Há muitos pontos de contato entre James Joyce e João Guimarães Rosa. Apesar de terem surgido em mundos distantes — a Dublin urbana e o sertão mineiro –, ambos reinventaram a língua literária para tentar capturar algo que a linguagem comum não alcançava.
Alguns traços comuns são particularmente fortes:
1. A língua como invenção
Nenhum dos dois se contentava com o idioma “normal”. Joyce distorce o inglês, mistura registros, cria trocadilhos, neologismos e ritmos musicais — sobretudo em Ulysses e radicalmente em Finnegans Wake.
Rosa faz algo semelhante com o português: funde fala sertaneja, arcaísmos, termos eruditos, invenções próprias e ecos de várias línguas. Em Grande Sertão: Veredas, o idioma parece nascer diante do leitor.
Ambos tratam a língua não como instrumento, mas como matéria viva.
2. A tentativa de dizer o indizível
Os dois perseguem experiências difíceis de formular:
— o fluxo da consciência,
— o mistério do mal,
— a memória,
— o tempo,
— a espiritualidade,
— a identidade.
Joyce mergulha na interioridade urbana moderna; Rosa, numa metafísica sertaneja.
3. Musicalidade extrema
Os textos dos dois pedem leitura em voz alta.
Joyce compõe frases quase como partituras. Rosa também trabalha com:
— aliterações,
— ritmos orais,
— repetições,
— sonoridades hipnóticas.
Há páginas de Rosa que lembram encantamentos; páginas de Joyce que parecem peças vocais.
4. Universalizar o local
Isso é fascinante nos dois.
Joyce praticamente nunca saiu literariamente de Dublin. Rosa quase nunca saiu do sertão. Mas ambos transformaram um espaço regional em universo humano total.
Dublin, em Joyce, vira um microcosmo da civilização ocidental. O sertão rosiano vira uma paisagem metafísica do homem.
A famosa frase de Joyce sobre Dublin — “se a cidade desaparecesse, poderia ser reconstruída por meus livros” — combina muito com GR.
5. Erudição escondida sob oralidade
Os dois parecem espontâneos, mas são profundamente arquitetados.
Joyce usa:
Homero, Tomás de Aquino, Shakespeare, liturgia católica, filosofia e todo um mundo.
Rosa mobiliza:
Línguas antigas, mitologia, Bíblia, filosofia, tradição oral, filologia e todo um mundo.
Em ambos, o popular e o erudito convivem o tempo inteiro.
6. O herói errante
Bloom e Riobaldo são viajantes interiores.
Leopold Bloom atravessa um dia comum transformado em epopeia. Riobaldo atravessa o sertão tentando entender o demônio, o amor e o destino. Os dois romances são jornadas tanto geográficas quanto mentais.
7. A ambição de reinventar o romance
Nem Joyce nem Rosa queriam apenas contar histórias. Queriam ampliar as possibilidades da literatura.
Depois deles, escrever do mesmo modo anterior parece… insuficiente.
Por isso ambos são vistos não apenas como grandes escritores nacionais, mas como criadores de linguagem comparáveis aos grandes renovadores do século XX.
Há inclusive leitores que sentem que Rosa é “o Joyce do português” — embora isso simplifique demais os dois. Rosa tem uma dimensão mística e oral muito mais intensa; Joyce é mais urbano, irônico e estruturalmente experimental.
Mas os dois compartilham uma convicção rara: a de que a realidade só pode ser alcançada quando a própria língua entra em estado de aventura.