando, intitulada “O Primeiro-Ministro”.

Mas se os escritores modernistas nos ensinaram alguma coisa, é que nossa experiência do tempo raramente é linear, que sob a superfície de cada momento presente as correntes da memória correm profundamente. A própria Woolf escreveu que a vida “não é uma série de lâmpadas, dispostas simetricamente”, mas sim como “um halo luminoso… que nos envolve do início da consciência ao fim”. Portanto, embora aquele esboço em seu caderno represente Woolf começando a planejar seu próximo romance, reunindo ideias que vinham fermentando há algum tempo, não seria preciso vê-lo como “o” início de Mrs. Dalloway.

Podemos identificar muitas fontes para o mundo criado por Woolf em seu quarto romance, mas nenhuma inspiração original específica. Os personagens que povoam Londres em um dia de junho de 1923, dia em que Clarissa Dalloway dá uma festa e Septimus Warren Smith tira a própria vida, emergiram da imaginação da autora, moldada por suas memórias de crescer em Kensington, de viver a Primeira Guerra Mundial, de seus próprios colapsos mentais e até mesmo, como Clarissa diz no romance, de “pessoas com quem ela nunca havia falado, alguma mulher na rua, algum homem atrás de um balcão — até mesmo árvores ou celeiros”.

Na época em que a Sra. Dalloway começava a tomar forma, Virginia Woolf só recentemente começara a se sentir confiante como escritora, apesar de já praticar seu ofício por duas décadas. Quando Leonard leu o texto datilografado de O Quarto de Jacob em um dia de verão de 1922, ele disse a ela que era “uma obra de gênio”. Ela escreveu em seu diário que finalmente havia descoberto “como começar (aos 40) a dizer algo com minha própria voz”. Depois de “O Quarto de Jacob”, ela sentiu que poderia continuar como escritora sem precisar de elogios. Ela estava animada com o desafio de desenvolver o tipo de ficção experimental curta que vinha escrevendo desde 1917 na forma mais longa de um romance. “O Quarto de Jacob” mostrou a ela como ela poderia fazer isso.

Quando concebeu O Quarto de Jacob pela primeira vez , em 1920, Woolf era autora de dois romances mais ou menos convencionais (embora o aparente enredo de casamento do primeiro, “The Voyage Out”, seja descarrilado pela morte prematura de sua heroína), dezenas de ensaios e resenhas, e também cofundadora da Hogarth Press. Ela e Leonard lançaram sua editora com um panfleto contendo uma história de cada um deles, “A Marca na Parede”, de Virginia, e “Três Judeus”, de Leonard.

Ao começar a pensar na obra que se tornaria “O Quarto de Jacob”, Woolf também estava relendo seus dois primeiros romances, pois uma editora americana havia acabado de concordar em publicá-los nos Estados Unidos (ambos haviam sido publicados na Grã-Bretanha pela Duckworth, a empresa fundada por seu meio-irmão Gerald). Ela pediu a amigos que a avisassem, antes de enviar os livros para a América, se tivessem notado algum erro de digitação. Lytton Strachey a encantou ao dizer que, ao reler “The Voyage Out”, achou-o “extremamente bom”. Ele gostou particularmente da “sátira dos Dalloway” dela.

Clarissa Dalloway, a personagem mais famosa de Woolf, faz uma breve mas significativa aparição em “The Voyage Out”, uma figura glamorosa pegando carona com seu marido político, Richard, em um navio mercante com destino à América do Sul. Woolf disse a Vanessa Bell que Clarissa foi baseada em uma amiga de juventude, Kitty Maxse (nascida Lushington). Ela se lembrou em um livro de memórias de como a mesa de chá na casa alta de seus pais no número 22 do Hyde Park Gate havia sido “fertilizada por um fluxo arrebatador de beleza feminina” cujo “modelo de sagacidade, graça, charme e distinção era, sem dúvida, a adorável Kitty Lushington”. Kitty foi uma das que desaprovaram a mudança dos jovens irmãos Stephen para Bloomsbury em 1904, após a morte de seu pai, o eminente homem de letras do final da era vitoriana, Sir Leslie Stephen. Por meio de boatos, Woolf ouviu que Kitty não gostava de seu segundo romance, “Noite e Dia” — algo que Leonard ironicamente achou um grande elogio.

Diário de 6 de outubro de 1922:

Reflexões sobre o início de um livro que talvez se chamará “Em Casa” ou “A Festa”: Este será um livro curto, composto por seis ou sete capítulos, cada um completo separadamente, mas deve haver algum tipo de fusão. E todos devem convergir para a festa no final. Minha ideia é ter alguns personagens muito [ ], como a Sra. Dalloway em grande relevo: depois, ter interlúdios de pensamento, reflexão ou pequenas digressões (que devem estar relacionadas, logicamente, ao resto), todos compactos, mas não espasmódicos.

Os capítulos podem ser,

1. Sra . Dalloway na Bond Street.
2. O Primeiro Ministro.
3. Antepassados.
4. Um diálogo.
5. As velhinhas.
6. Casa de campo?
7. Flores cortadas.
8. A festa.

Um, mais ou menos, para ser feito em um mês: mas este plano é permitir algumas páginas bem curtas : intervalos, não capítulos inteiros. Deve ser divertido —

E é.

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Anna Kariênina x Guerra e Paz

É uma discussão bem comum. Li ambos e, se Guerra e Paz é um oceano (imenso, cheio de correntes e vida), Anna Kariênina é um abismo (profundo, íntimo e vertiginoso). Eu escolho o abismo e não estou sozinho: tem muita gente boa que leu GP e se atira no abismo. Em AK, Tolstói tem uma precisão que Guerra e Paz, pela própria natureza épica, não exigia. Dezenas de personagens… Prefiro até o mais focado A Cartuxa de Parma. Sabiam que Tolstói podia dizer de cor a cena da batalha napoleônica que Stendhal descreveu na Cartuxa com o Fabrizio del Dongo totalmente perdido? No AK, cada capítulo avança como um movimento de sinfonia — nada está fora do lugar. Tb em AK, Tolstói constrói personagens de enorme profundidade. A desintegração emocional de Anna, sua obsessão, seus ciúmes e desespero são retratados com uma crueza que dói. Mas é claro que compreendo quem prefere GP. É uma questão de gosto. Não sou amante dos painéis, prefiro os microscópios.

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